Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24566, 2026  
DOI:10.21669/tomo.v45.24566  
Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  
sociabilidades e o existir citadino  
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  
DOSSIÊ  
MODOS DE VIDA E VISUALIDADES URBANAS:  
experiência estética, subjetividades e  
disputas simbólicas na cidade contemporânea  
Bartira Brito*1  
Rogerio Proença Leite**2  
Resumo  
A visualidade não aparece na cidade como ornamento, nem como simples paisagem de imagens. Ela atra-  
vessa modos de vida como regime sensível de presença e disputa: aquilo que se vê, aquilo que se reconhece,  
aquilo que se impõe ou se apaga no espaço público. Nas cidades contemporâneas, práticas cotidianas, so-  
ciabilidades e processos de subjetivação são atravessados por camadas estéticas que reorganizam a experi-  
ência urbana. Intervenções artísticas, paisagens culturais, dispositivos institucionais e gestos ordinários so-  
brepõem-se como inscrições simbólicas em negociação constante, produzindo conflitos de sentido e formas  
de habitar. Ao tomar a experiência estética como operador sociológico, este texto inscreve a visualidade no  
centro das relações entre poder, percepção e vida urbana, compreendendo o existir citadino como condição  
compartilhada, política e sensorial.  
Palavras-chaves: Visualidades Urbanas; Modos de Vida; Experiência Estética; Subjetividades; Disputas Sim-  
bólicas.  
*
Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, São Cristóvão, Sergipe, Brasil. E-mail: bar-  
tirab@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8088-4544 CrediT: Conceitualização; Metodologia; Investigação;  
Análise Formal; Escrita do Rascunho Original; Escrita, Revisão e Edição; Visualização; Administração do Projeto  
** Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, São Cristóvão, Sergipe, Brasil. E-mail:  
rproleite@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8433-8639 CrediT: Conceitualização; Supervisão; Validação;  
Escrita, Revisão e Edição.  
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  
Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
INTRODUÇÃO  
A cidade contemporânea constitui-se como campo perceptivo no qual a visualidade organiza mo-  
dos de habitar e de disputar presença. Longe de operar como ornamento ou simples paisagem de  
imagens, ela atravessa modos de vida citadinos como um regime sensível de aparecimento e apa-  
gamento no espaço público — aquilo que se torna legível, aquilo que se estabiliza como paisagem  
legítima e aquilo que permanece intermitente, opaco ou marginal.  
Ao tomar a experiência estética como operador sociológico, este artigo desloca o olhar para as  
visualidades urbanas como dimensão constitutiva da vida coletiva. Intervenções artísticas, dispo-  
sitivos institucionais, paisagens culturais e gestos ordinários sobrepõem-se no território compar-  
tilhado, produzindo uma gramática do visível atravessada por hierarquias, negociações e conflitos  
de sentido. É a partir desse horizonte que se propõe compreender os modos de vida urbanos como  
condição simultaneamente política e sensorial do urbano — uma experiência partilhada na qual  
ver, aparecer e habitar se tornam operações inseparáveis. Tendo Simmel (1979) como referência,  
entendemos aqui os Modos de Vida como formas socialmente produzidas pelas quais os indiví-  
duos organizam sua experiência cotidiana, suas interações e sua subjetividade em determinados  
contextos históricos, especialmente na modernidade urbana.  
A cidade contemporânea é compreendida aqui menos como delimitação geográfica específica e  
mais como categoria analítica voltada à apreensão de dinâmicas urbanas marcadas pela estetiza-  
ção do espaço, pela intensificação das visualidades e pelas disputas de reconhecimento. Nesse ho-  
rizonte, o artigo mobiliza observações de campo e registros imagéticos realizados em Barcelona,  
Veneza e Porto, não como objetos comparativos fechados, mas como situações analíticas capazes  
de iluminar regimes de visualidade, sociabilidades do olhar e formas de coexistência sensível no  
urbano contemporâneo.  
As cidades analisadas foram estudadas em diferentes momentos de pesquisa sobre cidades histó-  
ricas. A investigação combinou observação direta e registros imagéticos orientados pela perspec-  
tiva das práticas cotidianas proposta por Michel de Certeau (1980).  
O artigo estrutura-se em quatro movimentos principais. Inicialmente, discute-se a cidade contem-  
porânea como campo visual e experiência sensível, enfatizando a relação entre visualidade, pre-  
sença e existência urbana. Em seguida, analisam-se os regimes de visualidade e os ordenamentos  
simbólicos do espaço público, articulando estética, poder e reconhecimento. O terceiro momento  
aproxima a produção do espaço das práticas cotidianas e das sociabilidades urbanas, mobilizando  
referências empíricas para pensar disputas de legibilidade e experiências perceptivas. Por fim,  
propõe-se a noção de coexistência estética urbana como chave interpretativa para compreender  
a simultaneidade tensionada de camadas sensíveis, temporalidades e presenças no urbano con-  
temporâneo.  
Ao longo da reflexão, mobiliza-se a noção de coexistência estética urbana, articulada à ideia de  
autoria estética global.  
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Modos de vida e visualidades urbanas  
A CIDADE COMO CAMPO VISUAL: PRESENÇA, PERCEPÇÃO E O EXISTIR  
URBANO  
A cidade contemporânea se apresenta como experiência sensível e espaço de presenças que atra-  
vessam o cotidiano. Viver na cidade é viver entre signos e inscrições simbólicas que organizam a  
vida comum. O urbano não se reduz à materialidade do espaço: constitui-se como condição esté-  
tica e relacional.  
