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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24592, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24592  </line>
    <line>Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  </line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>VISUALIDADES URBANAS NO SKATE:  </line>
    <line>disputas de reconhecimento e  </line>
    <line>profissionalização para além do esporte </line>
    <line>Giancarlo Marques Carraro Machado* 1 </line>
    <line>Leonardo Brandão** 2 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>O artigo analisa </line>
    <line>dos praticantes em um contexto atravessado por disputas de visibilidade. A partir de uma reconstituição  </line>
    <line>histórica da consolidação do skate como modalidade institucionalizada, examinam-se as tensões entre en- </line>
    <line>tidades reguladoras, mídia especializada, mercado e os próprios skatistas. Argumenta-se que, para além  </line>
    <line>das competitivas dos a envolve produção a de  </line>
    <line>urbanas. vídeos, e criativas cidade dispositivos na  </line>
    <line>construção de reconhecimento. Ao tratar a visualidade como performance e recurso político, o artigo de - </line>
    <line>monstra como imagens, corpos e práticas urbanas participam da produção de subjetividades e da negocia- </line>
    <line>ção de posições no campo do visível, contribuindo para os debates da antropologia urbana e visual.  </line>
    <line>Palavras-chaves: Skate; Visualidades urbanas; Profissionalização; Cidade; Sociabilidades. </line>
    <line>*   Universidade de Claros Programa Pós-Graduação Desenvolvimento (PPGDS),  </line>
    <line>Departamento Ciências Montes Minas Brasil. giancarlo.machado@unimontes.br Orcid:   </line>
    <line>https://orcid.org/0000-0001-7404-9737 Conceitualização; dos Análise Investigação;  </line>
    <line>Escrita do rascunho original; Escrita – revisão e edição. </line>
    <line>**   Universidade de nau Programa Pós-Graduação Desenvolvimento (PPGDR),  - </line>
    <line>partamento História Geografia. Santa Brasil. leobrandao@furb.br https://orcid. </line>
    <line>org/0000-0001-8306-1092 CrediT: Conceitualização; Tratamento dos dados; Análise Formal; Investigação; Escrita do ras-</line>
    <line>cunho original; Escrita – revisão e edição. </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
  </page>
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    <line>2 </line>
    <line>1 A PRÁTICA DO SKATE E OS SEUS SENTIDOS </line>
    <line>“Último lugar no ranking brasileiro profissional”. Foi com essa chamada, em letras garrafais, que  </line>
    <line>a Sick Mind, marca nacional especializada em produtos para skate, anunciou o lançamento do  </line>
    <line>modelo de shape, é, prancha madeira, pelo profissional Troy.  </line>
    <line>Para adeptos de muitos esportes, tal anúncio publicitário poderia soar estranho, visto que o mais  </line>
    <line>cobiçado por atletas, equipes e seus respectivos patrocinadores é o êxito em competições. No caso  </line>
    <line>apresentado, todavia, a marca patrocinadora valorizou justamente o contrário do comumente es- </line>
    <line>perado: o fracasso do skatista em um circuito profissional realizado no país. Mais do que uma ação  </line>
    <line>irreverente, essa estratégia evidencia como o skate constitui um campo de produção de visualida- </line>
    <line>des urbanas no qual derrota, ironia e transgressão podem ser convertidas em capital simbólico.  </line>
    <line>Nesse universo, a cidade não é apenas cenário, mas  lócus de inscrição de imagens e performances  </line>
    <line>que produzem reconhecimento e disputam sentidos sobre modos de existir no espaço urbano. </line>
    <line>Com esportivização muitas corporais, cumprimento regras, competitivida- </line>
    <line>de, meritocracia o de técnicas exigências  </line>
