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DOSSIÊ
CULTURA URBANA E VISUALIDADES
NA SOCIOLOGIA DE GEORG SIMMEL
Eder Claudio Malta Souza*
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Resumo
Este artigo propõe uma análise aprofundada da teoria de Georg Simmel sobre a visualidade como elemento
central na constituição da sociabilidade moderna. Partindo da tese de que a visão, especialmente por meio
da noção de olhar mútuo, constitui uma forma de reciprocidade pura, o estudo articula as contribuições do
autor para uma sociologia das formas sensoriais. A partir de uma abordagem formalista-fenomenológica,
Simmel examina a estética urbana e a cidade como obra de arte, o rosto como órgão teórico, a sobrecarga
sensorial característica da metrópole, a atitude blasé como estratégia de defesa psíquica, a vitrinização do
espaço urbano e a sociabilidade como jogo de formas. A análise estende-se também às relexões sobre a
ponte e a porta como materializações visuais da conexão e da separação, e o adorno como expansão visual
da personalidade. O artigo reairma a centralidade da visualidade na sociologia de Simmel, não apenas como
elemento estético, mas também como forma de interação, apontando tanto a relevância atual de suas cate-
gorias analíticas quanto as limitações de sua perspectiva diante da cultura visual na contemporaneidade.
Palavras-chaves
: Simmel; visualidade; sociologia dos sentidos; cultura urbana; atitude blasé.
*
Universidade Federal de Sergipe, Departamento de Ciências Sociais; Programa de Pós-Graduação em Sociologia, São Cris-
tóvão, Sergipe, Brasil. E-mail:
ecmsouza82@hotmail.com
Orcid:
https://orcid.org/0000-0003-3153-3400
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24609, 2026
DOI:10.21669/tomo.v45.24609
Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,
sociabilidades e o existir citadino
E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549
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Eder Claudio Malta Souza
1. INTRODUÇÃO
A relação entre a cidade e a visualidade constitui um dos eixos sociológicos fundamentais para a
compreensão da sociabilidade moderna. As análises pioneiras de Georg Simmel (1858-1918) so-
bre a metrópole e a vida mental oferecem um arcabouço teórico que antecipa os debates contem-
porâneos sobre a cultura visual, a estética urbana e os estilos de vida nas cidades. Este ensaio pro-
põe uma leitura integrada das contribuições simmelianas, articulando-as com visualidades que
emergem nos contextos citadinos. A hipótese central que orienta esta relexão é que a sobrecarga
sensorial característica das metrópoles modernas não apenas produz reserva e individualidade,
mas também engendra formas especíicas de visualidades que compreendem, simultaneamente,
mecanismos de distanciamento e possibilidades de interação e sociabilidade.
Acerca
do
tema
das
visualidades
em
Simmel,
recorremos
a
leituras
como
a
interpretação
de
Weinstein e Weinstein (1984) sobre a constituição visual da sociedade, a de Davis (1973) acerca
da estética visual como princípio uniicador do pensamento do autor e a de Salturi (2016) sobre a
sociologia dos sentidos, presente no segundo volume da
Sociologia
(1908), onde Simmel desloca
o foco da sociologia do espaço físico para a percepção sensorial como elemento constitutivo da
socialização, a discussão ampara-se também no trabalho de Pereira (2025) sobre a sociologia ur-
bana de Simmel.
Por im, faço interpretações a partir das obras de Simmel sobre a sociologia dos
sentidos, da estética, da sociabilidade e do papel do olhar na interação social, com foco na discus-
são da relação entre a vida urbana e a cultura visual.
A obra de Georg Simmel oferece, nesse contexto, uma entrada privilegiada para recolocar a ques-
tão da visualidade no centro do debate sociológico, não como tema exótico ou periférico, mas
como dimensão constitutiva da própria sociabilidade moderna. Sua análise pioneira sobre o olhar,
o rosto, o adorno, as formas espaciais e a estética citadina antecipa, em mais de um século, ques-
tões que se tornaram prementes em nossas cidades saturadas de estímulos visuais. Dessa forma,
nossa pergunta de partida para esta discussão é a seguinte: como a visualidade e o olhar mútuo
constituem a sociabilidade urbana nas cidades contemporâneas, a partir da teoria de Georg Sim-
mel? Qual o papel da visualidade na airmação ou na negação da interação social dos indivíduos?
O artigo está organizado em três seções principais. Na primeira, examinamos a constituição visual
da sociedade a partir do olhar como reciprocidade pura, do rosto como órgão teórico e da estética
visual como princípio uniicador das formas sociais, com especial atenção ao ensaio “A ponte e a
porta” e aos ensaios sobre as cidades históricas italianas Roma, Florença e Veneza. Na segunda
seção, a partir dos ensaios “A metrópole e a vida do espírito” e “A Exposição Industrial de Berlim”,
analisamos o que o autor chama de sobrecarga sensorial e visual na metrópole, a atitude
blasé
como forma de resistência à hiperestesia e o fenômeno da vitrinização do espaço urbano, legado
da Exposição.
Na terceira seção, dedicamo-nos à sociabilidade supericial e às abstrações visuais que se dão,
entre diversas formas, a partir do olhar como forma pura de interação, da máscara como estra-
tégia de liberdade impessoal e, por im, com base na Sociologia da Moda de Simmel, discutimos
o adorno como expansão visual da sociabilidade e das conlitualidades sociais. Concluímos com
o entendimento de que há centralidade analítica da visualidade na obra simmeliana e sua fecun-
didade para a compreensão dos fenômenos urbanos contemporâneos, ao mesmo tempo em que
reconhecemos as limitações de sua perspectiva diante das assimetrias de poder que estruturam o
campo visual urbano e de suas formas de interação contemporâneas.
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CULTURA URBANA E VISUALIDADES NA SOCIOLOGIA DE GEORG SIMMEL
2 A CONSTITUIÇÃO VISUAL DA SOCIEDADE: O OLHAR COMO
RECIPROCIDADE PURA E O ROSTO COMO ÓRGÃO TEÓRICO
Simmel (1907/1997) sustenta que a percepção sensorial do outro constitui um elemento socioló-
gico fundamental, pois entre os sentidos há uma divisão do trabalho cognitivo que permite conhe-
cer o interlocutor por meio de impressões dotadas tanto de valor afetivo quanto de caráter instin-
tivo e voluntário. Conforme Salturi (2016), o autor examina as funções especíicas de cada órgão
sensorial: a voz revela sentimentos e disposições atuais; os olhos estabelecem uma reciprocidade
subjetiva que torna visível a interioridade, sendo o rosto uma síntese histórica da personalidade; o
ouvido, por sua vez, é caracterizado como órgão predominantemente receptivo; o olfato apresenta
caráter dissociador e antissocial; e o tato remete a dinâmicas de aproximação e distanciamento
corporal.
