Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24749, 2026  
DOI:10.21669/tomo.v45.24749  
Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:  
reconfigurações dos mercados e disputas de poder  
E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549  
DOSSIÊ  
PLATAFORMAS DIGITAIS E  
STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS:  
A dinâmica temporal dos novos negócios  
Marcel Maggion Maia*1  
Resumo  
O artigo parte da constatação de que, em suas fases incipientes, as plataformas digitais dependem de capital  
para se desenvolverem. Reconhece ainda que os acordos entre empreendedores à procura de capital e inves-  
tidores de capital de risco se calcam no alinhamento de expectativas. Sustentado por entrevistas qualitativas  
com agentes do mercado de startups, argumenta que, no interior das aceleradoras de negócios, os projetos  
empreendedores são qualificados como ativos financeiros promissores, ou seja, capazes de acumular valor  
ao longo do tempo. Ao enfocar a dimensão temporal das plataformas, o artigo descreve três práticas insti-  
tuídas: o adiamento de investimentos, a manutenção de múltiplas ofertas simultâneas e a coordenação da  
abertura de ofertas em eventos.  
Palavras-chaves: plataformas; startups; capital; futuro; investimento.  
*
Universidade de São Paulo, Centro Observatório das Instituições Brasileiras, São Paulo, Brasil. E-mail: marcel.maia@gmail.com  
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  
Marcel Maggion Maia  
INTRODUÇÃO  
As plataformas digitais assumiram um lugar importante na vida cotidiana, permeando diferentes  
esferas do âmbito social (Langley; Leyshon, 2017). Na opinião pública, são por vezes associadas  
às capacidades de seus fundadores e aos altos valores monetários que movimentam. Na produção  
sociológica, porém, são as mudanças que estas têm promovido no mundo do trabalho que concen-  
tram o interesse dos pesquisadores (Rosenfield; Almeida, 2021). Não sem razão, uma vez que é  
antiga nossa tradição de enfocar os efeitos das transformações organizacionais.  
Ocorre que, ao longo do desenvolvimento dessas reflexões, a firma em si seguia sendo uma di-  
mensão mais cara à sociologia da empresa do que à sociologia do trabalho, embora os espaços de  
trabalho e as relações no interior das organizações estivessem, há muito, sob exame dos pesquisa-  
dores (cf. Kirschner; Monteiro, 2002). Como aponta Guimarães (2009), embora avizinhados, esses  
campos produziram linhagens intelectuais específicas. Enquanto a sociologia do trabalho tinha  
como temática privilegiada os processos de trabalho, a sociologia da empresa priorizou as trocas  
entre as firmas e entre as firmas e os indivíduos participantes do mercado. Assim, Guimarães  
(2009, p. 93) entende que, apesar destes campos terem se desenvolvido em torno de temas apar-  
tados, guardam um interesse comum pelo “comportamento institucionalizado ao redor de regras  
do tipo mercantil-capitalista”, levando-os a sublinhar o que circula e como circula em um mercado.  
Neste artigo, as plataformas serão abordadas a partir de uma lente que reconhece as empresas-  
-plataforma como objetos econômicos que pretendem circular e ganhar valor. Esta abordagem  
será inspirada pelo valor heurístico de compreender a emergência das plataformas digitais como  
uma atividade dirigida aos mercados. Nesta circulação, dois atores são fundamentais: de um lado,  
os empreendedores à procura de capital para as suas firmas; de outro, os investidores de capital  
de risco. Será evocada a ideia de que as relações privilegiadas por estes atores almejam transfor-  
mar projetos de negócios em ativos financeiros.  
Argumenta-se, então, que as plataformas estão enraizadas em um aparato institucional no qual  
as expectativas financeiras em torno da construção do valor são o fator explicativo-chave. Assim,  
reconhece-se que as plataformas descansam sobre uma temporalidade própria do mercado de  
capital de risco: o futuro. Esta abordagem permitirá levar nosso olhar sociológico, atualmente  
centrado nos trabalhadores que acorrem às plataformas para produzir renda, em direção às insti-  
tuições sociais que orientam os atores que constroem as firmas que operam as plataformas.  
O material empírico que fundamenta o tratamento teórico aqui empreendido tem caráter qualita-  
tivo e está apoiado em 37 entrevistas com empreendedores de firmas iniciantes de base tecnoló-  
gica (conhecidas como startups) que contaram com o apoio de aceleradoras de negócios – aqui de-  
finidas como organizações intermediadoras especializadas no aprimoramento de novos negócios.  
A coleta foi realizada em duas ondas: a primeira entre maio de 2021 e agosto de 2022 e a segunda  
ao longo de 2025. Este recorte busca, de um lado, circunscrever aqueles negócios baseados em  
Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), e, de outro, deter atividades empreendedoras  
cujos serviços/produtos não são digitalizados.  
O artigo está organizado em quatro seções. Na primeira delas, a dependência de recursos experi-  
mentada pelas firmas será abordada; na segunda, os dados sobre o volume de capital de risco em  
circulação no país; na terceira, como ocorre a qualificação que permite que projetos de negócios  
circulem enquanto objetos econômicos; e, na quarta seção, o papel do tempo na construção do  
valor. Na conclusão, constrói-se o argumento de que a proposta de enfocar o que importa aos  
2
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
atores envolvidos na construção de plataformas fomenta o avanço de nosso conhecimento sobre  
a chamada plataformização.  
NOVAS EMPRESAS E DEPENDÊNCIA DE RECURSOS  
Ao abordar instituições sociais que estabelecem as condições de possibilidade para que os indi-  
víduos troquem nos mercados, dirige-se a atenção a um objeto que interessa aos sociólogos des-  
de os seus primórdios. Ao identificar uma “base não contratual dos contratos”, Durkheim (1995  
[1893]) volta-se à mesma sorte de leis e convenções que intrigam Weber (2015 [1918]), quando  
este indaga sobre as pré-condições institucionais para que a organização e a distribuição da pro-  
dução industrial tenham lugar nos mercados. Subjacente a essas reflexões, existe a ideia de que  
as instituições sociais não operam apenas de maneira coercitiva, mas também facilitam a troca.  
Ademais, desde cedo, os sociólogos ressaltam que as instituições informais também cumprem um  
importante papel na estabilidade das relações entre indivíduos que, apesar de não se conhecerem  
diretamente, trocam.  
