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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24566, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24566  </line>
    <line>Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  </line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>MODOS DE VIDA E VISUALIDADES URBANAS:  </line>
    <line>experiência estética, subjetividades e  </line>
    <line>disputas simbólicas na cidade contemporânea </line>
    <line>Bartira Brito* 1 </line>
    <line>Rogerio Proença Leite**2 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>A visualidade não aparece na cidade como ornamento, nem como simples paisagem de imagens. Ela atra- </line>
    <line>vessa modos de vida como regime sensível de presença e disputa: aquilo que se vê, aquilo que se reconhece,  </line>
    <line>aquilo que se impõe ou se apaga no espaço público. Nas cidades contemporâneas, práticas cotidianas, so - </line>
    <line>ciabilidades e processos de subjetivação são atravessados por camadas estéticas que reorganizam a experi- </line>
    <line>ência urbana. Intervenções artísticas, paisagens culturais, dispositivos institucionais e gestos ordinários so - </line>
    <line>brepõem-se como inscrições simbólicas em negociação constante, produzindo conflitos de sentido e formas  </line>
    <line>de habitar. Ao tomar a experiência estética como operador sociológico, este texto inscreve a visualidade no  </line>
    <line>centro das relações entre poder, percepção e vida urbana, compreendendo o existir citadino como condição  </line>
    <line>compartilhada, política e sensorial.  </line>
    <line>Palavras-chaves: Visualidades Urbanas; Modos de Vida; Experiência Estética; Subjetividades; Disputas Sim- </line>
    <line>bólicas. </line>
    <line>*  Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, São Cristóvão, Sergipe, Brasil. E-mail: bar- </line>
    <line>tirab@gmail.com  Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8088-4544 CrediT: Conceitualização; Metodologia; Investigação;  </line>
    <line>Análise Formal; Escrita do Rascunho Original; Escrita, Revisão e Edição; Visualização; Administração do Projeto </line>
    <line>**  Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.  E-mail:  </line>
    <line>rproleite@gmail.com Orcid:  https://orcid.org/0000-0001-8433-8639  CrediT: Conceitualização; Supervisão; Validação;  </line>
    <line>Escrita, Revisão e Edição. </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
  </page>
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    <line>2 </line>
    <line>INTRODUÇÃO </line>
    <line>A cidade contemporânea constitui-se como campo perceptivo no qual a visualidade organiza mo- </line>
    <line>dos de habitar e de disputar presença. Longe de operar como ornamento ou simples paisagem de  </line>
    <line>imagens, ela atravessa modos de vida citadinos como um regime sensível de aparecimento e apa- </line>
    <line>gamento no espaço público — aquilo que se torna legível, aquilo que se estabiliza como paisagem  </line>
    <line>legítima e aquilo que permanece intermitente, opaco ou marginal. </line>
    <line>Ao tomar a experiência estética como operador sociológico, este artigo desloca o olhar para as  </line>
    <line>visualidades urbanas como dimensão constitutiva da vida coletiva. Intervenções artísticas, dispo- </line>
    <line>sitivos institucionais, paisagens culturais e gestos ordinários sobrepõem-se no território compar- </line>
    <line>tilhado, produzindo uma gramática do visível atravessada por hierarquias, negociações e conflitos  </line>
    <line>de sentido. É a partir desse horizonte que se propõe compreender os modos de vida urbanos como  </line>
    <line>condição simultaneamente política e sensorial do urbano — uma experiência partilhada na qual  </line>
    <line>ver, e se operações Tendo (1979) referência,  </line>
    <line>entendemos os de como socialmente pelas os - </line>
    <line>duos organizam sua experiência cotidiana, suas interações e sua subjetividade em determinados  </line>
    <line>contextos históricos, especialmente na modernidade urbana. </line>
    <line>A contemporânea compreendida menos delimitação específica  </line>
