Análise de domínio no contexto de gênero e sexualidade Domain analysis in the context of gender and sexuality Análisis de dominio en el contexto de género y sexualidade
Analyse du domaine dans le contexte du genre et de la sexualité
Correspondência
Leonardo Borges Rodrigues Chagas E-mail: leonardoborges@ufmg.br
Submetido em: 30/08/2025 Aceito em: 12/12/2025 Publicado em: 30/12/2025
1 Doutorando em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGCI-UFMG).
2 Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora Titular da Universidade Federal de Minas Gerais.
Este artigo analisa o caráter discursivo dos sistemas de organização do conhecimento e apresenta recortes de uma pesquisa em andamento, cujo objetivo geral é articular o tema da diversidade sexual e de gênero para construir um modelo metateórico voltado à prototipagem de tesauros situados nesse domínio de investigação. Para tanto, a pesquisa articula o referencial teórico das perspectivas críticas em organização do conhecimento, os aportes dos estudos de gênero e sexualidade e o potencial teórico-analítico da análise de domínio para a elaboração de esquemas de representação. Como resultados, o artigo apresenta, primeiramente, uma proposta de delimitação inicial do domínio da diversidade sexual e de gênero, compreendido como campo dinâmico, complexo e transdisciplinar, no qual discursos, teorias, práticas e lutas políticas se articulam na produção de identidades e significados. Em seguida, propõe-se um modelo metateórico voltado à prototipagem de tesauros situados nesse domínio, fundamentado nas garantias ética e cultural e na crítica à neutralidade da linguagem. Os resultados preliminares indicam que a articulação entre uma compreensão crítica do conceito de “domínio”, aliada ao uso reflexivo da linguagem, contribui para a construção de instrumentos de representação mais sensíveis à pluralidade de identidades e comprometidos com princípios de inclusão, não discriminação e equidade representacional.
This article analyzes the discursive character of knowledge organization systems and presents findings from an ongoing research project whose general objective is to articulate the theme of sexual and gender diversity in order to construct a metatheoretical model aimed at prototyping thesauri situated in this domain of investigation. To this end, the research articulates the theoretical framework of critical perspectives in knowledge organization, the contributions of gender and sexuality studies, and the theoretical-analytical potential of domain analysis for the elaboration of representational schemes. As results, the article first presents a proposal for an initial delimitation of the domain of sexual and gender diversity, understood as a dynamic, complex, and transdisciplinary field in which discourses, theories, practices, and political struggles are articulated in the production of identities and meanings. Then, it proposes a
metatheoretical model aimed at prototyping thesauri situated in this domain, grounded in ethical and cultural guarantees and in a critique of the neutrality of language. Preliminary results indicate that the articulation between a critical understanding of the concept of "domain," coupled with the reflective use of language, contributes to the construction of representational instruments that are more sensitive to the plurality of identities and committed to principles of inclusion, non-discrimination, and representational equity.
Este artículo analiza el carácter discursivo de los sistemas de organización del conocimiento y presenta resultados de un proyecto de investigación en curso cuyo objetivo general es articular el tema de la diversidad sexual y de género para construir un modelo metateórico que orientado a la prototipación de tesauros situados en este dominio de investigación. Para ello, la investigación articula el marco teórico de las perspectivas críticas en la organización del conocimiento, las contribuciones de los estudios de género y sexualidad, y el potencial teórico-analítico del análisis de dominio para la elaboración de esquemas de representación. Como resultado, el artículo presenta primero una propuesta para una delimitación inicial del dominio de la diversidad sexual y de género, entendido como un campo dinámico, complejo y transdisciplinario en el que discursos, teorías, prácticas y luchas políticas se articulan en la producción de identidades y significados. Posteriormente, propone un modelo metateórico que prototipe tesauros situados en este dominio, basado en garantías éticas y culturales y en una crítica a la neutralidad del lenguaje. Los resultados preliminares indican que la articulación entre una comprensión crítica del concepto de “dominio”, sumada al uso reflexivo del lenguaje, contribuye a la construcción de instrumentos de representación más sensibles a la pluralidad de identidades y comprometidos con principios de inclusión, no discriminación y equidad representacional.