Diante dessa tradição e com atenção ao fato de que ainda conhecemos pouco sobre as condições  
sob as quais as plataformas digitais são introduzidas nos mercados, parte-se da ideia de que qua-  
lificar uma ideia de negócio incipiente é uma das condições de possibilidade para tal. Assim, será  
observada a qualificação de uma ideia de negócio como uma atividade integrada ao processo de  
construção de um bem (a firma) que pretende circular em dado mercado (Kopytoff, 2008 [1986]).  
O caso das plataformas digitais iniciantes é especialmente interessante porque, muitas vezes, os  
agentes fundamentais – empreendedores e investidores – atribuem valor a projetos de negócios  
que precisarão reunir capital suficiente para serem desenvolvidas e colocadas à prova nos merca-  
dos.  
Todas as firmas precisam levantar capital para financiar suas operações (Fligstein; Choo, 2005, p.  
63). Comumente, elas recorrem aos bancos, à oferta pública de suas ações e a outros. Ocorre que,  
no caso das firmas iniciantes, dada a ausência de ferramentas adequadas para avaliar o potencial  
dos projetos, os bancos exigem garantias de crédito que, em geral, não podem ser atendidas pelos  
empreendedores (Aldrich, 2005). Nesse contexto, os empreendedores recorrem a investidores  
formais organizados em firmas de venture capital (VC)1.  
No entanto, essas firmas também se servem de dados relativos aos riscos envolvidos. Em geral,  
eles só podem ser produzidos por firmas que já operam nos mercados consumidores. Como as  
startups precisam de capital antes dessa fase, os empreendedores costumam recorrer a inves-  
tidores informais, conhecidos como “investidores-anjo”. Trata-se de indivíduos que prospectam  
projetos para neles se envolverem de forma ativa, fornecendo sugestões especializadas para fa-  
zê-los crescer (Aldrich, 2005). Frequentemente, tanto investidores informais quanto investidores  
formais seguem um modelo de troca de recursos por participação societária nas startups em que  
investem. Ou seja, em determinado momento do desenvolvimento das firmas, tornam-se sócios  
das firmas às quais oferecem suporte.  
1
O capital de risco (venture capital) integra o setor de Private Equity e Venture Capital (PE/VC) e está relacionado a empresas  
com alto potencial de crescimento, mas que ainda passam por ajustes; já o private equity refere-se a empresas consolidadas  
em fase de reestruturação, consolidação ou expansão de seus negócios. Formalmente, o setor de PE/VC é composto por  
quatro agentes: as organizações gestoras, os veículos de investimento, os investidores e as empresas investidas. Para uma  
breve análise sobre VCs no Brasil nos anos 2000, cf. Carvalho; Gallucci-Netto; Sampaio (2014).  
3
Marcel Maggion Maia  
No centro deste debate, está a noção de dependência de recursos, um constructo que trata das  
estruturas em torno do acesso a recursos controlados por outras organizações (Pfeffer; Salancik,  
1978). Em um nível interpretativo macro, diversos estudos demonstram a crescente dependência  
das organizações produtoras das financeiras. Destacam-se nessa linha interpretações em torno da  
“financeirização” das práticas econômicas (Epstein, 2005) e da prevalência da estratégia de “sha-  
reholder value”, isto é, a gestão empresarial calcada na maximização dos retornos aos investidores  
(Fligstein; Goldstein, 2022).  
Quando se trata do financiamento de firmas já estabelecidas, as expectativas de valor estão las-  
treadas em informações históricas. No caso de novos negócios, trata-se de projetos que requerem  
financiamento antes de se constituírem burocraticamente, antes de produzirem valor e antes de  
capturarem valor. A dependência de recursos é um fator crucial, tal como destacam Stearns e Mi-  
zruchi (2005). Nesse sentido, as novas firmas baseadas em tecnologias podem ser vistas como  
organizações ancoradas em imagens do futuro. Nos termos esclarecedores de Cetina (2015), o  
empreendedor que pretende que seu projeto seja reconhecido por um potencial investidor como  
crível, promissor e merecedor de recursos é alguém que apresenta uma “promessa de lucros fu-  
turos”, enquanto o investidor é aquele que “compra” essa promessa. Vejamos, então, o volume de  
capital que promessas desta ordem movimentam.  
CAPITAL DE RISCO E NOVAS EMPRESAS-PLATAFORMA NO BRASIL  
Quando se focalizam os fundos de VC, que miram firmas já operantes em seus mercados, o es-  
tudo realizado pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) é uma  
das referências a esse respeito. Ao coletar informações públicas e fornecidas por 248 gestores  
nacionais e estrangeiros de fundos, ele aponta o crescimento dos investimentos dessa modalidade  
a partir de 2017, tal como se vê no Gráfico 1. Indica, ainda, o crescimento do número de firmas  
investidas por ano (Gráfico 2) e o aumento do valor médio investido em cada firma (Gráfico 3).  
Gráfico 1 – Investimentos em Venture Capital por ano – Brasil – de 2015 a 2020  
(em bilhões de reais, R$).  
Fonte: Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital – ABVCAP (2021, p. 20). Valores nominais, tais como apresen-  
tados na fonte.  
4
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
Gráfico 2 – Número de empresas investidas por empresas de Venture Capital,  
por ano – Brasil – de 2015 a 2020 (NA).  
Fonte: Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital – ABVCAP (2021, p. 20). Valores nominais, tais como apresen-  
tados na fonte.  
Gráfico 3 – Valor médio dos investimentos por empresas de Venture Capital por firma,  
por ano – Brasil – de 2015 a 2020 (em milhões de reais, R$).  
Fonte: Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital – ABVCAP (2021, p. 20). Valores nominais, tais como apresen-  
tados na fonte.  
As curvas ascendentes dos investimentos na modalidade VC a partir de 2017 chamam a atenção.  
Ao menos dois fatores podem ajudar a explicar esse crescimento. Em primeiro lugar, há a chegada  
de novas firmas de investimento ao país. Casos de sucesso, como o da Nu Pagamentos S.A., colabo-  
raram para esse movimento, atraindo a atenção de investidores internacionais ao País. Segundo a  
Sling Hug, uma organização privada que compila dados sobre investimento da América Latina, os  
investimentos se concentram nos estágios mais maduros, nas chamadas séries D, E, F e G (Gráfico  
4). Elas são dirigidas para poucas firmas, como Nu Pagamentos S.A. e QuintoAndar, que recebem  
grandes volumes de recursos. Em geral, nas séries precedentes, o número de firmas a receber re-  
cursos é maior, mas o valor médio das rodadas de investimento é menor.  
