Do micro ao macrodispositivo documentário: compartilhando saberes e memória do mundo1
Viviane COUZINET2
1 COUZINET, Viviane. Du micro au macrodispositif documentaire : partage des savoirs et mémoire du monde. In: Aït Ali Cédric, Fabre Isabelle, Le dispositif en questions : le prisme des sciences de l’éducation et de la formation et des sciences de l’information et de la communication. Détours par le macro-dispositif. Toulouse : Cépadues éditions, 2019. ch. 6, p. 131-153.
2 Professora titular de Ciências da informação e da comunicação. Universidade de Toulouse, Laboratório de Estudos e Pesquisa Aplicada em Ciências Sociais, LERASS EA 827 Universidade de Toulouse, Laboratório de Estudos e Pesquisa Aplicada em Ciências Sociais, LERASS EA 827; Equipe de pesquisa Mediações em informação- comunicação especializada (MICS) 115 B, route de Narbonne, 31077 Toulouse – França. viviane.couzinet@iut-tlse3.fr
3 Professora associada da Escola de Ciência da Informação da UFMG.Doutora e mestre em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo. Graduada em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo. ortega@eci.ufmg.br
4 Professor adjunto da Universidade de Brasília (UnB). Doutor (PhD) em Informática Documentária pela Universidade Claude Bernard Lyon I - França. Master em Ciências da Informação e da Comunicação pela Université Lumière Lyon II – França. Master em Informática Documentária pela Universidade Claude Bernard Lyon I / École Nationale Supérieure de Sciences de l'Information et des Bibliothèques. mdebrito@unb.br
INTRODUÇÃO
Em ciência da informação e da comunicação, a noção de dispositivo foi analisada do ponto de vista de seu papel mediador através de objetos concretos do contexto global das organizações. Uma síntese desses trabalhos propôs uma tipologia em três categorias. Uma, estaria focada nos dispositivos como elementos relacionados em uma lógica de análise dos agenciamentos; a outra, que agrega mediação à anterior, analisaria os dispositivos sociossignificantes em abordagens sociotécnicas ou semiotécnicas em uma lógica analítica; a terceira, incluindo uma ideologia, consideraria um agenciamento político em uma lógica crítica (APPEL; HELLER, 2010).
Num contexto mais restrito de serviços de informação ou centros de documentação de organizações culturais (RÉGIMBEAU, 2009), de formação (FRAYSSE, 2009; FABRE; GARDIÉS, 2009) de
pesquisa (COUZINET; SENIÉ-DEMEURISSE, 2009) ficou posto que o conceito de "dispositivo documentário" possuía uma dimensão técnica, vinculada aos diferentes tratamentos documentários, uma dimensão espacial, implantada especialmente em locais de aprendizagem (FABRE, 2012), uma dimensão social em sua concepção e implementação assim como no desenvolvimento da experiência e do trabalho colaborativo que o induz. O dispositivo documentário é, portanto, analisado para as questões de compartilhamento de saberes e sua circulação em diversos contextos contemporâneos. Lógica analítica e lógica política são articuladas aqui para precisar um conceito que atravessa a informação-comunicação e cujo sentido pode ser
complementado pelas investigações realizadas em informação- documentação5.
Além disso, a análise de objetos documentários levou a considerar o documento intencional como dispositivo de resposta aos desafios de disponibilização dos avanços produzidos pela ciência e pela técnica em uma estratégia de posicionamento do espaço ocupado, ou que desejariam ocupar, os grupos sociais por sua atividade profissional. Isso foi evidenciado através do estudo de um conjunto de dispositivos mediadores - periódicos, edições, eventos científicos - para o grupo de documentalistas e pesquisadores franceses em ciência da informação (COUZINET, 2000). Outra pesquisa se concentra sobre o papel desses dispositivos na construção e destaque do nível de expertise dos documentalistas (COUZINET, 2002).
No entanto, uma nova abordagem dos documentos intencionais, que se colocou como objetivo de contribuir para esclarecer a necessidade de desenvolver trabalhos sobre os objetos que poderiam constituir o corpus de estudo da documentologia, como ciência do documento, preconizou fortemente a consideração de uma dimensão temporal (COUZINET, 2014; 2015). Assim, a análise de um documento passaria pela análise de seus precursores filogênicos, sendo a abordagem decididamente evolucionista. No entanto, estes são apenas dispositivos que se podem qualificar em vista de seu tamanho como um microdispositivo - revista, cadastro de registros públicos de propriedades, herbário.
5 Em ciências da informação e da comunicação, distingue-se a informação- documentação, que faz parte da Information Science ou Library and Information Science como internacionalmente conhecida, da informação-mídia que se insere em Media Studies.
Em contraste, o catálogo mundial de saberes, projetado e amplamente implementado por Paul Otlet no início do século XX, é frequentemente considerado como o ancestral da Internet. A reivindicação à universalidade supõe uma harmonização das práticas, a fim de permitir a colaboração, por um lado, na elaboração do catálogo e, por outro, sua compreensão por todos. O acesso universal ao saber suporia, então, definir o quadro geral fundando a atividade documentária. Finalmente, como acontece com os microdispositivos supracitados, podemos considerar uma análise filogênica do que seria então um macrodispositivo, pelo seu tamanho e ambição, como sugeriria sua inclusão em outro dispositivo documentário mundial, o Registro da Memória do Mundo da UNESCO.
