Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24592, 2026  
DOI:10.21669/tomo.v45.24592  
Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  
sociabilidades e o existir citadino  
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  
DOSSIÊ  
VISUALIDADES URBANAS NO SKATE:  
disputas de reconhecimento e  
profissionalização para além do esporte  
Giancarlo Marques Carraro Machado*1  
Leonardo Brandão**2  
Resumo  
O artigo analisa o processo de esportivização do skate no Brasil e suas implicações para a profissionalização  
dos praticantes em um contexto atravessado por disputas de visibilidade. A partir de uma reconstituição  
histórica da consolidação do skate como modalidade institucionalizada, examinam-se as tensões entre en-  
tidades reguladoras, mídia especializada, mercado e os próprios skatistas. Argumenta-se que, para além  
das lógicas competitivas e dos rankings, a profissionalização envolve a produção e a gestão de visualidades  
urbanas. Fotografias, vídeos, eventos e ocupações criativas da cidade configuram dispositivos centrais na  
construção de reconhecimento. Ao tratar a visualidade como performance e recurso político, o artigo de-  
monstra como imagens, corpos e práticas urbanas participam da produção de subjetividades e da negocia-  
ção de posições no campo do visível, contribuindo para os debates da antropologia urbana e visual.  
Palavras-chaves: Skate; Visualidades urbanas; Profissionalização; Cidade; Sociabilidades.  
*
Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social (PPGDS),  
Departamento de Ciências Sociais. Montes Claros, Minas Gerais, Brasil. E-mail: giancarlo.machado@unimontes.br Orcid:  
https://orcid.org/0000-0001-7404-9737 CrediT: Conceitualização; Tratamento dos dados; Análise Formal; Investigação;  
Escrita do rascunho original; Escrita – revisão e edição.  
**  
Universidade Regional de Blumenau (FURB), Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR), De-  
partamento de História e Geografia. Blumenau, Santa Catarina, Brasil. E-mail: leobrandao@furb.br Orcid: https://orcid.  
org/0000-0001-8306-1092 CrediT: Conceitualização; Tratamento dos dados; Análise Formal; Investigação; Escrita do ras-  
cunho original; Escrita – revisão e edição.  
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
1 A PRÁTICA DO SKATE E OS SEUS SENTIDOS  
“Último lugar no ranking brasileiro profissional”. Foi com essa chamada, em letras garrafais, que  
a Sick Mind, marca nacional especializada em produtos para skate, anunciou o lançamento do  
modelo de shape, isto é, a prancha de madeira, assinado pelo skatista profissional Rogerio Troy.  
Para adeptos de muitos esportes, tal anúncio publicitário poderia soar estranho, visto que o mais  
cobiçado por atletas, equipes e seus respectivos patrocinadores é o êxito em competições. No caso  
apresentado, todavia, a marca patrocinadora valorizou justamente o contrário do comumente es-  
perado: o fracasso do skatista em um circuito profissional realizado no país. Mais do que uma ação  
irreverente, essa estratégia evidencia como o skate constitui um campo de produção de visualida-  
des urbanas no qual derrota, ironia e transgressão podem ser convertidas em capital simbólico.  
Nesse universo, a cidade não é apenas cenário, mas lócus de inscrição de imagens e performances  
que produzem reconhecimento e disputam sentidos sobre modos de existir no espaço urbano.  
Com a esportivização de muitas atividades corporais, o cumprimento de regras, a competitivida-  
de, a meritocracia e o desenvolvimento de habilidades técnicas tornaram-se exigências centrais.  
É preciso disciplina e eficácia para vencer disputas, controlar tensões, dominar o tempo e superar  
os limites do corpo. No caso do skate, contudo, tais posturas nem sempre se exprimem com afinco.  
Ser campeão ou tornar-se atleta de ponta, embora seja meta de muitos, não constitui horizonte  
consensual, inclusive entre profissionais. Nessa mesma direção, Douglas Prieto (2011), então edi-  
tor da revista CemporcentoSkate, afirmou que o universo do skate é rodeado por palavras “maldi-  
tas, como “atleta, campeão” e “treinar. A recusa a esses termos sugere que, para além da lógica  
esportiva, estão em jogo formas alternativas de reconhecimento e visibilidade que atravessam o  
cotidiano citadino.  
Diante desses e de muitos outros exemplos, cabe indagar: o que faz com que parcela significativa  
de skatistas, inclusive alguns renomados profissionais, rejeite rótulos e princípios caros ao espor-  
te competitivo? Há outras formas de obter prestígio e visibilidade no universo do skate, bem como  
conquistar a condição profissional, para além daquelas pautadas em rankings e vitórias? Em que  
medida a mídia e o mercado especializado reconfiguram as possibilidades de profissionalização a  
partir de suas próprias lógicas? E quais os impactos desses direcionamentos na experiência coti-  
diana da prática?  
Tais questões permitem deslocar o olhar da profissionalização estritamente esportiva para a aná-  
lise das políticas de visualidade que atravessam o skate. Interessa-nos compreender como fotos,  
vídeos, festas, ocupações criativas do espaço urbano e aparições midiáticas operam como dispo-  
sitivos de visibilidade, produzindo subjetividades, hierarquias e formas alternativas de reconhe-  
cimento. Nesse sentido, o skate pode ser entendido como prática que articula corpo, imagem e  
cidade, inscrevendo no espaço urbano disputas sobre quem pode aparecer, de que maneira e sob  
quais critérios de legitimidade.  
Para responder a tais perguntas, este artigo objetiva reconstituir determinados fatos que propor-  
cionaram o processo de esportivização do skate para analisar algumas disposições que perpassam  
seu atual campo esportivo no país. Do ponto de vista metodológico, o estudo combina análise do-  
cumental e midiática, especialmente de revistas especializadas, matérias jornalísticas, anúncios  
publicitários e produções audiovisuais, com dados provenientes de pesquisas já realizadas sobre  
a prática do skate no Brasil. Tal abordagem permite articular a dimensão histórica do processo de  
esportivização às dinâmicas contemporâneas de produção de visibilidade.  
2
Visualidades urbanas no skate  
Desta contextualização inicial passa-se, então, para problematizações que consideram o posicio-  
namento crítico tanto de skatistas quanto de agentes vinculados à mídia e ao mercado especia-  
lizado em skate frente às capturas esportivas. As falas de praticantes, entrevistas publicadas em  
periódicos especializados e registros de eventos foram analisados como material empírico privi-  
legiado, compreendidos aqui não apenas como fontes informativas, mas como produções discur-  
sivas que participam ativamente da construção do campo do visível. Serão enfocadas eventuais  
resistências a lógicas que se propõem hegemônicas, como as balizadas por entidades esportivas, o  
que vem proporcionando, com efeito, a ampliação de sentidos não apenas para a prática do skate,  
mas também para a profissionalização de seus adeptos.  
