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Dossiê
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 44, e21735, 2025
DOI: 10.21669/tomo.v44.21735
Dossiê
E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549
Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle:
um estudo de caso sobre o Centro de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD)
Elton Corbanezi*1
Alexandre Cesar de Amorim Barros**2
Resumo
Presencia-se atualmente transformações nas estratégias contemporâneas de poder: as emergentes técnicas
de controle ao “ar livre”, associadas à governamentalidade neoliberal, coexistem com técnicas coercitivas
das sociedades disciplinares. Os imperativos da competição, do desempenho, da autonomia e da liberdade,
próprios da subjetivação contemporânea, se articulam com as tecnologias de vigilância e punição nas dife-
rentes esferas sociais, implicando tanto a normalização individual quanto a produção da saúde mental. A
partir dessa discussão, este artigo interpreta os discursos e as práticas terapêuticas de um Centro de Aten-
ção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) no estado de Mato Grosso. Para o estudo de caso, utilizamos os
seguintes procedimentos de pesquisa: revisão bibliográfica, análise documental, produção de dados empí-
ricos por meio de entrevistas com os profissionais da instituição, observação da estrutura e rotina da insti-
tuição e o acesso a fontes documentais sobre a demanda de atendimento e o tratamento da clientela. Após
análise dos dados, sustentamos que as tecnologias modernas e contemporâneas de poder se justapõem e se
entrelaçam no tratamento ofertado pelo CAPS AD, de modo que tanto o paradigma contemporâneo baseado
na redução de danos quanto o da lógica manicomial moderna se articulam na instituição mediante discursos
e práticas. Evidenciamos, assim, a manifestação de uma tecnologia de poder híbrida de normalização e de
gestão da saúde mental.
Palavras-chaves:
* Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Departamento de Sociologia e Ciência Polí-
tica e Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. E-mail: eltonrcorbanezi@gmail.com Orcid:
https://orcid.org/0000-0003-2802-7259 CrediT: Conceitualização. Investigação. Metodologia. Administração do Projeto.
Supervisão. Escrita – revisão e edição.
** Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Programa de Pós-Graduação em Socio-
logia. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Email: ale.cesar.amorim@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0009-0003-2618-0118
CrediT: Conceitualização. Tratamento dos dados. Análise Formal. Investigação. Metodologia. Administração do Projeto.
Escrita do rascunho original. Escrita – revisão e edição.
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Elton Corbanezi; Alexandre Cesar de Amorim Barros
INTRODUÇÃO
A trajetória da política de drogas e do cuidado em saúde mental no Brasil é marcada pela violência
institucionalizada e pelo desrespeito aos direitos humanos. Ao longo de todo o século XX, tanto
o enclausuramento de usuários e de dependentes químicos em presídios e manicômios quanto o
tratamento à base de choques elétricos, da abstinência e da medicalização constituíram-se como
mecanismos predominantes no manejo dessa população. Instituições como o Hospício Dom Pedro
II, no Rio de Janeiro, e o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, tinham como função en-
clausurar e retirar do convívio social pessoas percebidas como perigosas à ordem pública, entre
elas usuários e dependentes químicos.
Somente no final do século XX que se iniciam transformações relacionadas às políticas em saúde
mental. A partir da década de 1970, movimentos como o da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB)
e da Luta Antimanicomial passaram a questionar o tratamento centrado no enclausuramento e
na abstinência, denominada lógica manicomial, devido aos sistemáticos casos de violação dos di-
reitos humanos, desde maus-tratos, superlotação, elevada quantidade de óbitos e de privação de
liberdade (Sampaio e Bispo, 2020, p. 1). A Lei de Reforma Psiquiátrica de 2001 (Brasil, 2001),
a constituição da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) (Brasil, 2011) e dos Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS) são conquistas desses movimentos de resgate dos direitos humanos e da de-
sinstitucionalização do cuidado em saúde mental.
Nesse período, iniciam-se algumas transformações nas políticas de saúde mental no sentido da
desinstitucionalização do cuidado, com experiências de assistência psicossocial de modelo aberto,
territorial e interdisciplinar, buscando incluir os sujeitos na comunidade e não mais se baseando
no modelo hospitalocêntrico. O processo de desinstitucionalização da doença mental perpassa
também pela emergência e consolidação do conceito de “saúde mental” desde a segunda metade
do século XX, o qual envolve não apenas a patologia e a ausência de transtorno, mas também a
promoção do bem-estar (Corbanezi, 2021).
Em oposição à lógica manicomial e hospitalocêntrica, a atual legislação brasileira tem enquanto
proposta o cuidado psicossocial de caráter aberto, comunitário, interdisciplinar e orientado pelo
princípio da redução de danos, segundo o qual a internação é indicada apenas em casos em que os
recursos extra-hospitalares não se mostram suficientes, mantendo sempre no horizonte a reinser-
ção social do paciente. A instituição representativa dessa proposta, no que tange ao tratamento de
usuários e dependentes químicos, são os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS
AD). Nesse sentido, os CAPS se apresentam como conquistas de um longo processo de luta pela
desinstitucionalização e humanização do cuidado em saúde mental, ainda que, como veremos nes-
te artigo, sua implementação não foi totalmente acompanhada pela substituição de dispositivos
hospitalocêntricos clássicos.
Para além das transformações nas políticas em saúde mental voltadas a usuários e dependentes
químicos, a exemplo da constituição dos CAPS AD e da Rede de Atenção Psicossocial, autores como
Michel Foucault, Gilles Deleuze e Byung-Chul Han assinalam mudanças mais amplas das tecnolo-
gias de poder, entre as quais as políticas de cuidado em saúde mental no Brasil constituem casos
particulares dessas transformações. Grosso modo, esses autores argumentam que presenciamos
atualmente a emergência de uma nova tecnologia de poder e de produção de subjetividade nas so-
ciedades neoliberais contemporâneas. Segundo Deleuze (1992, p. 220), “nos encontramos numa
crise das sociedades disciplinares e dos sistemas de confinamento”, próprias do século XVIII e XIX,
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Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle
e podemos visualizar a emergência de outras configurações de poder, compreendidas pelo autor
a partir da noção de sociedade de controle. Tal transformação não implica, porém, a superação da
tecnologia de poder disciplinar.
Atualmente, as emergentes técnicas de controle no espaço social aberto, associadas à governa-
mentalidade das sociedades neoliberais, convivem com técnicas coercitivas das sociedades disci-
plinares. Nas sociedades disciplinares, os indivíduos não cessavam de passar de uma instituição a
outra, da família para a escola, da escola para a caserna, da caserna para a fábrica, eventualmente
para a prisão e para o hospital, sendo submetidos a um conjunto de regras, obrigações e proibições
que visam a normalização dos corpos (Han, 2018). As tecnologias de poder disciplinar buscam
conduzir a conduta dos indivíduos por meio da vigilância e da punição, tendo como objetivo a ma-
ximização da utilidade econômica e a produção da docilidade política (Foucault, 1988, p. 130). As
tecnologias de poder das sociedades de controle, por sua vez, buscam governar os indivíduos por
meio da subjetivação e da incorporação de valores vinculados à racionalidade neoliberal, em que
a “autonomia individual”, o “desempenho”, o “autocuidado” e a “competitividade” funcionam como
imperativos que orientam e conduzem as condutas dos indivíduos (Corbanezi e Rasia, 2020).
