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DOSSIÊ
A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO:
o círculo cultural como leitura e construção de visualidades e
subjetividades em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro
Lucas Ribeiro da Silva*
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Teresa de Jesus Peixoto Faria**
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Resumo
As políticas públicas habitacionais no contexto urbano brasileiro têm sido orientadas por uma lógica técni-
co-higienista, que desconsidera dimensões sociais, simbólicas e afetivas das paisagens urbanas. Este artigo
analisa os efeitos de uma política habitacional sobre os modos de habitar e existir na cidade, a partir da
remoção da favela Inferno Verde e da realocação de seus moradores no Conjunto Habitacional João Batista,
em Campos dos Goytacazes/RJ, processo que reconigurou a paisagem urbana. A pesquisa adota uma abor
-
dagem qualitativa, articulando revisão bibliográica, observação participante e experiência antropológica
compartilhada, desenvolvidas em um projeto de extensão universitária. O Círculo Cultural, inspirado em
Emiliano Dantas e no Círculo de Cultura de Paulo Freire, foi utilizado para acessar narrativas e percepções
dos moradores por meio de imagens da paisagem em transformação. Os resultados indicam rupturas dos
vínculos comunitários e diiculdades de apropriação do território, revelando descompasso entre a política
institucional e as vivências locais.
Palavras-chaves:
círculo cultural; paisagem urbana; políticas habitacionais; sociabilidade; intervenções urbanas
*
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, Programa de Pós Graduação em
Políticas Sociais, Laboratório de Estudo do Espaço Antrópico, Setor de Estudos Interdisciplinares de Estudos sobre Cidade
e Espaço Urbano. Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail:
lucasribeirosv7@gmail.com
Orcid:
https://orcid.
org/0000-0002-4433-450X
CrediT: Conceitualização, Investigação, Metodologia e Escrita do Rascunho Original
**
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro de Ciências do Homem, Programa de Pós Graduação em
Políticas Sociais, Laboratório de Estudo do Espaço Antrópico, Setor de Estudos Interdisciplinares de Estudos sobre Cidade
e Espaço Urbano. Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail:
teresapf@uenf.br
Orcid:
https://orcid.org/0000-
0002-8935-2373
CrediT: Aquisição de Financiamento para a publicação do artigo, Administração do Projeto, Investigação,
Supervisão e Escrita - Revisão e Edição.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24404, 2026
DOI:10.21669/tomo.v45.24404
Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,
sociabilidades e o existir citadino
E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549
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Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
INTRODUÇÃO
O existir urbano na contemporaneidade atravessa inúmeras dimensões, sendo estas políticas, so-
ciais, econômicas, históricas ou espaciais. Dessa forma, cada indivíduo tem dentro de sua trajetó-
ria uma experiência singular que se ramiica por diferentes esferas, dentre as inúmeras possibili
-
dades de vivência na urbe. Essa multiplicidade de experiências evidencia que o existir urbano não
pode ser compreendido apenas como uma condição espacial, mas também um processo social,
simbólico e histórico, em que diferentes sujeitos produzem e vivenciam a cidade a partir de posi-
ções desiguais. O entendimento da cidade não deve ser abordado como um dado ixo, mas como
uma construção social permanentemente em disputa.
Ao compreender a cidade em meio a um universo urbano, há o substrato material, os prédios,
casas, instituições públicas e privadas, espaços livres, favelas, estacionamentos, isto é, a própria
materialidade com a qual a cidade se impõe. E, além disso, existe uma trama intangível, que relete
o imaginário, o simbólico, o típico, o cotidiano, o estranho, o corriqueiro, o afetuoso, o invisível.
Estes aspectos tão distintos formam uma dança moderna que acompanha o dia a dia urbano, a
partir da particularidade de cada indivíduo dentro da sua cidade.
Esta dualidade se aproxima da ideia Lefebvriana de cidade, em que o ilósofo francês airma que a ci
-
dade se dá pela projeção da sociedade sobre um local, isto é, não apenas sobre o lugar sensível como
também sobre o plano especíico, percebido e concebido pelo pensamento, que determina a cidade
e o urbano. Em que se estabelece uma relação entre os termos cidade enquanto “realidade presente,
imediata, dado prático sensível, arquitetônico” e o urbano como “realidade social, composta de rela-
ções sociais a serem concebidas” (Lefebvre, 2001, p. 62-69). Para Campos
et al.
(2018, p. 8),
A cidade é um universo que pode ser concebido a partir de diversos pontos de vista. É,
desde logo, um território, com fronteiras formalmente deinidas e com uma geograia que é
ocupada por diferentes materialidades e seres (humanos e não-humanos). É, também, um
universo social, na medida em que é habitada e vivida, ao longo do tempo, por diferentes
pessoas e grupos sociais que vão produzindo a cidade. O espaço e o tempo são, assim, com-
ponentes da cidade que é fabricada em camadas, marcada pela permanente mudança da
sua paisagem.
É nesse contexto que a paisagem urbana se apresenta como uma chave analítica privilegiada,
pois condensa em sua dimensão visível e sensível os processos históricos, sociais e espaciais que
estruturam a experiência urbana. A paisagem permite, assim, observar como o espaço vivido se
materializa ao longo do tempo.
Como assinalado por Lefebvre e complementado por Campos
et al.
(2018), citados acima, a expe-
riência da paisagem urbana é repleta de destrinchamentos e guiada pela intervenção constante do
tempo na paisagem. O caráter espacial da paisagem urbana acompanha um caráter temporal, que
a condiciona a constantes transformações, que ora serão dentro da esfera da cidade, por meio de
demolições, reestruturações, revitalizações, entre outros nomes, ora na esfera do urbano, em que
a materialidade permanece, porém muda-se a percepção da sociedade sobre aquele local, dando
lugar para alteridades, heterotopias, mudanças de perspectiva, e também, estigmatização, invisi-
bilidade, marginalidade, entre outras.
Ao apontarmos para a paisagem urbana como ponto de estudo, estamos de frente a um debate
longo que envolve diversas áreas do conhecimento, entre elas a geograia, arquitetura, fotograia
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
e sociologia. A riqueza e a complexidade da paisagem levam a diferentes abordagens e interpre-
tações, o que nos obriga a adotar um ponto de vista que reforça os principais pontos de interesse
neste estudo.