A análise da dimensão esportiva será realizada a partir das contribuições de Norbert Elias e Eric  
Dunning (1992), com o conceito de processo de esportivização, e de Pierre Bourdieu (1983; 2004),  
com a noção de campo esportivo. Já os tensionamentos promovidos por skatistas e agentes da  
mídia e do mercado especializado serão examinados à luz de pesquisas sobre o cotidiano da prá-  
tica, como as investigações de Becky Beal e Lisa Weidman (2003), bem como estudos históricos e  
etnográficos desenvolvidos no contexto brasileiro (Brandão, 2011; 2014; Machado, 2014; 2022).  
Ao mobilizar esse conjunto de referências e fontes empíricas, busca-se articular análise teórica e  
interpretação etnográfica, privilegiando uma leitura das visualidades enquanto práticas social-  
mente situadas e atravessadas por relações de poder. Assim, ao analisar a profissionalização no  
skate para além do esporte, busca-se contribuir para os debates da antropologia urbana e visual,  
entendendo o visível como campo de disputa e como dimensão constitutiva das formas contem-  
porâneas de sociabilidade citadina.  
2 QUANDO UMA BRINCADEIRA SE TORNA UM ESPORTE  
Desde a entrada do esporte nos Jogos Olímpicos, há um aquecimento no bilionário mer-  
cado do skate. O contraponto é a burocratização e a profissionalização de um esporte que,  
lá no passado, era conhecido por atrair “vagabundos” - em 1988, o então prefeito de São  
Paulo, Jânio Quadros, chegou a proibir a prática do skate na cidade (Maxx, 2021).  
Diversas reportagens já foram veiculadas em jornais, sites e revistas com o intuito de apresentar  
aos leitores uma prática esportiva que tem atraído a atenção não só de crianças, jovens e adultos  
em busca de prazer e adrenalina, mas também de empresários dispostos a investir em algo que  
se difundiu por várias partes do mundo. Em tais reportagens geralmente são enfatizados certos  
sentidos que atravessam o universo do skate.  
Essa constatação fica clara desde os seus títulos: Antes ‘vagabundos, esportes radicais viram  
aposta segura no mercado esportivo, revelou uma manchete no Portal UOL (Doro, 2012); ou ain-  
da “Skate: de marginal a queridinho, noticiou a revista Competir (2010). Deste modo é possível  
perceber que aquilo que antes era considerado “marginal, uma prática de “vagabundos” que in-  
clusive já fora proibida na cidade de São Paulo em 1988 pelo então prefeito Jânio Quadros1, tor-  
nou-se, com o passar do tempo, “um esporte milionário, uma “prática saudável” ou até mesmo um  
“trabalho” e uma “fonte de renda”2.  
1
A prática do skate já foi proibida em diversas cidades brasileiras. Para uma abordagem acerca das proibições, ver Brandão  
(2014) e Machado (2022).  
2
Para outras análises detidas sobre a transmutação de sentidos do skate, vide Brandão (2014) e Machado (2021).  
3
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
Com efeito, o skate já não é mais o mesmo de anos atrás, estando agora em um patamar espeta-  
cularizado. Isso reverbera, como bem notado por Bourdieu (2004) em relação a outras práticas  
esportivas, na constituição progressiva de um campo de profissionais da produção de bens e ser-  
viços esportivos, no interior do qual se desenvolvem interesses específicos.  
A espetacularização do skate se reflete no considerável crescimento do número de adeptos dessa  
prática. O Instituto Datafolha publicou em 2010 os resultados de uma pesquisa encomendada  
pela Confederação Brasileira de Skate (CBSk), cujo objetivo principal era medir a penetração de  
praticantes de skate nos lares brasileiros, bem como obter o perfil de cada um. Os resultados da  
pesquisa, publicados na Revista CemporcentoSkate (2010, n. 15), contabilizaram, à época, mais  
de 3.860.000 (três milhões e oitocentos e sessenta mil) praticantes no Brasil. O dado aponta para  
um aumento de 20% em relação à mesma pesquisa feita em 2006. Caso a pesquisa seja atualizada  
no presente, acreditamos que o número de praticantes tenha aumentado consideravelmente, haja  
vista a repercussão olímpica do skate a partir de sua incorporação nos Jogos Olímpicos de Tóquio  
2020, que influenciou novos adeptos.  
Para se tornar um dos esportes de maior visibilidade no Brasil e no mundo, os sentidos que lhe foram  
atribuídos por diversos agentes tiveram de passar por inúmeras mudanças ao longo de sua história,  
ajustando-se conforme os interesses de cada situação. Algumas das principais mudanças, contudo,  
ocorreram ainda nos primórdios dessa prática. O seu surgimento se deu graças à criatividade de cer-  
tos jovens estadunidenses, que resolveram anexar rodas de patins a uma tábua de madeira qualquer.  
Não havia tantos objetivos com a utilização daquilo que era considerado um mero brinquedo,  
tampouco havia preocupação com a sua qualidade e durabilidade. Já a partir do final da década  
de 1950, o que antes era feito de forma improvisada passou a ser fabricado industrialmente e a  
ser vendido em larga escala. O skate tornou-se uma febre naquele momento, tal como o ioiô ou  
bambolê. No entanto, não tardaram a emergir os problemas oriundos dessa peripécia feita sobre  
rodinhas: tombos, machucados e até mesmo mortes. Muitos pais ficaram preocupados com a se-  
gurança de seus filhos, e o uso de skates, que tivera seu primeiro boom nessa época, virou caso  
de polícia. O documentário Rouli-Roulant (1966) retrata tal situação: crianças e jovens passaram  
a ser perseguidos por policiais por praticarem uma atividade perigosa que se distinguia dos tra-  
dicionais esportes coletivos então consolidados e aceitos socialmente – tais como futebol, rugby,  
basquete e vôlei –, cujos princípios para a prática assentavam-se na disciplina, na competitividade,  
no rendimento, na utilização de espaços definidos, no cuidado com o corpo.  
