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DOSSIÊ
DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO
DO DECK DA FEIRA DA PAZ:
re-existência e visibilização em um espaço
central de Governador Valadares, Minas Gerais
Cristiana Maria Oliveira Guimarães*
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Resumo
O texto tem como objetivo analisar o movimento de ocupação do deck da Feira da Paz, espaço central e valo-
rizado de Governador Valadares, Minas Gerais (MG), a partir da realização de batalhas de rimas aos domin-
gos. Argumenta-se que esse processo reinventa o sentido de lugar, conigurando-o como território simbóli
-
co da juventude negra e periférica, ao mesmo tempo em que promove sua visibilização. À luz do conceito de
reexistência, formulado por Hurtado e PortoGonçalves, e das contribuições de Léfèbvre, evidencia-se como
o coletivo ressigniica o espaço apesar de intervenções governamentais como a instalação do letreiro “Viva
Valadares”. As batalhas, entendidas como práticas espaciais, constituem-se em atos políticos e culturais que
disputam sentidos de lugar, visibilidade e pertencimento. Ao inal, o artigo demonstra como a apropriação
do deck da Feira da Paz expressa resistência, reexistência e a luta pelo direito à cidade.
Palavras-chaves
: apropriação do espaço; batalhas de rimas; direito à cidade; juventude negra; prática es-
pacial.
*
Instituto Federal de Minas Gerais, Governador Valadares, Minas Gerais, Brasil. E-mail: cristiana.guimaraes@ifmg.edu.br
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8548-729X
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24410, 2026
DOI:10.21669/tomo.v45.24410
Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,
sociabilidades e o existir citadino
E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549
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Cristiana Maria Oliveira Guimarães
INTRODUÇÃO
Governador Valadares comemorou este ano (2026) seus 88 anos, como uma cidade de 257.172 ha
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bitantes (Instituto Brasileiro de Geograia e Estatística, 2023), localizada na porção leste de Minas
Gerais, à margem esquerda do Rio Doce, a 324 km de Belo Horizonte. A presença do rio Doce é es-
truturante dos processos de produção do espaço da cidade. Em decorrência dessa presença, estão
outros atravessamentos, do mesmo modo estruturantes: a Ferrovia Vitória-Minas, propriedade da
empresa Vale, além de decisões internacionais sobre seu futuro desde os Acordos de Washington,
em 1942.
Apesar da ocupação pelos indígenas Botocudos remontar a épocas anteriores à chegada dos co-
lonizadores portugueses e ser um marcador fundamental no seu processo histórico
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, a narrativa
que se consolida, construída a partir dos registros da elite e de documentos oiciais, enfatiza os
feitos dos chamados pioneiros. Esses são homens descritos como heroicos, grandes negociantes e
visionários, comprometidos com a missão de trazer “civilidade” a essas terras agrestes.
Essa
narrativa
serve
ao
enredo
oicial
pautado
pelos
ideais
de
progresso
e
modernidade,
que
orientaram o desenvolvimento urbano, desde os anos 1930 do século passado. O dinamismo eco-
nômico alcançado entre 1950 e 1970, pelo entroncamento da ferrovia às rodovias posteriormente
construídas, BR-116 e BR-381, foi impulsionado por atividades econômicas de caráter extrativista,
sobretudo a exploração de madeira e mica, responsáveis por um crescimento urbano acelerado e
promissor. Como em tantas outras cidades, o ideal de progresso e modernidade materializado de
modo desigual no território corresponde à produção de um espaço marcado por restrições seve
-
ras ao exercício do direito à cidade para grande parte da população.
Entre esses impedimentos, está a inviabilização das realizações da população negra na cidade. Ali-
ás, em sua história, a própria existência dessa população é negada. O Diagnóstico de Governador
Valadares
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elaborado pela Fundação João Pinheiro (1980), no contexto do Programa Estadual de
Cidades Intermediárias – PROECI
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–, ao mostrar a preocupação com as desigualdades intraurba-
nas, destina todo um capítulo ao “Pobre Urbano”, sem, contudo, mencionar a questão racial.
A análise do espaço valadarense, nomes das ruas e praças, símbolos e outros signiicantes reair
-
ma e sustenta a narrativa oicial. Contudo, ao focar a lupa, aparece outra realidade, outra história,
outras tradições e lutas. Sob os nomes das grandes avenidas que exaltam chefes de governo e
datas comemorativas nacionais, estão marcas de resistências. Diferentes modos de vida, marcados
por mulheres que sustentavam suas famílias como miqueiras
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, pelos ritos e costumes afro-bra-
sileiros (Vilarino, 2015) e pela luta pela terra (Borges, 1988; Vilarino e Genovez, 2019), estão
ali produzindo “geo-graias”, que, infelizmente, não ganham os capítulos dos livros didáticos de
história e/ou geograia.