Com base nessa discussão acerca das transformações nas técnicas de poder das sociedades con-
temporâneas, o objetivo deste artigo é compreender em que medida as políticas de cuidado em
saúde mental e, particularmente, as práticas de ressocialização do CAPS AD se relacionam com o
processo de transformações da racionalidade e das estratégias de poder do capitalismo contem-
porâneo. Em outras palavras, visamos interpretar a constituição da Rede de Atenção Psicossocial
e, principalmente, do CAPS AD, a partir das tecnologias de poder das sociedades disciplinares e
das sociedades de controle.
Além desta introdução e das considerações finais, o artigo se constitui de duas seções. Na primei-
ra, apresentamos dados empíricos produzidos a partir de estudo de caso do CAPS AD no estado
de Mato Grosso, de forma a evidenciar tanto o funcionamento dessa instituição em suas múltiplas
dimensões quanto a perspectiva dos profissionais sobre o tratamento ofertado. Na segunda, apro-
fundamos o debate teórico a respeito das transformações das técnicas de poder das sociedades
contemporâneas, a fim de contextualizar as práticas e os discursos do CAPS AD no conjunto dessas
transformações1.
CAPS AD: ENTRE O TRATAMENTO DESINSTITUCIONALIZADO E A
INTERNAÇÃO
Nesta seção, descrevemos o modo de funcionamento do CAPS AD em suas múltiplas dimensões e
apresentamos a perspectiva dos profissionais sobre o tratamento a partir do estudo de caso reali-
zado. Nesse sentido, buscamos mostrar as relações de poder estabelecidas entre os profissionais e
a clientela do CAPS AD, assim como entender de que maneira e a partir de quais mecanismos a ins-
tituição pode operar em termos de governamentalidade, isto é, como forma de conduzir condutas.
1 Este artigo é fruto de uma dissertação de mestrado (Barros, 2023). O levantamento de dados foi realizado em uma unidade
do CAPS AD do Estado de Mato Grosso por meio entrevistas semiestruturadas com os profissionais da instituição da ob-
servação de campo e da análise documental. Sendo uma pesquisa que envolve seres humanos, o projeto foi submetido ao
Comitê de Ética em Humanidades da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 05 de setembro de 2022 e aprovado
em 07 de outubro de 2022. O Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) do projeto foi registrado com o nº
60702022.5.0000.5690.
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Elton Corbanezi; Alexandre Cesar de Amorim Barros
Para o estudo de caso, utilizamos os seguintes procedimentos de pesquisa: revisão bibliográfica,
análise documental, produção de dados empíricos por meio de entrevistas com os profissionais da
instituição, observação da estrutura e rotina da instituição e o acesso a fontes documentais sobre
a demanda de atendimento e o tratamento da clientela.
Os relatos foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas, isto é, com roteiro prévio de
perguntas estabelecidas para cada perfil profissional, mas aberta às observações advindas dos en-
trevistados. Foram realizadas entrevistas com sete profissionais: o coordenador da instituição, um
psicólogo, um assistente social, um enfermeiro, um artista plástico, um técnico em enfermagem e
um nutricionista. Demos preferência aos profissionais que estavam responsáveis por algum dos
grupos terapêuticos na Unidade. O médico foi o único profissional com quem não conseguimos re-
alizar entrevista individual, por ter se recusando a participar da presente pesquisa. As entrevistas
foram realizadas de outubro de 2022 a janeiro de 2023, com duração média de 40 minutos cada.
Com relação às fontes secundárias de dados, a pesquisa pretendia ter acesso à sistematização dos
dados referentes aos números de atendimentos e procedimentos realizados e ao perfil da clientela
atendida e em atendimento de 2018 a 2022. No entanto, devido à ausência do técnico administra-
tivo na instituição, os dados não foram devidamente registrados e sistematizados pela instituição
durante esse período, inviabilizando a sua utilização. Também não foram encontrados dados na-
cionais disponíveis sobre as taxas de internação. Pretendemos retomar esse ponto em pesquisas
futuras.
Esta pesquisa parte do pressuposto de que os discursos dos profissionais sobre o tratamento
ofertado e sobre o perfil de clientes têm efeitos de verdade e poder (Foucault, 2016, p. 138), as-
sim como permitem perceber as relações de poder estabelecidas entre os sujeitos envolvidos e o
tratamento ofertado pela instituição. Visto que nosso objetivo é interpretar sociologicamente o
serviço oferecido pelo CAPS AD sob a ótica das tecnologias de poder, esta seção apresenta os da-
dos relacionados a essa questão. Para tanto, consideramos que dois aspectos principais do CAPS
AD são fundamentais para compreender o funcionamento da instituição, a saber, a caracterização
do atendimento e do perfil da clientela, bem como o papel da instituição nos procedimentos de
internação.
As principais leis2 que regulamentam o funcionamento do CAPS AD orientam que a instituição
proceda com base nos seguintes princípios: oferta de serviço de acolhimento psicossocial mul-
tidisciplinar que funcione de portas abertas e tenha enquanto objetivo a redução nos índices de
internação; representação do processo de substituição do modelo asilar e hospitalocêntrico para
um serviço de caráter aberto e comunitário; promoção do protagonismo e da autonomia de seus
clientes e a participação da família, da comunidade e da sociedade; realização de suas atividades
em respeito aos direitos humanos, de modo a evitar a produção e reprodução de estigmas sociais
relacionados às pessoas com transtornos mentais e/ou com transtornos decorrentes de uso de
álcool e outras drogas.
2 Referimo-nos aos seguintes documentos e legislações: 1- Lei n. 10.216/2001 (Brasil, 2001), conhecida como “Lei de Refor-
ma Psiquiátrica”, 2- “Saúde mental no SUS: os centros de atenção psicossocial” (Ministério da Saúde, 2004), 3- “Manual de
estrutura física dos Centros de Atenção Psicossocial e Unidades de Acolhimento: orientações para elaboração de projetos
de construção, reforma e ampliação de CAPS e de Unidades de Atendimento como lugares da atenção psicossocial nos ter-
ritórios (Ministério da Saúde, 2013), e o 4- “Projeto terapêutico global do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras
Drogas - 2022” da instituição objeto desta pesquisa.
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Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle
O CAPS AD pesquisado funciona de portas abertas, em horário comercial, e realiza o primeiro aco-
lhimento dos clientes sem que haja necessidade de agendamento prévio. Para desenvolvimento de
sua missão, a instituição dispõe de atendimentos individuais realizados pela equipe multidiscipli-
nar (técnicos de enfermagem, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, médicos), de oficinas
terapêuticas, de acolhimento familiar e de visitas domiciliares.