    <line>mais como categoria analítica voltada à apreensão de dinâmicas urbanas marcadas pela estetiza- </line>
    <line>ção do espaço, pela intensificação das visualidades e pelas disputas de reconhecimento. Nesse ho - </line>
    <line>rizonte, o artigo mobiliza observações de campo e registros imagéticos realizados em Barcelona,  </line>
    <line>Veneza Porto, como comparativos mas situações capazes  </line>
    <line>de regimes visualidade, do e de sensível  </line>
    <line>urbano contemporâneo. </line>
    <line>As cidades ana- </line>
    <line>ricas. A investigação combinou observação direta e registros imagéticos orientados pela perspec- </line>
    <line>tiva das práticas cotidianas proposta por Michel de Certeau (1980).  </line>
    <line>O artigo estrutura-se em quatro movimentos principais. Inicialmente, discute-se a cidade contem- </line>
    <line>porânea campo e sensível, a entre pre- </line>
    <line>sença e existência urbana. Em seguida, analisam-se os regimes de visualidade e os ordenamentos  </line>
    <line>simbólicos do espaço público, articulando estética, poder e reconhecimento. O terceiro momento  </line>
    <line>aproxima a produção do espaço das práticas cotidianas e das sociabilidades urbanas, mobilizando  </line>
    <line>referências para disputas legibilie perceptivas. fim,  </line>
    <line>propõe-se a noção de coexistência estética urbana como chave interpretativa para compreender  </line>
    <line>a simultaneidade tensionada de camadas sensíveis, temporalidades e presenças no urbano con- </line>
    <line>temporâneo. </line>
    <line>Ao da mobiliza-se noção coexistência urbana, à de  </line>
    <line>autoria estética global.</line>
  </page>
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    <line>3 </line>
    <line>A CIDADE COMO CAMPO VISUAL: PRESENÇA, PERCEPÇÃO E O EXISTIR  </line>
    <line>URBANO </line>
    <line>A cidade contemporânea se apresenta como experiência sensível e espaço de presenças que atra- </line>
    <line>vessam o cotidiano. Viver na cidade é viver entre signos e inscrições simbólicas que organizam a  </line>
    <line>vida comum. O urbano não se reduz à materialidade do espaço: constitui-se como condição esté- </line>
    <line>tica e relacional.  </line>
    <line>Habitar espaço implica de gramática na certas  </line>
    <line>culturais se tornam visíveis, reconhecíveis ou marginalizadas. O que emerge no espaço público —  </line>
    <line>e o que permanece opaco — não decorre de neutralidade, mas de disputas silenciosas inscritas no  </line>
    <line>sensível. cidade feita regimes atenção de modos produzidos  </line>
    <line>de ver, de ser visto e de inscrever presença no território compartilhado. A experiência urbana é,  </line>
    <line>nesse sentido, inseparável de uma política da visibilidade. </line>
    <line>O citadino atravessado essa A urbana feita encontros - </line>
    <line>síveis: ritmos, atmosferas presenças se no território.  </line>
    <line>A cidade opera como mediação fundamental entre sujeito e espaço, estruturando pertencimentos,  </line>
    <line>estranhamentos, reconhecimentos e exclusões. Aquilo que se vê — e aquilo que se torna visível —  </line>
    <line>participa diretamente da produção da vida urbana:  </line>
    <line>Base para uma ontologia dos espaços urbanos, a imagem em si, como paisagem urbana, não re- </line>
    <line>presenta apenas uma narrativa através da qual se deseja falar da cidade, mas expressa diferen-</line>
    <line>tes possibilidades analíticas, pelo grau de polissemia que é capaz de reter (Leite, 2008, p. 95).  </line>
    <line>Essa dimensão imagética e perceptível da vida urbana é atravessada por processos históricos,  </line>
    <line>dispositivos e culturais definem imagens estabilizam  </line>
    <line>paisagem consagrada e quais presenças permanecem marginais, intermitentes ou silenciadas. As  </line>
    <line>visualidades urbanas integram uma economia simbólica da cidade: distribuem atenção, orientam  </line>
    <line>percepções e modulam a experiência coletiva do espaço público. Ver, nesse sentido, é participar de  </line>
    <line>um regime socialmente produzido de reconhecimento.  </line>
    <line>As visualidades urbanas orientam práticas no interior da vida cotidiana. Elas modulam ritmos  </line>
