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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>CULTURA URBANA E VISUALIDADES  </line>
    <line>NA SOCIOLOGIA DE GEORG SIMMEL  </line>
    <line>Eder Claudio Malta Souza*1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>Este artigo propõe uma análise aprofundada da teoria de Georg Simmel sobre a visualidade como elemento  </line>
    <line>central na constituição da sociabilidade moderna. Partindo da tese de que a visão, especialmente por meio  </line>
    <line>da noção de olhar mútuo, constitui uma forma de reciprocidade pura, o estudo articula as contribuições do  </line>
    <line>autor para uma sociologia das formas sensoriais. A partir de uma abordagem formalista-fenomenológica,  </line>
    <line>Simmel examina a estética urbana e a cidade como obra de arte, o rosto como órgão teórico, a sobrecarga  </line>
    <line>sensorial característica da metrópole, a atitude blasé como estratégia de defesa psíquica, a vitrinização do  </line>
    <line>espaço e sociabilidade jogo formas. análise também reflexões a  </line>
    <line>ponte e a porta como materializações visuais da conexão e da separação, e o adorno como expansão visual  </line>
    <line>da personalidade. O artigo reafirma a centralidade da visualidade na sociologia de Simmel, não apenas como  </line>
    <line>elemento estético, mas também como forma de interação, apontando tanto a relevância atual de suas cate- </line>
    <line>gorias analíticas quanto as limitações de sua perspectiva diante da cultura visual na contemporaneidade. </line>
    <line>Palavras-chaves: Simmel; visualidade; sociologia dos sentidos; cultura urbana; atitude blasé. </line>
    <line>*  Universidade Federal de Sergipe, Departamento de Ciências Sociais; Programa de Pós-Graduação em Sociologia, São Cris - </line>
    <line>tóvão, Sergipe, Brasil. E-mail: ecmsouza82@hotmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3153-3400 </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24609, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24609  </line>
    <line>Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  </line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino </line>
    <line>E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
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    <line>2 </line>
    <line>1. INTRODUÇÃO </line>
    <line>A relação entre a cidade e a visualidade constitui um dos eixos sociológicos fundamentais para a  </line>
    <line>compreensão da sociabilidade moderna. As análises pioneiras de Georg Simmel (1858-1918) so - </line>
    <line>bre a metrópole e a vida mental oferecem um arcabouço teórico que antecipa os debates contem- </line>
    <line>porâneos sobre a cultura visual, a estética urbana  e os estilos de vida nas cidades. Este ensaio pro- </line>
    <line>põe uma leitura integrada das contribuições simmelianas, articulando-as com visualidades que  </line>
    <line>emergem contextos A central orienta reflexão que sobrecarga  </line>
    <line>sensorial característica das metrópoles modernas não apenas produz reserva e individualidade,  </line>
    <line>mas engendra específicas visualidades compreendem,  </line>
    <line>mecanismos de distanciamento e possibilidades de interação e sociabilidade. </line>
    <line>Acerca do tema das visualidades em Simmel, recorremos a leituras como a interpretação de  </line>
    <line>Weinstein e Weinstein (1984) sobre a  constituição visual da sociedade, a de Davis (1973) acerca  </line>
    <line>da  estética visual  como princípio unificador do pensamento do autor e a de Salturi (2016) sobre a  </line>
    <line>sociologia dos sentidos, presente no segundo volume da Sociologia (1908), onde Simmel desloca  </line>
    <line>o foco da sociologia do espaço físico para a percepção sensorial como elemento constitutivo da  </line>
    <line>socialização, a discussão ampara-se também no trabalho de Pereira (2025) sobre a sociologia ur- </line>