Simmel associa a modernidade às transformações sensoriais e à emergência do indivíduo moder-
no marcado pela intensiicação da sensibilidade visual, pela reserva e pelo processo de individu
-
alização (Salturi, 2016; Pereira, 2025). Weinstein e Weinstein (1984) demonstram que Simmel
inaugura uma sociologia dos sentidos ao posicionar a visão como constitutiva de relações inter-
mentais que transcendem a inferência cartesiana. Em “Sociologia dos Sentidos”, Simmel oferece a
fundamentação fenomenológica desta tese ao airmar que “entre os órgãos sensoriais individuais,
o olho está destinado a uma realização sociológica completamente única: a conexão e a interação
entre indivíduos que residem no ato de olharem um para o outro. Esta é talvez a interação mais
direta e pura que existe” (Simmel, 1907/1997, p. 111).
O que distingue fundamentalmente o olhar de outras formas de interação é sua reciprocidade
imediata. Simmel propõe que o olhar revela diretamente o outro como ser mental, contudo, isso
não é unilateral:
Não se pode receber através do olho sem ao mesmo tempo dar. O olho revela ao outro a
alma que ele ou ela busca revelar. Uma vez que isto ocorre obviamente apenas durante o
olhar direto de um olho para outro, a mais completa reciprocidade em toda a esfera das
relações humanas é alcançada aqui (Simmel, 1907/1997, p. 112).
O olhar mútuo não é, portanto, um fenômeno derivado da linguagem ou da cognição racional, mas
a própria matriz da associação social (
Vergesellschaftung
) em sua dimensão mais elementar. Para
Simmel, a voz enuncia a presença social de um indivíduo, seus sentimentos atuais e suas maneiras
de ser, podendo ainda produzir um efeito atrativo ou repulsivo. Segundo Simmel, sentir vergonha,
por exemplo, leva-nos a olhar para o chão e a evitar o olhar do outro. Entretanto,
a razão mais profunda é que abaixar o olhar priva o outro da possibilidade de descobrir
algo sobre mim. O olhar nos olhos da outra pessoa não apenas me ajuda a conhecê-la,
mas também a ajuda a me conhecer; ao longo da linha que conecta ambos os pares de
olhos, a própria personalidade, o humor e o impulso são transmitidos ao outro (Simmel,
1907/1997, p. 112).
Em outros termos, quando duas pessoas evitam o contato visual mútuo, a conexão entre elas se
rompe, já que abaixar o olhar impede que o outro as conheça. O rosto é a superície de nossa iden
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tidade e o local onde se reúnem as marcas de nossa história pessoal, expressando o passado e a
essência de cada um por meio de traços ísicos visíveis (Salturi, 2016).
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Nesse sentido, o rosto se enuncia como um órgão teórico; é a visualidade e a expressão da interio-
ridade do indivíduo. A centralidade do rosto nas ideias simmelianas decorre de sua capacidade de
sintetizar, em uma superície visível, a totalidade da experiência subjetiva do indivíduo. Simmel
desenvolve esta relexão com precisão fenomenológica: “O rosto, visto como um órgão de expres
-
são é, por assim dizer, de uma natureza completamente teórica. Ele não age, como a mão, o pé
ou o corpo inteiro, nunca sustenta o comportamento interno ou prático das pessoas, mas apenas
informa os outros sobre ele” (Simmel, 1907/1997, p. 113).
Esta caracterização do rosto como “órgão teórico”, isto é, como superície de legibilidade da inte
-
rioridade, fundamenta-se na distinção entre o que é duradouro e o que é transitório na experiên-
cia subjetiva. Enquanto a palavra falada transmite o momento fugaz, “o que vemos de uma pessoa
é a parte duradoura dela; como numa seção através de estratos geológicos, a história de sua vida e
aquilo sobre o que ela se baseia como o dote intemporal da natureza são revelados em seu rosto”
(Simmel, 1907/1997, p. 115).
O rosto oferece, assim, “o simbolismo visualmente mais completo da interioridade duradoura e
de tudo o que nossas experiências individuais depositaram no fundamento permanente de nossas
naturezas” (Simmel, 1907/1997, p. 113-114). Esta capacidade de condensar visualmente a his-
tória do indivíduo confere ao rosto uma posição única na sociologia simmeliana: ele é o ponto de
interseção entre o tempo biográico (a sucessão de experiências) e o tempo social (a simultanei
-
dade da apresentação pública do
self
). Esta perspectiva insere Simmel na tradição neokantiana e
vitalista, onde a sociedade é contingente; ela mesma emerge de interações efêmeras e do cotidiano
de instantes e não indubitavelmente de estruturas e ações sociais reiicadas pelo utilitarismo e
pela racionalidade técnica.
Além disso, ao criticar o reducionismo linguístico da sociologia clássica, particularmente a ênfase
durkheimiana no fato social como coisa, Simmel propõe que a visualidade constitui uma “ponte”
para o “eu real” do outro, acessível apenas na reciprocidade instantânea do encontro facial. Con
-
forme aponta Davis (1973), a produção simmeliana orienta-se por um rigoroso modelo estético-
-visual que afasta o autor de contemporâneos como Henri Bergson, priorizando a estabilidade das
formas espaciais em detrimento do luxo vital da duração.
Essa centralidade da visão manifesta-se na distinção entre artes táteis e visuais, nas quais estas
últimas posicionam o indivíduo como observador contemplativo de uma realidade preexistente,
espelhando a condição do homem moderno perante a espacialidade e as estruturas sociais que o
precedem. Simmel aplica um modelo estético que se sustenta em três pilares percebidos em seus
estudos urbanos: na modalidade artística, a primazia da forma estática sobre o movimento; no
produto artístico, a independência da estrutura social em relação ao seu criador; e, no método
artístico, a decifração da totalidade social a partir de interações microscópicas, viabilizando o ma-
peamento das distâncias sociais (Davis, 1973).
2.1 A Estética Visual como Princípio Unificador: Sociedade como Obra de Arte
Davis (1973) argumenta que a perspectiva de Simmel é essencialmente visual e espacial, o que o
leva a priorizar formas estáveis em detrimento de processos históricos ou causais. Essa aborda-
gem revela uma visão de mundo em que as criações culturais se tornam independentes de seus
criadores, gerando um conlito permanente entre a vitalidade humana e as estruturas rígidas
da sociedade. Davis demonstra que a estética visual funciona como princípio uniicador da obra
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simmeliana aparentemente fragmentada: Simmel concebe a sociedade como uma paisagem de
formas geométricas — díades, tríades, o estranho, o pobre, o aventureiro — que representam
conigurações visuais de relações humanas, abstraídas de seus conteúdos históricos contingentes.