Esta pesquisa, que faz parte de um conjunto de trabalhos desenvolvidos em uma equipe que trabalha na organização dos conhecimentos e das mediações6, organiza-se em torno da definição do conceito de dispositivo documentário e analisa as possíveis extensões espaciais e temporais e as imbricações eventuais que o constituem. Ela propõe um retorno aos trabalhos de Paul Otlet e sua reivindicação à universalidade, em seguida discute sua posição de precursor e de inscrição no Registro da Memória do Mundo.
OS DISPOSITIVOS EM SIC7
os dispositivos infocomunicacionais
6 Equipe Mediações em Informação e Comunicação Especializada (MICS), Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ciências Sociais (LERASS)
7 Nota dos tradutores: CIC-Ciências da Informação e Comunicação refere-se à disciplina - citada pela autora no tópico 2 - SIC-Sciences de l’Information et de la Communication.
Se partirmos do sentido figurado da palavra dispositivo, como lembra Alain Rey, ela cobre um sentido derivado de "agenciamento", a partir de 1860, da "maneira como os órgãos de um dispositivo são dispostos" (REY, 1995)8. Foram feitas adições complementares a partir da consideração do projeto na origem desse arranjo de elementos. "A intenção de articular os meios em função de uma finalidade" (MEUNIER, 1999) posiciona-o em uma situação. O dispositivo está, portanto, localizado e as variantes são observáveis dependendo dessas situações. Pode-se também acrescentar que ele raramente é isolado, pelo contrário, faz parte de um conjunto de objetos "da mesma natureza que o precedem e o seguem" (METZGER, 2002) cada objeto podendo ser considerado um dispositivo. Para Yves Jeanneret ele designa "o conjunto dos substratos materiais de comunicação" e carrega consigo a ideia de "que a ferramenta de comunicação não é neutra" (JEANNERET, 2005).
Analisar um dispositivo é, então, analisar os elos que o constituem, as funções que são distribuídas, as restrições que são exercidas, os processos de influências de uns e de outros sobre o conjunto.
Conteúdo e forma são duas dimensões principais dos objetos infocomunicacionais. A informação é "o conteúdo da comunicação a partir do momento em que os atores da comunicação reconhecem um sentido, atribuindo-lhe uma forma mental inteligível" (MEYRIAT, 1983). Informação e conhecimentos estão intimamente ligados à medida em que a primeira pode ter sido prevista para trazer os segundos, mas isso só é possível se ela for reconhecida como tal e ativada. Um dispositivo infocomunicacional é, portanto, um
8 REY, Alain, 1995. Dispositivo. Dictionnaire historique de la langue française, p. 613.
"dispositivo cognitivo portador de informações adormecidas transformáveis em conhecimento, ou seja, capazes de contribuir para a modificação de uma ação" (COUZINET, 2009).
Os meios e os mecanismos que garantem o funcionamento dos dispositivos são tributários do contexto em que se "organizam" e se "tornam disponíveis" (BERTEN, 1999). Nesse contexto, a época é um dado importante porque nos permite perceber as dimensões sociais e humanas que contribuem para o estabelecimento dos dispositivos cuja "função maior é responder a uma urgência" (FOUCAULT, 1977). Como processo social, o processo de comunicação está no centro do dispositivo. Este último imaginado e concebido pelos homens "dá forma às relações de comunicação e isso de acordo com os diferentes aspectos sob os quais eles podem ser considerados" (MEUNIER, 1999). Estudar as motivações, as redes de relacionamentos criadas para viabilizar seu surgimento, o quadro de ação e as características que o estruturam contribuem para a compreensão do dispositivo.
Nesse quadro conceitual as pesquisas para a convergência da informação e da comunicação apoiam-se em objetos e áreas que dizem respeito à informação-documentação. Elas precisam duas noções complementares "dispositivo documentário primário" e "dispositivo documentário secundário". O documento no coração desses dispositivos é considerado aqui como a menor unidade infocomunicacional.
Documentos: dispositivo primário
"Documento" refere-se a "um objeto concreto composto de um suporte e portador de informações úteis, mas este último sozinho
não é um documento" (JEANNERET, 2000). Essa noção tem sido estudada na CIC pelos fundadores da disciplina. Comprometido a estabelecer a base teórica da ciência sobre a qual se apoiaria a atividade profissional, Jean Meyriat esclareceu, já em 1978, o que poderia ser qualificado como um documento primário e o que poderia ser um documento secundário.
A expressão "documento primário" refere-se ao que é chamado de documento na linguagem cotidiana, mas não se limita ao escrito. Jean Meyriat trabalhou em particular nesse conceito e estabeleceu a distinção entre "documento por intenção" e "documento por atribuição" (MEYRIAT, 1981)9. O documento por intenção é mais frequentemente escrito ou iconográfico. Qualquer que seja sua função, por exemplo, concluir uma troca, transmitir um saber, estabelecer os termos de um contrato, testemunhar uma situação... ele é útil, ele fixa a informação, permite lê-la quantas vezes for necessário. No entanto, para que a informação seja possível, o "leitor" deve estar interessado em seu conteúdo - a informação deve ser ativada - "a vontade do transmissor não é suficiente" e a significação deve ser compreendida pelo receptor.
