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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24789, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24789  </line>
    <line>Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:  </line>
    <line>reconfigurações dos mercados e disputas de poder  </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>A ELETRIFICAÇÃO AUTOMOTIVA BRASILEIRA: </line>
    <line>uma análise socioeconômica das  </line>
    <line>recentes transformações tecnológicas </line>
    <line>Lucas Lemos Walmrath*1 </line>
    <line>Bruna Biesdorf Barro**2 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>O passa uma transformação a da e consumo veículos  </line>
    <line>eletrificados. Partindo da Sociologia Econômica, discutimos os fatores que subjazem a esta mudança e como  </line>
    <line>a e antecipada rumo eletrificação no pode explicada.  - </line>
    <line>logicamente, de estudo caso do automotivo baseado fontes  </line>
    <line>secundárias primárias Os reforçam importância uma socioeconomica - </line>
    <line>mente das  mudanças  tecnológicas de estas moldadas  permanências  institucio- </line>
    <line>nais. Em síntese, o atual estágio da eletrificação brasileira diz menos sobre as tecnologias em si e mais sobre  </line>
    <line>as usos, e a estas sujeitas uma tecnológica  </line>
    <line>dependente. </line>
    <line>Palavras-chaves: sociologia econômica; tecnologia; indústria automotiva; eletrificação; Brasil. </line>
    <line>*  Universidade do de (UFRJ). de Desenvolvimento, e (DTA). de  </line>
    <line>Janeiro, de Brasil.  E-mail:  lucaswalmrath@gmail.com   https://orcid.org/0000-0002-6698-8969   </line>
    <line>Conceitualização, Tratamento dos dados, Análise Formal, Obtenção de financiamento, Investigação, Metodologia, Adminis - </line>
    <line>tração do Projeto, Software, Supervisão, Visualização, Redação - rascunho original. </line>
    <line>**  Universidade do de (UFRJ). de Desenvolvimento, e (DTA).  </line>
    <line>de Rio Janeiro,  E-mail:  brubbarro@gmail.com   https://orcid.org/0009-0000-3682-574X   CrediT:  </line>
    <line>Conceitualização, Análise Formal, Investigação, Validação,Visualização, Escrita – revisão e edição. </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2</line>
    <line>Lucas Lemos Walmrath; Bruna Biesdorf Barro</line>
    <line>INTRODUÇÃO</line>
    <line>1</line>
    <line>Ao longo dos últimos quinze anos, o mundo vem testemunhando a notória ascensão dos veícu-</line>
    <line>los eletrificados (VEs). Uma alternativa tecnológica já conhecida, mas até então pouco explorada,</line>
    <line>estes veículos parecem cada vez mais relevantes diante dos renovados impulsos em prol de uma</line>
    <line>economia global mais sustentável e menos baseada em combustíveis fósseis, como evidenciado,</line>
    <line>por exemplo, na assinatura do Acordo de Paris de 2015.</line>
    <line>Como ocorre com muitas novas tecnologias de ponta, tais veículos foram inicialmente fabricados</line>
    <line>e consumidos sobretudo em países de renda alta e na China. Nos últimos cinco anos, contudo, o</line>
    <line>Brasil também vem migrando, em tendência exponencial, para a eletrificação (figura 1 a seguir). A</line>
    <line>guinada ocorre, inclusive, a despeito dos prognósticos mais pessimistas (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>Trigueiro e Kovalick,</line>
    <line>2013) e também dos mais otimistas, especialmente se considerado o cenário econômico agravado</line>
    <line>por crises domésticas e internacionais.</line>
    <line>Figura 1</line>
    <line>- Vendas totais de veículos eletrificados (unidades de carros e de veículos comerciais leves) e participação no</line>
    <line>market</line>
    <line>share</line>
    <line>nacional geral, Brasil, 2012-2023.</line>
    <line>Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico – ABVE (2025).</line>
    <line>A recente emergência dos VEs se configura como um objeto particularmente relevante para estudos</line>
    <line>socioeconômicos. Neste artigo, nos debruçamos sobre dois problemas: 1) a percepção de que o sur-</line>
    <line>gimento de novas tecnologias de natureza disruptiva e a progressiva adesão a estas, seriam fenôme-</line>
