A função social das bibliotecas públicas no acesso à cidadania LGBTQIAPN+: uma leitura a partir da Biblioteconomia Social
The social function of public libraries in access to LGBTQIAPN+ citizenship: a reading from the perspective of social library science
La función social de las bibliotecas públicas en el acceso a la ciudadanía LGBTQIAPN+: una lectura desde la perspectiva de la bibliotecología social
La fonction sociale des bibliothèques publiques dans l'accès à la citoyenneté LGBTQIAPN+ : une lecture à partir de la bibliothéconomie sociale
Correspondência
Autor para correspondência. André Luiz Avelino da Silva. E-mail: andre_luiz93@live.com
Submetido em: 09/09/2025 Aceito em: 18/12/2025 Publicado em: 30/12/2025
1 Doutorando em Ciência da Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 2 Doutorando em Ciência da Informação no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 3 Doutor. Professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
O artigo analisa a função social das bibliotecas públicas no acesso à cidadania da população LGBTQIAPN+, a partir da perspectiva da Biblioteconomia Social. Considera-se que essas instituições, ao garantirem acesso à informação, cultura e espaços de convivência, podem atuar como instâncias de inclusão, representatividade e combate às desigualdades sociais. Todavia, enfrentam desafios como a precarização, a invisibilidade e a ausência de políticas voltadas às demandas de grupos historicamente marginalizados. O objetivo é compreender de que modo as bibliotecas públicas podem promover o acesso à cidadania LGBTQIAPN+, propondo diretrizes práticas para políticas, serviços e acervos inclusivos. Busca-se consolidar uma biblioteconomia crítica, interseccional e socialmente comprometida, orientada pela equidade, diversidade e justiça social. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa exploratória, de caráter básico, fundamentada em revisão narrativa de literatura. Foram analisados documentos internacionais como os Manifestos da IFLA/UNESCO (1994; 2022) e produções científicas brasileiras e latino-americanas sobre biblioteconomia social, cidadania e direitos LGBTQIAPN+. A análise crítica integrou perspectivas normativas e empíricas, interpretadas à luz de um referencial crítico-social da Biblioteconomia e da Ciência da Informação. Conclui-se que as bibliotecas públicas possuem grande potencial como espaços de emancipação e cidadania LGBTQIAPN+, desde que orientadas por princípios éticos e políticos comprometidos com os direitos humanos. Destacam-se como práticas estratégicas: políticas de acolhimento, acervos inclusivos, linguagem não patologizante, formação continuada, parcerias com movimentos sociais e criação de ambientes seguros. Assim, reafirma-se o papel das bibliotecas públicas como agentes de transformação social e de fortalecimento da cidadania, alinhadas às diretrizes da IFLA/UNESCO e à Biblioteconomia Social.
This article analyzes the social function of public libraries in providing access to citizenship for the LGBTQIAPN+ population, from the
perspective of Social Librarianship. It is considered that these institutions, by guaranteeing access to information, culture, and social spaces, can act as instances of inclusion, representation, and combating social inequalities. However, they face challenges such as precariousness, invisibility, and the lack of policies focused on the demands of historically marginalized groups. The objective is to understand how public libraries can promote access to LGBTQIAPN+ citizenship, proposing practical guidelines for inclusive policies, services, and collections. The aim is to consolidate a critical, intersectional, and socially committed librarianship, guided by equity, diversity, and social justice. Methodologically, this is exploratory, basic research, based on a narrative literature review. International documents such as the IFLA/UNESCO Manifestos (1994; 2022) and Brazilian and Latin American scientific productions on social librarianship, citizenship, and LGBTQIAPN+ rights were analyzed. The critical analysis integrated normative and empirical perspectives, interpreted in light of a critical-social framework of Library Science and Information Science. The conclusion is that public libraries have great potential as spaces for LGBTQIAPN+ emancipation and citizenship, provided they are guided by ethical and political principles committed to human rights. Strategic practices include welcoming policies, inclusive collections, non-pathologizing language, continuing education, partnerships with social movements, and the creation of safe environments. This reaffirms the role of public libraries as agents of social transformation and citizenship strengthening, aligned with IFLA/UNESCO guidelines and Social Librarianship.
Este artículo analiza la función social de las bibliotecas públicas en el acceso a la ciudadanía para la población LGBTQIAPN+, desde la perspectiva de la Bibliotecología Social. Se considera que estas instituciones, al garantizar el acceso a la información, la cultura y los espacios sociales, pueden actuar como instancias de inclusión, representación y combate a las desigualdades sociales. Sin embargo, enfrentan desafíos como la precariedad, la invisibilidad y la falta de políticas enfocadas en las demandas de grupos históricamente marginados. El objetivo es comprender cómo las bibliotecas públicas pueden promover el acceso a la ciudadanía LGBTQIAPN+, proponiendo directrices prácticas para políticas, servicios y colecciones inclusivas. El objetivo es consolidar una bibliotecología crítica, interseccional y socialmente comprometida,
guiada por la equidad, la diversidad y la justicia social. Metodológicamente, se trata de una investigación exploratoria básica, basada en una revisión narrativa de la literatura. Se analizaron documentos internacionales como los Manifiestos IFLA/UNESCO (1994; 2022) y la producción científica brasileña y latinoamericana sobre bibliotecología social, ciudadanía y derechos LGBTQIAPN+. El análisis crítico integró perspectivas normativas y empíricas, interpretadas a la luz de un marco crítico-social de la Bibliotecología y las Ciencias de la Información. La conclusión es que las bibliotecas públicas tienen un gran potencial como espacios para la emancipación y la ciudadanía de las personas LGBTQIAPN+, siempre que se guíen por principios éticos y políticos comprometidos con los derechos humanos. Se destacan como prácticas estratégicas: políticas de acogida, colecciones inclusivas, lenguaje no patologizante, formación continua, alianzas con movimientos sociales y la creación de entornos seguros. De esta forma, se reafirma el papel de las bibliotecas públicas como agentes de transformación social y fortalecimiento de la ciudadanía, en consonancia con las directrices de la IFLA/UNESCO y la Bibliotecología Social.