    <line>bana de Simmel. fim, interpretações partir obras Simmel a dos  </line>
    <line>sentidos, da estética, da sociabilidade e do papel do olhar na interação social, com foco na discus- </line>
    <line>são da relação entre a vida urbana e a cultura visual.  </line>
    <line>A obra de Georg Simmel oferece, nesse contexto, uma entrada privilegiada para recolocar a ques- </line>
    <line>tão da visualidade no centro do debate sociológico, não como tema exótico ou periférico, mas  </line>
    <line>como dimensão constitutiva da própria sociabilidade moderna. Sua análise pioneira sobre o olhar,  </line>
    <line>o rosto, o adorno, as formas espaciais e a estética citadina antecipa, em mais de um século, ques- </line>
    <line>tões que se tornaram prementes em nossas cidades saturadas de estímulos visuais. Dessa forma,  </line>
    <line>nossa pergunta de partida para esta discussão é a seguinte: como a visualidade e o olhar mútuo  </line>
    <line>constituem a sociabilidade urbana nas cidades contemporâneas, a partir da teoria de Georg Sim- </line>
    <line>mel? Qual o papel da visualidade na afirmação ou na negação da interação social dos indivíduos? </line>
    <line>O artigo está organizado em três seções principais. Na primeira, examinamos a constituição visual  </line>
    <line>da sociedade a partir do olhar como reciprocidade pura, do rosto como órgão teórico e da estética  </line>
    <line>visual princípio das sociais, especial ao “A e  </line>
    <line>porta” e aos ensaios sobre as cidades históricas italianas Roma, Florença e Veneza. Na segunda  </line>
    <line>seção, partir ensaios metrópole a do e Exposição de  </line>
    <line>analisamos o que o autor chama de sobrecarga sensorial e visual na metrópole, a atitude blasé   </line>
    <line>como forma de resistência à hiperestesia e o fenômeno da vitrinização do espaço urbano, legado  </line>
    <line>da Exposição.  </line>
    <line>Na seção, à superficial às visuais se  </line>
    <line>entre diversas formas, a partir do olhar como forma pura de interação, da máscara como estra- </line>
    <line>tégia liberdade e, fim, base Sociologia Moda Simmel,  </line>
    <line>o como visual sociabilidade das sociais. com  </line>
    <line>o entendimento de que há centralidade analítica da visualidade na obra simmeliana e sua fecun- </line>
    <line>didade para a compreensão dos fenômenos urbanos contemporâneos, ao mesmo tempo em que  </line>
    <line>reconhecemos as limitações de sua perspectiva diante das assimetrias de poder que estruturam o  </line>
    <line>campo visual urbano e de suas formas de interação contemporâneas.</line>
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    <line>3 </line>
    <line>2 A CONSTITUIÇÃO VISUAL DA SOCIEDADE: O OLHAR COMO  </line>
    <line>RECIPROCIDADE PURA E O ROSTO COMO ÓRGÃO TEÓRICO </line>
    <line>Simmel (1907/1997) sustenta que a percepção sensorial do outro constitui um elemento socioló - </line>
    <line>gico fundamental, pois entre os sentidos há uma divisão do trabalho cognitivo que permite conhe - </line>
    <line>cer o interlocutor por meio de impressões dotadas tanto de valor afetivo quanto de caráter instin- </line>
    <line>tivo voluntáConforme (2016), autor as específicas cada  </line>
    <line>sensorial: a voz revela sentimentos e disposições atuais; os olhos estabelecem uma reciprocidade  </line>
    <line>subjetiva que torna visível a interioridade, sendo o rosto uma síntese histórica da personalidade; o  </line>
    <line>ouvido, por sua vez, é caracterizado como órgão predominantemente receptivo; o olfato apresenta  </line>
    <line>caráter dissociador e antissocial; e o tato remete a dinâmicas de aproximação e distanciamento  </line>
    <line>corporal.  </line>
    <line>Simmel associa a modernidade às transformações sensoriais e à emergência do indivíduo moder- </line>
    <line>no pela da visual, reserva pelo de - </line>
    <line>alização (Salturi, 2016; Pereira, 2025). Weinstein e Weinstein (1984) demonstram que Simmel  </line>