    <line>de instauram de ou ameaça delimitam de e </line>
    <line>marginalidade, participando da própria constituição dos corpos urbanos. A experiência citadina é  </line>
    <line>atravessada por sinais visuais que informam pertenças e fronteiras, fazendo do espaço público um  </line>
    <line>campo de leitura constante. A cidade aparece como território interpretado no cotidiano, no qual o  </line>
    <line>sensível opera como princípio de ordenamento social. José Machado Pais (2010), em seus estudos  </line>
    <line>sobre o cotidiano, já ressaltava a importância da imagem para os estudos da cidade. O autor lem- </line>
    <line>brava que Simmel alertava sobre a proeminência do “olhar sobre o ouvir” na configuração moder - </line>
    <line>na das cidades. Não por acaso, “a cultura urbana contemporânea é uma realidade sobrecarregada  </line>
    <line>de recursos e apelos visuais” (Leite, 2008, p. 171). </line>
    <line>Compreender o existir citadino como categoria analítica implica reconhecer que a presença na  </line>
    <line>cidade é sempre também presença simbólica. Estar no urbano é aparecer, ser percebido, ser auto- </line>
    <line>rizado ou interditado em determinados regimes de legibilidade. A vida urbana se constitui, por - </line>
    <line>tanto, como experiência compartilhada, atravessada por códigos estéticos, disputas de visibilida- </line>
    <line>de formas de no público. Arendt entendia a  </line>
    <line>experiência pública era, primeiramente, o que “pode ser visto e ouvido por todos” (p.61).</line>
  </page>
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    <line>4 </line>
    <line>A privação da privatividade [privation of privacy] reside na ausência de outros; para estes, o  </line>
    <line>homem privado não se dá a conhecer, e portanto é como se não existisse. O que quer que ele  </line>
    <line>faça permanece sem importância ou conseqüência para os outros, e o que tem importância  </line>
    <line>para ele é desprovido de interesse para os outros (Arendt, 1987: 68).   </line>
    <line>A central Arendt que privatividade é “estar mas   fora  </line>
    <line>alcance do olhar e da relação com os outros. Nessa condição, a pessoa que não aparecer no espa- </line>
    <line>ço comum perde relevância social, como se suas ações não produzissem ressonâncias no mundo  </line>
    <line>compartilhado. A ausência de convivência pública esvazia a relevância do sujeito no mundo co- </line>
    <line>mum, na medida em que o reconhecimento e a visibilidade são condições de sentido social.  </line>
    <line>É nesse horizonte que as visualidades urbanas podem ser compreendidas como regimes de  </line>
    <line>presença e de poder, articulando experiências estéticas, subjetividades e disputas simbólicas  </line>
    <line>na cidade contemporânea. O olhar urbano, longe de ser neutro, é um campo de hierarquias e  </line>
    <line>negociações — é que inscrevem, modo e as de  </line>
    <line>existir na cidade. </line>
    <line>REGIMES DE VISUALIDADE E ORDENAMENTOS SIMBÓLICOS DO ESPAÇO  </line>
    <line>PÚBLICO </line>
    <line>As visualidades urbanas operam como regimes de ordenamento atravessados por disputas de  </line>
    <line>presença, perceptivas formas de no público.  </line>
    <line>Ver fazer implicam uma do na determinadas se  </line>
    <line>estabilizam como legítimas enquanto outras permanecem opacas, marginais ou interditadas. A  </line>
    <line>cidade contemporânea constitui um campo de visibilidade regulada, no qual a experiência urbana  </line>
    <line>se produz sob condições estéticas e simbólicas permanentemente negociadas. </line>
    <line>Nas últimas décadas, a cultura tornou-se um recurso estratégico para a reorganização das pai- </line>
    <line>sagens A do público, de apenas cultural,  </line>
    <line>participa de processos de valorização territorial, de distinção e de reordenamento social. Sharon  </line>
    <line>Zukin (2010) observa que a autenticidade, nesse cenário, deixa de ser um valor espontâneo da ex - </line>
    <line>periência local para integrar as forças que disputam o controle do urbano. Trata-se de uma econo - </line>
    <line>mia mais na mídias, e de produzem formas </line>