Cet article analyse le caractère discursif des systèmes d'organisation des connaissances et présente des extraits d'une recherche en cours, dont l'objectif général est d'articuler le thème de la diversité sexuelle et de genre afin de construire un modèle métathéorique axé sur le prototypage de thésaurus situés dans ce domaine de recherche. À cette fin, la recherche articule le référentiel théorique des perspectives critiques en matière d'organisation des connaissances, les apports des études sur le genre et la sexualité et le potentiel théorique et analytique de l'analyse de domaine pour l'élaboration de schémas de représentation. En guise de résultats, l'article présente tout d'abord une proposition de délimitation initiale du domaine de la diversité sexuelle et de genre, compris comme un champ dynamique, complexe et transdisciplinaire, dans lequel les discours, les théories, les pratiques et les luttes politiques s'articulent dans la production d'identités et de significations. Ensuite, il propose un modèle métathéorique axé sur le prototypage de thésaurus situés dans ce domaine, fondé sur des garanties éthiques et culturelles et sur la critique de la neutralité du langage. Les résultats préliminaires indiquent que l'articulation entre une compréhension critique du concept de « domaine », associée à une utilisation réfléchie du langage, contribue à la construction d'instrumentes de représentation plus sensibles à la pluralité des identités et engagés dans les principes d'inclusion, de non-discrimination et d'équité représentationnelle.
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, os estudos críticos da Organização do Conhecimento (OC) têm ressaltado que, para além da dimensão estritamente técnica de organizar o conhecimento registrado, é necessário compreender o horizonte sociocultural envolvido na produção, organização e circulação desses registros do conhecimento.
Essas perspectivas compreendem que as atividades e os produtos da OC constituem práticas sociais condicionadas por
diferentes contextos históricos e socioculturais, que podem gerar vieses nos esquemas de representação.
Nesse sentido, diferentes autores, inspirados na noção foucaultiana de dispositivo, descrevem os Sistemas de Organização de Conhecimento (SOCs) como dispositivos de informação e conhecimento, considerando que esses instrumentos discursivos se inscrevem em relações de poder e saber e como tal podem viabilizar discursos hegemônicos, autoritários e regulatórios (Moura, 2018, 2020).
No âmbito das terminologias LGBTQIAPN+3 , a escolha de um termo em detrimento de outro para nomear identidades sexuais e de gênero constitui um ato de enunciação marcado por disputas ideológicas na medida em que podem reproduzir assimetrias, exclusões e relações de dominação4. Embora existam muitos avanços nos estudos de gênero e sexualidade, no contexto brasileiro esses estudos não se traduziram em mudanças significativas nos sistemas de representação, que ainda são insuficientes para organizar e representar a temática LGBTQIAPN+.
Partindo desse quadro de referência, a publicação propõe uma análise crítica dos SOCs, apresentando recortes de uma investigação em curso, que busca articular o domínio LGBTQIAPN+.
EPISTEMOLOGIAS CRÍTICAS EM ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO
3 Acrônimo para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queer, intersexuais, assexuais, agênero, pansexuais, pangêneros, não-binários e demais identidades dissidentes da cisheteronormatividade.
4 Historicamente, o movimento LGBTQIAPN+ tem problematizado a dimensão discursiva da LGBTIfobia, termo que abarca todas as formas de violência contra pessoas LGBTQIAPN+, incluindo o apagamento sistemático de suas memórias, histórias e culturas.
A Organização do Conhecimento (OC) é uma área central da Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI), que investiga princípios, processos e instrumentos relacionados com a organização, representação e recuperação do conhecimento registrado. E Sistemas de Organização do Conhecimento (SOCs) constituem estruturas conceituais que relacionam termos e conceitos de um determinado domínio para fins de organização, armazenamento e recuperação desses registros do conhecimento (Barité, 2015; Hjørland, 2016).
Historicamente, as práticas desenvolvidas na OC se concentraram mais nos aspectos técnicos e tecnológicos da informação, priorizando normas, instrumentos e procedimentos voltados à eficiência no funcionamento do sistema. Essa ênfase, embora importante, não prioriza os aspectos socioculturais envolvidos na produção, organização e circulação do conhecimento. Entretanto, nas últimas décadas, a “epistemologia social” proposta por Egan e Shera (1952); o “paradigma social” de Capurro (2003) e os conceitos de “domínio” de Hjørland e Albrechtsen (1995) têm sido constantemente acionados para uma compreensão da responsabilidade e da função social como razão de ser da BCI. Essas referências reforçam a concepção de Shera (1977, p. 11), segundo a qual, o armazenamento e a recuperação da informação somente
adquirem valor quando empregados em benefício da humanidade.
