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DOSSIÊ
(RE)ESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO:
as visualidades, o dissenso e a coautoria
urbana no Largo do Arouche
Redson Pagnan*
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Resumo
Este artigo analisa as visualidades urbanas como constante campo de disputa simbólica, política e espa-
cial, articulando as práticas (e teorias) queer, arquitetura crítica e etnograia urbana. Parte-se da noção
de coautoria urbana para compreender a cidade não apenas como produto de projetos institucionais, mas
como construção cotidiana atravessada por corpos, usos e sociabilidades. A partir de referenciais da teoria
urbana, da antropologia urbana e de práticas arquitetônicas críticas, o trabalho investiga como regimes de
visibilidade regulam quem pode aparecer, circular e existir no espaço urbano. A análise empírica concentra
-
-se no Largo do Arouche, em São Paulo, evidenciando como as insurgências queer produzem um território
gay-friendly por meio da repetição de usos, da formação de circuitos de sociabilidade e da inscrição de sinais
de ocupação no espaço urbano, formando os queer spaces. A pesquisa reairma a visualidade como gesto,
pensamento, ação e escrita política do existir citadino.
Palavras-chaves
:
espaço urbano; coautoria urbana; queer spaces; visualidades urbanas; Largo do Arouche.
*
Universidade Presbiteriana Mackenzie, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, Brasil. E-mail:
redson.pagnan@
gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1912-6661
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24262, 2026
DOI:10.21669/tomo.v45.24262
Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,
sociabilidades e o existir citadino
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549
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Redson Pagnan
INTRODUÇÃO
Sabemos que as cidades não são apenas um suporte ísico para a vida social; são um campo ativo
de disputas simbólicas, políticas e sensíveis. Aquilo que pode ou não aparecer no espaço urbano
(corpos, gestos, falas, afetos, vestimentas, práticas, etc.) é resultado de relações de poder histori
-
camente construídas que organizam o visível e, por consequência, produzem formas especíicas
de existência citadina. Neste artigo, o conceito de
visualidades urbanas
não se restringe apenas
à dimensão imagética da cidade, mas refere-se aos modos pelos quais corpos, práticas, objetos, ar
-
quiteturas e formas de ocupação tornam-se visíveis, reconhecíveis e capazes de produzir sentidos
no espaço urbano.
Trata-se de compreender a visualidade como um fenômeno simultaneamente material, simbólico
e político, constituído pelas relações entre espaço, experiência e representação. Nessa perspectiva,
as visualidades urbanas constituem formas de leitura, produção e disputa da cidade, evidenciando
como sujeitos e coletividades negociam sua presença, reconhecimento e formas de existência no
espaço público (Souza, 2024; Pereira, 2023; Reginensi e Raposo, 2023).
Assim, a visualidade emerge das próprias práticas sociais que produzem, organizam e signiicam o
espaço urbano, tornando visíveis determinados modos de existir e invisibilizando outros. É nessa
perspectiva que Henri Lefebvre (2006) compreende o espaço como uma produção social, simul
-
taneamente condição, meio e resultado das relações que nele se inscrevem. A cidade moderna,
forjada a partir dos princípios funcionalistas, racionalizadores e normativos, consolidou uma es
-
pacialidade marcada pela onipresença masculina, na qual valores como produtividade, controle
e eiciência foram materializados por meio da arquitetura e do urbanismo (Sennett, 1989; 1997;
2016).
Esses saberes espaciais operam como tecnologias de poder que naturalizam determinadas pre
-
senças e subjetividades, ao mesmo tempo em que marginalizam ou silenciam outras. Como obser
-
va Certeau (2014), a cidade concebida pelo planejamento produz uma representação totalizante,
uma “cidade-panorama”, um simulacro teórico, que tende a ocultar a multiplicidade das práticas
cotidianas. É justamente no confronto entre essa cidade concebida e a cidade praticada que emer
-
gem outras formas de visibilidade e de experiência urbana, produzidas pelos usos, deslocamentos
e apropriações dos sujeitos no cotidiano.
Santos (2006) contribui para essa leitura ao compreender o espaço como um sistema indissociá
-
vel de objetos e ações, no qual as práticas cotidianas revelam as desigualdades profundas na apro
-
priação da cidade. O espaço, longe de ser neutro, constitui-se em um campo de forças, atravessado
por interesses, normas e hierarquias que organizam usos, sentidos e possibilidades de existência.
Desse modo, o visível urbano não é dado, mas produzido por meio de disputas permanentes entre
projetos hegemônicos e práticas vividas.
É nesse contexto que corpos dissidentes, especialmente os corpos
queer
, tensionam o campo do
visível ao ocupar, atravessar e ressigniicar espaços que historicamente não lhes foram destinados.
Ao se tornarem visíveis no espaço público, esses corpos produzem ruídos (Butler, 2003) nas visu
-
alidades normativas da cidade, instaurando conlitos que evidenciam o caráter político da vida ur
-
bana. Para Cortés (2010), a visibilidade dos corpos dissidentes não se restringe à representação,
mas constitui um gesto de resistência frente aos regimes de normalização e controle, colocando
em crise os limites do que pode ou não aparecer no espaço urbano.