    <line>de autoridade sobre o espaço. A autenticidade cultural converte-se, assim, em ativo escasso, mobi- </line>
    <line>lizado na fabricação de centralidades desejáveis: circuitos artísticos, cafés, galerias e intervenções  </line>
    <line>visuais uma de que o em e  </line>
    <line>fronteiras de pertencimento. A cidade passa a ser consumida como lugar — e esse consumo opera  </line>
    <line>como modalidade sensível de participação social, inseparável de dinâmicas de exclusão e desloca- </line>
    <line>mento (Zukin, 2010). </line>
    <line>Nesse mesmo horizonte, podemos compreender o espaço público como arena de usos e contra- </line>
    <line>-usos, qual estetização não apenas paisagem, como de  - </line>
    <line>namento político, moral e simbólico (Leite, 2008). A cidade-vitrine, atravessada por dispositivos  </line>
    <line>culturais e narrativas de prestígio, produz também regimes de exclusão sensível: disciplinamentos  </line>
    <line>do olhar, hierarquias de presença e disputas pelo direito de aparecer. O espaço público, assim,  </line>
    <line>não se configura como cenário neutro de convivência, mas como campo de conflito interpretativo,  </line>
    <line>onde visibilidades são autorizadas e outras permanecem interditadas:</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>O conjunto de sentidos construídos por relações sociais  diferentes e desiguais e suas assi - </line>
    <line>métricas modalidades de interação pode, assim, constituir-se em lugares políticos  na me- </line>
    <line>dida que sua e formação e as  </line>
    <line>de tensões disputas caracterizam vida qualificando diferenciando  </line>
    <line>certos espaços da vida urbana cotidiana como espaços públicos (Leite, 2007, p. 25). </line>
    <line>A visualidade urbana, portanto, não se reduz a uma estética espontânea do espaço: opera como  </line>
    <line>forma de legibilidade social. O espaço público é vivenciado por seus habitantes por meio de sinais  </line>
    <line>culturais, marcas institucionais e repertórios sensíveis que orientam condutas e expectativas. A  </line>
    <line>paisagem urbana adquire, assim, uma dimensão normativa: certas presenças se estabilizam como  </line>
    <line>legítimas e desejáveis, enquanto outras permanecem dissonantes, ambíguas ou deslocadas. Regi- </line>
    <line>mes de visualidade organizam, desse modo, não apenas a cidade como imagem, mas como experi- </line>
    <line>ência cotidiana do convívio, atravessada por hierarquias e fronteiras simbólicas. </line>
    <line>Essa dimensão revela que a paisagem é campo de poder, como destaca Sharon Zukin, em Landsca- </line>
    <line>pes of Power (1991).  Aquilo que se apresenta como diversidade estética pode encobrir mecanismos  </line>
    <line>sutis de hierarquização simbólica, nos quais certos repertórios culturais são legitimados enquanto  </line>
    <line>outros permanecem periféricos. Nesse horizonte, Bourdieu permite compreender que a ordem do  </line>
    <line>visível se impõe muitas vezes de maneira imperceptível, operando como “poder invisível” exerci- </line>
    <line>do “com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos” (Bourdieu, 1989,  </line>
    <line>p. 7). Os sistemas simbólicos que organizam a percepção urbana — arte, linguagem, classificações  </line>
    <line>estéticas — não são expressões neutras, mas estruturas capazes de produzir a própria experiência  </line>
    <line>social: “só podem exercer um poder estruturante porque são estruturados” (Bourdieu, 1989, p. 9).  </line>
    <line>O espaço público torna-se, assim, campo de distinção e classificação, no qual regimes de visualida- </line>
    <line>de o pode reconhecido arte, paisagem ou presença  </line>
    <line>cultural legítima. </line>
    <line>O urbano, portanto, é arena de disputa interpretativa. A cidade concentra presenças heterogêneas  </line>
    <line>que não necessariamente compartilham os mesmos códigos estéticos, ou os mesmos regimes de  </line>
    <line>reconhecimento. O que se impõe como paisagem valorizada é resultado de processos de consa- </line>
    <line>gração que instituições mercados e de  </line>
    <line>social. A luta pelo valor cultural é também luta pela legitimidade de certos modos de habitar e de  </line>