    <line>inaugura uma sociologia dos sentidos ao posicionar a visão como constitutiva de relações inter - </line>
    <line>mentais  que a cartesiana. “Sociologia Sentidos”, oferece  </line>
    <line>fundamentação fenomenológica desta tese ao afirmar que “entre os órgãos sensoriais individuais,  </line>
    <line>o olho está destinado a uma realização sociológica completamente única: a conexão e a interação  </line>
    <line>entre indivíduos que residem no ato de olharem um para o outro. Esta é talvez a interação mais  </line>
    <line>direta e pura que existe” (Simmel, 1907/1997, p. 111). </line>
    <line>O que distingue fundamentalmente o olhar de outras formas de interação é sua reciprocidade  </line>
    <line>imediata. Simmel propõe que o olhar revela diretamente  o outro como ser mental, contudo, isso  </line>
    <line>não é unilateral: </line>
    <line>Não se pode receber através do olho sem ao mesmo tempo dar. O olho revela ao outro a  </line>
    <line>alma que ele ou ela busca revelar. Uma vez que isto ocorre obviamente apenas durante o  </line>
    <line>olhar direto de um olho para outro, a mais completa reciprocidade em toda a esfera das  </line>
    <line>relações humanas é alcançada aqui (Simmel, 1907/1997, p. 112).  </line>
    <line>O olhar mútuo não é, portanto, um fenômeno derivado da linguagem ou da cognição racional, mas  </line>
    <line>a própria matriz da associação social (Vergesellschaftung) em sua dimensão mais elementar. Para  </line>
    <line>Simmel, a voz enuncia a presença social de um indivíduo, seus sentimentos atuais e suas maneiras  </line>
    <line>de ser, podendo ainda produzir um efeito atrativo ou repulsivo. Segundo Simmel, sentir vergonha,  </line>
    <line>por exemplo, leva-nos a olhar para o chão e a evitar o olhar do outro. Entretanto, </line>
    <line>a razão mais profunda é que abaixar o olhar priva o outro da possibilidade de descobrir  </line>
    <line>algo sobre mim. O olhar nos olhos da outra pessoa não apenas me ajuda a conhecê-la,  </line>
    <line>mas também a ajuda a me conhecer; ao longo da linha que conecta ambos os pares de  </line>
    <line>olhos, a própria personalidade, o humor e o impulso são transmitidos ao outro (Simmel,  </line>
    <line>1907/1997, p. 112).  </line>
    <line>Em outros termos, quando duas pessoas evitam o contato visual mútuo, a conexão entre elas se  </line>
    <line>rompe, já que abaixar o olhar impede que o outro as conheça. O rosto é a superfície de nossa iden - </line>
    <line>tidade e o local onde se reúnem as marcas de nossa história pessoal, expressando o passado e a  </line>
    <line>essência de cada um por meio de traços físicos visíveis (Salturi, 2016).</line>
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    <line>4 </line>
    <line>Nesse sentido, o rosto se enuncia como um órgão teórico; é a visualidade e a expressão da interio - </line>
    <line>ridade do indivíduo. A centralidade do rosto nas ideias simmelianas decorre de sua capacidade de  </line>
    <line>sintetizar, uma visível, totalidade experiência do Simmel  </line>
    <line>desenvolve reflexão precisão “O visto um de  - </line>
    <line>são é, por assim dizer, de uma natureza completamente teórica. Ele não age, como a mão, o pé  </line>
    <line>ou o corpo inteiro, nunca sustenta o comportamento interno ou prático das pessoas, mas apenas  </line>
    <line>informa os outros sobre ele” (Simmel, 1907/1997, p. 113). </line>
    <line>Esta do como teórico”, é, superfície legibilidade inte- </line>
    <line>rioridade, fundamenta-se na distinção entre o que é duradouro e o que é transitório na experiên- </line>
    <line>cia subjetiva. Enquanto a palavra falada transmite o momento fugaz, “o que vemos de uma pessoa  </line>
    <line>é a parte duradoura dela; como numa seção através de estratos geológicos, a história de sua vida e  </line>
    <line>aquilo sobre o que ela se baseia como o dote intemporal da natureza são revelados em seu rosto”  </line>
    <line>(Simmel, 1907/1997, p. 115). </line>