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REESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO
Mais do que uma simples presença, essas práticas coniguram estratégias espaciais que colocam
em disputa os limites entre público e privado, norma e desvio, projeto e uso. A cidade, nesse sen
-
tido, revela-se como um território instável, produzido tanto por dispositivos institucionais quan
-
to pelas ações ordinárias dos sujeitos. Partindo dessa compreensão, este artigo propõe reletir
sobre a cidade como campo de disputa visual, no qual a existência
queer
se constrói por meio de
deslocamentos, performances e negociações (Preciado, 2014) constantes com a ordem urbana
estabelecida.
Ancorado em diálogos entre a teoria da arquitetura e do urbanismo, as teorias críticas da visuali
-
dade e as contribuições da antropologia urbana, o texto compreende o espaço urbano como uma
construção relacional, sensível e processual. Nesse embate, emerge a noção de coautoria urbana
(Pagnan, 2023), entendida como a capacidade de indivíduos e grupos participarem ativamente da
produção de sentidos, usos e visualidades da cidade, escrevendo o urbano a partir de seus corpos,
experiências e modos de existir. Ao tensionar a cidade masculina e suas visualidades hegemônicas,
as práticas
queer
revelam que o urbano é sempre inacabado, instável e atravessado por conlitos.
Pensar a visualidade como gesto, ação e experiência permite, portanto, compreender a cidade
não apenas como cenário, mas como uma escrita coletiva, viva e permanentemente disputada,
ampliando essa discussão na teoria da arquitetura e do urbanismo.
AS COAUTORIAS DO URBANO: O DISSENSO, AS PRÁTICAS E O PENSAMENTO
CRÍTICO DO ESPAÇO
A noção de coautoria urbana não se restringe às práticas cotidianas dos sujeitos que habitam e
tensionam o espaço da cidade, mas pode ser ampliada para incluir também determinadas práticas
arquitetônicas e artísticas que, ao longo do século XX, atuaram criticamente contra os regimes
normativos da produção espacial. Antes mesmo da consolidação do termo
queer
como categoria
política e teórica (
cf.
Butler, 2003), já se observavam modos de pensar e de intervir na cidade que
operavam pela recusa da estabilidade, da função rígida e da neutralidade do espaço urbano (Pag
-
nan, 2023).
Nesse sentido, a arquitetura pode ser compreendida não apenas como disciplina projetual, mas
também como campo de produção simbólica e política, capaz de instaurar dissensos no modo
como a cidade se apresenta, se organiza e se torna visível. Como aponta Lefebvre (2006), o espaço
não é um dado natural, mas um produto social, constantemente refeito por práticas, representa
-
ções e experiências. Assim, determinadas proposições arquitetônicas atuam como gestos críticos
que expõem as tensões entre projeto e uso, ordem e improviso, norma e experiência vivida.
Pensando assim, os trabalhos de Alison e Peter Smithson exempliicam essa inlexão crítica ao des
-
locarem o foco da arquitetura moderna do objeto isolado para as relações cotidianas, os luxos e
os modos de apropriação do espaço urbano. Ao questionarem o urbanismo funcionalista (Sennett,
2016) e enfatizarem a vida ordinária (Certeau, 2014) como matéria do projeto, os Smithsons in
-
troduzem uma sensibilidade que rompe com a cidade entendida como forma acabada, aproximan
-
do-se da cidade como processo aberto, atravessado por conlitos, encontros e usos imprevistos
(Pagnan, 2023). Essa postura já revela uma crítica à visualidade normativa da cidade moderna, ao
reconhecer o valor político e simbólico das práticas comuns e dos corpos em movimento.
De maneira ainda mais radical, Gordon Matta-Clark tensiona os fundamentos da arquitetura ao in
-
tervir diretamente na materialidade do ediício, por meio de cortes, vazios e operações de subtra
-
4
Redson Pagnan
ção. Suas ações expõem a instabilidade da arquitetura enquanto objeto de controle e de proprie
-
dade, revelando o ediício como um corpo vulnerável, atravessado por forças sociais, econômicas e
simbólicas. Ao transformar a ruína, o vazio e a impermanência em linguagem, Matta-Clark produz
uma visualidade urbana dissidente, que desaia os regimes de visibilidade associados à ordem, à
funcionalidade e à permanência do espaço construído (Pagnan, 2023).
No campo das artes e da performance, as proposições de Vito Acconci ampliam ainda mais essa
discussão ao colocar o corpo como um dispositivo central na produção do espaço. Suas ações
exploram a vigilância, o desconforto, o desejo e a exposição, evidenciando como o espaço urbano
é atravessado por relações de poder que regulamentam comportamentos, gestos e presenças. Ao
fundir corpo e espaço em experiências limítrofes, Acconci antecipa debates fundamentais sobre
visibilidade, controle e subjetividade, que mais tarde seriam centrais às teorias
queer
(Pagnan,
2023).