O número de adeptos do skate diminuiu consideravelmente em meados dos anos 1960. Os equipa-  
mentos de baixa qualidade, associados à repressão aos praticantes, desestimularam a propagação  
da prática nos Estados Unidos da América, país onde se dera o seu surgimento. Entretanto, pouco  
tempo após a sua “morte”3, o skate ressurgiu com nova força devido a sua apropriação por parte de  
adeptos de uma prática feita no mar: o surfe. Com a irregularidade das ondas em praias california-  
nas, vários surfistas aproveitaram-se das tábuas com rodinhas e deram um outro sentido ao seu  
uso. Após alterarem seus formatos, ficando semelhantes a uma pequena prancha, elas se tornaram  
uma espécie de surfe sobre rodas. Através delas, os surfistas podiam, de certo modo, surfar a qual-  
quer momento e em muitos lugares, além de transpor alguns dos movimentos antes feitos dentro  
d’água para diversos equipamentos e espaços encontrados pelas cidades.  
3
O skate, de acordo com o documentário “Dogtown and Z-Boys: onde tudo começou, lançado em 2001, teve a sua primeira  
“morte” em meados da década de 1960.  
4
Visualidades urbanas no skate  
Por conta dessa proximidade com o universo do surfe, a prática do skate foi chamada de sidewalk  
surfing, inicialmente, expressão que pode ser traduzida como “surfe de calçada. Essa aproximação  
entre ambas as práticas foi importante, principalmente para a consolidação e a aceitação do skate  
em vários âmbitos, visto que aquilo que antes era feito de forma despretensiosa, aos poucos, foi  
submetido a regras. Já os deslizamentos que ocorriam em ruas e ladeiras tomaram formas de ma-  
nobras, logo, surgiu a ideia de pontuá-las, classificá-las e julgá-las (Brandão, 2014), o que implicou  
numa manipulação regrada do corpo (Bourdieu, 2004). O skate, inspirado no surfe4, construiu  
suas próprias técnicas, experiências, códigos, símbolos e formas de sociabilidade.  
Na obra “Em busca da excitação, Elias e Dunning (1992) analisaram o processo de transformação  
de certos passatempos e divertimentos em práticas esportivas na era moderna. Tal processo fora  
denominado pelos autores de esportivização, e se manifesta, sobretudo, com a criação de regras  
para uma prática corporal e por meio da instituição de normas de conduta para os praticantes,  
de modo a torná-la menos violenta e perigosa. Com base nas ideias de Elias e Dunning (1992) é  
possível afirmar, portanto, que o skate, desde o final dos anos 1960, sujeitou-se a um processo de  
esportivização, o qual fora responsável por transformar uma mera brincadeira numa atividade  
esportiva e competitiva (Honorato, 2004; Brandão, 2014; Machado 2022). A partir disso, surgiram  
muitas regras com a intenção de não só padronizar as técnicas corporais (isto é, as manobras),  
como também normatizar o comportamento e as atitudes daqueles praticantes que passaram a se  
reconhecer como “skatistas.  
O processo de esportivização do skate contribuiu para que gradualmente fossem delineadas dis-  
tintas funções que propiciaram a consolidação do seu campo esportivo. De acordo com Bourdieu  
(1983), no campo esportivo existe um sistema de agentes e instituições ligados ao esporte, que  
funciona como um campo que pode ser dotado de lutas e de investimentos de competência especí-  
ficas. Nesse sentido, o campo esportivo do skate passou a agregar ao longo do tempo a atuação de  
múltiplos agentes e instituições, os quais se inseriram em uma dinâmica onde se revela relações  
de forças engajadas na distribuição de um capital específico. Com vistas a regulamentar o skate  
enquanto um esporte e a propagar um sentido tido como legítimo para o seu uso, tais agentes  
(como empresários, profissionais da mídia especializada, representantes do poder público, etc.)  
e instituições (como entidades esportivas, por exemplo) têm disputado o poder de controlar os  
discursos, de definir comportamentos, de organizar competições, de “dar a ver” e “fazer crer” que  
a prática do skate tem que ser feita de determinada maneira.  
Um dos caminhos encontrados para propagar a prática do skate e torná-la mais atrativa foi por  
meio da promoção de grandes campeonatos (produzidos nos moldes de um espetáculo esportivo),  
o que propiciou, como consequência, “um aumento na ruptura entre praticantes profissionais e  
amadores” (Bourdieu, 2004, p. 217). Esse processo não só transformou a organização esportiva  
do skate, mas também os modos pelos quais a prática passou a ser visualmente representada e  
socialmente percebida. Realizados em pistas de skate (espaços considerados apropriados para  
o seu uso), tais campeonatos geralmente são formatados com base em uma série de regras cria-  
das por entidades que regulamentam a prática, como a Confederação Brasileira de Skate (CBSk)  
em âmbito nacional, ou a World Skate em âmbito mundial. E quando não organizadas por essas  
entidades, as competições podem ser promovidas por canais de televisão, empresas, marcas ou  
revistas especializadas.  
4
Para reflexões sobre as representações do surfe na mídia, algo que se aproxima do universo do universo do skate, ver Fortes  
(2011).  
5
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
Dentre muitos exemplos de espetáculos, é válido destacar a realização dos X Games, tradicional  
competição promovida pelo canal ESPN, desde 1995, com foco nos esportes classificados como  
“radicais”; Maloof Money Cup, competição que distribuiu, em 2011, a quantia de US$ 2 milhões aos  
skatistas mais bem colocados; e Street League, liga de skate que reúne os considerados melhores  
competidores do mundo. Em função do espetáculo proporcionado por essas e outras competições,  
os eventos contam com o apoio de inúmeros patrocinadores dos mais diversos segmentos – mar-  
cas de bebidas, roupas, calçados, automóveis, alimentos, etc. – que investem consideráveis quan-  
tias em uma ação voltada a um público jovem, obtendo, assim, não só lucros exorbitantes, como  
também a promoção de seus produtos.  
O skate, em vista disso, passou a ser visto com bons olhos por muitas corporações, que estra-  
tegicamente associam suas marcas a essa prática, tendo em vista sobretudo os seus interesses  
comerciais. A cidade de São Paulo, por exemplo, na última década sediou importantes feiras de  
negócios que tiveram o skate como um dos principais focos. Soma-se a isso o crescente anseio de  
multinacionais em criar divisões específicas para atender à demanda dos praticantes. É o caso da  
Nike SkateBoarding, divisão de skate da marca de tênis Nike, que tem aplicado altas quantias em  
eventos e na profissionalização de alguns skatistas. O Banco do Brasil também fez desse esporte  
um meio de divulgação de suas ações, tendo promovido, nos últimos anos, circuitos de campeona-  
tos que percorreram diversas capitais brasileiras.  