Habitar o espaço citadino implica participar de uma gramática perceptiva na qual certas formas  
culturais se tornam visíveis, reconhecíveis ou marginalizadas. O que emerge no espaço público —  
e o que permanece opaco — não decorre de neutralidade, mas de disputas silenciosas inscritas no  
sensível. A cidade é feita de regimes de atenção e de legibilidade: modos socialmente produzidos  
de ver, de ser visto e de inscrever presença no território compartilhado. A experiência urbana é,  
nesse sentido, inseparável de uma política da visibilidade.  
O existir citadino é atravessado por essa condição. A experiência urbana é feita de encontros sen-  
síveis: trajetórias, ritmos, ruídos, atmosferas e presenças que se sobrepõem no mesmo território.  
A cidade opera como mediação fundamental entre sujeito e espaço, estruturando pertencimentos,  
estranhamentos, reconhecimentos e exclusões. Aquilo que se vê — e aquilo que se torna visível —  
participa diretamente da produção da vida urbana:  
Base para uma ontologia dos espaços urbanos, a imagem em si, como paisagem urbana, não re-  
presenta apenas uma narrativa através da qual se deseja falar da cidade, mas expressa diferen-  
tes possibilidades analíticas, pelo grau de polissemia que é capaz de reter (Leite, 2008, p. 95).  
Essa dimensão imagética e perceptível da vida urbana é atravessada por processos históricos,  
dispositivos institucionais e disputas culturais que definem quais imagens se estabilizam como  
paisagem consagrada e quais presenças permanecem marginais, intermitentes ou silenciadas. As  
visualidades urbanas integram uma economia simbólica da cidade: distribuem atenção, orientam  
percepções e modulam a experiência coletiva do espaço público. Ver, nesse sentido, é participar de  
um regime socialmente produzido de reconhecimento.  
As visualidades urbanas orientam práticas no interior da vida cotidiana. Elas modulam ritmos  
de circulação, instauram atmosferas de segurança ou de ameaça e delimitam zonas de prestígio e  
marginalidade, participando da própria constituição dos corpos urbanos. A experiência citadina é  
atravessada por sinais visuais que informam pertenças e fronteiras, fazendo do espaço público um  
campo de leitura constante. A cidade aparece como território interpretado no cotidiano, no qual o  
sensível opera como princípio de ordenamento social. José Machado Pais (2010), em seus estudos  
sobre o cotidiano, já ressaltava a importância da imagem para os estudos da cidade. O autor lem-  
brava que Simmel alertava sobre a proeminência do “olhar sobre o ouvir” na configuração moder-  
na das cidades. Não por acaso, “a cultura urbana contemporânea é uma realidade sobrecarregada  
de recursos e apelos visuais” (Leite, 2008, p. 171).  
Compreender o existir citadino como categoria analítica implica reconhecer que a presença na  
cidade é sempre também presença simbólica. Estar no urbano é aparecer, ser percebido, ser auto-  
rizado ou interditado em determinados regimes de legibilidade. A vida urbana se constitui, por-  
tanto, como experiência compartilhada, atravessada por códigos estéticos, disputas de visibilida-  
de e formas diferenciadas de inscrição no espaço público. Hannah Arendt (1987) entendia que a  
experiência pública era, primeiramente, o que “pode ser visto e ouvido por todos” (p.61).  
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Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
A privação da privatividade [privation of privacy] reside na ausência de outros; para estes, o  
homem privado não se dá a conhecer, e portanto é como se não existisse. O que quer que ele  
faça permanece sem importância ou conseqüência para os outros, e o que tem importância  
para ele é desprovido de interesse para os outros (Arendt, 1987: 68).  
A ideia central de Arendt é que a privatividade não é apenas “estar sozinho, mas estar fora do  
alcance do olhar e da relação com os outros. Nessa condição, a pessoa que não aparecer no espa-  
ço comum perde relevância social, como se suas ações não produzissem ressonâncias no mundo  
compartilhado. A ausência de convivência pública esvazia a relevância do sujeito no mundo co-  
mum, na medida em que o reconhecimento e a visibilidade são condições de sentido social.  
É nesse horizonte que as visualidades urbanas podem ser compreendidas como regimes de  
presença e de poder, articulando experiências estéticas, subjetividades e disputas simbólicas  
na cidade contemporânea. O olhar urbano, longe de ser neutro, é um campo de hierarquias e  
negociações contínuas — e é nele que se inscrevem, de modo sensível e político, as formas de  
existir na cidade.  
REGIMES DE VISUALIDADE E ORDENAMENTOS SIMBÓLICOS DO ESPAÇO  
PÚBLICO  
As visualidades urbanas operam como regimes de ordenamento atravessados por disputas de  
presença, hierarquias perceptivas e formas diferenciadas de reconhecimento no espaço público.  
Ver e fazer ver implicam sempre uma política do sensível, na qual determinadas paisagens se  
estabilizam como legítimas enquanto outras permanecem opacas, marginais ou interditadas. A  
cidade contemporânea constitui um campo de visibilidade regulada, no qual a experiência urbana  
se produz sob condições estéticas e simbólicas permanentemente negociadas.  
Nas últimas décadas, a cultura tornou-se um recurso estratégico para a reorganização das pai-  
sagens urbanas. A estetização do espaço público, longe de significar apenas vitalidade cultural,  
participa de processos de valorização territorial, de distinção e de reordenamento social. Sharon  
Zukin (2010) observa que a autenticidade, nesse cenário, deixa de ser um valor espontâneo da ex-  
periência local para integrar as forças que disputam o controle do urbano. Trata-se de uma econo-  
mia cultural mais difusa, na qual mídias, narrativas e gostos de consumo produzem novas formas  
de autoridade sobre o espaço. A autenticidade cultural converte-se, assim, em ativo escasso, mobi-  
lizado na fabricação de centralidades desejáveis: circuitos artísticos, cafés, galerias e intervenções  
visuais compõem uma gramática de prestígio que transforma o cotidiano em vitrine e redefine  
fronteiras de pertencimento. A cidade passa a ser consumida como lugar — e esse consumo opera  
como modalidade sensível de participação social, inseparável de dinâmicas de exclusão e desloca-  
mento (Zukin, 2010).  