1
Conira ESPÍNDOLA, Haruf Salmen.
Sertão do Rio Doce
. Bauru: Edusc, 2005. 485 p.
2
O Diagnóstico de Governador Valadares é um estudo da Fundação João Pinheiro elaborado para subsidiar as ações e pro
-
gramas propostos para Governador Valadares no âmbito do PROECI. Conira: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO.
Programa Es-
tadual de Centros Intermediários: Diagnóstico de Governador Valadares.
Belo Horizonte:1980 (mimeografado).
3
O PROECI foi um programa formulado e conduzido pelo Estado de Minas Gerais, no âmbito do II Plano Nacional de Desen-
volvimento – PND.
4
As
miqueiras
eram mulheres responsáveis pelo processamento da mica – minério abundante em Governador Valadares nas
décadas de 1930 e 1940 e amplamente utilizado no desenvolvimento da indústria bélica durante a Segunda Guerra Mundial,
por atuar como isolante elétrico e térmico. Nessa época, sua exportação foi intensa, principalmente para os Estados Unidos.
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DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO DO DECK DA FEIRA DA PAZ
A proposta deste texto é analisar e registrar o movimento de ocupação e apropriação de um local
nobre, na área central de Governador Valadares, pela realização de
batalhas de rimas
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por ini-
ciativa do Coletivo do Deck aos domingos. Em nosso argumento, constitui-se uma
reinvenção do
sentido daquele lugar
, conhecido como deck da Feira da Paz. O desenvolvimento desse argumento
pretende revelar que o movimento é uma ação de
re-existência
, como colocado por Hurtado e
Porto-Gonçalves (2022).
Reexistência
não é apenas “resistir” a um poder dominante; é existir de
outro modo, reinventando saberes e fazeres, identidades, modos de produção e de sustento, a
partir de um lugar próprio
(topoi
) — geográico e epistêmico. Em outras palavras, tratase de dar
novos sentidos à existência e ao espaço enquanto se enfrenta a expropriação e a subalternização.
Adiantando os resultados, compreendemos que a escolha do deck da Feira da Paz como o local
para a realização das batalhas de rimas e, além disso, nomeálas constitui, em si, o início de um
processo de visibilização dessa prática cultural e de seus participantes. Para contar essa histó
-
ria, partimos de alguns conceitos e ideias-chave, reunidos e sintetizados a seguir. Santos (2022)
nos empresta a concepção do racismo como estruturante, em contraposição à ideia de racismo
estrutural. Enquanto esta última tende a interromper, em termos teóricos, as possibilidades de
agência dos indivíduos e/ou grupos, a primeira reativa essa perspectiva, sem diminuir o seu papel
como um
constructo
organizador das nossas sociedades. Nesse sentido, o racismo compreendido
como estruturante não se coloca como uma estrutura da sociedade, além da ação dos indivíduos;
ao contrário, está contido e é performado por eles em seu cotidiano, a partir de valores e hábitos
inculcados historicamente.
Sobre o conceito de espaço, assumimos a noção lefebvriana (s/d.) de que este é produzido no fazer-se
e refazer-se das relações sociais (relações de produção e de reprodução) e, ao mesmo tempo que é pro-
duzido, interfere, modica e participa da produção dessas mesmas relações. Tratase de um agir mútuo,
sempre histórico e contínuo, no qual estão implicadas as relações de poder. Assim, podemos assumir que
elas – relações de poder – são manifestas, diminuídas ou exacerbadas no e pelo espaço, por meio de sua
materialidade e de suas representações. Logo, os conitos em torno do espaço conguram processos de
disputas de poder, que se expressam tanto no plano material quanto – e fundamentalmente – no simbó-
lico, sendo essas dimensões complementares e indissociáveis.
A noção de apropriação, vinculada aos âmbitos do vivido e do percebido, tal como nos ensina
Léfèbvre
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, constitui uma ferramenta analítica útil para pensar a tomada de lugar
7
em suas dimen-
5
Uma batalha de rimas é um duelo oral improvisado entre duas ou mais pessoas – geralmente MCs – em que os participantes
criam versos rimados em ritmo de rap ou hip-hop, respondendo ao oponente em tempo real. Neste texto usaremos
bata-
lhas de rimas
ou apenas
batalhas
para expressar essa prática.