O “caminho ideal” do cliente pela instituição se dá pelo primeiro acolhimento, procedimento que
visa realizar uma investigação socioeconômica, clínica e emocional e agendar os demais atendi-
mentos com a equipe multidisciplinar. Após os atendimentos individuais, constrói-se o Projeto
Terapêutico Singular, documento que realiza a mediação entre o atendimento ao cliente e os servi-
ços ofertados pela instituição. Esse documento contém as características clínicas e sociais de cada
cliente e a indicação a um dos grupos terapêuticos em funcionamento na unidade, possibilitando
assim um tratamento psicossocial de caráter aberto e multidisciplinar que se adapte às particula-
ridades de cada usuário e a cogestão dos casos pela equipe de profissionais.
Em contraste ao “caminho ideal”, pode-se constatar, a partir dos relatos dos entrevistados, que,
na realidade institucional, o percurso ideal do cliente frequentemente não se efetiva como es-
perado, resultando, por vezes, na baixa frequência dos clientes nos atendimentos individuais e
nos grupos terapêuticos, serviços que expressam o tratamento aberto, comunitário e multidis-
ciplinar.
Conforme os relatos obtidos na pesquisa, essa realidade é motivada por diversos fatores: a incom-
patibilidade de horários entre os clientes que possuem trabalho fixo e o expediente da instituição,
a estrutura precária, o impacto da pandemia de Covid-193 e, principalmente, pela expressiva pre-
sença de clientes flutuantes na instituição, isto é, clientes que não têm assiduidade nos tratamen-
tos individuais e/ou nos grupos terapêuticos.
Segundo a perspectiva dos profissionais, a clientela flutuante da instituição é composta de três
principais perfis: os clientes que, segundo os profissionais entrevistados, não desejam genuina-
mente realizar o tratamento e procuraram a instituição por pressão familiar ou por determinação
judicial; os clientes que possuem alguma comorbidade psicológica (esquizofrenia, por exemplo)
ou que necessitam de recorrentes internações em razão do uso abusivo da substância, inviabili-
zando, assim, a constância nos atendimentos individuais e coletivos; por fim, os clientes denomi-
nados pelos profissionais como “pacientes por demanda medicamentosa”.
Os profissionais caracterizam esse último perfil como clientes que não compreendem o trabalho
oferecido pelo CAPS AD (psicossocial e multidisciplinar) ou que, de alguma forma, buscam ludi-
briar o tratamento multidisciplinar, construindo estratégias de participação que garantam somen-
te tratamento médico e medicamentoso, mesmo sem a completa adesão ao CAPS AD e a efetiva
participação nos grupos terapêuticos e demais atendimentos individuais. A partir dos relatos dos
profissionais, é possível constatar que há uma relação conflituosa entre os profissionais da Unida-
de e esses chamados “clientes por demanda medicamentosa”:
3 A pesquisa foi realizada após o período de isolamento social da pandemia de Covid-19, de outubro de 2022 a janeiro
de 2023. A rotina da instituição estava se estabilizando: os atendimentos presenciais estavam funcionando normal-
mente desde o início de 2022, respeitada a utilização de máscaras. Segundo o relato dos profissionais da instituição, o
período pós-pandemia tinha influência na baixa frequência dos clientes nos grupos terapêuticos e nos atendimentos
individuais.
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Porque assim, o que mais acontece aqui: tem muita gente, desses pacientes nossos que che-
gam para começar o tratamento, ele não entende que aqui é uma equipe multidisciplinar,
ele vai ter que passar por todos os profissionais, e aí no final de tudo vão fazer um estudo
de caso e vamos dizer que a gente pegou e ofereceu um determinado grupo para ele, que ele
se adequa melhor, e aí ele assina um termo de responsabilidade, de participar dos grupos,
e aí quando ele assina esse termo ele se responsabiliza a estar vindo uma vez por semana
participando do grupo, e aí ele vai ter acesso, quando ele participa do grupo, a toda a equipe
multidisciplinar à disposição dele, inclusive o médico, para poder estar fazendo nova recei-
ta para ele da medicação, que ele possivelmente vai estar tomando; e aí o que que acontece:
ele não adere ao tratamento, aí eles querem vir principalmente para atendimento médico,
porque muitos que já estão nessa situação, e tomando medicação há muito tempo, eles não
são dependentes somente assim da droga, muitas vezes ficam dependente da medicação,
aí muitas vezes ele não quer aderir o tratamento. “Porque se você não aderir o tratamento
não tem porque você está no CAPS, se você quer só médico, então você vai para rede, numa
UPA, na Policlínica para você conseguir a consulta com o médico” [profissional entrevistado
reproduzindo fala direcionada ao cliente]. Porque aqui o tratamento é embasado nisso, na
equipe multidisciplinar, passar por todos da equipe, e aí [realizar um] estudo de caso com
todos para chegar a um parecer geral sobre o paciente, [o pesquisador indaga: que é o pro-
jeto singular, correto?] isso, exatamente, e aí as pessoas, muitas vezes eles não entendem.
Ele quer passar pelo médico e acha que não precisa [do tratamento multidisciplinar], aí
quando acontece esse fator, chama ele para conversar, tem um pessoal da família você tem
que explicar novamente, como que funciona o trabalho. [...] (ENTREVISTADO 2)
Por exemplo, esse senhor é um senhor que sempre tá solicitando as coisas aqui, mas nunca
adere ao grupo, e nós aqui somos um tratamento, e os grupos são essenciais, os grupos tera-
pêuticos. Mas aí tem gente que às vezes pela facilidade do atendimento médico, porque tem
médico, pelo menos o clínico aqui, não quer sumir, não quer sair daqui ou procurar outro
[serviço]; a gente às vezes até oferece -“eu vou te encaminhar, já que você não pode partici-
par de grupo, aqui não é ambulatório, aqui é um todo, um conjunto para o tratamento dar
certo, não é só médico, gente vai te encaminhar então para policlínica, para especialidade,
você quer só médico” - “ah mas não sei o que” [interjeição imitando o cliente], aí quer ficar
aqui, então, assim, às vezes, aí a gente pega, faz encaminhamento, e fala “ó, você vai tá aqui
ainda, mas assim que você conseguiu o médico lá você volta você vai receber alta, porque
não justifica ficar aqui só médico, aqui não é um ambulatório só de atendimento médico”.