    <line>O oferece, “o visualmente completo interioridade e  </line>
    <line>de tudo o que nossas experiências individuais depositaram no fundamento permanente de nossas  </line>
    <line>naturezas” (Simmel, 1907/1997, p. 113-114). Esta capacidade de condensar visualmente a his - </line>
    <line>tória do indivíduo confere ao rosto uma posição única na sociologia simmeliana: ele é o ponto de  </line>
    <line>interseção o biográfico sucessão expe tempo (a  - </line>
    <line>dade da apresentação pública do  self). Esta perspectiva insere Simmel na tradição neokantiana e  </line>
    <line>vitalista, onde a sociedade é contingente; ela mesma emerge de interações efêmeras e do cotidiano  </line>
    <line>de   e indubitavelmente estruturas ações reificadas utilitarismo  </line>
    <line>pela racionalidade técnica.  </line>
    <line>Além disso, ao criticar o reducionismo linguístico da sociologia clássica, particularmente a ênfase  </line>
    <line>durkheimiana fato como Simmel que   visualidade  constitui “ponte”  </line>
    <line>para “eu do acessível na instantânea encontro Con - </line>
    <line>forme aponta Davis (1973), a produção simmeliana orienta-se por um rigoroso modelo estético- </line>
    <line>-visual que afasta o autor de contemporâneos como Henri Bergson, priorizando a estabilidade das  </line>
    <line>formas espaciais em detrimento do fluxo vital da duração. </line>
    <line>Essa centralidade da visão manifesta-se na distinção entre artes táteis e visuais, nas quais estas  </line>
    <line>últimas posicionam o indivíduo como observador contemplativo de uma realidade preexistente,  </line>
    <line>espelhando a condição do homem moderno perante a espacialidade e as estruturas sociais que o  </line>
    <line>precedem. Simmel aplica um modelo estético que se sustenta em três pilares percebidos em seus  </line>
    <line>estudos urbanos: na modalidade artística, a primazia da forma estática sobre o movimento; no  </line>
    <line>produto artístico, a independência da estrutura social em relação ao seu criador; e, no método  </line>
    <line>artístico, a decifração da totalidade social a partir de interações microscópicas, viabilizando o ma- </line>
    <line>peamento das distâncias sociais (Davis, 1973). </line>
    <line>2.1 A Estética Visual como Princípio Unificador: Sociedade como Obra de Arte </line>
    <line>Davis (1973) argumenta que a perspectiva de Simmel é essencialmente visual e espacial, o que o  </line>
    <line>leva a priorizar formas estáveis em detrimento de processos históricos ou causais. Essa aborda- </line>
    <line>gem revela uma visão de mundo em que as criações culturais se tornam independentes de seus  </line>
    <line>criadores, um permanente a humana as rígidas  </line>
    <line>da Davis que estética funciona princípio da</line>
  </page>
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    <line>5 </line>
    <line>simmeliana aparentemente fragmentada: Simmel concebe a sociedade como uma paisagem de  </line>
    <line>formas geométricas — díades, tríades, o estranho, o pobre, o aventureiro — que representam  </line>
    <line>configurações visuais de relações humanas, abstraídas de seus conteúdos históricos contingentes. </line>
    <line>Essa ordagem a kantiana obra Simmel, medida que  </line>
    <line>formas a priori da socialidade que estruturam a experiência intersubjetiva independentemente  </line>
    <line>de seus conteúdos particulares. A originalidade da leitura de Davis reside em mostrar como a per - </line>
    <line>cepção óptica se torna, em Simmel, o meio privilegiado de apreensão dessas formas sociais.  Esse  </line>
    <line>“viés serve modelo a compreensão realidade   Ao contrário das artes  </line>
    <line>auditivas, cujos ritmos projetam o ouvinte para o futuro ou o remetem ao passado, o modelo óp- </line>
    <line>tico permite a Simmel conceber os elementos fundamentais da arte e da sociedade como configu- </line>
    <line>rações atemporais no espaço.   </line>