Então um documento é sempre potencial. Quanto ao documento por atribuição, é um objeto não previsto para ser documento, mas que pode se tornar um se for interrogado com fins de informação. Jean Meyriat toma o exemplo de sua bicicleta que pode informar sobre "o tamanho médio dos franceses" ou "as técnicas utilizadas para sua construção mecânica" ou “sobre as repercussões da crise do petróleo” (MEYRIAT, 1981). Se os
9Nota dos tradutores: Esse artigo de Meyriat foi traduzido para a língua portuguesa e publicado: SILVA, Camila Mariana Ap. da; BRITO, Marcílio de; ORTEGA, Cristina Dotta (trads). Documento, documentação, documentologia. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 21, n. 3, p. 240-253, jul./set. 2016.
historiadores consideram "agora como um documento tudo o que foi legado pelo passado" (FRAYSSE, 2013), em CIC tudo que responda a uma questão pode ser considerado um documento.
Progressivamente, essa noção foi enriquecida pela introdução de novas dimensões. A necessidade de se questionar sobre os acontecimentos que precedem a produção do documento conduz a observar o trabalho dos historiadores (COUZINET, 2004), dos arqueólogos (FRAYSSE, 2011; 2013) e dos geógrafos (JOUBERT, 2015). Trata-se de considerar esse objeto informacional como uma construção social portadora de um projeto, sendo o mais evidente o de informar, e que podemos considerar como tendo uma certa objetividade, mas que está associada a outra com questões menos perceptíveis a priori. Portanto, o documento é o objeto que assegura a mediação entre a informação que seu produtor quer divulgar e o desejo de informar-se do receptor; para fazê-lo os atores utilizam técnicas de elaboração em contextos definidos.
Trata-se, portanto, de um dispositivo de circulação de informações, mas também de um mecanismo de circulação de ideias visando influenciar comportamentos. Portanto, não é neutro. Por exemplo, uma revista e um artigo para os atores que eles mobilizam, o projeto editorial que carregam, as trocas entre autores, revisores e editores que eles supõem, o trabalho editorial que eles exigem, seu registro em um país ou um conjunto de países, uma língua, e sua indexação ou não em um banco de dados também fazem parte de uma disciplina ou corrente que eles desejam desenvolver. Além da circulação das pesquisas, e através delas a avaliação dos pesquisadores, as revistas participam da definição de uma relação espacial (COUZINET, 2015a). Artigos e revistas são dispositivos documentários reunidos em um "conjunto de objetos de
mesma natureza", para usar a expressão de Jean-Paul Metzger (2002). O artigo é um microdispositivo documentário primário que constitui outro dispositivo documentário primário mais amplo: a revista.
A análise de objetos documentários intencionais levou ao desenvolvimento de uma nova abordagem teórica baseada na dimensão histórica dos objetos. As tecnologias digitais, ao ampliar o acesso à informação e propor formas editoriais que parecem simplificadas, apagam o passado dos documentos. Pesquisas realizadas sobre objetos diferentes, tais como os documentos escritos e iconográficos – os documentos fiscais de propriedade imobiliária - coleções de objetos coletados para o estudo de plantas
- herbários - propuseram uma abordagem evolucionista do documento. A partir do estudo das características que as estruturam e seu contexto de elaboração, elas postulam a necessidade de uma filogenia documentária e mostram que o estudo dos precursores filogênicos é possível (COUZINET, 2015b). Nesta fase, apenas documentos, portanto o que nós propusemos considerar como microdispositivo, foram estudados. Tal abordagem seria possível para o que qualificamos como macrodispositivo?
Centros de documentação e bibliotecas: dispositivos secundários
O papel fundamental que ocupa a documentação como conjunto de técnicas de mediação entre coleções documentárias10 e
10 Nota dos tradutores: O termo ‘fonds documentaire’, como usado pela autora, remete a ‘fundo’ que, no Brasil, é adotado em especial em Arquivologia, motivo pelo qual optamos por ‘coleção’.
Fonds: Terme générique désignant l'ensemble des documents gérés et conservés, le plus fréquemment par un organisme documentaire, quels que
usuários tem sido extensamente estudado. Tem-se como objetivo divulgar a existência de informações úteis para fins profissionais ou culturais, para viabilizar sua circulação e facilitar sua apropriação. Muitos guias para a organização de bibliotecas foram desenvolvidos, o mais antigo na França é o preparado por Gabriel Naudé11, Conselhos para formar uma biblioteca (1627)
As bibliotecas de leitura pública12 13 têm a missão de preservar a produção intelectual e, como tal, aquelas que são classificadas14, recebem o depósito legal. A nacionalização dos bens da nobreza emigrante e do clero após a Revolução Francesa de 1789 exigiu o desenvolvimento de regras para a descrição de seus livros (MALCLÈS, 1977) a fim de elaborar o catálogo. Foi necessário inventariar tanto para constituir a propriedade do Estado quanto para divulgar o que agora poderia estar aberto à consulta de todos. Bibliotecas foram criadas para organizar os depósitos. Se os aspectos técnicos desses dispositivos documentários melhoraram ao longo dos séculos, o projeto que os sustenta, ao compartilhar a cultura, apoiam-se na vontade de combater o iletrismo e, ao promover a leitura, combatem o obscurantismo.