Cet article analyse le rôle social des bibliothèques publiques dans l'accès à la citoyenneté de la population LGBTQIAPN+, du point de vue de la bibliothéconomie sociale. Il considère que ces institutions, en garantissant l'accès à l'information, à la culture et à des espaces de convivialité, peuvent agir comme des instances d'inclusion, de représentativité et de lutte contre les inégalités sociales. Cependant, elles sont confrontées à des défis tels que la précarité, l'invisibilité et l'absence de politiques axées sur les demandes des groupes historiquement marginalisés. L'objectif est de comprendre comment les bibliothèques publiques peuvent promouvoir l'accès à la citoyenneté LGBTQIAPN+, en proposant des lignes directrices pratiques pour des politiques, des services et des collections inclusifs. L'objectif est de consolider une bibliothéconomie critique, intersectionnelle et socialement engagée, guidée par l'équité, la diversité et la justice sociale. Sur le plan méthodologique, il s'agit d'une recherche exploratoire, de nature fondamentale, fondée sur une revue narrative de la littérature. Des documents internationaux tels que les Manifestes de l'IFLA/UNESCO (1994 ; 2022) et des productions scientifiques brésiliennes et latino-américaines sur la
bibliothéconomie sociale, la citoyenneté et les droits LGBTQIAPN+ ont été analysés. L'analyse critique a intégré des perspectives normatives et empiriques, interprétées à la lumière d'un référentiel critique et social de la bibliothéconomie et des sciences de l'information. Il est conclu que les bibliothèques publiques ont un grand potentiel en tant qu'espaces d'émancipation et de citoyenneté LGBTQIAPN+, à condition qu'elles soient guidées par des principes éthiques et politiques engagés en faveur des droits humains. Les pratiques stratégiques suivantes sont mises en avant : politiques d'accueil, collections inclusives, langage non pathologisant, formation continue, partenariats avec des mouvements sociaux et création d'environnements sûrs. Ainsi, le rôle des bibliothèques publiques en tant qu'agents de transformation sociale et de renforcement de la citoyenneté, conformément aux directives de l'IFLA/UNESCO et à la bibliothéconomie sociale, est réaffirmé.
INTRODUÇÃO
As bibliotecas públicas exercem um papel essencial na promoção da inclusão social e da diversidade, especialmente no que diz respeito à população LGBTQIAPN+4. Como espaços de livre acesso à informação e à cultura, essas instituições têm o potencial de se tornarem ambientes acolhedores, capazes de oferecer representatividade, fortalecer a cidadania e disponibilizar recursos informacionais relevantes. Ao adotarem diretrizes propostas por organizações e grupos especializados, as bibliotecas podem se consolidar como espaços de acolhimento e empoderamento para pessoas de todas as orientações sexuais e identidades de gênero.
A incorporação de materiais que representem as vivências e histórias da população LGBTQIAPN+ em seus acervos é um passo
4 Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais, Transgêneros, Queers, Intersexos, Assexuais, Agêneros, Aliados, Pansexuais, Polissexuais, pessoas Não-Bináries e demais identidades e vivências sexuais e de gênero (Vanin, 2024, p. 29)
fundamental para ampliar a visibilidade e a representatividade dessa comunidade. Essa prática possibilita que indivíduos LGBTQIAPN+ se reconheçam na literatura e na cultura, contribuindo para a construção de identidades positivas e saudáveis, além de garantir o acesso pleno à cidadania.
Nesse sentido, conforme destaca Marques (2018, p. 26), o trabalho bibliotecário voltado à diversidade pode promover a cidadania ao assegurar práticas democráticas e inclusivas aos usuários. Atividades como exposições, rodas de conversa e oficinas literárias também atuam como ferramentas eficazes no combate a estereótipos e à discriminação. Assim, a presença de livros, filmes e outros recursos que abordem questões LGBTQIAPN+ nas bibliotecas é uma forma concreta de afirmar a existência, a dignidade e a importância desses sujeitos na sociedade.
Além disso, é fundamental que as bibliotecas se empenhem na construção de ambientes verdadeiramente acolhedores e inclusivos. Para isso, é essencial investir na capacitação de seus profissionais, por meio de treinamentos que promovam o respeito à diversidade e a compreensão das especificidades das vivências LGBTQIAPN+. Da mesma forma, a implementação de políticas institucionais que incentivem o respeito, a equidade e a aceitação contribui significativamente para que todas as pessoas, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero, sintam-se seguras, valorizadas e respeitadas ao frequentar esses espaços.
Essa perspectiva conecta-se à noção de Biblioteconomia Social, definida como uma filosofia e ação dentro da Ciência da Informação que reivindica uma biblioteconomia crítica e comprometida socialmente, tanto na teoria como na prática (Civallero, 2013; Lindemann; Spuidet; Corrêa, 2016). Nesse sentido,
como destacam Tanus e Silva (2019), não basta a competência técnica, é necessário assumir uma postura política e ética frente às demandas das comunidades marginalizadas, o que inclui reconhecer suas necessidades informacionais específicas e garantir acesso pleno aos bens culturais e informacionais.
De acordo com Lindemann (2014), a Biblioteconomia Social se caracteriza por direcionar o exercício profissional para a aplicabilidade social, reconhecendo o potencial de contribuir e transformar rotinas tanto em comunidades desprovidas de bibliotecas quanto em contextos onde, mesmo havendo essas instituições, busca-se uma atuação centrada no usuário. Nessa perspectiva, as obras do conhecimento ultrapassam a mera organização nas estantes, passando a funcionar como instrumentos próximos e acessíveis, capazes de apoiar a educação e fortalecer a participação nos debates e questões sociais.
As bibliotecas, enquanto espaços de acesso democrático à informação e à cultura, também exercem um papel social relevante na promoção da igualdade de direitos e no fortalecimento do respeito à diversidade em todas as suas formas. No Manifesto da International Federation of Library Associations and Institutions5 (IFLA) e da United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization6 (UNESCO) (2022) sobre bibliotecas públicas consta que
A liberdade, a prosperidade e o desenvolvimento social e individual são valores humanos fundamentais. Tais valores só vão ser alcançados por meio da capacidade de cidadãos bem informados exercerem seus direitos democráticos e desempenharem um papel ativo na sociedade. A participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem de uma educação de qualidade e
5 Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias, em português.
