Jesus Marmanillo
Sobre a inserção desse interlocutor no universo do graffiti, vale ressaltar que este passou a fre-
quentar as edições do Grafite Sound System, ao lado de artistas como Shiko, Gigabrow (organiza-
dor do evento) e Marquinhos Perfect. Diferentemente das ações de spray e pixação, geralmente
anônimas, ilegais e rápidas, os mutirões ocorriam de forma calma e aceita em bairros periféricos,
com foco no embelezamento. Na segunda edição do evento, ocorrida no bairro São José, em 2010,
foi anunciada a presença de nomes como Shiko, Museu, Múmia, Cyber, Witch, Prego, Marquinhos
Perfect entre outros. É possível ter ideia da organização do evento por meio do comentário feito
pelo próprio Gigabrow no site Babel das Artes:
II Grafite Sound System será realizado no bairro São José, em João Pessoa, PB, no dia 2 de
maio das 14h às 21h. O mutirão vai ser perto da igreja católica e contará com as seguintes
atrações: PbPop Sound System, Mr Soh, Mc Pertnaz, grupo Moleque de rua, atitude huma-
na, batalha de Mc, sarau poético e a combi palco, mini remp, street Ball do Coletivo Cic e, pra
dar sustância pra quem olha e participa do mutirão, uma feijoada (Babel das Artes, 2010).
As atrações dialogavam com a trajetória de Múmia, marcada pelo graffiti, breakdance, oficinas
de Hip-Hop e o skate em Manaíra. Essas práticas integram a forma como Múmia construiu sua
própria visualidade e se conectou a outras experiências. No skate, conheceu sua primeira na-
morada, Janaina Santos, em 2006, com quem teve um filho em 2009 e, nesses eventos, passou
a expressar seu trabalho e afirmar-se como artista. Esses elementos retomam Dayrell (2022),
ao mostrar que a experiência social orienta a ação e contribui para a formação da identidade,
em um movimento no qual os sujeitos constroem suas trajetórias enquanto são moldados pelo
meio social.
Em 2008, Múmia foi selecionado, ao lado de Gigabrow e Shiko, para participar do documentário
“Visualidades urbanas”, produzido pelo pesquisador Pedro Nunes da Universidade Federal da Pa-
raíba. Segundo Nunes (2008), apesar de ser o mais jovem entre os artistas, Múmia trazia um traço
arrojado que chamava muito a atenção. Em 17 de junho daquele mesmo ano, Múmia teve suas
obras expostas no espaço cultural, ao lado de Shiko e Gigabrow. Sobre essa aproximação, Jailson
explicou, também, que eles trabalharam juntos produzindo graffitis para a prefeitura, em algumas
praças da cidade e que esses dois grandes artistas ajudaram a construir a cena na cidade. Essa
aproximação também é confirmada no site Babel das Artes (2010), onde encontramos uma repor-
tagem sobre uma intervenção realizada pelos três artistas no bairro Tambaú, em 28 de fevereiro
de 2010. Nela, destacamos o seguinte trecho:
Ontem à noite, flagramos os grafiteiros Shiko, Múmia e Gigabrow em Tambaú. O museu a
céu aberto, ou seja, o muro, já é patrimônio desta turma do graffiti em João Pessoa/PB. Por
isso, de vez em quanto eles atualizam as próprias obras em exposição. O evento foi reali-
zado sem prévio aviso. Mesmo assim despertou a atenção atraindo curiosos, admiradores
além de outros artistas — tinha até um músico solando uma guitarra ao lado de seu carri-
nho BPOB incrementado com uma pickup de DJ (Babel das Artes, 2010).
Entre outras coisas, o trecho é interessante para demonstrar a circulação dos artistas que pode-
riam organizar eventos de graffiti, tanto no modelo do mutirão, com expressões e visualidades
bastante ligadas ao universo juvenil dos praticantes de skate, de breakdance, quanto no que ocor-
reu no bairro “nobre” do Tambaú, que mobiliza um público com outras práticas e percepções.
Assim, nesse bairro bastante caracterizado pela orla turística da cidade, o graffiti foi caracterizado
como arte, o muro como patrimônio e o lugar como “museu a céu aberto”.
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