    <line>É preciso disciplina e eficácia para vencer disputas, controlar tensões, dominar o tempo e superar  </line>
    <line>os limites do corpo. No caso do skate, contudo, tais posturas nem sempre se exprimem com afinco.  </line>
    <line>Ser campeão ou tornar-se atleta de ponta, embora seja meta de muitos, não constitui horizonte  </line>
    <line>consensual, inclusive entre profissionais. Nessa mesma direção, Douglas Prieto (2011), então edi - </line>
    <line>tor da revista CemporcentoSkate, afirmou que o universo do skate é rodeado por palavras “maldi - </line>
    <line>tas”, como “atleta”, “campeão” e “treinar”. A recusa a esses termos sugere que, para além da lógica  </line>
    <line>esportiva, estão em jogo formas alternativas de reconhecimento e visibilidade que atravessam o  </line>
    <line>cotidiano citadino.  </line>
    <line>Diante e muitos exemplos, indagar: que com parcela  </line>
    <line>de skats renomados profissionais, rejeite rótulos e princípios caros ao espor - </line>
    <line>te competitivo? Há outras formas de obter prestígio e visibilidade no universo do skate, bem como  </line>
    <line>conquistar condição para daquelas em e Em  </line>
    <line>medida a mídia e o mercado especializado reconfiguram as possibilidades de profissionalização a  </line>
    <line>partir suas lógicas? quais impactos direcionamentos experiência - </line>
    <line>diana da prática?  </line>
    <line>Tais questões permitem deslocar o olhar da profissionalização estritamente esportiva para a aná - </line>
    <line>lise políticas visualidade atravessam skate. compreender fotos,  </line>
    <line>vídeos, festas, ocupações criativas do espaço urbano e aparições midiáticas operam como dispo - </line>
    <line>sitivos de visibilidade, produzindo subjetividades, hierarquias e formas alternativas de reconhe - </line>
    <line>cimento. sentido, skate ser como que corpo, e  </line>
    <line>cidade, inscrevendo no espaço urbano disputas sobre quem pode aparecer, de que maneira e sob  </line>
    <line>quais critérios de legitimidade. </line>
    <line>Para responder a tais perguntas, este artigo objetiva reconstituir determinados fatos que propor- </line>
    <line>cionaram o processo de esportivização do skate para analisar algumas disposições que perpassam  </line>
    <line>seu campo no Do de metodológico, estudo análise  - </line>
    <line>cumental e midiática, especialmente de revistas especializadas, matérias jornalísticas, anúncios  </line>
    <line>publicitários e produções audiovisuais, com dados provenientes de pesquisas já realizadas sobre  </line>
    <line>a prática do skate no Brasil. Tal abordagem permite articular a dimensão histórica do processo de  </line>
    <line>esportivização às dinâmicas contemporâneas de produção de visibilidade.</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3 </line>
    <line>Desta inicial então, problematizações consideram posicio - </line>
    <line>namento crítico tanto de skatistas quanto de agentes vinculados à mídia e ao mercado especia - </line>
    <line>lizado em skate frente às capturas esportivas. As falas de praticantes, entrevistas publicadas em  </line>
    <line>periódicos especializados e registros de eventos foram analisados como material empírico privi- </line>
    <line>legiado, compreendidos aqui não apenas como fontes informativas, mas como produções discur - </line>
    <line>sivas que participam ativamente da construção do campo do visível. Serão enfocadas eventuais  </line>
    <line>resistências a lógicas que se propõem hegemônicas, como as balizadas por entidades esportivas, o  </line>
    <line>que vem proporcionando, com efeito, a ampliação de sentidos não apenas para a prática do skate,  </line>
    <line>mas também para a profissionalização de seus adeptos.     </line>
    <line>A da esportiva realizada partir contribuições Norbert e  </line>