6 Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em português.
do acesso livre e ilimitado ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação (IFLA; UNESCO, 2022, p. 01)
Essa relação entre bibliotecas públicas e democracia é igualmente defendida por Betancour (1997), ao afirmar que não há democracia sem participação, e que não se participa plenamente sem informação suficiente e pertinente. A biblioteca pública, portanto, é um “espaço público que ajuda à construção cidadã participativa” (Ramos, 2015, p. 50, tradução nossa), o que exige que ela esteja atenta à diversidade cultural e aos direitos humanos.
Para isso, ao fornecer informações precisas e atualizadas sobre questões relacionadas à população LGBTQIAPN+, as bibliotecas se tornam uma fonte valiosa de conscientização e compreensão desses temas. Esses recursos informacionais contribuem para o empoderamento da comunidade, permitindo que seus membros participem ativamente na sociedade, superem preconceitos e estigmas e tenham acesso a informações sobre direitos, saúde, cidadania, história e cultura LGBTQIAPN+.
No entanto, é importante refletirmos para o que nos alertam Vanin e Oliveira (2019, p. 337)
As bibliotecas públicas no contexto brasileiro muitas vezes são ambientes sucateados, subestimados, subentendidos, precarizados, com serviços e acervos que não representam seu potencial. Potencial este de ser um ambiente capaz de reunir e tratar as ideias acumuladas ao longo do tempo, as mais diversas, consoantes e divergentes entre si, para animá-las no encontro com a comunidade que é diversa. Têm potencial de provocar as pessoas para pensar sua condição e do mundo, auxiliá-las na solução de seus problemas e melhorar sua condição de vida. Estão abertas e devem servir a todos, sem distinção.
Essa compreensão se alinha à proposta de uma biblioteconomia interseccional (Silva; Sales, 2024; Tanus, 2021), a qual reconhece que sistemas de opressão como racismo, sexismo,
classismo e LGBTQIAPN+fobias, não atuam de forma isolada, mas se interconectam estruturalmente, cabendo às bibliotecas desenvolverem práticas informacionais voltadas ao enfrentamento dessas desigualdades.
Portanto, neste artigo tem-se como objetivo analisar de que modo as bibliotecas públicas podem promover o acesso à cidadania da população LGBTQIAPN+, entendendo-as como espaços estratégicos para a representatividade, a inclusão e a garantia do direito à informação. Busca-se, assim, propor um conjunto de diretrizes práticas que orientem a formulação, a implementação e a avaliação de políticas, serviços e acervos voltados a essa comunidade. Pretende-se, então, contribuir para a consolidação de uma biblioteconomia social e interseccional, comprometida com a diversidade, a equidade e a justiça social.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa exploratória, de caráter básico, desenvolvida a partir de uma revisão narrativa de literatura, que possibilita a integração crítica de diferentes aportes teóricos e documentais. O estudo configura-se como um ensaio crítico fundamentado na análise documental de manifestos internacionais da área, como os Manifestos IFLA/UNESCO para bibliotecas públicas (1994; 2022) e nas literaturas científicas brasileiras e latino-americanas que abordam as relações entre biblioteconomia social, bibliotecas públicas, cidadania e populações LGBTQIAPN+. Essa abordagem permitiu articular perspectivas normativas e empíricas, interpretando-as à luz de um referencial crítico-social para a Biblioteconomia e para a Ciência da Informação.
BIBLIOTECAS PÚBLICAS: ESPAÇOS DE INCLUSÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
A biblioteca pública exerce um papel essencial como centro de acesso à informação, disponibilizando uma ampla gama de conhecimentos e recursos à comunidade. Trata-se de uma instituição imprescindível para sociedades fundamentadas no conhecimento, que precisa adaptar-se constantemente às novas formas de comunicação para cumprir sua missão de assegurar o acesso universal à informação e capacitar os indivíduos a utilizá-la de maneira crítica, significativa e transformadora.
Mais do que um repositório de livros, a biblioteca pública é espaço de produção, compartilhamento e intercâmbio de saberes e culturas. Ela contribui para o acesso, a inclusão social e a cidadania, enriquecendo a vida comunitária e fomentando a construção de uma sociedade mais informada e participativa. Suaiden (1995) já destacava que a biblioteca pública é um centro de educação permanente da pessoa, cuja interação com a comunidade se dá, sobretudo, pela difusão de informação como elemento central de integração social.
Com a evolução acelerada das tecnologias e a expansão das redes digitais, a biblioteca pública é chamada a acompanhar essas transformações de maneira proativa. Isso implica incorporar ferramentas digitais, disponibilizar acervos online e investir em recursos interativos para se manter relevante e atrativa a diferentes públicos. Entretanto, como apontam Almeida Júnior (1997) e Mostafa (1985), essa incorporação tecnológica não pode ser dissociada de uma prática humanista e crítica. É necessário “processualizar a informação”, isto é, recusar a separação positivista entre fato e valor, reconhecendo que todo fato humano é valorado e carregado de interesses.
Nesse sentido, o Manifesto IFLA/UNESCO para Bibliotecas Públicas (2022) orienta que os serviços sejam oferecidos “com base na igualdade de acesso para todos, independentemente de idade, etnia, sexo, religião, nacionalidade, idioma, condição social ou qualquer outra característica” (IFLA/UNESCO, 2022, p. 1). Essa diretriz abarca de maneira explícita os grupos sociais historicamente marginalizados, como a comunidade LGBTQIAPN+, povos indígenas, populações negras, migrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A biblioteca, nesse contexto, não apenas disponibiliza recursos, mas atua como mediadora de direitos e oportunidades.
O Manifesto (IFLA/UNESCO, 2022) também alinha a missão das bibliotecas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destacando ações como: fomentar o aprendizado ao longo da vida; promover a leitura desde a infância; apoiar a alfabetização midiática e digital; garantir o acesso ao conhecimento comunitário e científico; preservar saberes tradicionais e orais; favorecer o diálogo intercultural; e ampliar a participação cidadã. Ao cumprir essas funções, a biblioteca se torna um instrumento estratégico na promoção da justiça social e na redução das desigualdades.
