Museologia social e museus universitários: uma
experiência de ensino, pesquisa e extensão com os Kamayurá
Social museology and university museums: an
experience in teaching, research and extension with the Kamayurá
Museología social y museos universitarios: una experiencia de docencia,
investigación y extensión con el Kamayurá
Muséologie sociale et musées universitaires :
une expérience d'enseignement,
de recherche et de vulgarisation
avec les Kamayurá
Sidélia TEIXEIRA[1]
Correspondência
Autor para correspondência. Sidélia
Teixeira E-mail: sidelia@ufba.br
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5290-2386
RESUMO
Este artigo relata a realização de um processo museológico social, envolvendo
ensino, pesquisa e extensão em um museu universitário. Aborda-se a questão da Museologia
social como campo que opera com a memória e o patrimônio numa linha de
transformação social, com base em ações que promovem a cidadania e o
protagonismo social dos sujeitos envolvidos. Considera-se que o desenvolvimento
sustentável é complexo e precisa incluir nas suas propostas aspectos memoriais
e patrimoniais das comunidades. Discute-se ainda que as universidades têm um
compromisso com a realização de estudos e projetos interdisciplinares de
intervenção social. Para tanto, apresenta-se uma experiência articulada no
âmbito da Universidade Federal da Bahia que contemplou ensino, pesquisa e
extensão de maneira integrada com o grupo indígena Kamayurá. Conclui-se
com a ideia de que a realização de experiências museais com os grupos
originários enriquecem os processos de proteção, investigação e comunicação
museológica, numa linha de mão dupla tanto nas instituições museais
convencionais como nos espaços das populações originárias.
Palavras-chave: Mediação intercultural. Museologia social. Museus universitários.
ABSTRACT
This article text aims to report the realization of a social museological process, involving teaching, research and
extension in a university museum. The issue of social Museology is addressed as
a field that operates with memory and heritage in a line of social
transformation, based on actions that promote citizenship and social
protagonism of the subjects involved. It is considered that sustainable
development is complex and needs to include memorial and heritage aspects of
communities in its proposals. It is also discussed that universities are
committed to carrying out interdisciplinary studies and projects of social
intervention. To this end, an experience articulated within the scope of the
Federal University of Bahia is presented, which included teaching, research and
extension in an integrated manner with the indigenous group Kamayurá. This work
concludes with the idea that carrying out museum experiences with original
groups enriches the processes of protection, research and museological
communication, in a two-way line, that is, both in conventional museum
institutions and in the spaces of populations originating.
Keywords: Intercultural mediation. Social museology. University museums.
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo relatar la realización de un proceso
museológico social, que involucra docencia, investigación y extensión en un
museo universitario. Se aborda el tema de la Museología social como un campo
que opera con la memoria y el patrimonio en una línea de transformación social a
partir de acciones que promuevan la ciudadanía y el protagonismo social de los
sujetos involucrados. Se considera que el desarrollo sostenible es complejo y
que debe incluir en sus propuestas aspectos memoriales y patrimoniales de las
comunidades. También se discute que las universidades están comprometidas con
la realización de estudios y proyectos interdisciplinarios de intervención
social. Para él, se presenta una experiencia articulada en
el ámbito de la Universidad Federal de Bahía, que incluyó docencia,
investigación y extensión de manera integrada con el grupo indígena Kamayurá. Este
trabajo concluye con la idea de que realizar experiencias museísticas con
grupos originarios enriquece los procesos de protección, investigación y
comunicación museológica, en una línea de doble vía, es decir, tanto en las
instituciones museísticas convencionales como en los espacios de las
poblaciones originarias.
Palabras clave: Mediación intercultural. Museología
social. Museos universitarios.
RÉSUMÉ
Cet article
vise à rendre compte de la réalisation d'un processus de muséologie sociale, impliquant l'enseignement, la recherche et
la vulgarisation dans un musée universitaire. La muséologie sociale est abordée comme
un domaine qui travaille avec la mémoire et le patrimoine dans une ligne de transformation sociale, basée sur des actions qui promeuvent la citoyenneté et le protagonisme
social des sujets impliqués.