Então, a gente tem essas dificuldades e esse senhor geralmente é assim. Ele quer a receita,
né? Porque vem para passar pelo médico, as vezes já toma algum medicamento, quer a re-
ceita do medicamento que ele toma; então fica assim, acha fácil, porque aqui é mais fácil, se
ele está aqui em tratamento (realizando tratamento no CAPS AD), agenda e vem. Só que não
pode ser assim, se a gente abrir mão então aqui vira ambulatório. E o CAPS? Característica
de CAPS? É tratamento, é conjunto, é a equipe, multidisciplinar. (ENTREVISTADO 6)
Com o objetivo de normalizar esse perfil de cliente à proposta da instituição, os profissionais pro-
cedem basicamente de duas maneiras: a primeira consiste em um trabalho de conscientização
dos usuários sobre a importância da frequência nos grupos terapêuticos e nos atendimentos in-
dividuais para o sucesso terapêutico; a segunda reside em informar o usuário do serviço sobre a
possibilidade de receber alta em virtude da baixa adesão, o que implicará o impedimento momen-
tâneo do cliente aos serviços ofertados pela instituição, incluindo o tratamento médico e medica-
mentoso, razão pela qual seria obrigado a recomeçar (se for de seu interesse) o tratamento e ser
atendido por todos os profissionais para a reconstrução do Projeto Terapêutico Singular.
Nos casos em que os clientes não se ajustam completamente à proposta da instituição, principal-
mente os “clientes por demanda medicamentosa”, a ameaça de alta dessa clientela pode ser qua-
lificada como um mecanismo de sanção disciplinar, cuja aplicação não impede o usuário de vir a
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Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle
ser novamente atendido pela instituição, mas funciona como uma “penalização”, implicando uma
suspensão temporária do tratamento e do acesso facilitado ao atendimento médico. Diante dessa
significativa parcela de clientes flutuantes, dos mais variados perfis, tornou-se necessário compre-
ender a visão dos profissionais sobre os fatores determinantes para a efetiva adesão do cliente ao
tratamento. Eis os relatos de alguns profissionais entrevistados:
É ele ter o entendimento de que ele precisa disso, a maioria não tem esse entendimento e
assim ele tem que querer, tem que querer muito, tem que querer, porque assim as vezes a
pessoa até quer, mas ela não tem aquela força de vontade de vir ou não acredita no trata-
mento, entendeu. (ENTREVISTADO 1)
Querer, primeira coisa é querer, querer se tratar e querer parar, ou reduzir danos. Que a
gente trabalha com redução de danos por quê? Não adianta a gente falar para o cliente as-
sim: “você tem que parar”, que aí a gente vai assustar o cliente; então assim, ele vem e a gen-
te fala que trabalha com redução de danos, que é para ele ir diminuindo, é claro que o ideal
é que pare, mas assim a gente respeita, né? Não tem como você impor. (ENTREVISTADO 6)
Então, o principal é o cliente ter crítica sobre os prejuízos, é que às vezes os clientes vêm
para fazer o tratamento, muitas vezes encaminhados judicialmente né, ou por pressão fa-
miliar, e aí ele não acha que aquilo, ele não tem crítica, para ele aquilo não é, não causa
prejuízos, então isso dificulta muito a adesão e dificulta o tratamento, porque se ele não
aceita que faz prejuízo, como que a gente vai fazer uma terapia de redução de danos. Então
é bem complicado. Agora aquele cliente que ele tem crítica, ele tem ciência que o uso da
substância tá prejudicando ele, familiar, financeiro conjugalmente, saúde, aí a gente conse-
gue conversar, consegue definir o tratamento dele com mais facilidade, e ele também con-
segue aceitar, aderir mais ao tratamento, né, então a crítica para mim é um dos principais
motivos para ele conseguir ficar no tratamento, se não tiver, na grande maioria das vezes
eles abandonam. (ENTREVISTADO 3)
O que é determinante, primeiro, o apoio familiar; segundo, a retomada do trabalho, isso é
fundamental para eles, voltar a trabalhar, voltar a ter um ciclo de convivência. (ENTREVIS-
TADO 4)
Aí é da pessoa, porque cada um é um, o CAPS em si, sozinho, não faz nada se o cliente não
quiser; então se a pessoa deseja, ela consegue, tem mais resultado, entendeu? Os que não
desejam muito, a princípio pode não desejar, depois no decorrer do tratamento ele muda e
já começa a melhorar e aceitar, e tem melhora; mas leva um tempo maior, entendeu? (EN-
TREVISTADO 5)
Os relatos dos profissionais expressam a ideia de que, além das comorbidades psicológicas e dos
clientes por demanda medicamentosa, a significativa parcela de clientes flutuantes se dá em razão
do “baixo interesse” por parte da clientela. A perspectiva dos profissionais é que o desenvolvi-
mento terapêutico é, em grande medida, definido pelo esforço e comprometimento do cliente em
relação ao tratamento. A maior parte dos relatos aponta que o reconhecimento de sua condição
por parte do cliente é um requisito básico, seguido da vontade real do cliente e da sua disposição
para o tratamento, além do suporte familiar.
Quanto à relação do usuário com o consumo de drogas, pode-se constatar que, apesar de a redu-
ção de danos ser o discurso dominante na maior parte dos relatos dos entrevistados, percebe-se
que muitos profissionais utilizam os termos “recaídas” e “relapsos”, vinculados à abstinência, para
se referirem à retomada do uso de drogas por parte dos usuários; além disso, alguns profissionais
acreditam que a abstinência é a única saída para alguns clientes, principalmente dos usuários
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dependentes de álcool4. Em síntese, podemos dizer que o tratamento ofertado pelo CAPS AD, a
despeito da infraestrutura precária5 e da presença significativa de clientes fluentes, é caraterizado
por um serviço de caráter multidisciplinar e aberto e, grosso modo, orientado pela perspectiva da
redução de danos.
Além do suporte psicossocial a usuários e dependentes químicos, o CAPS AD realiza outra fun-
ção fundamental dentro da Rede de Atenção Psicossocial: a triagem de clientes que necessitam
de internação e o encaminhamento deles para as instituições que ofertam esse tipo de serviço,
saber, as unidades 1 e 3. A Lei de Reforma Psiquiátrica prevê que esse mecanismo seja utilizado
apenas quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. No entanto, por meio
dos relatos dos profissionais entrevistados da instituição em análise, podemos observar que a
internação ainda se configura como uma técnica de gestão da clientela em instituições da Rede de
Atenção Psicossocial, cuja legislação prevê, de fato, mesmo que sob uma perspectiva humanizada,
instrumentos de retirada dos usuários do convívio social e, consequentemente, o fluxo deles para
hospitais psiquiátricos.
