DOI: 10.33467/conci.v8i.23714  
DOSSIÊ  
ConCI: Conv. Ciênc. Inform. v. 8, n. especial, p. 01-34, 2025  
Estratégias de enfrentamento de pesquisadoras negras  
como forma de permanência na ciência  
Coping strategies of black female researchers as a way to  
remain in science  
Estrategias de afrontamiento de las investigadoras negras  
como forma de permanecer en la ciência  
Les stratégies d'adaptation des chercheuses noires pour  
rester dans le domaine Scientifique  
Letícia Pereira de SOUZA1  
Rodrigo Silva Caxias de SOUSA2  
Correspondência  
Autor para correspondência: Letícia Pereira de Souza  
Endereço completo: Rua São Lucas 710 - Porto Alegre, RS  
E-mail: leticiasouza.rs@hotmail.com  
Submetido em: 15/09/2025  
Aceito em: 04/12/2025  
Publicado em: 30/12/2025  
1 Doutoranda em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa  
Catarina. Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio  
Grande do Sul (2024). Bacharela em Biblioteconomia pela Universidade  
Federal do Rio Grande do Sul (2021).  
2 Professor Adjunto III do Departamento de Ciências da Informação da  
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em  
Biblioteconomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (2000).  
Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo (2003). Doutor em  
Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul  
(2011).  
   
DOI: 10.33467/conci.v8i.23714  
DOSSIÊ  
ConCI: Conv. Ciênc. Inform. v. 8, n. especial, p. 01-34, 2025  
RESUMO  
O presente estudo investigou as percepções de pesquisadoras  
negras da Ciência da Informação acerca das estratégias adotadas  
diante de violências e injustiças epistêmicas nos espaços  
acadêmicos. A discussão teórica aborda os conceitos de  
epistemicídio, injustiça epistêmica, pacto da branquitude e privilégio  
epistêmico. Esta pesquisa caracteriza-se como qualitativa e  
exploratória, buscando responder empiricamente ao problema de  
pesquisa por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas com  
sete pesquisadoras negras da Ciência da Informação. Os relatos das  
pesquisadoras foram apresentados sob pseudônimos escolhidos por  
elas: Beatriz Nascimento, Beyoncé, Débora, Maya Angelou,  
Expedita, Maria Antonieta e Aqualtune. O método utilizado para  
análise das entrevistas foi a Análise Episódica de Grada Kilomba, de  
forma que cada uma das respostas gerou sete episódios que versam  
sobre estratégias de enfrentamento às violências e injustiças  
epistêmicas no meio acadêmico. As análises dos episódios se  
concentraram nas estratégias de enfrentamento. Como conclusão,  
constatamos que as injustiças epistêmicas se sustentam pela  
deslegitimação e descredibilização do conhecimento proveniente de  
grupos sociais considerados subalternos, como as mulheres negras.  
Nesse ambiente, elas enfrentam diversas situações de não  
reconhecimento de suas contribuições epistêmicas. No entanto, as  
pesquisadoras continuam resistindo ao ambiente hostil que as cerca,  
buscando apoio entre seus pares acadêmicos que compartilham de  
suas dores e realidades semelhantes.  
Palavras-chave: Violência epistêmica; Injustiça epistêmica;  
Enfrentamento ao racismo; Pesquisadoras negras; Racismo  
acadêmico.  
ABSTRACT  
This study investigated the perceptions of Black women researchers  
in Information Science regarding the strategies adopted to confront  
violence and epistemic injustices within academic spaces. The  
theoretical discussion addresses the concepts of epistemicide,  
epistemic injustice, the whiteness pact, and epistemic privilege. This  
research is characterized as qualitative and exploratory, seeking to  
empirically respond to the research problem through semi-structured  
interviews conducted with seven Black women researchers in  
Information Science. The participants’ accounts were presented  
under pseudonyms they chose themselves: Beatriz Nascimento,  
Beyoncé, Débora, Maya Angelou, Expedita, Maria Antonieta, and  
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Aqualtune. The method used for interview analysis was Grada  
Kilomba’s Episodic Analysis, in which each response generated  
seven episodes focused on strategies for confronting violence and  
epistemic injustices in academia. The analyses concentrated on  
coping strategies. As a conclusion, we found that epistemic injustices  
are sustained by the delegitimization and discrediting of knowledge  
produced by socially subordinated groups, such as Black women. In  
this environment, they face various situations in which their epistemic  
contributions are not recognized. Nevertheless, the researchers  
continue resisting the hostile environment around them, seeking  
support among their academic peers who share similar struggles and  
realities.  
Keywords: Epistemic violence; Epistemic injustice; Confronting  
racism; Black women researchers; Academic racism.  
RESUMEN  
El presente estudio investigó las percepciones de las investigadoras  
negras de Ciencias de la Información acerca de las estrategias  
adoptadas frente a las violencias e injusticias epistémicas en los  
espacios académicos. La discusión teórica aborda los conceptos de  
epistemicidio, injusticia epistémica, pacto de la blancura y privilegio  
epistémico. Esta investigación se caracteriza como cualitativa y  
exploratoria, con el propósito de responder empíricamente al  
problema de investigación mediante entrevistas semiestructuradas  
realizadas con siete investigadoras negras de Ciencias de la  
Información. Los relatos de las investigadoras fueron presentados  
con seudónimos escogidos por ellas: Beatriz Nascimento, Beyoncé,  
Débora, Maya Angelou, Expedita, María Antonieta y Aqualtune. El  
método utilizado para el análisis de las entrevistas fue el Análisis  
Episódico de Grada Kilomba, de manera que cada respuesta generó  
siete episodios sobre estrategias de enfrentamiento a las violencias  
e injusticias epistémicas en el ámbito académico. Los análisis de los  
episodios se centraron en las estrategias de resistencia. Como  
conclusión, constatamos que las injusticias epistémicas se sostienen  
en la deslegitimación y el descrédito del conocimiento proveniente de  
grupos sociales considerados subalternos, como las mujeres negras.  
En este entorno, ellas enfrentan diversas situaciones de no  
reconocimiento de sus contribuciones epistémicas. No obstante, las  
investigadoras continúan resistiendo al ambiente hostil que las rodea,  
buscando apoyo entre sus pares académicos que comparten sus  
dolores y realidades semejantes.  
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Palabras clave: Violencia epistémica; Injusticia epistémica;  
Enfrentamiento al racismo; Investigadoras negras; Racismo  
académico.  
RÉSUMÉ  
Cette étude a examiné les perceptions des chercheuses noires en  
sciences de l'information concernant les stratégies adoptées pour  
faire face à la violence et aux injustices épistémiques dans les  
espaces universitaires. La discussion théorique aborde les concepts  
d'épistémicide, d'injustice épistémique, de pacte de blancheur et de  
privilège épistémique. Cette recherche est de nature qualitative et  
exploratoire, cherchant à répondre empiriquement au problème de  
recherche à travers des entretiens semi-structurés menés auprès de  
sept chercheuses noires en sciences de l'information. Les  
témoignages des participantes ont été présentés sous des  
pseudonymes qu'elles ont elles-mêmes choisis : Beatriz Nascimento,  
Beyoncé, Débora, Maya Angelou, Expedita, Maria Antonieta et  
Aqualtune. La méthode utilisée pour l'analyse des entretiens était  
l'analyse épisodique de Grada Kilomba, dans laquelle chaque  
réponse a généré sept épisodes axés sur les stratégies de lutte contre  
la violence et les injustices épistémiques dans le milieu universitaire.  