5
Marcel Maggion Maia  
Gráfico 4 – Valor médio de investimentos segundo estágio de investimento – Brasil –  
de 2018 a 2022 (em dólares americanos, US$).  
Fonte: Sling Hub (2023a).  
Em segundo lugar, observa-se a aceleração da digitalização de setores ricos em recursos devido  
ao isolamento social implementado durante a pandemia de COVID-19. Apesar de este evento ter  
impactado negativamente o curso de desenvolvimento de startups iniciantes em certos setores, o  
volume consolidado de recursos de VC cresceu: em 2021, US$ 16,9 bilhões foram investidos em  
startups, enquanto, em 2020, o volume foi de US$ 5,6 bilhões (Distrito, 2023, p. 36). A aceleração  
da digitalização de setores dominados por grandes empresas, como o financeiro e o de saúde,  
parece ter colaborado para esse movimento ao sinalizar aos investidores que as startups capazes  
de contribuir nesse processo teriam boas chances de serem adquiridas rapidamente por corpo-  
rações.  
Ainda explorando os dados quantitativos disponíveis, o quadro 1 exibe os valores das cinco star-  
tups que receberam os maiores montantes em 2021 (Distrito, 2021).  
Quadro 1 – Valores investidos por startup – Startups selecionadas – 2021  
(em milhões de dólares americanos, US$).  
Valor em 2021  
Posição  
Startup  
(milhões de US$)  
1
2
3
4
5
Nu Pagamentos S.A. (plataforma de serviços financeiros digitais)  
Loft (imobiliária digital)  
1.150  
425  
400  
300  
250  
Ebanx (pagamentos digitais)  
QuintoAndar (imobiliária digital)  
Facily (comércio eletrônico)  
Fonte: Distrito (2021, p. 8). Valores nominais, tais como apresentados na fonte.  
Para se ter uma referência, o total de recursos direcionados pela Fundação de Amparo à Pesquisa  
do Estado de São Paulo (Fapesp) a pesquisas de inovação em parceria com empresas foi de R$ 105  
milhões em 2020 (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, 2020). Naquele mes-  
mo ano, as firmas de VC investiram, em média, R$ 73 milhões por firma. Ou seja, alocaram em uma  
6
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
única startup o equivalente a 70% de todo o orçamento anual da Fapesp naquela rubrica. Apesar  
da diferença entre os estágios de desenvolvimento das firmas impedir a comparação direta, o que  
se destaca aqui é que os investidores concentram seus recursos em firmas cujo foco não é exata-  
mente Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), mas empresas que transformam em plataformas e  
digitalizam serviços conhecidos: imobiliários (QuintoAndar e Loft), financeiros (Nu Pagamentos  
S.A. e Ebanx) e varejistas (Facily). Ou seja, a inovação que apresentam refere-se mais à digitaliza-  
ção (aliada à intensificação do trabalho, dentre outras) de serviços ordinários do que à introdução  
de novos produtos e serviços nos mercados consumidores.  
Avanços desse tipo foram, por vezes, considerados menores em relação às atividades científicas  
e tecnológicas (Arbix, 2010). O crescimento de países como China e Índia revelou, porém, o papel  
que os pequenos incrementos tecnológicos, alguns baseados em imitação e cópia, cumprem nas  
economias. Como lembra Arbix (Ibid., p. 169), “na economia real a inovação se refere à primeira  
comercialização de uma ideia ou projeto; por isso mesmo, seu locus privilegiado é a empresa, ca-  
paz de manter sintonia fina com a produção e a comercialização”.  
Nesta direção, o argumento baseia-se no fato de que, para os agentes do mercado, é o potencial da  
nova firma que importa – mais precisamente, o potencial de ela se tornar um ativo financeiro de  
valor crescente. Mas como os investidores selecionam e valoram um bem cujo potencial para se  
tornar um ativo financeiro ainda não está qualificado?  
Qualificando projetos de plataformas digitais como ativos financeiros  
Nesta seção, será indicado que a plataformização de serviços, mesmo daqueles ordinários como os  
de fornecimento de refeições, é uma das condições de possibilidade para que projetos de negócios  
sejam encarados como potenciais ativos financeiros. Além disso, será indicado que esta valoração  
ocorre no interior das aceleradoras.  
Para tal intento, parte-se do caso de seis estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e da Uni-  
versidade Estadual Paulista (Unesp) que projetaram uma plataforma digital para auxiliar mulhe-  
res desempregadas a encontrar uma alternativa de renda durante a pandemia de COVID-19. Em  
2020, a ideia era conectar confeiteiras amadoras que buscavam renda aos consumidores desses  
produtos. Para tal, inscreveram-se no evento Desafio USP. Selecionados entre os 890 inscritos, os  
estudantes passaram quatro dias aperfeiçoando o modelo de negócios, com o auxílio de mentores  
(orientadores recrutados pelas aceleradoras). Ao fim, o projeto recebeu um prêmio que lhe facul-  
tou a participação nas aceleradoras StartupLab e Samsung Ocean.  
Dois anos depois, uma das empreendedoras foi encontrada no grupo do InovAtiva/Sebrae, um even-  
to que promove qualificação e encontros entre empreendedores iniciantes e investidores-anjo. A  
startup abandonou a plataforma de confeitos e passou a mirar o fornecimento de coffee breaks em  
eventos corporativos também por meio de uma plataforma. Após apresentar oralmente o projeto  
aos investidores presentes neste evento, a empreendedora responde a uma série de perguntas –  
sobre controle de qualidade dos alimentos, perfil das mulheres, dentre outras. Um questionamento,  
porém, ficou sem resposta. Os investidores consideram o tamanho do “mercado acessível” (Servicea-  
ble Obtainable Market) muito baixo (R$ 3 milhões) e recomendaram aprimoramentos neste sentido.  
Em um país com muitos fornecedores de alimentos prontos, o que torna possível que um projeto  
voltado a um nicho desse ramo seja foco de atenção de especialistas em negócios nascentes? A  
7
Marcel Maggion Maia  
“escalabilidade”, no jargão do mundo dos negócios, ou seja, a possibilidade de a firma crescer sem  
aumentar os custos para tal na mesma proporção, é um dos fatores mais mencionados por inves-  
tidores e qualificadores. É neste ponto que as plataformas se destacam: o crescimento do número  
de clientes atendidos em uma plataforma não tende a ser acompanhado pelo aumento dos custos  
de transação, como ocorreria em negócios presenciais.  
