Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24792, 2026  
DOI:10.21669/tomo.v45.24792  
Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:  
reconfigurações dos mercados e disputas de poder  
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  
DOSSIÊ  
CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL:  
estratégias corporativas, organização sindical e duas greves na  
Vale Canadá (2009-2021)  
iago Aguiar*1  
Resumo  
O artigo analisa as mudanças na estratégia corporativa da Vale, os conflitos trabalhistas e as transforma-  
ções na organização sindical, com foco em duas greves (2009-2010 e 2021) em operações da empresa em  
Sudbury, Canadá. Neste país, em 2006, a Vale adquiriu a mineradora Inco e, em 2009, reestruturou suas  
atividades, buscando reduzir o poder coletivo dos trabalhadores, cortar bônus, alterar planos de pensão e  
políticas de segurança, o que levou à mais longa greve do setor privado canadense em 30 anos, encerrada  
com vitória da empresa. Em 2021, durante a pandemia de COVID-19, houve uma nova greve, na qual o sindi-  
cato obteve ganhos importantes e se fortaleceu. O episódio revela o aprendizado do sindicato para enfrentar  
o capital transnacional e as oportunidades abertas com a nova estratégia corporativa da Vale, que aposta em  
metais para a transição energética. O artigo baseia-se em entrevistas e em análise documental, com pesqui-  
sas de campo realizadas em 2016 e 2024.  
Palavras-chaves: Corporação Transnacional; Vale; Trabalho; Sindicalismo; Greves.  
*
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia,  
Campinas, São Paulo, Brasil. E-mail: th.aguiar@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6114-0208  
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  
Thiago Aguiar  
INTRODUÇÃO: O TRABALHO COMO AGENTE POLÍTICO NO INTERIOR DA  
CORPORAÇÃO  
Este artigo apresenta os resultados de pesquisa sobre as transformações corporativas na Vale S.A.,  
os conflitos trabalhistas e as mudanças na organização sindical local, focalizando as causas e os  
resultados de duas greves ocorridas nas operações canadenses da empresa em Sudbury (Ontário,  
em 2009-2010 e em 2021), de modo a verificar a capacidade dos trabalhadores locais e de seu  
sindicato constituírem-se como agentes políticos no interior da corporação. A pesquisa, realizada  
em diferentes momentos entre 2015 e 20251, teve como objetivo analisar o processo pelo qual a  
Vale tornou-se uma corporação transnacional (CTN) e suas consequências para distintos agentes,  
como trabalhadores, sindicalistas, gestores e acionistas.  
O surgimento de CTNs vincula-se às transformações na produção, nas classes sociais, no Estado-  
-nação e nas relações de trabalho, bem como nos fluxos de capitais, mercadorias, informações e  
dados, possibilitadas pela emergência de uma economia capitalista globalizada a partir do último  
quarto do século XX. Além disso, em seu controle, ganharam importância fundos de investimento  
com investidores espalhados pelo planeta (Phillips, 2018; 2024), tornando muito complexa a atri-  
buição de origem nacional de seus proprietários.  
Para William I. Robinson (2004; 2014), a base da globalização econômica é o surgimento do capi-  
tal transnacional e de uma classe capitalista transnacional (CCT) a partir da constituição de um  
circuito globalizado de trabalho, produção e acumulação, tal como descrito pela literatura sobre  
cadeias de valor globais (Gereffi et al., 2005) e redes globais de produção (RGPs) (Henderson et al.,  
2011). O enquadramento de RGPs foi particularmente útil na investigação por oferecer uma com-  
preensão da produção como um processo social, multiescalar e estruturado em rede. Por meio de  
conceitos-chave como valor (sua criação, ampliação e captura), poder (suas fontes e formas de  
exercício – como o poder corporativo da CTN, o poder coletivo de trabalhadores e comunidades,  
e o poder institucional de agentes públicos e estatais) e enraizamento (os arranjos espaço-tem-  
porais nos quais se insere a CTN, condicionando suas estratégias corporativas e suas formas de  
relacionamento com outros agentes), tal perspectiva teórica permite levar em consideração as  
relações entre distintos agentes econômicos e sociais envolvidos na produção capitalista.  