Les analyses se sont concentrées sur les stratégies d'adaptation. En  
conclusion, nous avons constaté que les injustices épistémiques sont  
entretenues par la délégitimation et le discrédit des connaissances  
produites par les groupes socialement subordonnés, tels que les  
femmes noires. Dans cet environnement, elles sont confrontées à  
diverses situations dans lesquelles leurs contributions épistémiques  
ne sont pas reconnues. Néanmoins, les chercheuses continuent de  
résister à l'environnement hostile qui les entoure, en cherchant le  
soutien de leurs pairs universitaires qui partagent des luttes et des  
réalités similaires.  
Mots clés : Violence épistémique; Injustice épistémique; Lutte contre  
le racisme; Chercheuses noires; Racisme universitaire.  
1 INTRODUÇÃO  
Discussões que busquem elucidar violências em relação às  
mulheres negras em espaços acadêmicos têm se materializado,  
ainda que muito recentemente, na produção científica no âmbito da  
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Ciência da Informação no Brasil. Desdobram-se e articulam-se essas  
violências a um conjunto expressivo de práticas sociais advindas de  
uma lógica de colonialidade do saber. A colonialidade do saber se  
desenvolve ao longo da modernidade, a partir do momento em que  
se subalterniza formas de conhecimento que não se encaixam no  
modelo  
ocidental  
hegemônico  
imposto,  
impedindo  
seu  
desenvolvimento (Silva; Baltar; Lourenço, 2018).  
Em contrapartida, é preciso destacar que movimentos  
epistemológicos vêm sendo realizados em prol de combater a  
herança do colonialismo. Destaca-se, aqui, o movimento da  
decolonialidade, cujo pensamento recusa a ideia de que a  
colonização é um movimento findado, e busca denunciar, combater  
e desafiar as estruturas de poder a partir de uma abordagem crítica.  
Dessa forma, este trabalho se alinha ao movimento decolonial,  
a partir da discussão acerca da injustiça em relação ao conhecimento  
produzido por mulheres negras na academia, e trazendo como ponto  
central as estratégias que essas pesquisadoras utilizam para  
(r)existir neste espaço desigual e racista. Como problema de  
pesquisa, este estudo busca responder: “quais as estratégias de  
enfrentamento utilizadas por pesquisadoras negras da Ciência da  
Informação em relação à injustiça epistêmica em sua vivência e  
práticas acadêmicas?” E como objetivo desta pesquisa temos:  
“apresentar as estratégias utilizadas por pesquisadoras negras da  
Ciência da Informação para enfrentar a injustiça epistêmica na  
academia.” A relevância desse objetivo reside na urgência de  
reconhecer e visibilizar os modos pelos quais essas mulheres negras  
pesquisadoras constroem estratégias de resistência e produzem  
conhecimento apesar das barreiras estruturais que tentam silenciá-  
las. Ao evidenciar essas estratégias, o estudo contribui para ampliar  
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o debate sobre equidade no campo científico e fortalecer  
perspectivas decoloniais que desafiam a lógica hegemônica de  
produção do saber.  
2 ASPECTOS TEÓRICOS  
Inicialmente é importante discorrer acerca dos estudos  
decoloniais surgidos após o rompimento de alguns estudiosos com o  
grupo de Estudos Subalternos, alicerçado pelo pensamento pós-  
colonial e que investigava principalmente o processo de colonização  
na África e na Ásia entre os séculos XVIII e XX. Dessa forma, nasce  
o grupo denominado Modernidade/ Colonialidade (M/C), composto  
por nomes como Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Immanuel  
Wallerstein, Nelson Maldonado-Torres e Boaventura de Sousa  
Santos, que perceberam a necessidade de aprofundar questões  
relacionadas à América Latina. Isso ocorreu porque compreenderam  
que a colonização se deu de maneiras distintas e peculiares em  
várias regiões do mundo, tornando imprescindível o estudo das  
especificidades da América Latina (Ballestrin, 2013; Silva; Baltar;  
Lourenço, 2018). Portanto, a decolonialidade se desdobra como “[...]  
uma via teórica e prática de desconstruir padrões, conceitos e  
perspectivas impostas aos povos colonizados há séculos, além de  
perfazer ainda uma crítica radical à modernidade e ao capitalismo  
[...]” (Nascimento, 2021, p. 55). A distinção entre decolonialidade e  
descolonialidade está na sua natureza: enquanto a decolonialidade  
se contrapõe à colonialidade, a descolonialidade se opõe ao  
colonialismo. Grada Kilomba (2019, p. 224) explica que  
"Descolonização  
refere-se  
ao  
desfazer  
do  
colonialismo.  
Politicamente o termo descreve a conquista da autonomia por parte  
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daquelas/es que foram colonizadas/os, e, portanto, envolve a  
realização da independência e da autonomia."  
Partindo, portanto, do pressuposto de que vivemos em um país  
que teve suas riquezas materiais usurpadas pela colonização, bem  
como houve o epistemicídio sistemático em relação ao conhecimento  
dos povos originários, é importante compreender que esses  
acontecimentos deixaram marcas profundas na forma como se  
produz conhecimento e, consequentemente, definiram os espaços  
legítimos de apreensão desses saberes, criando barreiras de acesso  
para  
pessoas  
negras  
e
outros  
grupos  
historicamente  
subalternizados. Por esse motivo, trazemos o conceito de injustiça  
epistêmica, que explica como o conhecimento pode ser  
desvalorizado por conta de preconceitos, que são oriundos de um  
sistema colonial que hierarquiza saberes e sujeitos.  
Miranda Fricker (2007), ao criar o termo “injustiça epistêmica”,  
intencionava delinear um tipo particular de dano que ocorre quando  
uma pessoa subestima ou menospreza o status de sujeito epistêmico  
de outra pessoa. Cabe ressaltar que essa forma de injustiça trazida  
pela autora é, acima de tudo, uma maneira de discriminação, seja  
direta ou indireta. O conhecimento passa a ser atravessado por  
essas relações de poder e é formado a partir desse arquétipo que lhe  
é concedido, dessa maneira vemos o conhecimento eurocêntrico  
tomando a proporção de “conhecimento universal” ou “conhecimento  
único”, colocando-se como a forma “correta” de pensar e de criar.  
Esse processo, então, é visto como um “genocídio intelectual” e é  
considerado uma violência epistêmica:  
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A violência epistêmica se apresenta como uma relação de  
poder dominação perpetrada no campo do  
e
conhecimento, permitindo que determinada visão de  
mundo se imponha sobre outras, impossibilitando sistemas  
de conhecimento e produção de saberes alternativos e  
alterando as visões dos povos colonizados (Gnecco, 2009  
apud Silva; Baltar; Lourenço, 2018, p. 71).  