Nesse mesmo horizonte, podemos compreender o espaço público como arena de usos e contra-  
-usos, na qual a estetização urbana não opera apenas como paisagem, mas como forma de orde-  
namento político, moral e simbólico (Leite, 2008). A cidade-vitrine, atravessada por dispositivos  
culturais e narrativas de prestígio, produz também regimes de exclusão sensível: disciplinamentos  
do olhar, hierarquias de presença e disputas pelo direito de aparecer. O espaço público, assim,  
não se configura como cenário neutro de convivência, mas como campo de conflito interpretativo,  
onde visibilidades são autorizadas e outras permanecem interditadas:  
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Modos de vida e visualidades urbanas  
O conjunto de sentidos construídos por relações sociais diferentes e desiguais e suas assi-  
métricas modalidades de interação pode, assim, constituir-se em lugares políticos na me-  
dida em que a sua espacializada e conflitante formação precipita e expressa as relações  
de poder, tensões e disputas que caracterizam a vida social, qualificando e diferenciando  
certos espaços da vida urbana cotidiana como espaços públicos (Leite, 2007, p. 25).  
A visualidade urbana, portanto, não se reduz a uma estética espontânea do espaço: opera como  
forma de legibilidade social. O espaço público é vivenciado por seus habitantes por meio de sinais  
culturais, marcas institucionais e repertórios sensíveis que orientam condutas e expectativas. A  
paisagem urbana adquire, assim, uma dimensão normativa: certas presenças se estabilizam como  
legítimas e desejáveis, enquanto outras permanecem dissonantes, ambíguas ou deslocadas. Regi-  
mes de visualidade organizam, desse modo, não apenas a cidade como imagem, mas como experi-  
ência cotidiana do convívio, atravessada por hierarquias e fronteiras simbólicas.  
Essa dimensão revela que a paisagem é campo de poder, como destaca Sharon Zukin, em Landsca-  
pes of Power (1991). Aquilo que se apresenta como diversidade estética pode encobrir mecanismos  
sutis de hierarquização simbólica, nos quais certos repertórios culturais são legitimados enquanto  
outros permanecem periféricos. Nesse horizonte, Bourdieu permite compreender que a ordem do  
visível se impõe muitas vezes de maneira imperceptível, operando como “poder invisível” exerci-  
do “com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos” (Bourdieu, 1989,  
p. 7). Os sistemas simbólicos que organizam a percepção urbana — arte, linguagem, classificações  
estéticas — não são expressões neutras, mas estruturas capazes de produzir a própria experiência  
social: “só podem exercer um poder estruturante porque são estruturados” (Bourdieu, 1989, p. 9).  
O espaço público torna-se, assim, campo de distinção e classificação, no qual regimes de visualida-  
de definem o que pode ser reconhecido como arte, como paisagem valorizada ou como presença  
cultural legítima.  
O urbano, portanto, é arena de disputa interpretativa. A cidade concentra presenças heterogêneas  
que não necessariamente compartilham os mesmos códigos estéticos, ou os mesmos regimes de  
reconhecimento. O que se impõe como paisagem valorizada é resultado de processos de consa-  
gração simbólica que envolvem instituições culturais, mercados urbanos e formas de distinção  
social. A luta pelo valor cultural é também luta pela legitimidade de certos modos de habitar e de  
aparecer. A visualidade urbana opera, desse modo, como campo sensível de conflitos silenciosos,  
em que o visível é sempre politicamente produzido.  
A cidade é atravessada por uma economia simbólica na qual a estética e o poder se imbricam. A  
mercantilização das paisagens urbanas produz um urbanismo sensível, no qual imagens, narrati-  
vas e atmosferas tornam-se instrumentos centrais de reposicionamento territorial. A reinvenção  
das cidades para um mercado mundial, analisada por Fernanda Sánchez (2010), evidencia como  
a cultura e a espetacularização se convertem em estratégias privilegiadas de valorização urbana.  
A cidade vende-se como imagem e experiência, e essa construção estética do território redefine  
fronteiras de pertencimento, reorganizando quem pode ocupar determinados espaços e sob quais  
formas de visibilidade.  
Nesse contexto, a cultura deixa de ser apenas expressão simbólica e passa a operar como tecno-  
logia de gestão. A ideia de cultura como recurso, tal como elaborada por George Yúdice, permite  
compreender como programas culturais, intervenções artísticas e circuitos criativos são mobiliza-  
dos como instrumentos estratégicos de gestão cultural e reordenamento simbólico do urbano. A  
visualidade torna-se linguagem estratégica do poder: organiza narrativas de modernidade, diver-  
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Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
sidade e vitalidade, ao mesmo tempo em que regula presenças, expectativas e modos de reconhe-  
cimento no espaço público. Intervenções estéticas, assim, não são apenas manifestações culturais,  
mas dispositivos que articulam economia, política e consagração simbólica, reinscrevendo a cida-  
de como território administrado também pelo sensível (Yúdice, 2006).  
A estetização das cidades contemporâneas insere-se em um horizonte, no qual o sensível estru-  
tura a organização social. Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2015) descrevem esse cenário como  
“capitalismo artista, no qual imagens e atmosferas atravessam o consumo e a governança urbana.  
