A ELETRIFICAÇÃO AUTOMOTIVA BRASILEIRA
A Sociologia Econômica tem se mostrado cada vez mais interessada na interseção entre sociedade,
economia e tecnologia. Embora ainda relativamente pequena, existe uma sólida base de estudos
teóricos socioeconômicos da tecnologia e da inovação, que continua a ser desenvolvida (Ebner,
2025; Garcia e Carneiro, 2021; Reale, 2024).
Garcia e Carneiro (2021), por exemplo, optam por uma leitura ampliada de inovação, associando-a
como um dos principais motores da competição nos mercados. Para os autores, ela envolve a “[...]
introdução de ideia ou objeto, consumido como produto ou aplicado no processo produtivo, po-
dendo ser, neste caso, de natureza tecnológica, organizacional ou institucional” (Garcia e Carneiro,
2021, p. 239). Já o argumento de Reale (2024) em nome de uma Sociologia Econômica da Inovação
destaca teorias e conceitos desenvolvidos pelos estudos da valoração (e.g. Fourcade, 2011), isto é,
de uma literatura que entende o enraizamento institucional da inovação como pautado em dinâ-
micas valorativas (Reale, 2024).
Mais recentemente, Ebner (2025), também interessado em um enquadramento mais adequado
para o desenvolvimento de uma Sociologia Econômica da Inovação, faz uma aposta na recupe-
ração da obra de Schumpeter e da Economia Evolucionária (Evolutionary Economics). Apoiado
na ideia de lucro como principal motivador da inovação, o autor negligencia a convivência entre
permanências e mudanças, desafiando frontalmente leituras que enfatizam a busca por estabili-
dade nos mercados (cf. Fligstein, 2002) seja um ponto central do processo inovativo, no qual “[...]
a inovação assemelha-se a uma perturbação com origem exógena” (Ebner, 2025, p. 274).
De todo modo, a devida aplicação de quaisquer inovações teóricas requer estudos empíricos. No
presente, uma Sociologia Econômica da tecnologia aplicada ao setor automotivo parece tanto jus-
tificada quanto virtualmente inexistente, salvo exceções (e.g. Lima e Santos, 2021).
Para nossos propósitos, Dosi et al. (2005), deixaram algumas pistas. Não por acaso, o automóvel é
apontado como um exemplo paradigmático8 dos estudos sobre inovação, uma vez que nas tecno-
logias automotivas “[...] o progresso técnico parece exibir padrões e invariâncias” em termos das
características do produto (Dosi et al., 2005, p. 682). Com isso, os autores reforçam como empre-
sas, incluindo montadoras, têm diferentes níveis de conhecimento técnico e organizacional que se
refletem em produtos e inovações distintos.
A literatura socioeconômica sobre a eletrificação automotiva, particularmente os estudos socioe-
conômicos sobre o processo brasileiro9, embora incipiente, começa a se avolumar. Os trabalhos de
Wolffenbuttel estão entre os pioneiros nesta interseção. Em artigo de 2020, o autor nota como o
crescimento da eletrificação na década passada também foi moldado por notória diversidade tec-
nológica, considerando “[...] não só os fatores técnicos e econômicos dentro de uma lógica causal e
unidirecional, mas o conjunto de políticas públicas, aspectos culturais e mobilizações sociais nas
quais as inovações estão inseridas” (Wolffenbüttel, 2020, p. 154). À época, uma transição para os
VEs não parecia provável dada a dependência de trajetória nacional. Em artigo posterior, o autor
aponta como o desalinhamento institucional nacional acabou servindo como mecanismo de blo-
queio à inovação eletrificada em prol dos VCs (Wolffenbüttel, 2022).
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Tal concepção é compartilhada pelo especialista automotivo Gijs Mom (2023).
Apesar do destaque à Sociologia Econômica, não poderíamos deixar de mencionar os trabalhos da professora Flávia Conso-
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ni, líder do Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (LEVE), sediado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
A pesquisadora tem ocupado papel de liderança no estudo da eletromobilidade brasileira.
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