A filósofa inglesa desenvolveu o conceito com base em  
discussões de ética aplicada e teorias da virtude, enfatizando a  
importância de considerar a distribuição de poder na sociedade como  
um recurso fundamental para entender a estrutura da nossa  
economia epistêmica.  
Para Miranda Fricker (2007), a injustiça epistêmica se divide  
em dois tipos: injustiça hermenêutica e injustiça testemunhal.  
Hermenêutica, do grego hermeneuein, entende-se como a filosofia  
da interpretação, dessa forma, a injustiça hermenêutica se refere a  
uma marginalização estrutural que impede os indivíduos de  
determinados grupos sociais de expressarem suas experiências de  
forma que sejam consideradas legítimas e válidas no âmbito do  
conhecimento. Em suma, a injustiça hermenêutica é uma forma de  
opressão que impede algumas pessoas de serem ouvidas e  
reconhecidas devido a um conjunto de informações que edifica  
barreiras culturais e conceituais que dificultam a expressão e a  
compreensão de suas experiências (Demétrio; Bensusan, 2019).  
De acordo com Fricker (2021), a falta de conceitos  
compartilhados entre o falante e o ouvinte pode resultar em uma  
compreensão insuficiente do que está sendo proposto. Isso ocorre  
devido à distribuição desigual de "oportunidades hermenêuticas", o  
que significa que nem todos têm acesso igual às ferramentas  
necessárias para interpretar e compreender informações. Em  
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resumo, a injustiça epistêmica hermenêutica ocorre quando há a falta  
recursos interpretativos para dar sentido às experiências sociais  
(Fricker, 2007).  
Sherman e Goguen (2019) analisam, no livro Overcoming  
epistemic injustice: social and psychological perspectives3, alguns  
desdobramentos da injustiça epistêmica no campo da Sociologia e  
da Psicologia. Na interpretação dos autores, a injustiça epistêmica  
hermenêutica se relaciona com preconceitos estruturais e coletivos.  
Assim afirmam os autores:  
Parte da natureza da Injustiça Epistêmica é que pode ser  
difícil para as pessoas, especialmente aquelas com  
identidades sociais mais privilegiadas, perceberem onde  
existem lacunas em sua compreensão coletiva. Em vez  
disso, a base dessa injustiça é a exclusão de grupos  
marginalizados do processo coletivo de criação de  
significados. Sempre que grupos têm negada a  
oportunidade de expressar suas experiências, serem  
ouvidos por outros e alcançarem novos entendimentos  
coletivos, a situação está propícia para a injustiça  
epistêmica (Sherman; Goguen, 2019).  
Portanto, podemos compreender que as pessoas que fazem  
parte de grupos sociais privilegiados não percebem suas próprias  
limitações de conhecimento ou suas crenças preconceituosas, o que  
leva à perpetuação da injustiça epistêmica. Sherman e Goguen  
(2019) ainda apontam outra forma de injustiça que combina  
elementos de injustiça hermenêutica e ignorância privilegiada.  
Segundo os autores, Miranda Fricker (2007) cita exemplos nos quais  
os opressores nem sempre se dão conta da injustiça cometida; ela  
fala de formas muitas vezes não intencionais de injustiça. No entanto,  
3
Tradução livre do título do livro: Superando a injustiça epistêmica:  
perspectivas sociais e psicológicas.  
9
 
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para Sherman e Goguen (2019), há injustiças conscientes cometidas,  
como, por exemplo, a segregação racial, na qual os membros do  
grupo oprimido, juntos, são capazes de compreender e conceituar a  
opressão à qual são submetidos, mas o grupo que os oprime ignora  
e menospreza esse entendimento, escolhendo dar continuidade  
àquele sistema de violência e injustiça.  
Por sua vez, a injustiça testemunhal se refere à desvalorização  
do conhecimento de determinado grupo devido a preconceitos  
relacionados à identidade, tais como: raça, classe, religião,  
sexualidade e gênero. Para Fricker (2021), o fator decisivo que  
caracteriza a injustiça testemunhal é a ausência de manipulação  
deliberada e consciente por parte do ouvinte. Em outras palavras, a  
injustiça testemunhal não é resultado de uma intenção maliciosa do  
ouvinte em desconsiderar o conhecimento do falante, mas sim de  
preconceitos inconscientes que podem levar o ouvinte a subestimar  
ou rejeitar o conhecimento do falante.  
Morán (2019), por meio de um olhar da CI, define que injustiça  
testemunhal se refere aos emissores da informação, uma vez que se  
trata de desacreditar certos grupos sociais marginalizados impedindo  
que sua voz e experiência possam ser considerados insumos de  
conhecimento. Como exemplo, o autor cita os “arquivos vivos”, que  
são testemunhos de vítimas de violação de direitos humanos.  
Fricker (2007) assinala que a injustiça testemunhal pode  
manifestar-se de duas maneiras: quando se atribui a um falante uma  
credibilidade superior ao que de fato seria justificável, caracterizando  
um excesso de credibilidade; ou quando se lhe concede menos  
credibilidade do que seria apropriado, resultando em um déficit de  
credibilidade. Como exemplo de déficit de credibilidade, a autora  
discute situações em que falantes possuem um sotaque ou uma  
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forma de pronúncia percebida pelo ouvinte como distinta da sua.  
Essa distinção pode se dar por determinados antecedentes  
educacionais, por classe social ou pela região à qual o falante  
pertence. Dessa forma, Fricker (2007) reitera que tais marcadores  
regionais presentes na fala podem ter um impacto significativo sobre  
a dose de credibilidade que o ouvinte concede ao emissor da  
informação.  
A autora defende que é importante destacar essa forma de  
injustiça para que ela seja nomeada e combatida, já que muitas vezes  
estas injustiças passam despercebidas na comunicação cotidiana.  
Nos casos de injustiça epistêmica, o ouvinte formula um julgamento  
errôneo sobre a credibilidade do falante baseado em preconceitos, o  
que pode levar à desigualdade epistêmica na sociedade.  
Desse modo, podemos pensar que as práticas de aquisição,  
processamento, manutenção, transmissão e troca de informação e  
conhecimento são essencialmente sociais e, portanto, sofrem  
influência da estrutura social em que os indivíduos estão inseridos  
(Santos, 2018). Em suma, as injustiças interferem no meio social e  
na validação do conhecimento e também vão interferir no meio  
acadêmico, nas vivências dos alunos e pesquisadores, em suas  
práticas científicas e na produção do conhecimento científico. É o que  
argumenta Harding (1998) em sua obra “Is science multicultural?”, na  
qual reconhecem a existência de múltiplas perspectivas epistêmicas  
e defendem a inclusão de grupos historicamente marginalizados,  
como mulheres, povos indígenas e pessoas negras, na produção do  
conhecimento científico. Harding (1998) argumentam que a produção  
do conhecimento é influenciada por fatores sociais, políticos,  
econômicos e culturais.  