    <line>nos tanto naturais quanto esperados, em função de uma suposta eficiência ou conveniência. No caso</line>
    <line>1</line>
    <line>Este artigo é baseado nos resultados da tese de doutorado do Walmrath (2025), mais especificamente nas discussões so-</line>
    <line>ciológicas acerca das tecnologias presentes no capítulo 2 e nos achados empíricos relatados no capítulo 5. A argumentação</line>
    <line>da tese foi revista, ampliada e modificada para este artigo.</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3</line>
    <line>A ELETRIFICAÇÃO AUTOMOTIVA BRASILEIRA</line>
    <line>dos VEs, tal noção se traduziria no apelo “inequívoco” que estes veículos teriam diante dos desafios</line>
    <line>climáticos e ambientais; 2) a natureza das tecnologias e o papel que estas assumem nas mudanças</line>
    <line>socioeconômicas. Aqui buscamos desafiar a ideia de que “tecnologias” em si mesmas (e por si só) fi-</line>
    <line>guram entre os principais vetores de mudança socioeconômica, em detrimento de outros elementos.</line>
    <line>Nossa discussão será delimitada pelo caso da eletrificação brasileira, a partir de duas perguntas:</line>
    <line>quais fatores subjazem à rápida e não antecipada transição rumo à eletrificação automotiva no</line>
    <line>Brasil em cerca de uma década e como pode ser explicada? O que este caso e a discussão teórica</line>
    <line>conduzida podem nos dizer sobre a íntima relação entre sociedade, economia e tecnologia?</line>
    <line>Nosso objetivo com este caso é demonstrar como “novas” tecnologias não têm seus rumos deter-</line>
    <line>minados nos mercados em razão de suas características, ao evidenciar como estas são socioecono-</line>
    <line>micamente determinadas pelos agentes e instituições ao longo do tempo. O objetivo está ancorado</line>
    <line>em três premissas teóricas. As duas primeiras estão ancoradas no trabalho de Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>(2005): 1)</line>
    <line>tecnologias devem ser lidas como paradigmas não estanques, pois possuem graus de plasticidade;</line>
    <line>2) a existência de trajetórias tecnológicas possíveis</line>
    <line>dentro</line>
    <line>de um paradigma); e 3) tecnologias são</line>
    <line>sempre enraizadas (</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Block e Somers, 2014) e, portanto, suas mudanças são condicionadas por</line>
    <line>dependência de trajetória (Ghezzi e Mingione, 2007).</line>
    <line>Quanto às hipóteses, assumimos que a recente trajetória tecnológica da eletrificação automotiva</line>
    <line>brasileira é explicada 1) pela condição de economia dependente e sem tradição industrial automo-</line>
    <line>tiva própria; 2) pelo domínio das firmas incumbentes</line>
    <line>2</line>
    <line>no mercado ao longo do tempo (Fligstein,</line>
    <line>2002; Ghezzi e Mingione, 2007) e das tradições tecnológicas que estas introduziram e cultivaram</line>
    <line>no mercado automotivo brasileiro; e 3) pela maneira através da qual as firmas, o Estado e as ins-</line>
    <line>tituições reagiram às disrupções e crises que moldaram decisivamente as trajetórias tecnológicas</line>
    <line>(Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005) do setor automotivo.</line>
    <line>Para além desta introdução, dividimos o artigo em mais três seções. Começamos apresentando</line>
    <line>reflexões teóricas da Sociologia Econômica das Tecnologias, incorporando também abordagens</line>
    <line>econômicas da tecnologia e estudos voltados à indústria automotiva e sua eletrificação. Em segui-</line>
    <line>da, descrevemos a metodologia da pesquisa. Seguimos com a discussão do caso e encerramos com</line>
    <line>reflexões sobre nossos achados.</line>
    <line>1. MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS TECNOLÓGICAS: INSIGHTS PARA O ESTUDO</line>
    <line>DA ELETRIFICAÇÃO AUTOMOTIVA</line>
    <line>1.1 Mudanças e permanências</line>
    <line>A mudança social é um tema clássico da Sociologia (</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Joas e Knöbl, 2009). Tecnologias se desta-</line>
    <line>cam entre os fatores de mudança, sobretudo nos marcos do capitalismo, noção muito clara desde</line>