Como observa Mike Featherstone (1995), o consumo cultural converte-se em expressão de estilo  
de vida, fazendo da visualidade um modo de aparecer e disputar reconhecimento. Nesse contexto,  
a cultura também opera como técnica de ordenamento das presenças e da visibilidade pública  
(Miller; Yúdice, 2002).  
Não se trata apenas de uma cidade “mais bonita” ou “mais cultural, mas de um espaço público  
reorganizado por lógicas de sedução, consumo e visibilidade. O sensível deixa de ser suplemento  
e passa a estruturar ritmos de circulação, expectativas e formas de reconhecimento no cotidiano  
urbano. Essa intensificação estética implica também novas formas de subjetivação. O urbano é  
vivido como superfície de signos, onde identidades e pertencimentos se constroem através de  
práticas culturais e circuitos de visibilidade.  
Mas essa estilização do urbano se inscreve também em dispositivos concretos de ordenamento,  
nos quais a cultura opera como técnica de gestão das presenças e das legitimidades no espaço  
público. Entretanto, esses processos não se reduzem à lógica mercantil ou ao consumo simbólico.  
Envolvem também formas institucionais de regulação estética e governança cultural. Nos termos  
de Miller e Yúdice (2002), programas culturais e dispositivos urbanos operam como mecanismos  
de governo das condutas, estruturando circuitos de reconhecimento e legitimidade. A cultura tor-  
na-se instrumento de regulação estética: distribui recursos simbólicos, define repertórios valori-  
zados e organiza formas de visibilidade pública.  
Pensar regimes de visualidade implica, assim, reconhecer que a cidade contemporânea é atra-  
vessada por uma dupla operação: de um lado, a estetização como promessa de vitalidade e ex-  
periência; de outro, a visualidade como mecanismo de ordenamento e de hierarquização simbó-  
lica. As paisagens culturais urbanas oferecem formas sensíveis de pertencimento, mas também  
delimitam fronteiras sociais e distribuem desigualdades perceptivas. A visualidade torna-se,  
portanto, chave sociológica para compreender o espaço público como arena de reconhecimento  
e conflito.  
Até aqui, os autores mobilizados permitem descrever os mecanismos pelos quais o visível se orga-  
niza como disputa: a cultura como recurso, a estetização como estratégia e os regimes de reconhe-  
cimento como formas de ordenamento simbólico do espaço público. A contribuição deste texto,  
porém, não é apenas reiterar essa diagnose, e sim propor uma chave de leitura capaz de apreender  
a simultaneidade dessas camadas no urbano contemporâneo. É nesse ponto que se inscreve a  
noção de coexistência estética urbana (Brito, 2026), como operador interpretativo do modo como  
temporalidades, dispositivos e repertórios distintos passam a habitar o mesmo território sob fric-  
ção perceptiva. No plano da agência, essa chave articula-se à ideia de autoria estética global (Bri-  
to, 2026), compreendida como gesto singular de leitura e reinscrição do urbano por repertórios  
transurbanos — não como atributo institucional, mas como forma de presença produzida por  
intervenções autorais situadas.  
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Modos de vida e visualidades urbanas  
A partir desse ponto, torna-se possível avançar para uma reflexão mais diretamente centrada na  
experiência vivida e na produção do espaço. Se aqui se evidenciam os ordenamentos simbólicos  
que regulam o sensível, o cotidiano emerge como lugar onde tais regimes se tornam prática, corpo  
e textura urbana — abrindo o horizonte para uma leitura lefebvriana da cidade como obra social e  
experiência compartilhada. Entre estetizações, consagrações e disputas de visibilidade, o urbano  
revela-se como campo vivido: não apenas imagem regulada, mas prática cotidiana, obra social e  
experiência sensível em permanente reescrita.  
COTIDIANO, SENSIBILIDADE E PRODUÇÃO DO ESPAÇO: LEITURA  
LEFEBVRIANA  
Pensar a cidade a partir da experiência urbana exige deslocar o olhar para aquilo que tantas abor-  
dagens deixam na penumbra: o cotidiano como lugar onde o espaço se faz. A cidade não se reduz  
a seus dispositivos formais, nem às representações técnicas que buscam torná-la legível. Ela se  
realiza, antes, como prática vivida — textura histórica composta por ritmos, usos, apropriações e  
presenças que atravessam a vida comum e reinscrevem o urbano no cotidiano.  
É nessa chave que a contribuição de Henri Lefebvre se torna decisiva. Ao afirmar que o espaço é  
uma produção social, Lefebvre (1991) rompe com a ideia do urbano como recipiente neutro ou  
cenário funcional. O espaço não é dado: ele é produzido pelas forças sociais que o atravessam, pelas  
relações que o organizam e pelas experiências que o inscrevem. Compreender a cidade implica,  
portanto, reconhecer como práticas ordinárias e formas de habitar participam ativamente da  
constituição do urbano como obra histórica.  
O cotidiano, para Lefebvre (1991; 2008), não é plano residual da vida social, mas lugar privile-  
giado onde estruturas e experiências se articulam. É nele que a cidade se realiza como repetição  
instável: deslocamentos, encontros, atmosferas, rotinas e interrupções que, ao mesmo tempo, re-  
produzem e reconfiguram o espaço. Habitar a cidade é participar de seus ritmos e temporalidades  
sobrepostas, de intensidades sensíveis que fazem do urbano uma experiência sempre inacabada.  
Ao distinguir entre espaço concebido, percebido e vivido, Lefebvre (1991) oferece uma chave fun-  
damental para compreender essa produção. O espaço concebido corresponde às racionalidades  
técnicas, aos planejamentos e dispositivos abstratos que organizam a cidade como projeto. O es-  
paço percebido refere-se às práticas que estruturam o uso cotidiano. Já o espaço vivido emerge  
como dimensão simbólica e sensível, onde se inscrevem afetos, memórias, disputas e formas de  
reconhecimento. É nesse plano que o urbano se manifesta como campo de significação e conflito,  
irredutível à abstração administrativa.  