Il est considéré
que le développement durable est
complexe et qu'il doit inclure les aspects mémoriels et patrimoniaux des communautés dans ses propositions. Il est également
question de l'engagement
des universités à réaliser
des études interdisciplinaires
et des projets d'intervention
sociale. À cette fin, une expérience articulée dans le cadre de l'Université fédérale de Bahia est présentée, qui comprend l'enseignement, la recherche et la vulgarisation d'une manière intégrée
avec le groupe indigène Kamayurá. Ce travail conclut sur l'idée que la réalisation d'expériences muséales avec des groupes originaux enrichit les processus de protection, de recherche et de communication muséologique, dans une ligne bidirectionnelle, c'est-à-dire aussi
bien dans les institutions muséales conventionnelles que dans les espaces des populations d'origine.
Mots-clés: Médiation interculturelle.
Muséologie sociale. Musées universitaires.
1 INTRODUÇÃO
Não percamos de vista nosso propósito, que é o
desenvolvimento local, em sua relação e em suas interações com o patrimônio
global das comunidades. Lembro que, para mim, a ação patrimonial não pode e não
deve ter por primeiro e único objetivo a conservação ou a valorização desse
patrimônio, nem uma ação cultural, qualquer que seja o sentido dado a esses
termos. Sua razão de ser e seu fim são essencialmente participar no esforço
coletivo de construção de um desenvolvimento sustentável e compartilhado.
(Varine-Bohan, 2012. p. 229).
A terminologia “ação patrimonial”, presente neste relato de experiência, funciona como sinônimo da expressão “Museologia Social”, entendida como campo do patrimônio cultural, nas suas dimensões teórica e prática. Com efeito, a prática museológica é orientada e orienta os contornos teóricos, fazendo com que a Museologia escape de um disciplinamento científico hegemônico (Britto, 2019)[2].
Nesse sentido, a proteção, valorização e
comunicação do patrimônio envolvendo as populações de forma dialógica e
participativa também se relaciona à sobrevivência e ao bem-estar da humanidade.
Isso implica em considerar a participação e o capital social de forma
articulada com universos culturais diferentes, bem como a diversidade na
construção de ações cujas metas podem ter como base a conciliação de objetivos
econômicos e princípios “humanistas” de respeito aos seres humanos (Hermet, 2002).
Nessa perspectiva, a Museologia Social contribui
com os projetos de desenvolvimento, pois as ações culturais[3] museais
são processos de comunicação que funcionam com base na interação entre sujeitos
que dialogam, desenvolvem relações interpessoais e exercem a crítica, buscando
a negociação. O que está em jogo nas ações culturais museológicas é a
participação e o protagonismo dos atores envolvidos no sentido pontuado por
Gomes (2017, p. 27-28):
O protagonismo social
representa o caminho humanizador do mundo e, portanto, promissor da construção
ética de relações sociais capazes de assegurar o espaço crítico, de dialogia,
criatividade e alteridade. Esse espaço crítico potencializa a construção de
zonas de consensos, já que nele os sujeitos expõem suas compreensões e
argumentos, debatem acerca dos pontos de divergência e convergência de ideias,
criando as condições para o estabelecimento e revisão de políticas, normativas,
metas sociais e também verdades científicas.
Assim, falar de
desenvolvimento é tratar de um processo complexo que necessita de estudos de
intervenção social colaborativos, envolvendo diversas áreas do conhecimento
científico de forma integrada.