    <line>Marx e Schumpeter. Da Sociologia Econômica, subárea dedicada à economia, se esperaria um apa-</line>
    <line>nhado de estudos na interseção sociedade-economia-tecnologia, particularmente no que tange</line>
    <line>ao estudo das mudanças derivadas de tecnologias e inovações tecnológicas. Curiosamente, pelo</line>
    <line>2</line>
    <line>Para Fligstein (1996, p. 663), “As firmas incumbentes são grandes, e os atores nestas firmas conhecem seus principais</line>
    <line>concorrentes e enquadram suas ações em outros grandes concorrentes. As firmas desafiantes são menores e baseiam suas</line>
    <line>ações nas maiores empresas. Mas elas experimentarão o mundo como algo dado, fora de seu controle”.</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4</line>
    <line>Lucas Lemos Walmrath; Bruna Biesdorf Barro</line>
    <line>menos até o início dos anos 2000, havia uma grande lacuna</line>
    <line>3</line>
    <line>a ser preenchida neste campo (Sver-</line>
    <line>risson, 2000).</line>
    <line>Tal espaço passou a ser ocupado progressivamente nas principais publicações da subárea (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>Pinch e Swedberg, 2008). Para nossos interesses, a referência central dos estudos tecnológicos</line>
    <line>da Sociologia Econômica é o influente capítulo de Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>(2005), publicado na segunda edição</line>
    <line>do</line>
    <line>The Handbook of Economic Sociology</line>
    <line>. Embora relativamente antigo, ao apresentar as linhas</line>
    <line>mestras da relação entre tecnologia, economia e sociedade, o texto indica que inovações tecnoló-</line>
    <line>gicas remetem aos direcionamentos dados e buscados pelas empresas, mas que estes e, por conse-</line>
    <line>guinte, as tecnologias eventualmente desenvolvidas, são sempre limitados (e possibilitados) por</line>
    <line>questões relativas ao avanço técnico-científico, aos custos e ao capital disponível, mas também às</line>
    <line>instituições. Afinal, nem tudo o que é tecnologicamente viável encontra correspondência no que é</line>
    <line>economicamente lucrativo e socialmente aceitável (Perez, 2009).</line>
    <line>Assim, muitos fatores importam simultaneamente para causar e explicar mudanças tecnológicas.</line>
    <line>No entendimento de Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>(2005), é preciso uma visão moderada: nem o construcionismo</line>
    <line>social, tampouco o determinismo tecno-econômico. Considerando que a direção da trajetória a ser</line>
    <line>assumida frente a um novo estilo tecnológico não é predeterminada (Perez, 1983), torna-se ainda</line>
    <line>mais importante sublinhar a dimensão da escolha mais ou menos consciente e sempre disponível</line>
    <line>acerca do desenvolvimento de tecnologias:</line>
    <line>O ponto central é que diversas instituições (que vão desde empresas incumbentes até ór-</line>
    <line>gãos governamentais), grupos sociais e também agentes individuais (incluindo, é claro, in-</line>
    <line>ventores e empreendedores) atuam como selecionadores</line>
    <line>ex ante</line>
    <line>das direções de pesquisa</line>
    <line>a serem seguidas (Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005, p. 668).</line>
    <line>Ou seja, os processos de decisão não são aleatórios, mas sim moldados por contextos que incluem</line>
    <line>não só as possibilidades técnicas de um dado período, mas também os preços relativos e poten-</line>
    <line>ciais de mercado, bem como fatores institucionais e regulatórios (Perez, 2009). Por fim, também</line>
    <line>destacamos as noções de graus de plasticidade e de trajetórias tecnológicas (Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005)</line>
    <line>para afirmar que as tecnologias não são estanques; são moldáveis e passíveis de mudanças em</line>
    <line>direção a certos caminhos.</line>
    <line>Até aqui discutimos brevemente as</line>
    <line>mudanças</line>
    <line>tecnológicas, apontando que as tecnologias têm</line>
    <line>graus de plasticidade (Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005). Contudo, é igualmente importante versar sobre as</line>
    <line>per-</line>