    <line>Dunning (1992), com o conceito de processo de esportivização, e de Pierre Bourdieu (1983; 2004),  </line>
    <line>com a noção de campo esportivo. Já os tensionamentos promovidos por skatistas e agentes da  </line>
    <line>mídia e do mercado especializado serão examinados à luz de pesquisas sobre o cotidiano da prá- </line>
    <line>tica, as de Beal Lisa (2003), como históricos  </line>
    <line>etnográficos no brasileiro 2011; Machado, 2022).  </line>
    <line>Ao esse de e empíricas, articular teórica  </line>
    <line>interpretação privilegiando leitura visualidades práticas - </line>
    <line>mente situadas e atravessadas por relações de poder.  Assim, analisar profissionalização  </line>
    <line>skate para além do esporte, busca-se contribuir para os debates da antropologia urbana e visual,  </line>
    <line>entendendo o visível como campo de disputa e como dimensão constitutiva das formas contem- </line>
    <line>porâneas de sociabilidade citadina. </line>
    <line>2 QUANDO UMA BRINCADEIRA SE TORNA UM ESPORTE </line>
    <line>Desde entrada esporte Jogos há aquecimento bilionário  - </line>
    <line>cado skate. contraponto a e profissionalização um que, </line>
    <line>lá no passado, era conhecido por atrair “vagabundos” - em 1988, o então prefeito de São  </line>
    <line>Paulo, Jânio Quadros, chegou a proibir a prática do skate na cidade (Maxx, 2021). </line>
    <line>Diversas já veiculadas jornais, e com intuito apresentar  </line>
    <line>aos leitores uma prática esportiva que tem atraído a atenção não só de crianças, jovens e adultos  </line>
    <line>em busca de prazer e adrenalina, mas também de empresários dispostos a investir em algo que  </line>
    <line>se difundiu por várias partes do mundo. Em tais reportagens geralmente são enfatizados certos  </line>
    <line>sentidos que atravessam o universo do skate.  </line>
    <line>Essa ção clara os títulos: ‘vagabundos’, radicais  </line>
    <line>aposta no esportivo”, uma no UOL 2012); ain- </line>
    <line>da de a noticiou revista (2010). modo possível  </line>
    <line>perceber que aquilo que antes era considerado “marginal”, uma prática de “vagabundos” que in- </line>
    <line>clusive já fora proibida na cidade de São Paulo em 1988 pelo então prefeito Jânio Quadros 1, tor- </line>
    <line>nou-se, com o passar do tempo, “um esporte milionário”, uma “prática saudável” ou até mesmo um  </line>
    <line>“trabalho” e uma “fonte de renda”2.  </line>
    <line>1  A prática do skate já foi proibida em diversas cidades brasileiras. Para uma abordagem acerca das proibições, ver Brandão  </line>
    <line>(2014) e Machado (2022). </line>
    <line>2    Para outras an</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4 </line>
    <line>Com o já é o de atrás, agora um espeta- </line>
    <line>cularizado. reverbera, bem por (2004) relação outras  </line>
    <line>esportivas, constituição de campo profissionais produção bens ser - </line>
    <line>viços esportivos, no interior do qual se desenvolvem interesses específicos.  </line>
    <line>A zação skate reflete considerável do de dessa  </line>
    <line>prática. Instituto publicou 2010 resultados uma encomendada  </line>
    <line>pela Brasileira Skate cujo principal medir penetração  </line>
    <line>praticantes skate lares bem obter perfil cada Os da  </line>
    <line>pesquisa, na CemporcentoSkate n. contabilizaram, época,  </line>
    <line>de (três e e mil) no O aponta  </line>
    <line>um aum </line>
    <line>no presente, acreditamos que o número de praticantes tenha aumentado consideravelmente, haja  </line>
    <line>vista a repercussão olímpica do skate a partir de sua incorporação nos Jogos Olímpicos de Tóquio  </line>
    <line>2020, que influenciou novos adeptos.</line>
    <line>Para se tornar um dos esportes de maior visibilidade no Brasil e no mundo, os sentidos que lhe foram  </line>
