CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL
Sociologia Econômica e do Trabalho, que vêm acompanhando as mudanças da base produtiva em
uma economia globalizada. Como argumenta Nina Bandelj (2009), o diálogo entre essas subdisci-
plinas pode ampliar as fronteiras de investigação de ambas. Neste artigo, argumenta-se que o tra-
balho é um dos agentes fundamentais da corporação, em conjunto com proprietários e gestores.
Além disso, é necessário verificar as linhas divisórias que os separam, bem como suas distintas
capacidades de exercício do poder. Para fazê-lo, é fundamental analisar as relações entre agentes
no interior da CTN. De acordo com Rodrigo Santos (2017), a “governança corporativa” estabelece
formas institucionais de organização da propriedade, do controle, da distribuição dos resultados
e dos limites à intervenção dos agentes no interior de companhias de capital aberto.
A Vale oferece uma posição privilegiada para analisar tais relações. A abordagem de Rodrigo San-
tos (2019) sobre as transformações na “governança corporativa” da empresa, por exemplo, partiu
do modelo proposto por Aguilera e Jackson (2003) para analisar os diferentes interesses de pro-
prietários (financeiros ou estratégicos) e de gestores (autonomia ou comprometimento) nas mu-
danças recentes na composição do Conselho de Administração (CA) da mineradora. Pela presença
marcante de agentes estatais (BNDESPar) e paraestatais (fundos de pensão de empresas estatais)
no controle da companhia, Santos propôs incorporar o Estado como um terceiro agente relevante
no modelo.
Tal enquadramento oferece um caminho de investigação interessante para o caso em questão, já
que, para a nova escala de competição global com que precisam lidar as CTNs, é preciso também
compreender o papel determinante dos trabalhadores, os quais, entre outras coisas, podem impor
custos e se constituir como agentes políticos na corporação2. Assim, neste artigo, propõe-se con-
siderar o trabalho com um quarto agente fundamental na análise da “governança corporativa”, o
que possibilitará avaliar de que modo as formas de organização e conflito gestadas pelos trabalha-
dores no interior da CTN podem adaptar-se e/ou influenciar as estratégias corporativas, ou seja,
o “processo de definição racional e execução contínua de fins específicos, voltado à obtenção de
valor” (Santos e Ramalho, 2015, p. 3), levando em conta dimensões financeira e de investimento;
de mercado; de relações de trabalho e sindicais.
Se, em trabalhos anteriores (Aguiar, 2022; 2024), as mencionadas transformações na “governança
corporativa” da Vale e o desenvolvimento de uma estratégia corporativa voltada à transnaciona-
lização da companhia foram objeto de discussão, o esforço deste artigo será concentrado na des-
crição dos dois principais conflitos trabalhistas da Vale no século XXI, ambos em suas operações
canadenses, mostrando como o poder coletivo dos trabalhadores enfrentou o poder corporativo
em diferentes momentos e como logrou fortalecer sua posição com a crescente importância estra-
tégica, para a mineradora, da extração de metais básicos para a transição energética.
O artigo baseia-se em entrevistas com trabalhadores e sindicalistas da Vale Canadá, e na análise de
documentos corporativos e sindicais. As pesquisas de campo, inspiradas pelo “método do estudo
de caso ampliado” (Burawoy, 2014), foram realizadas em Sudbury em dois momentos: entre ou-
tubro e novembro de 2016, e em abril de 2024. Na primeira ida a campo, recolheram-se materiais
sobre a transnacionalização da Vale e seus efeitos sobre trabalhadores e sindicatos da empresa;
em particular, realizaram-se entrevistas sobre a greve ocorrida entre 2009 e 2010. Na última, de-
pois de oito anos, realizou-se uma espécie de “revisita etnográfica” com o objetivo de “entender e
explicar a variação e, em especial, compreender a diferença ao longo do tempo” (Burawoy, 2014, p.
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Na Vale, por exemplo, há representação dos trabalhadores no CA.
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