Essas práticas arquitetônicas e artísticas, embora não nomeadas como
queer
em seu contexto
histórico, compartilham a mesma lógica de dissenso: operam contra a normalização do espaço,
questionam a autoridade do projeto como forma de controle e abrem issuras nas visualidades he
-
gemônicas da cidade. Elas revelam que a disputa pelo urbano não ocorre apenas no plano do uso
cotidiano, mas também no plano do pensamento espacial, da experimentação formal e da crítica
às convenções disciplinares.
Articuladas às relexões de Santos (2006), essas práticas evidenciam que o espaço urbano é um
campo
de
forças,
no
qual
diferentes
agentes
(arquitetos,
artistas,
instituições,
coletivos,
ações
conscientes, dissidentes e ordinárias) participam da produção da cidade. A coautoria urbana, por
-
tanto, emerge como um processo relacional, no qual tanto as práticas corporais quanto as propo-
sições críticas de arquitetura contribuem para desestabilizar os regimes de visibilidade e ampliar
as possibilidades de existir na cidade.
Compreender essas experiências como parte de uma genealogia crítica do urbano permite reco
-
nhecer que a cidade sempre foi atravessada por práticas não normativas, ainda que nem sempre
nomeadas
queer
, mas sempre dissidentes, desviantes. Nesse sentido, a arquitetura, quando ope
-
rada como gesto crítico e não como mera reprodução da ordem, torna-se também uma forma de
resistência, antecipando debates que hoje se articulam em torno das visualidades
queer
e das
disputas contemporâneas pelo direito de aparecer, ocupar e existir no espaço urbano.
METODOLOGIA
A pesquisa
1
que fundamenta este artigo se constrói a partir de uma abordagem interpretativa do
urbano, que entende a cidade como experiência vivida, sensível e relacional. Mais do que um ob
-
jeto a ser descrito, o espaço urbano é tomado como um campo de atravessamentos, onde corpos,
visualidades e práticas cotidianas produzem sentidos, sociabilidades e conlitos. Nesse percurso,
o método se organiza como um conjunto de caminhos possíveis que articulam observação atenta,
circulação pelo território e leitura crítica do espaço, em diálogo com a etnograia urbana e com a
teoria crítica do espaço.
1
Minha tese de doutorado em Arquitetura e Urbanismo (2019-2023), defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
(FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) de São Paulo.
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Conforme propõe Magnani (2002; 2012), é no acompanhamento das práticas ordinárias, dos cir
-
cuitos, dos usos e das apropriações do espaço que se torna possível compreender a lógica social
que estrutura a vida urbana para além de seus projetos formais. Essa perspectiva articula-se à lei
-
tura de Santos (2006), para quem o espaço resulta da indissociabilidade entre sistemas de objetos
e de ações, o que exige uma análise que considere simultaneamente a forma, o uso e a experiência.
Inspirada ainda pelas contribuições de Lefebvre (2006), a metodologia assume que o espaço é
socialmente produzido e só pode ser apreendido a partir da relação entre práticas, representa
-
ções e vivências cotidianas. Nesse sentido, a pesquisa aproxima-se de uma etnograia do sensível,
na qual caminhar, parar, observar, fotografar, permanecer e atravessar a cidade tornam-se gestos
analíticos fundamentais. O deslocamento urbano é compreendido como prática de leitura e escrita
do espaço, permitindo captar ritmos, usos desviantes, encontros e conlitos que escapam às nar
-
rativas normativas da cidade planejada. Ao reconhecer o pesquisador como corpo implicado no
campo, posição também enfatizada por Magnani (2002; 2012) ao defender uma etnograia atenta
às situações e aos contextos de interação, a análise assume-se como processo situado, relacional e
atravessado por subjetividades, no qual observar o urbano é também participar de sua produção
simbólica e visual.
Dessa
forma,
a
investigação
empírica
desenvolvida
no
âmbito
da
pesquisa
de
doutoramento
(2019/2023) tem como principal recorte espacial o eixo urbano compreendido entre a Avenida
Paulista e o Largo do Arouche, na cidade de São Paulo. O trabalho de campo foi conduzido por
meio de observações sistemáticas realizadas em diferentes momentos ao longo desse período, ar
-
ticuladas a registros fotográicos, anotações descritivas e a um diário de campo. A pesquisa buscou
acompanhar situações de circulação, permanência, sociabilidade e ocupação do espaço público
por sujeitos LGBTQIAPN+
2
, compreendendo tais práticas como produtoras de sentidos urbanos e
de visualidades especíicas.
Faz-se necessário destacar que a pesquisa foi realizada durante a pandemia de Covid-19, circuns
-
tância que impactou diretamente a dinâmica dos espaços públicos e as possibilidades de obser
-
vação contínua do cotidiano urbano. Diante desse contexto, sem abandonar a atenção às práticas
ordinárias, a investigação ampliou seu foco para as formas coletivas de organização, cuidado e
sociabilidade da população
queer
. Nesse contexto, passaram a compor o campo empírico as ações
promovidas por instituições de acolhimento, os serviços de atendimento a essa população (espe
-
cialmente quem vivia em condição de extrema vulnerabilidade social), iniciativas de distribuição
de alimentos, campanhas de vacinação
3
, eventos comunitários, além de espaços de encontro e
convivência, como bares, casas noturnas (nos momentos de lexibilização de medidas de distan
-
ciamento/isolamento social) e manifestações públicas de maior escala, como a Parada do Orgulho
LGBT+
4
.