De modo geral, segundo uma matéria do Portal UOL (2012), o mercado mundial do skate gira em  
torno de $3 bilhões ao ano, sendo o Brasil um dos principais países responsáveis por essa marca.  
Como bem observado por Brandão (2014), o processo de esportivização do skate impôs a lógica  
esportiva que prima pelo espetáculo, pela competitividade, pela prática em locais específicos e  
pela técnica fundamentada no treinamento, redimensionando para o negócio as mais diferentes  
formas de experiência com o corpo e com os espaços urbanos.  
A realização de inúmeros campeonatos, a consolidação de entidades esportivas, a visibilidade em  
diversos meios de comunicação hegemônicos, o investimento de muitas empresas, a proliferação  
de políticas públicas, a construção de pistas, as chances de lucros e a possibilidade de obtenção de  
bons patrocinadores fizeram com que a profissionalização pelas vias do esporte se tornasse dema-  
siadamente almejada pelos praticantes. Tais exemplos mais uma vez demonstram que o skate é, para  
muitos, um esporte competitivo, sério e bastante rentável. Todavia, como o seu universo agrega uma  
heterogeneidade de sentidos, há também aqueles que encaram a prática de forma completamente  
diferente e tentam se profissionalizar, ganhar prestígio e vivenciar suas experiências por outras vias.  
É o que será abordado a seguir, a partir da atuação de segmentos da mídia e do mercado especializa-  
do, cujos efeitos se fazem sentir entre os skatistas tanto no plano cotidiano quanto no profissional.  
3 O SKATE PARA ALÉM DO ESPORTE  
Conforme visto até aqui, a atuação de inúmeros agentes e instituições ligadas ao campo esportivo  
do skate tem sido de suma importância para colocá-lo em um patamar espetacularizado. O seu  
processo de esportivização chegou a tal ponto que o Comitê Olímpico Internacional (COI) o incluiu  
como modalidade olímpica a partir das Olimpíadas de Tóquio 2020, realizadas em 2021 devido à  
pandemia. Para representantes de outros esportes, esta oportunidade possivelmente seria muito  
bem avaliada; afinal, tornar-se uma modalidade olímpica confere prestígio e legitimidade, além de  
possibilitar a captação de recursos do poder público e da iniciativa privada. No universo do skate,  
6
Visualidades urbanas no skate  
entretanto, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, sua inclusão nas Olimpíadas tornou-se  
uma polêmica de grandes proporções.  
Bob Burnquist, renomado skatista brasileiro, já foi campeão de muitas competições importantes  
em nível internacional, o que lhe possibilitou ser capa de diversas revistas, personagem de jogos  
de videogame, protagonista de filmes e um dos esportistas mais bem pagos do mundo. Ainda as-  
sim declarou que as Olimpíadas precisam mais do skate, do que o skate das Olimpíadas (Revista  
CemporcentoSkate, 2012, n. 44). Adelmo Jr., outro skatista profissional brasileiro com carreira  
internacional, também direcionou suas críticas contra a captura do skate pelas Olimpíadas. Em  
sua perspectiva, a prática do skate não deve ser somente pautada pelas regras consolidadas por  
entidades esportivas e demais instituições.  
O jornalista Marcelo Viegas (2012), por sua vez, reitera a perspectiva de Adelmo Jr. Embora reco-  
nheça que muitos praticantes se posicionam a favor do skate nas Olimpíadas, em matéria especial  
publicada sobre o tema na revista CemporcentoSkate, em 2012, ressalta que dá para afirmar com  
relativa segurança que a maioria dos skatistas não demonstra interesse em ver o skate transfor-  
mado em esporte olímpico. Muito desse desinteresse, segundo o jornalista, vem do fato de o skate  
atual não ter um foco nas competições. A mesma matéria salienta que as competições existem e  
que algumas até distribuem premiações milionárias. Entretanto, o desenvolvimento de carreiras  
pode ser feito sem competir. A cultura da foto e do vídeo é um patrimônio valioso que o skate con-  
quistou nesses anos todos e que também reforça sua aproximação com as artes.  
Becky Beal (2003) foi uma das primeiras pesquisadoras a focar a protuberância desta resistência  
à dimensão esportiva enquanto um dos princípios norteadores do universo do skate. A pesqui-  
sadora abordou, em sua etnografia realizada em meados da década de 1990, a reação de alguns  
skatistas a certas regras que lhes eram impostas e como as suas condutas se distanciavam daque-  
las propagadas pelo mainstream sport5. A pesquisa de Beal (2003) revelou que a resistência se  
exprimia por meio de dois aspectos centrais, a saber: controle da participação e desvalorização da  
competitividade. Quanto ao primeiro aspecto, percebeu que muitos skatistas se sentiam atraídos  
pelo skate por poderem decidir como, onde e quando praticá-lo.  
Essa falta de formalidade lhes permitia relativa liberdade para expressar seus próprios gostos e  
preferências, ao contrário do que ocorria no domínio do mainstream sport, onde a imposição de  
normas e programação era considerada muito mais estrita. Já em relação ao segundo aspecto, a  
pesquisadora constatou que algumas atitudes competitivas eram vistas com certo desdém pelos  
skatistas. Ao acompanhar um campeonato de skate em Colorado (Estados Unidos), testemunhou  
diversas condutas que subvertiam propositalmente as regras estabelecidas pela entidade espor-  
tiva promotora do evento. A competitividade era rechaçada em prol da sociabilidade e de outros  
comportamentos entre aqueles que, em tese, deveriam ser oponentes6. Beal (2003, p. 340) conjec-  
tura então que a condescendência a esses aspectos – controle da participação e desvalorização da  
competitividade – é fundamental para que um praticante possa ser considerado um core skater,  
ou seja, um “autêntico skatista”7:  
5
Mainstream sport é um termo utilizado por muitos pesquisadores, dentre eles Beal (2003), para abarcar esportes espeta-  
cularizados e organizados por meio de ligas profissionais (basquete, futebol, beisebol, etc.).  
A proeminência da sociabilidade em competições de skate, em detrimento da competitividade, também foi analisada, em  
6
contexto nacional, por Machado (2012).  
Análises específicas acerca dos que se consideram core members (skatistas autênticos) também podem ser encontradas em  
7
Wheaton (2004) e Donnelly (2006).  