Essa distinção evidencia que o espaço urbano é atravessado por uma tensão permanente entre ra-  
cionalidade abstrata e experiência concreta. Lefebvre (1991) critica justamente a abstração espa-  
cial que transforma a cidade em mercadoria, superfície funcional e produto administrável. Contra  
essa redução, o vivido insiste como dimensão irredutível: aquilo que escapa ao controle total do  
planejamento, afirmando-se como presença, apropriação e disputa cotidiana.  
O urbano aparece como totalidade em movimento, continuamente reinscrita por práticas que des-  
locam seus sentidos. Portanto, a cidade é um processo em curso, no qual usos, trajetórias e pre-  
senças se cruzam sob condições desiguais de inscrição e reconhecimento no espaço público. Essa  
reescrita envolve hierarquias, interdições e disputas pelo direito de atribuir sentido ao território  
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Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
compartilhado. É nesse horizonte que o direito à cidade, formulado por Lefebvre (2008), ultrapas-  
sa a ideia de acesso material e afirma a participação na produção da cidade como obra coletiva.  
Mesmo sob a racionalidade abstrata do planejamento e da mercantilização, o cotidiano introduz  
fissuras: desvios, apropriações e reinvenções silenciosas que deslocam a experiência urbana e  
fazem do vivido um campo permanente de negociação.  
Essa leitura permite compreender que a experiência urbana se produz também no tempo. A cida-  
de é atravessada por camadas que se alteram à medida que intervenções transitórias — eventos,  
inscrições passageiras, ocupações culturais — reorientam a percepção do conjunto urbano, deslo-  
cando inclusive o sentido de suas estruturas permanentes. Do mesmo modo, ações institucionais  
como tombamentos, reformas, consagrações e relançamentos reinscrevem a paisagem, modifican-  
do aquilo que pode ser visto, legitimado ou disputado no espaço público.  
Lefebvre, nesse horizonte, permite pensar a cidade como obra em permanente reescrita cotidiana  
e temporal: uma produção social atravessada por apropriações, conflitos e disputas de presença.  
É no interior dessas práticas vividas — nos encontros perceptivos, nas sociabilidades do olhar,  
nas subjetividades em negociação — que o urbano se constitui como experiência compartilhada e  
como campo sensível de coexistência.  
SOCIABILIDADES DO OLHAR: EMPIRIAS DE SUBJETIVIDADES URBANAS EM  
NEGOCIAÇÃO  
Discutidos os pressupostos desta análise — os modos de vida como condição política e sensorial,  
a cidade como campo visual, as visualidades como regimes de ordenamento simbólico e o urbano  
como processo em curso — avançamos para a referência empírica de casos que iluminam os regi-  
mes sensíveis de percepção da cidade.  
A dimensão intrinsecamente conflitiva do espaço público constitui uma primeira experiência da  
percepção visual das relações sociais na cidade. Se o espaço urbano é produzido socialmente e  
vivido como experiência, ele é também, de maneira incontornável, um campo relacional. A cidade  
não se constitui apenas por formas ou dispositivos, mas pela convivência — muitas vezes tensa  
— entre sujeitos, trajetórias e presenças que se cruzam no cotidiano. Habitar o urbano implica  
compartilhar condições de visibilidade, disputar sentidos e negociar formas de reconhecimento  
no espaço público. A experiência citadina é, assim, sempre experiência de coexistência: estar na  
cidade é estar entre outros, sob códigos perceptivos que nunca são homogêneos.  
As experiências de usos de espaços gentrificados constituem casos empiricamente fortes para se  
compreender essa dimensão conflitiva e constitutiva do espaço público. É comum se observar gru-  
pos sociais que buscam esses espaços de visibilidade como forma de tornar igualmente visíveis suas  
identidades, ainda que tensionem as sociabilidades locais. Em Las Ramblas de Barcelona é comum ver  
essas tensões identitárias que imprimem códigos próprios para o uso compartilhado dos espaços.  
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Modos de vida e visualidades urbanas  
Figura 01 – Usos e sociabilidades no espaço público de Las Ramblas, Barcelona.  
Fonte: Leite, 2018.  
Figura 02 – As sociabilidades em Las Ramblas são marcadas por forte contraste e disputa.  
Fonte: Leite, 2018.  
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Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
No local convergem diferentes grupos identitários que buscam marcar territorialidades e tornar  
visíveis suas inserções na vida socialmente compartilhada. Como se trata de um espaço com forte  
inflexão turística, nem sempre a presença desses grupos identitários é bem vista pelos sistemas de  
segurança local. A presença, portanto, resulta de uma tensa relação com os poderes locais, o que  
implica muitas vezes deslocamentos e formas de ocupação nômade no espaço enobrecido. Embo-  
ra vigiados e por vezes induzidos a não permanecerem nos espaços mais centrais de uso turístico,  
esses grupos, formados principalmente por moradores das periferias locais e migrantes, travam  
uma batalha silenciosamente tática (no sentido certeauniado) de encontrar e negociar brechas  
para permanecerem nestes espaços de visibilidade.  
As negociações que ocorrem nestes espaços enobrecidos não se dão apenas no plano das grandes  
disputas culturais, mas na escala microscópica da convivência. Pequenas interações produzem  
mapas afetivos do espaço público, definindo proximidades e distâncias, familiaridades e estra-  
nhamentos. A cidade é feita desses ajustes contínuos: coexistir é sempre habitar uma tensão entre  
presenças que se reconhecem apenas parcialmente e disputam, mesmo silenciosamente, a legiti-  
midade de aparecer.  