    <line>Essa predileção pelo olhar não é arbitrária: ao fundamentar sua análise na visão, Simmel distin - </line>
    <line>gue as artes visuais das táteis, pressupondo o indivíduo moderno como contemplador passivo  </line>
    <line>de estruturas sociais que o próprio ajudou a criar, mas que agora o precedem e estabilizam. Essa  </line>
    <line>transição do olhar contemplativo para a organização sistemática da realidade social encontra sua  </line>
    <line>expressão máxima na geometria espacial que fornece o arcabouço para o mapeamento das distân- </line>
    <line>cias sociais. </line>
    <line>No ensaio “A ponte e a porta” (1909), Simmel desenvolve uma reflexão sobre como a atividade hu- </line>
    <line>mana de conectar e separar ganha expressão visual. A ponte, para ele, “torna-se um valor estético  </line>
    <line>na medida em que realiza a conexão entre o que está separado não apenas na realidade e para  </line>
    <line>cumprir objetivos práticos, mas em torná-la diretamente visível” (Simmel, 1909/1997, p. 171- </line>
    <line>172). A ponte não é apenas um artefato utilitário que permite a travessia; é, fundamentalmente,  </line>
    <line>uma forma visual que proporciona a conexão, estabelecendo uma correspondência entre a função  </line>
    <line>corporal de atravessar e a função perceptiva de contemplar a unidade da paisagem. </line>
    <line>A originalidade da análise reside em mostrar que a ponte transforma movimento em visibilidade:  </line>
    <line>“a dinâmica movimento, cuja particular ‘propósito’ ponte esgota,  </line>
    <line>tornou-se algo visível e duradouro” (Simmel, 1909/1997, p. 172). A visualização não é a represen - </line>
    <line>tação secundária de uma realidade pré-existente, mas um processo ativo de formação que confere  </line>
    <line>às relações espaciais estabilidade e inteligibilidade que não possuiriam de outra forma. A ponte  </line>
    <line>torna visível o que, sem ela, permaneceria apenas como uma possibilidade efêmera. </line>
    <line>A por vez, a do diferentemente parede a  </line>
    <line>“fala” — é o ponto em que dentro e fora se articulam visualmente. Seu fechamento proporciona “o  </line>
    <line>sentimento de um isolamento mais forte contra tudo o que está fora deste espaço do que a mera  </line>
    <line>parede não estruturada” (Simmel, 1909/1997, p. 172). Ponte e porta revelam-se, assim, como  </line>
    <line>formas transferem dinâmica nossas para permanência da  criação  </line>
    <line>(Simmel, 1909/1997, p. 174). Assim, solidifica em plasticidade imediatamente convincente aquilo  </line>
    <line>que, na fluidez da vida, permaneceria invisível e transitório.</line>
    <line>2.2 A Cidade como Obra de Arte: a Estética das Cidades Históricas Italianas </line>
    <line>A reflexão simmeliana sobre a visualidade urbana não se esgota na análise da metrópole moderna.  </line>
    <line>Os ensaios dedicados a Roma (1898), Florença (1906) e Veneza (1907) revelam outra dimensão  </line>
    <line>da estética citadina: a cidade como obra de arte, como objeto estético. Esta abordagem, como ob-</line>
  </page>
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    <line>6 </line>
    <line>serva é com própria simmeliana, atribui espírito cida- </line>
    <line>de e à dimensão urbana um estatuto singular, arquetípico da excepcional riqueza e complexidade  </line>
    <line>da vida humana” (Fortuna, 2010, p. 15).  </line>
    <line>Diferentemente da metrópole moderna, em que a sobrecarga sensorial exige defesas psíquicas,  </line>
    <line>as cidades históricas italianas apresentam-se como totalidades estéticas. Ainda que as cidades  </line>
    <line>históricas e as metrópoles modernas solicitem do observador percepções distintas, na perspecti - </line>
    <line>va de Simmel, a cidade só se torna compreensível como objeto artístico quando considerada em  </line>
    <line>sua totalidade. Ao buscar enunciar a dimensão estética dessa totalidade, seu modelo integra não  </line>