    <line>aparecer. visualidade na desse como sensível conflitos </line>
    <line>em que o visível é sempre politicamente produzido. </line>
    <line>A cidade é atravessada por uma economia simbólica na qual a estética e o poder se imbricam. A  </line>
    <line>mercantilização das paisagens urbanas produz um urbanismo sensível, no qual imagens, narrati- </line>
    <line>vas atmosferas instrumentos de territorial. reinvenção  </line>
    <line>das cidades para um mercado mundial, analisada por Fernanda Sánchez (2010), evidencia como  </line>
    <line>a cultura e a espetacularização se convertem em estratégias privilegiadas de valorização urbana.  </line>
    <line>A vende-se imagem experiência, essa estética território  </line>
    <line>fronteiras de pertencimento, reorganizando quem pode ocupar determinados espaços e sob quais  </line>
    <line>formas de visibilidade.</line>
    <line>Nesse contexto, a cultura deixa de ser apenas expressão simbólica e passa a operar como tecno- </line>
    <line>logia de gestão. A ideia de cultura como recurso, tal como elaborada por George Yúdice, permite  </line>
    <line>compreender como programas culturais, intervenções artísticas e circuitos criativos são mobiliza- </line>
    <line>dos como instrumentos estratégicos de gestão cultural e reordenamento simbólico do urbano. A  </line>
    <line>visualidade torna-se linguagem estratégica do poder: organiza narrativas de modernidade, diver-</line>
  </page>
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    <line>6 </line>
    <line>sidade e vitalidade, ao mesmo tempo em que regula presenças, expectativas e modos de reconhe- </line>
    <line>cimento no espaço público. Intervenções estéticas, assim, não são apenas manifestações culturais,  </line>
    <line>mas dispositivos que articulam economia, política e consagração simbólica, reinscrevendo a cida- </line>
    <line>de como território administrado também pelo sensível (Yúdice, 2006). </line>
    <line>A estetização das cidades contemporâneas insere-se em um horizonte, no qual o sensível estru- </line>
    <line>tura a organização social. Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2015) descrevem esse cenário como  </line>
    <line>“capitalismo artista”, no qual imagens e atmosferas atravessam o consumo e a governança urbana.  </line>
    <line>Como observa Mike Featherstone (1995), o consumo cultural converte-se em expressão de estilo  </line>
    <line>de vida, fazendo da visualidade um modo de aparecer e disputar reconhecimento. Nesse contexto,  </line>
    <line>a cultura também opera como técnica de ordenamento das presenças e da visibilidade pública  </line>
    <line>(Miller; Yúdice, 2002). </line>
    <line>Não se trata apenas de uma cidade “mais bonita” ou “mais cultural”, mas de um espaço público  </line>
    <line>reorganizado por lógicas de sedução, consumo e visibilidade. O sensível deixa de ser suplemento  </line>
    <line>e a ritmos circulação, e de no  </line>
    <line>urbano. intensificação implica novas de O é  </line>
    <line>vivido superfície signos, identidades pertencimentos constroem de  </line>
    <line>práticas culturais e circuitos de visibilidade.  </line>
    <line>Mas essa estilização do urbano se inscreve também em dispositivos concretos de ordenamento,  </line>
    <line>nos quais a cultura opera como técnica de gestão das presenças e das legitimidades no espaço  </line>
    <line>público. Entretanto, esses processos não se reduzem à lógica mercantil ou ao consumo simbólico.  </line>
    <line>Envolvem formas de estética governança Nos </line>
    <line>de Miller e Yúdice (2002), programas culturais e dispositivos urbanos operam como mecanismos  </line>
    <line>de governo das condutas, estruturando circuitos de reconhecimento e legitimidade. A cultura tor- </line>
    <line>na-se de ção distribui simbólicos, repertórios - </line>
    <line>zados e organiza formas de visibilidade pública.</line>
    <line>Pensar regimes de visualidade implica, assim, reconhecer que a cidade contemporânea é atra- </line>
    <line>vessada por uma dupla operação: de um lado, a estetização como promessa de vitalidade e ex - </line>