    <line>manências</line>
    <line>,</line>
    <line>i.e.</line>
    <line>, a manutenção de certas tecnologias ao longo do tempo, e os impactos disso na</line>
    <line>ordem social</line>
    <line>4</line>
    <line>.</line>
    <line>O conceito central aqui não poderia ser outro que não o de paradigma. Tomando emprestada a</line>
    <line>concepção do funcionamento da ciência de Thomas Kuhn e adaptando-a ao estudo das tecnologias</line>
    <line>(Dosi, 1982), os paradigmas não devem ser reduzidos a meros esquemas ou diagramas técnicos</line>
    <line>(</line>
    <line>blueprints</line>
    <line>) (Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005). Eles dizem mais sobre as heurísticas aceitas e difundidas pelas</line>
    <line>comunidades de desenvolvedores, representando lógicas compartilhadas entre os atores em rela-</line>
    <line>3</line>
    <line>Exceções existem. Biggart e Lutzenhiser (2007) discutem a eficiência energética em edifícios; Garcia-Parpet (1986) mostra</line>
    <line>como a tecnologia foi usada para construir um “mercado perfeito”; a Teoria Ator-Rede ressalta o papel central da tecnologia</line>
    <line>nos mercados financeiros (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>Callon</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2007).</line>
    <line>4</line>
    <line>Novamente remetemos a Joas e Knöbl (2009), tomando a tecnologia como elemento para pensar o problema da</line>
    <line>ordem</line>
    <line>social.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5</line>
    <line>A ELETRIFICAÇÃO AUTOMOTIVA BRASILEIRA</line>
    <line>ção aos modos de fazer, à direção da trajetória de pesquisa e desenvolvimento tecnológico (Perez,</line>
    <line>2009) e aos elementos básicos compartilhados entre variantes de uma dada tecnologia. Não obs-</line>
    <line>tante, sempre existem distintas trajetórias possíveis</line>
    <line>dentro</line>
    <line>de um paradigma,</line>
    <line>i.e.</line>
    <line>, diferentes “[...]</line>
    <line>oportunidades inovadoras subjacentes a cada paradigma” (Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005, p. 682) e sujeitas a</line>
    <line>decisões sobre rumos, ritmos e características do desenvolvimento inovativo.</line>
    <line>Incorporamos também o conceito de dependência de trajetória</line>
    <line>5</line>
    <line>, que designa</line>
    <line>[...] processos de escolha social que envolvem</line>
    <line>feedback</line>
    <line>positivo. Esse</line>
    <line>feedback</line>
    <line>significa que</line>
    <line>escolhas individuais se reforçam mutuamente: se a alternativa A foi preferida à alternativa</line>
    <line>B em determinado momento, aumenta-se a probabilidade de que ela continue sendo prefe-</line>
    <line>rida no futuro (Genschel, 2011).</line>
    <line>Tal conceito ajuda a especificar precisamente</line>
    <line>como</line>
    <line>os paradigmas tecnológicos se consolidam</line>
    <line>ao longo do tempo (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>David, 1985), especialmente considerando a forte e constante interação</line>
    <line>entre as esferas econômica, social e institucional, ou seja, uma relação de</line>
    <line>feedback</line>
    <line>(Perez, 1983)</line>
    <line>com efeitos decisivos sobre tecnologias particulares. A categoria vem sendo abraçada no estudo</line>
    <line>das tecnologias e acrescida de certos corolários da subárea. Ghezzi e Mingione (2007, p. 13), por</line>
    <line>exemplo, a teorizam enquanto “[...] ferramenta para identificar a persistência da diversidade e da</line>
    <line>inovação dentro dos processos de mudança social”, combinando-a ao conceito chave de enraiza-</line>
    <line>mento</line>
    <line>6</line>
    <line>.</line>
    <line>Tal concepção é interessante, pois evidencia que dinâmicas de</line>
    <line>permanência</line>
    <line>(</line>
    <line>i.e.</line>
    <line>, não apenas de</line>
    <line>mudanças</line>
    <line>) também podem, talvez contraintuitivamente, colaborar para a</line>
    <line>variedade</line>
    <line>de tecnolo-</line>
    <line>gias desenvolvidas. Já Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>(2005, p. 692) afirmam que ainda persistem “[...] controvérsias</line>