Essa abordagem evidencia a inluência kantiana na obra de Simmel, na medida em que identiica
formas a priori da socialidade que estruturam a experiência intersubjetiva independentemente
de seus conteúdos particulares. A originalidade da leitura de Davis reside em mostrar como a per-
cepção óptica se torna, em Simmel, o meio privilegiado de apreensão dessas formas sociais. Esse
“viés visual” serve de modelo para a sua compreensão da realidade social.
Ao contrário das artes
auditivas, cujos ritmos projetam o ouvinte para o futuro ou o remetem ao passado, o modelo óp-
tico permite a Simmel conceber os elementos fundamentais da arte e da sociedade como conigu
-
rações atemporais no espaço.
Essa predileção pelo olhar não é arbitrária: ao fundamentar sua análise na visão, Simmel distin-
gue as artes visuais das táteis, pressupondo o indivíduo moderno como contemplador passivo
de estruturas sociais que o próprio ajudou a criar, mas que agora o precedem e estabilizam. Essa
transição do olhar contemplativo para a organização sistemática da realidade social encontra sua
expressão máxima na geometria espacial que fornece o arcabouço para o mapeamento das distân-
cias sociais.
No ensaio “A ponte e a porta” (1909), Simmel desenvolve uma relexão sobre como a atividade hu
-
mana de conectar e separar ganha expressão visual. A ponte, para ele, “torna-se um valor estético
na medida em que realiza a conexão entre o que está separado não apenas na realidade e para
cumprir objetivos práticos, mas em torná-la diretamente visível” (Simmel, 1909/1997, p. 171-
172). A ponte não é apenas um artefato utilitário que permite a travessia; é, fundamentalmente,
uma forma visual que proporciona a conexão, estabelecendo uma correspondência entre a função
corporal de atravessar e a função perceptiva de contemplar a unidade da paisagem.
A originalidade da análise reside em mostrar que a ponte transforma movimento em visibilidade:
“a mera dinâmica do movimento, em cuja realidade particular o ‘propósito’ da ponte se esgota,
tornou-se algo visível e duradouro” (Simmel, 1909/1997, p. 172). A visualização não é a represen-
tação secundária de uma realidade pré-existente, mas um processo ativo de formação que confere
às relações espaciais estabilidade e inteligibilidade que não possuiriam de outra forma. A ponte
torna visível o que, sem ela, permaneceria apenas como uma possibilidade efêmera.
A porta, por sua vez, introduz a dimensão do limite: diferentemente da parede “muda”, a porta
“fala” — é o ponto em que dentro e fora se articulam visualmente. Seu fechamento proporciona “o
sentimento de um isolamento mais forte contra tudo o que está fora deste espaço do que a mera
parede não estruturada” (Simmel, 1909/1997, p. 172). Ponte e porta revelam-se, assim, como
formas que transferem “a dinâmica de nossas vidas para a permanência ixa da criação visível”
(Simmel, 1909/1997, p. 174). Assim, solidiica em plasticidade imediatamente convincente aquilo
que, na luidez da vida, permaneceria invisível e transitório.
2.2 A Cidade como Obra de Arte: a Estética das Cidades Históricas Italianas
A relexão simmeliana sobre a visualidade urbana não se esgota na análise da metrópole moderna.
Os ensaios dedicados a Roma (1898), Florença (1906) e Veneza (1907) revelam outra dimensão
da estética citadina: a cidade como obra de arte, como objeto estético. Esta abordagem, como ob-
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serva Fortuna, é consentânea com a própria ilosoia simmeliana, “que atribui ao espírito da cida
-
de e à dimensão urbana um estatuto singular, arquetípico da excepcional riqueza e complexidade
da vida humana” (Fortuna, 2010, p. 15).
Diferentemente da metrópole moderna, em que a sobrecarga sensorial exige defesas psíquicas,
as cidades históricas italianas apresentam-se como totalidades estéticas. Ainda que as cidades
históricas e as metrópoles modernas solicitem do observador percepções distintas, na perspecti-
va de Simmel, a cidade só se torna compreensível como objeto artístico quando considerada em
sua totalidade. Ao buscar enunciar a dimensão estética dessa totalidade, seu modelo integra não
apenas a obra de arte, mas também a própria sociedade como experiência estética. Desse ângulo,
tanto a cidade histórica quanto a metrópole moderna coniguram-se como categorias alegóricas
da sociedade mais ampla, o que justiica a escolha simmeliana pela cidade como obra de arte.
A visualidade urbana em Roma exige do observador uma atividade estética ativa para recompor
a unidade a partir da diversidade monumental. As distâncias entre épocas, estilos e conteúdos
vitais, embora amplas como em nenhum outro lugar, entretecem-se em harmonia singular. Essa
unidade, contudo, não reside nos objetos, mas no espírito que os contempla. Diferentemente da
atitude
blasé
metropolitana, que se recusa a perceber diferenças, Roma demanda e recompensa
uma percepção sintética capaz de reconhecer a multiplicidade para reconstruir sua unidade.
A coniguração das ruas, determinada pelo relevo acidentado, faz com que os ediícios se relacio
-
nem verticalmente, conferindo às partes uma coesão visível que o terreno plano não proporciona.
A dinâmica da vida romana reforça essa unidade: nenhum elemento, por mais arcaico ou con-
traditório que seja, escapa à sua vitalidade. Restos antigos inseridos em construções posteriores
simbolizam a capacidade de integrar o diverso em uma forma viva. Por isso, os pontos de interesse
não aparecem como curiosidades turísticas isoladas, mas como órgãos de um todo orgânico.
Florença apresenta-se como obra de arte consumada, onde natureza e espírito se fundem em uma
harmonia que salta aos olhos: “aqui, a natureza tornou-se espírito, sem renunciar a si própria”
(Simmel, 1906/2010, p. 38). A visualidade lorentina caracteriza-se pela transparência: o conjun
-
to da cidade, formado pela cooperação entre memória, natureza e cultura, produz no observador a
impressão inequívoca de uma obra de arte. O passado permanece visível e coexiste com o presente
sem tensão; diferentemente da metrópole, onde a aceleração das imagens fragmenta a experiência
temporal, Florença apresenta um tempo ideal em que passado e presente coexistem sem tensão.