Tomemos a paisagem de acordo com o geógrafo e ilósofo Jean-Marc Besse (2010; 2014), que a de
-
ine como a “ordem do mundo que se faz visível” (2010, p. 38), um território produzido e praticado
pelas sociedades humanas, por motivos econômicos, políticos e culturais, em que é gravado o im-
pacto das experiências, costumes, valores e práticas desenvolvidas pela sociedade daquele local.
A paisagem seria [...] uma escrita na superície da Terra, produto nem sempre consciente
nem intencional (mas também pode ser) das atividades humanas. A consideração dessa
“escrita paisagística” implica, ainal de contas, certo afrouxamento da distinção entre a es
-
fera artística propriamente dita e as esferas sociais e culturais (Besse, 2014, p. 27-28).
Porém, considerando também o estudo posto pelo arquiteto brasileiro Silvio Macedo (1999), pro-
fessor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP),
não podemos entender a paisagem apenas como um produto social, mas também como um sistema:
Como um produto porque resulta de um processo social de ocupação e gestão de um de-
terminado território. Como um sistema, na medida em que, a partir de qualquer ação sobre
ela impressa, com certeza haverá uma reação correspondente que equivale ao surgimento
de uma alteração morfológica parcial ou total (Macedo, 1999, p. 11).
Portanto, Macedo, em consonância com Besse, destaca que a paisagem
é o resultado social das
diversas ações humanas sobre um determinado território. Isso significa que a paisagem urbana
não surge de maneira espontânea; é construída a partir de decisões que orientam a ocupação,
o
uso
e
a
gestão
do
espaço.
Cada
edificação,
via,
marco,
construção
ou
forma
de
organização
espacial expressa relações sociais específicas e modos de produção que estão se materializando
no território. Nesse sentido, a paisagem funciona como um registro visível, e também vivível, das
práticas sociais acumuladas no tempo.
No entanto, por se tratar também de um sistema, ica enfatizado o caráter relacional que a paisa
-
gem apresenta. Não se trata apenas do resultado inal ou parcial de um processo social, mas tam
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bém de um conjunto de elementos interdependentes que interagem entre si e com a sociedade.
Assim, quaisquer ações impressas sobre a paisagem, intervenções urbanas, políticas públicas ha-
bitacionais, obras de infraestrutura, apropriações cotidianas (como praticar esportes em praças)
desencadeiam reações no próprio sistema paisagístico. Essas reações podem se manifestar como
alterações morfológicas parciais ou totais, impactando não apenas a forma ísica da urbe, mas
também os modos de uso, percepção, circulação e sociabilidade.
Dessa forma, a paisagem urbana atua como intermediária entre a sociedade e a cidade: ela é pro-
duzida socialmente, mas, ao mesmo tempo, condiciona e reorganiza práticas sociais futuras. A
intervenção sobre a paisagem, portanto, não é neutra, pois gera efeitos que retroagem sobre a vida
social, reconigurando comportamentos, relações e experiências urbanas.
Em complemento a tal ideia, também se adota a perspectiva da temporalidade da paisagem de
Ingold (2021) em que a paisagem não é um mero conjunto resultante de ações passadas nem um
cenário estático. Trata-se de um processo vivo formado por múltiplas temporalidades, presentes e
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Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
passadas, que estão intrínsecas à paisagem, nas marcas deixadas pelos usos cotidianos, pelos usos
reiterados e pelas transformações ambientais.
Ao estudar a paisagem urbana, indagamos não perante uma imagem estática, mas sim sobre um
processo social que aconteceu, e ainda acontece, atravessando o habitar das pessoas que ali vivem.
Onde as atividades, as práticas comunitárias e as intervenções do poder público se entrelaçam,
tendo como consequência transformações no habitar, no viver e também na própria paisagem.
Logo, pode-se airmar que estamos tratando de visualidades urbanas, desenhadas na paisagem.
Conforme discutem Campos
et al.
(2018), as visualidades urbanas constituem formas de produ-
ção de sentidos sobre a cidade. Mais do que simples imagens, elas correspondem a modos de ver
e representar os espaços urbanos, sendo atravessadas por relações de poder, disputas simbólicas
e diferentes experiências do habitar. Nessa perspectiva, Campos (2016) traz que os regimes de
visibilidade organizam aquilo que pode ser visto e reconhecido socialmente, ao mesmo tempo em
que produzem processos de invisibilização. Tornar algo invisível não signiica apenas ocultá-lo do
olhar, mas negar sua existência social, relegando determinados sujeitos, territórios e experiências
às margens da cidade. Se a paisagem é a ordem que se faz visível, segundo Besse (2006), argumen-
ta-se que também se trata da ordem que é tornada invisível.
Ademais, também nos apropriamos da abordagem conceitual de Malta, em que o autor aponta que
“A paisagem ordena socioespacialmente a estrutura urbana, conforma relações sociais do poder
político, do poder econômico e de diferenças culturais.” (Malta, 2017, p. 100). “Podemos entender
os arranha-céus e os projetos de habitação popular como paisagens do poder. Essas paisagens
são um texto visível das relações sociais, separando e estratiicando atividades e grupos sociais,
incorporando e reforçando as diferenças” (Zukin, 2000, p. 106
apud
Malta, 2017, p. 100). Já o que
tensiona estas relações de poder, o que normalmente é associado a algo negativo, desordenado,
desaiadores das normas de urbanização e planejamento, são as contrapaisagens; no caso do Rio
de Janeiro, ilustrado pelos morros ocupados por favelas, a inversão cultural da paisagem do poder,
da visualidade dominante (Malta, 2017).
Essa compreensão é particularmente relevante para a análise das políticas habitacionais volta-
das às favelas. A remoção desses assentamentos não implica apenas uma transformação ísica
da paisagem, mas também a produção de novas visualidades urbanas. Ao substituir a favela por
conjuntos
habitacionais,
de
caráter
padronizado,
ordenado
e,
teoricamente,
digno,
constrói-se
uma imagem de ordem, progresso e modernização, enquanto as memórias, os vínculos sociais
e as territorialidades constituídas anteriormente tendem a ser invisibilizados. Nesse sentido, as
visualidades produzidas pelas políticas públicas representam também a cidade, participando ati-
vamente da deinição de quais espaços e modos de vida merecem reconhecimento e quais devem
desaparecer, as paisagens e contrapaisagens (Malta, 2017).