Nesse plano, a visualidade não opera apenas como paisagem, mas como gramática das sociabilida-  
des. Aquilo que se vê, aquilo que se ignora e aquilo que se impõe como presença legítima constitui  
uma economia cotidiana do olhar. O espaço público torna-se terreno de negociações mínimas:  
gestos ordinários, encontros fugazes e trajetórias repetidas inscrevem modos de habitar que são  
também modos de aparecer, de reivindicar lugar, de disputar legibilidade.  
A reflexão de Georg Simmel oferece uma chave decisiva para compreender essa dimensão inter-  
subjetiva. Ao pensar a metrópole como forma social específica, Simmel (1903/1979) mostra que  
a vida urbana é marcada pela intensificação dos estímulos e pela multiplicidade de encontros  
efêmeros. A atitude blasé, tantas vezes lida como indiferença, pode ser compreendida como me-  
canismo de defesa diante da saturação perceptiva da modernidade. A cidade produz sujeitos atra-  
vessados por excesso de presenças, imagens e ritmos, reorganizando os modos de atenção e as  
formas de convivência.  
Espaços de grande atração turística são marcados por essas experiências dissonantes em que pre-  
dominam sociabilidades efêmeras, nas quais a interação muitas vezes se limita à observação e  
apropriação visual dos espaços e pessoas. O forte apelo visual das paisagens urbanas venezianas  
ilustra bem essa dimensão blasé de estar nos espaços com forte apelo para o consumo visual e  
distanciamentos sociais. (Leite, 2019).  
Da mesma forma, esse sentimento de solidão em meio à multidão nos remete à emblemática fi-  
gura do flâneur, cujo sujeito percorre a cidade sem pressa, atento às cenas fugidias, e encontra no  
passeio uma forma de observar o mundo sem se dissolver nele. Em meio à multidão, ele experi-  
menta uma solidão paradoxal: não é o isolamento do afastado, mas a de quem se mantém discreto,  
anônimo, quase invisível, deixando-se tocar pelo movimento urbano sem perder a própria inte-  
rioridade. Em Baudelaire, essa experiência ganha força como sensibilidade moderna, ligada ao  
prazer de vaguear e ao olhar que capta a vida passageira das ruas, como no retrato do artista e do  
observador.  
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Modos de vida e visualidades urbanas  
Figura 03 – Sociabilidades efêmeras e observação da multidão em Veneza.  
Fonte: Leite, 2019.  
Se Simmel revela a saturação perceptiva da metrópole como forma de subjetivação moderna, é no  
nível das práticas ordinárias que essa experiência se traduz em usos, desvios e reinvenções silen-  
ciosas do espaço urbano. A sociabilidade urbana, nesse sentido, é paradoxal: proximidade física  
e distância simbólica, coexistência espacial e fragmentação perceptiva. O outro aparece simul-  
taneamente como presença constante e como estranhamento. A experiência do olhar é também  
experiência de diferenciação: reconhecer e não reconhecer, aproximar-se e desviar-se, partilhar o  
espaço e disputar sua legibilidade.  
É no cotidiano que essas sociabilidades se concretizam como prática. Michel de Certeau (1980)  
desloca o olhar para os usos ordinários da cidade, insistindo que o espaço urbano não é apenas  
planejado de cima, mas atravessado por apropriações discretas, quase imperceptíveis, que o  
reescrevem por dentro. Caminhar, circular, desviar: práticas aparentemente banais inscrevem  
outras leituras do território, para além das narrativas e ordenamentos oficiais. O cotidiano, assim,  
não é repetição passiva, mas invenção silenciosa de modos de estar.  
O andar pela cidade atua como forma de construir territorialidades através de itinerários, traje-  
tórias e apropriações. Nos sítios gentrificados do Porto e de Vila Nova de Gaia, paisagem patrimo-  
nial, turismo e consumo cultural reorganizam formas de circulação, apropriação visual do espaço  
e modos de pertencimento (Leite, 2008). A intensa circulação de visitantes, os percursos orienta-  
dos pela contemplação visual da paisagem ribeirinha e a transformação do espaço cotidiano em  
experiência estetizada evidenciam sociabilidades marcadas por deslocamentos constantes entre  
observação, consumo simbólico e convivência efêmera.  
11  
Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
Figura 04 – Paisagem urbana e experiência visual da cidade histórica do Porto.  
Fonte: Leite, 2008.  
Essas práticas são também práticas perceptivas. Ver a cidade é atravessá-la com repertórios, me-  
mórias e expectativas que organizam o comum. As sociabilidades do olhar se produzem menos  
em grandes eventos do que na escala mínima da vida urbana: nos encontros fugazes, nas disputas  
discretas por atenção e presença, nas formas cotidianas de autorização e na interdição simbólica.  
A cidade contemporânea, portanto, não é apenas cenário de diversidade cultural, mas campo de  
negociação permanente entre repertórios heterogêneos. Néstor García Canclini (2001; 2008) per-  
mite compreender que as culturas urbanas se constituem em processos de hibridação atravessa-  
dos por fluxos globais, consumos e disputas de sentido. Tradições, modernidades e circuitos trans-  
nacionais se sobrepõem, produzindo convivências instáveis e formas múltiplas de pertencimento.  
Nesse quadro, subjetividades urbanas se formam sob condições desiguais de reconhecimento. O  
existir citadino envolve ser visto, ser percebido, ser autorizado a aparecer. As sociabilidades do  
olhar são também sociabilidades políticas: definem centralidades sensíveis, distribuem atenção e  
produzem margens perceptivas no cotidiano compartilhado.  