Esta visualidade harmoniosa contrasta com a fragmentação metropolitana, mas também com a
ambiguidade de Veneza, que, por sua vez, representa o caso limite da visualidade urbana: uma
cidade onde a aparência estética se autonomizou completamente do ser, tornando-se mentira
e máscara: “Veneza, porém, é a cidade artiicial. [...] onde tudo o que era alegre e claro, ligeiro
e livre, servia simplesmente de fachada a uma vida sombria, violenta, implacavelmente funcio-
nal, o seu declínio deixou apenas um cenário sem alma, a beleza mentirosa da máscara” (Simmel,
1907/2010, p. 47). A realidade é constantemente sobreposta por impressões uniformes que hip-
notizam o observador e induzem a um estado sonolento de irrealidade.
A monotonia dos estímulos em Veneza produz um estado sonolento que se assemelha, por cami-
nhos distintos, ao embotamento
blasé
da metrópole: não pela saturação, mas pela uniformidade
rítmica que anestesia a capacidade de discriminação. Neste sentido, Veneza antecipa o diagnóstico
da cultura visual contemporânea, em que a superície estética frequentemente se autonomiza de
qualquer referente substancial.
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Estes três modelos de visualidade urbana — a unidade reconciliadora de Roma, a harmonia transpa-
rente de Florença e a superície enganadora de Veneza — revelam a amplitude da relexão simmeliana
sobre a cidade como objeto estético. Como sintetiza Fortuna, “a estética da metrópole moderna resul
-
tará da capacidade dos sujeitos para resistirem à lógica individualista, calculista, anónima e mesmo
psicologicamente perturbadora que domina as interacções na grande cidade” (Fortuna, 2010, p. 19).
A visualidade não é, portanto, um dado passivo, mas um campo de possibilidades que exige ativi-
dade criadora do observador, seja para reconstruir a unidade em Roma, reconhecer a harmonia
em Florença, ou desmascarar a artiicialidade em Veneza. Esta lição estende-se à própria experi
-
ência metropolitana contemporânea: a beleza da cidade moderna será aquilo que for a qualidade
estética das formas de interação que nela os sujeitos forem capazes de forjar.
3 SOBRECARGA SENSORIAL E VISUAL NA METRÓPOLE: O REGIME PERCEPTIVO
MODERNO
A análise simmeliana da metrópole encontra seu fundamento psicológico na relação entre estí-
mulo e consciência. Simmel estabelece, logo no início de seu ensaio, que “a base psicológica sobre
a qual se ergue o tipo de individualidades urbanas é o aumento da vida nervosa, que decorre da
rápida e incessante alternância de impressões externas e internas” (Simmel, 1903/2025, p. 29).
Esta formulação é crucial porque desloca a compreensão da cidade do plano meramente morfoló-
gico para o plano da experiência sensorial, em que a experiência visual torna-se uma importante
dimensão constitutiva da subjetividade moderna, ao lado de outras formas de sensibilidade, como
os sons, cheiros, tato etc.
O contraste com a vida rural ou de pequena cidade é elucidativo: “Impressões persistentes, a in
-
signiicância de suas diferenças, a regularidade habitual de seu curso e de seus contrastes con
-
somem, por assim dizer, menos consciência do que a rápida compressão de imagens mutáveis, o
afastamento brusco dentro do que se abrange de relance
1
, a inesperada imposição de impressões”
(Simmel, 1903/2025, p. 30). A metrópole, portanto, não apenas oferece mais estímulos visuais;
ela transforma a própria estrutura da percepção. O olhar metropolitano é treinado para processar
rapidamente uma multiplicidade de imagens fragmentadas, sem tempo para a contemplação du-
radoura que caracterizava a experiência pré-moderna.
Esta aceleração perceptiva tem consequências profundas para a sociabilidade. Em “Sociologia dos
Sentidos”, Simmel já havia antecipado que
o fato de que as pessoas se veem constantemente, mas só podem falar umas com as outras
relativamente com pouca frequência, como trabalhadores em uma fábrica, estudantes em
uma palestra ou soldados de um batalhão, então a consciência de unidade terá um caráter
muito mais abstrato do que quando esse contato também inclui comunicação oral” (Sim-
mel, 1907/1997, p. 155).
1
Em Frisby e Featherstone (1997), pode-se ler o termo relance como
single glance
, ou seja, único olhar, rápida visão ou olhar
sobre algo. É uma palavra que expressa a ideia de uma observação breve. Conforme tradução para o inglês realizada por
Frisby, lê-se:
Lasting impressions, impressions which differ only slightly from one another, impressions which take a regular
and habitual course and show regular and habitual contrasts all these use up, so speak, less consciousness than does the rapid
crowding of changing images, the sharp discontinuity in the grasp of a single glance, and the unexpectedness of onrushing
impressions
(Simmel, 1903/1997, p. 175).
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A metrópole generaliza esta situação: o contato visual constante com desconhecidos produz uma
consciência de unidade abstrata, baseada não no conhecimento pessoal, mas na mera copresença
visual.
Esta análise da sobrecarga sensorial não é fruto de mera especulação abstrata. Como observa Pe-
reira (2025, p. 79-80), Simmel nasceu e viveu no coração de Berlim, na esquina das duas maio-
res ruas comerciais da cidade, que interseccionavam muitas correntes conlitantes, afetadas por
diversas tendências intelectuais e morais. Em sua sociologia urbana, o autor olha para as formas
sociais como resultado de um processo de interação que começa com estímulos e interesses par-
ticulares dos indivíduos e termina em uma organização que adquire autonomia e certo grau de
institucionalização.
Em termos mais explicativos, as formas sociais surgem quando as interações entre pessoas se
repetem e se reconhecem mutuamente, criando representações e práticas comuns que ganham
sentido coletivo. Já o “conteúdo” refere-se aos interesses pessoais, estados psicológicos e tudo
aquilo que, em cada indivíduo, provoca ou recebe efeitos de outros. Esses conteúdos só se tornam
propriamente sociais quando se organizam dentro das formas, sem se limitarem às motivações
individuais. A Exposição Industrial de Berlim, em 1896, funciona como um caso exemplar dessa
dinâmica na cidade moderna (Pereira, 2025).
No caso da exposição de Berlim, isso se traduz em um grande conjunto de interações entre em-
presários, consumidores, vendedores e visitantes, movidas por desejos de compra, venda, lazer e
encontro. Simmel (1896/2013) notou que o evento funcionou, por um breve período, como centro
mundial da cultura e do trabalho, concentrando produtos essenciais que, embora provenientes
de vários lugares, ganhavam, naquele lugar, sua forma deinitiva. O objetivo era também divulgar
novas tecnologias e consolidar Berlim como centro econômico e industrial da Europa.