Logo, este artigo analisa e busca responder como uma política pública habitacional do município
de Campos dos Goytacazes/RJ, ancorada em remoções, como é o caso da remoção das famílias da
favela Inferno Verde, que foi demolida para dar lugar a um conjunto habitacional popular vertical,
onde as famílias foram realocadas, reconigura a paisagem urbana e suas visualidades, produ
-
zindo novos regimes de sociabilidade e de existir citadino. Assim, elegemos o Círculo Cultural
como uma metodologia que, além de ser capaz de acessar subjetividades, narrativas e imagens, é,
segundo o autor, uma experiência antropológica que se estrutura na produção de conhecimento
compartilhado com as pessoas, em interações e trocas, no movimento dialético de atenção para as
imagens (Dantas, 2021).
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
Este artigo resulta das atividades realizadas no projeto de extensão Políticas Públicas e a Espera:
Ações para garantia de direitos em conjuntos habitacionais, com inanciamento da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), vinculado à Coordenação de Extensão
do Centro de Ciências do Homem (CooEx-CCH) da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy
Ribeiro (UENF). A metodologia adotada foi a revisão bibliográica; a pesquisa de campo e ações
junto às famílias afetadas, realizadas no âmbito do referido projeto de extensão.
As atividades de campo se desdobraram por um longo período, iniciando-se em 2013, logo após a
remoção das famílias, em 2012. À época, o trabalho de campo era parte da pesquisa de mestrado
de Falcão (2015). A pesquisadora se inseriu no campo, semanalmente, encontrando 34 famílias
removidas da favela que estavam morando em aluguel social, no entorno da antiga favela, acom-
panhando de perto a construção do conjunto. Desse modo, a investigadora estabeleceu interações
e vínculos com essas pessoas e familiaridade com o território.
Seu objetivo foi identiicar se durante o período de espera daquele grupo pela nova moradia, se
conformou um “território da espera” conforme deinido por Vidal
et al.
(2011): “os territórios da
espera designam especiicamente os espaços destinados voluntariamente ou servindo involunta
-
riamente a pôr em espera populações deslocadas ou em deslocamento. Há, por conseguinte, uma
dimensão coletiva necessária”.
Após a conclusão do mestrado, a professora orientadora deu continuidade à pesquisa. Em 2017, a
construção já estava concluída, mas ainda não havia sido entregue. Foi quando se iniciou o projeto
de extensão. A inserção no território continuou a ser intermediada pela principal interlocutora da
pesquisa, a moradora Sharlene, cuja atuação sempre foi ativa desde o primeiro contato com Falcão
(2015). O acompanhamento das famílias se dá no conjunto habitacional, a partir de 2018, quando
este é entregue pelo poder municipal, cujo prefeito era Rafael Diniz (2017-2020).
As atividades de contato, entrevistas, participação em reuniões da associação de moradores, rodas
de conversa, apresentações de slides sobre a história do bairro contendo imagens de antes e após
a remoção, exposições fotográicas com imagens do acervo do projeto e captadas pelas crianças
moradoras, exibição de ilmes ou documentários concernentes à problemática e observações di
-
retas ocorreram semanalmente, principalmente aos sábados ou em determinadas circunstâncias,
mais de uma vez por semana, inclusive à noite. De 2020 a 2021, devido à pandemia de Covid-19, as
atividades presenciais cessaram, porém o contato se manteve de forma on-line, por meio de gru-
pos de mensagens automáticas e
lives
. A partir de 2022, as atividades presenciais são retomadas e
se mantêm até o momento atual, tendo como principal objetivo, desvelar os efeitos da remoção, o
cotidiano familiar e os desaios do existir citadino dessas famílias neste novo contexto.
A partir destas experiências no decorrer do acompanhamento das famílias da favela Inferno Ver-
de, assim como da compreensão da potência das imagens como elemento de ignição de narrativas,
palavras, textos que, segundo Dantas (2021), é delas que se dá a leitura e escrita do mundo. Em
referência direta a compreensão de paisagem de Besse (2014), foi adotada também a experiência
antropológica compartilhada, na forma do círculo cultural.
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Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
AS FAMÍLIAS DA FAVELA INFERNO VERDE E A QUESTÃO HABITACIONAL EM
CAMPOS DOS GOYTACAZES/RJ
Este estudo ocorreu em Campos dos Goytacazes, situada ao norte do Estado do Rio de Janeiro, cidade
média com aproximadamente de 500 mil habitantes (igura 1). O município já desempenhou um im
-
portante papel na economia brasileira (entre os séculos XVIII e XX) pela sua pujante indústria sucro-
alcooleira. Hoje, faz parte da Bacia de Campos, uma das maiores produtoras de petróleo e gás do País.
Figura 1: Localização do município de Campos dos Goytacazes.
Fonte: Instituto Brasileiro de Geograia e Estatística – IBGE (2010).
A favela Inferno Verde localizava-se no bairro da Lapa, situado no distrito sede, em uma área con-
tígua ao centro urbano (igura 2) e próxima ao Rio Paraíba do Sul, em que a favela icava especii
-
camente na esquina da Rua Miguel Herédia com a Avenida Adão Pereira Nunes.
Figura 2: Mapa do bairro Lapa, polígono formado pela Rua dos Goytacazes (aresta esquerda), Rua Miguel Heregia (aresta
direita), Av. 7 de Setembro (aresta inferior) e Av. Nelson de Souza (aresta superior).
Fonte: Centro de Informações e Dados de Campos – CIDAC (2018)
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
Essa localização estratégica (igura 3) já evidencia uma contradição recorrente nas cidades brasi
-
leiras: a presença de assentamentos precários em áreas valorizadas do ponto de vista urbano, mas
historicamente negligenciadas pelo poder público. A proximidade com o centro e com importan-
tes eixos de circulação conferia aos moradores acesso facilitado a serviços e postos de trabalho,
ainda que em condições habitacionais marcadas pela informalidade e pela precariedade.