11 Gabriel Naudé foi bibliotecário de Mazarin (1643)
12 Nota da autora: Bibliotecas de leitura pública são abertas a todos os públicos. Elas são organizadas em rede, financiadas pelos municípios e pelo Estado e subordinadas à Diretoria do Livro e da Leitura, do Ministério da Cultura francês. Elas diferem das bibliotecas universitárias que são voltadas para estudantes e professores- pesquisadores.
13 Nota dos tradutores: Professores-pesquisadores (enseignants-chercheurs, no original) são semelhantes, no Brasil, aos professores universitários das universidades públicas. Fonte: CACALY, Serge. Dictionnaire encyclopédique de l’information et de la documentation. Paris: Nathan, 1997. p. 219-220: enseignants-chercheurs
14 "Biblioteca classificada" designa as bibliotecas que têm um status especial. Elas dispõem de um grande fundo antigo e têm direito a receber o depósito legal.
A atividade fundadora da documentação na França é o tratamento de documentos primários. Ela se materializa através dos chamados documentos secundários (MEYRIAT, 1978) que em sua forma editorial conduzem a revistas de resumos amplamente utilizadas pelos pesquisadores, sendo um dos mais conhecidos o Chemical abstracts, ou a repertórios bibliográficos dos quais Louise- Noëlle Malclès elaborou um histórico15. Esses repertórios e revistas secundários são os ancestrais das bases de dados documentárias destinadas a disseminar trabalhos científicos e técnicos validados.
Eles se assemelham aos catálogos de bibliotecas e por vezes os substituem. Esses dispositivos documentários secundários são ferramentas de divulgação e acesso à informação. Assim, o dispositivo documentário primário mencionado acima "artigo de revista" é inserido em um dispositivo documentário secundário.
Foi proposto levar em conta outra dimensão do dispositivo documentário, aquela do espaço que a circunscreve e organiza. Isabelle Fabre demonstrou, assim, ao envolver a noção de uma abordagem sensível, que a busca errática podia ser tão rica para o usuário quanto a busca de informações em locais formatados. O espaço então se torna um componente do sistema documentário (Fabre, 2012). Além das dimensões técnica e espacial, mostrou-se também que ele possui uma dimensão social em sua concepção e implementação. Ele está baseado no trabalho colaborativo dos atores (Fabre, Gardiès, 2009). Exige, portanto, interações que resultem do compartilhamento de experiência. Ao fazê-lo, esta última se desenvolve e multiplica a capacidade de resolver os problemas encontrados.
15 Sua primeira síntese para a Presses Universitaires de France na coleção Que sais- je? aparece em 1956.
No setor de ensino médio, a criação de um status de professor-documentalista baseia-se em uma rede de centros documentários específicos (FRAYSSE, 2009). Se diferenças são perceptíveis entre o ensino médio da Educação Nacional e o ensino médio da Educação Agropecuária, onde a documentação é uma disciplina por si só, o projeto é otimizar e facilitar as abordagens informacionais (MEYRIAT, 1985) e, desde o collège16 à universidade, desenvolver a autonomia e permitir o sucesso. Aqui o dispositivo secundário participa da formação.
Na pesquisa científica, uma análise realizada sobre o Instituto de Informações Científicas e Técnicas (INIST), unidade de serviços do CNRS responsável por identificar e disseminar a produção de pesquisadores franceses e divulgar a de pesquisadores estrangeiros, a comunicação deficiente entre a instituição e os pesquisadores não permite cumprir integralmente a missão inicial (COUZINET; SENIÉ-DEMEURISSE, 2009). Orientações para a indústria, o custo da oferta e serviços documentários associados retardam o desenvolvimento do dispositivo como um conjunto de meios à disposição da pesquisa científica. A comercialização é um dos elementos do dispositivo secundário.
Através desses poucos casos, a distinção descritiva, mas também analítica, entre dispositivo documentário primário e dispositivo documentário secundário, revelada pelas características que os estruturam, podem se aplicar tanto aos produtos da atividade quanto aos locais em que ocorrem. No entanto, há inclusões mais ou menos importantes de um no outro, como apontamos para as revistas e seus artigos. Há também fronteiras menos claras do que parecem, na medida em que, se uma biblioteca desenvolve o
16 Nota dos tradutores: Instituição de ensino que recebe alunos de 11 a 15 anos.
catálogo (dispositivo secundário) de suas coleções (dispositivo primário), ela também dispõe essas coleções, tal como os repositórios de arquivos abertos que fornecem uma ficha analítico- descritiva dos arquivos que existem no depósito. Além disso, um número da revista inclui artigos primários, bem como recensões de obras que são documentos secundários. A forma e o conteúdo dos dispositivos referem-se à extensão de seus territórios em termos geográficos, áreas e períodos cobertos, línguas e tipologias dos documentos que os compõem. Assim, passa-se do dispositivo considerado a menor unidade de informação para um dispositivo mais amplo cujos limites devem ser identificados. O qualificativo "universal" adjacente ao trabalho de Paul Otlet convida a questioná- los.