Sob essas perspectivas, as ações e os produtos da OC são compreendidos como práticas sociais, influenciadas por relações de poder e condicionadas por contextos históricos, culturais, políticos, econômicos e religiosos. Tais práticas podem cristalizar preconceitos e discriminações nos esquemas de representação, prejudicando a
recuperação dos registros do conhecimento pelos usuários dos sistemas (Arboit, 2016; Beghtol, 2002; García Gutiérrez, 2011;
Guimarães; Pinho, 2007; Hjørland, 2008; Mai, 2013; Milani, 2014;
Moura, 2018, 2020; Olson, 2001; Pinho, 2021).
Olson (2001) argumenta que os sistemas de representação em bibliotecas reproduzem as marginalizações e exclusões das sociedades que os estruturam. Nesse processo, diferentes preconceitos – de gênero, sexualidade, raça, idade, etnia, língua e religião – restringem a representação da diversidade, prejudicando tanto o acesso quanto recuperação da informação pelos usuários.
Considerando essas discussões, depreende-se que os discursos de neutralidade e universalidade na OC resultaram em impactos negativos na representação de grupos “minorizados”, incluindo pessoas LGBTQIAPN+, negras, indígenas, mulheres, entre outros grupos historicamente marginalizados. Acredita-se que a compreensão dessa dinâmica de representação é o primeiro passo para se propor esquemas de representação mais justos e inclusivos.
Nesse sentido, convém ressaltar os fundamentos que orientam e legitimam a criação e manutenção dos SOCs, tais como garantia literária, garantia filosófica, garantia organizacional, garantia cultural, garantia educacional, garantia semântica, garantia ética, garantia de uso/usuário, garantia estrutural, entre outras. Esses princípios não apenas asseguram a consistência interna dos SOCs, mas também explicitam os compromissos epistemológicos, sociais e políticos que os sustentam. Ademais, remetem uma ideia de autorização, justificação e certificação (Barité, 2019; Beghtol, 1986; Dias, 2015;
Guedes; Moura, 2016).
Moura (2020) observa que embora exista um histórico de consolidação dessas garantias na área, o desenvolvimento dos sistemas de representação continua priorizando garantias clássicas que implicam em instrumentos de representação pouco inclusivos. A inclusão de temáticas como raça, gênero e sexualidade continua extremamente complexa e desequilibrada nos esquemas de representação (Moura, 2020).
Nesse ponto, convém ressaltar as contribuições do linguista britânico Norman Fairclough sobre a centralidade do discurso nas transformações sociais e culturais. Fairclough (2016) enfatiza o caráter ideológico e transformador do discurso, pois, se por um lado ele carrega investimentos ideológicos que contribuem para a produção e manutenção de relações de dominação, por outro, tem o potencial emancipatório de transformar essas relações.
A compreensão da relação de poder nas práticas sociodiscursivas da organização do conhecimento abre espaço para que os sujeitos envolvidos assumam uma postura crítica e se engajem em práticas emancipatórias. Nessa perspectiva, a análise de domínio se apresenta como um referencial teórico-metodológico capaz de orientar a elaboração de instrumentos de representação mais justos e contextualizados.
ANÁLISE DE DOMÍNIO
No contexto da BCI, a “Análise de Domínio” (AD) constitui um paradigma de natureza social e epistemológica, proposto por Hjørland e Albrechtsen (1995) para compreender os diferentes contextos de produção, organização e comunicação do conhecimento.
Essa abordagem sustenta que a melhor forma de se estudar os domínios de conhecimento consiste em analisá-los enquanto comunidade discursiva ou de pensamento, o que permite compreender como o conhecimento é construído e compartilhado (Dias, 2015; Hjørland; Albrechtsen, 1995; Hjørland, 2002; 2017).
O paradigma analítico de domínio é, portanto, em primeiro lugar, um paradigma social, que concebe a CI como uma das ciências sociais, promovendo perspectivas psicossocial, sociolinguística, sociológica do conhecimento e sociológica da ciência no contexto da CI. Em segundo lugar, o paradigma analítico de domínio é uma abordagem funcionalista, que tenta compreender as funções implícitas e explícitas da informação e da comunicação e traçar os mecanismos subjacentes ao comportamento informacional a partir dessa percepção. Em terceiro lugar, é uma abordagem filosófico-realista, que tenta encontrar a base para a Ci em fatores externos às percepções individualistas e subjetivas dos usuários, em oposição, por exemplo, aos paradigmas comportamentais e cognitivos (Hjørland; Albrechtsen, 1995, p. 400, tradução nossa)5.