Figura 3: Visão aérea do bairro da Lapa, Igreja Nossa Senhora da Lapa à frente.
Fonte: César Diniz, disponível em
https://shre.ink/5W6E
(2019)
Segundo relatos dos moradores, as primeiras ocupações da favela Inferno Verde ocorreram nos idos
dos anos 1960, em função das oportunidades de emprego oriundas da fábrica de tecidos Cia. de Fia-
ção e Tecelagem Campista, inaugurada em 1885, no bairro da Lapa (igura 4). O aumento do número
de moradores criou a necessidade de instaurar uma infraestrutura básica no local, que era muito
precária. Relatos dos moradores mais antigos dão conta de que, no início da ocupação, as casas eram
todas de madeira (barracos), desprovidas de água e energia (igura 5) (Falcão e Faria, 2016).
Figura 4: Fábrica de tecidos Cia. de Fiação e Tecelagem Campista.
Fonte: Acervo próprio (2022)
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Figura 5: Visão Aérea da favela Inferno Verde, marcada em polígono vermelho.
Fonte:
Google Earth
(2010). Alterado pelo autor.
No inal de 2012, em consequência das obras do Bairro Legal no bairro da Lapa, os moradores
foram removidos e a favela Inferno Verde foi completamente destruída (igura 6) (Falcão e Faria,
2016). A demolição das casas, iniciada em 2012, inaugurou um período prolongado de incerteza
para as famílias removidas. Embora o reassentamento estivesse previsto para ocorrer no mesmo
local, por meio da construção do conjunto habitacional, a conclusão das obras levou aproxima-
damente seis anos. Esse intervalo produziu um estado de espera prolongada, um território da
espera, no qual os moradores permaneceram em aluguel social ou em soluções habitacionais pro-
visórias, experienciando a fragmentação de suas redes de vizinhança e a instabilidade cotidiana.
Figura 6: Demolição da Favela Inferno Verde.
Fonte: Acervo próprio (2016)
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
As remoções forçadas coniguram violação de diversos direitos humanos e acarretam profundas
mudanças nas formas de vida das populações atingidas, ao romperem a continuidade das dinâ-
micas especíicas previamente estabelecidas entre os moradores e seus territórios, além de inten
-
siicarem a segregação e as desigualdades socioespaciais. Ademais, tais processos não impactam
apenas o cotidiano dos indivíduos, mas também comprometem as relações sociais e comunitárias
construídas nos espaços submetidos à intervenção (Falcão e Faria, 2016).
As políticas no setor de habitação podem ser implementadas como uma tentativa de “ame-
nizar” a crítica situação urbana atual, caracterizada por expansão e adensamento desor-
denados, déicit habitacional e favelização. Independente dos interesses que as motivam,
a forma como essas políticas habitacionais vêm sendo implantadas, em muitos casos, não
condiz com uma política de ordenamento territorial que permita à população alvo do pro-
cesso de intervenção usufruir dos serviços que a cidade dispõe, pois constroem conjuntos
habitacionais em áreas distantes dos centros urbanos, desprovidas de infraestrutura bási-
ca (Falcão e Faria, 2016).
Esse caráter intervencionista sobre o espaço e sobre as populações que nele vivem tem se mostra-
do recorrente nas ações do programa Morar Feliz, por meio das quais moradores de distintas fa-
velas vêm sendo compelidos pelo poder público municipal a deixar suas residências e a se instalar
em conjuntos habitacionais populares ediicados em áreas periféricas, social e economicamente
segregadas; O caso da Inferno Verde difere neste sentido, pois o conjunto habitacional foi constru
-
ído no mesmo local da antiga favela.
Após anos de espera, o conjunto habitacional João Batista
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foi inaugurado em 2018. As famílias re-
ceberam as chaves de seus apartamentos (igura 7), marcando um novo momento, agora marcada
por desaios cotidianos. A adaptação à vida em condomínio exige o aprendizado de normas, regras
e responsabilidades coletivas, muitas vezes distantes das práticas anteriores de moradia horizon-
tal. Questões simples como onde secar roupas, o uso dos espaços comuns ou a gestão condominial,
tornam-se centrais na construção de um novo habitar a paisagem.
Figura 7: Inauguração do conjunto habitacional João Batista.
Fonte: Acervo próprio (2018)
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João Batista é o nome de um dos primeiros comerciantes da antiga favela que foi homenageado.
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Assim, o processo da favela Inferno Verde ao Residencial João Batista explicita uma dinâmica so-
cioespacial complexa, atravessada por deslocamentos forçados, longos períodos de espera, conli
-
tos, mobilizações e, inalmente, pela reconstrução do cotidiano em um novo ambiente construído.
Mais do que uma mudança ísica, trata-se de uma transformação profunda nas relações entre su
-
jeitos, a paisagem e o poder, evidenciando os limites e as potencialidades das políticas habitacio-
nais quando confrontadas com a vida real de seus beneiciários
O projeto de extensão, que acompanhou essas diferentes etapas, agora se vê voltado para esta
nova realidade, buscando compreender os impactos acometidos àqueles sujeitos. O lugar que ha-
bitavam se transformou completamente, e com isso, trouxe diferentes reações, vivências e pers-
pectivas sobre o existir naquele recorte da paisagem.
Logo, partindo do referencial teórico adotado, nota-se a possível formação de nova visualidade,
em que a contrapaisagem da favela Inferno Verde foi materialmente invisibilizada; ainal, a falta de
infraestrutura, de ordem, o padrão construtivo associado à precariedade, mal-estar e pobreza não
atendiam aos padrões que o poder municipal desejava expor como parâmetro de política pública
habitacional. Visava-se uma imagem da prefeita Rosinha Garotinho como “salvadora”, e para isso,
era preciso realocar aquelas famílias para novas moradias, que seriam vistas como dignas, social-
mente lidas como decentes, alinhadas ao que se entende como parte de uma vida bem-sucedida.
A partir destas indagações, idealizou-se a realização do Círculo Cultural, para dar protagonismo e
voz àquelas pessoas, por meio do contato com as visualidades novas e antigas do bairro, da paisa-
gem, da contrapaisagem e de todo o processo que viveram.