DO MICRO AO MACRODISPOSITIVO: MÉTODO DE OBSERVAÇÃO
Otlet e a documentação
Paul Otlet (1868-1944) é um advogado belga, doutor em direito, que através de seu trabalho a favor do compartilhamento de saberes e seu Tratado de Documentação publicado em 1934 é considerado o pai fundador desta última. Associado em seu projeto com outro jurista belga Henri La Fontaine (1854-1943), responsável pela seção bibliográfica da Sociedade de Estudos Sociais e Políticos, ele estabeleceu relações com muitos intelectuais e estudiosos estrangeiros que compartilhavam suas ideias, como observa Françoise Levie (2006). Por exemplo, com o príncipe Roland Bonaparte (1858-1924), um botânico e geógrafo francês,
membro da Academia de Ciências de Paris e diretor do "maior herbário privado do mundo", ou Jean Linden, botânico luxemburguês, explorador e grande especialista em orquídeas (LEVIE, 2006). Ele também manteve vínculos com diretores de bibliotecas nacionais ou pensadores da biblioteconomia.
Paul Otlet teorizou suas ideias desenhando as linhas de pesquisa científica sobre o livro e sobre o documento, que ele chama de bibliologia ou documentologia, definiu métodos de investigação baseados em estatísticas, bibliometria, técnicas de organização e gestão de documentos em bibliotecas. Reunidos neste Tratado com subtítulo de o livro sobre o livro, teoria e prática, as ideias desenvolvidas representam noções fundamentais para os pesquisadores e profissionais da informação. Elas já incorporam uma dimensão comunicacional. Para a década de 1930, ele forneceu uma visão ampla do documento e incitou a uma evolução dos suportes ainda desconhecida de seus contemporâneos. Ele é visto ainda hoje como um visionário da informação, qualificativo muitas vezes atribuído a ele, mas também visionário da circulação da informação visto que ele fez campanha pelos intercâmbios globalizados.
André Cannone, Diretor do Centro de Leitura Pública da Comunidade Francesa de Liège (CLPCF)17 a partir de 1983, até sua morte em 1990, foi um defensor da educação pela leitura e pela escrita. Interessado pela biblioteconomia, militante contra o analfabetismo e apaixonado pela música, é um dos principais responsáveis da conservação da obra de Paul Otlet (BLANQUET, 2011). Ele reimprimiu e prefaciou o Tratado de Documentação em 1989. Foi sem dúvida esta reedição e o trabalho realizado pela
17 Nota dos tradutores: Liége, cidade da Bélgica.
Associação Internacional de Bibliologia, dirigida por Robert Estivals, professor da Universidade de Bordeaux 3, que tornaram conhecidos, na França, os trabalhos de Otlet sobre a documentação, em uma disciplina então emergente, as ciências da informação e da comunicação.
Da teoria à prática: elementos do dispositivo
O desenvolvimento da reflexão teórica de Otlet é acompanhada por muitas trocas, como apontamos. A ação em favor da documentação é sustentada pela ideia de que a troca universal de saberes pode facilitar a compreensão entre os seres humanos. Otlet e La Fontaine militaram pela paz mundial, este último também ganhando o Prêmio Nobel em 1913. Juntos, eles trabalham para produzir ferramentas que permitem concretizar essa ideia de compartilhamento.
O Repertório Bibliográfico Universal (RBU)18 é um dispositivo de coleta de informações, sob a forma de fichas – substitutos de documentos – que inventaria a produção intelectual mundial. Criado em 1895 no Instituto Internacional de Bibliografia (IIB), também criado por Paul Otlet, entre 1895 e 1930 continha quase 18 milhões de fichas19. Esta ferramenta permite localizar publicações de todos os países, qualquer que seja a data de edição e o assunto. Consiste em dois arquivos principais, o repertório onomástico e o repertório temático, e é complementado por outros, o dos títulos de periódicos, dos títulos de livros e do diretório administrativo que constitui os arquivos do IIB.
18 Nota dos tradutores: Répertoire bibliographique universel (RBU), no original.
19 Disponível em: archives.mundaneum.org
Para dar ao RBU a melhor eficácia possível, com os meios técnicos do momento, foi necessário produzir uma linguagem para representar os conteúdos de forma mais reduzida do que a linguagem natural e permitir a recuperação de documentos. É com este objetivo que nasce a Classificação Decimal Universal (CDU). É uma linguagem cuja estrutura se organiza na forma de um esquema hierárquico cobrindo todos os saberes. Ela é destinada para a descrição e indexação dos conteúdos dos documentos. Partindo da Classificação Decimal estabelecida por Melvil Dewey (1876) nos Estados Unidos, a CDU apresenta-se como uma ferramenta de pesquisa de informações, na qual as relações entre os conteúdos são possíveis. Suas atualizações são garantidas pelo Universal Decimal Classification Consortium20, cuja sede fica em Haia (Países Baixos), onde ele substituiu a Federação Internacional de Documentação (FID), que coordenou a CDU de 1931 a 199221.
Essas duas ferramentas são os pilares que sustentam o trabalho de Otlet. Some-se a isso o Repertório Universal de Documentação, uma enciclopédia permanente composta em três partes, dossiês temáticos, dossiês biográficos e documentos geográficos.