    <line>apenas a obra de arte, mas também a própria sociedade como experiência estética. Desse ângulo,  </line>
    <line>tanto cidade quanto metrópole configuram-se categorias  </line>
    <line>da sociedade mais ampla, o que justifica a escolha simmeliana pela cidade como obr a de arte. </line>
    <line>A visualidade urbana em Roma exige do observador uma atividade estética ativa para recompor  </line>
    <line>a unidade a partir da diversidade monumental. As distâncias entre épocas, estilos e conteúdos  </line>
    <line>vitais, embora amplas como em nenhum outro lugar, entretecem-se em harmonia singular. Essa  </line>
    <line>unidade, contudo, não reside nos objetos, mas no espírito que os contempla.  Diferentemente da  </line>
    <line>atitude blasé metropolitana, que se recusa a perceber diferenças, Roma demanda e recompensa  </line>
    <line>uma percepção sintética capaz de reconhecer a multiplicidade para reconstruir sua unidade.  </line>
    <line>A das determinada relevo faz que edifícios relacio- </line>
    <line>nem verticalmente, conferindo às partes uma coesão visível que o terreno plano não proporciona.  </line>
    <line>A dinâmica da vida romana reforça essa unidade: nenhum elemento, por mais arcaico ou con- </line>
    <line>traditório que seja, escapa à sua vitalidade. Restos antigos inseridos em construções posteriores  </line>
    <line>simbolizam a capacidade de integrar o diverso em uma forma viva. Por isso, os pontos de interesse  </line>
    <line>não aparecem como curiosidades turísticas isoladas, mas como órgãos de um todo orgânico. </line>
    <line>Florença apresenta-se como obra de arte consumada, onde natureza e espírito se fundem em uma  </line>
    <line>harmonia salta olhos: a tornou-se sem a própria”  </line>
    <line>(Simmel,  38). visualidade caracteriza-se transparência: conjun- </line>
    <line>to da cidade, formado pela cooperação entre memória, natureza e cultura, produz no observador a  </line>
    <line>impressão inequívoca de uma obra de arte. O passado permanece visível e coexiste com o presente  </line>
    <line>sem tensão; diferentemente da metrópole, onde a aceleração das imagens fragmenta a experiência  </line>
    <line>temporal, Florença apresenta um tempo ideal em que passado e presente coexistem sem tensão.  </line>
    <line>Esta visualidade harmoniosa contrasta com a fragmentação metropolitana, mas também com a  </line>
    <line>ambiguidade de Veneza, que, por sua vez, representa o caso limite da visualidade urbana: uma  </line>
    <line>cidade onde a aparência estética se autonomizou completamente do ser, tornando-se mentira  </line>
    <line>e “Veneza, é cidade [...] tudo que alegre claro,  </line>
    <line>e livre, servia simplesmente de fachada a uma vida sombria, violenta, implacavelmente funcio- </line>
    <line>nal, o seu declínio deixou apenas um cenário sem alma, a beleza mentirosa da máscara” (Simmel,  </line>
    <line>1907/2010, p. 47). A realidade é constantemente sobreposta por impressões uniformes que hip- </line>
    <line>notizam o observador e induzem a um estado sonolento de irrealidade.  </line>
    <line> A monotonia dos estímulos em Veneza produz um estado sonolento que se assemelha, por cami- </line>
    <line>nhos distintos, ao embotamento blasé  da metrópole: não pela saturação, mas pela uniformidade  </line>
    <line>rítmica que anestesia a capacidade de discriminação. Neste sentido, Veneza antecipa o diagnóstico  </line>
    <line>da ra contemporânea, que superfície frequentemente autonomiza  </line>
    <line>qualquer referente substancial.</line>
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    <line>7 </line>
    <line>Estes três modelos de visualidade urbana — a unidade reconciliadora de Roma, a harmonia transpa- </line>
    <line>rente de Florença e a superfície enganadora de Veneza — revelam a amplitude da reflexão simmeliana </line>
    <line>sobre cidade objeto Como Fortuna, estética metrópole resul- </line>