A partir de dados empíricos desta ordem, entende-se que a noção de expectativa do valor (do  
projeto de negócio) permite que se avance no tratamento interpretativo. Isso revela, afinal, que  
tal expectativa não é dada, ou seja, intrínseca à capacidade dos empreendedores ou à tecnolo-  
gia desenvolvida. Precisa ser construída e esta construção está localizada nas aceleradoras de  
negócios.  
Teoricamente, as aceleradoras podem ser definidas como intermediadores que compõem as es-  
truturas edificadas pelos atores para reduzir os custos de aquisição de informações e de transação  
(Williamson, 1983). Contudo, acumulam-se evidências de que teorizações baseadas na eficiência  
alocativa são insuficientes para explicar a capitalização de firmas nascentes. Os primeiros estu-  
dos sobre o conglomerado do Vale do Silício, paradigma empírico das empresas de tecnologia da  
informação, já demonstravam que a criação de startups se estruturou em torno de relações inter-  
pessoais.  
Tais redes se institucionalizaram, ganhando rotinas, dispositivos e espaços próprios. As acelerado-  
ras se estabeleceram nos Estados Unidos e se difundiram em países de rápido avanço tecnológico,  
como Coreia do Sul e Taiwan. Mais recentemente, também em países que viram suas populações  
consumidoras de produtos e serviços digitais crescer, como China, Índia e Brasil (Saxenian, 2006).  
Autores como Mason e Brown (2014) reconhecem que, atualmente, as aceleradoras são “fábricas  
de startups”. A aceleradora Y Combinator, por exemplo, afirma ter recebido 19.000 inscrições para  
o seu programa de verão de 2022 e selecionado 240 dessas para se beneficiarem da qualificação e  
do investimento de capital que oferece.  
No Brasil, muitas firmas nascentes foram e são aperfeiçoadas nesses espaços. Uma aceleradora  
bastante seletiva, como a Google for Startups, por exemplo, acolhe cerca de 50 startups ao ano em  
seus programas de longa duração no Brasil (Google for Startups, 2021). Diversas startups consi-  
deradas bem-sucedidas pelos agentes de mercado, como QuintoAndar (imobiliária digital que se  
apresenta como “a maior plataforma de moradia do Brasil”), IFood (plataforma de entrega de re-  
feições e outros produtos) e 99 (plataforma de mobilidade urbana e entrega de produtos), passa-  
ram por aceleradoras em alguma fase de seu desenvolvimento. Hoje, as aceleradoras concentram  
a rotinização de práticas capazes de converter uma ideia de negócio em um objeto econômico,  
que é selecionado e valorado. Esse processo de construção do valor é operado por mentores por  
meio da mobilização de dispositivos e da promoção de eventos do tipo demodays – eventos de en-  
cerramento dos cursos de qualificação prestados pelas aceleradoras em que os empreendedores  
apresentam seus projetos a investidores.  
Assim, propõe-se que as expectativas de valor são um fator-chave na interpretação de atividades  
empreendedoras baseadas em TICs. Note-se que Regina possui clientes em número crescente,  
mas seu objetivo não é exatamente atrair clientes, e sim atrair investidores. Por esta razão, ela  
trabalha para construir um projeto capaz de demonstrar que sua firma ganhará valor velozmen-  
te. Para aprender a apresentar seu projeto como um objeto econômico atraente, empreende-  
dores como Regina recorrem a aceleradoras bem-informadas sobre as métricas utilizadas por  
investidores.  
8
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
Com efeito, Dansou e Langley (2013) demonstram que os empreendedores buscam tornar suas  
narrativas persuasivas por meio da utilização de representações numéricas relativas ao mundo  
financeiro. Esta ideia vai ao encontro de Barman et al. (2021, p. 5), que entendem que “os empre-  
endedores precisam imaginar formas pelas quais o método contabilístico e os seus resultados  
poderiam transmitir as características e os benefícios de uma inovação ainda inexistente e fazê-lo  
de forma que as partes interessadas considerem plausíveis e críveis”. Afinal, o material empírico  
obtido e apresentado neste artigo corrobora estes achados, destacando que a representação quan-  
titativa característica da lógica financeira não é fortuita, é produzida no interior das aceleradoras  
(Maia, 2024).  
Neste sentido, as aceleradoras são atores importantes, pois cumprem o papel de qualificar os no-  
vos negócios segundo as métricas financeiras que orientam investidores e corporações. As cor-  
porações monitoram startups maduras convenientes às suas estratégias nos mercados. Quando  
adquirem uma startup, tangibilizam o valor construído ao longo do processo de desenvolvimento  
do negócio. É neste momento, conhecido como exit no jargão dos negócios, que todos os atores  
que investiram na startup têm a oportunidade de negociar e vender suas cotas societárias, agora  
valorizadas. Vale notar que exits por meio da oferta pública de ações em Bolsa de Valores são mais  
raros no Brasil do que nos Estados Unidos, paradigma das empresas que são criadas e financiadas  
para serem vendidas (Freeman, 2005).  
A DINÂMICA TEMPORAL DO INVESTIMENTO EM NOVAS PLATAFORMAS  
DIGITAIS  
A formação do par empreendedor-investidor não é trivial. No Brasil, havia mais de 13.000 funda-  
dores de startups em 2022 (Distrito, 2023). Na outra ponta da transação, considerando apenas  
os investidores informais, dedicados às startups em fase incipiente, também se contabilizam mi-  
lhares. Apenas a Anjos do Brasil, uma associação de investidores informais, estimava, em 2019,  
reunir mais de 7.000 investidores (Bertão, 2019). Estas são meras estimativas, uma vez que as  
metodologias utilizadas não são claras.  
A atividade de construir startups, entendida enquanto transformação do objeto “projeto empre-  
endedor” em um “objeto de investimento”, sugere a ideia de que o futuro – uma temporalidade  
própria do mercado de capital de risco – é um marco fundamental na construção de plataformas  
digitais. Como tal, convém explorá-lo teoricamente, sustentando a proposta de que a coordenação  
da circulação das plataformas digitais entre investidores se refere à coordenação das expectativas  
dos atores envolvidos.  