Essa visão converge com a perspectiva da Biblioteconomia Social, conforme Civallero (2013) e Tello (2005), reforça que a biblioteca deve atuar como agente de transformação social, capaz de reconhecer e responder às necessidades de diferentes grupos sociais. Isso exige profissionais com formação crítica, conscientes de sua função política e preparados para enfrentar desigualdades estruturais. Como defende Almeida Júnior (1997, p. 92), “não basta espalharmos bibliotecas em cada quarteirão”, é preciso que o bibliotecário vá até a comunidade, trabalhe com o povo e reconheça
que seu trabalho pode alterar o status quo. Assim, a biblioteca pública não é neutra, ela atua em um “jogo dialético” (Tanus, 2017) para superar dicotomias como informados/desinformados, oprimidos/opressores, oferecendo a todos os cidadãos as ferramentas necessárias para o exercício pleno de seus direitos.
Em consonância, Chauí (2006) adverte que o papel das bibliotecas na contemporaneidade não se limita à garantia de acesso à informação, mas envolve a capacidade de mediar e contextualizar conteúdos de modo a potencializar benefícios coletivos, superando estruturas pré-definidas e contribuindo para a emancipação do cidadão como agente ativo, ou seja consumidor, produtor e disseminador de conhecimento e cultura. Integrar essas concepções às diretrizes do Manifesto IFLA/UNESCO (2022) significa pensar a biblioteca como instituição dinâmica e politicamente engajada, que transcende a função tradicional de repositório e se constitui em território de encontros, debates e produção de narrativas plurais.
A biblioteca pública deve ser um local democrático e de livre acesso à comunidade. Considerando o ambiente em que está inserida, busca-se ampliar os horizontes da população, oferecendo informações, cultura, lazer e interação para promover o contínuo desenvolvimento do conhecimento e o diálogo com as contradições existentes. Segundo Tanus (2017), a biblioteca, de forma simplificada, é uma coleção de livros organizados para aqueles que buscam leitura. No entanto, sua função vai além disso, pois, por meio da diversidade de discursos contraditórios e diferentes suportes de informação, ela desestabiliza a ordem formada por um discurso hegemônico.
Com o intuito de conciliar seu papel na comunidade com as funções essenciais desses espaços de construção coletiva e
individual, permeados por diversas culturas, as bibliotecas se consolidam como espaços diversos e plurais. De acordo com Gomes (2014), a biblioteca pública é tecida como um ambiente informacional com responsabilidade social não apenas na preservação do patrimônio cultural e informacional da humanidade, mas também como um espaço para a disseminação da diversidade cultural, expressão cultural e processos de apropriação da informação, geradores de criatividade, inovação e geração de significados.
Assim, a biblioteca pública, essencialmente, desempenha um papel na construção da cultura das comunidades que a cercam. De acordo com Almeida e Lima (2016), a relação entre biblioteca e cultura ocorre pela compreensão desses espaços como potências no desenvolvimento humano e como equipamentos culturais responsáveis pela preservação e mediação dos bens e manifestações informacionais e culturais em suas diversas formas. Sua função está alocada na construção da educação, democracia e cidadania dos indivíduos, sem distinções políticas, econômicas e sociais.
O Manifesto IFLA/UNESCO de 1994 já afirmava que "a participação construtiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória quanto de um acesso livre e ilimitado ao conhecimento, pensamento, cultura e informação" (IFLA; UNESCO, 1994, p. 01). Também destacava que a biblioteca pública, “porta de acesso local ao conhecimento”, oferece “as condições básicas para uma aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural dos indivíduos e grupos sociais” (IFLA; UNESCO, 1994, p. 1). Essa compreensão é reforçada pelo Ministério da Cultura, que a define como instituição democrática por excelência, agrupando e
proporcionando acesso aos registros do conhecimento e das ideias humanas (Brasil, 2010).
Eixo Temático | Documentos IFLA/UNESCO | Princípios da Biblioteconomia Social |
Direito à informação | Acesso livre e ilimitado ao conhecimento, pensamento, cultura e informação como base para democracia (1994). Igualdade de acesso para todos, independentemente de idade, etnia, gênero, religião, nacionalidade, idioma ou condição social (2022). | Garantia do acesso como direito humano e instrumento de transformação social. |
Função social | Biblioteca pública como “porta de acesso local ao conhecimento” e promotora do desenvolvimento cultural (1994). Biblioteca como mediadora de direitos, promotora da justiça social e redutora de desigualdades (2022). | Atuar como agente de transformação, especialmente para grupos historicamente marginalizados. |
Educação e aprendizado | Condições para aprendizagem contínua e tomada de decisão independente (1994). Fomento ao aprendizado ao longo da vida e promoção da alfabetização midiática e digital (2022). | Formação crítica e emancipadora, vinculando educação à cidadania. |
Diversidade cultural | Preservação e disseminação da cultura e da memória (1994). Preservação de saberes tradicionais, orais e indígenas; promoção do diálogo intercultural e da diversidade cultural (2022). | Valorização de diferentes formas de conhecimento e combate à hegemonia cultural. |
Participação comunitária | Envolvimento da comunidade como usuária e beneficiária dos serviços (1994). Participação ativa da comunidade na identificação, preservação e compartilhamento de materiais (2022). | Construção participativa dos serviços e protagonismo das comunidades. |
Tecnologia e inovação | Sem menção explícita relevante (1994). Uso de tecnologias digitais para ampliar acesso remoto a acervos, programas e serviços (2022). | Tecnologia como ferramenta crítica e contextualizada às necessidades sociais. |
Desafios e contradições | Ênfase no ideal democrático e na igualdade de acesso (1994). | Crítica ao uso ideológico da biblioteca |
Eixo Temático | Documentos IFLA/UNESCO | Princípios da Biblioteconomia Social |
Reconhecimento da necessidade de enfrentar desigualdades estruturais (2022). | para manutenção de poderes hegemônicos. |
Júnior (1997), Tello (2005), Tanus (2017) – Elaborado pelos Autores (2025).