    <line>atribuídos por diversos agentes tiveram de passar por inúmeras mudanças ao longo de sua história,  </line>
    <line>ajustando-se conforme os interesses de cada situação. Algumas das principais mudanças, contudo,  </line>
    <line>ocorreram ainda nos primórdios dessa prática. O seu surgimento se deu graças à criatividade de cer - </line>
    <line>tos jovens estadunidenses, que resolveram anexar rodas de patins a uma tábua de madeira qualquer.  </line>
    <line>Não tanobjetivos a daquilo era um brinquedo,  </line>
    <line>tampouco preocupação a qualidade durabilidade. a do da  </line>
    <line>de o antes feito forma passou ser industrialmente a  </line>
    <line>ser em escala. skate uma naquele tal o ou  </line>
    <line>bambolê. entanto, tardaram emergir problemas dessa feita  </line>
    <line>rodinhas: machucados até mortes. pais preocupados a  - </line>
    <line>gurança seus e uso skates, tivera primeiro  boom nessa época, virou caso  </line>
    <line>de polícia. O documentário  Rouli-Roulant retrattal crianças jovens  </line>
    <line>a ser perseguidos por policiais por praticarem uma atividade perigosa que se distinguia dos tra- </line>
    <line>dicionais esportes coletivos então consolidados e aceitos socialmente – tais como futebol, rugby,  </line>
    <line>basquete e vôlei –, cujos princípios para a prática assentavam-se na disciplina, na competitividade,  </line>
    <line>no rendimento, na utilização de espaços definidos, no cuidado com o corpo. </line>
    <line>O número de adeptos do skate diminuiu consideravelmente em meados dos anos 1960. Os equipa- </line>
    <line>mentos de baixa qualidade, associados à repressão aos praticantes, desestimularam a propagação  </line>
    <line>da prática nos Estados Unidos da América, país onde se dera o seu surgimento. Entretanto, pouco  </line>
    <line>tempo após a sua “morte” 3, o skate ressurgiu com nova força devido a sua apropriação por parte de  </line>
    <line>adeptos de uma prática feita no mar: o surfe. Com a irregularidade das ondas em praias california- </line>
    <line>nas, surfistas das com e um sentido seu  </line>
    <line>uso. Após alterarem seus formatos, ficando semelhantes a uma pequena prancha, elas se tornaram  </line>
    <line>uma espécie de surfe sobre rodas. Através delas, os surfistas podiam, de certo modo, surfar a qual - </line>
    <line>quer momento e em muitos lugares, além de transpor alguns dos movimentos antes feitos dentro  </line>
    <line>d’água para diversos equipamentos e espaços encontrados pelas cidades.  </line>
    <line>3   O de com documentário and onde começou”, em teve sua  </line>
    <line>“morte” em meados da década de 1960.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>Por conta dessa proximidade com o universo do surfe, a prática do skate foi chamada de sidewalk  </line>
    <line>surfing , inicialmente, expressão que pode ser traduzida como “surfe de calçada”. Essa aproximação  </line>
    <line>entre ambas as práticas foi importante, principalmente para a consolidação e a aceitação do skate  </line>
    <line>em vários âmbitos, visto que aquilo que antes era feito de forma despretensiosa, aos poucos, foi  </line>
    <line>submetido a regras. Já os deslizamentos que ocorriam em ruas e ladeiras tomaram formas de ma- </line>
    <line>nobras, logo, surgiu a ideia de pontuá-las, classificá-las e julgá-las (Brandão, 2014), o que implicou  </line>
    <line>numa regrada corpo 2004). skate, no  4, construiu  </line>
    <line>suas próprias técnicas, experiências, códigos, símbolos e formas de sociabilidade.  </line>
    <line>Na obra “Em busca da excitação”, Elias e Dunning (1992) analisaram o processo de transformação  </line>
    <line>de passatempos divertimentos práticas na moderna. processo </line>
    <line>denominado pelos autores de esportivização, e se manifesta, sobretudo, com a criação de regras  </line>