    <line>importantes sobre os graus de ‘renegociabilidade social’ de qualquer sistema tecnológico estabe-</line>
    <line>lecido (ou seja, sua ausência de dependência de trajetória)”. Assim, indicam que a dependência de</line>
    <line>trajetória, por mais que seja um elemento crucial nas análises tecnológicas, não deve descartar a</line>
    <line>possibilidade de mudança, mesmo em uma trajetória tecnológica já estabelecida.</line>
    <line>A combinação dos dois conceitos, somada às concepções de mudança social e de continuidades</line>
    <line>e descontinuidades na esfera tecnoeconômica, se mostra apropriada. Por um lado, as mudanças</line>
    <line>tecnológicas são possibilidades de inovação técnica disponíveis para agentes socioeconômicos,</line>
    <line>embora também sejam enraizadas socialmente e, portanto, limitadas por múltiplos fatores. Por</line>
    <line>outro lado, a literatura observa como muitas tecnologias se convertem em paradigmas tecnoeco-</line>
    <line>nômicos</line>
    <line>7</line>
    <line>, verdadeiros agrupamentos de paradigmas específicos (Perez, 2009) que se convertem</line>
    <line>no senso comum para a devida operação em uma dada atividade econômica (Perez, 1983). Estes</line>
    <line>paradigmas interagem mutuamente com estruturas socioinstitucionais dependentes de trajetória.</line>
    <line>5</line>
    <line>Granovetter e Swedberg (2011) concebem processos dependentes de trajetória como originados de redes de interações</line>
    <line>sociais que constituem instituições.</line>
    <line>6</line>
    <line>Apesar da origem polanyiana (Polanyi, 2012), subscrevemos a interpretação da Nova Sociologia Econômica,</line>
    <line>i.e.</line>
    <line>, que con-</line>
    <line>cebe a economia como uma esfera sempre enraizada (</line>
    <line>always embedded</line>
    <line>) na sociedade, conforme proposto por Block e</line>
    <line>Somers (2014). Em outras palavras, usamos o conceito para contrapor leituras “desenraizadas” da economia (e da tecno-</line>
    <line>logia).</line>
    <line>7</line>
    <line>Conceito introduzido por Perez (1983), a fim de vincular sua categoria de “estilo tecnológico” com a categoria de “paradig-</line>
    <line>ma tecnológico” introduzida por Dosi (1982).</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6 </line>
    <line>1.2 A eletrificação automotiva: objeto de estudo tecnológico e socioeconômico </line>
    <line>Embora, do ponto de vista prático, veículos a combustão (VCs) e veículos eletrificados (VEs) cum- </line>
    <line>pram a mesma função de maneira muito similar,  i.e., meios de transporte de pessoas e coisas, suas  </line>
    <line>tecnologias bastante. a destas que a socioeco - </line>
    <line>nômica a à tecnológica VEs. quadro seguir tais  </line>
    <line>diferenças.</line>
    <line>Quadro 1  – Principais diferenças entre veículos a combustão (VCs) e veículos eletrificados (VEs). </line>
    <line>Tipo de  </line>
    <line>veículo Tipo de VE Propulsão Fonte de  </line>
    <line>energia </line>
    <line>Reservatório  </line>
    <line>de energia </line>
    <line>Reabasteci- </line>
    <line>mento </line>
    <line>Custo de  </line>
    <line>fabricação/ </line>
    <line>aquisição </line>
    <line>Custo de  </line>
    <line>manutenção </line>
    <line>Poluição  </line>
    <line>(ar +  </line>
    <line>sonora) </line>
    <line>VC - </line>
    <line>Motor a  </line>
    <line>combustão  </line>
    <line>interna  </line>
    <line>(MCI) </line>
    <line>Gasolina,  </line>
    <line>diesel ou  </line>
    <line>etanol </line>
    <line>Tanque de  </line>
    <line>combustível </line>
    <line>Postos de  </line>
    <line>combustíveis Baixo Alto Alta </line>
    <line>VEs </line>
    <line>Hybrid  </line>
    <line>Electric  </line>
    <line>Vehicle  </line>
    <line>(HEV) </line>
    <line>MCI + motor  </line>
    <line>elétrico  </line>
    <line>(ME) </line>
    <line>Gasolina, e/ </line>
    <line>ou etanol </line>
    <line>+ energia  </line>
    <line>elétrica </line>
    <line>Tanque de  </line>
    <line>combustível  </line>
    <line>+ bateria </line>
    <line>Postos de  </line>
    <line>combustíveis Médio Médio Média </line>