A partir do quadro 1, é possível observar como os documentos da IFLA/UNESCO dialogam com os princípios da Biblioteconomia Social, reforçando o papel das bibliotecas públicas como espaços de promoção de direitos, educação e participação comunitária. Os manifestos da IFLA/UNESCO (1994; 2022) enfatizam o acesso livre e igualitário à informação, a função social das bibliotecas como mediadoras culturais e promotoras da justiça social, a preservação da diversidade cultural e o incentivo à participação da comunidade. Esses princípios convergem com a proposta da Biblioteconomia Social, que vê o acesso à informação como direito humano e instrumento de transformação social, relaciona educação e aprendizado à formação crítica e emancipadora, valoriza saberes subalternizados e atua de forma participativa junto às comunidades, especialmente aquelas historicamente marginalizadas. Além disso, a introdução das tecnologias digitais e a crítica às desigualdades estruturais refletem a necessidade de um uso consciente da biblioteca, que não apenas amplie o acesso, mas também promova a equidade e combata a manutenção de poderes hegemônicos. Dessa forma, os manifestos e os princípios da Biblioteconomia Social se articulam, mostrando que a biblioteca pública é simultaneamente espaço de aprendizagem, de preservação cultural e de engajamento social.
Ao longo do tempo, esses princípios apontam para a biblioteca e para bibliotecárias (es)(os) como ferramenta de desenvolvimento do capital social (Maciel Filho et al., 2010) tanto no desenvolvimento de atividades essenciais, como leitura, empréstimo, pesquisa e uso de tecnologias da informação quanto na promoção de encontros, acesso livre e gratuito e formação continuada. Essas atividades promovem mudanças de pensamento, comportamento e acepção da construção das identidades, além de contribuírem para a valoração da cidadania plena de toda a sociedade.
Entretanto, como observa Almeida Júnior (1997), a biblioteca também pode ser utilizada ideologicamente para manter o controle social, funcionando como aparelho ideológico do Estado e privilegiando o conhecimento, a cultura e a memória das classes dominantes. Essa contradição revela o desafio de combater a exclusão social quando nem sempre suas funções estão voltadas para as necessidades reais da comunidade. Por isso, a biblioteca pública contemporânea precisa reafirmar seu compromisso ético e político, atuando como espaço democrático de construção coletiva e de enfrentamento às desigualdades, de modo a efetivar o direito à informação como instrumento de cidadania e transformação social.
ENTRE PORTAS ABERTAS E BARREIRAS INVISÍVEIS: O ACESSO À CIDADANIA
Ao tratarmos do acesso à cidadania, surgem questionamentos importantes, como: cidadania para quem? É fundamental compreender esse conceito para entender como ele impacta grupos sociais historicamente marginalizados, como a população
LGBTQIAPN+, e de que maneira as bibliotecas públicas se inserem nesse debate.
A cidadania está vinculada aos direitos e deveres dos indivíduos enquanto membros de uma sociedade organizada a partir de um projeto político, seja em nível nacional, estadual ou municipal. Nesse contexto, para que uma pessoa seja reconhecida como cidadã de determinado local, é necessário que cumpra certos deveres. Por exemplo, para participar das eleições de uma cidade, é preciso possuir documentos como o Registro Geral (RG) e o título de eleitor. Assim, percebe-se que há um conjunto de regras que confere ao indivíduo a prerrogativa de participar de decisões, como o processo eleitoral, que impactam diretamente sua vida enquanto integrante daquela sociedade.
Nessa perspectiva, o acesso aos direitos e, consequentemente, o exercício da cidadania, é determinado pelo Estado, que, por meio de normas e regras, estabelece quem poderá ou não usufruir da cidadania. Assim, aqueles que conseguem atender às exigências estabelecidas têm acesso aos seus direitos e à cidadania, enquanto aqueles que, por algum motivo, não conseguem cumprir essas normas permanecem à margem, excluídos do pleno exercício da cidadania.
Nesse sentido, Soares (2013) destaca que o conceito de cidadania não é fixo nem universal, pois está intrinsecamente ligado ao Estado, sendo cada nação responsável por definir o que entende por cidadania. A autora afirma, portanto, que a cidadania é uma construção de ordem jurídica e política, regulada por decisões estatais que determinam os direitos e deveres vinculados a esse status.
Em vista disso, Ramacciotti e Calgaro (2021, p. 6) afirmam que a cidadania como algo integral para as pessoas
[...] ganhou força no contexto dos Estados democráticos, colocando na pauta das reflexões teóricas e da prática social o problema das desigualdades e das exclusões de grande parte da população mundial, que vivia em situação de subjugação, exploração e violência [...].
Assim sendo, percebe-se que a cidadania nem sempre é acessada de forma igual por todos. No território brasileiro, o principal documento que serve de base para a definição da cidadania é a Constituição Federal de 1988, a qual estabelece como um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito à cidadania, ao lado da dignidade humana e da soberania (Brasil, 1988). A partir desse pressuposto, é na Constituição que se encontram definidos todos os direitos e deveres no território brasileiro, elementos que compõem as características da cidadania vigente na nação. Entre esses direitos, destacam-se os direitos sociais, os quais abrangem: “[...] direito à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, à moradia, ao transporte, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteção à maternidade e à infância e à assistência aos desamparados [...]” (Brasil, 1988, p. 6).
Isto posto, embora a Constituição seja um dos documentos que organizam os direitos e deveres necessários ao exercício da cidadania no Brasil, ela não é um documento fixo ou imutável. À medida que a sociedade avança em aspectos sociais, ambientais, econômicos, tecnológicos, entre outros, novos direitos e deveres precisam ser reconhecidos. Isso não ocorre de maneira passiva: os movimentos sociais desempenham um papel central nesse processo. Se, no passado, mulheres não tinham o direito de votar, de se separar legalmente de seus maridos ou sequer de ter voz pública, essa realidade foi transformada ao longo do tempo. Essas mudanças
ocorreram principalmente graças à atuação dos movimentos feministas, que, por meio de reivindicações, manifestações e lutas, conquistaram direitos fundamentais como o direito ao voto (Pinto, 2010). Dessa forma, é o Estado, pressionado por diálogos, tensões, rupturas e lutas sociais, que vai estabelecendo novos direitos conforme as demandas específicas de cada época.