Neste artigo, o foco incidirá nas formas de exercício do poder coletivo dos trabalhadores da Vale  
em Sudbury, de modo a constituir-se como um agente político no interior da CTN e disputar a cap-  
tura de valor com acionistas e gestores em um contexto de transformações na estratégia corpora-  
tiva da empresa. Trata-se de uma questão relevante, já que a acumulação capitalista globalizada  
trouxe consequências significativas para as relações entre capital e trabalho: se a CCT passou a  
dispor de maior mobilidade global, a classe trabalhadora permaneceu, em grande medida, sujeita  
a controles estatais de fluxos migratórios e circulação de pessoas, além das restrições à organiza-  
ção dos trabalhadores em escala global. Desse modo, muito embora a classe trabalhadora parti-  
cipe de processos produtivos geograficamente dispersos ou diretamente comandados por CTNs,  
esta ainda se apresenta como uma classe trabalhadora de caráter nacional ou até mesmo local.  
Por isso, o enquadramento do caso proposto busca localizar-se no diálogo entre perspectivas da  
1
Durante doutorado realizado no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo – PPGS-USP  
(2015-2019) e pesquisas de pós-doutorado realizadas na USP (2020-2021) e na Universidade Estadual de Campinas – Uni-  
camp (2021-2025), com estágio pós-doutoral no King’s College London (2024-2025).  
2
CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL  
Sociologia Econômica e do Trabalho, que vêm acompanhando as mudanças da base produtiva em  
uma economia globalizada. Como argumenta Nina Bandelj (2009), o diálogo entre essas subdisci-  
plinas pode ampliar as fronteiras de investigação de ambas. Neste artigo, argumenta-se que o tra-  
balho é um dos agentes fundamentais da corporação, em conjunto com proprietários e gestores.  
Além disso, é necessário verificar as linhas divisórias que os separam, bem como suas distintas  
capacidades de exercício do poder. Para fazê-lo, é fundamental analisar as relações entre agentes  
no interior da CTN. De acordo com Rodrigo Santos (2017), a “governança corporativa” estabelece  
formas institucionais de organização da propriedade, do controle, da distribuição dos resultados  
e dos limites à intervenção dos agentes no interior de companhias de capital aberto.  
A Vale oferece uma posição privilegiada para analisar tais relações. A abordagem de Rodrigo San-  
tos (2019) sobre as transformações na “governança corporativa” da empresa, por exemplo, partiu  
do modelo proposto por Aguilera e Jackson (2003) para analisar os diferentes interesses de pro-  
prietários (financeiros ou estratégicos) e de gestores (autonomia ou comprometimento) nas mu-  
danças recentes na composição do Conselho de Administração (CA) da mineradora. Pela presença  
marcante de agentes estatais (BNDESPar) e paraestatais (fundos de pensão de empresas estatais)  
no controle da companhia, Santos propôs incorporar o Estado como um terceiro agente relevante  
no modelo.  
Tal enquadramento oferece um caminho de investigação interessante para o caso em questão, já  
que, para a nova escala de competição global com que precisam lidar as CTNs, é preciso também  
compreender o papel determinante dos trabalhadores, os quais, entre outras coisas, podem impor  
custos e se constituir como agentes políticos na corporação2. Assim, neste artigo, propõe-se con-  
siderar o trabalho com um quarto agente fundamental na análise da “governança corporativa, o  
que possibilitará avaliar de que modo as formas de organização e conflito gestadas pelos trabalha-  
dores no interior da CTN podem adaptar-se e/ou influenciar as estratégias corporativas, ou seja,  
o “processo de definição racional e execução contínua de fins específicos, voltado à obtenção de  
valor” (Santos e Ramalho, 2015, p. 3), levando em conta dimensões financeira e de investimento;  
de mercado; de relações de trabalho e sindicais.  
Se, em trabalhos anteriores (Aguiar, 2022; 2024), as mencionadas transformações na “governança  
corporativa” da Vale e o desenvolvimento de uma estratégia corporativa voltada à transnaciona-  
lização da companhia foram objeto de discussão, o esforço deste artigo será concentrado na des-  
crição dos dois principais conflitos trabalhistas da Vale no século XXI, ambos em suas operações  
canadenses, mostrando como o poder coletivo dos trabalhadores enfrentou o poder corporativo  
em diferentes momentos e como logrou fortalecer sua posição com a crescente importância estra-  
tégica, para a mineradora, da extração de metais básicos para a transição energética.  