    <line>Plug-in  </line>
    <line>Hybrid  </line>
    <line>Electric  </line>
    <line>Vehicle  </line>
    <line>(PHEV) </line>
    <line>MCI + ME </line>
    <line>Gasolina, e/ </line>
    <line>ou etanol </line>
    <line>+ energia  </line>
    <line>elétrica </line>
    <line>Tanque de  </line>
    <line>combustível  </line>
    <line>+ bateria </line>
    <line>Postos de  </line>
    <line>combustíveis  </line>
    <line>+ rede elétrica  </line>
    <line>(doméstica ou  </line>
    <line>pública) </line>
    <line>Médio Médio Média </line>
    <line>Battery  </line>
    <line>Electric  </line>
    <line>Vehicle  </line>
    <line>(BEV) </line>
    <line>ME Energia  </line>
    <line>elétrica Bateria </line>
    <line>Rede elétrica  </line>
    <line>(doméstica ou  </line>
    <line>pública) </line>
    <line>Alto Baixo Baixa </line>
    <line>Fonte: Elaboração própria, a partir das definições da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – ANFAVEA  (S.d.). </line>
    <line>Uma  econômica  destas desenvolvida economistas e - </line>
    <line>sultores e.g.  e 2021), como BancMundial  - </line>
    <line>dia  et al., Peltier-Thiberge Reja, e intergovernamentais a  In- </line>
    <line>ternational Energy Agency não pende heurísticas difundidas mídia  </line>
    <line>especializada e mesmo entre consumidores. Em linhas gerais, nestes estudos, a demanda por VEs  </line>
    <line>levaria competição o desencadearia desenvolvimento destes - </line>
    <line>ículos sua maturação viabilidade (em com Esta  </line>
    <line>linha argumentação bém encontrada estudos os da  </line>
    <line>em países de renda média (como o Brasil) e de renda baixa (e.g.  Rajper e Albrecht </line>
    <line>Essa leitura um tanto quanto  unidirecional  da mudança tecnológica como oriunda do mercado (cf.   </line>
    <line>Dosi, 1982) é tão comum quanto limitada. Especialistas em tecnologia automotiva também discor - </line>
    <line>dam concepção. exemplo, obras Gijs (e.g.  2013; oferecem  </line>
    <line>visão coevolutiva entre tecnologia e sociedade, ressaltan </line>
    <line>mudanças permanências da Tal também uma  - </line>
    <line>ção” autonomização da O oferece a de cultura su- </line>
    <line>blinhando as diferenças entre países, firmas e consumidores e seus efeitos nas características dos  </line>
    <line>automóveis. Sobre os VEs, o autor enfatiza a pouco conhecida, porém rica história destes veículos  </line>
    <line>(Mom, 2013), cujo declínio teve pouco a ver com suas deficiências técnicas.</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7</line>
    <line>A ELETRIFICAÇÃO AUTOMOTIVA BRASILEIRA</line>
    <line>A Sociologia Econômica tem se mostrado cada vez mais interessada na interseção entre sociedade,</line>
    <line>economia e tecnologia. Embora ainda relativamente pequena, existe uma sólida base de estudos</line>
    <line>teóricos socioeconômicos da tecnologia e da inovação, que continua a ser desenvolvida (Ebner,</line>
    <line>2025; Garcia e Carneiro, 2021; Reale, 2024).</line>
    <line>Garcia e Carneiro (2021), por exemplo, optam por uma leitura ampliada de inovação, associando-a</line>
    <line>como um dos principais motores da competição nos mercados. Para os autores, ela envolve a “[...]</line>
    <line>introdução de ideia ou objeto, consumido como produto ou aplicado no processo produtivo, po-</line>
    <line>dendo ser, neste caso, de natureza tecnológica, organizacional ou institucional” (Garcia e Carneiro,</line>
    <line>2021, p. 239). Já o argumento de Reale (2024) em nome de uma Sociologia Econômica da Inovação</line>
    <line>destaca teorias e conceitos desenvolvidos pelos estudos da valoração (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>Fourcade, 2011), isto é,</line>
    <line>de uma literatura que entende o enraizamento institucional da inovação como pautado em dinâ-</line>
    <line>micas valorativas (Reale, 2024).</line>
    <line>Mais recentemente, Ebner (2025), também interessado em um enquadramento mais adequado</line>
    <line>para o desenvolvimento de uma Sociologia Econômica da Inovação, faz uma aposta na recupe-</line>
    <line>ração da obra de Schumpeter e da Economia Evolucionária (</line>
    <line>Evolutionary Economics</line>
    <line>). Apoiado</line>