A coordenação diz respeito ao modo como os atores tornam uma troca mercadológica possível por  
meio da formação de expectativas compatíveis com seus interesses materiais e ideais (Beckert,  
2009). No nível das práticas, ela envolve dinâmicas que ultrapassam o preço. Muitas vezes, as pre-  
ferências de qualidade podem ser formadas não apenas com base na avaliação de um bem, mas  
também ao longo das interações sociais. A formação de padrões e hábitos sociais, por exemplo, in-  
tegra as preferências individuais e termina por reduzir o conjunto de possibilidades à disposição  
do indivíduo em relação ao “habitual” (Bourdieu, 1984).  
Noções tais como “padrões” e “hábitos” ajudam a entender a estrutura de preferências em certos  
mercados, por não pressuporem que a transação seja um ato único, mas um conjunto de atos in-  
formado pelo contexto social mais amplo e no qual o tempo importa. Assim, pode-se reconhecer  
9
Marcel Maggion Maia  
que o modo pelo qual os atores sociais formam, voluntariamente, pares a partir de um grupo  
amplo de potenciais parceiros conforma um processo (Coleman, 1991). Tradicionalmente deno-  
minados processos de matching, eles requerem que os atores desempenhem três tarefas: triagem  
(screening), seleção (selecting) e pareamento (matching) (Steiner, 2019).  
É sabido que há riscos e custos associados às mudanças de parceiros que acabam por moldar  
o timing do processo (Coleman, 1984). Deixar um emprego ou romper um casamento e partir  
em busca de novas parcerias são decisões difíceis, justamente pelos riscos envolvidos. Do mesmo  
modo, romper com um investidor, mesmo que seja com um investidor informal2, pode implicar  
custos financeiros, perda de reputação e enfraquecimento de laços sociais. Talvez não por acaso o  
“casamento” entre investidores e empreendedores seja uma analogia frequentemente menciona-  
da nos eventos do setor.  
Depreende-se que, quanto mais tempo dura o processo de pareamento, mais os indivíduos estarão  
dispostos a investir na pesquisa por parceiros para evitar um match ruim e duradouro (Stovel;  
Fountain, 2009). Por essa razão, alguns de nossos interlocutores reconhecem que os investidores  
podem atuar como aproveitadores que os acompanharão por anos. Por consequência, preferem  
aguardar por melhores ofertas, mesmo que isso acarrete frustração temporária dos planos de  
crescimento de seus negócios. Com efeito, realizar uma transação não depende apenas do que  
está disponível no presente, também depende do que provavelmente estará disponível mais tarde  
(Roth, 2016).  
Considerando que a dinâmica temporal dos processos de match importa, pois tende a modificar o  
resultado das ações, é possível reconhecer três características importantes no pareamento entre  
empreendedores e investidores em novas plataformas digitais. A primeira delas se refere ao fato  
de os empreendedores poderem ser levados a aceitar propostas cedo demais, dada a premência  
de encontrar um parceiro que financie seus projetos. Em certas situações, os atores podem sim-  
plesmente “preferir” o que lhes está disponível (Baron, 1984).  
Esse é o caso de firmas iniciantes. Embora os dados sejam escassos, um levantamento realizado  
pelo Sling Hub (2023b), um agente de mercado especializado na compilação de informações de  
investimento de risco, revelou que 57% das startups que conquistaram capital inicial entre 2018 e  
2020 não foram bem-sucedidas em seus intentos de atrair uma segunda rodada de investimentos.  
Quando um de nossos interlocutores diz que “no afã de captar muito dinheiro” no início do desen-  
volvimento das firmas, alguns empreendedores “dão a empresa para os investidores [concedem  
uma participação societária muito alta aos investidores]”, é a esse tipo de “preferência pelo que  
está disponível” que ele se refere. Durante o evento de uma aceleradora, por exemplo, observou-  
-se um empreendedor que, já sinalizando cansaço diante da série de críticas e recomendações de  
ajustes de seus mentores, volta-se à plateia e diz “quem quer pagar qualquer coisa por essa ideia  
[projeto de startup]?”, sendo rapidamente repreendido por um mentor.  
A segunda característica a destacar é a retenção de múltiplas ofertas simultaneamente. Ela é ope-  
rada por meio da recusa ou do adiamento da aceitação de ofertas. É sabido que as redes de laços  
sociais têm papel essencial no acesso a capital e na construção da confiança cara ao matching.  
Porém, sabe-se pouco sobre o timing do fluxo de informações nas redes. Nesse contexto, é possível  
2
Trata-se de indivíduos que prospectam firmas incipientes para nelas se envolverem ativamente, fornecendo sugestões  
especializadas (em geral, com base em experiência profissional acumulada) para fazê-las crescer (Aldrich, 2005). Diferen-  
temente dos investidores formais, estes não são fiscalizados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).  
10  
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
entender que o timing das negociações de investimento é mobilizado pelos empreendedores com  
o propósito de incrementar o valor atribuído às suas startups. Essa leitura atribui aos empreende-  
dores, enquanto atores desafiantes do mercado de startups, uma agência pouco reconhecida nas  
teorizações mais comemoradas sobre ações estratégicas (Fligstein, 2001).  
Nesse sentido, primeiramente, importa reconhecer que os empreendedores buscam transmitir  
ao mercado informações sobre o valor de seus negócios enquanto candidatos valiosos. Spence e  
Spence (1974) demonstraram que a “sinalização” é um modelo capaz de transferir informações de  
quem busca fazer-se confiável a quem executa a seleção. A sinalização refere-se às características  
passíveis de aferição e capazes de bem “representar” a capacidade produtiva dos candidatos (Thu-  
row, 1975). Embora os investidores não deixem de observar a qualificação dos empreendedores  
para vislumbrar as suas capacidades, quando se trata de avaliar o potencial das firmas em si, essa  
proposição torna-se mais difícil de operar, dada a carência de informações que sirvam de sinais.  
Um dos sinais mais importantes emitidos pelos empreendedores ao mercado é o de que detêm  
ofertas de investimento. O objetivo é produzir densidade para buscar elevar os valores negocia-  
dos. Deter ofertas significa mantê-las em suspenso, já que aceitar uma oferta significa retirar as  
demais da mesa e, consequentemente, desfazer o adensamento de ofertas em torno da startup.  