Hjørland e Hartel (2003) apresentam uma concepção tridimensional de domínio ao reconhecerem três dimensões – ontológica, epistemológica e sociológica – que interagem de forma complexa na organização e constituição dos domínios do conhecimento. Nesse sentido, os autores propõem uma abordagem multidimensional do conhecimento para aplicação da AD: ontológica, epistemológica e sociológica.
5 The domain analytic paradigm is thus firstly a social paradigm, conceiving of IS as one of the social sciences, promoting a social psychological, a sociolinguistic, a sociology of knowledge, and a sociology of science perspectives on IS. The domain analytic paradigm is secondly a functionalist approach, attempting to understand the implicit and explicit functions of information and communication and to trace the mechanisms underlying informational behavior from this insight. Thirdly it is a philosophical realistic approach, trying to find the basis for IS in factors that are external to the individualistic subjective perceptions of the users as opposed to for example the behavioral and cognitive paradigms (cf. note 1). (Hjørland; Albrechtsen, 1995, p. 400).
A dimensão ontológica refere-se aos aspectos que constituem a realidade de um domínio, buscando identificar quais objetos, entidades, fenômenos e processos são reconhecidos como reais. A dimensão epistemológica visa compreender como o conhecimento sobre esses objetos é construído e validado. Olhar para essa dimensão significa observar como o conhecimento é produzido, validado e estruturado. A dimensão sociológica enfatiza os aspectos sociais, destacando a importância das comunidades de prática, dos atores sociais e coletivos envolvidos na construção, sustentação e transformação do domínio (Hjørland, 2017; Hjørland; Hartel, 2003; Hjørland; Barros, 2024).
Hjørland (2002) propõe onze abordagens para a análise de domínio, que representam diferentes maneiras de como o conhecimento pode ser apreendido, organizado e interpretado pela BCI (Hjørland, 2017; Hjørland; Barros, 2024). Outros autores propuseram revisões e acréscimos à taxonomia das abordagens de AD, resultando na incorporação de mais três abordagens reconhecidas por Hjørland (2017).
As abordagens, inicialmente apresentadas em 2002 e, posteriormente, revisadas em 2017, abrangem: produção/avaliação de portais temáticos e guias de literatura; produção/avaliação de tesauros e classificações; estudo de usuário; estudo bibliométrico; estudo histórico de serviços de informação; estudo de documentos e gêneros; estudo epistemológico e crítico; estudo terminológico e a análise de discurso; estudo de domínio sobre cognição profissional, representação de conhecimento em ciência da computação e inteligência artificial.
Entretanto, vale enfatizar, que essas abordagens não são propostas rígidas ou estanques, ao contrário, constituem referenciais flexíveis, suscetíveis a reformulações, deslocamentos e ampliações em consonância com os propósitos e as necessidades de cada estudo.
Conceitos centrais em AD
Para aplicar Análise de Domínio (AD) no âmbito desta pesquisa, convém enfatizar os conceitos de domínio, comunidade discursiva e discurso. Trata-se de noções de difícil apreensão, uma vez que seus significados oscilam conforme os autores, os campos do conhecimento e os contextos de aplicação. Entretanto, apresentam-se, a seguir, as definições operacionais que serão utilizadas.
O conceito de domínio pode ser compreendido como um corpo de conhecimento partilhado por um grupo de pessoas que assumem compromissos ontológicos e epistemológicos (Hjørland, 2017).
Os domínios são frequentemente disciplinas acadêmicas, mas também podem ser, por exemplo, hobbies. Diferentes teorias e interesses sociais podem interpretar os domínios de forma diferente e, portanto, o classificador deve ser explícito em relação aos interesses e às visões teóricas nas quais a construção se baseia. Do ponto de vista da BCI e da OC, é importante otimizar a troca de informações nos domínios; portanto, os domínios precisam ter um certo nível de estabilidade e infraestrutura para serem bons candidatos para análise de domínio (Hjørland, 2017, tradução nossa)6.
6 Domains are often academic disciplines, but may also be, for example, hobbies. Different theories and social interests may construe domains differently, and therefore the classifier should be explicit regarding the interests and theoretical views on which the construction is based. From the perspectives of LIS and KO, it is important to optimize information exchange in domains; therefore, domains need to have a certain level of stability and infrastructure in order to be good candidates for domain analysis (Hjørland, 2017).
Hjørland e Albrechtsen (1995) não definiram claramente o que seria o “domínio” e talvez não seja possível e nem desejável fixar esse conceito de maneira exclusiva, uma vez que ele se constitui e se transforma à medida que é acionado e operacionalizado nos diferentes contextos de pesquisa (Mai, 2005).