Cada uma das unidades que realizam a internação em Mato Grosso possui um perfil específico de
clientes. A unidade 1 do Complexo Adauto Botelho é indicada a clientes que fazem uso abusivo de
álcool e/ou drogas e possuem, nas palavras dos entrevistados, algum “transtorno de base”, isto é,
algum problema prévio de ordem psicológica, a exemplo da esquizofrenia, ou adquirido devido
ao uso abusivo de drogas. Geralmente os clientes que estão “em surto”, que “perderam a noção do
tempo e do espaço” e/ou estão com “falas desconexas” são encaminhados para essa Unidade. Um
dos profissionais entrevistados relata sobre esse perfil de cliente:
Tem bastante caso [de internação], esse mês passado mesmo teve muita internação, tem
paciente que ele chega [a frase não concluída pelo entrevistado], é, geralmente esses
pacientes que são internados, é algum paciente que ele já deve ter algum transtorno de
base, entendeu? Que é um paciente mais difícil. Que aí tem paciente que é difícil até você
manter um diálogo com eles, eles falam [apresentam] conversa desconexa. Pessoas, um
esquizofrênico por exemplo, que ele fala que começou ouvir vozes e tal, e aí chega muito
paciente aqui que ele está querendo tirar a vida, entendeu? Então esses pacientes que a
gente vê que têm esse maior risco, que, [se] ele ficar em casa, ele tá correndo risco dele tirar
a própria vida ou de algum familiar, então a gente procura fazer internação deles. Porque
daí assim, vai, vai muitas vezes ele volta e retorna, passa três meses [internado] e logo ele
retorna ao tratamento [no CAPS AD], mas assim muitas vezes é necessário a contenção
medicamentosa, né? Naquele momento, pra ele se acalmar, para ele sair daquele surto, pra
ele voltar a ter um convívio tranquilo com a família, um albergue, depende da situação dele.
(ENTREVISTADO 2)
4 Um dos profissionais entrevistados relata: “então assim, não tem assim, o que eu vejo, da pessoa que ele é usuário de bebida
alcoólica, que tipo assim, ele nunca vai ele nunca vai ser um, vai beber socialmente, nunca, ou ele vai ele vai beber até ele
ficar ruim, até ele desmaiar de tanto beber, e vai recair, ou ele vai ficar sem beber, não tem como falar que ele vai diminuir
aos poucos, impossível” (ENTREVISTADO 2).
5 O “Manual de estrutura física dos Centros de Atenção Psicossocial e Unidades de Acolhimento”, do Ministério da Saúde,
2013, é o documento que normatiza o espaço físico do CAPS AD, instituindo requisitos ideias mínimos de funcionamento.
Segundo a legislação, os CAPS AD devem constituir “espaços que expressem o “cuidar em liberdade e a afirmação do lugar
social das pessoas com a experiência do sofrimento psíquico e da garantia de seus direitos” (Ministério da Saúde, 2013). A
realidade do CAPS AD objeto dessa pesquisa deixava de atender alguns requisitos instituídos na legislação, a saber: áreas
externas e internas de convivência que não se confundam com o corredor da instituição. Além disso, os relatos dos profis-
sionais apontavam para deficiências em questões elétricas e hidráulicas do prédio.
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Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle
A Unidade 3 do complexo, por sua vez, é indicada para pacientes que estão em uso abusivo de
álcool e/ou drogas e que não possuem comorbidade psicológica sobressalente; são clientes em
que o uso intenso e abusivo de drogas tem ocasionado, da perspectiva dos profissionais, graves
problemas clínicos e/ou psicológicos e que, portanto, necessitam de um tratamento intensivo,
medicamentoso e que implique a abstinência em relação ao consumo. Segundo um dos relatos dos
profissionais, os casos de internação na Unidade 3 se apresentam, por exemplo, da seguinte forma:
Então, o paciente é debilitado, quando você vê que tem emagrecido, que ele tá tipo tá em
fissura, não consegue parar, entendeu? ou tá tentando parar sozinho tem lá uma semana
10 dias sem usar chega aqui tremendo, com quadro de crise de abstinência, entendeu, você
vê que ele precisa de um suporte, naquela fase aguda que, a medicação oral pra ele ali, em
casa, não vai dar, que ele não vai dar conta de tomar certinho, a gente faz estudo de caso e
regula vaga e encaminha pra internação.” (ENTREVISTADO 1)
A partir dos relatos dos profissionais entrevistados é possível depreender os critérios e as situações
que a instituição leva em consideração para encaminhar o cliente à internação nas Unidades 1 e 3.
Trata-se de casos de “uso abusivo” de drogas e álcool, de clientes “debilitados” ou “emagrecidos”, de
quadros de fissura e/ou abstinência, de casos de “surto psicológico” e de usuários que, devido à sua
condição clínica e psicológica, são compreendidos enquanto uma ameaça para si ou para terceiros,
visto que correm o risco de “tirar a própria vida ou de algum familiar”. Tais critérios estão descritos
no Projeto Terapêutico Global da Instituição. Em geral, podemos compreender que há um critério
subjacente e comum para a internação do cliente: a perda de autodeterminação e de autonomia.
O CAPS AD é a instituição representativa de um tratamento que busca promover a responsabilida-
de e a autonomia dos clientes. No entanto, a perda da autonomia e da autodeterminação dos clien-
tes é precisamente o fator preponderante para a internação deles. Quando a instituição compre-
ende que o indivíduo não “responde mais por si”, que ele perdeu a capacidade de controle sobre o
uso da substância, que necessita de um acompanhamento medicamentoso devido a intoxicações
ou crises de abstinência ou que pode vir a cometer alguma agressão contra si ou a terceiros, é o
momento em que o cliente não tem mais condições de ter tratamento em regime aberto e comuni-
tário e é encaminhado a unidades de internação, por vezes sem o pleno consentimento.
Em síntese, o CAPS AD realiza duas funções principais enquanto um dos pontos de atendimento
da Rede de Atenção Psicossocial: o tratamento psicossocial aberto e multidisciplinar, bem como a
triagem e o encaminhamento de clientes que necessitam de internação às unidades de referência.
Observamos na realidade da instituição pesquisada que, apesar dos esforços dos profissionais, o
“caminho ideal” do cliente muitas vezes não se concretiza, principalmente em razão da expressiva
presença de clientes flutuantes na instituição. Constatamos ainda que, da perspectiva dos pro-
fissionais, o sucesso terapêutico dos clientes e suas efetivas adesão e constância são, em grande
medida, proporcionais ao comprometimento deles com o tratamento, ao reconhecimento do pro-
blema e ao apoio familiar.
A partir dessa descrição e caraterização, podemos afirmar que o CAPS AD tem ocupado uma po-
sição intermediária entre o tratamento aberto e o regime de internação: ao mesmo tempo em
que oferta um tratamento psicossocial sem a reclusão dos usuários, cumpre a função de verificar
continuamente a necessidade da internação dos clientes, bem como fornece os encaminhamentos
para os exames protocolares e solicita a regulação da vaga do procedimento de internação. Obser-
va-se, desse modo, que tanto a atual política de redução de danos quanto a lógica hospitalocêntri-
ca se articulam na instituição mediante discursos e práticas.
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Elton Corbanezi; Alexandre Cesar de Amorim Barros
A LÓGICA MANICOMIAL E A POLÍTICA DE REDUÇÃO DE DANOS: ENTRE O
PODER DISCIPLINAR E A SOCIEDADE DE CONTROLE
Considerando a apresentação dos dados da pesquisa de campo, bem como a caracterização do
serviço ofertado pelo CAPS AD e sua função no interior da Rede de Atenção Psicossocial, esta
seção visa analisar a instituição a partir das tecnologias de poder das sociedades disciplinares
e das sociedades de controle. Para tanto, apresentamos sucintamente ambos os conceitos que
baseiam nossa interpretação, relacionando-os à lógica hospitalocêntricas e à de redução de
danos.