A coexistência estética urbana, assim, não é harmonia, mas simultaneidade tensionada. Diferen-  
tes estilos de vida, sensibilidades e temporalidades ocupam o mesmo território sem se fundirem  
plenamente. O cotidiano é atravessado por fricções interpretativas e disputas discretas de signifi-  
cado, fazendo do espaço público um campo permanente de negociação.  
É nesse entrecruzamento — entre produção espacial e convivência simbólica, entre ordenamentos  
perceptivos e práticas cotidianas — que a cidade contemporânea se manifesta como sobreposição  
instável de regimes sensíveis e presenças em disputa. O existir urbano se constitui, então, como  
experiência partilhada e conflitiva, na qual a visualidade não apenas reflete o social, mas participa  
ativamente de sua produção.  
12  
Modos de vida e visualidades urbanas  
COEXISTÊNCIA ESTÉTICA URBANA: CAMADAS SIMULTÂNEAS E TENSÕES DO  
SENSÍVEL  
A reflexão desenvolvida até aqui permite reconhecer que a cidade contemporânea não pode ser  
compreendida apenas como espaço funcional, nem como paisagem cultural estabilizada. O urbano  
se apresenta como campo sensível atravessado por regimes de visualidade, disputas simbólicas e  
práticas cotidianas que se sobrepõem no território compartilhado. Nesse horizonte, torna-se pos-  
sível mobilizar a noção de coexistência estética urbana (Brito, 2026) como chave interpretativa  
para pensar a simultaneidade de presenças e sensibilidades na experiência citadina.  
A coexistência estética urbana designa a convivência tensa de temporalidades, estilos e regimes  
sensíveis distintos no mesmo espaço urbano. Inscrições culturais, intervenções visuais, dispositi-  
vos institucionais e práticas ordinárias ocupam simultaneamente o território, produzindo sobre-  
posições e conflitos interpretativos.  
Se a coexistência estética urbana nomeia a condição estrutural dessa simultaneidade tensionada  
— isto é, a sobreposição desigual de camadas sensíveis no mesmo espaço — a autoria estética  
global (Brito, 2026) designa o plano da agência singular que opera no interior desse regime. Tra-  
ta-se do gesto individual do artista que lê a cidade como campo transurbano e, ao reinscrever  
repertórios estéticos em circulação, produz presença situada e disputa reconhecimento no es-  
paço público. Essa categoria se refere a uma assinatura de intervenção, isto é, à capacidade de  
um agente produzir deslocamentos de sentido dentro da coexistência já instalada, reorientando  
momentaneamente o que pode ser visto, legitimado e interpretado. Em termos analíticos, essa  
noção permite distinguir camadas institucionais de visibilidade (mais estáveis e legitimadas) de  
inscrições autorais situadas, nas quais a cidade é lida e reescrita por repertórios transurbanos.  
A coexistência estética urbana emerge também como deslocamento em relação às leituras centra-  
das exclusivamente na denúncia. Se podemos considerar o espaço público como arena de usos e  
contra-usos e seus conflitos simbólicos, trata-se aqui de perceber como, no interior dessas dispu-  
tas, as camadas sensíveis não apenas se opõem, mas se reinscrevem em simultaneidade instável  
— produzindo convivências paradoxais entre mercado e experiência, espetáculo e presença, con-  
sagração e desvio (Leite, 2008).  
Essa chave desloca a leitura do urbano para além de dicotomias fixas — centro e periferia, arte e  
cotidiano, institucional e ordinário. O que se revela, antes, é uma cidade feita de camadas sensíveis  
heterogêneas, onde o consagrado e o anônimo se sobrepõem: monumentos e grafismos, arqui-  
teturas estabilizadas e intervenções passageiras, paisagens patrimoniais e marcas do consumo.  
O espaço urbano não se organiza por sucessão linear, mas por coexistências simultâneas, muitas  
vezes atravessadas por fricção, disputa e instabilidade.  
Mas essa coexistência não é apenas espacial. Ela se transforma no tempo. Presenças efêmeras — even-  
tos, exposições, ocupações culturais — reorientam momentaneamente o regime de atenção da cida-  
de, deslocando o sentido do que parecia permanente. Ao mesmo tempo, reescrituras institucionais  
— tombamentos, reformas, reconhecimentos patrimoniais, relançamentos culturais — reinscrevem  
novas legitimidades na paisagem. O urbano, assim, nunca fixa definitivamente o que cada presença  
significa: ele reordena suas camadas e redistribui, no tempo, valores e formas de visibilidade.  
Essa perspectiva dialoga com as discussões anteriores sobre regimes de visualidade e sociabilida-  
des do olhar. Se as visualidades urbanas operam como ordenamentos simbólicos, e se o cotidiano  
13  
Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
constitui um plano de produção sensível do espaço, então a coexistência estética urbana nomeia  
a simultaneidade dessas camadas em negociação: institucionalizações culturais, mercantilizações  
do território, apropriações ordinárias, intervenções artísticas e presenças múltiplas que disputam  
legibilidade. Ela pode ser apreendida na sobreposição entre arquiteturas planejadas e usos impro-  
visados, repertórios consagrados e expressões efêmeras do cotidiano.  
Habitar a cidade é habitar essa paisagem de presenças concorrentes, essa textura sensível onde  
memórias, disputas, repertórios culturais e práticas ordinárias se cruzam. A coexistência estética  
urbana não diz respeito apenas à presença de obras ou imagens, mas à maneira como a cidade se  
faz e se refaz como campo simbólico comum, no qual diferentes camadas de sentido insistem em  
coexistir.  