Em um sentido amplo, domínio pode ser um campo científico, uma disciplina acadêmica, uma área do conhecimento, uma área de especialização, um campo amplo do conhecimento, um grupo de usuário, um grupo de pessoas trabalhando juntas em uma organização, uma empresa, um corpo de literatura, uma comunidade discursiva, hobbies, entre outras definições que compreende um corpo de conhecimento partilhado socialmente e teoricamente por uma comunidade (Amorim; Café, 2016; Dias, 2015; Hjørland, 2017). A comunidade discursiva ou de pensamento pode ser definida como organização social formada por atores sociais e coletivos que estabelecem as limitações e ordenações de um determinado domínio
(Amorim; Café, 2016; Dias, 2015; Hjørland, 2017).
Trata-se de uma organização social que estabelece a ordenação e a limitação dos processos de comunicação em um determinado domínio. É no interior das comunidades discursivas que se configuram as linguagens, os conceitos e significados. Elas moldam as ferramentas, as estruturas de informação, bem como as necessidades e os critérios de relevância. Assim, elas consolidam os significados e a hierarquização dos termos, tendo em vista que elas definem os seus próprios parâmetros de terminologias, pertinência e relevância. (Amorim; Café, 2016).
Swales (2017) enfatiza oito critérios para reconhecer essas comunidades: objetivos comuns; mecanismos de comunicação
interna; participações ativas em ações, atividades e feedback; uso de gêneros na promoção de seus objetivos comunicativos; léxico específico; presença de membros experientes; desenvolvimento de entendimentos tácitos; e horizontes de expectativas. Nesse sentido, as comunidades discursivas delimitam o domínio de conhecimento, definem conceitos e significados a partir de terminologias próprias que expressam seus compromissos ontológicos, epistemológicos e sociológicos.
Em relação ao conceito de discurso, adota-se a concepção do linguista britânico Fairclough (2016), que compreende o discurso como linguagem em uso. Nessa concepção, o discurso é uma prática social; uma forma de ação pela qual os sujeitos podem atuar sobre o mundo e, especialmente, sobre os outros. E, um modo de representação e significação do mundo.
Fairclough (2016) destaca o caráter dialético do discurso em sua relação com a estrutura social. Nessa perspectiva, o discurso é ao mesmo tempo condicionado e limitado pelas estruturas sociais, mas também exerce um papel constitutivo, na medida em que contribui para formar todas as dimensões da estrutura social que, direta ou indiretamente, o moldam e o restringe. Isso significa que o discurso pode atuar tanto na reprodução do mundo como ele é, quanto na sua transformação.
Esses três conceitos constituem a base teórico e analítica que orientará a delimitação da temática LGBTQIAPN+ nas próximas seções.
DOMÍNIO LGBTQIAPN+: DA CISHETERONORMATIVIDADE À DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO
O discurso da cisheteronormatividade7 pode ser compreendido enquanto um conjunto de enunciados que se articularam a partir da modernidade ocidental para instituir o padrão binário de gênero e a heterossexualidade enquanto norma. Durante muito tempo, esse discurso buscou enquadrar o gênero na lógica binária e reduzir o sexo à sua função reprodutiva.
Contudo, outras abordagens e perspectivas também contribuem para a consolidação do campo, mobilizando diferentes conceitos teóricos na tentativa de compreender as dinâmicas de opressão, silenciamento e apagamento que incidem sobre a diversidade sexual e de gênero. Dentre essas contribuições destacam-se o “dispositivo de sexualidade” de Foucault (1988); o “sistema sexo/gênero” de Rubin (2017); o “pensamento heterossexual” de Wittig (2022); a “heterossexualidade compulsória” de Rich (2010); a “matriz heterossexual e a performatividade do gênero” de Butler (2022); a “colonialidade de gênero” de Lugones (2020); e as “perspectivas transfeministas”, conforme desenvolvidas por Jesus (2012; 2019) e Sartor e Jesus (2022), entre outras.
A concepção de mundo cisheteronormativa produz um duplo efeito sobre as identidades sexuais e de gênero: por um lado, opera pela invisibilidade das múltiplas experiências de ser e estar no mundo; por outro, relaciona a não-cisheterossexualidade com os conceitos de pecado, crime ou doença, produzindo diferentes efeitos no tecido social, tais como preconceito, estigmatização, discriminação, punição e violência de todos os tipos.