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O estudo de Johnson et al. (2021) relaciona a injustiça  
epistêmica com microagressões sofridas por grupos sociais  
marginalizados. Microagressões, de acordo com Sue et al. (2007),  
são injúrias verbais, intencionais ou não, que comunicam desprezo e  
insultos hostis e depreciativos à pessoa ou grupo alvo. De acordo  
com Johnson et al. (2021), a injustiça epistêmica apresenta um  
cenário profícuo para compreender por que as microagressões são  
resistentes à ruptura, uma vez que a injustiça epistêmica ocorre  
quando uma pessoa ou grupo é desacreditado e/ou desqualificado  
por conta de sua raça, orientação sexual, gênero, ou alguma outra  
característica que esteja à margem do padrão cis-hetero-normativo.  
As microagressões estão alinhadas principalmente à injustiça  
hermenêutica, uma vez que há uma falta de compreensão da  
sociedade em relação à realidade dos grupos sociais marginalizados  
(e também uma falta de interesse em querer compreender). Isso se  
dá pelo fato de algumas experiências e realidades serem  
historicamente mais retratadas do que outras, de algumas vivências  
estarem enquadradas dentro daquilo que se entende por “normal”, e  
não como “exótico/ específico/ exceção”. A partir desse cenário, as  
microagressões são particularmente suscetíveis à injustiça  
hermenêutica devido à sua sutileza e à invisibilidade para o seu  
perpetrador.  
É importante ressaltar que, neste estudo, escolhemos estudar  
a injustiça epistêmica atrelada à vivência e práticas acadêmicas de  
mulheres negras, que possuem atravessamentos raciais e de  
gênero. Dessa forma, a injustiça epistêmica acaba incidindo sobre  
elas por conta da existência do racismo epistêmico, oriundo de todo  
o processo epistemicida e racista que se constituiu e se alicerçou na  
sociedade desde a colonização, permeando o tecido social e  
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institucional, e moldando o imaginário no que se refere à capacidade  
epistêmica das pessoas negras e ao conhecimento advindo destes  
povos.  
Contribui para essa percepção a definição de racismo  
epistêmico trazida por Grosfoguel (2011, p. 102) na qual ao autor  
menciona que:  
El racismo epistémico se refiere a una jerarquía de  
dominación colonial donde los conocimientos producidos  
por los sujetos occidentales (imperiales y oprimidos) dentro  
de la zona del ser es considerada a priori como superior a  
los conocimientos producidos por los sujetos coloniales no-  
occidentales en la zona del no-ser.  
As zonas do ser e do não ser, para Fanon (2008), representam  
a visão do colonizador sobre o mundo, na qual a zona do ser seria  
aquela onde se encontram os homens brancos um mundo  
moderno, civilizado e desenvolvido e a zona do não ser, por sua  
vez, seria o mundo colonizado não branco, atrasado e não  
civilizado (Santos, 2023).  
Há uma zona de não-ser, uma região extraordinariamente  
estéril e árida, uma rampa essencialmente despojada,  
onde um autêntico ressurgimento pode acontecer. A  
maioria dos negros não desfruta do benefício de realizar  
esta descida aos verdadeiros Infernos (Fanon, 2008, p. 26).  
Grosfoguel (2012) ressalta que essas zonas não são um lugar  
ou um espaço geográfico, mas sim o reflexo das relações de poder  
que podem ocorrer em escala global entre centros e periferias, mas  
também em escala nacional e local contra diversos grupos  
racialmente inferiorizados. Dessa forma, entende-se que a zona do  
não-ser se materializa em relação aos povos colonizados,  
sustentando uma hierarquia epistêmica que define quais  
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conhecimentos são válidos e superiores, quais merecem ser  
estudados e transmitidos, e quais devem ser esquecidos e omitidos.  
Essa hierarquia não apenas marginaliza os saberes dos grupos  
vistos como subalternizados, mas também perpetua a injustiça  
epistêmica ao silenciar e deslegitimar suas vozes, implicando no  
estabelecimento de formas de resistência, que neste estudo  
observam as estratégias adotadas por pesquisadoras negras diante  
dessas injustiças epistêmicas vivenciadas no cotidiano. A expressão  
“estratégias de enfrentamento” aqui utilizada é fruto de uma  
transposição terminológica dos estudos da área da psicologia, que a  
conceituam como um conjunto de estratégias praticadas e esforços  
empregados pelas pessoas para lidar com situações adversas  
(Antoniazzi; Dell’Aglio; Bandeira, 1998).  
2 CAMINHOS METODOLÓGICOS  
O estudo aqui apresentado adota uma abordagem qualitativa e  
busca identificar as estratégias de enfrentamento utilizadas por  
pesquisadoras negras da Ciência da Informação em relação às  
violências e injustiças epistêmicas que atravessam suas vivências e  
práticas acadêmicas. As discussões iniciais se deram ainda no  
primeiro semestre de 2022, a partir da aproximação com o conceito  
de injustiça epistêmica, cunhado por Miranda Fricker (2007). Em  
seguida, realizou-se uma revisão de literatura voltada a estudos que  
trabalharam esse conceito, tanto na Ciência da Informação quanto  
em áreas afins, com o objetivo de mapear seus desdobramentos  
teóricos, compreender como o tema vem sendo abordado e construir  
o referencial analítico que orientaria a etapa empírica.  
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O corpus empírico do estudo é composto por entrevistas  
semiestruturadas com pesquisadoras negras da Ciência da  
Informação. As participantes foram selecionadas a partir de critérios  
previamente definidos, que incluíram a autodeclaração racial como  
pessoas negras, a atuação acadêmica no campo da Ciência da  
Informação, a produção científica relacionada a questões étnico-  
raciais e a participação no GT12 do ENANCIB nos anos de 2022 e  
2023, por se tratar do grupo temático que reúne debates sobre raça,  
gênero e diversidade na área. A escolha por esse recorte teve o  
objetivo de garantir que as pessoas convidadas dispunham de  
repertório teórico e hermenêutico para identificar e analisar situações  
de injustiça epistêmica, bem como de vivências que lhes permitissem  
refletir criticamente sobre as desigualdades que atravessam o fazer  
científico.  
Esse conjunto de critérios permitiu identificar 27 pesquisadoras  
e pesquisadores negros que cumpriam as exigências estabelecidas.  
Todas essas pessoas que se autodeclaravam negros e negras e  
apresentaram trabalhos no GT12 receberam o convite para participar  
do estudo, acompanhado do TCLE e do roteiro de entrevista. No  
entanto,  
apenas  
pesquisadoras  
negras  
responderam  
positivamente e aceitaram participar. Essa devolutiva orientou o  
aprofundamento analítico também nas questões de gênero, uma vez  
que as experiências compartilhadas expressam não apenas  
injustiças epistêmicas em relação a questões étnico-raciais, mas  
também marcadas pela condição de serem mulheres negras na  
academia. Para organizar os dados de contato e informações  
extraídas dos currículos Lattes, elaborou-se uma planilha .xlsx. A  
opção por manter o anonimato das participantes foi tomada em razão  
da natureza sensível dos relatos, frequentemente atravessados por  
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situações de violência vividas nos próprios espaços institucionais em  
que atuam, o que exigia um ambiente seguro para o  
compartilhamento dessas experiências.  