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A produção de Léfèbvre é bastante vasta e complexa, sendo, por isso, impossível de ser melhor decifrada neste texto. Como auxílio
à compreensão dos termos utilizados acima, segue uma síntese sobre a tríade analítica do espaço elaborada por Silva
et al.
(2019)
“
[Léfèbvre] propõe uma tríade conceitual que deve ser compreendida de forma interdependente entre si, ao mesmo tempo, que cada
uma delas pode produzir espaços próprios: a prática espacial, as representações de espaço e os espaços de representação. A prática
espacial é compreendida como sendo a ação das pessoas, o uso e a percepção do espaço. As representações do espaço são espaços
concebidos pela lógica ligada às relações dominantes de modos de produção e à ‘ordem’ que essas relações impõem e, portanto, ao
conhecimento formal e aos signos e códigos racionais, como é o caso do saber moderno relacionado aos projetos urbanísticos e a
cartograia formal. Já os espaços de representação, incorporam simbolismos complexos, codiicados ou não, ligados à clandestinidade
e à vida social furtiva”.
Essa construção teórico-metodológica possibilita articular escalas e, ao mesmo tempo, cuidar de especiici
-
dades analíticas. Em outras palavras, possibilita o foco nas relações cotidianas, do íntimo e do pessoal e o enlace dessa dimensão à
macro, hegemônica, ao que se impõe a todos, material e simbolicamente, como resultado das disputas sociais.
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A expressão é utilizada em referência à tomada da Bastilha pelos revolucionários franceses durante o processo de revolução nos
séculos XVIII e XIX e à força simbólica que representa. Nesse sentido, vale a referência, para complexiicar o debate, ao texto de
Léfèbvre sobre a Comuna de Paris. LÉFÈBVRE, Henri.
A Comuna de Paris: a festa da igualdade
. São Paulo: Boitempo, 2021.
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Cristiana Maria Oliveira Guimarães
sões material e simbólica pelos grupos subalternizados – caso em que se enquadra a experiência
aqui analisada. Para o autor, a apropriação diz respeito ao modo como os sujeitos se relacionam
com o espaço a partir do corpo e do cotidiano, constituindo-o como espaço vivido e dotado de
sentido, em contraposição a um espaço alienado e programado, produzido segundo lógicas de
dominação (Léfèbvre,
s.d.
; 2001).
A questão de fundo que sustenta essa elaboração é a relexão lefebvriana sobre o espaço absoluto
e o espaço diferencial, que, infelizmente, não poderemos aprofundar aqui. Vale dizer, de forma
bastante simpliicada, que, para o autor, não existe um espaço apriorístico, um vazio à espera de
sua completude: o espaço se constitui na própria realização dos processos de reprodução social,
isto é, na realização da vida. Enquanto alienados, esses processos conformam um cotidiano – e seu
espaço – programado e imposto pelo hegemônico. Contudo, esses não se realizam de forma total-
mente previsível. Embora regulados por uma padronização própria da modernidade capitalista,
também comportam issuras.
Essas rupturas, como escapes ao controlado, se produzem no interior das próprias práticas so
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ciais; em alguns casos, a partir das experiências sensoriais realizadas pelo corpo. Nesses momen-
tos, ocorre um deslocamento do curso esperado, que introduz diferenças no tempo e no ritmo que
organizam o cotidiano. São movimentos que, ao se realizarem, coniguram outras temporalidades
e outras espacialidades, ainda que de forma efêmera. Constituem, em última instância, o que es-
tamos nomeando como apropriação.
Os processos de apropriação, por sua vez, ao tensionarem o que é esperado e imposto, instauram
uma posição de alteridade em relação ao próprio comum e ao uso normatizado do espaço. Desse
modo, interferem também nas práticas dos outros sujeitos, ao desestabilizar a programação que
orienta suas ações.
Em outras palavras, as práticas corporais podem romper o cotidiano programado e alienado e,
assim, reconigurar o espaço, atribuindo novos sentidos e abrindo possibilidades de autonomia. O
corpo, nesse movimento, atua como resistência quando não segue as regras impostas, quando se
expressa por gestos e maneiras que contrariam as normas estabelecidas ou quando desvia o uso
esperado de um espaço.
Pensar o corpo como resistência adquire outra dimensão quando os protagonistas são os corpos
cujas características se tornam critérios de subalternização, como ocorre com os corpos negros,
agentes da experiência aqui apresentada. Com isso, alcançamos as questões que fundamentam este
texto. O que pode um corpo negro em Governador Valadares? O que é a ele permitido? Qual lugar lhe
é reservado? Como resposta, sustentamos que à população negra não é historicamente permitido
habitar e vivenciar plenamente as áreas centrais e valorizadas da cidade. A periferização – enquanto
negação do centro – opera tanto na materialidade do espaço quanto na sua dimensão simbólica. No
enredo da história oicial, outras histórias são sistematicamente apagadas, não sendo reconhecidas
nem incorporadas como parte constitutiva da cidade; do mesmo modo, a centralidade planejada não
comporta suas formas de vida, reiterando sua exclusão dos espaços e das narrativas hegemônicos.