    <line>periência; de outro, a visualidade como mecanismo de ordenamento e de hierarquização simbó- </line>
    <line>portanto, chave sociológica para compreender o espaço público como arena de reconhecimento  </line>
    <line>Até aqui, os autores mobilizados permitem descrever os mecanismos pelos quais o visível se orga- </line>
    <line>niza como disputa: a cultura como recurso, a estetização como estratégia e os regimes de reconhe - </line>
    <line>cimento formas ordenamento do público. contribuição texto,  </line>
    <line>porém, não é apenas reiterar essa diagnose, e sim propor uma chave de leitura capaz de apreender  </line>
    <line>a simultaneidade dessas camadas no urbano contemporâneo. É nesse ponto que se inscreve a  </line>
    <line>noção de coexistência estética urbana (Brito, 2026), como operador interpretativo do modo como  </line>
    <line>temporalidades, dispositivos e repertórios distintos passam a habitar o mesmo território sob fric - </line>
    <line>ção perceptiva. No plano da agência, essa chave articula-se à ideia de autoria estética global (Bri - </line>
    <line>to, 2026), compreendida como gesto singular de leitura e reinscrição do urbano por repertórios  </line>
    <line>transurbanos não atributo mas forma presença por  </line>
    <line>intervenções autorais situadas.</line>
  </page>
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    <line>7 </line>
    <line>A desse torna-se avançar uma mais centrada  </line>
    <line>experiência vivida e na produção do espaço. Se aqui se evidenciam os ordenamentos simbólicos  </line>
    <line>que regulam o sensível, o cotidiano emerge como lugar onde tais regimes se tornam prática, corpo  </line>
    <line>e textura urba </line>
    <line>experiência compartilhada. Entre estetizações, consagrações e disputas de visibilidade, o urbano  </line>
    <line>revela-se como campo vivido: não apenas imagem regulada, mas prática cotidiana, obra social e  </line>
    <line>experiência sensível em permanente reescrita. </line>
    <line>COTIDIANO, SENSIBILIDADE E PRODUÇÃO DO ESPAÇO: LEITURA  </line>
    <line>LEFEBVRIANA </line>
    <line>Pensar a cidade a partir da experiência urbana exige deslocar o olhar para aquilo que tantas abor- </line>
    <line>dagens na o como onde espaço faz. cidade se  </line>
    <line>a dispositivos nem representações que torná-la Ela  </line>
    <line>realiza, antes, como prática vivida — textura histórica composta por ritmos, usos, apropriações e  </line>
    <line>presenças que atravessam a vida comum e reinscrevem o urbano no cotidiano. </line>
    <line>É chave a de Lefebvre torna Ao que espaço  </line>
    <line>uma social, (1991) com ideia urbano recipiente ou  </line>
    <line>cenário funcional. O espaço não é dado: ele é produzido pelas forças sociais que o atravessam, pelas  </line>
    <line>relações que o organizam e pelas experiências que o inscrevem. Compreender a cidade implica,  </line>
    <line>portanto, como ordinárias formas habitar ativamente  </line>
    <line>constituição do urbano como obra histórica. </line>
    <line>O para (1991; não plano da social, lugar - </line>
    <line>giado onde estruturas e experiências se articulam. É nele que a cidade se realiza como repetição  </line>
    <line>instável: encontros, rotinas interrupções ao tempo, - </line>
    <line>produzem e reconfiguram o espaço. Habitar a cidade é participar de seus ritmos e temporalidades  </line>
    <line>sobrepostas, de intensidades sensíveis que fazem do urbano uma experiência sempre inacabada. </line>
    <line>Ao distinguir entre espaço concebido, percebido e vivido, Lefebvre (1991) oferece uma chave fun-</line>
    <line>damental para compreender essa produção. O espaço concebido corresponde às racionalidades  </line>
    <line>técnicas, aos planejamentos e dispositivos abstratos que organizam a cidade como projeto. O es - </line>
    <line>paço refere-se práticas estruturam uso Já espaço emerge  </line>
    <line>como simbólica sensível, se afetos, disputas formas  </line>
    <line>reconhecimento. nesse que urbano manifesta campo significação conflito,  </line>
    <line>irredutível à abstração administrativa. </line>
    <line>Essa distinção evidencia que o espaço urbano é atravessado por uma tensão permanente entre ra- </line>