7
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
O skate se desenvolve a partir de valores que encorajam cada indivíduo a criar uma forma  
personalizada de praticá-lo. O participante identifica seus próprios critérios em relação aos  
procedimentos, objetivos e estilo de treinamento. A internalização e a personalização des-  
ses valores são fundamentais para ser aceito como um skatista legítimo (Beal; Weidman,  
2003, p. 340, tradução nossa)8.  
A prática do skate era encarada por muitos interlocutores de Beal (2003) mais como um estilo de  
vida do que um esporte. Nesse sentido, o reconhecimento atribuído a um skatista se dava não ape-  
nas em razão de suas habilidades técnicas, mas também por conta de seu comprometimento e de  
seu posicionamento crítico frente às incorporações comerciais e esportivas do skate e às eventuais  
formas burocratizadas de gerenciamento de sua prática. Aqueles que não demonstravam essas  
atitudes, como os novos praticantes, por exemplo, mas que o praticavam apenas como um “es-  
porte da moda, eram taxados de posers, visto que agiam de acordo com certas regras de conduta  
esperadas por entidades esportivas e não questionavam os produtos e as operações impostas pela  
comercialização do skate. De acordo com a pesquisadora, para se distanciarem dessas acusações  
e buscarem autenticidade perante os demais, muitos de seus interlocutores afirmavam posicio-  
namentos marcados por autoexpressão, criatividade e capacidade de escolha, características que  
comumente eram relacionadas à figura de um core skater.  
Quem também analisou a resistência como uma expressão basilar do estilo de vida skatista foi  
Lisa Weidman (2003). Assim como Beal (2003), esta pesquisadora interessou-se pelos aspectos  
distintivos que supostamente propiciavam autenticidade; no entanto, em vez de focar apenas a  
prática cotidiana, optou por investigar a comercialização do skate e o seu impacto entre os skatis-  
tas. Como a contestação a certos princípios comerciais era corriqueira, muitas empresas especia-  
lizadas na fabricação de peças e demais produtos se preocupavam em zelar pelas suas respectivas  
imagens de modo que fossem bem-vistas aos olhos de sua clientela. Weidman (2003) identificou  
três estratégias principais adotadas pelas empresas: autoseleção; patrocínios a skatistas, e pro-  
pagação de princípios valorizados neste universo através de anúncios publicados em revistas de  
skate. A adesão a essas estratégias potencializaria, em sua perspectiva, a chance de uma empresa  
ser aceita pelos praticantes mais exigentes, isto é, pelos core skaters:  
Certas pessoas são mais propensas a serem bem-sucedidas como empreendedoras de ska-  
te do que outras. Indiscutivelmente, o fator mais importante que afeta o sucesso de uma  
empresa é se o proprietário entende ou não a cultura do skate. Se o proprietário demons-  
trar um bom entendimento da cultura do skate, os skatistas considerarão a empresa autên-  
tica (Beal; Weidman, 2003, p. 346, tradução nossa)9.  
A pesquisa de Weidman (2003), a qual fora realizada nos Estados Unidos na década de 1990, des-  
velou que o principal elo entre praticantes e indústria do skate se dava através da atribuição de  
patrocínios. Alguns skatistas eram agraciados com roupas, calçados, peças, equipamentos e ajudas  
de custo e, quando profissionais, também recebiam salários e outros benefícios. Em troca, tais  
8
No original: “The skateboarding structure that developed from the values discussed above encouraged each individual to  
create a personalized form of skateboarding. Each participant identified his or her own criteria regarding training proce-  
dures, goals, and style. The internalization and personalization of these core values were central to being accepted as a  
legitimate member” (Beal; Weidman, 2003, p. 340).  
9
No original: “Certain people are more likely to be successful as skateboard entrepreneurs than others. Arguably the most  
important factor affecting a company’s success is whether or not the owner understands the skateboard culture. If the  
owner demonstrates a good understanding of skateboard culture, skaters will deem the company to be authentic” (Beal;  
Weidman, 2003, p. 346).  
8
Visualidades urbanas no skate  
skatistas representavam publicamente as marcas que os patrocinavam e contribuíam com a elabo-  
ração de seus produtos. Essa última medida lhes permitia exprimir traços de suas respectivas per-  
sonalidades através de pro models, ou seja, de variados produtos que levavam as suas assinaturas.  
Segundo Weidman (2003), o lançamento de pro models era algo que possibilitava autenticidade e  
reconhecimento a uma marca, já que, ao permitir a participação de skatistas profissionais em suas  
ações comerciais, ela se distanciava da possível acusação de estar inserida no universo do skate  
apenas para lucrar10.  
Os skatistas patrocinados também necessitavam produzir fotos para figurar em anúncios publici-  
tários publicados em revistas de skate. A pesquisadora averiguou que estes anúncios, além de de-  
monstrarem as habilidades técnicas, também expressavam aspectos promotores de autenticidade  
a um core skater, como os que já foram elencados por Beal (2003). Em razão disso, a fim de enalte-  
cer a resistência como um atributo importante do universo do skate, muitas marcas utilizavam em  
suas campanhas fotos de skatistas fumando, tomando bebidas alcoólicas, realizando manobras em  
locais proibidos, enfrentando policiais ou seguranças, e se divertindo em cima de um objeto cujo  
sentido para a sua realização era menos o competitivo, e sim o prazer individual. Weidman (2003,  
p. 350) concluiu que:  
Os anúncios da indústria do skate não autenticam os skatistas. Na verdade, o inverso é  
verdadeiro; os skatistas que leem as revistas e veem os anúncios são juízes críticos que  
avaliam a autenticidade dos anúncios. Se um anúncio for considerado autêntico, o anun-  
ciante será respeitado. Caso contrário, o anunciante perderá credibilidade aos olhos dos  
skatistas e terá que trabalhar muito para superar essa reputação (Beal; Weidman, 2003, p.  
350, tradução nossa)11.  
Em nossas pesquisas realizadas em contexto nacional, também buscamos compreender como a  
prática do skate foi se apresentando, ou sendo classificada como um esporte, sem deixar de pro-  
blematizar sua dimensão esportiva como a única forma legítima e socialmente aceita de organi-  
zação. Nesse sentido, Leonardo Brandão (2014) constatou que desde a ascensão do skate no país,  
cujos primórdios remetem ao final da década de 1960, “houve uma série de agentes que buscou  
conduzir o skate para o campo rentável, organizado e politicamente correto do esporte (inclusive  
associando o skatista à figura do atleta e/ou do campeão), entretanto, “também existiu um con-  
junto de outras ações, práticas e discursos que levaram (e ainda levam) muitos skatistas a não se  
reconhecerem neste ponto de atração que se tornou o esporte na contemporaneidade” (Brandão,  
2014, p. 19). Deste modo,  
Se ao longo da história dessa atividade alguns empresários e skatistas mostraram-se inte-  
ressados na transformação dessa prática num esporte – aceitável e economicamente viá-  
vel – delimitando regras, participando da organização de campeonatos e criando grupos e  
associações, também não faltaram aqueles que o identificaram como “arte, liberdade” ou  
ainda um meio de transporte “de uma diversão para outra” (Brandão, 2014, p.19).  