O espaço físico para acomodação, trabalho e visibilidade das ideias concretiza-se na Cidade Mundial ou Mundaneum, um espaço nômade dependendo do apoio financeiro obtido e da demanda de espaço necessário. A coleção é composta por livros e jornais, mas também cartazes, documentos de formato pequeno, placas de
20 Disponível em: www.udcc.org Acesso em: 06 ago. 2016.
21 A edição francesa mais recente é a Classificação Decimal Universal. Edição média internacional em 3 volumes. Liège: Edições du C.E.F.A.L., 2004.
vidro, e cartões postais. Se a construção desta Cidade22 dedicada ao trabalho intelectual, composta por bibliotecas, museus e uma universidade, considerada a partir dos planos e modelos feitos por Le Corbusier não foi possível, o nome se refere a um dispositivo global de ferramentas, coleções e realizações.
Métodos de observação
O interesse em um dispositivo documentário convida a analisar tanto o projeto em que se baseia quanto as ferramentas que ele usa ou projeta para cumprir a missão que se estabeleceu. Tratando-se de contribuir para o compartilhamento de saberes, a CDU é um material analisável em seu conteúdo e em sua estrutura. Esta última é esquematizada nos escritos preparatórios sob a forma de um círculo que abrange as áreas de conhecimento representadas por números. Tornam-se visíveis áreas de subdivisões que formam um leque. A partir dessas subdivisões, abrem-se outros leques e assim visualiza-se a organização hierárquica das áreas do conhecimento.
Também é possível analisar a cobertura dos saberes e estabelecer comparações com outras línguas, notadamente com a Classificação Decimal de Melvil Dewey, da qual nasce a CDU. As questões que se apresentam são as seguintes: qual é a vantagem da CDU ? Como se manifesta a reivindicação da universalidade?
Surge então outra pergunta. Que produções concretas permite a CDU? Isso leva a analisar uma outra ferramenta do dispositivo, o RBU.
22 Nota dos tradutores: Os planos de Otlet, em suas últimas versões, evoluíram para uma Cidade, todavia a concepção de Cité na literatura, e comumente usada em francês, é também aquela de um bairro.
Além dos itens disponíveis no site do Mundaneum, uma visita ao museu que lhe é dedicado na cidade de Mons e as entrevistas com os curadores forneceram algumas respostas. Em particular, a possibilidade de consultar o catálogo e as fichas que o compõem esclareceram as modalidades técnicas de produção.
Por fim, sempre com a preocupação de esclarecer a extensão do dispositivo e de sua implementação, o uso das fotografias e relatos da atividade facilitaram o dimensionamento do investimento humano necessário. Além do site do Mundaneum, a visita e as entrevistas, biografias bem documentadas e ilustradas produzidas por Françoise Levie (2006) e por Stephanie Manfroid e Jacques Gillen (2016) foram utilizadas.
COMPARTILHAMENTO SABERES E MEMÓRIA DO MUNDO
Projetos e decorrências
O projeto central de Paul Otlet é "tornar o mundo melhor fomentando a compreensão universal através da documentação e da disseminação de conhecimentos" (KITUMU-MAYIMONA, 2010). Este projeto humanista exige disponibilizar para todos ferramentas que sejam capazes de realizá-lo. Como se trata de saberes registrados em documentos, é necessário construir a coleção. Um vasto dispositivo primário de documentos armazenados é formado. Sua organização deve torná-lo acessível sem barreiras de língua ou civilização e com tratamento igual entre os povos. De fato, se Otlet é conhecido por suas ideias pacifistas, ele é menos conhecido por sua ação contra o racismo. Seus engajamentos remontam aos vinte anos, como revelado pelo estudo de seu relacionamento com Paul Panda (1888-1930), um intelectual do Congo-belga, militante da
causa negra (TSHITUNGU KONGOLO, 2011). A cobertura dos assuntos deve, portanto, ser muito extensa. Além disso, sendo impossível o armazenamento de toda a produção intelectual do mundo, é preciso produzir seus substitutos. A CDU é o reflexo de suas preocupações.
A classificação de Dewey, da qual ela se origina, é essencialmente uma ferramenta para gerenciar o estoque de livros. Na CDU, a cobertura temática enciclopédica de saberes baseia-se em uma organização em 10 classes e 10 subclasses, subdivididas várias vezes, todas representadas por notações numéricas. Isso permite uma precisão na indexação que mostra que não se trata mais de gerenciar o inventário de documentos, mas de permitir um bom conhecimento de seu conteúdo. Combinação de notações numéricas - os assuntos e os pontos de vista sob os quais são abordados- e de símbolos -as relações23 - apresentadas em uma ordem pré-estabelecida, a transcrição de conteúdos assim realizada torna-se uma linguagem universal que possibilita o intercâmbio internacional24 . Composta por 70.000 subdivisões, traduzidas em
50 idiomas, está presente em 130 países25. Um estudo recente (2004-2006) mostra que ela ainda é usada, principalmente na Europa, mas que seu uso parece diminuir (SLAVIC, 2008).