Em toda a sua obra, Foucault demonstra que, a partir da época clássica e moderna, o Ocidente
conheceu profundas transformações nos mecanismos de poder. Considerando a emergência da
sociedade capitalista, o autor evidencia um poder sobre a vida cujas funções são de “incitação,
de reforço, de controle, de vigilância, de majoração e de organização das forças que lhe são sub-
metidas” (Foucault, 1988, p. 127). Em outras palavras, diferentemente das sociedades antigas
de poder soberano, nas sociedades capitalistas modernas, há a emergência de um poder cujo
foco não é mais produzir a morte ou deixar viver, mas, sobretudo, gerir e promover a vida. Nas
palavras do autor: “o direito de morte tenderá a se deslocar ou, pelo menos, a se apoiar nas
exigências de um poder que gere a vida e a se ordenar em função de seus reclamos” (Foucault,
1988, p. 127).
Nesse sentido, a partir do século XVIII, a medicina e a psiquiatria sofrem um intenso processo de
racionalização vinculado à emergência da ciência moderna ocidental; é dessa forma que elas de-
senvolvem sua capacidade técnica e adquirem legitimidade social. Obtendo legitimidade e poder,
a instituição médica pode definir os limites entre o normal e o patológico, assim como dispor de
tecnologias para intervir sobre os aspectos considerados desviantes, disciplinando e controlando
os corpos e intervindo na saúde populacional, inclusive da população usuária e dependente quí-
mica, segundo a terminologia contemporânea. Em termos gerais, as disciplinas foram definidas
por Foucault enquanto “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que
realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade”
(Foucault, 1988, p. 107).
Nesse contexto de normalização e disciplinarização dos corpos e mesmo das cidades (Foucault,
2016) ao longo do século XX, a lógica manicomial cristalizou a noção de que o uso de drogas ilegais
e a dependência química são ‘doença” e “anormalidade” e que, portanto, devem ser identificadas
e transformadas em objeto de intervenção pelas tecnologias de cura e normalização psiquiátricas.
Esse modelo partia do pressuposto de que tanto a loucura quanto a utilização de substâncias psi-
coativas estavam associadas à desrazão e à periculosidade e que, portanto, deveriam ser objetos
de intervenção do Estado e da ciência psiquiátrica.
O enclausuramento, o tratamento baseado em choques elétricos, a abstinência e a medicalização
constituíram os mecanismos dominantes até ao final do século XX (Sampaio e Bispo, 2020). A ex-
clusão social de usuários e dependentes químicos se realizava sob a justificativa da manutenção
do bom ordenamento social, como uma forma de manejo da população considerada improdutiva
e perigosa à ordem social vigente. Nesse sentido, é possível considerar a lógica hospitalocêntrica,
que envolve a internação de usuários e dependentes químicos, como instrumento de técnicas dis-
ciplinares cujo objetivo é gerir biologicamente a população e normalizar os indivíduos considera-
dos desviantes e patológicos.
11
Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle
Apesar de o CAPS AD pesquisado não ser fundamentalmente projetado conforme os parâmetros
disciplinares, em que o controle das ações dos indivíduos se realiza fundamentalmente por meio
da vigilância e da punição, foi possível constatar determinados instrumentos coercitivos presen-
tes nas práticas e discursos da instituição. Um dos exemplos que apresentamos é o da ameaça de
alta como instrumento de coação dos clientes visando a sua efetiva adesão ao tratamento ofertado
pela instituição, principalmente a participação nos grupos terapêuticos.
Pode-se constatar também que, apesar de a redução de danos ser o discurso dominante na maior
parte dos relatos obtidos por meio das entrevistas (cinco dos sete entrevistados), muitos dos pro-
fissionais se utilizam dos termos “recaídas” e “relapsos” (quatro dos sete entrevistados), vincula-
dos à abstinência, ao se referirem à retomada do uso de drogas por parte dos usuários; além disso,
alguns profissionais (dois entre os sete entrevistados) acreditam que a abstinência é a forma de
tratamento mais indicada, principalmente aos usuários dependentes de álcool.
Outro aspecto presente na instituição que, a nosso ver, está vinculado ao princípio hospitalocên-
trico e disciplinar, é a avaliação continuada da necessidade ou não de internação de clientes. Como
apresentado, a perda da autonomia e da autodeterminação, bem como os casos em que o cliente
se torna um “perigo” para si mesmo e para terceiros, são situações em que que as técnicas de isola-
mento social e de internação são acionadas. Nos casos de heteroagressão e surtos psicóticos, a in-
ternação toma conotações de vigilância e de polícia, prática que encontra ressonância no discurso
manicomial, segundo o qual a vigilância e a internação são justificadas em “defesa da sociedade” e
da alienação mental. Como apresentamos, o mecanismo de isolamento social do usuário e do de-
pendente químico, assim como a medicalização coercitiva, fazem parte do cotidiano da instituição
da Rede de Atenção Psicossocial pesquisada.
Além das tecnologias disciplinares, às quais se associam os princípios manicomiais e hospitalo-
cêntrico, presenciamos atualmente a emergência de técnicas de controle ao “ar livre”, isto é, no
espaço aberto da sociedade. Vinculadas às sociedades neoliberais, nas quais operam os imperati-
vos da “liberdade”, da “autonomia”, da “competitividade”, da “produtividade” e do “autocuidado”,
tais tecnologias de controle produzem novas formas de governamentalidade no corpo social. Em
outros termos e de forma específica, considerando o nosso objeto de análise, entendemos que a
constituição da Rede de Atenção Psicossocial e do CAPS AD podem se relacionar com as transfor-
mações mais amplas nas técnicas de poder das sociedades contemporâneas, uma vez que se valem
da ideia de “liberdade” como forma de conduzir condutas individuais.
Enquanto a lógica hospitalocêntrica tem como principais instrumentos a internação, o tratamento
por meio da medicalização coercitiva, a abstinência, o controle e a punição minuciosa de usuários
e dependentes químicos, a Rede de Atenção Psicossocial e o CAPS AD pesquisado têm buscado
instituir um serviço de caráter aberto e comunitário, baseado na perspectiva da redução de danos
(RD), segundo a qual a internação é indicada somente em casos em que os recursos extra-hospita-
lares se mostram insuficientes.
Diferentemente da lógica manicomial, que compreende usuários e dependentes químicos como
“doentes” e sujeitos passivos durante o tratamento, o paradigma da redução de danos compreen-
de essa população como sujeitos ativos no processo terapêutico. Tal paradigma busca valorizar o
autocuidado e o desenvolvimento dos controles internos e sociais em relação à utilização de subs-
tâncias psicoativas por meio de redes de sociabilidade dos usuários.