A Exposição, com seus quatro mil expositores e 900.000 m² de área, funcionou como um labo-
ratório privilegiado para esta relexão: ali, a cidade apresentava-se como “um ponto de rotação
de transações para o seu entorno mais próximo e distante” (Pereira, 2025, p. 83), atraindo gente
de todo o mundo e reunindo, no mesmo espaço, pessoas com interesses industriais e comerciais
comuns, o que intensiicou os estímulos sensoriais visuais que caracterizariam a experiência me
-
tropolitana de consumidores modernos.
A economia monetária, que encontra na metrópole seu solo mais fértil, reforça esta ação recíproca
entre produção, exposição e consumo. Simmel observa que “as grandes cidades sempre foram
os centros da economia monetária” (Simmel, 1903/2025, p. 31), e esta conexão não é acidental.
Tanto o dinheiro quanto o intelecto operam por abstração: o dinheiro reduz todas as qualidades à
quantidade (“quanto?”); o intelecto permite ao indivíduo processar a multiplicidade de estímulos
sem envolvimento emocional profundo. O produtor metropolitano trabalha “para o mercado, ou
seja, para compradores totalmente desconhecidos, que nunca entram no campo de visão do pró-
prio produtor” (Simmel, 1903/2025, p. 32). Esta invisibilidade do outro, ou melhor, esta visibili-
dade sem reconhecimento, é a marca do regime visual metropolitano.
A relação entre visão e abstração ganha contornos ainda mais precisos quando Simmel discute o
papel da pontualidade e da calculabilidade na vida urbana. A complexidade da existência metro-
politana exige “que todas as atividades e relações sejam inseridas, com a mais absoluta pontuali
-
dade, em um esquema temporal ixo e supraindividual” (Simmel, 1903/2025, p. 33). O relógio de
bolso, onipresente, torna-se o símbolo de uma nova disciplina visual: o olhar que se dirige ao mos-
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trador para veriicar as horas é o mesmo olhar que apreende, sem se deter, as imagens fugazes da
rua. Ambas as operações exigem rapidez, precisão e, fundamentalmente, distanciamento afetivo.
3.1 Atitude Blasé e Estética: a Dialética da Visualidade
Se a sobrecarga sensorial deine o regime perceptivo metropolitano, a atitude blasé constitui a res
-
posta psicológica a esta condição. Simmel é enfático ao airmar que “talvez não exista fenômeno
psíquico mais absolutamente reservado à grande cidade do que o
blasé
” (Simmel, 1903/2025, p.
34). Esta exclusividade decorre da própria natureza da experiência urbana.
A atitude
blasé
tem duas fontes complementares. A primeira é isiológica: resulta das estimulações
contrastantes rápida e intensamente comprimidas dos nervos. A exposição prolongada a estímu-
los intensos e contraditórios leva os nervos a um estado de exaustão, no qual, inalmente, cessam
de reagir por completo. Esta incapacidade de responder com energia apropriada às novas sensa-
ções constitui o núcleo da indiferença
blasé
“de se ajustar aos conteúdos e à forma da vida urbana
na recusa à reação diante deles” (Simmel, 1903/2025, p. 36).
A segunda fonte é monetária: “A essência do
blasé
é a insensibilidade diante das diferenças das coisas”
(Simmel, 1903/2025, p. 35). Esta insensibilidade, ou melhor, este embotamento
2
, não signiica que os
objetos deixem de ser percebidos; porém, o signiicado e os valores diferenciais das coisas são sentidos
ou experienciados como insigniicantes. Ao indivíduo
blasé
, todas as coisas aparecem com “uma tonali
-
dade uniformemente opaca e cinzenta, nenhuma delas soando preferível à outra” (
idem
, p. 35).
Esta descrição ecoa diretamente a análise simmeliana do dinheiro como equivalente do que todos
têm em comum, o valor de troca. “O dinheiro nivela toda qualidade e singularidade à questão do
mero
quanto
.” (Simmel, 1903/2025, p. 31). A corrosão da qualidade pela quantidade, operada pelo
dinheiro na esfera econômica, encontra seu correlato psicológico na atitude
blasé
: a incapacidade
de perceber e valorizar as diferenças qualitativas entre pessoas, objetos e situações.
A atitude
blasé
, conforme sintetiza Pereira (2025, p. 85), “trata-se de um embotamento da capa
-
cidade visual de discriminar, de uma percepção incapaz de detalhar as oscilações que exigiriam
do indivíduo um raciocínio constante diante da multiplicidade de informações e estímulos da me-
trópole”. Esta formulação é particularmente relevante porque conecta explicitamente a atitude
blasé
à dimensão visual, revelando que a defesa psíquica que resiste à hiperestesia se manifesta
primordialmente como uma defesa visual, uma recusa em ver as diferenças, em discriminar os
matizes qualitativos do mundo.
De acordo com Simmel (1903/2025), a atitude
blasé
não se reduz a uma simples perda, mas
configura-se
como
estratégia
de
autopreservação
diante
da
hiperestimulação
metropolitana,
implicando
a
desvalorização
do
mundo
objetivo
e
da
própria
personalidade.
Nesse
contexto,
a intelectualidade surge como mecanismo defensivo central, permitindo ao habitante da metrópole
processar os estímulos sem ser por eles subjugado. Como estratégia para lidar com a sobrecarga,
“o homem metropolitano necessita desenvolver uma ‘intelectualidade’ que, além de se ramificar
para muitas direções e se integrar a diversos fenômenos, ainda preserva a vida subjetiva dos
múltiplos estímulos da cidade grande” (Pereira, 2025, p. 85).
2
Expressão utilizada por Frisby (1997) na passagem“
The essence of the blasé attitude consists in the blunting of discrimina-
tion
”, em sua tradução de
The Metropolis and Mental Life
(Simmel, 1903/1997, p. 178).
10
Eder Claudio Malta Souza
Esta estratégia defensiva manifesta-se também na reserva que caracteriza as relações interpesso-
ais na metrópole. A reserva que caracteriza as relações interpessoais na grande cidade, frequen-
temente interpretada como frieza e insensibilidade, revela-se como condição estrutural da vida
urbana, pois institui as distâncias necessárias à sua existência. A atitude de reserva seria provavel-
mente a conduta mais contraditória entre a visualidade das ações e o embotamento:
ela determina as distâncias e afastamentos, sem os quais esse tipo de vida simplesmente
não poderia existir: suas medidas e combinações, o ritmo de seu surgimento e desapare-
cimento, as formas em que se satisfaz; tudo isso, juntamente com os motivos que uniicam
em seu sentido mais restrito, constitui um todo inseparável na organização da vida urbana.
Aquilo que, à primeira vista, parece dissociação é, na realidade, apenas uma de suas formas
elementares de socialização (Simmel, 1903/2025, p. 37).