Por sua vez, as universidades
são, historicamente, os principais centros produtores de conhecimento
científico e possuem responsabilidade com a manutenção da vida e do meio
ambiente. Como afirma Marcovitch (1998, p. 67):
A universidade, como
instituição pensante, tem uma importante contribuição a prestar no
prolongamento e na melhoria da vida humana. É claro que a preservação ecológica
exige, em escala maior, o esforço dos governos de todos os países e o
engajamento moral de todos os cidadãos conscientes. Mas, no espaço científico,
a universidade é insubstituível. “Satisfazer as necessidades atuais sem
diminuir as oportunidades das gerações futuras” – um conceito produzido pelo World Watch
Institute – resume o nosso empenho
pelo desenvolvimento sustentado.
A importância e o compromisso
da universidade deve refletir-se nos temas que são
trabalhados pelas equipes de pesquisadores. Precisam repercutir também na
realização de processos de intervenção social integrados com diversas áreas que
necessitam multiplicar-se cada vez mais, sob pena de vivenciarmos uma
catástrofe mundial[4].
Entendemos que os museus universitários são
espaços privilegiados para a aplicação da Museologia Social, visando o
desenvolvimento sustentável, na medida em que as universidades funcionam como
espaços abertos para a produção de conhecimento novo. As instituições museais
universitárias funcionam como laboratórios que operam práticas de ensino,
pesquisa e extensão de forma articulada, viabilizando o exercício de ações
multidisciplinares, comprometidas com os direitos humanos de maneira geral e
irrestrita.
Assim, optamos por avançar na presente
discussão sobre Museologia Social na Universidade, relatando uma experiência
desenvolvida na Universidade Federal da Bahia (UFBA), no Museu de Arqueologia e
Etnologia (MAE), cujo principal objetivo era o diálogo intercultural e o
aprimoramento dos princípios de comunicação e mediação cultural.
A referida ação envolveu membros do grupo
indígena Kamayurá, professores dos departamentos de Museologia e
Antropologia da mesma universidade, servidores técnicos do MAE/UFBA e alunos
matriculados no componente curricular FCHG47 Laboratório de Expografia do Curso
de Museologia da UFBA, como veremos a seguir.
2 A COLEÇÃO ETNOGRÁFICA DOS KAMAYURÁ NO MUSEU DE
ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA
O antropólogo Pedro Agostinho da Silva, na década
de 1960, realizou trabalho de campo na região do Alto Xingu, na Amazônia. Na
oportunidade, coletou peças que lhe pareceram características da cultura
material Kamayurá que pôde obter na forma de presentes e/ou trocas.
Esses objetos foram incorporados ao acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia
da UFBA em 1983, quando essa instituição foi criada.
No ano de 2019, esses objetos trouxeram para a Bahia três
representantes do povo Kamayurá, que visitaram o MAE/UFBA no contexto de
seu próprio projeto de pesquisa, denominado “Arquivo Kamayurá”.[5] A
visita ocorreu no momento em que a principal exposição do MAE/UFBA tinha como
tema o trabalho antropológico do professor Pedro Agostinho da Silva cuja
memória a exposição celebrava. Esse trabalho, por sua vez, tinha a sua
materialização nos próprios objetos Kamayurá que o pesquisador coletara.
Alguns desses estavam expostos, contudo, segundo uma concepção e uma orientação
de sentido que, certas ou erradas, de modo algum resultavam de um diálogo
entabulado diretamente com algum Kamayurá.
Tratou-se de um novo diálogo,
o que esses objetos expostos inevitavelmente provocaram, desta feita entre
esses visitantes indígenas, agora eles próprios investidos da condição de
pesquisadores e representantes de seu povo, e a equipe do museu, seus técnicos,
docentes e discentes. Seu objetivo claro foi evitar o que se percebia como um
processo de “perda” (expressão utilizada pelos Kamayurá) na transmissão
de seus costumes e suas tradições às gerações mais jovens.
O conhecimento da exposição e da reserva
técnica do MAE/UFBA
funcionou como um novo diálogo entre eles próprios e seus antepassados
recentes do qual o próprio antropólogo, perfeitamente lembrado por eles, foi um
dos interlocutores e continuava a ser um dos mediadores. Não menos, aliás, que
um diálogo entre os vivos e os mortos, por meio, inclusive, das fotografias do
ritual funerário que integram a exposição.