7 Conjunto crenças e normas socioculturais que partem da presunção do binarismo de gênero – masculino implica homem e feminino implica mulher – e da heterossexualidade naturalizada.
Nesse sentido, ao longo da história, diferentes termos e conceitos foram articulados para explicar e classificar os corpos dissidentes do sistema sexo/gênero, tais como “sodomia”, “pederastia”, “homossexualismo”, “hermafroditismo”, “transvestismo”, “travestismo”, “lesbianismo”, “trans-sexualismo”, “transexualismo”, entre outros termos de cunho moral, jurídico e médico.
Universalmente, a “patologização” desses corpos se materializou em diferentes dispositivos médico-psiquiátricos, tais como Manuais de transtornos mentais, Associações de Psiquiatria e Classificações Internacionais de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Com o advento dos direitos sexuais e de gênero, impulsionados sobretudo pelos movimentos feministas, gays, lésbicos, trans e queer, que emergem entre o final do século XIX e durante o século XX, abriu-se na sociedade um espaço mais amplo para reconfigurar as concepções sobre sexo, gênero e sexualidades. Esses processos foram decisivos para conferir maior visibilidade e reconhecimento às existências LGBTQIAPN+.
Nesse sentido, conforme apontam os estudos críticos do discurso, é importante destacar o caráter dialético do discurso, pois se por um lado a sociedade constitui o discurso, por outro, o discurso constitui a sociedade. Do mesmo modo, é necessário enfatizar o equilíbrio instável da relação discurso/hegemonia, pois hegemonias são produzidas, reproduzidas, transformadas e contestadas no discurso.
O discurso da diversidade sexual e de gênero, nesse contexto, pode ser compreendido como um conjunto de enunciados, práticas e
representações que emergem e se consolidam com o movimento LGBTQIAPN+ organizado8.
No contexto brasileiro, as práticas sociodiscursivas desse movimento, somadas aos avanços nos estudos de gênero e sexualidade e às correntes progressistas da sociedade, transformaram a ordem do discurso sobre os atores sociais LGBTQIAPN+ com diferentes implicações, tais como: o reconhecimento de direitos, a constituição e visibilidade de sujeitos, e a produção e disseminação de conhecimentos sobre as diversidades, entre outras implicações.
Do ponto de vista terminológico, existe uma multiplicidade de termos que precisam ser contextualizados nos SOCs. Nesse sentido, observa-se que não existem categorias universais capazes de representar a multiplicidade de gênero e sexualidade A própria constituição da sigla9 tem uma multiplicidade de denominações, o que confirma o caráter de pluralidade e fluidez que atravessa o campo das identidades.
Essa complexidade constitui um desafio para a construção dos SOCs, pois exige perspectivas críticas e sensíveis às dinâmicas sociais de construção das identidades.
MÉTODOS
A pesquisa em desenvolvimento configura-se como um estudo exploratório de abordagem qualitativa, fundamentado nos pressupostos teóricos e metodológicos da Análise de Domínio, com
8 Movimento social e político em defesa da diversidade sexual e de gênero.
9 No contexto brasileiro, diferentes acrônimos foram ou ainda são utilizados para representar as identidades sexuais e de gênero, tais como: MHB, GLT, GLTTT, GLBT, LGBT, LGBTI+, LGBTQIA+, LGBTQIAPN+, entre outras siglas que refletem a pluralidade de identidades dissidentes da cisheteronormatividade.
ênfase na compreensão crítica e situada da diversidade sexual e de gênero.
A publicação apresenta recortes de uma pesquisa em andamento no doutorado em Ciência da Informação (CI), cujo objetivo é construir um modelo metateórico voltado à prototipagem de tesauros específicos para o domínio LGBTQIAPN+. Nesse sentido, a pesquisa adota o referencial teórico das perspectivas críticas em organização do conhecimento, os aportes dos estudos de gênero e sexualidade e o potencial teórico-analítico da Análise de Domínio.
Quanto aos procedimentos, a pesquisa se caracteriza como bibliográfica e documental, pois busca articular um conjunto de obras teóricas, publicações científicas, documentos e produções político-discursivas para caracterizar o domínio de investigação e subsidiar a construção do modelo metateórico.