Portanto, a análise concentrou-se menos na identiicação de indivíduos especíicos e mais na ob
-
servação de situações urbanas recorrentes. Também foram considerados elementos como a for
-
mação de circuitos de sociabilidade, a ocupação reiterada de determinados espaços, as demonstra
-
ções públicas de afeto, as práticas de acolhimento e de cuidado coletivo, bem como as negociações
2
Sigla oicial utilizada pelo autor do texto.
3
A incorporação dessas situações permitiu compreender como, em um contexto de restrição da circulação cotidiana, formas
coletivas de cuidado, acolhimento e sociabilidade também participavam da produção de territorialidades e visualidades
queer
na cidade.
4
Sigla ocial utilizada pela Organização da Parada.
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Redson Pagnan
cotidianas envolvendo visibilidade, reconhecimento e vigilância. Esses materiais foram posterior
-
mente interpretados à luz da teoria urbana, da antropologia urbana e das contribuições das teo
-
rias
queer
. Assim, buscou-se compreender como determinadas práticas produzem visualidades
urbanas dissidentes que compõem a constituição de territórios de pertencimento na cidade.
Partindo dessas relexões, a análise empírica e interpretativa toma as práticas urbanas contem
-
porâneas de corpos
queer
como operadores críticos para compreender as disputas de visualidade
no espaço urbano. Mais do que descrever situações especíicas, a análise investiga como gestos,
deslocamentos, ocupações e modos de aparecer produzem issuras nas visualidades normativas
da cidade, revelando o urbano como um território em permanente conlito. Nessa perspectiva, as
intervenções de Matta-Clark constituem uma importante chave interpretativa para compreender
essas dinâmicas. Ao realizar cortes em ediícios existentes, o artista não promovia apenas uma
subtração material, mas evidenciava estruturas, hierarquias e lógicas espaciais anteriormente na
-
turalizadas pela arquitetura.
De maneira semelhante, as práticas urbanas observadas no Largo do Arouche não apenas desa
-
iam simbolicamente as normas sociais. Também tornam visíveis os regimes cotidianos que regu
-
lam a circulação, a permanência e a visibilidade dos corpos no espaço público. As issuras produ
-
zidas por essas práticas revelam que a aparente neutralidade da cidade é resultado de processos
históricos de normatização continuamente negociados, contestados e ressigniicados. Ao articular
pensamento arquitetônico crítico e a experiência urbana vivida, podemos compreender que a co
-
autoria urbana surge desse tensionamento, como um processo pelo qual as práticas cotidianas
não apenas ocupam o espaço, mas também expõem, transformam e reescrevem as formas estabe
-
lecidas de produzir e imaginar a cidade.
O QUEER EM SITU(AÇÃO): O LARGO DO AROUCHE E A PRODUÇÃO DE UMA
VISUALIDADE URBANA DISSIDENTE
A noção de “sinais de ocupação”, formulada por Smithson e Smithson (1967) a partir da obser
-
vação do cotidiano urbano, refere-se às marcas deixadas pelo uso e pela apropriação do espaço,
revelando a distância entre o projeto concebido e a cidade experienciada. Para os arquitetos, es
-
ses sinais correspondem às marcas deixadas pelo uso cotidiano do espaço (gestos, permanências,
ações, improvisos e apropriações), que também constituem a noção de “pedaço”, conceito de Mag
-
nani (2002; 2012) que designa um espaço intermediário entre o domínio estritamente privado (a
casa) e o espaço público e impessoal da cidade. Mobilizando esses conceitos, a pesquisa os desloca
para o campo das práticas dissidentes, e assim reconhece nos corpos
queer
sinais especíicos de
ocupação que inscrevem no espaço urbano outras formas de existir e de aparecer, circunscreven
-
do determinados
pedaços
.
Partindo dessas estratégias cartográcas sobre os sinais de ocupação (
cf.
Smithson e Smithson, 1972),
a montagem visual apresentada (guras 1 e 2) evidencia como esses sinais não se manifestam de modo
isolado, mas se constroem em escalas de aproximação: Casa, Rua, Bairro, Cidade e Relações
5
, que vão
do íntimo ao coletivo. Assim, os sinais de ocupação deixam de ser apenas indícios de uso para se torna
-
5
As escalas mobilizam diferentes conceitos. Casa: memória, identidade, pertencimento. Rua: circulação, encontro. Bairro:
permanências, circuitos. Cidade: visibilidades públicas, política. Relações: dimensão transversal, que conecta todas as esca
-
las anteriores. Estas relações podem ser observadas mais detalhadamente na tese de doutorado indicada na pesquisa (vide
Pagnan, 2023).