O CÍRCULO CULTURAL
Círculo Cultural advém do trabalho realizado para Dantas (2021), em tese de doutorado, consi-
derado pelo autor uma experiência antropológica compartilhada. O autor explica que a atividade
tem sua inspiração na prática freiriana dos círculos de cultura, porém estes voltados para a alfa-
betização de adultos em países africanos, especialmente São Tomé e Príncipe. Tratava-se de uma
prática pedagógica voltada à emancipação de sujeitos, um espaço teórico-prático de produção de
conhecimento, fundamentado na valorização das práticas cotidianas, dos saberes populares e da
integração entre corpo, trabalho e intelectualidade. (Dantas, 2021)
O trabalho de Dantas também se deu em São Tomé, e na forma do círculo cultural é proposto
um alargamento conceitual, em que já não há mais o intuito de alfabetização crítica, mas sim a
produção coletiva de sentidos, narrativas, imagens e saberes, por meio da escuta e da partilha de
subjetividades emancipadas pelas imagens.
O Círculo de Cultura em São Tomé e Príncipe propunha, de partida, uma leitura crítica do
mundo através da imagem, feita em desenho e fotograia, para daí passar à letra e à palavra.
Foi exatamente este fator que me fez pensar na pesquisa com imagens, bem como nas nar-
rativas visuais dentro desta tese, por imagens, para compor as palavraimagem e imagens-
mundo. [...] para tentar, colaborativamente, fazer uma tese não sobre, mas com as pessoas,
com o mundo e no mundo (Dantas, 2021)
A atividade consiste na seleção de imagens, divididas em categorias deinidas pelo pesquisador.
Estas fotograias devem ser de número equilibrado, não havendo um número mínimo ou máximo,
mas devendo haver cuidado para não haver fadiga por excesso de informação. As imagens devem
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
ser impressas e coladas em material rígido que facilite o manuseio. Em sequência, estas imagens
devem ser dispostas sobre uma mesa ou móvel em que iquem visíveis, sem qualquer tipo de dis
-
tinção categórica ou legenda visível (Dantas, 2021).
Em sequência, deve ser pedido aos sujeitos participantes da experiência antropológica que esco-
lham de uma a três imagens e expliquem o porquê de sua escolha. Este momento tem potencial
enorme de, por meio da imagem, elucidar novas experiências, sensações e emoções antes veladas.
Por im, é pedido que os participantes dividam as imagens em três categorias: presente, passado
e futuro (Dantas, 2021).
Considerando o estudo da paisagem urbana e seus desdobramentos, a prática é de enorme poten-
cial. A partir da visualidade, um ponto-chave da paisagem, outras dimensões se desdobram, conecta-
das por meio de narrativas orais dos sujeitos que se relacionam com aquela paisagem. As diferentes
perspectivas do que é viver aquela paisagem, quais atividades, quais laços foram criados, quais fo-
ram desfeitos, os impactos das transformações no decorrer do tempo, e também a própria comple-
xidade da temporalidade da paisagem se demonstram na forma da compreensão de que imagens do
passado podem representar não somente o passado, mas também o presente e o futuro.
Portanto, dado o contexto dos moradores do Residencial João Batista, propôs-se a realização do
Círculo Cultural com este grupo. A equipe de bolsistas do projeto de extensão, sob a orientação da
professora coordenadora, iniciou o trabalho com a seleção das imagens a serem expostas. Cada
bolsista icou encarregado de sugerir no mínimo cinco fotos, que, por im, foram selecionadas em
seis categorias: instituições, feridas da remoção, tempos de espera, práticas culturais, práticas
esportivas, e práticas sociais coletivas. A partir deste conjunto diverso de imagens, acreditava-se
que seria possível entender a relação daquele grupo com seu bairro, seu cotidiano e suas (novas)
formas de habitar.
Os eixos selecionados para a escolha das fotograias foram orientados pela compreensão de que as
imagens mobilizadas no Círculo Cultural não constituem apenas registros documentais da antiga
favela ou do processo de remoção, mas também expressam visualidades e paisagens capazes de
evidenciar dimensões da experiência urbana frequentemente invisibilizadas pelas políticas ha-
bitacionais. Assim, as categorias contemplaram desde as instituições presentes na paisagem co-
tidiana da Lapa até o processo de remoção, o período de espera pela moradia deinitiva, as novas
formas de habitar e as práticas culturais, esportivas e coletivas que marcaram a apropriação da
paisagem depois da mudança para o Residencial João Batista.
Em diálogo com Campos (2016), buscou-se tensionar os regimes hegemônicos de visibilidade, que
organizam o que é visto, reconhecido e valorizado socialmente. As fotograias utilizadas no Círculo
Cultural foram, portanto, concebidas como dispositivos capazes de produzir outras visualidades
sobre a Lapa, a antiga favela Inferno Verde e o conjunto habitacional João Batista. Em contraste
com as visualidades frequentemente difundidas pelas políticas habitacionais de remoção, que ten-
dem a associar a favela à precariedade e à necessidade de substituição, as imagens apresentadas
aos participantes evidenciavam o bairro como espaço de pertencimento, memória e sociabilida-
de, dimensões que foram violentadas pela política habitacional. Desse modo, buscou-se trazer ao
campo do visível, experiências, afetos e práticas espaciais que foram invisibilizados pelo processo
de remoção e pela produção de uma nova paisagem urbana.
Essa perspectiva também dialoga com a noção de contrapaisagem proposta por Malta (2017), em
que as fotograias da igreja, do rio, das instituições locais, das práticas esportivas e das formas de
12
Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
sociabilidade procuraram evidenciar dimensões da antiga favela que escapam às representações
hegemônicas de precariedade, contrapondo a ideia de ordem trazida por projetos de requalii
-
cação urbana pautados no valor de troca e na valorização do capital atrelado à paisagem, assim
como, reairmando as condições de paisagem vivida e atrelada à produção de vínculos sociais.
O convite aos moradores do conjunto ocorreu de forma presencial e virtual. Foi elaborada a arte
de divulgação (igura 8) que foi divulgada no grupo de
WhatsApp
do residencial, assim como os
bolsistas imprimiram o convite e distribuíram de porta em porta nos blocos do conjunto habita-
cional. O círculo cultural aconteceu no dia 18/12/2022 no Flamenguinho da Lapa, clube localizado
no mesmo quarteirão do residencial, com atividades tradicionalmente frequentadas pelos mora-
dores do conjunto habitacional.