    <line>cionalidade abstrata e experiência concreta. Lefebvre (1991) critica justamente a abstração espa- </line>
    <line>cial que transforma a cidade em mercadoria, superfície funcional e produto administrável. Contra  </line>
    <line>essa redução, o vivido insiste como dimensão irredutível: aquilo que escapa ao controle total do  </line>
    <line>planejamento, afirmando-se como presença, apropriação e disputa cotidiana.</line>
    <line>O urbano aparece como totalidade em movimento, continuamente reinscrita por práticas que des - </line>
    <line>locam seus sentidos. Portanto, a cidade é um processo em curso, no qual usos, trajetórias e pre- </line>
    <line>senças se cruzam sob condições desiguais de inscrição e reconhecimento no espaço público. Essa  </line>
    <line>reescrita envolve hierarquias, interdições e disputas pelo direito de atribuir sentido ao território</line>
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    <line>compartilhado. É nesse horizonte que o direito à cidade, formulado por Lefebvre (2008), ultrapas- </line>
    <line>sa ideia acesso e a na da como coletiva.  </line>
    <line>Mesmo sob a racionalidade abstrata do planejamento e da mercantilização, o cotidiano introduz  </line>
    <line>fissuras: apropriações reinvenções que a urbana  </line>
    <line>fazem do vivido um campo permanente de negociação.</line>
    <line>Essa leitura permite compreender que a experiência urbana se produz também no tempo. A cida- </line>
    <line>de é atravessada por camadas que se alteram à medida que intervenções transitórias — eventos,  </line>
    <line>inscrições passageiras, ocupações culturais — reorientam a percepção do conjunto urbano, deslo - </line>
    <line>cando inclusive o sentido de suas estruturas permanentes. Do mesmo modo, ações institucionais  </line>
    <line>como tombamentos, reformas, consagrações e relançamentos reinscrevem a paisagem, modifican - </line>
    <line>do aquilo que pode ser visto, legitimado ou disputado no espaço público. </line>
    <line>Lefebvre, nesse horizonte, permite pensar a cidade como obra em permanente reescrita cotidiana  </line>
    <line>e uma social por conflitos disputas presença.  </line>
    <line>É no interior dessas práticas vividas — nos encontros perceptivos, nas sociabilidades do olhar,  </line>
    <line>nas subjetividades em negociação — que o urbano se constitui como experiência compartilhada e  </line>
    <line>como campo sensível de coexistência. </line>
    <line>SOCIABILIDADES DO OLHAR: EMPIRIAS DE SUBJETIVIDADES URBANAS EM  </line>
    <line>NEGOCIAÇÃO </line>
    <line>Discutidos os pressupostos desta análise — os modos de vida como condição política e sensorial,  </line>
    <line>a cidade como campo visual, as visualidades como regimes de ordenamento simbólico e o urbano  </line>
    <line>como processo em curso — avançamos para a referência empírica de casos que iluminam os regi-</line>
    <line>mes sensíveis de percepção da cidade. </line>
    <line>A intrinsecamente do públconstitui primeira da  </line>
    <line>percepção visual das relações sociais na cidade.  Se o espaço urbano é produzido socialmente e  </line>
    <line>vivido como experiência, ele é também, de maneira incontornável, um campo relacional. A cidade  </line>
    <line>não constitui por ou mas convivência muitas tensa  </line>
    <line>— entre sujeitos, trajetórias e presenças que se cruzam no cotidiano. Habitar o urbano implica  </line>
    <line>compartilhar de disputar e formas reconhecimento  </line>
    <line>no espaço público. A experiência citadina é, assim, sempre experiência de coexistência: estar na  </line>
    <line>cidade é estar entre outros, sob códigos perceptivos que nunca são homogêneos. </line>
    <line>As de de gentrificados casos fortes se </line>
    <line>compreender dimensão e do público. É se gru- </line>
    <line>pos sociais que buscam esses espaços de visibilidade como forma de tornar igualmente visíveis suas </line>
    <line>identidades, ainda que tensionem as sociabilidades locais. Em Las Ramblas de Barcelona é comum ver  </line>
    <line>essas tensões identitárias que imprimem códigos próprios para o uso compartilhado dos espaços.</line>
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