As pesquisadoras receberam o convite individualmente por e-  
mail, contendo apenas um remetente e um destinatário. Junto ao  
convite, foram enviados o Termo de Consentimento Livre e  
Esclarecido e o roteiro de entrevista. Ao todo, obtiveram-se sete  
devolutivas de aceite. As entrevistas foram realizadas por meio do  
serviço de webconferência institucional da UFRGS, o Mconf, entre os  
dias 21 e 28 de março de 2024. Optou-se por esse software devido  
às garantias de segurança dos dados e à disponibilidade de  
ferramentas de gravação, imprescindíveis para a posterior  
transcrição. Cada participante enviou previamente o TCLE assinado  
e escolheu o horário mais adequado para a realização da entrevista.  
A tipologia de entrevista adotada foi a semiestruturada, por  
permitir maior fluidez ao diálogo e não se restringir a perguntas  
fechadas, embora esteja ancorada em um roteiro pré-estabelecido  
que orienta o percurso da conversa. A decisão de manter o  
anonimato das participantes revelou-se adequada ao longo do  
processo, dada a sensibilidade dos relatos e o envolvimento direto  
de colegas, docentes e instituições como potenciais agentes das  
situações narradas. Cada participante escolheu um pseudônimo:  
Beatriz Nascimento, Débora, Beyoncé, Expedita, Maria Antonieta,  
Maya Angelou e Aqualtune. Este pseudônimo foi utilizado na etapa  
de análise e apresentado em itálico para evitar confusões com nomes  
reais de autoras ou personalidades reconhecidas.  
Após a realização das entrevistas, procedeu-se à transcrição  
do material com o auxílio do software TurboScribe. Considerando a  
riqueza de detalhes presentes nas narrativas, optou-se pela  
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aplicação do método de Análise Episódica, que, segundo Kilomba  
(2019, p. 88),  
[...] descreve diferentes contextos nos quais o racismo é  
performado, criando uma sequência de cenas do racismo  
cotidiano. A composição de vários episódios revela não apenas  
a complexidade de experienciar o racismo - seus cenários  
diversos, atores e temas-, mas também sua presença  
ininterrupta na vida de um indivíduo. Essa forma de análise  
episódica também me permite escrever com um estilo similar à  
forma de contos, que, como descrito anteriormente, transgride o  
modo acadêmico tradicional.  
A autora explica que os capítulos construídos a partir das  
entrevistas consistem em análises interpretativas fundamentadas na  
teoria psicanalítica e pós-colonial de Frantz Fanon. É com base  
nesse referencial que Kilomba (2019) desdobra as narrativas das  
entrevistadas em interpretações que evidenciam as manifestações  
do racismo cotidiano.  
No caso deste estudo, analisamos as entrevistas a partir do  
referencial teórico apresentado nas seções anteriores, sendo o  
conceito de injustiça epistêmica de Miranda Fricker (2007) o principal  
balizador dessas análises.  
Este projeto de pesquisa foi cadastrado na Plataforma Brasil  
para apreciação e análise do Comitê de Ética em Pesquisa da  
UFRGS, de acordo com a Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016,  
do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que normatiza pesquisas  
envolvendo seres humanos.  
3 OS EPISÓDIOS COMO ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO  
Em relação aos episódios apresentados a seguir, as  
estratégias de enfrentamento dizem respeito às situações de injustiça  
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epistêmica vivenciadas por pesquisadoras negras em sua vivência e  
prática acadêmica.  
[...] tá na hora da gente falar  
- Beatriz Nascimento  
Então tá na hora da gente falar porque nossa própria  
experiência também traz sim um pouco do que a gente tá  
levando pra pesquisa, porque se eu to falando de raça e to  
falando de resistência e pontos de resistência estrutural ou  
não, e sobre a desigualdade eu tenho uma experiência  
também sobre isso, dentro do meu lugar, que não é como  
a maioria das pessoas negras. Então é a questão de se  
colocar na pesquisa que hoje a gente tem buscado.  
Ao iniciar o processo analítico sobre as estratégias  
mencionadas, observa-se que o primeiro relato apresentado  
evidencia a necessidade de se posicionar quanto à construção de  
seu estudo. Tal posicionamento destaca a indissociabilidade entre  
sua experiência enquanto mulher negra e as relações de opressão  
estruturadas pela desigualdade, configurando uma forma de  
resistência tanto subjetiva quanto estrutural.  
Beatriz Nascimento destaca a relevância de incorporar a  
experiência como mulher negra ao processo de pesquisa,  
enfatizando a necessidade de posicionar-se no estudo e de afastar-  
se da concepção tradicional de um pesquisador neutro e  
desvinculado do objeto investigado. Ao defender essa postura, a  
autora evidencia a importância de perspectivas epistemológicas que  
reconheçam marcadores sociais de raça e gênero, uma vez que as  
desigualdades estruturam não apenas a produção do conhecimento,  
mas também a postura ética e política que o pesquisador deve  
adotar. Nesse sentido, torna-se fundamental articular o objeto de  
estudo à trajetória e às vivências da pesquisadora, compreendendo  
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que tais elementos são constitutivos do próprio processo  
investigativo, pois conforme argumentam Dulci e Malheiros (2021), “o  
saber emerge de corpos que estão situados geográfica e  
politicamente no mundo. Logo, se a produção do saber não é neutra,  
tampouco representa uma verdade universal”.  
[...] muita gente não debate sobre porque não se sente à vontade  
Débora  
Eu acho que, para começar, fazer um barulhinho. Nas  
pesquisas, nas salas de aula, sempre está trazendo essa  
temática. É muito importante, porque muita gente também  
não debate sobre porque não se sente à vontade. Então, a  
partir do momento que tem pesquisas que trazem debates  
para salas de aula, eles vão se sentir à vontade para  
comentar. Muitas pessoas vão saber um pouco mais sobre  
porque não tem aquela vontade de procurar, pesquisar.  
Então, acho que é isso, incentivar mais as pesquisas e os  
debates em salas de aula, já é um grande começo.  
Débora, observa que uma estratégia de enfrentamento  
importante é trazer à tona o debate sobre questões raciais no meio  
acadêmico, no entanto, observa barreiras e dificuldades em relação  
a esses assuntos.  
A necessidade de chamar atenção em diferentes espaços, seja  
na perspectiva da produção do conhecimento científico, seja na  
materialização em processos pedagógicos realizados em espaços  
formais, as questões que edificam as injustiças epistêmicas devem  
ser explicitadas. Essa se constitui em uma estratégia que busca  
familiarizar e naturalizar em virtude de que constrangimentos se  
concretizam no âmbito da academia, potencializando a circulação  
mesmo que de maneira informal. De acordo com a pesquisadora tais  
estratégias permitem a compreensão dos motivos que levam muitas  
pessoas incluídas no circuito de produtividade científica a não se  
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permitir projetar suas vozes a respeito de temáticas diversas que  
estejam à margem do pensamento cartesiano colonial esperado no  
espaço acadêmico.  