    <line>tará da capacidade dos sujeitos para resistirem à lógica individualista, calculista, anónima e mesmo  </line>
    <line>psicologicamente perturbadora que domina as interacções na grande cidade” (Fortuna, 2010, p. 19).  </line>
    <line>A visualidade não é, portanto, um dado passivo, mas um campo de possibilidades que exige ativi- </line>
    <line>dade criadora do observador, seja para reconstruir a unidade em Roma, reconhecer a harmonia  </line>
    <line>em ou a em Esta estende-se própria - </line>
    <line>ência metropolitana contemporânea: a beleza da cidade moderna será aquilo que for a qualidade  </line>
    <line>estética das formas de interação que nela os sujeitos forem capazes de forjar. </line>
    <line>3 SOBRECARGA SENSORIAL E VISUAL NA METRÓPOLE: O REGIME PERCEPTIVO  </line>
    <line>MODERNO </line>
    <line>A análise simmeliana da metrópole encontra seu fundamento psicológico na relação entre estí- </line>
    <line>mulo e consciência. Simmel estabelece, logo no início de seu ensaio, que “a base psicológica sobre </line>
    <line>a qual se ergue o tipo de individualidades urbanas é o aumento da vida nervosa, que decorre da  </line>
    <line>rápida e incessante alternância de impressões externas e internas” (Simmel, 1903/2025, p. 29).  </line>
    <line>Esta formulação é crucial porque desloca a compreensão da cidade do plano meramente morfoló- </line>
    <line>gico para o plano da experiência sensorial,  em que a experiência visual  torna-se uma importante  </line>
    <line>dimensão constitutiva da subjetividade moderna, ao lado de outras formas de sensibilidade, como  </line>
    <line>os sons, cheiros, tato etc. </line>
    <line>O com vida ou pequena é “Impressões a - </line>
    <line>significância suas a habitude curso de contrastes - </line>
    <line>somem, por assim dizer, menos consciência do que a rápida compressão de imagens mutáveis, o  </line>
    <line>afastamento brusco dentro do que se abrange de relance 1, a inesperada imposição de impressões”  </line>
    <line>(Simmel, 1903/2025, p. 30). A metrópole, portanto, não apenas oferece mais estímulos visuais;  </line>
    <line>ela transforma a própria estrutura da percepção. O olhar metropolitano é treinado para processar  </line>
    <line>rapidamente uma multiplicidade de imagens fragmentadas, sem tempo para a contemplação du- </line>
    <line>radoura que caracterizava a experiência pré-moderna.  </line>
    <line>Esta aceleração perceptiva tem consequências profundas para a sociabilidade. Em “Sociologia dos  </line>
    <line>Sentidos”, Simmel já havia antecipado que  </line>
    <line>o fato de que as pessoas se veem constantemente, mas só podem falar umas com as outras  </line>
    <line>relativamente com pouca frequência, como trabalhadores em uma fábrica, estudantes em  </line>
    <line>uma palestra ou soldados de um batalhão, então a consciência de unidade terá um caráter  </line>
    <line>muito mais abstrato do que quando esse contato também inclui comunicação oral” (Sim- </line>
    <line>mel, 1907/1997, p. 155). </line>
    <line>1  Em Frisby e Featherstone (1997), pode-se ler o termo relance como single glance, ou seja, único olhar, rápida visão ou olhar  </line>
    <line>sobre algo. É uma palavra que expressa a ideia de uma observação breve. Conforme tradução para o inglês realizada por  </line>
    <line>Frisby, lê-se: Lasting impressions, impressions which differ only slightly from one another, impressions which take a regular  </line>
    <line>and habitual course and show regular and habitual contrasts all these use up, so speak, less consciousness than does the rapid  </line>
    <line>crowding of changing images, the sharp discontinuity in the grasp of a single glance, and the unexpectedness of onrushing  </line>
    <line>impressions (Simmel, 1903/1997, p. 175).</line>
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    <line>8 </line>
    <line>A metrópole generaliza esta situação: o contato visual constante com desconhecidos produz uma  </line>