2.1 Componente curricular: Antropologia e Museus
Para entabular um diálogo ao mesmo tempo oficial e
pedagogicamente relevante para os visitantes Kamayurá e para o museu e a
sua equipe, eles foram convidados a participar do módulo final de uma componente
curricular. Esperava-se que servisse como experiência formativa de estudantes
dos cursos de graduação e também da pós-graduação de museologia e antropologia
da UFBA, universidade mantenedora do museu. Assim, no segundo semestre de 2019,
foi ofertado o componente curricular “Antropologia e Museus”, com essa intenção.
A proposta desse componente curricular, aberta a turmas de
graduação de ciências sociais e de museologia e de pós-graduação em
antropologia e museologia, foi conjugar dois propósitos complementares. Por um
lado, visava-se atender a uma demanda dos discentes voltada ao diálogo
interdisciplinar entre a antropologia e a museologia, tomadas enquanto componentes
curriculares acadêmicos, isto é, movidas por seus paradigmas, epistemologias e
controvérsias.
Por outro, o componente curricular tinha como foco a formação
“prática” dos participantes, por meio de uma série de exercícios etnográficos a
serem realizados sobre diferentes exposições existentes na
cidade de Salvador. Essas atividades foram articuladas de forma a ofertar
a necessária preparação dos estudantes para a visita dos representantes dos Kamayurá.
Esperava-se que esta visita viesse a constituir-se enquanto momento de
construção de uma reflexão dialógica sobre o fazer antropológico e museal entre discentes desses componentes curriculares e os outrora “nativos”.
A visita dos representantes Kamayurá foi organizada para
acontecer num período de pouco menos de duas semanas. Eles disponibilizaram-se
a interagir com os participantes do componente curricular ao longo de três
tardes. Duas destas foram essencialmente dedicadas a acompanhar os Kamayurá
em sua visita ao MAE, tanto na parte da exposição de longa duração quanto na
reserva técnica. Essa oportunidade permitiu que os diálogos se desenvolvessem
não somente sobre os objetos específicos que, naquele momento, chamassem mais
sua atenção, mas também – e mais livremente – sobre aspectos de sua cultura que
os objetos suscitassem. Todos os momentos foram gravados com o uso de aparelhos
celulares e, conforme acordado entre todos, compartilhados com os Kamayurá
em plataformas de armazenamento de dados digitais.
O terceiro encontro, ocorrido no contexto de aula do componente
curricular, foi também o mais relevante. Nele, os representantes Kamayurá
e os participantes do componente curricular, aos quais se juntaram os demais
funcionários do MAE e outros convidados, reuniram-se ao redor de uma mesa sobre
a qual estavam expostos sete artefatos, apontados como representativos da sua
“cultura”. Esse material foi previamente recolhido na reserva técnica nos dias
anteriores e deveriam, segundo os visitantes (Kamayurá), ser incluídos
na exposição de longa duração do MAE/UFBA.
Um dos representantes Kamayurá, em nome dos demais, foi
sucessivamente apresentando tais artefatos. Descreveu a forma como eram
confeccionados, os materiais utilizados para sua realização, o seu contexto de
uso (passado e/ou contemporâneo), as histórias que evocavam e as razões pelas
quais eram especialmente importantes, a ponto de serem incluídos na exposição
do Museu. Propôs, ainda, formas de realizar essa inclusão.
Nas semanas seguintes, os discentes do componente curricular foram
convidados a realizar um mapeamento das informações disponíveis sobre esses
objetos, assumidos tanto como artefatos específicos quanto como categorias de
objetos.