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rem operadores críticos na compreensão da coautoria urbana e das disputas de visualidade que estrutu
-
ram a experiência citadina, a partir de um pedaço da cidade.
Figura 1: Cartograia sensível das visualidades e dos sinais de ocupação no Largo do Arouche (Escalas: Casa e Rua).
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
Além disso, as imagens não buscam registrar apenas encontros ou interações diretas, mas tam
-
bém formas de copresença (Butler, 2018), nas quais a coexistência dos corpos no espaço urbano
constitui, por si mesma, uma prática política de aparecimento e de reivindicação do direito de
existir publicamente. Dessa forma, a organização das imagens inspira-se na leitura dos sinais em
um pedaço especíico da cidade de São Paulo, referência geográica reconhecida pela comunidade
queer
. Assim, ao invés de representar o Largo do Arouche como uma unidade territorial homogê
-
nea, a cartograia reúne fragmentos visuais que evidenciam presenças, permanências, circuitos,
usos cotidianos e formas de reconhecimento construídas pelos e para os sujeitos. Mais do que
registrar um lugar, procura revelar como determinadas visualidades emergem da repetição das
práticas urbanas.
Dessa forma, a análise empírica desenvolvida (no eixo que compreende os arredores da Avenida
Paulista até o Arouche) toma o Largo do Arouche, em São Paulo, como um pedaço privilegiado
para compreender como práticas corporais e usos cotidianos produzem deslocamentos nas vi
-
sualidades normativas da cidade. Historicamente marcado por luxos diversos e por uma intensa
circulação urbana, o Arouche não se conigura originalmente como um espaço planejado para a
sociabilidade LGBTQIAPN+, mas torna-se, ao longo do tempo, um território reconhecido como
gay-friendly
6
a partir da repetição de práticas, presenças e modos de aparecer no espaço público.
6
Gay-friendly
(ou LGBTQIA+-
friendly
) é um termo em inglês usado para designar lugares, políticas, pessoas ou instituições
que são abertos, acolhedores e seguros para a comunidade LGBTQIA+.
8
Redson Pagnan
A observação de cenas cotidianas (circulação em grupos e coletivos, circulação de casais homoa
-
fetivos, ações assistenciais, festas, manifestações etc.) constitui ações dissidentes em prol da co
-
munidade, além de algumas formas especíicas de ocupar (igura 2) comércios, praças, calçadas
e bares do entorno
7
, o que evidencia que a constituição desse lugar não se dá por meio de uma
intervenção formal, mas por uma construção gradual e relacional.
Figura 2: Cartograia sensível das visualidades e dos sinais de ocupação no Largo do Arouche (Escalas: Bairro e Relações).
Fonte: Elaborado pelo autor (2026).
Conforme propõe Magnani (2002; 2012), é a partir da recorrência das práticas e da consolidação
de circuitos urbanos que determinados espaços passam a adquirir sentidos compartilhados (daí a
noção das relações como uma escala conectiva). No caso do Arouche, a repetição dessas presenças
produz um campo de reconhecimento mútuo, no qual a visibilidade deixa de ser excepcional e
passa a ser negociada como parte do cotidiano.
Essa dinâmica revela que o espaço urbano não antecede a prática, mas é continuamente produzi
-
do por ela (Pagnan, 2023). A partir de Lefebvre (2006), pode-se compreender o Largo do Arouche
como um espaço vivido, em tensão permanente com o espaço concebido. Embora inserido em uma
malha urbana marcada por normas de circulação, vigilância e controle, o lugar é ressigniicado por
usos que escapam às expectativas do planejamento. A presença reiterada de corpos
queer
expõe a
fragilidade da suposta neutralidade do espaço público, tornando visíveis os códigos implícitos que
regulam quem pode aparecer, permanecer e expressar afetos na cidade. Ao mesmo tempo, essa
produção do lugar não ocorre sem conlito. A visibilidade conquistada é constantemente atraves
-
sada por olhares de vigilância, abordagens policiais, comentários hostis ou tentativas de normali-
zar comportamentos.
7
Podem ser analisadas mais detalhadamente na tese de doutorado mencionada neste artigo (Pagnan, 2023).
9
REESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO
Como aponta Cortés (2010), o corpo dissidente, ao tornar-se visível, ativa mecanismos de controle
que buscam reinscrevê-lo na ordem dominante. No Arouche, a tolerância à presença
gay
revela-se
instável, dependendo do horário, da intensidade da circulação, do tipo de corpo e da performance
de gênero apresentada (Pagnan, 2023). Assim, o que se conigura como espaço
gay-friendly
é sem
-
pre resultado de negociações precárias e situadas, gerando visualidades urbanas especíicas e até
mesmo controladas.
Essa instabilidade pode ser lida também a partir de Santos (2006), para quem o espaço resulta da
interação entre sistemas de objetos e de ações. No Largo do Arouche, mobiliários urbanos, ilumi
-
nação pública, bares, luxos viários e dispositivos de controle coexistem com ações que subvertem
seus usos previstos. Corpos que permanecem onde se espera apenas passagem, gestos de afeto em
um espaço pensado como funcional, olhares que se cruzam e produzem reconhecimento transfor
-
mam temporariamente o signiicado do lugar. O espaço, assim, não muda materialmente, mas é
reprogramado simbolicamente pelas ações que o atravessam.