Os materiais bibliográficos e documentais foram extraídos de fontes de informação científica e acadêmica10 e de páginas institucionais de organizações do movimento social LGBTQIAPN+11. A seleção das fontes baseou-se em critérios de relevância temática, reconhecimento social, institucional e pertinência para a representação da diversidade sexual e de gênero, articulados às noções de garantia cultural e garantia ética. A relevância e a pertinência foram consideradas como critérios distintos e
10 Base de Dados Referenciais de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI); Portal de Periódicos da CAPES; Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD): Google Acadêmico e Repositórios institucionais. 11 Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT); Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA); Associação Brasileira Intersexo (ABRAI); Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura (ABETH); Aliança Nacional LGBTI+ e Observatório Brasileiro LGBTI+.
complementares, sendo a primeira relacionada à aderência dos documentos ao domínio LGBTQIAPN+ e a segunda ao seu potencial de contribuir para a construção conceitual e terminológica. O reconhecimento social funciona como estratégia de efetivação da garantia cultural, ao assegurar a incorporação de saberes situados e contextualmente produzidos. A garantia ética, por sua vez, orienta a inclusão e o protagonismo epistêmico de sujeitos LGBTQIAPN+.
DELIMITAÇÃO DO DOMÍNIO LGBTQIAPN+
Conforme sintetizado na Figura 1, a pesquisa caracteriza a temática LGBTQIAPN+ enquanto domínio do conhecimento, compreendendo o movimento LGBTQIAPN+ brasileiro como comunidade específica que produz discursos sobre a pluralidade de identidades sexuais e de gênero, os quais se materializam nas terminologias através de termos, conceitos e definições.
O domínio LGBTQIAPN+ pode ser descrito como um campo dinâmico, complexo, transdisciplinar e em constante transformação, constituído por teorias, práticas, termos, conceitos e categorias que abordam a diversidade de identidades, realidades e experiências. Esse domínio articula perspectivas sobre a pluralidade de identidades, construídas a partir de diferentes campos, tais como estudos de gênero, estudos gays, lésbicos, trans e queer, dentre outros relacionados às dissidências sexuais e de gênero.
O Movimento LGBTQIAPN+ como comunidade discursiva reúne coletivos e grupos sociais que constroem, mobilizam e compartilham linguagens, perspectivas e práticas diversas. Essa comunidade tem elaborado saberes situados sobre gênero e sexualidade, reivindicando o reconhecimento político, epistêmico e ontológico. Os conhecimentos e saberes produzidos nesse contexto articulam vocabulários específicos que desafiam as estruturas classificatórias tradicionais. A terminologia advinda desse domínio constitui o vocabulário de referência para a elaboração de uma estrutura conceitual que será desenvolvida ao longo da pesquisa.
A partir desse entendimento, e considerando a configuração metodológica de Análise de Domínio apresentada por Tennis (2003), foi possível estabelecer uma proposta de delimitação para o domínio LGBTQIAPN+, cuja síntese está apresentada no Quadro 1:
DOMÍNIO LGBTQIAPN+ | |
ELEMENTOS FORMAIS | DESCRIÇÃO |
Definição | O domínio LGBTQIAPN+ constitui-se como campo dinâmico, complexo e transdisciplinar, em que discursos, teorias, práticas, e lutas políticas se articulam para compreender, legitimar e representar a diversidade sexual e de gênero. |
Escopo e Alcance (elementos estruturantes que delimitam o domínio) | Nome: adota o acrônimo LGBTQIAPN+ como termo representativo do domínio em análise. Extensão: abrange contribuições teóricas, ativistas e institucionais que tensionam o discurso cisheteronormativo, incorporando categorias que reconhecem e legitimam a pluralidade de identidades e experiências. Exclusão: Fica excluída da análise qualquer abordagem patologizante, estigmatizante ou que reduz a diversidade sexual e de gênero à categorias normativas. Especialização: a análise desse domínio se situa no cruzamento entre os campos da OC, dos estudos de gênero e sexualidade e das epistemologias críticas do discurso. O foco recai sobre a terminologia produzida e/ou legitimada no interior do movimento LGBTQIAPN+ e sua representação em instrumentos documentários, a partir de uma perspectiva brasileira. Esse domínio se posiciona de modo transversal em relação a outros domínios, tais como: histórico, jurídico, educacional, biomédico, político-social, entre outros que influenciam a produção, circulação e legitimação de termos e conceitos relacionados às identidades dissidentes. |
Propósito | Desenvolver uma análise descritiva (pesquisa teórica) e instrumental (aplicação prática), voltada a profissionais da informação, com o objetivo de construir uma base conceitual que contribua com a elaboração de linguagens de indexação orientadas pela ética inclusão e sensíveis à complexidade da temática LGBTQIAPN+ No plano descritivo, busca compreender como o domínio se estrutura enquanto um corpo de conhecimento. No plano instrumental, visa subsidiar a construção de instrumentos de representação, e de um modelo metateórico para prototipagem de tesauros críticos e situados na temática LGBTQIAPN+. |
A sistematização do Quadro 1 permite visualizar os contornos conceituais, a extensão, a exclusão e os propósitos do domínio em
análise, construindo uma base analítica preliminar para orientar a caracterização do domínio analisado.