Dessa forma, a partir do momento em que uma mulher negra  
pesquisadora impõe sua voz na universidade e traz à tona temáticas  
que desafiam as estruturas não ocidentais dentro de um espaço cuja  
cultura se mantém enraizada em um passado colonial, machista e  
racista, ela está praticando uma forma de insurgência eficiente e  
necessária para desafiar as injustiças epistêmicas e o racismo  
presentes na academia. Não obstante, a ocupação dos espaços de  
produção do conhecimento por pessoas não brancas e por outros  
grupos historicamente marginalizados revela-se fundamental, pois  
esses sujeitos trazem consigo saberes inscritos em suas vivências e  
contextos sociais. Tal presença possibilita a introdução de novas  
perspectivas e debates no ambiente acadêmico, ampliando o  
horizonte epistemológico e fortalecendo a representatividade. Dessa  
forma, vozes anteriormente silenciadas passam a encontrar lugares  
legítimos de enunciação e escuta.  
[...] é aquilombar, é fazer crescer!  
Beyoncé  
Eu passei a sofrer menos a partir do momento que passei  
a ter consciência do corpo que eu tenho. A partir do  
momento que eu tive consciência do corpo que eu tenho  
eu fui deixando de considerar o que as pessoas leem sobre  
ele. E aí, eu passei a considerar só o que eu sinto mesmo,  
o que eu desejo fazer  
O que a gente tem feito enquanto pesquisadores,  
professores negros, a gente resiste, a gente briga e a gente  
vai tentando com o espaço que a gente vai conseguindo  
colocar as ideias que a gente acredita  
Olha, eu acho que as estratégias que a gente utiliza é tentar  
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procurar parceiros. Eu acho que a primeira coisa, quando  
você é uma pessoa negra na academia, é procurar firmar  
parcerias para poder caminhar, porque eu acho que  
sozinho, de fato, fica muito difícil. Até emocionalmente,  
psicologicamente, é um serviço muito desgastante se sentir  
sozinho no meio acadêmico, numa estrutura branca. Então  
eu acho que, talvez a primeira, acho que talvez a mais  
eficiente das estratégias é procurar ampliar as relações, se  
juntar com grupos que pensam e querem lutar pelas  
mesmas coisas que você, e até mesmo para você se  
resguardar, porque caminhar sozinho é colocar seu corpo  
para ser ainda mais violentado. Então é bom você  
estabelecer parcerias, e tentar cada vez mais, eu acho que  
é aquilombar, é fazer crescer, é se associar a outros grupos  
minoritários, que é o que eu tenho feito. Acredito que a  
partir daí a gente consegue aglutinar mais forças, porque  
sozinho a gente não consegue fazer absolutamente nada,  
em nenhum ambiente, não só no acadêmico. Em nenhum  
ambiente é fácil, porque a maioria de nós ainda não ocupa  
as cadeiras que decidem, então pra poder criar um pouco  
mais de pressão e conseguir avançar a gente precisa estar  
aliado a outras pessoas que compartilham da mesma dor,  
dos mesmos atravessamentos, da mesma luta..  
Porque na verdade a gente vive uma guerra racial, não é  
uma disputa, não é só injustiça, não é só a questão do  
silenciamento, a gente tem uma guerra de disputa de  
poder. E a questão da injustiça epistêmica, ou esse  
silenciamento de pessoas pretas, ele é só mais uma  
ferramenta pra poder continuar mantendo as coisas como  
elas sempre foram.  
A questão da corporeidade é um elemento central na  
materialização das injustiças epistêmicas, tendo em vista que esta é  
pautada por preconceitos advindos da pessoa receptora que se  
depara concomitantemente com o corpo negro e, por conseguinte  
com articulações racistas sobre o conhecimento que baliza as  
perspectivas de uma pesquisadora negra. Dessa forma o ouvinte do  
conhecimento produzido e enunciado por um indivíduo que ela  
considera “inferior” por conta de um preconceito de identidade  
imbricado a corporeidade, como o gênero, o pertencimento étnico-  
racial, a classe social, dentre outros marcadores se manifesta como  
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barreira ao entendimento. Dessa forma, Beyoncé busca se colocar  
no espaço e defender o que acredita apesar da violência sofrida  
nesse espaço, articulando sua luta antirracista a outros embates que  
permitam que grupos minoritários tenham voz, no sentido de romper  
as relações de poder instituídas.  
Não obstante, a pesquisadora afirma que é fundamental que se  
estabeleça uma rede de apoio e colaboração para lidar com o  
desgaste emocional e psicológico de se sentir sozinho em um  
ambiente predominantemente branco. É importante destacar na fala  
de Beyoncé a autoproteção, quando a pesquisadora menciona “se  
resguardar” como forma de se proteger contra a violência e o racismo  
nesses espaços, de tal maneira que o aquilombamento se constitui  
como estratégia de associação e enfrentamento, que, conforme  
supracitado, remete aos espaços de resistência dos quilombos.  
Conforme Souto (2020, p. 141) “aquilombar-se é o movimento de  
buscar o quilombo, formar o quilombo, tornar-se quilombo. Ou seja,  
aquilombar-se é o ato de assumir uma posição de resistência contra-  
hegemônica a partir de um corpo político”.  
Outro destaque a ser dado reside no fato de que Beyoncé  
observa a falta de representatividade em espaços de poder e de  
tomada de decisão o que remete a “[. . .] baixa representatividade da  
população negra nas esferas de poder leva ao círculo vicioso da falta  
de acesso a esses postos e também à dificuldade de evolução na  
escala social” Portal Geledés (2013). Dessa forma, é importante que  
cada vez mais tenhamos lideranças negras comprometidas com o  
combate ao racismo institucional no ambiente acadêmico, buscando  
transformar o ambiente universitário em um local menos patológico e  
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violento para a comunidade negra e demais grupos vistos como  
subalternos.  
[...] estou ajudando, orientando, estou publicando para mim  
mesma, sem depender de ninguém  
Expedita  
Como é que eu enfrento isso? Simplesmente, eu meio que  
taquei o (...) né? Dane-se. Por um lado, eu fico pensando,  
eu trabalho menos, porque eu não participo de comissões  
que dependam deles, então é um trabalho que eu não  
tenho.  
Não participo de bancas deles, porque também (...), mas  
eu participo de bancas externas, então, tipo assim, as  
minhas atividades, elas acontecem porque eu sou  
convidada por outras instituições, né? Ah, esse tempo que  
eu estaria fazendo alguma coisa para eles, eu estou  
fazendo para mim, estou escrevendo, estou corrigindo um  
artigo, estou ajudando, orientando, estou publicando para  
mim mesma, sem depender de ninguém. E aí, estou  
seguindo a minha vida, estou seguindo a minha carreira  
sem essa dependência institucional, local, né? Local,  
assim, dentro da minha unidade.  