De acordo com o exposto, a história que conforma o objeto deste texto não é aquela que estampa
as manchetes dos jornais – exceto em ocorrências policiais – nem aquela que preenche os anuários
municipais. Os registros são poucos e dispersos, encontrados aqui e ali, recortados e, muitas vezes,
atravessados pelo interesse de quem os produz. Assim, as redes sociais e a imprensa local foram
essenciais para localizar as disputas no tempo e na dinâmica urbana.
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DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO DO DECK DA FEIRA DA PAZ
A partir dessas notícias, buscamos suas reverberações nos portais da Prefeitura Municipal de Go-
vernador Valadares (PMGV) e da Câmara de Vereadores, que disponibilizam documentos, notas
técnicas e legislações. Alguns materiais do Coletivo do Deck, gentilmente cedidos por suas lide-
ranças – a quem agradecemos –, ajudaram a preencher lacunas sobre o desenvolvimento des-
sa história. Destacamos entre esses: seu portfólio, oícios encaminhados à PMGV e os projetos
submetidos a diversos editais de apoio à cultura que nos apresentaram seus objetivos, origens e
reformulações.
Por im, antes de prosseguirmos, é pertinente esclarecer o escopo deste texto e suas limitações.
O protagonista da análise não é o movimento hip-hop ou as discussões acerca da estética negra
enquanto forma de resistência e/ou
re-existência
, tema amplamente abordado em estudos espe-
cíicos. O objetivo aqui, como já antecipado, é a
análise da apropriação do deck da Feira da Paz
durante a realização das batalhas de rimas, reconhecidas como Batalhas do Deck.
A DISPUTA PELO DECK DA FEIRA DA PAZ
O local conhecido como o deck da Feira da Paz é literalmente um deck de madeira, sobre a área
da antiga Feira da Paz, que funciona como mirante para o pico da Ibituruna e o rio Doce. Além da
vista singular para o cartão-postal da cidade, acontece ali o pouso dos pilotos de parapente, espor-
te comum na cidade, reconhecida mundialmente pelas condições extremamente favoráveis à sua
prática. O local é o ponto focal da grande perspectiva constituída pela avenida Minas Gerais, que
corta a planta da área central citadina concebida em tabuleiro de xadrez, aos moldes da capital,
Belo Horizonte. Avizinha-se da Praça dos Pioneiros, que sedia, além dos poderes legislativo e exe-
cutivo municipais, os principais eventos, manifestações e encontros da cidade (igura 1).
Figura 1: Localização do deck da Feira da Paz
Fonte: autoria própria a partir do
Google Earth
(2026).
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Cristiana Maria Oliveira Guimarães
Nesse local, acontecem, aos domingos, as batalhas de rimas identiicadas como Batalhas do Deck,
em referência àquele e promovidas pelo coletivo de mesmo nome.
Desde seus primeiros passos, o grupo compreendeu o hip-hop não apenas como expressão
artística, mas como instrumento de enfrentamento à violência estrutural, ao racismo e à
exclusão social vivenciados pela juventude negra e periférica do município (...).
Após um período de pausa organizativa, em 2015 o movimento retoma suas atividades
com força, passando a ocupar espaços centrais da cidade, como a Praça dos Pioneiros. Com
a construção do deck da Feira da Paz, o grupo estabelece ali sua principal referência terri-
torial, dando início à trajetória da Batalha do Deck, que passa a ser registrada sistematica
-
mente nas redes sociais a partir de 2016, ampliando sua visibilidade e alcance (Coletivo do
Deck, 2025).
Em 2022, como se nada houvesse, a PMGV instalou no mesmo local o letreiro
Viva Valadares
,
como parte do projeto de incentivo ao turismo de mesmo nome (igura 2). Acompanhava o le
-
treiro a repaginação do deck, promovida pela retirada dos bancos e da cobertura, pela troca dos
materiais de revestimento e pelo corte de árvores que ali sombreavam (igura 3).
Figura 2: Letreiro Viva Valadares com o rio Doce e o Pico do Ibituruna ao fundo.
