Profa Dra Martha Suzana Cabral Nunes A Revista ConCI, Convergências em Ciência da Informação, apresenta, neste número especial, o Dossiê Temático “Gênero, Informação e Pesquisa na Ciência da Informação”, reunindo 21 artigos que expressam as temáticas de gênero, sexualidades, raça, etnicidades, territórios, tecnologias e regimes de informação com densidade teórica e pluralidade metodológica e a potência política das investigações contemporâneas. Compreende um conjunto robusto de pesquisas que reafirma o papel da Ciência da Informação como campo crítico, socialmente comprometido e atento às disputas simbólicas, materiais e epistêmicas que estruturam a produção, a organização, a circulação e o uso da
informação na sociedade.
Este dossiê nasce da compreensão de que as questões de gênero não são periféricas, mas constitutivas dos sistemas informacionais, das instituições bibliotecárias, arquivísticas, museológicas e de memória, dos processos científicos e das práticas profissionais. Ao longo das últimas décadas, pesquisas feministas, interseccionais e decoloniais têm demonstrado que a informação não é neutra: ela carrega marcas de poder, exclusões históricas, silenciamentos e assimetrias que afetam diretamente quem pode produzir conhecimento, quem é reconhecido como sujeito epistêmico e quais narrativas se tornam legítimas. Nesse sentido, o dossiê dialoga com agendas nacionais e internacionais que reivindicam justiça informacional, diversidade epistêmica e democratização do acesso à informação como dimensões indissociáveis da justiça social.
Os artigos aqui reunidos revelam uma Ciência da Informação em movimento, que se debruça sobre fenômenos emergentes, como a desinformação de gênero mediada por tecnologias digitais e a inteligência artificial generativa, sem perder de vista problemas estruturais e persistentes, como a sub-representação de mulheres e grupos dissidentes nos espaços científicos, institucionais e decisórios. Ao articular análises bibliométricas, estudos de domínio, revisões narrativas, estudos de caso, pesquisas empíricas em ambientes informacionais e reflexões teóricas críticas, o dossiê evidencia a maturidade metodológica e a diversidade de abordagens que caracterizam o campo.
Um primeiro eixo temático do dossiê diz respeito à produção científica, à memória e à representatividade de mulheres e dissidências na Ciência da Informação e em campos correlatos. Os artigos “Histórias, destaques e desafios: representatividade de mulheres na ciência”, “Mulheres na Ciência da Informação: uma análise bibliométrica da produção científica em periódicos brasileiros (2010–2025)” e “Presença das mulheres na Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (ANCIB) (1989–2026)” oferecem um panorama crítico sobre trajetórias, padrões de autoria, redes de colaboração e processos de institucionalização, evidenciando avanços importantes, mas também lacunas persistentes. Ao lançar luz sobre dados históricos e contemporâneos, essas pesquisas contribuem para a construção de políticas científicas mais equitativas e para o fortalecimento de ações institucionais no âmbito de entidades como a Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação.
Outro conjunto expressivo de artigos aborda gênero, sexualidade e representação nos sistemas de organização do conhecimento e nos ambientes informacionais. Trabalhos como
“Análise de domínio no contexto de gênero e sexualidade” e “A terma ‘Travesti’ e o contexto brasileiro: desafios de representação e inserção em vocabulários internacionais LGBTQ+” evidenciam tensões entre linguagens documentárias hegemônicas e realidades socioculturais diversas, especialmente no Sul Global. Esses estudos reafirmam a necessidade de vocabulários sensíveis ao contexto, de práticas de descrição inclusivas e de epistemologias que reconheçam identidades historicamente marginalizadas como produtoras legítimas de conhecimento.
As bibliotecas, arquivos e museus emergem no dossiê como espaços estratégicos de mediação, acolhimento e cidadania. Artigos como “Função social das bibliotecas públicas no acesso à cidadania LGBTQIAPN+”, “Bibliotecas como espaços de acolhimento e cidadania: análise da promoção da diversidade de gênero e sexual na produção acadêmica brasileira”, “Museus, museologia e diversidade: uma reflexão sobre gênero sob a perspectiva social da Ciência da Informação” e “Feminismo crítico nos Arquivos (tradução)” ampliam a compreensão dessas instituições como agentes ativos na promoção de direitos, na construção de narrativas plurais e no enfrentamento das desigualdades. Ao articular Biblioteconomia Social, Museologia Social e Arquivística crítica, esses trabalhos reforçam o compromisso ético-político da área com populações vulnerabilizadas.