Figura 8: Convite para o Círculo Cultural.
Fonte: Acervo próprio (2022)
Ao todo, 11 pessoas participaram do círculo cultural; o grupo era diverso e possuía moradores
mais jovens e mais antigos, que já moravam ali desde antes da demolição da favela Inferno Verde.
Tal característica torna a atividade mais interessante, pois era possível entender perspectivas di-
ferentes sobre o mesmo processo socioespacial, baseadas na experiência individual e comunitária.
A atividade aconteceu num dos últimos domingos do ano. De forma inusitada, o clima de Natal se
misturava com as comemorações da Copa do Mundo e com o im do ano. Era um domingo nublado,
com cara de chuva ao im da tarde, como havia acontecido nos dias anteriores. Seguindo a meto
-
dologia de Dantas (2021), após a disposição das imagens, foi pedido que cada um escolhesse uma
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
imagem e falasse sobre o porquê de sua escolha (igura 9). Porém, na dinâmica, essa rigidez se
perdeu; os moradores passavam o olhar por diversas imagens, e falavam sobre elas de forma livre,
muitas vezes ao mesmo tempo, o que era levemente caótico, mas demonstrava a enorme riqueza
do recurso imagético.
Figura 9: Início do Círculo Cultural.
Fonte: Acervo próprio (2022)
Os relatos foram divididos em três eixos de análise: memória e identidade territorial, rupturas
simbólicas e novas e velhas visualidades. Destacamos que, em todos os eixos, em diversos relatos,
as emoções transbordavam; quaisquer normas de expressão eram expurgadas de forma dinâmica,
crua e humana. Ainda tentamos manter o método original, mas a riqueza do movimento espon-
tâneo dos moradores se sobrepôs em diversos momentos; nos colocamos como ouvintes mais
atentos para captar qualquer fala motivada pelo contato com as imagens. A timidez de expor seus
pensamentos de forma isolada se perdia quando cada um falava em meio à fala dos outros, o que
trouxe um maior número de perspectivas.
No primeiro eixo, memória e identidade, houve a priorização das narrativas vividas para além da
favela, no bairro da Lapa Campista, em que elementos simbólicos, institucionais foram ignantes de
emoções, narrativas passadas e da evidência do sentimento forte de pertencimento ao território.
Uma das moradoras, de 47 anos, não conteve o choro ao ver a Fundação Municipal da Infância e
Juventude (FMIJ) (igura 10), depois de um tempo sem conseguir expressar palavras, explicou que
se lembrou da época que estudou lá, dos 11 aos 20 anos, dos muitos cursos que fez, que recebia
bolsa para estudar, assim como fazia todas as refeições na escola, que sua juventude se passou
naquele lugar, e de lá tem boas lembranças.
14
Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
Figura 10: Participante emocionada com a imagem da FMIJ.
Fonte: Acervo próprio (2022)
A mesma moradora, em momento posterior, também compartilhou parte de sua história com a
Igreja Nossa Senhora da Lapa (igura 11), onde funcionou o asilo para meninas, orfanato e escola
proissionalizante, dizendo que sua avó havia deixado sua mãe para ser criada pelas freiras, e
quando sua mãe teve a primeira ilha, sua irmã mais velha, a avó também colocou a menina no in
-
ternato com as freiras, porém ela foi expulsa por ter desrespeitado uma das freiras, puxando-lhe o
véu. Demonstra-se aqui um laço entre os moradores e a região da Lapa, não somente entre a antiga
favela e o conjunto habitacional.
Figura 11: Altar da Igreja Nossa Senhora da Lapa.
Fonte: Acervo próprio (2022)
15
A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
Outro morador, de 20 anos, ao início da atividade, pegou a foto do time do Goytacaz Futebol Clu-
be
2
(igura 12) interessado em quem eram os jogadores. Logo após, ele contou sua trajetória até
chegar à Favela Inferno Verde, pois já havia morado em muitos bairros, até se estabelecer ali, na
época ainda criança. Também relatou que, ao ver a foto da enchente (igura 13), nos momentos
em que faltava água na favela, os moradores iam buscar água no Rio Paraíba do Sul, e na beira do
rio lavavam suas roupas; com essa mesma água que pegavam no rio fazia-se café, escovavam os
dentes, bebiam, tomavam banho, etc.
Figura 12: Foto do time do Goytacaz Futebol Clube de 1978.
Fonte: Acervo Próprio (2022).
Figura 13: Cheia do Rio Paraíba do Sul, causando enchente na Lapa.
Ao fundo da imagem, a Igreja Nossa Senhora da Lapa e um ediício de apartamentos contrastante com a paisagem.
Fonte: Acervo Próprio (2022).
2
O Goytacaz Futebol Clube é um clube esportivo tradicional de Campos dos Goytacazes, cujo estádio-sede Ary de Oliveira ica
nas proximidades do bairro Lapa, onde se situa o conjunto habitacional João Batista.
16
Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
Outro relato foi dado por uma jovem moradora do bairro, não do residencial, que optou por par-
ticipar da atividade. Tinha 15 anos e era muito participativa. A jovem relata que conhece todos
do conjunto habitacional, sendo considerada pelo grupo parte da comunidade. A jovem deu pe-
quenos relatos a partir de diferentes fotos do bairro, da padaria local, do jogo de queimado das
crianças, do próprio batismo na Igreja Nossa Senhora da Lapa e, principalmente, do registro da
manifestação pela entrega dos apartamentos, realizada pelos moradores insatisfeitos com a longa
espera de cinco anos (igura 14).
Figura 14: Manifestação pela entrega das chaves dos apartamentos no conjunto habitacional.
Fonte: Acervo Próprio (2017).
Aqui, os relatos se alinham com o segundo eixo de análise: Rupturas Simbólicas, em que os inte-
grantes se referem principalmente às vivências que tinham na favela e a como as práticas comu-
nitárias que aconteciam nela, hoje já não existem mais, foram ceifadas pelo processo de remoção
e realocação.