Fonte:
autoria própria, 2026
O propósito da administração municipal era produzir um local instagramável
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, reforçando sua di-
mensão de cartão-postal citadino. A reforma cumpre essa intenção ao retirar o mobiliário urbano
– bancos e cobertura –, esvaziando as possibilidades de permanência no local, coletiva ou indivi-
dualmente. O único uso propiciado passa a ser fotografar-se na paisagem transformada em fundo
cenográico. Tal intervenção, contudo, não ocorreu sem tensionamentos. Agentes de produção do
espaço vinculados às batalhas de rimas manifestaram insatisfação diante das mudanças, uma vez
que estas afetaram diretamente as dinâmicas de uso e de apropriação do deck. A reorganização do
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O termo instagramável designa espaços, objetos ou situações cuja coniguração estética é concebida – ou mobilizada – de
modo a favorecer sua reprodução imagética e circulação em plataformas digitais, especialmente no
Instagram
. Nesse sen-
tido, sua utilização remete à lógica de produção de cenários visualmente atrativos e consumíveis, frequentemente associa
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dos a dinâmicas de espetacularização, mercantilização do espaço e de construção de visibilidades mediadas por critérios
estéticos e algorítmicos.
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DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO DO DECK DA FEIRA DA PAZ
espaço implicou limitações às práticas culturais ali consolidadas, evidenciando disputas em torno
de seus sentidos e usos. Trata-se de uma operação, como tantas outras, alinhada à lógica da cida
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demercadoria, na qual o patrimônio se conigura como ativo estratégico na construção de uma
imagem de cidade turística e, como tal, carregada de excepcionalidade. Essa distinção pretende in-
seri-la na rota das cidades que merecem ser visitadas, fotografadas e, sobretudo, comercializadas.
Revitalizamos o deck da Feira da Paz com o letreiro “Viva Valadares”, que também dá nome
ao Programa de Turismo lançado em um seminário que teve a participação do secretário de
Estado da pasta. O programa inclui o mapeamento de roteiros históricos, gastronômicos e
de entretenimento, além de esportes radicais e da natureza (Marques
et al.
, 2022).
O conlito envolveu as ruas e as mídias locais, agravado por um acidente que destruiu tanto o deck,
como o letreiro (G1 Vales de Minas Gerais, 2022). Rapidamente, ainda em meio às polêmicas, o
conserto foi providenciado. Nesse ínterim, uma providência da PMGV se transformou em anedota
coletiva: ao substituir o letreiro, a administração instalou um banner com a imagem da paisagem
ao fundo. Paradoxalmente, o banner encobria o rio Doce e o pico da Ibituruna, precisamente os
elementos que pretendia representar.
Figura 3: O deck da Feira da Paz antes da reforma
Fonte:
Card
de divulgação de uma Batalha do Deck em 2017. BATALHA DO DECK. Instagram, 2017
.
Disponível em: https://www.instagram.com/coletivodeck_gv/. Acesso em: 29 jan. 2026
Deixando a graça de lado, a análise do episódio precisa recuperar o fato de que a disputa em torno
do deck era – ainda é – sobre sua ocupação, embora, como insistido, ultrapasse a questão da mate-
rialidade ísica. Dessa forma, a intenção da PMGV deve ser vista como uma alternativa para impe
-
dir que o vazio deixado pela retirada do letreiro ique disponível para outra apropriação e/ou uso.
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Cristiana Maria Oliveira Guimarães
Apesar do vai-e-vem do letreiro no deck, os participantes e simpatizantes do movimento das
ba-
talhas de rimas
não deixaram o local – as batalhas dos domingos continuaram a acontecer ali.
Logo se apoderaram do letreiro como acessório à sua festa (igura 4) e passaram a utilizá-lo como
suporte ísico de si mesmos e de seus pertences, tal como um mobiliário urbano. Nesses dias, com
o letreiro
Viva Valadares
ao fundo, o que se vê em primeiro plano é a festa da moçada do hip-hop
local e suas insígnias.
Figura 4: Batalhas do Deck em janeiro e julho de 2023
Fonte: Autoria própria a partir de postagens disponíveis em
COLETIVO DO DECK. Instagram, 2023
. Disponível em:
https://www.instagram.com/coletivodeck_gv/
. Acesso em: 10 jan. 2026.