    <line>na ideia de lucro como principal motivador da inovação, o autor negligencia a convivência entre</line>
    <line>permanências e mudanças, desafiando frontalmente leituras que enfatizam a busca por estabili-</line>
    <line>dade nos mercados (</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Fligstein, 2002) seja um ponto central do processo inovativo, no qual “[...]</line>
    <line>a inovação assemelha-se a uma perturbação com origem exógena” (Ebner, 2025, p. 274).</line>
    <line>De todo modo, a devida aplicação de quaisquer inovações teóricas requer estudos empíricos. No</line>
    <line>presente, uma Sociologia Econômica da tecnologia aplicada</line>
    <line>ao setor automotivo</line>
    <line>parece tanto jus-</line>
    <line>tificada quanto virtualmente inexistente, salvo exceções (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>Lima e Santos, 2021).</line>
    <line>Para nossos propósitos, Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>(2005), deixaram algumas pistas. Não por acaso, o automóvel é</line>
    <line>apontado como um</line>
    <line>exemplo</line>
    <line>paradigmático</line>
    <line>8</line>
    <line>dos estudos sobre inovação, uma vez que nas tecno-</line>
    <line>logias automotivas “[...] o progresso técnico parece exibir padrões e invariâncias” em termos das</line>
    <line>características do produto (Dosi</line>
    <line>et al.</line>
    <line>, 2005, p. 682). Com isso, os autores reforçam como empre-</line>
    <line>sas, incluindo montadoras, têm diferentes níveis de conhecimento técnico e organizacional que se</line>
    <line>refletem em produtos e inovações distintos.</line>
    <line>A literatura socioeconômica sobre a eletrificação automotiva, particularmente os estudos socioe-</line>
    <line>conômicos sobre o processo brasileiro</line>
    <line>9</line>
    <line>, embora incipiente, começa a se avolumar. Os trabalhos de</line>
    <line>Wolffenbuttel estão entre os pioneiros nesta interseção. Em artigo de 2020, o autor nota como o</line>
    <line>crescimento da eletrificação na década passada também foi moldado por notória diversidade tec-</line>
    <line>nológica, considerando “[...] não só os fatores técnicos e econômicos dentro de uma lógica causal e</line>
    <line>unidirecional, mas o conjunto de políticas públicas, aspectos culturais e mobilizações sociais nas</line>
    <line>quais as inovações estão inseridas” (Wolffenbüttel, 2020, p. 154). À época, uma transição para os</line>
    <line>VEs não parecia provável dada a dependência de trajetória nacional. Em artigo posterior, o autor</line>
    <line>aponta como o desalinhamento institucional nacional acabou servindo como mecanismo de blo-</line>
    <line>queio à inovação eletrificada em prol dos VCs (Wolffenbüttel, 2022).</line>
    <line>8</line>
    <line>Tal concepção é compartilhada pelo especialista automotivo Gijs Mom (2023).</line>
    <line>9</line>
    <line>Apesar do destaque à Sociologia Econômica, não poderíamos deixar de mencionar os trabalhos da professora Flávia Conso-</line>
    <line>ni, líder do Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (LEVE), sediado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).</line>
    <line>A pesquisadora tem ocupado papel de liderança no estudo da eletromobilidade brasileira.</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8</line>
    <line>Lucas Lemos Walmrath; Bruna Biesdorf Barro</line>
    <line>Mais recentemente, Brandão e Lima (2025) também contribuíram para esta literatura ao discutir</line>
    <line>a questão do poder nas políticas de eletrificação automotiva. Em estudo comparativo (Estados</line>
    <line>Unidos, China e União Europeia) entre as políticas públicas para a promoção dos VEs, os autores</line>
    <line>partem da teoria dos Campos de Ação Estratégica de Fligstein (2002) para reiterar como, apesar</line>
    <line>dos esforços recentes, a eletrificação brasileira é comparativamente mais incipiente (Brandão e</line>
    <line>Lima, 2025). O cenário nacional seria derivado de fatores tipicamente econômicos, mas também</line>
    <line>de ordem político-institucional, refletindo as tensões do campo.</line>
    <line>2. METODOLOGIA</line>