O Arouche evidencia, portanto, que a produção de um espaço
gay-friendly
não se dá por meio de
uma identidade fixa atribuída ao lugar, mas por uma coautoria urbana cotidiana, construída a partir
da presença reiterada de corpos dissidentes. Esses corpos, ao aparecerem, escrevem o espaço
com seus gestos, ritmos e modos de existir, instaurando fissuras nas visualidades normativas da
cidade. Como nas fissuras de Matta-Clark, trata-se de uma intervenção que não acrescenta forma,
mas expõe tensões, fragilidades e conflitos já presentes na estrutura urbana.
Desse modo, o Largo do Arouche torna-se um rico exemplo para compreender como a cidade é
continuamente refeita por práticas que desaiam seus regimes de visibilidade. A existência
queer
,
longe de se constituir apenas como identidade social, emerge aqui como prática espacial capaz de
produzir lugares, deslocar sentidos e revelar o urbano como campo de disputa permanente entre
norma e experiência vivida. O Largo do Arouche não se deine por uma delimitação administrativa
ou por um projeto urbano especíico, mas por uma densidade de usos, presenças e reconhecimen
-
tos que, reiterados no cotidiano, consolidam o lugar como referência para sociabilidades dissiden
-
tes na cidade de São Paulo, movimentando a economia e a cultura
8
.
Essa forma de constituição territorial também tensiona as concepções clássicas de lugar (
cf.
Augè,
2012) associadas à estabilidade, à permanência e à ixidez espacial. Embora muitas das práticas
queer
observadas sejam marcadas pela mobilidade, pela intermitência e pela constante negocia
-
ção de sua visibilidade, sua recorrência também produz vínculos, memórias e formas de reconhe
-
cimento coletivo. O pertencimento, nesse contexto, não decorre da permanência ísica dos sujeitos
ou da institucionalização do território deste “lugar antropológico” (
cf.
Augè, 2012), mas da con
-
tínua atualização das práticas sociais que fazem o Arouche ser também um lugar reconhecido,
permanentemente produzido, renegociado, tensionando também a ideia do “não-lugar”. Isto é, os
espaços de exclusão, insalubres e inóspitos podem (e são) também constituidores de experiências,
formadores de identidades, dotados de qualidades e da possibilidade de relações
9
(Pagnan, 2024).
Essa lógica de constituição do espaço aproxima o Largo do Arouche de outros territórios
queer
consolidados em grandes cidades globais, como o
Castro
, em San Francisco; o
L’Eixample
, em Bar
-
8
A discussão aprofundada acerca das relações entre lugar, não-lugar e territorialidades
queer
, desenvolvida a partir da mes-
ma pesquisa de doutorado, pode ser encontrada em
Pagnan (2023)
, onde se examinam as tensões entre pertencimento,
mobilidade e produção social do espaço no contexto do Largo do Arouche.
9
As dinâmicas das relações entre lugar e não-lugar podem ser analisadas mais detalhadamente em Pagnan (2024).
10
Redson Pagnan
celona; o
Le Marais
, em Paris; o
Schöneberg
, em Berlim; o
Greenwich Village
, em Nova Iorque; e até
mesmo o
San Telmo
, em Buenos Aires. Em todos esses casos, a formação de bairros reconhecidos
como
gays
ou
gay-friendly
não decorre exclusivamente de políticas urbanas ou de intervenções
formais
10
, mas da acumulação histórica de práticas, da repetição de circuitos de sociabilidade e
da produção de uma visualidade compartilhada que transforma o espaço urbano em território
de pertencimento (Pagnan, 2023). Reitera-se que se trata de lugares produzidos pela presença
contínua dos corpos, pela circulação, pela permanência e pela construção de redes de saberes e de
reconhecimentos mútuos.
Entretanto, o Largo do Arouche apresenta especiicidades que o diferenciam de algumas dessas
experiências internacionais. Estudos sobre territorialidades LGBTQIAPN+, como os desenvolvidos
por Bell e Binnie (2004), demonstram que os chamados espaços
queer
não constituem somente
recortes
geográficos.
Resultam
de
processos
contínuos
de
negociação
entre
a
visibilidade,
o
pertencimento e a cidadania. Nessa perspectiva, a produção desses territórios depende menos de
delimitações formais e mais das práticas sociais que os sustentam cotidianamente.
De modo semelhante, Castells (1983) observou que a consolidação de territórios
gays
em cidades
como San Francisco esteve associada à formação de redes de sociabilidade, de reconhecimento
mútuo e de mobilização política capazes de transformar determinadas áreas urbanas em referên
-
cias identitárias. Mais recentemente, Ghaziani (2014) argumenta que muitos desses espaços pas
-
saram por processos de institucionalização e de reconhecimento social que alteraram suas formas
tradicionais de ocupação e de pertencimento, tornando mais luidas as fronteiras dos chamados
gayborhoods
11
.
