Tilmann Heil
renças marcantes quanto à origem, raça, religião, classe, gênero, identidade sexual e opinião polí-
tica. Dada a relação de confiança estabelecida ao longo dos anos, as tensões, às vezes substanciais,
causadas por nossas diferenças se tornaram terrenos férteis para a investigação etnográfica rígida
e a coprodução de conhecimentos relevantes.
Durante meu trabalho de campo, participei de eventos seculares e religiosos semanais de sene-
galeses, nos quais repetidamente em torno de 100 senegaleses participaram (Heil, 2021). Entre
os espanhóis, circulei nas redes de recém-chegados, nas quais encontrei repetidamente de 60 a
80 pessoas, em eventos públicos e festas privadas (Heil, 2020a). Com todos os meus interlocuto-
res principais, eu passava tempo nos seus dias de folga, antes e depois do trabalho, e durante os
intervalos. Frequentemente nos encontrávamos em suas casas, em cafés, bares, restaurantes ou
simplesmente em uma praça, em um parque ou na orla. Também fazíamos longas caminhadas
pela cidade e visitávamos locais culturais. Em paralelo, realizei entrevistas semiestruturadas em
número igual com senegaleses e espanhóis no Rio de Janeiro, das quais 68 foram gravadas e trans-
critas. Com cerca de metade dessas pessoas, gravei múltiplas entrevistas ao longo dos anos da
minha pesquisa. Porém, muitos interlocutores, especialmente senegaleses, preferiam participar
da minha pesquisa sem serem gravados. Assim, conversas informais e a observação participante
complementam as narrativas (gravadas ou não) para entender a vida urbana ao redor dos meus
interlocutores e sua participação nela.
Meus interlocutores senegaleses e espanhóis tiveram trajetórias de vida muito variadas: em ambos
os grupos, havia acadêmicos, profissionais, expatriados e empreendedores, de um lado do espectro,
e trabalhadores manuais, vendedores ambulantes e outros ativos na economia informal, do outro.
Alguns senegaleses no Rio de Janeiro eram profissionais altamente qualificados, um pequeno grupo
era composto por vendedores especializados de artesanato africano, e a maioria eram vendedores
independentes de óculos de sol e outros produtos de origem chinesa. Eles tinham entre 20 e 50
anos, sendo geralmente os mais velhos os altamente qualificados e os vendedores de artesanato. Os
vendedores viviam predominantemente em Copacabana e no centro de Niterói, cidade vizinha; os
altamente qualificados habitavam os bairros espalhados de classe média do Rio. Na rotina quotidia-
na, todos eles atravessavam muito mais bairros da cidade. A maioria dos senegaleses no Rio eram
homens e a maioria das duas dezenas de mulheres tinha vindo se juntar aos maridos. Tanto homens
como mulheres, mas principalmente vendedores independentes, tanto de artesanato quanto de pro-
dutos feitos na China, compartilharam parte de seus conhecimentos comigo.
A última chegada de mulheres e homens espanhóis ao Brasil ocorreu no contexto do êxodo geral
do sul da Europa, após a crise econômica europeia de 2008 e as subsequentes medidas de aus-
teridade econômica. Todos os espanhóis que encontrei eram brancos e na sua maioria tinham
entre 20 e 30 anos. Com algumas exceções, todos viviam na Zona Sul ou no Centro, em bairros de
classe média, além de favelas pacificadas em processo de gentrificação.2 Apenas alguns culparam
abertamente a crise por sua migração, enquanto a maioria simplesmente enquadrou sua mobili-
dade como uma decisão de vida autônoma. Um pequeno grupo entre eles era de profissionais bem
pagos, alguns empreendedores, outros expatriados, que eram um pouco mais velhos, entre o final
dos 30 e o início dos 50 anos. Apenas alguns se autoidentificaram como expatriados.
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O processo da pacificação com unidades policiais específicas foi uma tentativa ambígua de integrar as favelas cariocas à cidade for-
mal, combatendo violência extraestatal com novas formas de controle formal sobre territórios historicamente marginalizados. Como
resultado, um período menos violento permitiu uma gentrificação dos espaços privilegiados; o processo enfraqueceu com a crise fiscal
e a volta da violência na segunda metade da década de 2010, deixando ainda mais um legado problemático aos territórios afetados.
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