Um relato de uma antiga moradora, na época do círculo com 53 anos, disse que foi uma das primei-
ras moradoras do local, passando por todo o processo de vivência da favela, a remoção, a espera
pelo residencial e agora a vivência do conjunto habitacional. A imagem que escolheu retrata a
antiga favela, com antigos moradores e casas (igura 15).
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A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
Figura 15: Antiga favela Inferno Verde.
Fonte:
Google Earth
(2022).
As emoções invadiram sua fala ao rememorar o responsável pelo comércio, que havia participado
de todo o seu processo de crescimento e a havia ajudado muito, bem como à sua família. Assim
como a presença de Dona Sônia, senhora muito presente na comunidade. Ambos faleceram há
alguns anos.
Em sequência, outra imagem da antiga favela Inferno Verde despertou o relato de uma antiga mo-
radora, na época com 35 anos, que se tratava da foto de uma casa de porta amarela com uma placa
“pintor e jatista”. A placa era do tio dela, que trabalhava como pintor (igura 16).
Figura 16: Antiga Favela Inferno Verde.
Fonte: Acervo próprio (2022).
18
Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
A casa ao lado era de sua avó e sua casa, onde morava com os pais, nos fundos. Ela disse que até os
oito anos de idade via a rua por cima do muro pois seus pais não a deixavam sair, a casa tinha aces-
so pela rua. Em seguida, comentou que, quando fez 20 anos, engravidou e foi morar com o marido
no “corredor” (acesso a barracos internos da favela que não tinham acesso a rua) no barraco que o
padrinho havia comprado para ela. A residente icou feliz em ver uma foto que mostrava a casa de
seus familiares e icou com a foto para si, neste momento vociferou “a gente era feliz e não sabia”,
o que teve a concordância de todos os que haviam vivenciado a favela.
Certo tempo depois do início do círculo cultural, um novo participante chegou e logo se integrou à
atividade, disse que era o mais antigo entre os presentes e que morava na favela desde setembro
de 1976, com 64 anos, viu uma foto de si mesmo fazendo a sua mudança para o residencial no
carrinho de mão emprestado do vizinho (igura 17), relatou como era um momento de felicidade
pela nova casa, mas ainda assim com diiculdades, em seguida todos lembraram de como foi a mu
-
dança, uma disse que fez num carrinho de bebê, outra num carrinho de supermercado, cada um
usou o que tinha para conseguir inalmente se mudar para sua nova casa.
Figura 17: Mudança dos antigos moradores da favela Inferno Verde ao Residencial João Batista.
Fonte: Acervo Próprio (2018)
Por im, no último eixo, novas e velhas visualidades, ica evidenciado o impacto da vivência atual
naquele grupo, em que a imposição da paisagem de ordem, trouxe na verdade um espaço de iso-
lamento, de insegurança e até descontentamento. Um relato diferenciado veio de uma mulher de
31 anos, que ao escolher a foto do residencial atualmente disse que ninguém merecia morar ali,
procedeu relatando que sua experiência é muito ruim, marcada pela violência dos vizinhos e do
tráico de drogas que tomou o pátio comum.
Também neste eixo um segundo momento do círculo cultural, em que solicitamos que dividissem
as imagens entre presente, passado e futuro (igura 18). Grande parte das fotos foi colocada em
passado, por serem antigas, outra parte em presente, porém a escolha do futuro foi interessante
pois foi escolhida uma foto da antiga favela, seguida pela seguinte fala “na favela vivíamos em paz,
éramos uma família e nos ajudávamos, é isso que quero para o futuro, ser feliz como era antes”.
19
A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
Figura 18: Presente, Passado e Futuro no Círculo Cultural.
Fonte: Acervo Próprio (2022).
Nesse momento, ica claro o impacto comunitário da transformação daquela paisagem, antes fave
-
la, agora conjunto habitacional, realizada de forma autoritária pela prefeitura do município, pau-
tada num viés higienista. As casas, ou barracos, apesar de terem condições precárias, e serem en-
tendidas como degradantes, na verdade nutriam laços de solidariedade que foram se desfazendo
com as subsequentes interferências.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise das medidas do programa habitacional Morar Feliz junto aos moradores da fa-
vela Inferno Verde, a sua remoção, demolição de suas casas e realocação no Conjunto Habitacional
João Batista, nota-se uma reconiguração hostil e autoritária da paisagem urbana. Este processo
produziu novas visualidades, novos regimes de sociabilidade e de existência. Isso reforça a com-
preensão de que as intervenções na paisagem urbana não se limitam à sua materialidade ísica,
mas impactam num sistema vivo, atravessado por temporalidades múltiplas, relações sociais, me-
mórias, afetos e práticas sociais.
As políticas habitacionais, quando orientadas por uma lógica de reprodução de ideais de ordem
pautados no capital e meramente tecnocrática, tendem a operar sobre a paisagem urbana como
se esta fosse apenas um suporte ísico passível de correção, o que é comumente repassado como
limpeza ou modernização. Neste caso, a Inferno Verde foi vista pelo poder público como somente
um espaço insalubre, a contrapaisagem cuja reforma se justiicaria pela necessidade de requali
-
icação. No entanto, a pesquisa de campo realizada por meio do projeto de extensão e, de forma
culminante, pelo Círculo Cultural, revelou que, havia dimensões invisíveis para além da preca-
20
Lucas Ribeiro da Silva; Teresa de Jesus Peixoto Faria
riedade infraestrutural do território, era também um espaço repleto de signiicados, relações de
vizinhança, de solidariedade e um ambiente de grande pertencimento comunitário.
O contato com imagens da antiga favela, do bairro da Lapa e do conjunto habitacional, despertou
relatos fortes, capazes de demonstrar que a transformação da paisagem implicou numa mudança
morfológica, mas também, numa ruptura profunda na forma de habitar a paisagem e nas intera-
ções entre os moradores. O processo de espera já implicou numa ruptura que poucos venceram,
diversos moradores não retornaram para o conjunto habitacional, outros faleceram durante a es-
pera. A mudança imposta para a unidade residencial multifamiliar padronizada exigiu a adapta-
ção a novas normas, regras e formas de convivência, muitas vezes incompatíveis com as práticas
sociais já consolidadas. Nesse processo, laços comunitários foram enfraquecidos ou desfeitos, e
sentimentos de perda, nostalgia e deslocamento emergiram de forma recorrente.