Como haviam sido coletados por Pedro Agostinho, recomendou-se aos alunos
uma leitura cuidadosa dos trabalhos publicados por esse pesquisador. Deveriam encontrar
eventuais menções e informações sobre esses objetos guardados no MAE, agora escolhidos
e identificados como significativos pelos representantes Kamayurá.[6]
Para maior riqueza de informações, foram pesquisadas também as fichas de
documentação relativas a tais objetos e previamente revisadas após a oficina
preparatória de treinamento realizada com os técnicos e estagiários do museu.
Por outro lado, tendo em vista o valor exemplar das falas e descrições do
representante Kamayurá sobre tais objetos enquanto parte da experiência
de seu povo, decidiu-se incorporá-las ao mapeamento de informações sobre esses objetos
localizadas em outras fontes.
Desse modo, os discentes foram encarregados de procurar vídeos,
publicações, catálogos etc. nos quais esses objetos também aparecessem, para
reuni-los em um banco de dados. Este, por sua vez, tinha o fim de, por um lado,
ser compartilhado com os Kamayurá, de forma a auxiliá-los em seu próprio
projeto e, por outro, servir de base para a apresentação desses objetos na
exposição de longa duração do MAE. Se o primeiro objetivo foi alcançado,
visto que as informações foram compartilhadas em instrumentos virtuais, o
segundo e mais importante para o museu não foi possível realizar, por causa da
eclosão da pandemia de Covid-19, que forçou a interrupção completa dos
trabalhos planejados nessa direção.[7] Essa circunstância
inesperada, entretanto, não deteve o agenciamento desses objetos.
2.2 Componente curricular: Laboratório de Expografia
Visando adaptar e dar continuidade ao projeto, os
pesquisadores da UFBA contataram os representantes dos Kamayurá, que já haviam
retornado à sua comunidade, e entabularam um novo diálogo acerca da
possibilidade de reformular a proposta inicial. Pensava-se agora na
constituição de uma exposição, desta feita virtual, que pudesse dar maior
visibilidade a tais objetos e aos seus significados históricos, culturais,
sociais e políticos não apenas no seu contexto de produção, mas também na
atualidade.
A ideia era construir uma exposição em
colaboração com os Kamayurá. Assim, optou-se por uma comunicação
museológica, condizente com a Museologia social, em que a comunidade indígena
abordada participasse de sua execução de forma ativa e criativa.
Particularmente aqueles que haviam visitado o MAE/UFBA, transformar-se-iam em
mediadores junto a seu próprio povo.
Com efeito, são consideradas fundamentais,
sobretudo, a interação e a negociação para estruturação do significado, da construção
de valores comuns e, por que não, dos questionamentos, diferenças e conflitos
que não precisam necessariamente ser ocultados, senão mostrados no que for
possível (Cury, 2005).
O componente curricular Laboratório de
Expografia foi ofertada no segundo semestre de 2020 pelo Departamento de
Museologia e organizada em dois eixos principais. O primeiro, visava contemplar
um conjunto de discussões teóricas sobre as exposições museológicas digitais,
os museus antropológicos, a tecnomemória, as experiências comunicativas em
museus e a metodologia da escuta sensível. O segundo, de ordem prática, abordou
o uso do software Tainacan, para a gestão e publicização de acervos
digitais pelos museus, como ferramenta de apoio para a elaboração e execução de
um projeto de exposição. Tratava-se de expor os objetos selecionados pelos
Kamayurá, bem como servir de plataforma digital para sua operacionalização e possibilitar
o acesso por parte do público com um mínimo de interatividade.
2.2.1 Exposição virtual: Objetos
Kamayurá – tempos, memórias e diálogos
Docentes, discentes, técnicas e técnicos do MAE
trabalharam ao lado dos Kamayurá na produção de um plano expográfico que
contemplasse recursos, como fotografias, vídeos, textos, depoimentos e músicas,
com a intenção de produzir uma narrativa dinâmica e interativa. Para tanto,
além das fichas de documentação desse museu e dos dados coletados na pesquisa
bibliográfica realizada pelos estudantes do componente curricular Antropologia
e Museus, foram agregados ao plano fotografias, gravações e vídeos produzidos
durante a visita dos representantes dos Kamayurá ao MAE/UFBA. Além
disso, foi incluído o acervo fotográfico relativo ao trabalho de campo do
antropólogo Pedro Agostinho da Silva, um documentário sobre a atividade desse
profissional e outras imagens e músicas disponibilizadas na rede internet.