    <line>consciência de unidade abstrata, baseada não no conhecimento pessoal, mas na mera copresença  </line>
    <line>visual. </line>
    <line>Esta análise da sobrecarga sensorial não é fruto de mera especulação abstrata. Como observa Pe- </line>
    <line>reira (2025, p. 79-80), Simmel nasceu e viveu no coração de Berlim, na esquina das duas maio- </line>
    <line>res comerciais cidade, interseccionavam correntes afetadas  </line>
    <line>diversas tendências intelectuais e morais. Em sua sociologia urbana, o autor olha para as formas  </line>
    <line>sociais como resultado de um processo de interação que começa com estímulos e interesses par- </line>
    <line>ticulares dos indivíduos e termina em uma organização que adquire autonomia e certo grau de  </line>
    <line>institucionalização.  </line>
    <line>Em termos mais explicativos, as formas sociais surgem quando as interações entre pessoas se  </line>
    <line>repetem e se reconhecem mutuamente, criando representações e práticas comuns que ganham  </line>
    <line>sentido   Já “conteúdo” aos pessoais, psicológicos tudo  </line>
    <line>aquilo que, em cada indivíduo, provoca ou recebe efeitos de outros. Esses conteúdos só se tornam  </line>
    <line>propriamente sociais quando se organizam dentro das formas, sem se limitarem às motivações  </line>
    <line>individuais. A Exposição Industrial de Berlim, em 1896, funciona como um caso exemplar dessa  </line>
    <line>dinâmica na cidade moderna (Pereira, 2025). </line>
    <line>No caso da exposição de Berlim, isso se traduz em um grande conjunto de interações entre em- </line>
    <line>presários, consumidores, vendedores e visitantes, movidas por desejos de compra, venda, lazer e  </line>
    <line>encontro. Simmel (1896/2013) notou que o evento funcionou, por um breve período, como centro  </line>
    <line>mundial da cultura e do trabalho, concentrando produtos essenciais que, embora provenientes  </line>
    <line>de lugares, naquele sua definitiva. objetivo também </line>
    <line>novas tecnologias e consolidar Berlim como centro econômico e industrial da Europa.  </line>
    <line>A Exposição, com seus quatro mil expositores e 900.000 m² de área, funcionou como um labo - </line>
    <line>ratório para reflexão: a apresentava-se “um de  </line>
    <line>de transações para o seu entorno mais próximo e distante” (Pereira, 2025, p. 83), atraindo gente  </line>
    <line>de todo o mundo e reunindo, no mesmo espaço, pessoas com interesses industriais e comerciais  </line>
    <line>comuns, que os sensoriais que a me- </line>
    <line>tropolitana de consumidores modernos.  </line>
    <line>A economia monetária, que encontra na metrópole seu solo mais fértil, reforça esta ação recíproca  </line>
    <line>entre exposição consumo. observa “as cidades foram  </line>
    <line>os centros da economia monetária” (Simmel, 1903/2025, p. 31), e esta conexão não é acidental.  </line>
    <line>Tanto o dinheiro quanto o intelecto operam por abstração: o dinheiro reduz todas as qualidades à  </line>
    <line>quantidade (“quanto?”); o intelecto permite ao indivíduo processar a multiplicidade  </line>
    <line>sem emocional O metropolitano “para mercado,  </line>
    <line>seja, para compradores totalmente desconhecidos, que nunca entram no campo de visão do pró- </line>
    <line>prio produtor” (Simmel, 1903/2025, p. 32). Esta invisibilidade do outro, ou melhor, esta visibili- </line>
    <line>dade sem reconhecimento, é a marca do regime visual metropolitano. </line>
    <line>A relação entre visão e abstração ganha contornos ainda mais precisos quando Simmel discute o  </line>
    <line>papel da pontualidade e da calculabilidade na vida urbana. A complexidade da existência metro- </line>
    <line>politana “que as e sejam com mais pontuali - </line>
    <line>dade, um temporal e  1903/2025, 33). relógio  </line>
    <line>bolso, onipresente, torna-se o símbolo de uma nova disciplina visual: o olhar que se dirige ao mos -</line>
  </page>
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