Portanto, é possível observar que os direitos que compõem a cidadania estão em constante transformação, sendo construídos por meio da atuação da sociedade civil organizada, representada pelos movimentos sociais e grupos de ativismo, em diálogo com o Estado. Essa dinâmica é igualmente observada nos movimentos LGBTQIAPN+, que também reivindicam o acesso à cidadania plena para as pessoas pertencentes a esse grupo social.
Dando continuidade à discussão sobre cidadania, Ramacciotti e Calgaro (2021) apontam que, mesmo nas sociedades modernas, onde se iniciou a construção de direitos baseados nas demandas populares, nem toda a população teve acesso à cidadania. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, apenas grandes proprietários de terras gozavam plenamente dos direitos civis e políticos. Já os trabalhadores assalariados, maioria da população, só passaram a exercer participação política a partir do século XIX (Ramacciotti; Calgaro, 2021).
Dessa forma, assim como Pinto (2010) destaca a luta das mulheres pelo acesso à cidadania, Ramacciotti e Calgaro (2021) evidenciam a exclusão histórica dos assalariados, demonstrando que nem todas as pessoas conseguem usufruir dos direitos definidos pelo próprio Estado. A participação política, como o direito ao voto, é apenas um exemplo das diversas barreiras que dificultam o exercício
pleno da cidadania, as quais variam de acordo com o grupo social ao qual a pessoa pertence.
Grupos historicamente marginalizados, como a população LGBTQIAPN+, ainda enfrentam a exclusão de direitos, inclusive de direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988, nas áreas da educação, moradia, saúde, entre outras. A ausência de acesso a esses direitos básicos os coloca em situação de vulnerabilidade social, demandando ações de apoio e acolhimento para garantir sua sobrevivência e dignidade.
Nesse contexto, Silva, Vitorino e Pissango (2022) discutem as casas de acolhimento voltadas para a população LGBTQIAPN+, destacando que muitas delas são geridas por movimentos sociais. Essas casas têm como objetivo garantir acesso à moradia e enfrentar as diversas vulnerabilidades vivenciadas por esse grupo historicamente marginalizado. Embora o direito à moradia esteja previsto na Constituição como um direito básico e essencial ao exercício da cidadania, muitas pessoas LGBTQIAPN+ acabam sendo expulsas de casa, encontrando apoio nos movimentos sociais para se reintegrarem à sociedade.
Em suma, a falta de acesso à moradia é apenas uma das diversas formas de exclusão que comprometem o exercício da cidadania pela população LGBTQIAPN+. A dificuldade de acesso à educação e à empregabilidade também compõe esse cenário de exclusão. Diante disso, a biblioteca pública, enquanto espaço de acesso à informação, pode atuar na contramão da vulnerabilidade social, contribuindo com o fortalecimento da cidadania para esse grupo social marginalizado.
Embora a biblioteca pública não tenha como resolver diretamente questões como a falta de moradia, ela pode estabelecer
parcerias com casas de acolhimento, desenvolver ações educativas e culturais voltadas a essa população, além de servir como um ponto de informação sobre os serviços disponíveis, incluindo orientações sobre como acessá-los.
Assim, no ambiente das bibliotecas, é possível pensar em estratégias de colaboração com movimentos sociais, a fim de contribuir com o acesso à cidadania da população LGBTQIAPN+. Silva, Vitorino e Pissango (2022), ao discutirem as casas de acolhimento e o acesso à cidadania para esse grupo, evidenciam a ausência do Estado na efetivação desses direitos, deixando uma lacuna significativa a ser preenchida.
GRUPOS SOCIAIS HISTORICAMENTE MARGINALIZADOS: BREVES DISCUSSÕES DA POPULAÇÃO LGBTQIAPN+
Grupos sociais historicamente marginalizados são aqueles que enfrentam opressões sociais, ocupando posições de subalternidade e estando à margem das classes dominantes. Nesse contexto, a população LGBTQIAPN+ configura-se como um grupo social historicamente marginalizado, que sofre preconceitos e discriminações que se manifestam em diferentes níveis, desde aspectos simbólicos e psicológicos até, em casos extremos, violência física.
As pessoas pertencentes a esse grupo são corpos dissidentes, cujas orientações sexuais e identidades de gênero divergem do padrão socialmente hegemônico, a heterossexualidade. O mesmo quanto às identidades de gênero que acabam fugindo do padrão cisgênero7, como as pessoas trans, englobado por homens trans,
7 Pessoas que se identificam com o gênero atribuído ao nascer (Reis, 2018).
pessoas transmasculinas, travestis, transexuais e pessoas não-bináries.
Por se distanciarem da norma social vigente, as pessoas LGBTQIAPN+ frequentemente são alvo de preconceito e discriminação, que se manifestam em diversos ambientes da sociedade. Essa hostilidade pode começar no âmbito familiar e se estender para escolas, locais de trabalho, serviços públicos como saúde e segurança, entre outros espaços. Essas barreiras impactam diretamente o acesso dessas pessoas à cidadania, impedindo que exerçam seus direitos de forma plena.
Com o objetivo de ilustrar esse panorama de violências enfrentadas por esse grupo social, alguns coletivos de ativismo dedicam-se a organizar e divulgar dados que retratam essa realidade. O Observatório de mortes de pessoas LGBTQIAPN+, do Grupo Gay da Bahia (GGB), revela que no ano de 2024, cerca de
291 pessoas LGBTQIAPN+ perderam suas vidas em razão do preconceito contra essa população, configurando o Brasil como um dos mais perigosos para esse grupo social historicamente marginalizado (Schmitz, 2025).
Dito isto, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) também apresenta dados de violências e assassinatos acerca da população trans, que compõem as pessoas LGBTQIAPN+. Em 2024, ocorreram 122 assassinatos de pessoas trans no território brasileiro, desse número, 5 pessoas eram transmasculinas, as demais foram todas pessoas do gênero feminino, demonstrando que o machismo e a transfobia também são fatores possíveis para a efetivação dessas violências (Benevides, 2025).