No entanto, a universalidade tem seus limites e críticas foram feitas, especialmente técnicas, mas que têm consequências sobre os conteúdos indexados. A lentidão das atualizações, por exemplo, requer, para representar uma inovação, uma primeira combinação
23 Por exemplo, a relação de coordenação entre os assuntos é representada pelo sinal
+
24 O site www.udcc.org oferece vários exemplos. O mais simples já dá uma ideia da expressão do conteúdo: O Manual de História do Reino Unido no século XX seria representado por 94 (o assunto: história) (410) (o lugar: Reino Unido) "19" (tempo: século XX) (075) (forma: manual), ou seja, 94(410)"19"(075).
25 Disponível em: www.udcc.org Acesso em: 06 ago. 2016.
de notações que torna significativamente complexo o intercâmbio. A harmonização é particularmente difícil porque as escolhas das notações e sua combinação são marcadas pela perspectiva dos indexadores, então, a atualização finalmente feita, mantendo o projeto de intercâmbio, requer uma revisão da primeira combinação. Como parte de um modelo americano, desenvolvido em um contexto ocidental, ela carrega, mesmo assim, a marca de uma civilização e de um olhar social, político, econômico e cultural. Sua tradução para muitos idiomas não impede o surgimento das classificações nacionais. Um exemplo é a classificação chinesa que, em 1975, dedicou toda uma classe ao marxismo-leninismo e ao pensamento de Mao. Uma pesquisa realizada em 2005 mostrou que as linguagens classificatórias são portadoras do projeto de comunicação de seus autores. No entanto, o projeto da CDU parece desaparecer com o tempo, de acordo com suas atualizações e o
contexto do momento (COURBIÈRES; COUZINET, 2005).
Pode-se dizer, portanto, que por sua estruturação interna, sua cobertura temática e seu modo de transcrição que libera a barreira linguística nos intercâmbios de documentos, a CDU é um elemento forte, apesar das críticas, de um dispositivo a serviço da circulação de saberes em escala global. Destinada a expressar temas, ela também expressa o projeto de compartilhamento universal da produção intelectual. Sua cobertura e uso em muitos países fazem dela um macrodispositivo de organização do saber.
Compromissos e realizações
A criação de um vasto repositório de substitutos para documentos requer a capacidade de coletar documentos secundários produzidos em vários países. A formação do RBU é
baseada em uma rede de relações construída por Otlet com diretores de bibliotecas nacionais, por exemplo, com Raul Proença e Jaime Cortesão da Biblioteca Nacional de Portugal (RODRIGUES FERREIRA, 2010). Aos poucos, para estabelecer essa cooperação, a necessidade de definir normas comuns de descrição dos documentos foi percebida e levou ao desenvolvimento da reflexão sobre a atividade biblioteconômica.
A partir de 1893, Otlet e La Fontaine organizam o Escritório Internacional de Bibliografia Sociológica e, em 1895, em Bruxelas, a primeira conferência de bibliografia. Foi durante esta conferência que o Instituto Internacional de Bibliografia foi criado. Sua missão é produzir o RBU e coordenar a atividade em todo o mundo. Assim, esse repertório, que centraliza documentos secundários, torna-se o inventário da produção intelectual global.
A fim de concretizar este projeto em conferências internacionais, em três congressos internacionais (Congresso Bibliográfico Internacional, Paris, 1900; Congresso Bibliográfico Internacional, Bruxelas, 1908; Congresso Internacional de Bibliografia e Documentação, Bruxelas, 1910), Otlet desempenha um papel essencial, propondo desenvolvimentos na atividade documentária. Modalidades de trabalho são implementadas (código ou manual internacional de regras bibliográficas; organização de conhecimentos sobre o livro; desenvolvimento da bibliografia no ensino superior; alfabeto internacional convencional; estatísticas internacionais de impressos), uma extensão das formas de documentos repertoriados (documentos oficiais dos estados; jornais; arquivos industriais e comerciais...), uma evolução da missão das bibliotecas (da conservação à informação e à circulação de livros), um posicionamento das bibliotecas como complemento à
escola e à universidade, a abertura de uma especialização em ciências técnicas e ação social, a organização do empréstimo internacional entre bibliotecas, a unificação de regras de catalogação, a abreviação de títulos de periódicos, referências bibliográficas, ordenação alfabética, transliteração de caracteres cirílicos (HELLEMANS, 2011).
Assim, o compromisso pessoal de Otlet pela paz através da cultura levou-o a se tornar um grande ator na evolução dos métodos de trabalho biblioteconômicos e a expandir as missões das bibliotecas. Para ele, tratava-se de uma questão de passar para a documentação da qual afirma, segundo Warden Rayward, que ela "não consiste apenas em registrar informações, mas sim de recuperá-la automaticamente e disponibilizá-la a qualquer momento" (RAYWARD, 2016). Desta definição, surge a função de documentalista que encontrará seu desenvolvimento na França após a 2ª Guerra mundial.
Esses desenvolvimentos são resultado de reflexões em que a teoria e a prática se alimentam mutuamente. O Tratado de Documentação que as sintetiza alguns anos depois é considerado em muitos países como o trabalho fundador da atividade documentária e da Ciência da informação (Library and information science). Para a Espanha, por exemplo, José López Yepes analisou sua contribuição crucial para o pensamento documentário espanhol (LÓPEZ YEPES, 1995).