Posteriormente, já na gestão seguinte, uma reforma reposicionou o letreiro fora do deck, atrás
desse, sustentado por uma estrutura metálica apoiada diretamente no terreno adjacente. Apa-
rentemente, a solução resolvia os dois interesses da PMGV. O letreiro icava inacessível aos insis
-
tentes (ou resistentes) usos e apropriações indesejadas institucionalmente (Prefeitura Munici-
pal de Governador Valadares, 2023), enquanto eram mantidos a realização do cartão-postal e o
cenário instagramável. Entretanto, em momentos e horários especíicos, aos domingos à noite,
tudo muda. As batalhas roubam a cena, de modo ainda mais robusto, após o fomento inancei
-
ro dos editais promovidos pela Fundação Renova
9
e a chancela dessa (Reparação Bacia do Rio
Doce, 2025).
9
Em 5 de novembro de 2015, como é sabido por todos, aconteceu o rompimento da Barragem de Fundão em uma mina de
ferro da SAMARCO/VALE/BHP em Mariana (MG). Cerca de 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos inundaram a Bacia do
Rio Doce, alcançando Governador Valadares poucos dias depois. O acordo de reparação, por meio do Termo de Transação
e Ajustamento de Conduta (TTAC), determinou a instituição da Fundação Renova, mantida pelas empresas Samarco, Vale
e BHP, como responsável pela mobilização para a compensação pelos danos causados pelo desastre-crime. A partir daí, a
fundação se consolida como um agente importante na dinâmica urbana de Governador Valadares, tanto em seu distrito-se-
de, nosso recorte, como em outros distritos e na área rural, além do entorno imediato, do qual a cidade é o polo.
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DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO DO DECK DA FEIRA DA PAZ
MUITO MAIS QUE O DECK: DISPUTAS DE LUGAR, RE-EXISTÊNCIA E
VISIBILIDADE
Dois anos após a realização do show AMARELO
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: é tudo para ontem, Emicida (2021), mais uma
vez, destacou o signiicado da escolha do
Theatro
Municipal de São Paulo como palco desse,
Há dois anos estávamos ocupando um lugar que por muito tempo disseram que não era
nosso. Uma das grandes alegrias nessa vida musical foi poder lotar o Theatro Municipal
com os nossos, algumas coisas não tem preço e marcam nossa trajetória. Obrigado a todos
que colaboraram para chegarmos até aqui! (Emicida, 2021).
Como uma das principais referências do hip-hop brasileiro, o artista mobiliza, em sua trajetória,
experiências periféricas e repertórios culturais que tensionam as barreiras simbólicas e materiais
impostas a determinados corpos. Ao rememorar a ocupação do Theatro Municipal de São Paulo,
explicita o caráter político desse gesto em duas frentes: por um lado, evidencia que o acesso a
espaços historicamente elitizados não é dado, mas conquistado por meio de lutas coletivas; por
outro, airma que a população negra e periférica pode e deve estar em todos os lugares, inclusive
naqueles tradicionalmente interditados.
Analogamente, pode-se dizer o mesmo sobre a opção do Coletivo do Deck em realizar a sua festa,
as
batalhas de rimas
nas áreas centrais e nobres da cidade. Ocupar o cartão-postal de Governador
Valadares, transformando-se nesse mesmo, é conceder outra signiicação a essa prática cultural
da juventude negra e periférica.
A realização das
batalhas de rimas
em um ponto signiicativo da área central da cidade conigura,
a nosso ver, uma construção de um sentido de lugar, tal como proposto por Massey (2000). Na
perspectiva argumentativa dessa autora, os lugares podem – e devem – ser conceituados em ter-
mos das interações sociais que agrupam. Como essas interações são processos, os lugares também
o são. Ela retira a estaticidade que normalmente marca a ideia de lugar, e ao fazer isso, nega seu
sentido único, atrelado a fronteiras e a uma comunidade, quase sempre estereotipada em um mo-
delo homogêneo. Ao desnaturalizar essa ideia, instaura a perspectiva da construção dos
sentidos
de lugar
, efetivada historicamente por agentes diversos e constantemente em disputa.
A ocupação do deck para a realização das
batalhas de rimas
ultrapassa a questão da materialidade
do espaço e alcança a construção de um sentido para aquele lugar: o da festa da juventude negra,
periférica, que gosta e faz hip-hop e se orgulha dessa prática cultural. Essa é a expressão de uma
maneira de ser no mundo, de modos de vida, com seus problemas e prazeres. Instaladas no deck
aos
domingos, as rimas lançadas em batalha irradiam, para além do seu conteúdo, a mensagem da exis-
tência, poderosa daqueles jovens na cidade. Tal como colocado por Santos (2022), esse movimento
não se resume a mobilizar sentidos e cargas simbólicas dos lugares como ferramenta para suas
lutas; ele avança ao construir e impor novos sentidos aos lugares, atribuindo-lhes outras cargas e
conteúdos, em uma clara disputa pelas consciências das pessoas que os atravessam ou os habitam.