Esse material foi inserido na Plataforma
Tainacan e apresentado duas vezes aos Kamayurá. Na primeira vez, ainda em fase de esboço, incorporava as indicações
oferecidas por eles e, sucessivamente, em uma versão mais avançada, para que
eles pudessem avaliar, sugerir modificações e aprovar o produto final.
Registra-se ainda que o componente curricular
Laboratório de Expografia teve seu término em dezembro de 2020. As versões da
exposição para análise dos Kamayurá ocorreram no período de janeiro até
julho de 2021. Respeitou-se, assim, o tempo da própria comunidade Kamayurá
e seus processos decisórios internos. Após análise e aprovação, a exposição
ficou organizada em três módulos principais.
O conteúdo do primeiro módulo expográfico
apresenta uma narrativa na perspectiva dos Kamayurá que estiveram em
Salvador, visitando o MAE/UFBA. Fica demonstrada a importância da coleção do
MAE para a preservação e compreensão da história e trajetória dessa etnia
indígena brasileira, ao tempo em que são realizadas comparações sobre objetos
antigos e atuais, registrando a necessidade de preparar os jovens dessa
comunidade, tendo como apoio o patrimônio cultural. Além disso, os Kamayurá
afirmam que não existe uma “receita pronta” para “preservar sua cultura”, mas
esperam encontrar essa resposta juntamente com as equipes dos museus que
possuem acervos da sua cultura.
Ainda nesse módulo, eles afirmam sua identidade
brasileira, mas ressaltam que, via de regra, não são tratados como cidadãos.
São constatados, assim, a importância e o valor político
dessa colocação, especialmente diante dos desafios históricos e atuais das
populações Ameríndias. De fato, os povos indígenas brasileiros enfrentam
permanentemente uma luta para a manutenção das suas terras e da sua cultura.
No segundo módulo, os representantes Kamayurá
ratificam sua atual atenção às apresentações sobre a sua cultura, deixando
claro que pretendem, cada vez mais, monitorar os discursos produzidos nas
exposições museais. Nesse módulo, é destacado que esse tipo de participação
visa também auxiliar e aprimorar o processo de comunicação dos museus. mas este
não pode ser visto como um ato isolado. Para sua eficácia, é necessário o
diálogo entre a comunidade produtora/fruidora dos objetos e os técnicos dos
museus que participem da sua elaboração.
Os objetos selecionados e analisados pelos Kamayurá
revelam aspectos do cotidiano dessa comunidade, a exemplo da preparação e
guarda de alimentos, bem como alguns de seus rituais e trabalhos do seu dia a
dia.
Já no terceiro módulo, são abordados passado e
presente. Registra-se que alguns artefatos deixaram de ser fabricados, porque
foram substituídos por objetos de “fora” e em consequência da diminuição da
flora e fauna locais. Objetiva-se, assim, deixar claro que esses artefatos
obedecem a uma dinâmica cultural que deve tornar-se
explícita nas exposições, para evitar reificações e trivializações dos próprios
objetos e de seus produtores.
Ainda nesse módulo, os Kamayurá
demonstram a necessidade de continuar usando determinados objetos como um
processo de autoafirmação, reforçando, assim, a importância da sua preservação.
A exposição disponibiliza também um espaço para os visitantes apresentarem
depoimentos sobre a mostra que, futuramente, deverão ser submetidos a análise
pela equipe do MAE/UFBA. Por solicitação dos Kamayurá, foi inserido um link
para as pessoas que o desejarem contribuírem financeiramente com essa
comunidade[8].