Estamos, portanto, na presença de um dispositivo internacional que, para ser eficaz, uniformiza os métodos de trabalho na rede de bibliotecas nacionais, posiciona a função por contribuir à educação e de forma mais ampla em todas as atividades. Ele participa do projeto "Cidade à glória do
conhecimento universal" (KITUMU-MAYIMONA, 2011). Ao fazê-lo, ele modeliza uma forma de compartilhamento de saberes baseado na circulação documentária global. Como a CDU, ele é geograficamente extenso e com uma cobertura enciclopédica. Ambos estão ligados na medida em que um não pode funcionar sem o outro. Eles constituem um grupo de seres humanos, objetos materiais e conexões que se organizam para alcançar um objetivo, dois macrodispositivos indissociáveis que levam o intercâmbio de saberes à escala global.
Um macrodispositivo de compartilhamento de saberes: o reconhecimento de uma obra
A necessidade de preservar a massa documentária que compõe o RBU, acumulada por Otlet e La Fontaine, levou a Bélgica a submeter sua inscrição ao Registro da Memória do Mundo em 2012. Este programa da UNESCO, iniciado em 1992, decorre da "consciência do estado alarmante de preservação do patrimônio documentário e da precariedade de seu acesso em diferentes regiões do mundo"26. Ele começou sob um contrato assinado com a IFLA (International Federation of Library Associations) e o CIA (Conselho Internacional de Arquivos). O registro obtido em 2013 eleva o RBU ao status de Patrimônio documentário mundial e o inscreve em um novo macrodispositivo. O Mundaneum no qual ele se insere dá uma ideia da força do intercâmbio intelectual. É um método, um edifício, uma rede – estava previsto criar um Mundaneum por país - (RAYWARD, 2016).
Mas através do reconhecimento da ferramenta, a UNESCO reconhece um trabalho em favor do compartilhamento de saberes e
26 Informações fornecidas no site do Registro: http://www.unesco.org/new/fr/communication-and-information/memory-of-the- world/register/
também de valores humanistas. Possibilitar o acesso à cultura, promover a paz e combater as desigualdades continua sendo o projeto original do RBU. Seus autores cultivavam a esperança de tornar o mundo melhor. "Utopia? Certamente, mas não no sentido de uma quimera, mas como a representação de uma realidade ideal e perfeita" (KITUMU-MAYIMONA, 2010).
Apresentado no site do Registro como uma nova ferramenta de acesso à informação, ele é descrito como "Primeiro exemplo da desmaterialização do conhecimento". Especifica-se que ele é "considerado hoje o primeiro modelo de motor de busca" e muitas vezes é chamado de "internet de papel", mesmo que isso também pareça utópico com os meios técnicos do início do século XX.
No entanto, Google o torna seu modelo e participa do financiamento do novo Mundaneum em Mons (Bélgica), mas o projeto é o mesmo? Os aspectos técnicos evoluíram, a preocupação de ocupar um grande espaço está lá, mas a preocupação comercial substitui o ideal de compartilhamento universal de saberes para promover a paz. Agora é uma questão de rentabilidade em grande escala. Se a ideia de uma rede documentária universal está longe de ser nova, uma outra intenção aparece, a de se obter lucros comerciais dela.
No entanto, parece possível considerar uma análise filogênica do RBU como um macrodispositivo mediador de saberes e antepassado dos motores de busca. Parece-nos que a contextualização da evolução técnica e social, do registro do patrimônio documentário na Internet, pode revelar características comuns, mas também permite colocar em perspectiva a performance documentária dos dispositivos atuais. Uma ascendência nos parece estar presente e os estudos desenvolvidos
hoje em dia deveriam considerar isso. Trata-se assim de inscrever o RBU no patrimônio e no repertório de objetos documentários da informação-comunicação.
6 CONCLUSÃO
A divisão entre microdispositivo e macrodispositivo, no caso que acabamos de analisar, destaca a dimensão espacial e a multiplicidade de dispositivos reunidos, eles próprios sem fronteiras, para constituir o dispositivo global. O que importa aqui é a escala. Para a cobertura de seu conteúdo, suas formas documentárias, sua extensão geográfica, as pessoas que mobiliza, "universal", "enciclopédico", "mundial" são seus qualificativos. Seu domínio é o mundo inteiro. O projeto político que o sustenta, contribuir para a paz mundial, inscreve-se também na imensidão. Da mesma forma, seu reconhecimento como objeto documentário e como obra rompe as fronteiras de um país – a Bélgica - de uma língua – o francês – de conhecimentos - enciclopédicos – inscrevendo-o em um patrimônio de dimensão internacional27.
O empreendimento foi ambicioso. Exigiu a mobilização dos gestores de coleções documentárias nacionais e, para torná-lo efetivo, levar em consideração, propor, negociar, definir as novas modalidades de descrição dos objetos documentários. Assim, a dimensão espacial foi reforçada por uma evolução do trabalho documentário sobre os documentos, que já traz em germe as normas internacionais de elaboração de catálogos e o plano de intercâmbios documentários globais.
Agradecimentos:
27 Em 2016, o Mundaneum recebeu também o Selo Patrimônio Europeu.
A autora agradece a Sra. Stephanie Manfroid e aos funcionários do Museu pelas boas-vindas que recebeu e pela atenção especial prestada às suas perguntas.
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