Ou seja, recusar uma oferta significa desconstruir o efeito de “alta procura” e, consequentemente,  
potencialmente desvalorizar o bem. Assim, é preciso manter as ofertas em suspenso, adiando a  
recusa e o aceite. De fato, adiar o atendimento da clientela mantendo uma “fila longa” é uma co-  
nhecida maneira de atrair mais clientes (Roth, 2016). No entanto, a “fila longa” precisa ser visível  
aos participantes do mercado, para que se obtenha o efeito esperado.  
Isso significa que a informação sobre a retenção de ofertas por dada startup precisa fluir. É nesse  
ponto que os encontros organizados pelas aceleradoras mostram relevo. Quando passa a frequentar  
aceleradoras – participando de suas competições, proferindo discursos em demodays e agendando  
reuniões em busca de investimento –, o empreendedor sinaliza ao mercado que já possui investido-  
res interessados em sua startup. Nesse sentido, as redes sociais não se prestam apenas à reunião de  
ofertas caras à tomada de uma decisão informada, mas também à atribuição de valor. A iminência  
de realizar um acordo pode levar novos investidores a apresentar propostas mais interessantes em  
termos de volume de capital. Em suma, a longa fila na porta de uma startup, combinada ao senso de  
urgência – cuja notícia também circula com a ajuda das redes sociais –, tende a produzir efeitos sobre  
o valor da oferta para aqueles que não esperam ficar de fora de um bom negócio.  
Um de nossos interlocutores, ao retornar ao Brasil após temporadas em aceleradoras do Vale do  
Silício, passa a receber ofertas de investimento. Ocorre que, embora estivesse à procura de capital,  
as mantém em suspenso. Por isso, começa a emitir sinais em uma série de reuniões, sugerindo aos  
seus interlocutores que as ofertas de investimento em sua startup se acumulam. Ora solicita paci-  
ência a um investidor que o apoia desde as primeiras horas – “calma aí, porque agora eu tenho um  
monte de entrevistas com VC do Vale do Silício” –, ora indica não poder aceitar uma oferta porque  
já tem compromissos firmados – “eu já tenho algumas propostas no Brasil e não posso aceitar,  
tenho apalavrado”. Ao longo do processo de construção da firma, esses sinais resultam em aportes  
de capital maiores do que os observados antes dessas ações de sinalização. Como o interlocutor  
coloca, após manter ofertas em suspenso, “liguei para o cara [apoiador inicial que buscava forma-  
lizar nova rodada de investimento] e falei: ‘olha, o negócio ficou caro para você’”.  
A sinalização característica do matching entre empreendedores e investidores nos leva a destacar  
um terceiro aspecto temporal: o momento da abertura das ofertas. É sabido que, para produzir  
11  
Marcel Maggion Maia  
resultados de matching suficientes, os agentes precisam se unir para promover regulamentações  
com vistas a evitar uma corrida custosa pelos melhores talentos ou pelos produtos disponíveis  
(Stovel; Fountain, 2009; Roth, 2016). Trata-se da mesma dinâmica que estabelece, por exemplo,  
datas de abertura e de encerramento para receber candidaturas em processos seletivos para opor-  
tunidades de trabalho e que determina que os vendedores de uma feira livre apresentem os seus  
produtos à clientela a partir de um mesmo horário.  
A partir dessa ideia, é possível entender que os eventos em que as startups recém-qualificadas em  
aceleradoras se apresentam a investidores são momentos em que o início da oferta de propostas  
é inaugurado. Conhecidos como demodays, esses eventos evitam que os investidores se lancem  
cedo demais à busca pelas startups mais promissoras da praça, ao passo que previnem que os  
empreendedores tenham de esperar demais por recursos que poderiam acarretar a derrocada de  
seus projetos.  
Nesse sentido, as aceleradoras cumprem papel importante, pois coordenam tais eventos, alinhan-  
do-os cronologicamente à conclusão dos cursos de qualificação que prestam. Às aceleradoras cabe  
montar as barracas da “feira”, ofertar ao público de investidores startups “maduras”, prontas para  
o consumo. Na outra ponta da troca, os consumidores também sabem que é dia de “feira” e acor-  
rem ao espaço de troca para valorar o que os intermediários têm a lhes apresentar. Quando um de  
nossos interlocutores considera que, nesses eventos, os investidores “estão prontos para te ouvir”,  
ele indica justamente a importância dessa dinâmica temporal. Assim, à luz dessas ideias extraídas  
dos estudos de matching, é possível fazer avançar as análises que entendem que esses eventos  
apenas operam como espaços dedicados à construção de laços.  
CONCLUSÃO  
Neste artigo, abordou-se o processo de construção das firmas que controlam as plataformas di-  
gitais. Com base em dados qualitativos e quantitativos secundários, foi proposto que os agentes  
envolvidos na construção de novas plataformas se orientam por instituições próprias do mercado  
de capital de risco.  
Foi apontada a ideia de inovação, tão frequentemente mobilizada por empreendedores e que pou-  
co se refere à introdução de novos produtos e serviços nos mercados consumidores, sendo mais  
afeita à digitalização de serviços já conhecidos. Então, sugeriu-se que o processo de triagem e se-  
leção de projetos tem como lugar privilegiado as aceleradoras de negócios, onde mentores, métri-  
cas, dispositivos e eventos instituídos operam para que projetos iniciais sejam qualificados como  
ativos financeiros.  
Assim, argumentou-se que o fator-chave na formação do par empreendedor-investidor é o ali-  
nhamento das expectativas destes atores quanto ao valor futuro das plataformas incipientes.  
Ao enfocar tal dimensão temporal, neste artigo foram elencadas três características relativas  
à dinâmica temporal daquele processo de match. Os empreendedores (i) adiam os acordos de  
investimento e (ii) mantêm múltiplas ofertas simultaneamente. Com essas ações, buscam sina-  
lizar ao mercado que convém aos investidores adotarem medidas de urgência e de incremento  
do valor das ofertas. Apontou-se ainda que (iii) os eventos do tipo demodays, em que as startups  
apresentam os seus projetos após cursos de qualificação em aceleradoras, marcam informal-  
mente o início das ofertas de investimento, assim operando como um dispositivo de coordena-  
ção do mercado.  
12  
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
Afinal, ao reconhecer que as plataformas digitais são, em suas fases incipientes, organizações ancora-  
das em imagens sobre o futuro (Beckert, 2013) que precisam resolver seus problemas de dependência  
de recursos para se desenvolver, este artigo trata o papel da dinâmica temporal do mercado de capital  
de risco como uma das instituições que “determinam para onde o dinheiro deve ir e o que as coisas  
devem ser” (Muniesa; Doganova, 2020, p. 109) neste segmento do capitalismo contemporâneo.  