O dossiê também dedica atenção especial às práticas informacionais em contextos de cuidado, violência e justiça social, destacando experiências e estudos que dialogam diretamente com a vida cotidiana. Pesquisas como “As práticas informacionais de mães atípicas: as informações manifestadas sobre autismo no perfil Somos Colo de Mãe” e “Dispositivos informacionais utilizados no Centro de Referência da Mulher Ednalva Bezerra (CRMEB) no enfrentamento
à violência doméstica contra as mulheres” evidenciam como a informação opera como recurso de sobrevivência, resistência e empoderamento. Nesses contextos, a mediação da informação assume contornos afetivos, comunitários e políticos, desafiando modelos tradicionais centrados apenas na eficiência técnica.
No campo da educação, formação profissional e currículo, o dossiê apresenta reflexões fundamentais sobre competência em informação, justiça reprodutiva e diversidade sexual. Artigos como “Competência em informação para justiça sexual e reprodutiva: um mapeamento das produções”, “Diversidade sexual nas matrizes curriculares dos cursos de Biblioteconomia: análise nas regiões Norte e Nordeste” e “O papel da biblioteca no empoderamento de mulheres e meninas: um estudo de caso no Instituto Federal de São Paulo, campus Campinas” apontam para a urgência de currículos mais inclusivos, práticas pedagógicas críticas e ações formativas comprometidas com direitos humanos e equidade de gênero.
As dimensões tecnológicas e comunicacionais ganham destaque em artigos que analisam os impactos da desinformação e das novas tecnologias sobre as representações de gênero. “Desinformação de gênero e seus impactos na participação política feminina no serviço público”, “Desinformação de gênero facilitada pela tecnologia” e “Mulheres ideais irreais: mediações e estereótipos em influenciadoras criadas por Inteligência Artificial Generativa” problematizam algoritmos, plataformas digitais e ecossistemas informacionais que reproduzem estereótipos, violências simbólicas e desigualdades estruturais. Esses estudos reforçam o papel estratégico da Ciência da Informação no debate sobre regulação, letramento informacional crítico e ética da informação em contextos digitais complexos.
O dossiê se expande, ainda, para interfaces interdisciplinares e culturais, como demonstram os artigos “Ecofeminismo e desenvolvimento sustentável: uma perspectiva ambiental e de gênero”, “Teologia e mulheres pesquisadoras: estudos de gênero sob o olhar da Ciência da Informação” e “A cidade de João Pessoa na gira de Mãe Beata: Saluba Nanã!”. Esses trabalhos ampliam as fronteiras do campo, articulando informação, espiritualidade, território, sustentabilidade e saberes tradicionais, e reafirmam a importância do diálogo com epistemologias plurais e não hegemônicas.
Ao reunir pesquisas tão diversas e articuladas, esses e outros artigos deste dossiê confirmam que pensar gênero na Ciência da Informação é pensar o próprio futuro do campo. Trata-se de reconhecer que a informação pode tanto reproduzir desigualdades quanto atuar como ferramenta de emancipação, dependendo das escolhas teóricas, metodológicas, políticas e éticas que orientam nossas práticas. Os artigos aqui apresentados não apenas analisam problemas, mas também propõem caminhos, metodologias e intervenções que fortalecem uma Ciência da Informação comprometida com a democracia, a inclusão e a justiça social.
A Revista ConCI, ao acolher este Dossiê Temático, reafirma seu compromisso com a pluralidade epistemológica, com a ciência aberta e com a valorização de pesquisas que dialogam com demandas sociais urgentes. Esperamos que este conjunto de textos inspire novas investigações, fortaleça redes de pesquisa e contribua para políticas institucionais mais sensíveis às questões de gênero, raça, sexualidade e território no âmbito da informação.
Que este dossiê seja lido não apenas como um recorte temático, mas como um chamado à ação: para repensar currículos, sistemas de organização do conhecimento, práticas profissionais,
políticas científicas e tecnologias informacionais à luz da equidade e da diversidade. Em tempos de disputas informacionais, afirmar gênero como categoria analítica central é, também, afirmar a Ciência da Informação como campo ético, crítico e socialmente responsável.
Que cada um dos artigos desse dossiê seja um convite à leitura, reflexão e ação!
Profa Dra Martha Suzana Cabral Nunes
Editora ConCI