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O show AmarElo, realizado por Emicida no Theatro Municipal de São Paulo em 27 de novembro de 2019, marcou um
momento emblemático na trajetória do artista e do hip-hop brasileiro. Ao levar um espetáculo de rap para um espaço
historicamente associado às elites culturais, o artista tensiona as fronteiras simbólicas de acesso e de reconhecimento, ins
-
crevendo a presença negra em um lugar de prestígio. A apresentação, posteriormente transformada em documentário e em
registro audiovisual, tornou-se um marco de legitimação artística e política, evidenciando o reconhecimento institucional
de uma trajetória construída a partir das periferias.
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Cristiana Maria Oliveira Guimarães
Contudo, outros eram os planos governamentais para o local nobre, cartão-postal da cidade. A
festa da juventude negra não representava a cidade idealizada pelos projetos hegemônicos. A
PMGV celebrava a mensagem referendada pelo letreiro, a partir do enaltecimento dos símbolos
“naturais”, Rio Doce e Pico da Ibituruna, como singularidades garantidoras de uma marca única e
– sempre – em construção: Capital Mundial do Voo Livre. Além disso, o letreiro era a propaganda
da própria gestão municipal (2021-2024) e de suas realizações, entre elas o projeto de incentivo
ao turismo, cujo nome é escrito no letreiro, a partir da “ressigniicação” da cidade como destino
turístico.
Governador Valadares não é exceção ao conjunto brasileiro, no qual a invisibilização da história
negra e de seus feitos tem sido uma constante. As características do seu espaço, como produto e
condição dessa mesma sociedade, revelam essa
práxis
na toponímia das praças e ruas, nas ima-
gens dos pioneiros, em sua maioria homens vistos e reconhecidos como brancos, “imortalizadas”
na fachada do principal teatro valadarense (Governador Valadares, 2024) e na relação dos bens
tombados municipalmente (Prefeitura Municipal de Governador Valadares, 2017). Dizendo de
outro modo, a visibilidade das referências afro-brasileiras é autorizada em locais, pontos e situa-
ções sempre muito especíicos e, em sua maioria, não centrais. À distribuição espacial racialmente
segregada corresponde um lugar secundarizado no conjunto das representações sobre a cidade,
sua história e seus habitantes. Esse apagamento simbólico conigura a negação de uma existência
negra vitoriosa, orgulhosa de si e de suas tradições.
A instalação do letreiro ignorando a prática cultural das Batalhas do Deck, que ali acontecia, é co-
mum ao
modus operandi
do racismo universalista brasileiro e a tantas formas violentas de apaga-
mento, inclusive como negação de si mesmo (Telles, 2003). O apagamento da participação negra
nos processos de produção da cidade, da história e do espaço anda de mãos dadas com os repe
-
tidos projetos de melhorias, de reformas e de revitalizações das suas áreas centrais. Sem fugir à
regra, a ação da PMGV efetivou a subalternização de uma prática cultural por meio da distinção
pejorativa, realizada a priori, dos corpos que a produzem.
As batalhas de rimas remetem ao corpo negro e às práticas culturais negras e, por isso, não pode-
riam constituir um emblema da cidade, embora, ao longo dos anos, tenham se airmado como re
-
ferência para uma parcela signiicativa de sua população. A festa da juventude negra não poderia,
assim, inscrever-se como signo da cidade incorporado ao seu cartão-postal.
Surpreendentemente, o desenrolar do processo se deu ao contrário: o letreiro foi incorporado aos
movimentos e à coreograia das batalhas, como parte dessas. Os corpos da juventude negra em sua
dança
tomam para si o letreiro
, transformando-o em parte da territorialidade constituída na prá-
tica das
batalhas de rimas
. O letreiro Viva Valadares, apropriado pelo hip-hop, ao menos aos do-
mingos, anuncia que a cidade viva pertence a eles, seus corpos pulsantes, modos de vida e história.
CONSIDERAÇÕES (NADA) FINAIS
As disputas pela ocupação do deck da Feira da Paz não se restringem à sua materialidade; dizem
respeito, sobretudo, a modos de vida, às expressões culturais e a quem estas pertencem. Ao im
e ao cabo, voltamos à velha questão lefebvriana sobre quem pode usufruir plenamente da cida-
de, o que inclui as possibilidades de participação em sua feitura enquanto obra coletiva. Embora
a PMGV tenha promovido um processo de expulsão da festa/movimento da juventude negra da
área central valadarense, o movimento hip-hop, representado pelas Batalhas do Deck, resistiu. O
11
DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO DO DECK DA FEIRA DA PAZ
letreiro que deveria expulsá-lo foi apropriado em suas coreograias, reairmando a presença da
juventude periférica na produção do espaço, de seus signiicados e representações. Ao tomar para
si o Viva Valadares, a juventude negra exerce, ainda que apenas aos domingos e não plenamente,
como supõe a utopia, seu direito à cidade, à festa e à sua produção como obra.