O artigo baseia-se em entrevistas com trabalhadores e sindicalistas da Vale Canadá, e na análise de  
documentos corporativos e sindicais. As pesquisas de campo, inspiradas pelo “método do estudo  
de caso ampliado” (Burawoy, 2014), foram realizadas em Sudbury em dois momentos: entre ou-  
tubro e novembro de 2016, e em abril de 2024. Na primeira ida a campo, recolheram-se materiais  
sobre a transnacionalização da Vale e seus efeitos sobre trabalhadores e sindicatos da empresa;  
em particular, realizaram-se entrevistas sobre a greve ocorrida entre 2009 e 2010. Na última, de-  
pois de oito anos, realizou-se uma espécie de “revisita etnográfica” com o objetivo de “entender e  
explicar a variação e, em especial, compreender a diferença ao longo do tempo” (Burawoy, 2014, p.  
2
Na Vale, por exemplo, há representação dos trabalhadores no CA.  
3
Thiago Aguiar  
102). Buscou-se, então, debater os resultados da pesquisa anterior com trabalhadores e dirigentes  
do sindicato USW Local 6500 (que representa os trabalhadores da Vale em Sudbury), realizar no-  
vas entrevistas e recolher materiais sobre a greve de 20213.  
Além desta Introdução, o artigo conta com outras três seções: a primeira reconstrói o processo de  
transnacionalização da Vale, sua atuação no Canadá a partir de 2006, e a greve de 2009 a 2010 nas  
instalações canadenses da empresa; a segunda focaliza as transformações recentes na estratégia  
corporativa da mineradora, que ampliaram a importância das operações de metais básicos e a gre-  
ve de 2021 em Sudbury, de modo a avaliar as razões da vitória dos trabalhadores no conflito; por  
fim, nas considerações finais, sintetizam-se os argumentos apresentados ao longo da exposição.  
A VALE NO CANADÁ: TRANSNACIONALIZAÇÃO CORPORATIVA E A GREVE DE  
2009-2010  
A Vale S.A. é a quinta maior mineradora global em valor de mercado (PricewaterhouseCoopers,  
2024) e uma das principais produtoras de minério de ferro, pelotas e níquel. Operando em 18  
países nas Américas, Europa, Ásia e Oceania, em 2023, a empresa tinha mais de 234 mil trabalha-  
dores em todo o mundo, registrando receitas de US$ 41,784 bilhões, lucro de US$ 7,983 bilhões e  
distribuição de US$ 6,1 bilhões em dividendos aos acionistas (Vale, 2024).  
Fundada pelo governo Getúlio Vargas, em 1942, como Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a  
empresa estatal teve papel importante na industrialização do país e se tornou uma grande expor-  
tadora, fundamental para a obtenção de divisas estrangeiras, durante a ditadura militar – período  
marcado pela adoção, pela mineradora, de uma estratégia de relações de trabalho e sindicais au-  
toritária. Nos anos 1980, foram inauguradas as enormes minas do Projeto Ferro Carajás, no Pará,  
que impulsionaram a produção da empresa (Minayo, 2004).  
A transformação da Vale em uma CTN deu-se a partir da privatização da antiga CVRD em 1997.  
Iniciou-se, então, o processo de interpenetração de capitais transnacionais e nacionais (estatais,  
paraestatais e privados) no controle da companhia. Em um primeiro momento, por meio de um  
acordo de acionistas vigente de 1997 a 2017, o comando da mineradora estava concentrado no  
grupo controlador Valepar – composto por fundos de pensão de empresas estatais (como Previ,  
Funcef e Funcesp), bancos estatais e privados brasileiros (BNDES e Bradesco), e o grupo japonês  
Mitsui. Com o fim do acordo de acionistas pós-privatização, um novo arranjo consolidou a trans-  
formação da Vale em uma corporation, com a dissolução da Valepar, a pulverização do capital e as  
mudanças na “governança corporativa, como o aumento do número de conselheiros independen-  
tes (Santos, 2017; 2019). Tais transformações foram acompanhadas pelo protagonismo recente  
de fundos de investimento transnacionais (BlackRock, Vanguard e Capital Group, entre outros)  
nas decisões estratégicas da mineradora (Aguiar, 2024).  
