Wilson José Ferreira de Oliveira; Fernanda Petrarca
Com a morte de Tancredo Neves, José Sarney — ex-governador biônico do Maranhão durante o
regime militar — assumiu a presidência. Mantendo vínculos pessoais com o ministro do Exército
Leônidas Pires, Sarney consolidou sua base de apoio entre os militares, tornando-se o verdadeiro
“condestável” do regime, preservando e reforçando a autonomia operacional do aparato repres-
sivo mediante liberação de verbas para seu fortalecimento como reserva de poder no controle
de conflitos políticos internos (Maciel, 2008, p. 69, 104). Sua atuação foi crucial para manter a
“postura de não-revanchismo” e o status quo militar, frustrando setores que queriam punição aos
envolvidos em crimes perpetrados pelo aparato repressivo (Id., Ibid., p. 104; Skidmore, 1989).
Gradualmente, os militares da ativa adotaram postura mais reservada, evitando declarações pú-
blicas sobre política e governo, concentrando-se em questões corporativas como a liberação de
documentos relacionados à repressão pós-1964. Essa aparente distância da política não significou
diminuição de influência: eles continuaram exercendo papel significativo nos bastidores estatais e
políticos, relacionando-se diretamente com as lideranças políticas.
Essa atuação política dos militares durante o processo de abertura e, especialmente, durante a
Constituinte de 1988 permanece subestimada na literatura pertinente. As análises privilegiam
o protagonismo da sociedade civil em oposição ao Estado, negligenciando a sociedade política e
os militares, particularmente as conexões entre elites castrenses e lideranças políticas (Stepan,
1986). É o caso da atuação deles durante a Assembleia Constituinte de 1988, que teve impacto
decisivo e culminou na formação do “Centrão”, um bloco suprapartidário militar e conservador
(Munhoz, 2011), consolidando vínculos com organizações e lideranças de direita (Dreifuss, 1989).
Documentos inéditos do Serviço Nacional de Informações (SNI), disponíveis no Arquivo Nacional,
revelam que, durante a elaboração da Constituição de 1988, os militares garantiram presença nas
discussões ao investir em um grupo suprapartidário de parlamentares, a quem chamavam de “mo-
derados”. O objetivo era evitar o avanço de pautas progressistas e manter a agenda conservadora
(Linz e Stepan, 1999). Um relatório sigiloso das Forças Armadas, produzido em 1988 para monitorar
os trabalhos da Constituinte, destacou que esse grupo autoproclamado “Centrão” seria um aliado
crucial para impedir o crescimento de grupos de esquerda e de suas propostas (Munhoz, 2011).
Na elaboração da Constituição de 1988, o deputado Ricardo Fiúza, do PFL, foi um importante
interlocutor dos militares e líder do “Centrão”. Os parlamentares que compunham esse bloco per-
tenciam aos quadros da ARENA, partido criado a partir do Ato Institucional n. 2, que deu sus-
tentação à ditadura militar. Com o fim do regime militar e o retorno do multipartidarismo, esse
partido se dissolveu em várias outras legendas (PFL, PDS). A denominação “Centrão” constitui um
eufemismo para os grupos conservadores e de direita, já que, no contexto do fim da ditadura, tais
expressões carregavam uma conotação negativa, associada ao apoio ao golpe militar e ao regime
burocrático-autoritário que se instalou nesse período (Kaysel, 2015). Por essa razão, os políticos
deste espectro viam na denominação de “centro” uma forma de articulação de organizações e in-
teresses multipartidários sem a conotação negativa dos termos conservador e direita.
Assim, por meio da articulação com lideranças e parlamentares de partidos conservadores e de
direita, organizados em um grande bloco suprapartidário, os militares asseguraram influência na
definição da Constituição de 1988 para conter os avanços da esquerda (Linz e Stepan, 1999). A
atividade política baseada em blocos suprapartidários ou “confederações de partidos” não é uma
novidade do processo de abertura, mas um legado do regime burocrático-autoritário militar que
impôs às siglas toleradas, como ARENA e MDB, abrigo e convivência interna de tendências diver-
sas e até mesmo adversárias (Abranches, 1988; Nobre, 2013).
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