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência relatada mostra a realização de um processo museológico
social, envolvendo ensino, pesquisa e extensão em um museu universitário.
Evidenciou-se o potencial dos museus universitários para viabilizar práticas de
ensino por meio dos objetos e da interlocução com as comunidades produtoras dos
bens preservados, reforçando a importância do diálogo e da participação.
Ações dessa natureza contribuem para o aprimoramento dos processos de formação profissional e acadêmica, mediante
o uso dos museus universitários como laboratórios privilegiados para o
exercício de práticas interdisciplinares.
Verificou-se ainda o potencial dos museus
universitários, por meio dos objetos e da possibilidade de interlocução com os
membros do grupo indígena Kamayurá, para viabilizar a reflexão entre
diferentes saberes, revelando um exercício de decolonialidade em prol dos direitos humanos.
Pôde-se observar que o museu funcionou como um espaço que
viabilizou a realização de uma mediação de natureza intercultural e uma
narrativa interativa e participativa. A base dessa ação foi o diálogo e a
negociação entre docentes, servidores do museu, alunos e Kamayurá,
concretizado na exposição museal intitulada “Kamayurá: tempos, memórias e
diálogos”. Nesse sentido, ficou evidente que o museu vai muito além do que um
simples espaço de guarda e proteção de bens culturais.
Memória, patrimônio e transmissão histórica foram,
aqui, concebidos como parte do desenvolvimento sustentável das populações,
através, principalmente, do protagonismo dos grupos sociais envolvidos na ação
museal. Em relação aos Kamayurá ficou evidente a importância dos
processos memoriais para a cidadania dos povos originários.
É recomendável que as ações museais contemplem a
participação dos povos originários que não desejam mais que os outros falem
sobre eles, mas, ao contrário, na atualidade, fica evidente a sua proatividade,
inclusive prestando importantes ensinamentos para a reflexão e construção de
sociedades que concebam os seres humanos de forma mais integrada com o meio
ambiente. Nesse sentido, os seus conhecimentos contribuem para os estudos no
campo da preservação natural e cultural.
Por fim, a universidade, entendida como o principal centro produtor de
conhecimento científico pode, por meio de suas políticas, contribuir para
estimular, nos museus universitários, a implantação e implementação de projetos
integrados entre diversas áreas, que visem a manutenção do meio ambiente e da
vida.
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[1] Pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia
(UFBA).
[2] Essa questão é também discutida por Bruno (2021), Cerávolo
(2004), Santos (1996) e Scheiner (2012).
[3] Ação cultural é entendida aqui no sentido freiriano. Para maiores detalhes, consultar: Freire (1981).
[4] Por exemplo, sobre a questão do aquecimento global, Goldemberg (2023) analisa o
histórico dos trinta anos da convenção do clima, afirmando que as perspectivas de limitar o aumento da
temperatura da Terra em 1,5 °C até 2030 parecem pouco promissoras.
[5] Trata-se de projeto que visa identificar e fornecer um mapeamento sobre os objetos Kamayurá, que se encontram preservados nos
museus de arqueologia e etnologia brasileiros. Para mais informações
sobre o Projeto Arquivo Kamayurá, ver UMA JORNADA... (2019).
[6] A análise bibliográfica concentrou-se, sobretudo, na
monografia que Pedro Agostinho (1974) dedicou aos Kamayurá.
[7] O mapeamento dos materiais disponíveis sobre os
objetos escolhidos pelos Kamayurá foi concluído no mês de janeiro de
2020. Em março desse mesmo ano, quando se iniciava o planejamento da fase de sua
efetiva inclusão na exposição, foi decretado o estado de emergência sanitária na
Bahia, que paralisou todo o processo.
[8] A exposição foi intitulada Objetos Kamayurá:
tempos, memórias e diálogos e encontra-se disponível no seguinte link:
https://acervo.mae.ufba.br/kamayura/