10  
Nem todas as estratégias adotadas por certas marcas são bem-sucedidas. As ações da Nike, por exemplo, foram intensamente  
questionadas pelos skatistas na década de 1990; logo, a marca não conseguiu se inserir no mercado especializado em skate.  
Somente após os anos 2000, quando novas posturas foram adotadas, a Nike conseguiu se estabelecer neste universo.  
No original: “Skate industry ads do not authenticate skateboarders. In fact, the reverse is true; the skaters who read the  
11  
magazines and see the ads are critical judges who evaluate ads for their authenticity. If an ad is deemed authentic, the ad-  
vertiser will be respected. If not, the advertiser will lack credibility in the eyes of skateboarders and will have to work very  
hard to overcome this reputation” (Beal; Weidman, 2003, p. 350).  
9
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
Em vista disso, enfatiza que “a análise histórica do skate pode demonstrar tanto resistências ao  
modelo de gerenciamento da corporalidade quanto, também, de adesão ao esporte como um guia  
ser seguido e incorporado” (Brandão, 2014, p. 21). Essa constatação também se reflete em tempos  
recentes. Giancarlo Machado (2014), em investigações realizadas na última década, participou de  
inúmeras situações aparentemente paradoxais que reverberam os múltiplos caminhos trilhados  
pelo skate no país. Dentre elas, a maioria tivera como referência as ações da Confederação Brasi-  
leira de Skate (CBSk), entidade criada em 1999 para regulamentar as normas e políticas voltadas  
ao desenvolvimento do skate em âmbito nacional.  
A confederação possui várias finalidades, tais como desenvolver, divulgar, fomentar a prática e or-  
ganizá-la como esporte, além de representá-la no Brasil perante os poderes públicos e demais es-  
feras da sociedade civil. Além disso, conforme descrito em seu site oficial, a CBSk busca institucio-  
nalizar e fiscalizar regras de competição e de conduta esportiva, difundir normas para a realização  
de eventos competitivos, administrar rankings nacionais, promover reuniões entre praticantes,  
profissionais e empresários do mercado, e ainda zelar pela imagem do skate enquanto esporte12.  
Apesar de influente, a atuação da CBSk não centraliza rigorosamente os rumos da profissionali-  
zação do skate no país. Isto se deve, sobretudo, ao fato de a entidade prezar sobremaneira pelos  
sentidos esportivos do skate em detrimento de tantos outros. É o que revela o jornalista Matias  
Maxx (2021), em reportagem publicada no Portal UOL:  
Promover um amador a profissional do skate é uma atribuição da CBSk. [...] O problema é  
a visão restrita sobre o que é ser profissional, para a CBSk. O tão almejado registro é dado  
exclusivamente a esses atletas que participam de campeonatos e competições, e não aos  
que vivem do lifestyle e das chamadas video parts, espécie de diário patrocinado de skatis-  
tas ou grupos de skate, em viagens ou em suas áreas, mostrando manobras e o dia a dia dos  
praticantes.  
Nessas circunstâncias, conforme também averiguado etnograficamente por Machado (2022), a  
entidade constantemente é desafiada por outras formas de agenciamento que colocam em xeque  
as suas deliberações e direcionamentos estratégicos. Nos próximos subtópicos serão apresenta-  
dos exemplos que evidenciam como as suas regras impostas têm sido subvertidas ou relegadas  
taticamente, a partir de intenções diversas.  
3.1 Profissionalização por outras vias  
A CBSk batalha há anos para regulamentar a profissionalização do skate no Brasil. Em razão  
disso, criou uma série de critérios para avaliar se um skatista está apto a atingir a principal  
categoria da prática. Para que isso ocorra, o praticante deve fazer um pedido formal à entidade,  
que, por meio de comitês formados por skatistas profissionais, fica responsável por julgar o  
histórico apresentado pelo candidato. São analisados os seguintes aspectos: se o skatista possui  
patrocinadores dispostos a pagar salário para que ele possa realizar seu trabalho em condições  
adequadas; aparições na imprensa especializada, tais como capas de revista, entrevistas e par-  
tes em vídeos; nível técnico; grau de popularidade em todo o país; e, claro, boas colocações em  
importantes campeonatos.  
12  
10  
Visualidades urbanas no skate  
Ricardo “Dexter” é um dos skatistas paulistanos que têm se destacado nos últimos anos. É deten-  
tor de habilidades técnicas acentuadas, possui vários patrocinadores e frequentemente figura em  
reportagens produzidas pela mídia especializada. Ademais, também foi um dos protagonistas do  
“Rota Explosiva, programa produzido pelo canal MTV Brasil. “Dexter, após anos como skatista  
amador, resolveu que em 2015 se tornaria skatista profissional. Com a anuência de seus patrocina-  
dores, entrou com o pedido formal junto à CBSk e, para sua surpresa, a sua profissionalização fora  
negada. Ele não teria direito à carteirinha de competidor emitida pela entidade, a qual é respon-  
sável pela organização do circuito brasileiro de skate profissional. O skatista não concordou com  
a decisão tomada pelo comitê e, mesmo assim, resolveu declarar a sua passagem para a principal  
categoria do skate. Apesar de não ter a chancela da entidade, “Dexter” seria amparado pelos seus  
patrocinadores, que ficaram responsáveis por investir em sua carreira.  
Para marcar a sua profissionalização, o skatista lançou um vídeo em que demonstra as suas prin-  
cipais habilidades técnicas nas ruas. E para zombar da decisão promulgada pela CBSk, intitulou a  
produção de “Pro-blemático” e, a partir da sua divulgação, cedeu a seguinte declaração a um site  
especializado em skate:  
Black Media: A CBSK negou seu pedido de profissionalização esse ano. Você ficou puto?  
Algum rancor? Engoliu seco?  