Finalmente, vale destacar que compreendemos que o estudo contribui para o debate ao explicitar
como sujeitos subalternizados não apenas resistem, mas também produzem o espaço como expe-
riência vivida, airmando modos próprios de existência e de signiicação a partir de seus referen
-
ciais. Nesse sentido, o caso dialoga com as formulações de Léfèbvre ao problematizar a produção
hegemônica do espaço. Complementarmente, reairma o conceito de reexistência como chave ana
-
lítica para compreender práticas que, simultaneamente, enfrentam e reinventam modos de lidar
com a dominação.
Assim, mais do que um episódio localizado, a experiência analisada ilumina dinâmicas mais am
-
plas de disputa simbólica e material nas cidades brasileiras, revelando a potência transformadora
da juventude negra e periférica na reconiguração dos sentidos, usos e representações da cidade.
Evidencia-se, a partir deste estudo de caso, a centralidade da apropriação e do espaço vivido como
dimensões constitutivas da produção do espaço, nas quais o corpo e o cotidiano operam como
mediadores de transformações que buscam a ampliação do direito à cidade.
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13
DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO DO DECK DA FEIRA DA PAZ
Abstract
Key-Words
Disputes Over The Occupation Of
The Deck da Feira da Paz: re-existence
and visibility in a central area of
Governador Valadares, Minas Gerais
Abstract
The text aims to analyze the process of occupying
the deck at Feira da Paz, a central and valued spa-
ce in Governador Valadares, Minas Gerais, Brazil,
through
rap
battles
carried
out
on
Sundays.
It
is
argued
that
this
process
reinvents
the
meaning
of place, coniguring it as a symbolic territory for
Black and peripheral youth, while also promoting
their visibility. In light of the concept of reexisten-
ce,
formulated
by
Hurtado
and
Porto-Gonçalves,
and drawing on Léfèbvre’s contributions, the paper
shows how the collective resigniies space despite
governmental
interventions
such
as
the
installa-
tion of the “Viva Valadares” sign. The battles, un
-
derstood
as
spatial
practices,
constitute
political
and cultural acts that dispute meanings of place, vi-
sibility, and belonging. Finally, the article demons-
trates how the appropriation of the deck da Feira
da
Paz
expresses
resistance,
reexistence,
and
the
struggle for the right to the city.
Keywords:
appropriation of space; rap battles; ri-
ght to the city; black youth; spatial practice.
Resumen
Palavras Clave
Disputas Por La Ocupación Del
Deck da Feira da Paz: re-existencia y
visibilización en un espacio central de
Governador Valadares, Minas Gerais
Resumen
El texto tiene como objetivo analizar el movimiento
de ocupación del deck da Feira da Paz, un espacio
central y valorizado de Governador Valadares, Mi-
nas Gerais, Brasil, a partir de batallas de rimas que
ocurren los domingos. Se argumenta que este pro-
ceso reinventa el sentido de lugar, conigurándolo
como un territorio simbólico de la juventud negra
y periférica, al mismo tiempo que promueve su vi-
sibilización. A la luz del concepto de reexistencia,
formulado por Hurtado y Porto-Gonçalves, y de las
contribuciones de Léfèbvre, se pone de maniiesto
cómo el colectivo resigniica el espacio a pesar de
intervenciones gubernamentales como la instalaci-
ón del letrero “Viva Valadares”. Las batallas, enten
-
didas como prácticas espaciales, se constituyen en
actos políticos y culturales que disputan sentidos
de lugar, visibilidad y pertenencia. Finalmente, el
artículo demuestra cómo la apropiación del deck
da Feira da Paz expresa resistencia, reexistencia y
la lucha por el derecho a la ciudad.
Palabras clave:
apropiación del espacio; batallas
de
rimas;
derecho
a
la
ciudad;
juventud
negra;
práctica espacial.
Histórico
Recebido: Janeiro/26
Primeiro Parecer: Maio/26
Segundo Parecer: Maio/26
Aceito: Junho/26
Revisão Gramatical/Ortográica e ABNT: Agosto/26
Revisado Autor: Agosto/26
Publicado: Setembro/26
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)
Tatiana Silva Sales (Editora Assistente Júnior)
Contato: revistatomo@gmail.com