Logo, o Círculo Cultural mostrou-se uma metodologia potente para acessar dimensões subjetivas
da paisagem. No momento em que os próprios moradores narram suas experiências a partir das
imagens, a prática revela como passado, presente e futuro se entrelaçam. A escolha de imagens da
antiga favela como representação do futuro evidencia que a noção de progresso tradicional não
coincide, necessariamente, com as expectativas e valores dos sujeitos diretamente afetados pela
intervenção.
Dadas as limitações de se classiicar um conjunto habitacional com famílias em vulnerabilidade
como paisagem representante do poder, neste contexto, o aspecto formal do mesmo o ressalta
como tal. Portanto, urge a necessidade de repensar as políticas públicas habitacionais a partir de
uma abordagem que não se limite à erradicação do que é considerado sujo, insalubre ou informal,
ou uma contrapaisagem. É preciso enxergar esses espaços como locais vivos e pungentes, e não
somente como pontos a serem corrigidos a partir de uma lógica burguesa capitalista.
É fundamental que seja incorporada a compreensão do intangível presente na paisagem urbana:
as memórias coletivas, os vínculos comunitários, e o sentimento de pertencimento construído
ao longo do tempo. A desconsideração dessas dimensões tende a comprometer a efetividade das
ações estatais, enquanto políticas que atendem, prioritariamente, os interesses dos moradores
envolvidos, e não grupos imobiliários. Podendo acarretar em novas formas de vulnerabilidade
social, conflitos cotidianos e sentimentos de não pertencimento, o que pode levar ao posterior
abandono da nova residência.
Por im, aponta-se que a simples provisão de moradias adequadas do ponto de vista infraestru
-
tural não é suiciente para declarar a efetividade de uma política pública habitacional. É preciso
também considerar os laços comunitários, muitas vezes rompidos por processos de remoção e
realocação. Ao reconhecermos a paisagem urbana como um sistema social e simbólico, é preciso
assumir que intervir sobre ela é também intervir sobre modos de vida. Assim, políticas públicas,
neste caso, habitacionais que pretendam ser verdadeiramente inclusivas e democráticas devem
ouvir o público-alvo, articular dimensões materiais e imateriais do habitar, promovendo não ape-
nas a melhoria das condições habitacionais, mas a manutenção de comunidades.
21
A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
AGRADECIMENTOS
Às agências de fomento que contribuíram para a realização da pesquisa: CAPES, FAPERJ e UENF.
À colega bolsista de extensão UENF Larissa Santos e às colegas bolsistas da Universidade Aberta
Márcia Lima, Camila Silva e Millena Manhães, que contribuíram imensamente durante a prepa-
ração e execução do Círculo Cultural, possibilitando-o. Ademais, agradecemos à Ednilson Gomes
de Souza Júnior, bolsista de Pós-doutorado PPGPS/SeCEU-LEEA/CCH/UENF pela contribuição na
ilmagem do Círculo Cultural.
FINANCIAMENTO
CAPES, FAPERJ e UENF.
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23
A PAISAGEM URBANA E O EXISTIR CITADINO
Abstract
Key-Words
Urban Landscape and the Urban
Existence: the cultural circle as
reading and building visualities
and subjectivities in Campos dos
Goytacazes, Rio de Janeiro
Abstract
Social housing policies in the Brazilian urban con-
text
have
been
guided
by
a
technocratic
and
hy-
gienist
logic
that
disregards
the
social,
symbolic,
and affective dimensions of urban landscapes. This
article analyzes the effects of a housing policy on
ways of inhabiting and existing in the city, based on
the removal of the Inferno Verde favela and the re-
location of its residents to the João Batista Housing
Complex, in Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro,
Brazil, a process that reconigured the urban land
-
scape. The research adopts a qualitative approach,
combining bibliographic review, participant obser-
vation, and shared anthropological experience, de-
veloped within the scope of a university extension
project. The Cultural Circle, inspired by Emiliano
Dantas and Paulo Freire’s Culture Circle, was used
to
access
residents’
narratives
and
perceptions
through
images
of
the
transforming
urban
land-
scape. The results indicate ruptures in community
bonds and dificulties in territorial appropriation,
revealing a mismatch between institutional policy
and local lived experiences.
Keywords:
cultural circle; urban landscape; social
housing policies; sociability; urban interventions
Resumen
Palavras Clave
El Paisaje Urbano y el Existir
Ciudadano: el círculo cultural como
lectura de visualidades y subjetividades
en Campos dos Goytacazes, Rio de
Janeiro
Resumen
Las políticas públicas de vivienda en el contexto urba-
no brasileño han sido orientadas por una lógica técni-
co-higienista, que desconsidera las dimensiones socia-
les, simbólicas y afectivas de los paisajes urbanos. Este
artículo analiza los efectos de una política habitacional
sobre los modos de habitar y de existir en la ciudad, a
partir de la remoción de la favela Inferno Verde y de
la reubicación de sus habitantes en el Conjunto Habi-
tacional João Batista, en el municipio de Campos dos
Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil, proceso que recon-
iguró el paisaje urbano. La investigación adopta un
enfoque cualitativo, articulando revisión bibliográica,
observación participante y experiencia antropológica
compartida, desarrolladas en el marco de un proyecto
de extensión universitaria. Se utilizó el Círculo Cultural,
inspirado en Emiliano Dantas y en el Círculo de Cultura
de Paulo Freire para acceder a las narrativas y percep-
ciones de los habitantes mediante imágenes del paisa-
je en transformación. Los resultados indican rupturas
de vínculos comunitarios y diicultades de apropiación
del territorio, lo que revela un desajuste entre la políti-
ca institucional y las experiencias locales.
Palabras
clave
:
círculo
cultural;
paisaje
urbano;
políticas
habitacionales;
sociabilidad;
interven
-
ciones urbanas.
Histórico
Recebido: Abril/26
Primeiro Parecer: Maio/26
Segundo Parecer: Maio/26
Aceito: Junho/26
Revisão Gramatical/Ortográica e ABNT: Julho/26
Revisado Autor: Agosto/26
Publicado: Setembro/26
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)
Laura Cintra (Editora Assistente Júnior)
Contato: revistatomo@gmail.com