A pesquisadora Expedita utiliza uma estratégia de  
enfrentamento de cunho individualizado para se proteger da violência  
no ambiente acadêmico. Nesse caso, a entrevistada relatou sobre  
uma lógica de exclusão que ocorre no âmbito interno da instituição  
onde atua. Ao mencionar um afastamento dos colegas em relação a  
ela, em que a deixam de fora em bancas e em eventos sociais do  
departamento, Expedita demonstra como o racismo se manifesta  
cotidianamente. Dessa forma, a pesquisadora destaca que a  
estratégia para lidar com essas violências epistêmicas, se pauta no  
uso do seu tempo fundamentalmente com suas atribuições, de tal  
forma que se preocupa com seus próprios trabalhos, o que torna seu  
labor acadêmico, em certa medida, solitário e autônomo.  
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É nítido em seu relato que tais estratégias, condicionadas por  
violências epistêmicas, acabam por viabilizar alternativas de prestígio  
em relação à sua área de atuação que não passam por uma relação  
de dependência institucional, aspectos e em relação às pesquisas  
que desenvolve, uma vez que é chamada por bancas externas,  
possui um grupo de pesquisa consolidado, dentre outras atividades  
fora do departamento, o que chama atenção é a exclusão interna.  
Dessa forma, Expedita busca autonomia ao focar em atividades que  
não dependem da aprovação ou participação de colegas de sua  
instituição, e redireciona seu tempo e esforço para si mesma e para  
seus próprios projetos. Assim sendo, Expedita escolhe não se  
envolver em atividades emocionalmente desgastantes, e sim  
construir sua rede de apoio e reconhecimento fora de sua unidade.  
[...] resgatar aquilo que a gente esqueceu e trazer para  
reverberar no futuro  
Maria Antonieta  
Eu acho que uma prática, metodologicamente falando, é  
trazer esse conhecimento que foi apagado e silenciado  
através desses escritores.  
O movimento negro, a gente tem uma Sankofa que é uma  
ave que faz o movimento de voltar para trás e resgatar  
aquilo que a gente esqueceu e trazer para reverberar no  
futuro. Então, eu vejo que o movimento negro, a gente  
como pesquisadores e estudiosos, a gente busca fazer  
esse movimento constantemente de buscar referências,  
saber quem está produzindo, o que está produzindo e eu  
tento trazer isso também além desse trabalho de mestrado  
no meu dia-a-dia.  
Então, eu consigo casar um pouco a minha experiência  
como bibliotecária, não ficar só naquele espaço nosso,  
atendendo público. Eu tento fazer sempre um pouco a mais  
porque a discussão, a gente planta a semente hoje e  
espera que ela seja colhida mais pra frente, então, eu vejo  
essa possibilidade de combater esse racismo epistêmico  
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dessa forma, fazer com que adolescentes adultos  
conheçam esses autores, conheçam as lutas, se  
empoderem. É uma forma de mediar a informação também  
e fazer com que seja acessível e disseminada em todos os  
espaços, principalmente a informação étnico-racial.  
A entrevistada menciona em sua fala a Sankofa, cujo  
simbolismo significa “Aprender com o passado, construir sobre as  
fundações do passado” (Nascimento, 2021, p. 125). Este ideograma  
faz parte de um conjunto de símbolos denominado Adinkra, que se  
caracteriza pela imagem de uma ave que voa para frente tendo a  
cabeça voltada para trás, segurando um ovo com o bico. Segundo o  
artigo publicado por Leite (2021) no Portal Geledés, o símbolo “surgiu  
com o provérbio ganês “Se wo were fi na wosankofa a yenkyi” que  
significa “não é tabu voltar para trás e recuperar o que você esqueceu  
(perdeu)”.  
Figura 1 - Sankofa  
Dessa forma, o relato de Maria Antonieta traz aspectos  
relacionados às contribuições teóricas de pensadores e pensadoras  
negros e negras que são distintas das convencionalmente utilizadas  
à luz de uma tradição colonial, branca, heternormativa e ocidental;  
tendo a necessidade de articular as mencionadas estratégias a  
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movimentos sociais.  
A entrevistada evidencia aqui o princípio da ausência (Kilomba,  
2020) já mencionado outrora em outros relatos das entrevistadas.  
Dessa forma, na percepção de Maria Antonieta, resgatar  
metodologicamente o uso de autores que não foram historicamente  
considerados e validados no âmbito da academia é a estratégia de  
enfrentamento consagrada pela pesquisadora.  
Não obstante, a articulação aos movimentos sociais como o  
movimento negro implica na busca por referências teóricas e  
atualizações em relação aos autores e temas de pesquisa, de tal  
forma que esse resgate ultrapasse a perspectiva formal de obtenção  
de um grau acadêmico.  
Outra estratégia mencionada está fundamentada na  
articulação entre experiência profissional e a possibilidade de mediar  
informações fundamentadas em autores negras, suas lutas,  
direcionado a públicos em franco processo de formação cultural,  
como forma de empoderamento.  
[...] o que eu procuro fazer é estudar  
Maya Angelou  
O que eu procuro fazer é estudar, porque se eu acredito,  
se eu acredito não, se eu penso que um tema vale a pena,  
eu tento estudar e tento ser cabeça aberta.  
Maya Angelou traz em seu relato o estudo como estratégia de  
enfrentamento frente à desvalorização de temáticas inovadoras. As  
estratégias das entrevistadas estão em ampliar e enfatizar o foco nos  
estudos, considerando que tal foco é fruto de situações de  
desrespeito. A entrevistada também fala sobre “ser cabeça aberta”,  
para as novas discussões na Ciência da Informação, as quais  
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parecem ainda sofrer resistência na área, uma vez que sabemos da  
origem fisicalista e positivista da CI, que busca atualmente se  
aproximar de estudos de cunho social, como demonstra Saldanha  
(2020, p. 202):  
[...] a CI nasceu sob um enfoque fisicalista consideram  
que seu surgimento se dá no contexto do pós-segunda  
guerra mundial. E é exatamente este o contexto em que,  
dentro da área de organização do conhecimento, o  
pensamento fisicalista exerce influência direta na área,  
demarcado por um olhar positivista e, em determinados  
olhares, positivista lógico.  
Desse modo, a pesquisadora busca o estudo como sua  
estratégia de enfrentamento, procurando combater as injustiças  
epistêmicas que se colocam como forma de preconceito ao  
conhecimento produzido por ela.  
[...] eu não me sinto confortável em fazer o mínimo quando eu  
sei que teve pessoas que fizeram muito para as comunidades  
negras, pela ancestralidade negra  
Aqualtune  
Se você quer se tornar um ser humano que pouca gente  
vai tentar te descredibilizar epistemicamente, você tem que  
ler muito. Então, eu sou uma pessoa que eu estudo  
demais, eu estudo o dobro do dobro do dobro.  
Quando eu falo às pessoas que eu me embaso para trazer  
as argumentações, então, incentivar que você aprenda  
exatamente aqueles autores, os conceitos, os diálogos,  
faça as inter-relações, isso é importante para evitar que eu  
sofra injustiças epistêmicas, o que não quer dizer que eu  
não sofra, não é?  