A dialética entre proximidade ísica e distanciamento afetivo torna a solidão mais aguda justamen
-
te na multidão, constituindo a forma elementar da sociabilidade metropolitana. A proximidade
corporal e a estreiteza do espaço tornam a distância mental ainda mais visível. Paralelamente, tal
apatia convive com uma estetização paradoxal da experiência urbana, na qual o sujeito desenvolve
uma sensibilidade periférica capaz de converter fragmentos da cidade em objetos de contempla-
ção estética. Esta dialética entre embotamento e reinamento perceptivo é fundamental para com
-
preender os fenômenos contemporâneos de cultura visual nas cidades.
3.2 A “Qualidade-Vitrina” do Espaço Urbano: Visualidade, Mercadoria e o Valor de
Consumo das Coisas
A metrópole contemporânea não se limita a sobrecarregar os sentidos; ela organiza sistemati-
camente a experiência visual em torno da lógica da mercadoria. Em “A Exposição Industrial de
Berlim” (1896/2013), Simmel antecipa temas centrais para a compreensão da cultura visual con-
temporânea ao analisar o aglomerado de produtos heterogêneos em espaço coninado. O que mais
interessa ao autor é o que ele denomina “qualidade-vitrina das coisas” (Simmel, 1896/2013, p.
75), uma característica que a exposição acentua e torna visível: o ideal estético dos bens é coloca-
do sob a luz correta como estímulo para os olhos dos consumidores.
Sob o regime da livre concorrência, a produção de mercadorias “faz decerto com que se forneça às
coisas, para além de sua utilidade, uma aparência tentadora” (Simmel, 1896/2013, p. 75). Nesse
sentido, a concorrência não opera apenas em termos de utilidade ou de qualidades intrínsecas;
o interesse do consumidor precisa ser despertado pelo estímulo externo do objeto e, sobretudo,
pela maneira como este é exposto.
Sobre este aspecto, pode-se recorrer ao que o autor do presente artigo chama de “valor de con
-
sumo”
das coisas, que se refere ao processo de valorização de troca e de uso de um bem cultural,
não apenas pela sua aquisição, mas também pela dimensão cultural da economia na simbolização
e no seu uso, sejam imagens, narrativas, objetos, lugares ou paisagens (Malta, 2018). Isso abrange
processos de mudança nas dimensões materiais e imateriais da vida cotidiana cada vez mais in-
termediadas pela cultura de consumo. A Exposição Industrial de Berlim leva este princípio ao ex-
tremo: “o esforço de conceder ao útil também estímulo para os olhos [...] provém, para nós, da luta
pelo consumidor – o mais encantador, a partir do menos encantador” (Simmel, 1896/2013, p. 75).
Esta análise é crucial para compreender a dinâmica visual das cidades contemporâneas. O espaço
11
CULTURA URBANA E VISUALIDADES NA SOCIOLOGIA DE GEORG SIMMEL
urbano tornou-se organizado segundo a lógica da vitrina: fachadas, vitrines,
outdoors
, telas digi-
tais competem pela atenção do transeunte, produzindo a sobrecarga de estímulos que Simmel já
diagnosticava. A qualidade-vitrina do espaço urbano refere-se à conversão do ambiente metro-
politano em um mecanismo de captura do olhar, compreendido como a expressão visual da inte-
ração. As fachadas das empresas, por exemplo, atuam como instrumentos para a manutenção de
uma ordem especíica nessas interações, à medida que cada uma constrói uma identidade visual
própria, por meio de logomarcas, layouts e estéticas particulares, por meio das quais os vendedo-
res tendem a reproduzir tais representações.
Portanto, essa organização não é aleatória: responde à necessidade estrutural do capitalismo de
transformar a visibilidade em valor de troca. O olhar, que no primeiro momento aparecia como
uma forma elementar de reciprocidade social, converte-se aqui em um instrumento de mediação
entre produção e consumo. A vitrinização do espaço urbano opera, assim, em dupla direção. De
um lado, expande a esfera da visibilidade mercantil para além dos limites tradicionais do comér-
cio, invadindo ruas, praças, estações e meios de transporte. De outro, reconigura a própria per
-
cepção do transeunte, que passa a experimentar o ambiente não mais como um cenário neutro,
mas como um campo de estímulos visuais concorrentes.
A relação entre visualidade e mercadoria torna-se ainda mais evidente quando se considera a
evolução das técnicas de exposição. A Exposição já revelava a tendência à teatralização do objeto:
a mercadoria não é apenas mostrada; é encenada. No século XX, essa encenação se radicaliza com
o design de vitrines, a iluminação artiicial, a disposição cenográica e, posteriormente, com as
tecnologias digitais de projeção e de interação. O espaço metropolitano converte-se, assim, em
uma extensão da vitrine na qual o transeunte é, simultaneamente, espectador e consumidor em
potencial. A visualidade deixa de ser apenas um atributo da mercadoria para tornar-se o próprio
meio pelo qual a mercadoria se realiza como valor.
Essa articulação entre visualidade, mercadoria e subjetividade metropolitana prepara a transição
para o terceiro movimento do artigo, no qual a sociabilidade supericial e as formas de impessoa
-
lidade serão examinadas à luz da mesma centralidade do olhar. Mas, antes de passarmos à terceira
seção, proponho reletir sobre essa discussão acerca das cidades históricas italianas que Simmel
descreveu como obras de arte em sua análise sobre a estética citadina.
4 O JOGO DAS FORMAS SOCIAIS: A SOCIABILIDADE, O OLHAR E O ADORNO
Simmel (1906/1997) analisa a interação social como um jogo de formas que prescinde dos conteú-
dos individuais. A sociabilidade é deinida como a forma lúdica de associação e assemelha-se ao jogo
e à arte, pois se desliga das preocupações práticas do cotidiano, constituída artiicialmente de regras
próprias. Nas metrópoles, ela é predominantemente visual e supericial no sentido positivo do ter
-
mo: o olhar mútuo institui uma reciprocidade pura que não exige verbalização nem intimidade.
Essa mesma reciprocidade, contudo, pode operar como mecanismo de defesa, pois o olhar do sujeito
metropolitano é, paradoxalmente, instrumento de conexão e de distanciamento: ao vermos sem nos
envolvermos, protegemos nossa interioridade da invasão alheia. É nesse contexto que a visualidade
emerge como dimensão privilegiada da sociabilidade, pois permite a interação sem que os conteú-
dos pessoais ou objetivos venham à tona. Se a conversa sociável é “talvez o único caso em que falar é
um im legítimo em si mesmo” (Simmel, 1906/1997, p. 127), o olhar ocupa uma posição ainda mais
radical. Ele é a interação que prescinde até mesmo da mediação da palavra.