O Largo do Arouche dialoga com essas experiências na medida em que também se constitui por
meio da presença reiterada de corpos dissidentes, da construção de circuitos de sociabilidade e
da produção coletiva de sentidos de pertencimento, como já airmado. Contudo, diferencia-se pelo
caráter mais instável e negociado dessa territorialidade. Ao contrário de territórios amplamente
institucionalizados, sua condição de espaço
queer
permanece atravessada por conlitos políticos,
urbanos, vulnerabilidades sociais, disputas simbólicas e processos permanentes de reivindicação
do direito à cidade. Assim, a coautoria urbana observada no Arouche não decorre de um reco
-
nhecimento consolidado, mas da constante produção de visualidades dissidentes, que reairmam,
contestam e reinventam cotidianamente as possibilidades de existência no espaço urbano.
Assim, do mesmo modo que ocorre nos contextos internacionais, o Largo do Arouche se consolida
como território
queer
por meio de uma coautoria urbana cotidiana, marcada pela diícil negocia
-
ção da visibilidade constante com a cidade normativa. A visibilidade conquistada é sempre instá
-
vel (como sabemos, historicamente), atravessada por conlitos, disputas simbólicas e tentativas de
controle, o que evidencia que tais espaços não são zonas de exceção plenamente protegidas, mas
territórios em permanente tensão. Essa comparação permite compreender que o Arouche integra
uma geograia urbana mais ampla, na qual práticas dissidentes produzem lugares semelhantes
em diferentes contextos culturais, reairmando que a cidade é continuamente escrita pelos corpos
que a habitam e a disputam, independentemente de maior ou menor institucionalização.
10
Nos casos internacionais citados, a atuação política e cultural
queer
é mais institucionalizada e reconhecida em nível
governamental. De certa forma, é mais “formalizada” e legitimamente reconhecida, o que amplia seu reconhecimento
popular.
11
São áreas urbanas com alta concentração de residentes, de comércios, de vida noturna e de instituições voltadas para a
comunidade
“gay”
. Elas oferecem espaços seguros, redes de apoio e uma rica herança cultural.
11
REESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO
Portanto, a coautoria urbana
queer
é sempre em busca de visibilidade e reconhecimento em um
território de disputa, nunca dado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O espaço urbano revela-se, neste trabalho, como um campo de disputas em torno da visualidade,
no qual corpos, práticas e sociabilidades produzem modos especíicos de existir na cidade. A aná
-
lise evidencia que ser visível ou invisível na cidade não é uma condição neutra, mas o resultado de
negociações constantes entre normas, corpos e práticas.
A visualidade, longe de ser um dado neutro, conigura-se como processo relacional e instável,
continuamente negociado entre normas, usos e presenças dissidentes no espaço urbano. E, nes
-
se contexto, foi compreendida não apenas como imagem, mas como gesto, pensamento, ação e
experiência situada, por meio da qual o urbano se revela como espaço de conlito e produção de
sentidos, especialmente quando falamos da comunidade
queer
.
A noção de coautoria urbana, central à tese que fundamenta este trabalho, permitiu tensionar a
ideia de cidade como produto exclusivo de projetos institucionais ou de lógicas disciplinares. Ao
contrário, a pesquisa demonstra que a produção do espaço urbano se dá também (e de forma
decisiva) nas práticas ordinárias, nas sociabilidades cotidianas e nos usos desviantes que reconi
-
guram o campo do visível.
Os sinais de ocupação, retomados a partir dos Smithsons e reinterpretados à luz das teorias e
práticas
queer
, operam como dispositivos de leitura das visualidades urbanas, revelando como
o corpo, ao ocupar o espaço, escreve a cidade e desaia seus regimes normativos de aparência e
conduta.
A análise do Largo do Arouche evidenciou como um espaço urbano se constitui como território
queer
a partir da repetição de práticas, da formação de circuitos de sociabilidade e da produção de
uma visualidade compartilhada. O Arouche se produz como lugar não por uma identidade previa
-
mente atribuída, mas por meio de situações urbanas nas quais corpos dissidentes se fazem visí
-
veis, instaurando conlitos, reconhecimentos e negociações. Essa dinâmica revela o urbano como
campo de luta simbólica, no qual o existir citadino
queer
se constrói em tensão permanente com
normas que regulam performativamente o que pode ou não aparecer no espaço público.
Ao aproximar essa experiência de outros territórios
queer
consolidados em cidades globais, como
São Francisco, Nova Iorque, Paris etc., o recorte do espaço evidencia que tais processos fazem
parte de uma lógica urbana recorrente. Nos diferentes contextos culturais, a constituição desses
espaços revela como as visualidades urbanas operam na produção das sociabilidades e das subje
-
tividades, ao mesmo tempo em que expõem as desigualdades e disputas que atravessam o direito
de existir na cidade. O Arouche, nesse sentido, integra uma geograia ampliada de práticas urba
-
nas dissidentes, nas quais o visível se airma como campo de poder e expressão.