É nesse plano — onde o visível é sempre também político e o sensível é sempre também social  
— que a experiência citadina se constitui como coexistência tensionada: uma simultaneidade  
instável de regimes estéticos, temporalidades culturais e presenças em disputa no espaço  
público. As experiências urbanas mobilizadas ao longo do artigo evidenciam que as visualidades  
contemporâneas não se organizam apenas como paisagem, mas como prática cotidiana de  
negociação perceptiva. Em Barcelona, os usos compartilhados de espaços turísticos tensionam  
códigos de pertencimento e visibilidade; em Veneza, a saturação imagética e o consumo visual  
reorganizam formas de convivência efêmera; já nos sítios gentrificados do Porto e de Vila  
Nova de Gaia, paisagem patrimonial, circulação turística e apropriações ordinárias revelam  
modos distintos de inscrição simbólica no espaço público. Essas situações urbanas permitem  
compreender que a experiência citadina se produz na articulação entre presença, percepção e  
disputa de reconhecimento.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS: VISUALIDADES URBANAS COMO POLÍTICA DO  
SENSÍVEL  
As visualidades urbanas não constituem um domínio secundário da cidade contemporânea, mas  
uma dimensão constitutiva do existir citadino. O espaço público emerge como arena estética dis-  
putada, onde formas desiguais de reconhecimento estruturam a experiência urbana.  
Assumir o sensível como chave sociológica implica compreender a visualidade como operador ur-  
bano de poder e de subjetivação. Regimes de visibilidade distribuem atenção, organizam centra-  
lidades e produzem hierarquias simbólicas que atravessam o cotidiano. O espaço público aparece  
como território de disputa perceptiva: paisagens culturais, intervenções institucionais e práticas  
ordinárias coexistem sob condições assimétricas de legitimação. A visualidade urbana opera como  
política do espaço, pois define não apenas o que se vê, mas quem pode aparecer, ser reconhecido  
e inscrever presença no território compartilhado.  
As experiências observadas evidenciam o cotidiano como dimensão onde o espaço se refaz por  
usos e disputas de reconhecimento. As sociabilidades do olhar revelam que a convivência urbana  
se constitui entre encontros, estranhamentos e negociações contínuas de sentido no espaço pú-  
blico.  
A coexistência estética urbana permite compreender temporalidades, estilos e presenças cultu-  
rais em disputa no espaço público. Trata-se da convivência tensionada entre formas distintas de  
aparecer, habitar e produzir sentido na cidade.  
14  
Modos de vida e visualidades urbanas  
Pensar as visualidades urbanas como dimensão constitutiva da vida social é reconhecer o urbano  
como território de disputas estéticas e políticas do sensível. Tomar a visualidade como operador  
sociológico permite compreender o espaço público como campo sensível de produção social, no  
qual desigualdades urbanas se manifestam não apenas na ocupação territorial ou no acesso a  
recursos, mas também nas condições de visibilidade e reconhecimento que regulam a inscrição  
simbólica no território comum.  
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15  
Bartira Brito; Rogerio Proença Leite  
Lifestyles and urban visualities: aesthetic  
experience, subjectivities, and symbolic  
struggles in the contemporary city  
Modos de vida y visualidades urbanas:  
experiencia estética, subjetividades  
y disputas simbólicas en la ciudad  
contemporánea  
Abstract  
Visuality does not appear in the city as ornament,  
nor as a mere landscape of images. It permeates ur-  
ban existence as a sensitive regime of presence and  
dispute: what becomes visible, what is recognized,  
what is imposed, and what is erased within public  
space. In contemporary cities, everyday practices,  
sociabilities, and processes of subjectivation are  
crossed by aesthetic layers that reorganize urban  
experience. Artistic interventions, cultural lands-  
capes, institutional devices, and ordinary gestures  
overlap as symbolic inscriptions in ongoing dispu-  
te, producing conflicts of meaning and diverse ways  
of inhabiting. By approaching aesthetic experience  
as a sociological operator, this text places visuality  
at the core of the relationship among power, per-  
ception, and urban life, understanding urban exis-  
tence as a shared, political, and sensory condition.  
Keywords: Urban Visualities; Ways of Life; Aesthe-  
tic Experience; Subjectivities; Symbolic Disputes.  
Resumen  
La visualidad no se presenta en la ciudad como un  
ornamento ni como un simple paisaje de imáge-  
nes. Atraviesa los modos de vida como un régimen  
sensible de presencia y disputa: aquello que se ve,  
aquello que se reconoce, aquello que se impone  
o se borra en el espacio público. En las ciudades  
contemporáneas, las prácticas cotidianas, las so-  
ciabilidades y los procesos de subjetivación están  
atravesados por capas estéticas que reorganizan la  
experiencia urbana. Intervenciones artísticas, pai-  
sajes culturales, dispositivos institucionales y ges-  
tos ordinarios se superponen como inscripciones  
simbólicas en negociación constante, produciendo  
conflictos de sentido y formas diversas de habitar.  
Al asumir la experiencia estética como operador  
sociológico, este texto sitúa la visualidad en el cen-  
tro de las relaciones entre poder, percepción y vida  
urbana, comprendiendo el existir citadino como  
una condición compartida, política y sensorial.  
Palabras clave: Visualidades Urbanas; Modos de  
Vida; Experiencia Estética; Subjetividades; Dispu-  
tas Simbólicas.  
Histórico  
Recebido: Fevereiro/26  
Primeiro Parecer: Abril/26  
Segundo Parecer: Maio/26  
Aceito: Maio/26  
Revisão Gramatical/Ortográfica e ABNT: Junho/26  
Revisado Autor: Junho/26  
Publicado: Julho/26  
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo  
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)  
Tatiana Silva Sales (Editor Assistente Júnior)  
Contato: revistatomo@gmail.com  
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