12
Eder Claudio Malta Souza
Simmel observa que, com a “possível exceção do olhar mútuo” (
looking-each-other-over
), a conver-
sa representa “a forma mais pura e sublimada de mutualidade entre todos os fenômenos socioló
-
gicos” (Simmel, 1906/1997, p. 127). Esta ressalva é signiicativa: o olhar mútuo (
mutual glance
)
constitui uma forma de reciprocidade ainda mais pura do que a conversa, pois nele “o conteúdo é
meramente o portador indispensável da estimulação, que a troca viva da conversa como tal des-
dobra” (Simmel, 1906/1997, p. 125).
O olhar na sociabilidade opera de maneira análoga à conversa: seu conteúdo é secundário; o que
importa é a própria relação, a “excitação do jogo de relações que se estabelece entre os indivíduos,
ligando e soltando, conquistando e sendo conquistado, dando e recebendo” (Simmel, 1906/1997,
p. 125). No entanto, o olhar possui uma vantagem sobre a palavra: ele não carrega consigo o peso
do conteúdo semântico. Enquanto a conversa precisa constantemente equilibrar-se entre o signi-
icado objetivo das palavras e sua função puramente relacional, o olhar é imediatamente relacio
-
nal. Seu “conteúdo” é a própria relação.
Esta forma da sociabilidade lança luz sobre um fenômeno que Simmel observa na vida metro-
politana: o uso da máscara como estratégia de interação e de liberdade impessoal. Ao discutir a
exclusão do pessoal na sociabilidade, Simmel oferece um exemplo revelador:
Esta exclusão do pessoal alcança até mesmo as questões mais externas; uma senhora não
gostaria de aparecer com um decote tão extremo numa situação realmente pessoal, intima-
mente amigável com um ou dois homens, como ela o faria numa grande companhia sem qual-
quer constrangimento. Nesta última, ela não se sentiria pessoalmente envolvida na mesma
medida e poderia, portanto, abandonar-se à liberdade impessoal da máscara. Pois ela está,
na companhia maior, ela mesma, certamente, mas não completamente ela mesma, já que é
apenas um elemento numa reunião formalmente constituída (Simmel, 1906/1997, p. 123).
Esta passagem é reveladora por várias razões. Primeiro, ela estabelece uma conexão direta
entre a visualidade (o decote, a aparência) e a sociabilidade (a interação formal). Segundo,
introduz a noção de máscara como recurso que permite ao indivíduo participar da intera-
ção sem comprometer sua interioridade. Terceiro, revela que a “liberdade” na sociabilidade é
paradoxal: é uma liberdade impessoal, conquistada precisamente por meio da suspensão da
pessoalidade plena.
A máscara não é mero disfarce; é uma forma social que possibilita a interação justamente por criar
uma distância protetora entre o indivíduo e sua apresentação pública. Como Simmel observa no
ensaio “Filosoia da moda” (1905), indivíduos reinados utilizam a moda como uma espécie de
máscara: “Eles consideram a obediência cega aos padrões do público em todas as exterioridades
como o meio consciente e desejado de reservar seus sentimentos pessoais e seu gosto, que estão
ansiosos para manter apenas para si mesmos” (Simmel, 1905/1997, p. 198).
A análise simmeliana do adorno (
Schmuck
) oferece uma das mais reinadas elaborações sobre a
relação entre a visualidade e a constituição da pessoa social. O adorno “intensiica ou amplia a
impressão da personalidade por operar como uma espécie de radiação emanando dela” (Simmel,
1908/1997, p. 207). Esta radiação não é mera metáfora: trata-se de uma expansão efetiva da esfe-
ra de inluência do indivíduo sobre seu entorno social. Por meio do adorno, “a personalidade, por
assim dizer, é mais quando está adornada” (Simmel, 1908/1997, p. 207). A visualidade do adorno
não é, portanto, um acréscimo supericial à pessoa, mas uma dimensão constitutiva de sua presen
-
ça social na cultura urbana.
13
CULTURA URBANA E VISUALIDADES NA SOCIOLOGIA DE GEORG SIMMEL
O que distingue fundamentalmente o adorno é sua estrutura duplamente orientada: ele é simul-
taneamente o elemento egoísta como tal que destaca o indivíduo à custa dos outros, e altruísta,
pois “seu prazer é destinado aos outros, já que seu proprietário só pode desfrutá-lo na medida em
que se espelha neles” (Simmel, 1908/1997, p. 207). Esta ambiguidade revela que a visualidade do
adorno opera na intersecção entre o ser-para-si e o ser-para-o-outro. Por virtude de seu brilho, o
usuário “aparece como o centro de um círculo de radiação em que toda pessoa próxima, todo olho
que vê, é capturado” (Simmel, 1908/1997, p. 209). O adorno não é passivamente contemplado,
mas ativamente captura o olhar alheio, estabelecendo uma ponte visual que expande a presença
da pessoa para além dos limites de seu corpo.
Esta expansão visual conecta-se diretamente com a discussão simmeliana sobre a face como
superície de legibilidade social. Se a face é o “órgão teórico” que revela visualmente a interio
-
ridade do indivíduo (Simmel, 1907/1997, p. 113), o adorno atua como uma segunda pele visu-
al que intensiica esta revelação. Os materiais brilhantes são privilegiados precisamente por sua
capacidade de emanar luz, projetar a presença do indivíduo para além de seus contornos corpo-
rais. Esta “radioatividade humana” signiica que “todo indivíduo é cercado por uma esfera maior
ou menor de signiicância que dele irradia; e todos os outros, que com ele lidam, estão imersos
nesta esfera” (Simmel, 1908/1997, p. 207). O adorno torna esta esfera visível e sensorialmente
acessível e, além disso, a análise simmeliana do adorno também observa a relação entre estética
e poder.
O adorno revela-se, assim, como uma forma social que sintetiza visualmente as tensões funda-
mentais
entre
indivíduo
e
sociedade.
A
passagem
em
que
Simmel
discute
o
decreto
medieval
francês que proibia pessoas abaixo de certo estrato social de usar ornamentos de ouro é particu-
larmente reveladora: “a combinação que caracteriza toda a natureza do adorno vive inconfundi
-
velmente neste decreto: no adorno, a ênfase sociológica e estética sobre a personalidade funde-se
como num foco; o ser-para-si e o ser-para-os-outros tornam-se causa e efeito recíprocos” (Simmel,
1908/1997, p. 210). O decreto reconhece implicitamente que o adorno não é mera questão de
gosto pessoal, mas um marcador social cujo uso deve ser regulado.