Conforme citado anteriormente, a Constituição Federal de 1988 estabelece o direito à segurança como um dos pilares para o
exercício pleno da cidadania (Brasil, 1988). Contudo, dados apresentados por grupos8 como ANTRA, Acontece Arte e Política LGBTI+ e Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT) revelam que uma parcela significativa da população LGBTQIAPN+ não tem acesso efetivo a esse direito. Esses dados referem-se às mortes dessa população historicamente marginalizada, sem considerar outras formas de violência (verbais, psicológicas, simbólicas e emocionais) que tornam o cenário ainda mais preocupante e hostil.
Diante dessa realidade, as pessoas LGBTQIAPN+ frequentemente se encontram em situação de vulnerabilidade social, enfrentando barreiras em áreas como segurança, educação, saúde e, de modo geral, no acesso à cidadania. É nesse contexto que as bibliotecas públicas devem atuar, combatendo as desigualdades sociais, a vulnerabilidade, o preconceito e a discriminação, além de facilitar o acesso à informação. Dessa forma, contribuem para que essas pessoas possam exercer plenamente sua cidadania.
Nesse sentido, Assumpção (2018), ao relatar sua experiência sobre o acesso à informação para pessoas trans, destaca a importância das bibliotecas e dos bibliotecários no oferecimento de um acesso democrático a esse grupo social historicamente marginalizado. O autor também ressalta a necessidade de parcerias com Organizações Não-Governamentais (ONGs), pois a atuação conjunta entre bibliotecas e grupos de ativismo permite alcançar o
8 Os grupos mencionados, tais como GGB, ANTRA, Acontece e ABGLT, são grupos de ativismo com foco na população LGBTQIAPN+, produzem diversos documentos e dados estatísticos acerca da realidade dessas pessoas, em razão da ausência do Estado em realizar tal mapeamento, esses grupos apresentam para a sociedade dossiês e relatórios sobre as violências que as pessoas LGBTQIAPN+ sofrem.
público que necessita dessas informações, facilitando o acesso à cidadania.
Além disso, Assumpção (2018) justifica o papel fundamental das bibliotecas e dos profissionais da informação na promoção do acesso a informações para esse público, especialmente porque o preconceito e a discriminação ainda representam barreiras significativas para pessoas trans acessarem esses espaços. Para enfrentar essa realidade, o autor propõe a criação de bibliotecas específicas para esse público, que contribuam para o combate à LGBTfobia e à transfobia, promovendo a inclusão social desse grupo social historicamente marginalizado.
O Manifesto de Florianópolis (2013), que aborda a competência em informação para populações e grupos socialmente vulneráveis, chama a atenção dos profissionais da área para a responsabilidade de atuar no combate às desigualdades sociais, focando na promoção da cidadania, da inclusão social e da autonomia desses grupos. O Manifesto também sugere diversas ações a serem desenvolvidas dentro e fora do ambiente das bibliotecas, enfatizando a importância de parcerias com outras instituições para a realização de um esforço coletivo em prol dos grupos historicamente marginalizados.
Dessa forma, a população LGBTQIAPN+ sofre com violências diretas e indiretas impostas pela sociedade, que impactam profundamente suas vidas e, em casos extremos, levam à morte. Por isso, é fundamental desenvolver estratégias e ações que promovam o acesso à cidadania. A biblioteca pública, nesse cenário, assume um papel de grande importância e relevância, podendo ser protagonista na promoção da cidadania, no acesso à informação, no combate às desigualdades e à vulnerabilidade social, bem como na inclusão social de grupos historicamente discriminados.
PRÁTICAS INCLUSIVAS EM BIBLIOTECAS PÚBLICAS
Diante do exposto, compreende-se que a biblioteca pública, quando orientada pelos princípios da Biblioteconomia Social e pelas diretrizes da IFLA/UNESCO, assume um papel ativo na promoção da cidadania e da justiça social. Nesse sentido, as práticas a seguir elencadas foram pensadas como caminhos concretos para transformar esses espaços em territórios de acolhimento, assegurando representatividade, acessibilidade e participação efetiva da comunidade LGBTQIAPN+.
Trata-se de medidas que buscam não apenas ampliar o acesso à informação, mas também fortalecer o caráter democrático, inclusivo, emancipatório e cidadão das bibliotecas públicas:
Política de acolhimento: adoção de práticas institucionais que garantam o respeito ao nome social e aos pronomes de tratamento, prevenindo situações de constrangimento ou exposição indevida; implementação de banheiros inclusivos, assegurando o uso dos espaços sem discriminação, impedimentos ou violências simbólicas relacionadas à identidade de gênero9;
Formação continuada em diversidade e atendimento antidiscriminatório: planejamento e execução de uma agenda anual de formações permanentes voltadas às temáticas de gênero e sexualidade, de modo a qualificar continuamente as equipes, impactando positivamente as práticas de atendimento
9 Notícia sobre a realidade de pessoas trans no uso de banheiros: “Juiz manda indenizar transexual impedida de usar banheiro feminino e sofrer agressão”. (Patriota, 2024).