    <line>Definimos esta pesquisa como um estudo de caso único. Mais especificamente, estudamos o caso</line>
    <line>brasileiro da eletrificação automotiva,</line>
    <line>i.e.</line>
    <line>, um caso entre outros casos nacionais, muito embora</line>
    <line>este contenha várias observações</line>
    <line>dentro</line>
    <line>de si (</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Gerring, 2006). Quanto ao marco temporal, a</line>
    <line>pesquisa abrange particularmente os anos de 2011 a 2023, período que contempla os anteceden-</line>
    <line>tes imediatos e o ápice da virada para a eletrificação nacional.</line>
    <line>Quanto à coleta de dados, foram utilizadas fontes secundárias e primárias diversas. As fontes se-</line>
    <line>cundárias que se destacam nesta pesquisa são notícias advindas do</line>
    <line>site Automotive Business</line>
    <line>, portal</line>
    <line>especializado no setor automotivo brasileiro. Tais notícias foram utilizadas para reconstituir a emer-</line>
    <line>gência recente e as nuances sociopolíticas por trás do processo de eletrificação. Diferente de revistas</line>
    <line>e portais automotivos populares, centrados na avaliação das novidades do mercado automotivo, o</line>
    <line>Automotive Business</line>
    <line>é mais voltado para os bastidores das decisões empresariais automotivas, seja</line>
    <line>em matéria de tecnologia e produto, ou de relações governamentais. Assim, o portal foi escolhido</line>
    <line>por oferecer um maior acesso à racionalidade das montadoras, fornecendo também importantes</line>
    <line>pistas acerca da estrutura do mercado nacional e das relações de poder que o perpassam.</line>
    <line>Adicionalmente, o portal foi escolhido devido à maior facilidade para o emprego da técnica de</line>
    <line>webscra-</line>
    <line>pping</line>
    <line>,</line>
    <line>i.e.</line>
    <line>, da raspagem das notícias para a criação de um banco de dados. As buscas foram direciona-</line>
    <line>das à totalidade do acervo de notícias do portal, com recorte temporal específico fixado entre 2019 e</line>
    <line>2023, dado o volume de dados a ser lido e processado. Tal recorte, contudo, é justificado na medida em</line>
    <line>que detectamos, qualitativamente, que este é o período no qual a eletrificação de fato teve significativo</line>
    <line>impulso no país, com a fabricação dos primeiros híbridos-</line>
    <line>flex</line>
    <line>da Toyota (Izo, 2019).</line>
    <line>O procedimento de pré-coleta envolveu a seleção das palavras-chave a serem utilizadas nas bus-</line>
    <line>cas. Optamos por buscar o nome das firmas que dominam o</line>
    <line>market-share</line>
    <line>automotivo nacional, e</line>
    <line>das principais desafiantes chinesas em ascensão. Adicionalmente, buscamos palavras-chave para</line>
    <line>capturar o papel do Estado (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>governo) e de entidades como a Associação Nacional dos Fabri-</line>
    <line>cantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) e a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).</line>
    <line>A raspagem inicial das notícias resultou em planilhas com o título, a data e o</line>
    <line>link</line>
    <line>de acesso a cada</line>
    <line>matéria, para o período selecionado e para cada palavra-chave. O passo seguinte foi a elaboração</line>
    <line>de critérios de inclusão e exclusão para o material listado. O procedimento envolveu a leitura do</line>
    <line>título de cada notícia e a posterior inclusão em nossa pesquisa somente daquelas estritamente</line>
    <line>relacionadas à eletrificação, embora em sentidos variados (</line>
    <line>e.g.</line>
    <line>planos para um novo veículo, dis-</line>
    <line>cussões sobre rotas tecnológicas,</line>
    <line>etc</line>
    <line>.) ou que elucidassem aspectos paralelos importantes para</line>
    <line>traçar as estratégias das firmas para o mercado nacional.</line>
    <line>A lista final de notícias foi constituída pela união das notícias resultantes da busca por todas as</line>
    <line>palavras-chave. Foram eliminadas as notícias que porventura fossem duplicadas. Estas notícias,</line>
  </page>
</document>