Por im, ao articular práticas arquitetônicas críticas (como as dos Smithsons, Matta-Clark e Ac
-
conci) com a análise etnográica, a pesquisa amplia a compreensão da visualidade como recurso,
ação e escrita do mundo. Essas experiências revelam que a crítica ao urbano não se dá apenas no
uso cotidiano, mas também no pensamento espacial que questiona normas, funções e hierarquias
do visível. Assim, ao tratar a cidade como escrita coletiva e instável, este trabalho reairma que o
existir citadino é sempre atravessado por disputas de visualidade, nas quais aparecer, ocupar e ser
12
Redson Pagnan
reconhecido constituem atos profundamente políticos. Ainda, a pesquisa contribui com a amplia
-
ção das discussões acerca do queer, dentro da teoria da arquitetura e do urbanismo (tensionando
sua hegemonia), assim como da ilosoia e da sociologia urbana, sendo uma ampla categoria de
análise social do sujeito e do espaço.
Agradecimentos
Agradecimentos
especiais
à
Universidade
Presbiteriana
Mackenzie
e,
também,
à
Faculdade
de Ar
-
quitetura e Urbanismo;
À minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Maria Isabel Villac, e à Prof.ª Dr.ª Volia
Regina Kato, que tanto contribuíram para o desenvolvimento da minha pesquisa e do meu próprio
desenvolvimento enquanto arquiteto-professor-pesquisador;
Ao grupo de pesquisa “Teoria-Proje
-
to: Cultura-Sociedade”.
Financiamento
CAPES/PROEX – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; Bolsa de Exce
-
lência Acadêmica.
Disponibilidade de dados
Os dados que suportam os resultados deste estudo estão disponíveis na tese de doutorado dispo
-
nível em: https://dspace.mackenzie.br/items/b311af2f-5e31-4d4b-be8c-151cb53fe363
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14
Redson Pagnan
Abstract
Key-Words
(Re)writing the city with the body:
visualities, dissensus, and urban
co-authorship at Largo do Arouche,
São Paulo, Brazil
Abstract
This article analyzes urban visualities as a constant
ield of symbolic, political, and spatial contestation,
bringing together
queer practices
(and
theories),
critical
architecture,
and
urban
ethnography.
It
draws on the notion of urban co-authorship to un
-
derstand the city not merely as the product of ins
-
titutional projects, but as an everyday construction
shaped
by
bodies,
uses,
and
forms
of
sociability.
Drawing on frameworks from urban theory, urban
anthropology,
and
critical
architectural
practices,
the study investigates how regimes of visibility re
-
gulate who can appear, circulate, and exist within
urban
space.
The
empirical
analysis
focuses
on
Largo do Arouche in São Paulo, Brazil, highlighting
how queer insurgencies produce a gay-friendly ter
-
ritory through the repetition of uses, the formation
of sociability circuits, and the inscription of signs of
occupation onto the urban landscape-thereby crea-
ting queer spaces. The research reafirms visuality
as a gesture, a mode of thought, an action, and a
political act and writing one’s urban existence.
Keywords
:
urban
space;
urban
co-authorship;
queer spaces; urban visualities; Largo do Arouche.
Resumen
Palavras Clave
(R)escribiendo la ciudad con el cuerpo:
visualidades, disidencia y coautoría
urbana en Largo do Arouche, São
Paulo, Brasil
Resumen
Este artículo analiza las visualidades urbanas como
un campo constante de disputa simbólica, política
y espacial, articulando prácticas (y teorías) queer,
la arquitectura crítica y la etnograía urbana. Parte
de la noción de coautoría urbana para comprender
la ciudad no solo como producto de proyectos ins-
titucionales, sino como una construcción cotidiana
atravesada por cuerpos, usos y sociabilidades. Ba
-
sándose en referencias de la teoría urbana, la an
-
tropología
urbana
y
las
prácticas
arquitectónicas
críticas, el trabajo investiga cómo los regímenes de
visibilidad regulan quién puede aparecer, circular
y existir en el espacio urbano. El análisis empírico
se centra en Largo do Arouche, en São Paulo, Brasil,
y destaca cómo las insurgencias queer producen un
territorio gay-friendly mediante la repetición de usos,
la formación de circuitos de sociabilidad y la inscrip
-
ción
de
signos
de
ocupación
en
el
espacio
urbano,
conformando así espacios queer. La investigación re
-
airma la visualidad como gesto, pensamiento, acción
y escritura política de la existencia urbana.
Palabras
clave
:
espacio
urbano;
coautoría
urba
-
na; espacios queer; visualidades urbanas; Largo do
Arouche.
Histórico
Recebido: Dezembro/25
Primeiro Parecer: Maio/26
Segundo Parecer: Junho/26
Aceito: Junho/26
Revisão Gramatical/Ortográica e ABNT: Junho/26
Revisado Autor: Julho/26
Publicado: Julho/26
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)
Laura Cintra (Editora Assistente Júnior)
Contato: revistatomo@gmail.com