A lógica manicomial opera mediante a retirada do indivíduo do convívio social e do estabeleci-
mento de normas e punições, busca normalizar o corpo individual por meio da vigilância e da
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Elton Corbanezi; Alexandre Cesar de Amorim Barros
punição, abolindo qualquer possibilidade além da absoluta intolerância quanto ao consumo de
drogas. A redução de danos, por outro lado, visa a construção de uma relação menos prejudicial
entre o usuário e o consumo de drogas, de modo que a abstinência se constitui como uma das
possibilidades de tratamento, entre outras, como a redução do consumo e substituição por subs-
tâncias menos danosas à saúde. Segundo Passos e Souza:
O enfrentamento da RD não é só com o discurso da lei, mas também com as práticas não-
-discursivas das instituições disciplinares. Em última instância, pode-se dizer que a RD
coloca em questão as relações de força mobilizadas sócio-historicamente para a crimina-
lização e a patologização do usuário de drogas, já que coloca em cena uma diversidade de
possibilidades de uso de drogas sem que os usuários de drogas sejam identificados aos
estereótipos de criminoso e doente: pessoas que usam drogas e não precisam de trata-
mento, pessoas que não querem parar de usar drogas e não querem ser tratadas, pessoas
que querem diminuir o uso sem necessariamente parar de usar drogas (Passos e Souza,
2011, p. 157).
Da perspectiva da redução de danos, os usuários e os dependentes químicos são compreendidos
como sujeitos de direito sobre o seu corpo e a sua saúde, assim como são os principais responsá-
veis pela construção de uma relação menos prejudicial possível com o uso de substâncias psicoa-
tivas; por essa razão, “autonomia” e “responsabilidade individual” são imperativos fundamentais
para essa perspectiva. Dessa forma, o tratamento orientado pelo princípio da redução de danos
busca na assistência psicossocial e na construção de habilidades individuais, desenvolvidas por
meio de oficinas terapêuticas e práticas de socialização, mudanças no padrão de comportamento
em relação ao consumo de drogas. A redução de danos se apresenta enquanto discurso e prática
de maximização da saúde individual e coletiva e visa, por meio da humanização do tratamento, re-
duzir as consequências do uso de entorpecentes e reinserir os usuários e dependentes no mundo
social e do trabalho.6
Entendemos que o paradigma da redução de danos está inscrito num conjunto de transformações
na forma como as sociedades capitalistas estruturam atualmente suas formas de dominação e
controle, passando de mecanismos disciplinares a estratégias neoliberais próprias das sociedades
de controle, tais como examinadas também por Deleuze (1992). Nas emergentes sociedades ne-
oliberais, as técnicas de governamentalidade operam por meio da motivação e da interiorização
da habilidade do autocuidado, em que imperativos como da “autonomia individual”, do “desempe-
nho”, do e da “competitividade” podem funcionar como categorias que conduzem as condutas dos
indivíduos. Nas sociedades capitalistas ocidentais contemporâneas, são os sujeitos os exclusiva-
mente responsáveis pela sua condição, produtividade e saúde. Em Psicopolítica – Neoliberalismo e
as novas técnicas de poder, Byung-Chul Han apresenta essa ideia nos seguintes termos:
Muito mais eficiente é a técnica de poder que faz com que as pessoas se submetam ao
contexto de dominação por si mesmas. Essa técnica busca ativar, motivar e otimizar, não
obstruir ou oprimir. A particularidade de sua eficiência está no fato de que não age através
da proibição e da suspensão, mas através do agrado e da satisfação. Em vez de tornar as
pessoas obedientes, tenta deixá-las dependentes.
6 Vale notar que a chamada “nova lei de drogas”, de 2006, se baseia igualmente no princípio da redução de danos. A esse
respeito, ver o estudo de Marcelo Campos (2019) que mostra, contudo, como a lei não se realiza efetivamente na realidade
empírica, uma vez que a punição criminal de determinado perfil de usuários e dependentes químicos se sobrepõe ao prin-
cípio segundo o qual o uso de drogas ilícitas se constitui como um problema universal de saúde.
13
Entre as tecnologias de poder disciplinar e de controle
O poder inteligente e amigável não age frontalmente contra a vontade dos sujeitos subjuga-
dos, controlando suas vontades em seu próprio benefício. É mais afirmador que negador,
mais sedutor que repressor. Ele se esforça em produzir emoções positivas e explorá-las.
Seduz, em vez de proibir. Em vez de ir contra o sujeito, vai ao encontro (Han, 2018, p. 26,
grifos do autor).
No contexto neoliberal, o paradigma da redução de danos busca mobilizar imperativos como
o da “força de vontade”, do “comprometimento” e do autocuidado que podem funcionar como
técnicas políticas de governo de condutas. Os indivíduos são instados a construir uma relação
com o uso de entorpecentes de forma que isso não comprometa sua realização em outros
âmbitos da vida social, em especial o do trabalho. É nesse sentido que a mobilização da liber-
dade enquanto mecanismo de poder se associa à governamentalidade neoliberal própria das
sociedades de controle.
Como apresentamos, o tratamento ofertado pelo CAPS AD pesquisado não é realizado, grosso
modo, mediante estabelecimento de normas ou punições na transformação da conduta dos usu-
ários e dependentes químicos. Ele é realizado por meio de atividades que buscam desenvolver
habilidades e saberes, os quais os clientes devem incorporar e levar para sua vida cotidiana, cons-
truindo técnicas de autocuidado e transformando sua relação com o uso de substâncias psicoati-
vas. Em síntese, o tratamento no CAPS AD se realiza por meio da liberdade dos clientes, mobilizan-
do a construção da autonomia dos indivíduos como forma de condução de condutas.
Além disso, os profissionais da instituição entendem que o “compromisso” e a “responsabilidade”
do usuário são de extrema importância para o tratamento. A maior parte dos relatos aponta que o
reconhecimento do cliente de sua situação de usuário e dependente é uma condição básica, segui-
da da iniciativa de se tratar, do suporte familiar e da retomada no mundo trabalho, de forma que
o sucesso terapêutico é proporcional ao esforço e ao comprometimento do cliente. Em outros ter-
mos, o sucesso terapêutico é proporcional ao desempenho do cliente na participação das ativida-
des e na incorporação das habilidades de autocuidado, de modo que o próprio desejo é capturado
enquanto forma de fazer o indivíduo se conduzir enquanto um sujeito proativo.