Então, por exemplo, você tem que trabalhar mais para você  
ser respeitada, né? Então você tem que estar disponível  
para aquilo que te demandam, hipoteticamente, né? Você  
tem que mostrar que você sabe, tem que estudar mil vezes  
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mais, tem que ser muito boa naquilo que tu faz, se tu  
cometeres um erro, nossa, coitada de ti, entendeu?  
Mas dentro daquilo que eu posso, eu sempre tento ser a  
melhor possível. Hoje eu sempre brinco “os seus 30 por  
cento serão os 100 por cento está tudo bem”. Só que por  
muitos anos as minhas estratégias sempre foram essas  
muito estudo. A minha estratégia de enfrentamento nesse  
sentido contra essas injustiças então foi estudar muito, é  
saber de ponta a ponta os referenciais teóricos que me  
embasam, o que eles falam, é ter fichamento de todos os  
meus textos. Sempre estar buscando me inteirar daquilo  
que está acontecendo, que vai trazer para o meu  
fortalecimento intelectual, que permita então o meu  
desenvolvimento enquanto pesquisador, enquanto sujeito,  
enquanto mulher. Buscar saber um pouco mais da minha  
ancestralidade. Eu não me sinto confortável em fazer o  
mínimo quando eu sei que teve pessoas que fizeram muito  
para as comunidades negras, pela ancestralidade negra,  
que criaram biografias, que criaram sistemas de  
organização do conhecimento que criaram formas de  
enfrentar aquilo que eles sofriam.  
Aqualtune em seu relato traz um pouco de como é sua relação  
com o estudo, e principalmente, de como seu esforço em relação ao  
aprofundamento teórico se constitui como uma espécie de armadura  
contra desrespeitos e violências no espaço acadêmico do qual ela  
faz parte. É nítido em sua fala as demandas intelectuais dobradas  
que a entrevistada acaba por executar para que seja respeitada, o  
que nem sempre se concretiza.  
Grada Kilomba (2019) discorre acerca do elemento dissociativo  
empregado em frases como “ela é negra, mas é inteligente”, o “mas”  
é o elemento dissociativo, e ele desvincula a inteligência da  
negritude, sugerindo que as duas características não podem coexistir  
naturalmente. Explica a autora que para combater essa dissociação,  
pessoas negras sentem a necessidade de associar a negritude à  
excelência em todas as suas competências. Discorre Kilomba (2019,  
p. 176) “nos tornamos atrizes e atores excelentes de nossas  
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competências: nada medíocre, nada ordinário, nada mediano, mas  
sim excelente.”  
Como vimos anteriormente, o privilégio epistêmico permeia o  
tecido acadêmico e beneficia o conhecimento orientado à  
branquitude, isso significa que o conhecimento produzido e validado  
nos espaços acadêmicos tende a favorecer perspectivas brancas, e  
colocam à margem saberes contra-hegemônicos, bem como as  
vozes de indivíduos que buscam trabalhar com essas temáticas.  
Grada Kilomba (2019, p. 52) enfatiza que há uma “hierarquia  
violenta que determina quem pode falar”, e que muitas vezes os  
saberes advindos de pesquisadores negros são desqualificados  
como uma ciência credível. Assim sendo, para uma pesquisadora,  
mulher e negra ter seu espaço de fala e de construção de  
conhecimento respeitado, é necessário que ela demonstre o  
completo domínio sobre o que diz, e um pouco mais, ainda que isso  
não seja igualmente cobrado de pessoas brancas.  
Eu tenho muitas amizades negras e não negras que falam  
sobre a dificuldade que é você estar na academia, você  
passar por todos esses processos que muitas vezes tu está  
sozinho. A academia, a pesquisa, o mestrado e o  
doutorado… é algo sozinho. Ao mesmo tempo, outra  
estratégia é me aquilombar.  
Aqualtune também fala sobre o aquilombamento, assim como  
a pesquisadora Beyoncé, salientando a importância de construir  
alianças e parcerias para lidar com a dificuldade de estar sozinha em  
um espaço hostil para pessoas negras. Dessa forma, o esforço  
intelectual e o aquilombamento se tornam ferramentas importantes  
para seguir presente no meio acadêmico, impondo sua voz e  
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produzindo conhecimento que desafia as estruturas de poder  
vigentes.  
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
As estratégias de enfrentamento utilizadas por pesquisadoras  
negras na Ciência da Informação demonstram que o  
aquilombamento se constitui como a principal estratégia adotada  
pelas pesquisadoras negras para continuar resistindo e produzindo  
conhecimento nestes espaços, pois ele se forma a partir da união  
entre colegas que compartilham as mesmas dores e vivências  
cotidianas. Essa união não só articula a constituição de espaços  
simbólicos de acolhimento, como também objetiva o fortalecimento e  
a luta por mudanças institucionais e estruturais dentro da  
universidade. Outra estratégia mencionada nos relatos analisados foi  
a estratégia de cunho metodológico, que se constitui a partir de  
colocar-se no texto, de desenvolver pesquisas orientadas à  
decolonialidade, buscando autores, métodos e epistemologias do  
Sul, confrontando o atual modelo científico imposto que beneficia  
saberes oriundos do norte global. Alinhadas à essa perspectiva, as  
pesquisadoras destacaram como forma de enfrentamento a prática  
de resgatar saberes que foram historicamente ocultados ou até  
mesmo apagados por meio do epistemicídio e do memoricídio.  
Ademais, como estratégia de enfrentamento que aqui chamarei  
de individualizada, elas mencionaram a ênfase no estudo  
aprofundado. Essa abordagem visa blindá-las contra episódios de  
deslegitimação e descredibilização, permitindo que provem seu  
domínio sobre os assuntos em questão por meio de esforço  
intelectual contínuo. Ao se dedicarem a esse processo de  
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aprendizado, as pesquisadoras não apenas reforçam sua  
competência, mas também desafiam ativamente as narrativas que  
tentam desvalorizar suas contribuições ao campo acadêmico.  
Por fim, concluo este texto dizendo que ao desbravar as  
estratégias de enfrentamento às violências e injustiças epistêmicas  
confiadas a nós por meio dos relatos de Beatriz Nascimento,  
Beyoncé, Débora, Maya Angelou, Expedita, Maria Antonieta e  
Aqualtune, tivemos contato com sentimentos extremamente  
desconfortáveis e necessários para compreender que o ambiente  
acadêmico é um ambiente extremamente violento de perpetuação do  
epistemicídio e da exploração do corpo negro, que busca a todo  
momento relembrar pessoas não brancas de que elas não pertencem  
a este lugar. Dessa forma, estar presente e desenvolver estudos que  
subvertem essa lógica constitui um passo fundamental para fazer  
reverberar vozes antes apagadas e para afirmar a potência de  
conhecimentos que, historicamente, se tentou silenciar. Que essas  
produções ecoem não apenas como resistência, mas que abram  
caminhos para que novas epistemologias floresçam e reivindiquem,  
de modo incontestável, o lugar que sempre lhes foi devido.  
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