    <line>para uma prática corporal e por meio da instituição de normas de conduta para os praticantes,  </line>
    <line>de a menos e Com nas de e (1992)  </line>
    <line>possível portanto, o desde final anos sujeitou-se um de </line>
    <line>esportivização, o qual fora responsável por transformar uma mera brincadeira numa atividade  </line>
    <line>esportiva e competitiva (Honorato, 2004; Brandão, 2014; Machado 2022). A partir disso, surgiram  </line>
    <line>muitas com intenção não padronizar técnicas (isto as  </line>
    <line>como também normatizar o comportamento e as atitudes daqueles praticantes que passaram a se  </line>
    <line>reconhecer como “skatistas”.  </line>
    <line>O processo de esportivização do skate contribuiu para que gradualmente fossem delineadas dis - </line>
    <line>tintas que a do campo De com  </line>
    <line>(1983), campo   existe um sistema de agentes e instituições ligados ao esporte, que  </line>
    <line>funciona como um campo que pode ser dotado de lutas e de investimentos de competência especí - </line>
    <line>ficas. Nesse sentido, o campo esportivo do skate passou a agregar ao longo do tempo a atuação de  </line>
    <line>múltiplos agentes e instituições, os quais se inseriram em uma dinâmica onde se revela relações  </line>
    <line>de engajadas distribuição um específico. vistas regulamentar skate  </line>
    <line>enquanto um esporte e a propagar um sentido tido como legítimo para o seu uso, tais agentes  </line>
    <line>(como profissionais mídia representantes poder etc.)  </line>
    <line>e (como esportivas, exemplo) disputado poder controlar  </line>
    <line>discursos, de definir comportamentos, de organizar competições, de “dar a ver” e “fazer crer” que  </line>
    <line>a prática do skate tem que ser feita de determinada maneira. </line>
    <line>Um dos caminhos encontrados para propagar a prática do skate e torná-la mais atrativa foi por  </line>
    <line>meio da promoção de grandes campeonatos (produzidos nos moldes de um espetáculo esportivo),  </line>
    <line>o propiciou, consequência, aumento ruptura praticantes e  </line>
    <line>amadores” 2004, 217). processo só a esportiva  </line>
    <line>do skate, mas também os modos pelos quais a prática passou a ser visualmente representada e  </line>
    <line>socialmente Realizados pistas skate considerados para  </line>
    <line>o uso), campeonatos são com em série regras - </line>
    <line>das entidades regulamentam prática, a Brasileira Skate  </line>
    <line>em nacional, a Skate âmbito E não por  </line>
    <line>entidades, as competições podem ser promovidas por canais de televisão, empresas, marcas ou  </line>
    <line>revistas especializadas.  </line>
    <line>4   Para reflexões sobre as representações do surfe na mídia, algo que se aproxima do universo do universo do skate, ver Fortes  </line>
    <line>(2011).</line>
  </page>
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    <line>6 </line>
    <line>Dentre exemplos espetáculos, válido a dos  X Games, tradicional  </line>
    <line>competição pelo ESPN, 1995, foco esportes como  </line>
    <line>“radicais”; Maloof Money Cup, competição que distribuiu, em 2011, a quantia de US$ 2 milhões aos  </line>
    <line>skatistas mais bem colocados; e Street League, liga de skate que reúne os considerados melhores  </line>
    <line>competidores do mundo. Em função do espetáculo proporcionado por essas e outras competições,  </line>
    <line>os eventos contam com o apoio de inúmeros patrocinadores dos mais diversos segmentos – mar- </line>
    <line>cas de bebidas, roupas, calçados, automóveis, alimentos, etc. – que investem consideráveis quan- </line>
    <line>tias em uma ação voltada a um público jovem, obtendo, assim, não só lucros exorbitantes, como  </line>
    <line>também a promoção de seus produtos.  </line>