Nesse sentido, é possível afirmar que tanto as tecnologias disciplinares quanto as tecnologias de
governamentalidade estão presentes nas práticas e discursos do CAPS AD pesquisado e, por con-
seguinte, na Rede de Atenção Psicossocial. Por um lado, a lógica hospitalocêntrica, baseada na
abstinência, na medicalização compulsória e na retirada dos indivíduos do convívio social, está
relacionada a práticas disciplinares; por outro, a redução de danos e os princípios estabelecidos
em lei para o funcionamento do CAPS AD compartilham estratégias e princípios de governamen-
talidade no tratamento dos usuários e dependentes químicos associados à lógica das sociedades
de controle. Em que pesem os princípios e regulamentos estabelecidos, ambas as tecnologias de
poder aparecem entremeadas no objeto de pesquisa analisado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar das diferenças existentes entre as tecnologias de poder das sociedades disciplinares e de
controle, a partir do estudo empírico realizado sobre o CAPS AD e a Rede de Atenção Psicosso-
cial, sustentamos que a instituição objeto desta pesquisa opera de modo que as emergentes téc-
nicas de controle no espaço aberto da sociedade, associadas à governamentalidade neoliberal,
convivem com técnicas coercitivas das sociedades disciplinares. Como vimos, os imperativos da
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Elton Corbanezi; Alexandre Cesar de Amorim Barros
competição, do desempenho, da autonomia e da liberdade, próprios da subjetivação contempo-
rânea, se articulam com as tecnologias de vigilância e punição no interior da Rede de Atenção
Psicossocial e do CAPS AD.
De forma mais específica, nas práticas terapêuticas do CAPS AD, os princípios da internação, da
abstinência e da medicalização, vinculados à lógica hospitalocêntrica e disciplinar, convivem
com a oferta de um tratamento aberto cuja “liberdade” e “responsabilização dos indivíduos” são
mobilizados enquanto forma de conduzir as condutas, prática vinculada à redução de danos e
à governamentalidade neoliberal. Embora a constituição do CAPS AD não tenha sido acompa-
nhada da extinção efetiva dos hospitais psiquiátricos (e ainda coexistiam com as comunidades
terapêuticas de cunho religioso), a RAPS e os CAPS, de maneira geral, são conquistas relevantes
da luta pela desinstitucionalização e humanização do cuidado em saúde mental, em um país
em que ainda prevalece o enclausuramento em presídios, e mesmo em hospitais psiquiátricos,
enquanto forma de “tratamento”, “reabilitação” e “ressocialização” de usuários e dependentes
químicos.
Em síntese, conforme os dados do estudo de caso em tela, é possível afirmar que o tratamento sem
o isolamento do convívio social existe. No entanto, tal tratamento está ao alcance daqueles que,
segundo os atores da instituição, estão em condições de estabelecer uma relação de poder e de
controle consigo mesmo, incorporando as técnicas do autocuidado e promovendo transformações
no seu consumo de substâncias psicoativas. Já nos contextos de surtos psicóticos, perda da auto-
determinação e agressividades, as técnicas disciplinares de internação e de isolamento social são
acionadas como forma de realizar o tratamento e instituir um regime de vigilância.
Dessa forma, sustentamos que as tecnologias modernas e contemporâneas de poder se justapõem,
se alternam e se entrelaçam nas práticas de ressocialização do CAPS AD, de modo que tanto o
princípio contemporâneo da redução de danos quanto a lógica hospitalocêntrica moderna se ar-
ticulam na instituição mediante discursos e práticas. O estudo de caso evidência, a nosso ver, a
existência de uma tecnologia de poder híbrida tanto de conformação e de normalização individual,
quanto de gestão da saúde mental.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos o apoio institucional do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universida-
de Federal do Mato Grosso (UFMT), bem como o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas,
instituição objeto dessa investigação, e os profissionais entrevistados que aceitaram participar da
pesquisa.
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16
Elton Corbanezi; Alexandre Cesar de Amorim Barros
Between Disciplinary Power and Control
Technologies: A Case Study on the
Psychosocial Care Center for Alcohol and
Drugs (CAPS AD)
Abstract
We are currently witnessing transformations in
contemporary power strategies: emerging “open
air” control techniques, associated with neolibe-
ral governmentality, coexist with coercive techni-
ques from disciplinary societies. The imperatives
of competition, performance, autonomy and free-
dom, typical of contemporary subjectivation, are
linked to technologies of surveillance and punish-
ment in different social spheres, implying both
individual normalization and the production of
mental health. Based on this discussion, this arti-
cle interprets the discourses and therapeutic prac-
tices of a Center for Alcohol and Drugs (CAPS AD)
in Brazil. For the case study, we used the following
research procedures: bibliographic review, docu-
ment analysis, collection of empirical data throu-
gh interviews with the institution’s professionals,
observation of the institution’s structure and rou-
tine and access to documentary sources on the
demand for customer service and treatment. After
data analysis, we maintain that modern and con-
temporary technologies of power are juxtaposed
and intertwined in the treatment offered by CAPS
AD, so that both the current paradigm based on
harm reduction, and modern asylum logic are ar-
ticulated in the institution through discourses and
practices. We thus demonstrate the manifestation
of a hybrid power technology of normalization
and mental health management.
Keywords: CAPS AD; disciplinary society; control
society; harm reduction; asylum logic.
Entre las tecnologías de poder
disciplinario y de control: un estudio
de caso sobre el Centro de Atención
Psicosocial Alcohol y Drogas (CAPS AD)
Resumen
Actualmente, asistimos a transformaciones en las
estrategias de poder contemporáneas: técnicas de
control emergentes “al aire libre”, asociadas a la gu-
bernamentalidad neoliberal, coexisten con técnicas
coercitivas provenientes de sociedades disciplinarias.
Los imperativos de competencia, desempeño, autono-
mía y libertad, propios de la subjetivación contempo-
ránea, están vinculados a tecnologías de vigilancia y
castigo en diferentes esferas sociales, lo que implica
tanto la normalización individual como la producción
de salud mental. A partir de esta discusión, este artícu-
lo interpreta los discursos y las prácticas terapéuticas
de un Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas
(CAPS AD) en Brasil. Para el estudio de caso, utiliza-
mos los siguientes procedimientos de investigación:
revisión bibliográfica, análisis documental, recolec-
ción de datos empíricos a través de entrevistas a los
profesionales de la institución, observación de la es-
tructura y rutina de la institución y acceso a fuentes
documentales sobre la demanda de atención y trato al
cliente. Después de analizar los datos, sostenemos que
las tecnologías de poder modernas y contemporáneas
se yuxtaponen y entrelazan en el tratamiento ofrecido
por CAPS AD, de modo que tanto el paradigma actual
basado en la reducción de daños como la lógica mo-
derna del aislamiento se articulan en la institución a
través de discursos y prácticas. Demostramos así la
manifestación de una tecnología de poder híbrido de
normalización y gestión de la salud mental.
Palabras Clave: CAPS-AD; sociedad disciplinaria;
sociedad de control; reducción de daños; lógica
del aislamiento.
Histórico
Recebido: Agosto/24
Parecer: Novembro/24
Parecer: Novembro/24
Aceito: Novembro/24
Revisado Autor: Dezembro/24
Revisão Gramatical/Ortográfica e ABNT: Dezembro/24
Revisado Autor: Janeiro/25
Publicado: Fevereiro/25
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-Chefe)
Laura Cintra (Editora Assistente Júnior)