Ricardo “Dexter”: Na verdade, entrei com esse “pedido de profissionalização” por respeito  
à entidade CBSK, mas, da mesma forma que recebi a notícia, ela foi ignorada tanto por mim  
quanto pelos meus patrocinadores. Talvez eles esperassem que eu chorasse e me sentisse  
um merda, mas, pelo contrário, foi motivo de risada e uma rodada a mais de cerveja! (Black  
Media Skate, 2014b, s.p.).  
3.2 Festa e sociabilidade: competitividade suspensa  
Skate, hardcore, cerveja e churrasco. Foi a partir da junção desses atrativos que dois skatistas  
resolveram promover o Rheumatic Hardcore Sessions, evento realizado em outubro de 2014 na  
cidade de Piracicaba, São Paulo. Inúmeros sites, revistas e demais canais de comunicação especia-  
lizados em skate divulgaram essa atração, que fora enaltecida como uma “verdadeira e legítima  
skate party13 e como “um dos melhores eventos do país”14.  
A festa reuniu praticantes de distintas gerações, categorias e modalidades do skate. Skatistas bra-  
sileiros renomados, muitos deles com carreira esportiva internacional, como Sandro Dias “Mineiri-  
nho, Pedro Barros, Ronaldo Gomes, etc., estiveram no evento e se misturaram aos demais presen-  
tes. Ao redor da pista havia centenas de pessoas que assistiam às manobras realizadas. Algumas  
delas, inclusive, resolveram instalar uma churrasqueira ao lado de um obstáculo. Na parte oposta  
foi montado um palco para shows, onde bandas de hardcore se revezavam em suas apresentações.  
O clima era muito efervescente. A pista estava lotada, portanto, tombos e trombadas eram inevitá-  
veis. A maioria dos praticantes não usava nenhum tipo equipamento de proteção, logo, lesões tor-  
naram-se corriqueiras. Não havia nenhuma formalidade na sessão de skate que se estabelecera. A  
13  
“Rheumatic Hardcore Sessions em Piracicaba. Disponível em https://web.archive.org/web/20120714065531/http://  
cemporcentoskate.uol.com.br/fiksperto/rheumatic-hard-core-session-em-piracicaba.  
14  
diaskate.com/site/?p=10471.  
11  
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
principal motivação era, segundo diversos presentes, a diversão. O consumo de bebidas alcoólicas  
também era intenso. Uma marca de cerveja criada por skatistas, chamada Layback Beer, abastecia  
os consumidores com seus produtos.  
Os organizadores aproveitaram a festa para organizar uma competição inusitada, que não teria  
apenas um vencedor: todos os participantes, independentemente do nível técnico, teriam a chance  
de conquistar ao menos uma das dezenas de premiações oferecidas (peças, roupas, tênis, dinheiro,  
etc.). Para isso, bastava acertar qualquer manobra. A intenção era diluir a competitividade em prol  
da confraternização entre os presentes. O evento também ficou marcado por uma série de situa-  
ções inusitadas, como uma homenagem a Bruno “Brown, considerado uma “lenda do skate brasi-  
leiro, que havia falecido poucos dias antes de sua realização. Para homenageá-lo, um obstáculo foi  
feito em formato de um caixão, sendo este colocado de cabeça para baixo na borda de uma rampa.  
O Rheumatic Hardcore Sessions marcou o skate brasileiro por celebrar alguns de seus múltiplos  
sentidos e por desestabilizar estratégias institucionalizadas de gerenciamento de sua prática. A  
sua ocorrência evidencia não somente a reação contra eventuais cooptações, mas também a pro-  
tuberância da sociabilidade, da criatividade, da transgressão e da conexão com demais universos,  
como o da música, como mote para produção de outras formas de visibilidade e reconhecimento.  
A repercussão em canais da mídia especializada em skate é a prova disso.  
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS  
A popularização da internet e o acesso ampliado a equipamentos eletrônicos, como celulares, câ-  
meras e filmadoras, vêm expandindo consideravelmente as possibilidades profissionais no uni-  
verso do skate. Tais recursos, aliados ao fomento promovido por agentes da mídia e do merca-  
do especializado, permitem registrar, difundir e comercializar experiências corporais, espaciais  
e relacionais que não se limitam ao domínio da competição esportiva. Como já observado por  
Bastos (2006, p. 87), a própria configuração contemporânea do skate “se movimenta no sentido  
de atribuir maior valor aos filmes e revistas que competições, passando estes dois instrumentos a  
receber maior relevância, paulatinamente.  
Esse deslocamento evidencia que a profissionalização no skate não se define exclusivamente pelo  
desempenho técnico ou pelo êxito em rankings oficiais. Conforme se buscou demonstrar ao longo  
deste artigo, envolve também a produção e a gestão de visualidades urbanas. Nesse caso, a noção  
de visualidade ultrapassa o simples uso de imagens fotográficas ou videográficas, referindo-se  
igualmente às formas pelas quais a prática do skate e seus praticantes passam a ser socialmente  
representados, percebidos e legitimados. Cultivar uma imagem pública, figurar em revistas, parti-  
cipar de vídeos, circular por diferentes cidades, integrar redes de sociabilidade e marcar presença  
em eventos festivos constituem estratégias fundamentais para a construção de reconhecimento.  
A fala do skatista Carlos Iqui é elucidativa nesse sentido:  
De forma natural, pretendo ficar mais dois anos como amador, fazer matérias em revistas,  
tomar parte em vídeos, disputar campeonatos. Antes de me tornar profissional, quero fazer  
algumas coisas que acho importante, como ir para o exterior. Passar para o profissiona-  
lismo no Brasil é muito difícil, é preciso cultivar uma imagem antes, conseguir um certo  
reconhecimento pela maneira como anda de skate enquanto amador para se tornar um  
profissional de respeito (Revista SKT, 2008, p. 34).  
12  
Visualidades urbanas no skate  
A partir dessa declaração, torna-se possível compreender que a profissionalização no skate de-  
pende não apenas da competência esportiva, mas também da capacidade de produzir visibilidade  
e reconhecimento em circuitos específicos da mídia, do mercado e da sociabilidade skatista. Em  
cada uma dessas iniciativas, o que está em jogo é a disputa por legitimidade em um campo marca-  
do por múltiplas formas de reconhecimento. Trata-se de um processo que articula corpo, imagem  
e cidade, no qual aparecer publicamente significa inscrever-se em circuitos simbólicos específicos  
e disputar posições no interior de um universo social heterogêneo.  