e promovendo ambientes institucionais inclusivos e respeitosos nas bibliotecas;
Desenvolvimento de acervo com representação LGBTQIAPN+: inclusão, na política de formação e desenvolvimento de coleções, de materiais informacionais que contemplem a diversidade de gênero e sexualidade, abrangendo tanto produções voltadas às temáticas LGBTQIAPN+ quanto obras literárias com personagens diversos, favorecendo o sentimento de pertencimento, reconhecimento e inclusão no uso do acervo;
Catalogação, Classificação e indexação com linguagem inclusiva e respeito à diversidade: adoção de práticas críticas nos processos de organização da informação, reconhecendo que linguagens documentárias e sistemas de classificação não são neutros, pois tais atividades são desenvolvidas por pessoas, e todos carregam valores, ideais, etc, de modo que não há neutralidade em nossas escolhas. Isso implica a utilização de termos atualizados e não discriminatórios relacionados à diversidade de gênero e sexualidade, bem como a revisão de descritores e cabeçalhos que reproduzam estigmas, de modo a ampliar o acesso, a recuperação da informação e o reconhecimento das identidades LGBTQIAPN+ nos acervos;
Programação cultural contínua: adoção de ações culturais, sociais e educativas de caráter permanente que promovam debates, reflexões e diálogos com e sobre a população LGBTQIAPN+, tais como clubes de leitura, cine-debates, atividades voltadas à memória local e iniciativas que ampliem a visibilidade da diversidade de gênero e sexualidade ao longo
de todo o ano, evitando a concentração dessas ações em datas comemorativas específicas;
Alfabetização informacional e midiática: desenvolvimento de ações educativas voltadas ao fortalecimento das competências informacionais e midiáticas da comunidade, com ênfase no enfrentamento à desinformação, no acesso a informações confiáveis sobre direitos, saúde sexual e reprodutiva e na promoção da segurança digital, contribuindo para a autonomia, a proteção e o exercício pleno da cidadania da população LGBTQIAPN+;
Acesso a direitos: atuação da biblioteca como ponto de acesso a informações confiáveis sobre direitos básicos, tais como retificação de nome e gênero, acesso à defensoria pública, serviços de saúde voltados à população trans e casas de acolhimento, possibilitando que usuárias e usuários encontrem orientação qualificada e mediação informacional por parte das pessoas bibliotecárias para o exercício efetivo de seus direitos;
Parcerias com coletivos e organizações da sociedade civil LGBTQIAPN+10: estabelecimento de parcerias institucionais com coletivos, associações e Organização Não-Governamentais (ONGs) que atuam na defesa dos direitos e na promoção da diversidade de gênero e sexualidade, visando ao fortalecimento do diálogo com a comunidade, à compreensão de suas vivências e demandas e à construção colaborativa de ações que promovam ambientes acolhedores e inclusivos;
10 Um exemplo sobre parcerias envolvendo biblioteca pública e população LGBTQIAPN+ ocorreu em Fortaleza, no Ceará, na Biblioteca Pública do Estado do Ceará, com programação de lançamento de livros, encontro literário, etc. (ASCOM BECE, 2023).
Proteção de dados e segurança: garantia do sigilo das informações pessoais das usuárias e usuários, incluindo registros de empréstimos, histórico de navegação e atendimentos de referência, de modo a prevenir exposições indevidas, assegurar a privacidade e promover ambientes informacionais seguros, especialmente para a população LGBTQIAPN+;
Ambiência inclusiva: promoção de um ambiente físico e comunicacional acolhedor por meio do uso de sinalizações e materiais informativos que adotem linguagem inclusiva e não sexista, contemplando pronomes neutros e evitando o uso exclusivo do masculino genérico nas comunicações institucionais e nos serviços oferecidos pela biblioteca;
Ouvidoria participativa (comitê consultivo LGBTQIAPN+): criação de um comitê consultivo de caráter participativo, composto por usuárias e usuários LGBTQIAPN+, profissionais da biblioteca, representantes de organizações da sociedade civil e demais parceiros institucionais, com a finalidade de promover a escuta ativa, contribuir para a formulação, o acompanhamento e a avaliação das ações da biblioteca e fortalecer a construção coletiva de serviços voltados a essa população;
Políticas de anticensura: elaboração e implementação de uma política institucional transversal que oriente as demais políticas da biblioteca — tais como a política de formação e desenvolvimento de coleções, o regulamento de uso, o planejamento ou o plano diretor — de forma transparente e fundamentada em critérios técnicos, éticos e não discriminatórios, bem como o estabelecimento de
procedimentos formais para a análise de contestações, assegurando a pluralidade informacional, a liberdade intelectual e a não exclusão de materiais relacionados à diversidade de gênero e sexualidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As bibliotecas públicas demonstram um potencial significativo como espaços de promoção da cidadania e da inclusão social para pessoas LGBTQIAPN+. Ao adotar uma abordagem centrada em seus usuários, essas instituições não apenas facilitam o acesso a direitos fundamentais nas áreas de educação, saúde, segurança e emprego, mas também atuam como catalisadoras de empoderamento social e cultural. O engajamento ativo de bibliotecárias e bibliotecários em parceria com grupos de ativismo social é fundamental para compreender as necessidades específicas dessa população e construir serviços e acervos que reflitam sua diversidade e vivências.
A educação e a formação informacional emergem como campos estratégicos de atuação, permitindo às bibliotecas oferecerem recursos e atividades que promovam habilidades tecnológicas, acesso à educação formal e alfabetização midiática, ao mesmo tempo em que fortalecem o senso de pertencimento e a autoestima das pessoas LGBTQIAPN+. Além disso, a curadoria de acervos inclusivos e a catalogação com linguagem não patologizante contribuem para consolidar as bibliotecas como ambientes acolhedores, respeitosos e transformadores.
As ações propostas revelam que o papel da biblioteca pública vai além da disponibilização de informação: ela atua como agente ativo no combate à exclusão social e na promoção da equidade.
As práticas apresentadas nesse trabalho11 não constituem um modelo fechado, mas sim um horizonte de possibilidades que pode ser adaptado de acordo com as especificidades de cada comunidade e biblioteca.
Portanto, é fundamental que bibliotecas e seus profissionais se envolvam de maneira ativa na criação de ambientes inclusivos e transformadores, combatendo preconceitos e assegurando que cada pessoa seja respeitada em sua identidade e dignidade. Apenas por meio de esforços conjuntos e conscientes será possível avançar para uma sociedade mais justa, acolhedora e igualitária, na qual a população LGBTQIAPN+ possa exercer plenamente seus direitos e participar ativamente da vida social, cultural e política.
Em resumo, ao promover o acesso à informação, à cidadania e a valorização das experiências LGBTQIAPN+, as bibliotecas públicas consolidam-se como espaços de emancipação social, educação e diversidade cultural, reafirmando seu papel essencial como agentes de transformação rumo a uma sociedade mais inclusiva, equitativa e plural.
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11 Agradecimento à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
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