    <line>O skate, em vista disso, passou a ser visto com bons olhos por muitas corporações, que estra- </line>
    <line>tegicamente associam suas marcas a essa prática, tendo em vista sobretudo os seus interesses  </line>
    <line>comerciais. A cidade de São Paulo, por exemplo, na última década sediou importantes feiras de  </line>
    <line>negócios que tiveram o skate como um dos principais focos. Soma-se a isso o crescente anseio de  </line>
    <line>multinacionais criar específicas atender demanda praticantes. o da </line>
    <line>Nike SkateBoarding, de da de  Nike, que tem aplicado altas quantias em  </line>
    <line>eventos na de skatistas. Banco Brasil fez esporte  </line>
    <line>um meio de divulgação de suas ações, tendo promovido, nos últimos anos, circuitos de campeona- </line>
    <line>tos que percorreram diversas capitais brasileiras.  </line>
    <line>De geral, uma do UOL o mundial skate em </line>
    <line>torno de $3 bilhões ao ano, sendo o Brasil um dos principais países responsáveis por essa marca.  </line>
    <line>Como observado Brandão o de do impôs lógica  </line>
    <line>esportiva prima espetáculo, competitividade, prática locais e  </line>
    <line>pela técnica fundamentada no treinamento, redimensionando para o negócio as mais diferentes  </line>
    <line>formas de experiência com o corpo e com os espaços urbanos.</line>
    <line>A realização de inúmeros campeonatos, a consolidação de entidades esportivas, a visibilidade em  </line>
    <line>diversos de hegemônicos, investimento muitas a   </line>
    <line>de políticas públicas, a construção de pistas, as chances de lucros e a possibilidade de obtenção de  </line>
    <line>bons fizeram que profissionalização vias esporte tornasse - </line>
    <line>siadamente almejada pelos praticantes. Tais exemplos mais uma vez demonstram que o skate é, para </line>
    <line>muitos, um esporte competitivo, sério e bastante rentável. Todavia, como o seu universo agrega uma </line>
    <line>heterogeneidade de sentidos, há também aqueles que encaram a prática de forma completamente  </line>
    <line>diferente e tentam se profissionalizar, ganhar prestígio e vivenciar suas experiências por outras vias. </line>
    <line>É o que será abordado a seguir, a partir da atuação de segmentos da mídia e do mercado especializa- </line>
    <line>do, cujos efeitos se fazem sentir entre os skatistas tanto no plano cotidiano quanto no profissional.</line>
    <line>3 O SKATE PARA ALÉM DO ESPORTE </line>
    <line>Conforme visto até aqui, a atuação de inúmeros agentes e instituições ligadas ao campo esportivo  </line>
    <line>do skate tem sido de suma importância para colocá-lo em um patamar espetacularizado. O seu  </line>
    <line>processo de esportivização chegou a tal ponto que o Comitê Olímpico Internacional (COI) o incluiu  </line>
    <line>como olímpica partir Olimpíadas Tóquio realizadas 2021 à </line>
    <line>pandemia. Para representantes de outros esportes, esta oportunidade possivelmente seria muito  </line>
    <line>bem avaliada; afinal, tornar-se uma modalidade olímpica confere prestígio e legitimidade, além de  </line>
    <line>possibilitar a captação de recursos do poder público e da iniciativa privada. No universo do skate,</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>entretanto, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, sua inclusão nas Olimpíadas tornou-se  </line>
    <line>uma polêmica de grandes proporções. </line>
    <line>Bob Burnquist, renomado skatista brasileiro, já foi campeão de muitas competições importantes  </line>
    <line>em nível internacional, o que lhe possibilitou ser capa de diversas revistas, personagem de jogos  </line>
    <line>de protagonistade e dos mais pagos mundo. as- </line>
    <line>sim que Olimpíadas mais skate, que skate Olimpíadas  </line>
    <line>CemporcentoSkate, n. Adelmo outro profissional com  </line>