Financiamento  
Centro Observatório das Instituições Brasileiras, Universidade de São Paulo (COI/USP)  
REFERÊNCIAS  
ALDRICH, Howard E. Entrepreneurship. In: SWEDBERG, Richard.; SMELSER, Neil J. (Eds.). The handbook of Economic  
Sociology. 2. ed. New York: Russell Sage Foundation; Princeton University Press, 2005. p. 451-477.  
ARBIX, Glauco. Caminhos cruzados: rumo a uma estratégia de desenvolvimento baseada na inovação. Novos estudos  
CEBRAP, São Paulo, n. 87, p. 13-33, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/KcFNp9HsgwqcgJmQhKgp-  
85G/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 10 dez. 2025.  
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PRIVATE EQUITY E VENTURE CAPITAL – ABVCAP. Consolidação de Dados 2021 – Anos  
base: 2011-2020. 2021. Disponível em: https://www.abvcap.com.br/Download/Estudos/5130.pdf. Acesso em: 31  
maio 2022.  
BARMAN, Emily; HALL, Matthew; MILLO, Yuval. Demonstrating Value: How Entrepreneurs Design New Account-  
ing Methods to Justify Innovations. European Accounting Review, Reino Unido, v. 30, n. 4, p. 675-704, 2021. DOI:  
10.1080/09638180.2020.1770113. Disponível em: http://hdl.handle.net/10.1080/09638180.2020.1770113. Acesso  
em: 10 dez. 2025.  
BARON, James N. Organizational Perspectives on Stratification. Annual Review of Sociology, Califórnia, Estados Uni-  
dos, v. 10, n. 1, p. 37-69, 1984. DOI: 10.1146/annurev.so.10.080184.000345. Disponível em: https://www.annualre-  
BECKERT, Jens. The Social Order of Markets. Theory and Society, [S. l.], v. 38, n. 3, p. 245-269, 2009. DOI: 10.1007/  
s11186-008-9082-0. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11186-008-9082-0#citeas. Acesso  
em: 10 dez. 2025.  
BECKERT, Jens. Imagined futures: fictional expectations in the economy. Theory and Society, [S. l.], v. 42, n. 3, p. 219-  
240, 2013. DOI: 10.1007/s11186-013-9191-2. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11186-  
013-9191-2. Acesso em: 10 dez. 2025.  
BERTÃO, Naiara. Investimento anjo cai pela primeira vez desde 2010. Valor Investe, 26 jun. 2019. Disponível em:  
-vez-desde-2010.ghtml. Acesso em: 02 maio 2025.  
BOURDIEU, Pierre. Distinctions: A social critique of the judgement of taste. Cambridge: Harvard University Press, 1984. 613 p.  
CARVALHO, Antonio Gledson de; GALLUCCI NETTO, Humberto; SAMPAIO, Joelson Oliveira. Private Equity and Venture  
Capital in Brazil: An Analysis of its Evolution. Revista Brasileira de Finanças, São Paulo, v. 12, n. 4, p. 499-515, 2014.  
DOI: 10.12660/rbfin.v12n4.2014.43304. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/rbfin/article/view/43304/55984.  
Acesso em: 10 dez. 2025.  
CETINA, Karin Knorr. What is a financial market? Global markets as media -institutional forms. In: ASPERS, Patrik;  
DODD, Nigel. (Eds.). Re-imagining economic sociology. Oxford: Oxford University Press, 2015. p. 103-126.  
COLEMAN, James S. Introducing Social Structure into Economic Analysis. American Economic Review, Estados Unidos,  
v. 74, n. 2, p. 84-88, 1984.  
COLEMAN, James S. Matching Processes in the Labor Market. Acta Sociologica, [S. l.], v. 34, n. 1, p. 3-12, 1991. DOI:  
10.1177/000169939103400. Disponível em: https://doi.org/10.1177/000169939103400101. Acesso em: 10 dez. 2025.  
DANSOU, Kafui; LANGLEY, Ann. Institutional work and the notion of test. M@n@gement, Paris, França, v. 15, n. 5, p.  
em: 10 dez. 2025.  
13  
Marcel Maggion Maia  
DISTRITO. Panorama Tech na América Latina 2023. 2023. Disponível em: https://materiais.distrito.me/report/pa-  
norama-tech-america-latina-2023. Acesso em: 02 jan. 2023.  
em: 10 jan. 2023.  
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1995 [1893]. 440 p.  
EPSTEIN, Gerald A. (Ed.). Financialization and the world economy. Cheltenham, UK: Edward Elgar, 2005. 440 p.  
FLIGSTEIN, Neil. The Architecture of Markets: An Economic Sociology of Twenty-First-Century Capitalist Societies.  
Princeton: Princeton University Press, 2001. 274 p.  
FLIGSTEIN, Neil; CHOO, Jennifer. Law and corporate governance. Annual Review of Law and Social Science, Califórnia,  
Estados Unidos, v. 1, p. 61-84, 2005. DOI: 10.1146/annurev.lawsocsci.1.041604.115944. Disponível em: https://sociolo-  
FLIGSTEIN, Neil; GOLDSTEIN, Adam. The Legacy of Shareholder Value Capitalism. Annual Review of Sociology, Esta-  
dos Unidos, v. 48, p. 193-211, 2022. DOI:10.1146/annurev-soc-030420-120827. Disponível em: https://www.annualre-  
FREEMAN, John. Venture Capital and Modern Capitalism. In: NEE, Victor; SWEDBERG, Richard. (Eds.). The Economic  
Sociology of Capitalism. Princeton: Princeton University Press, 2005. p. 144-167.  
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO – FAPESP. Valores contratados: Pesquisa em parceria  
-2020-em-r. Acesso em: 02 dez. 2025.  
GOOGLE FOR STARTUPS. Relatório de Impacto 2016-2021. 2021. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/  
15GfsXVAMHAb9hdylaUF43L0BxnplsXn1/preview. Acesso em: 31 maio 2022.  
GUIMARÃES, Nadya Araujo. À Procura de Trabalho: Instituições do Mercado e Redes. Belo Horizonte: Argvmentvn,  
2009. 224 p.  
KIRSCHNER, Ana Maria; MONTEIRO, Cristiano Fonseca. Da sociologia econômica à sociologia da empresa: para uma so-  
ciologia da empresa Brasileira. Sociedade e Estado. Brasília, Distrito Federal, v. 17, n. 1, p. 79-103, 2002. DOI: 10.1590/  
df&lang=pt. Acesso em: 02 dez. 2025.  
KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas: a mercantilização como processo. In: APPADURAI, Arjun. (Ed.). A vida  
social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: EdUFF, 2008 [1986]. p. 89-124.  
LANGLEY, Paul; LEYSHON, Andrew. Platform Capitalism: the intermediation and capitalisation of digital economic circu-  
lation. Finance and Society, Reino Unido, v. 3, n. 1, p. 11–31, 2017. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/  
MAIA, Marcel. Futuros imaginados: aceleradoras de startups e seus dispositivos de atração de capital de risco. Revista  
sbsociologia.com.br/rbs/article/view/1020. Acesso em: 28 jun. 2026.  
MASON, Colin; BROWN, Ross. Entrepreneurial Ecosystems and Growth Oriented Entrepreneurship. Netherlands: OECD  
LEED Programme, 2014. Disponível em: http://www.oecd.org/cfe/leed/entrepreneurial-ecosystems.pdf. Acesso em:  
20 mar. 2016.  
MUNIESA, Fabian; DOGANOVA, Liliana. The time that money requires: use of the future and critique of the present in finan-  
cial valuation. Finance and Society, Reino Unido, v. 6, n. 2, p. 95-113, 2020. DOI: 10.2218/finsoc.v6i2.5269. Disponível em:  
PFEFFER, Jeffrey; SALANCIK, Gerald R. The External Control of Organizations: a Resource Dependence Perspective.  
New York: Harper and Row, 1978. 327 p.  
ROSENFIELD, Cinara Lerrer; ALMEIDA, Jalcione. Plataformização do trabalho. Sociologias, Porto Alegre, Rio Grande do  
Sul, v. 23, n. 57, p. 9-16, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/soc/a/SdNMXzX95wXDcJYDHszFjHC/?forma-  
t=pdf&lang=pt. Acesso em: 10 dez. 2025.  
ROTH, Alvin E. Como funcionam os mercados: A nova economia das combinações e dos desenhos de mercado. São  
Paulo: Portfolio-Penguin, 2016. 287 p.  
14  
PLATAFORMAS DIGITAIS E STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS  
SAXENIAN, AnnaLee. The New Argonauts: Regional Advantage in a Global Economy. Cambridge: Harvard University  
Press, 2006. 424 p.  
SLING HUB. Corporate investments in the Brazilian ecosystem: 2022. 2023a. Disponível em: https://blog.slinghub.io/  
SLING HUB. Brazilian startups funding funnel. 2023b. Disponível em: https://blog.slinghub.io/en/funding-funnel. Aces-  
so em: 12 dez. 2025.  
SPENCE, Andrew Michael; SPENCE, Michael. Market signaling: Informational transfer in hiring and related screening  
processes. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1974. 221 p.  
STEARNS, Linda Brewster; MIZRUCHI, Mark S. Banking and financial markets. In: SWDBERG, Richard; SMELSER, Neil J.  
(Eds.). The Handbook of Economic Sociology. 2. ed. New York: Russell Sage Foundation; Princeton University Press,  
2005. p. 284-306.  
STEINER, Philippe. Economy as matching. Política & Sociedade, Florianópolis, Santa Catarina, v. 18, n. 43, p. 14-45,  
2019. DOI: 10.5007/2175-7984.2019v18n43p14. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/arti-  
cle/view/2175-7984.2019v18n43p14. Acesso em: 31 maio 2022.  
STOVEL, Katherine; FOUNTAIN, Christine. Matching. In: HEDSTRÖM, Peter; BEARMAN, Peter. (Eds.). The Oxford Hand-  
book of Analytical Sociology. Oxford: University Press, 2009. p. 365-390.  
THUROW, Lester C. Generating inequality. New York: Basic Books, 1975. 258 p.  
WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora da Universidade de  
Brasília, 2015 [1918]. 584 p.  
WILLIAMSON, Oliver E. Markets and Hierarchies: a study in the internal organization. 1 ed. New York: Free Press,  
1983. 286 p.  
15  
Marcel Maggion Maia  
Abstract  
Resumen  
Key-Words  
Palavras Clave  
Digital platforms and startups as  
financial assets: the temporal dynamics  
of new businesses  
Plataformas digitales y startups  
como activos financieros: la dinámica  
temporal de los nuevos negocios  
Abstract  
Resumen  
The article starts from the observation that digi-  
tal platforms depend on capital to develop in their  
early stages. It recognizes that agreements betwe-  
en entrepreneurs seeking funding and venture ca-  
pital investors are grounded in the alignment of  
expectations. Based on qualitative interviews with  
actors in the startup market, it argues that, within  
business accelerators, entrepreneurial projects are  
framed as promising financial assets – that is, as  
capable of appreciating over time. By focusing on  
the temporal dimension of platforms, the article  
describes three established practices: the postpo-  
nement of investments, the maintenance of multi-  
ple simultaneous offerings, and the coordination of  
offer launches at events.  
El artículo parte de la constatación de que las plata-  
formas digitales dependen, en sus etapas iniciales,  
del capital para desarrollarse. Reconoce, entonces,  
que los acuerdos entre emprendedores en busca de  
financiamiento e inversores de capital de riesgo se  
basan en la alineación de expectativas. Sustentado  
en entrevistas cualitativas con actores del mercado  
de startups, sostiene que, dentro de las acelerado-  
ras de negocios, los proyectos emprendedores son  
calificados como activos financieros prometedo-  
res, es decir, capaces de aumentar su valor con el  
tiempo. Al centrarse en la dimensión temporal de  
las plataformas, el artículo describe tres prácticas  
instituidas: el aplazamiento de inversiones, el man-  
tenimiento de múltiples ofertas simultáneamente y  
la coordinación de la apertura de ofertas en even-  
tos.  
Keywords: platforms; startups; capital; future; in-  
vestment.  
Palabras clave: plataformas; startups; capital; fu-  
turo; inversión.  
Histórico  
Recebido: Março/26  
Primeiro Parecer: Maio/26  
Segundo Parecer: Maio/26  
Aceito: Junho/26  
Revisão Gramatical/Ortográfica e ABNT: Junho/26  
Revisado Autor: Julho/26  
Publicado: Agosto/26  
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo  
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)  
Contato: revistatomo@gmail.com  
16