Visualidades urbanas no skate
Por conta dessa proximidade com o universo do surfe, a prática do skate foi chamada de sidewalk
surfing, inicialmente, expressão que pode ser traduzida como “surfe de calçada”. Essa aproximação
entre ambas as práticas foi importante, principalmente para a consolidação e a aceitação do skate
em vários âmbitos, visto que aquilo que antes era feito de forma despretensiosa, aos poucos, foi
submetido a regras. Já os deslizamentos que ocorriam em ruas e ladeiras tomaram formas de ma-
nobras, logo, surgiu a ideia de pontuá-las, classificá-las e julgá-las (Brandão, 2014), o que implicou
numa manipulação regrada do corpo (Bourdieu, 2004). O skate, inspirado no surfe4, construiu
suas próprias técnicas, experiências, códigos, símbolos e formas de sociabilidade.
Na obra “Em busca da excitação”, Elias e Dunning (1992) analisaram o processo de transformação
de certos passatempos e divertimentos em práticas esportivas na era moderna. Tal processo fora
denominado pelos autores de esportivização, e se manifesta, sobretudo, com a criação de regras
para uma prática corporal e por meio da instituição de normas de conduta para os praticantes,
de modo a torná-la menos violenta e perigosa. Com base nas ideias de Elias e Dunning (1992) é
possível afirmar, portanto, que o skate, desde o final dos anos 1960, sujeitou-se a um processo de
esportivização, o qual fora responsável por transformar uma mera brincadeira numa atividade
esportiva e competitiva (Honorato, 2004; Brandão, 2014; Machado 2022). A partir disso, surgiram
muitas regras com a intenção de não só padronizar as técnicas corporais (isto é, as manobras),
como também normatizar o comportamento e as atitudes daqueles praticantes que passaram a se
reconhecer como “skatistas”.
O processo de esportivização do skate contribuiu para que gradualmente fossem delineadas dis-
tintas funções que propiciaram a consolidação do seu campo esportivo. De acordo com Bourdieu
(1983), no campo esportivo existe um sistema de agentes e instituições ligados ao esporte, que
funciona como um campo que pode ser dotado de lutas e de investimentos de competência especí-
ficas. Nesse sentido, o campo esportivo do skate passou a agregar ao longo do tempo a atuação de
múltiplos agentes e instituições, os quais se inseriram em uma dinâmica onde se revela relações
de forças engajadas na distribuição de um capital específico. Com vistas a regulamentar o skate
enquanto um esporte e a propagar um sentido tido como legítimo para o seu uso, tais agentes
(como empresários, profissionais da mídia especializada, representantes do poder público, etc.)
e instituições (como entidades esportivas, por exemplo) têm disputado o poder de controlar os
discursos, de definir comportamentos, de organizar competições, de “dar a ver” e “fazer crer” que
a prática do skate tem que ser feita de determinada maneira.
Um dos caminhos encontrados para propagar a prática do skate e torná-la mais atrativa foi por
meio da promoção de grandes campeonatos (produzidos nos moldes de um espetáculo esportivo),
o que propiciou, como consequência, “um aumento na ruptura entre praticantes profissionais e
amadores” (Bourdieu, 2004, p. 217). Esse processo não só transformou a organização esportiva
do skate, mas também os modos pelos quais a prática passou a ser visualmente representada e
socialmente percebida. Realizados em pistas de skate (espaços considerados apropriados para
o seu uso), tais campeonatos geralmente são formatados com base em uma série de regras cria-
das por entidades que regulamentam a prática, como a Confederação Brasileira de Skate (CBSk)
em âmbito nacional, ou a World Skate em âmbito mundial. E quando não organizadas por essas
entidades, as competições podem ser promovidas por canais de televisão, empresas, marcas ou
revistas especializadas.
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Para reflexões sobre as representações do surfe na mídia, algo que se aproxima do universo do universo do skate, ver Fortes
(2011).
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