    <line>internacional, também direcionou suas críticas contra a captura do skate pelas Olimpíadas. Em  </line>
    <line>sua perspectiva, a prática do skate não deve ser somente pautada pelas regras consolidadas por  </line>
    <line>entidades esportivas e demais instituições.  </line>
    <line>O Marcelo (2012), sua reitera perspectiva Adelmo Embora  - </line>
    <line>nheça que muitos praticantes se posicionam a favor do skate nas Olimpíadas, em matéria especial  </line>
    <line>publicada sobre o tema na revista CemporcentoSkate, 2012, que para com  </line>
    <line>relativa segurança que a maioria dos skatistas não demonstra interesse em ver o skate transfor - </line>
    <line>mado em esporte olímpico. Muito desse desinteresse, segundo o jornalista, vem do fato de o skate  </line>
    <line>atual não ter um foco nas competições. A mesma matéria salienta que as competições existem e  </line>
    <line>que algumas até distribuem premiações milionárias. Entretanto, o desenvolvimento de carreiras  </line>
    <line>pode ser feito sem competir. A cultura da foto e do vídeo é um patrimônio valioso que o skate con- </line>
    <line>quistou nesses anos todos e que também reforça sua aproximação com as artes. </line>
    <line>Becky (2003) uma primeiras a a desta </line>
    <line>à dimensão esportiva enquanto um dos princípios norteadores do universo do skate. A pesqui- </line>
    <line>sadora em etnografia em da de a de  </line>
    <line>skatistas a certas regras que lhes eram impostas e como as suas condutas se distanciavam daque- </line>
    <line>las propagadas pelo mainstream sport 5 . pesquisa Beal revelou a se  </line>
    <line>exprimia por meio de dois aspectos centrais, a saber: controle da participação e desvalorização da  </line>
    <line>competitividade. Quanto ao primeiro aspecto, percebeu que muitos skatistas se sentiam atraídos  </line>
    <line>pelo skate por poderem decidir como, onde e quando praticá-lo.  </line>
    <line>Essa falta de formalidade lhes permitia relativa liberdade para expressar seus próprios gostos e  </line>
    <line>preferências, contrário que no do  mainstream sport, onde a imposição de  </line>
    <line>normas e programação era considerada muito mais estrita. Já em relação ao segundo aspecto, a  </line>
    <line>pesquisadora constatou que algumas atitudes competitivas eram vistas com certo desdém pelos  </line>
    <line>skatistas. acompanhar campeonato skate Colorado Unidos),  </line>
    <line>diversas condutas que subvertiam propositalmente as regras estabelecidas pela entidade espor - </line>
    <line>tiva promotora do evento. A competitividade era rechaçada em prol da sociabilidade e de outros  </line>
    <line>comportamentos entre aqueles que, em tese, deveriam ser oponentes 6 . Beal (2003, p. 340) conjec- </line>
    <line>tura então que a condescendência a esses aspectos – controle da participação e desvalorização da  </line>
    <line>competitividade – é fundamental para que um praticante possa ser considerado um core skater,  </line>
    <line>ou seja, um “autêntico skatista” 7: </line>
    <line>5   Mainstream sport um utilizado muitos dentre Beal para esportes - </line>
    <line>cularizados e organizados por meio de ligas profissionais (basquete, futebol, beisebol, etc.). </line>
    <line>6   A da em de em da também analisada,  </line>
    <line>contexto nacional, por Machado (2012). </line>
    <line>7   Análises específicas acerca dos que se consideram  core members (skatistas autênticos) também podem ser encontradas em  </line>
    <line>Wheaton (2004) e Donnelly (2006).</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8 </line>
    <line>O skate se desenvolve a partir de valores que encorajam cada indivíduo a criar uma forma  </line>
    <line>personalizada de praticá-lo. O participante identifica seus próprios critérios em relação aos  </line>