Essa delimitação oferece os fundamentos necessários para a elaboração do modelo teórico (Quadro 2) que será desenvolvido ao longo da pesquisa. A proposta desse modelo tem como finalidade incorporar princípios éticos e culturais de representação, estabelecer estratégias para redução de vieses e definir critérios para avaliação de adequação dos termos, de modo a garantir uma organização do conhecimento sensível às especificidades do domínio LGBTQIAPN+.
Definição do problema | Como incorporar o domínio LGBTQIAPN+ nas linguagens de indexação, levando em conta o caráter contextual, flexível e instável que atravessa a construção conceitual e terminológica das diversidades sexuais e de gênero? |
Finalidade do modelo | Incorporar princípios éticos e culturais de representação, definir estratégias para a redução de vieses e o estabelecimento de critérios para adequação terminológica que norteie a construção de tesauros sensíveis às especificidades do domínio LGBTQIAPN+. |
Abordagens teóricas e metodológicas | Perspectivas críticas em organização do conhecimento, análise de domínio, estudos de gênero, estudos gays, lésbicos e trans, teoria queer, teoria feminista e teoria do discurso. |
Conceitos teóricos | Categorias normativas (revelam os mecanismos de poder e dominação): dispositivo de sexualidade; sistema sexo/gênero; heterossexualidade compulsória; pensamento hetero; performatividade de gênero; heteronormatividade; cisnormatividade; cisheteronormatividade. |
Categorias afirmativas (reconhecem e legitimam a pluralidade de identidades e experiências LGBTQIAPN+): identidade sexual e de gênero; expressão de gênero; orientação sexual; diversidade sexual e de gênero. | |
Categorias organizadoras | Identidade sexual e de gênero; identidade de gênero; expressão de gênero; orientação sexual; corpo; sexualidade; direito/política/instituição; educação e cultura; saúde, ativismo/coletivo/movimento social. |
Autores | Atores sociais e coletivos que, a partir de suas práticas e posicionamentos, discutem, tensionam e produzem conhecimento em torno da temática LGBTQIAPN+. |
Princípios orientadores | Garantia ética; garantia cultural; diversidade sexual e de gênero e autodeterminação. |
Aplicabilidade | Desenvolvimento de tesauros situados no domínio LGBTQIAPN+. |
A sistematização do Quadro 2 evidencia os fundamentos conceituais, éticos e políticos para a prototipagem de tesauros situados, oferendo uma base teórica e metodológica para orientar a construção de instrumentos de indexação voltados ao domínio LGBTQIAPN+.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O artigo enfatiza o caráter discursivo dos sistemas de organização do conhecimento, apresentando recortes de uma investigação em curso, cujo objetivo é construir um modelo metateórico para prototipagem de tesauros situados no domínio LGBTQIAPN+.
A proposta destaca a importância de uma abordagem crítica e sensível à diversidade sexual e de gênero, tendo em vista o caráter contextual, flexível e instável que atravessa a construção conceitual e terminológica nesse domínio de investigação.
Historicamente, as identidades sexuais e de gênero foram representadas a partir de uma ótica heteronormativa e colonial de feições universalizantes, que gerou vieses, assimetrias e distorções nos esquemas de representação do conhecimento. Nesse sentido, a compreensão de “domínio” aliada ao uso crítico da linguagem não apenas busca romper com os discursos discriminatórios cristalizados nos sistemas de representação, mas, também, pode consolidar uma inscrição da dignidade, da inclusão e da não discriminação nos
discursos da OC, com implicações positivas para a construção de sistemas mais inclusivos em diversos contextos de atuação.
Em suas etapas subsequentes, a pesquisa dedicará esforços ao aprimoramento do corpus terminológico, à modelagem conceitual e à implementação em ambiente computacional. Na sequência, o instrumento será submetido a um processo de validação que envolverá tanto especialistas da informação quanto atores sociais e coletivos LGBTQIAPN+, de modo a garantir sua robustez epistemológica, sua adequação técnica e sua sensibilidade e pertinência cultural e política.
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