Por meio do adorno, a presença visual do indivíduo é simultaneamente airmação de sua singula
-
ridade e reconhecimento de sua inserção numa ordem social que confere signiicado a esta mesma
airmação. A radiação que emana do adorno não é mero ornamento, mas a própria visualidade da
vida social em ato: aquilo que torna sensorialmente perceptível a trama de relações em que cada
indivíduo se constitui como pessoa.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida ao longo deste ensaio buscou evidenciar a centralidade da visualidade na
sociologia de Georg Simmel, não como tema periférico, mas como dimensão constitutiva da pró-
pria sociabilidade moderna. A relevância contemporânea da sociologia simmeliana reside em sua
capacidade de nos legar uma sensibilidade analítica aguçada aos detalhes microssociológicos da
vida cotidiana. Ela nos ensina a ler nas entrelinhas dos gestos, dos olhares e das superícies visuais
os dilemas mais profundos da modernidade.
A perspectiva deste autor clássico mostra que a sociologia das formas sensoriais oferece um ins-
trumental teórico fecundo para a discussão das visualidades urbanas. Sua constatação de que o
olhar constitui uma forma de reciprocidade pura, capaz de articular o distanciamento e a aproxi-
14
Eder Claudio Malta Souza
mação entre os sujeitos, permanece como um dos eixos mais soisticados para a análise da socia
-
bilidade urbana e das formas de interação atuais. Se tensionarmos o formalismo simmeliano com
as mudanças mais críticas do presente, a sociologia urbana tende a renovar a compreensão das
contradições estéticas e visuais menos aparentes que atravessam as cidades contemporâneas.
Contudo, a aplicação estrita das categorias simmelianas aos contextos urbanos atuais exige um
esforço crítico de tensionamento diante das profundas transformações sociais e estruturais que
atravessam o espaço público citadino ao longo do último século. As assimetrias de poder, fundadas
em clivagens de classe, raça, gênero e território, cada vez mais conlitantes, introduzem fraturas
no campo visual de quem pode olhar o quê e quem é olhado, de quem tem o direito de aparecer e
quem é relegado à invisibilidade, não recebem tratamento sistemático em sua obra.
A transição da metrópole industrial, analisada por Simmel, para a cidade informacional e algorít-
mica do século XXI deslocou o eixo da visualidade para regimes de vigilância digital, circulação
de dados e modulação permanente dos comportamentos por meio de telas ubíquas. Isto ocorre
de tal forma que o seu formalismo abstrato pode não responder a um entendimento mais amplo
da cultura urbana contemporânea, em que cada
rosto
não possui uma única forma. Para além das
máscaras, são até mesmo avatares que olham telas antes de se olharem face a face.
Ainda assim, podemos argumentar que a circulação massiva de imagens, a digitalização dos es-
paços de sociabilidade e a espetacularização das paisagens urbanas coniguram um cenário em
que a sobrecarga sensorial descrita por Simmel atinge patamares inéditos. Este cenário submete a
experiência cotidiana a lógicas estéticas orientadas pelo consumo e pelas sociabilidades virtuais.
Não é simplesmente aplicar Simmel, mas sim simmelizar sem colonizar, submetendo-o ao reco-
nhecimento de sua obra e à reelaboração crítica a partir das experiências concretas da vida urba-
na. As categorias elaboradas pelo autor são, antes de tudo, um ponto de partida heurístico para
a pesquisa empírica e para o debate conceitual de igurações contemporâneas das visualidades.
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16
Eder Claudio Malta Souza
Abstract
Key-Words
Urban Culture And Visualities In
Georg Simmel’s Sociology
Abstract
This article proposes an in-depth analysis of Georg
Simmel’s theory on visuality as a central element
in the constitution of modern sociability. Departing
from the thesis that vision, especially through the
notion of mutual gaze, constitutes a form of pure
reciprocity, the study articulates the author’s con
-
tributions to a sociology of sensory forms. Based
on
a
formalist-phenomenological
approach,
Sim-
mel
examines
urban
aesthetics
and
the
city
as
a work of art, the face as a theoretical organ, the
sensory overload characteristic of the metropolis,
the
blasé
attitude as a psychic defense strategy, the
display windowing of urban space, and sociability
as a game of forms. The analysis is also extended to
relections on the bridge and the door as visual ma
-
terializations of connection and separation, and on
the adornment as a visual expansion of personali-
ty. The article reafirms the centrality of visuality
in Simmel’s sociology not only as an aesthetic ele
-
ment but also as a form of interaction, pointing out
the
current
relevance
of
his
analytical
categories
and
the
limitations
of
his
perspective
regarding
contemporary visual culture.
Keywords
: Simmel; visuality; sociology of the sen-
ses; urban culture; blasé attitude.
Resumen
Palavras Clave
Cultura Urbana Y Visualidades En La
Sociología de Georg Simmel
Resumen
Este artículo propone un análisis en profundidad
de la teoría de Georg Simmel sobre la visualidad
como elemento central en la constitución de la so-
ciabilidad moderna. Partiendo de la tesis de que la
visión, especialmente a través de la noción de mi-
rada recíproca, constituye una forma de reciproci-
dad pura, el estudio articula las contribuciones del
autor
a
una
sociología
de
las
formas
sensoriales.
A
partir
de
un
enfoque
formalista-fenomenológi-
co, Simmel examina la estética urbana y la ciudad
como obra de arte, el rostro como órgano teórico, la
sobrecarga sensorial característica de la metrópoli,
la actitud blasé como estrategia de defensa psíqui-
ca, la vitrinización del espacio urbano y la sociabi-
lidad como juego de formas. El análisis se extiende
también a las relexiones sobre el puente y la puer
-
ta como materializaciones visuales de la conexión
y la separación, y sobre el adorno como expansi-
ón visual de la personalidad. El artículo reairma
la centralidad de la visualidad en la sociología de
Simmel, no solo como elemento estético, sino tam-
bién como forma de interacción, señalando tanto la
relevancia actual de sus categorías analíticas como
las limitaciones de su perspectiva frente a la cultu-
ra visual en la contemporaneidad.
Palabras clave
:
Simmel; visualidad; sociología de
los sentidos; cultura urbana; actitud blasé.
Histórico
Recebido: Março/26
Primeiro Parecer: Abril/26
Segundo Parecer: Agosto/26
Aceito: Agosto/26
Revisão Gramatical/Ortográica e ABNT: Setembro/26
Revisado Autor: Setembro/26
Publicado: Setembro/26
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)
Laura Cintra (Editora Assistente Júnior)
Contato: revistatomo@gmail.com