    <line>procedimentos, objetivos e estilo de treinamento. A internalização e a personalização des- </line>
    <line>ses são para aceito um legítimo Weidman,  </line>
    <line>2003, p. 340, tradução nossa ) 8. </line>
    <line>A prática do skate era encarada por muitos interlocutores de Beal  </line>
    <line>vida do que um esporte. Nesse sentido, o reconhecimento atribuído a um skatista se dava não ape- </line>
    <line>nas em razão de suas habilidades técnicas, mas também por conta de seu comprometimento e de  </line>
    <line>seu posicionamento crítico frente às incorporações comerciais e esportivas do skate e às eventuais  </line>
    <line>formas burocratizadas de gerenciamento de sua prática. Aqueles que não demonstravam essas  </line>
    <line>atitudes, como os novos praticantes, por exemplo, mas que o praticavam apenas como um “es- </line>
    <line>porte da moda”, eram taxados de posers, visto que agiam de acordo com certas regras de conduta  </line>
    <line>esperadas por entidades esportivas e não questionavam os produtos e as operações impostas pela  </line>
    <line>comercialização skate. acordo a para distanciarem acusações  </line>
    <line>e scarem perante demais, de interlocutores posicio - </line>
    <line>namentos marcados por autoexpressão, criatividade e capacidade de escolha, características que  </line>
    <line>comumente eram relacionadas à figura de um  core skater.  </line>
    <line>Quem analisou resistência uma basilar estilo vida foi  </line>
    <line>Lisa (2003). como (2003), pesquisadora pelos  </line>
    <line>distintivos que supostamente propiciavam autenticidade; no entanto, em vez de focar apenas a  </line>
    <line>prática cotidiana, optou por investigar a comercialização do skate e o seu impacto entre os skatis- </line>
    <line>tas. a a princípios era muitas especia - </line>
    <line>lizadas na fabricação de peças e demais produtos se preocupavam em zelar pelas suas respectivas  </line>
    <line>imagens modo fossem aos de clientela. (2003)  </line>
    <line>três principais pelas autoseleção; a e - </line>
    <line>pagação de princípios valorizados neste universo através de anúncios publicados em revistas de  </line>
    <line>skate. A adesão a essas estratégias potencializaria, em sua perspectiva, a chance de uma empresa  </line>
    <line>ser aceita pelos praticantes mais exigentes, isto é, pelos core skaters:  </line>
    <line>Certas pessoas são mais propensas a serem bem-sucedidas como empreendedoras de ska- </line>
    <line>te que Indiscutivelmente, fator importante afeta sucesso uma  </line>
    <line>empresa é se o proprietário entende ou não a cultura do skate. Se o proprietário demons - </line>
    <line>trar um bom entendimento da cultura do skate, os skatistas considerarão a empresa autên- </line>
    <line>tica (Beal; Weidman, 2003, p. 346, tradução nossa) 9. </line>
    <line>A pesquisa de Weidman (2003), a qual fora realizada nos Estados Unidos na década de 1990, des - </line>
    <line>velou que o principal elo entre praticantes e indústria do skate se dava através da atribuição de  </line>
    <line>patrocínios. Alguns skatistas eram agraciados com roupas, calçados, peças, equipamentos e ajudas  </line>
    <line>de e, profissionais, recebiam e benefícios. troca,  </line>
    <line>8   No “The structure developed the discussed encouraged individual  </line>
    <line>create personalized of Each identified or own regarding proce - </line>
    <line>dures, and The and of core were to accepted a  </line>
    <line>legitimate member” (Beal; Weidman, 2003, p. 340). </line>
    <line>9   No “Certain are likely be as entrepreneurs others. the  </line>
    <line>important affecting companysuccess whether not owner the culture. the  </line>
    <line>owner a understanding skateboard skaters deem company be (Beal;  </line>
    <line>Weidman, 2003, p. 346).</line>
  </page>
</document>