Essa visibilidade implica também a divulgação de patrocinadores responsáveis pelo sustento fi-  
nanceiro da carreira, mas não se reduz a uma lógica estritamente mercadológica. Ela envolve per-  
formances, estilos e atitudes que produzem subjetividades e moldam formas de existir no espaço  
urbano. Nesse contexto, o profissional do skate é também personagem público, cuja imagem circu-  
la e influencia outros praticantes. Como afirma Reinaldo Caruso, em matéria publicada na revista  
CemporcentoSkate:  
O fato é que profissionalismo, no skate, não se resume a andar bem de skate. Existe uma  
série de atributos que o profissional deve ter. Resumidamente, ser profissional é uma res-  
ponsabilidade muito maior do que se imagina. Como personagem influente, ele deve ter  
em mente que está lidando com pessoas que muitas vezes ainda não tem a personalidade  
formada e que vão absorver as suas atitudes (Caruso, 2011, p. 56).  
As diferentes lógicas que atravessam o skate – esportiva, midiática, mercadológica, festiva e artís-  
tica – não são necessariamente excludentes. Elas coexistem e são mobilizadas estrategicamente  
pelos próprios skatistas. Embora o processo de esportivização, analisado a partir das contribui-  
ções de Elias e Dunning (1992), tenha consolidado regras, instituições e formas específicas de  
gerenciamento da prática, isso não produziu homogeneidade plena. Ao contrário, o skate segue  
atravessado por disputas acerca dos critérios legítimos de reconhecimento, profissionalização e  
visibilidade. Nesse sentido, a noção de campo esportivo proposta por Bourdieu (1983; 2004) mos-  
tra-se produtiva para compreender as tensões entre entidades esportivas, mídia especializada,  
mercado e praticantes na definição dos sentidos socialmente legítimos do skate.  
A própria transformação histórica da imagem social do skate evidencia esse processo. Durante  
décadas associado à marginalidade, à desordem urbana e à figura do “vagabundo, o skate passou  
progressivamente a ser incorporado por políticas públicas, grandes eventos esportivos, corpo-  
rações transnacionais e mercados culturais, tornando-se uma prática amplamente valorizada e  
economicamente rentável. Transformações semelhantes podem ser observadas em diferentes ci-  
dades e regiões brasileiras, nas quais práticas juvenis anteriormente vistas como desviantes pas-  
saram gradualmente a ocupar espaços institucionalizados de lazer, consumo e espetáculo. O skate  
integra, assim, um conjunto mais amplo de disputas contemporâneas em torno da visibilidade, da  
legitimidade e da produção social de reconhecimento no espaço urbano.  
Ao dialogar com a antropologia urbana e visual, este artigo buscou evidenciar que o skate cons-  
titui uma arena privilegiada para compreender como visualidades operam na produção de sub-  
jetividades, sociabilidades e hierarquias citadinas. O visível, nesse universo, não é mero efeito da  
exposição midiática, mas resultado de disputas simbólicas e de táticas de existência que articulam  
corpo, cidade e imagem. Assim, a profissionalização no skate, para além do esporte, revela não  
apenas novas formas de trabalho e reconhecimento, mas também modos contemporâneos de pro-  
duzir presença, pertencimento e legitimidade na vida urbana.  
13  
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
Agradecimentos  
Giancarlo Marques Carraro Machado, um dos autores do artigo, agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento  
Científico e Tecnológico (CNPq) pela concessão da Bolsa de Produtividade em Pesquisa, bem como à Fundação de Am-  
paro à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo financiamento de seu estágio pós-doutoral no Instituto de  
Sociologia da Universidade do Porto, Portugal, e das pesquisas desenvolvidas no âmbito do Núcleo Citadino, sob sua  
coordenação na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).  
Financiamento  
CNPq / FAPEMIG.  
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15  
Giancarlo Marques Carraro Machado; Leonardo Brandão  
Urban visualities in skateboarding:  
disputes over recognition and  
professionalization beyond sport  
Visualidades urbanas en el skate: disputas  
por reconocimiento y profesionalización  
más allá del deporte  
Abstract  
Resumen  
This article analyzes the process of sportification  
of skateboarding in Brazil and its implications for  
the professionalization of practitioners within a  
context shaped by disputes over visibility. Based  
on a historical reconstruction of skateboarding’s  
consolidation as an institutionalized sport, it exa-  
mines tensions among regulatory entities, specia-  
lized media, the market, and skaters themselves. It  
argues that, beyond competitive logics and rankin-  
gs, professionalization involves the production and  
management of urban visualities. Photographs, vi-  
deos, events, and creative appropriations of urban  
space constitute key devices in the construction of  
recognition. By understanding visuality as perfor-  
mance and political resource, the article demons-  
trates how images, bodies, and urban practices  
participate in the production of subjectivities and  
in the negotiation of positions within the field of  
the visible, contributing to debates in urban and vi-  
sual anthropology.  
El artículo analiza el proceso de deportivización  
del skate en Brasil y sus implicaciones para la pro-  
fesionalización de los practicantes en un contexto  
atravesado por disputas de visibilidad. A partir de  
una reconstrucción histórica de la consolidación  
del skate como modalidad institucionalizada, se  
examinan las tensiones entre entidades regulado-  
ras, medios especializados, mercado y los propios  
skaters. Se sostiene que, más allá de las lógicas  
competitivas y de los rankings, la profesionaliza-  
ción implica la producción y gestión de visualida-  
des urbanas. Fotografías, videos, eventos y ocupa-  
ciones creativas del espacio urbano constituyen  
dispositivos centrales en la construcción de reco-  
nocimiento. Al abordar la visualidad como perfor-  
mance y recurso político, el artículo demuestra  
cómo imágenes, cuerpos y prácticas urbanas par-  
ticipan en la producción de subjetividades y en la  
negociación de posiciones en el campo de lo visib-  
le, contribuyendo a los debates de la antropología  
urbana y visual.  
Keywords: Skateboarding; Urban visualities; Pro-  
fessionalization; City; Sociability.  
Palabras clave: Skate; Visualidades urbanas; Pro-  
fesionalización; Ciudad; Sociabilidades.  
Histórico  
Recebido: Fevereiro/26  
Primeiro Parecer: Abril/26  
Segundo Parecer: Maio/26  
Aceito: Maio/26  
Revisão Gramatical/Ortográfica e ABNT: Junho/26  
Revisado Autor: Junho/26  
Publicado: Julho/26  
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo  
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)  
Ítalo Gordiano de Cerqueira (Editor Assistente Júnior)  
Contato: revistatomo@gmail.com  
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