No início do século XXI, durante o boom das commodities minerais, houve um aumento dos fluxos  
de investimento estrangeiro direto promovidos pela companhia. A Vale passou a gerir uma força  
3
Ao longo do artigo, serão reproduzidas declarações obtidas em entrevistas durante a “revisita etnográfica” de abril de 2024.  
Os entrevistados são apresentados com nomes fictícios, de modo a preservar sua identidade, à exceção, por sua notória  
posição institucional, de Jamie West, antigo trabalhador da Inco/Vale e membro do USW Local 6500 que é, desde 2018,  
deputado provincial de Ontário. As entrevistas foram realizadas em inglês e as declarações foram traduzidas para o portu-  
guês.  
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CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL  
de trabalho espalhada pelos cinco continentes, com o objetivo de diversificar sua produção, muito  
concentrada na extração de minério de ferro no Brasil. O marco mais importante desse processo  
foi a aquisição, em 2006, da mineradora canadense Inco por US$ 19 bilhões. Tratava-se de uma  
grande produtora de cobre e, especialmente, de níquel – a maior produtora deste metal do Canadá  
e a segunda maior do mundo, posição assumida pela Vale desde então.  
A aquisição da Inco ocorreu em um período de significativo aumento dos preços do níquel no  
mercado mundial, como ocorreu com outras commodities minerais durante o boom: a tonelada  
métrica do metal saltou de pouco mais de US$ 14 mil em dezembro de 2003 para US$ 52 mil em  
maio de 2007. Particularmente no ano de 2006, quando foi concluída a aquisição da mineradora  
canadense pela Vale, os preços do níquel apresentaram uma alta significativa, passando de cerca  
de US$ 15 mil, em janeiro, para quase US$ 35 mil em dezembro. No entanto, pouco depois, em  
decorrência da crise global de 2007 e 2008, houve acentuada queda nos preços do níquel e do  
minério de ferro, reduzindo as receitas da Vale e pressionando seus lucros. Os preços da tonelada  
métrica do níquel chegaram a ficar abaixo de US$ 10 mil em dezembro de 2008. A partir desse  
momento, houve uma recuperação, mas, ao contrário do minério de ferro, os valores não voltaram  
a aproximar-se do pico registrado em 2007 nos anos seguintes4.  
A queda nos preços do níquel é o pano de fundo da reestruturação que a Vale conduziu em suas  
operações canadenses a partir de 2009, ano em que se encerrou o último contrato assinado pelos  
trabalhadores locais com a antiga gestão da Inco. Os trabalhadores canadenses da Vale são repre-  
sentados pelo sindicato multinacional United Steelworkers (USW), por meio de suas represen-  
tações locais. A Inco desenvolveu forte enraizamento territorial na região de Sudbury (Ontário),  
onde se localizam suas minas e instalações mais importantes e onde atua o sindicato USW Local  
6500.  
As tensas negociações de um novo contrato representaram um choque, para os trabalhadores ca-  
nadenses, com a estratégia de relações de trabalho e sindicais da Vale desenvolvida historicamen-  
te no Brasil. Em Sudbury, cidade onde a mineração de níquel iniciou-se no final do século XIX, a  
Vale encontrou uma comunidade marcada pelo trabalho na Inco há gerações, com forte vinculação  
ao sindicato local – diferentemente da experiência dos trabalhadores da Vale no Brasil, onde há  
alta rotatividade, além de sindicatos pulverizados e enfraquecidos diante do poder corporativo da  
empresa. Charles (há cerca de 25 anos na companhia, mineiro de terceira geração de família tra-  
balhadora na Inco/Vale) e Anthony (mecânico de equipamentos na Inco/Vale há mais de 20 anos),  
assim descreveram a chegada da Vale à cidade:  
Eu sou um mineiro de terceira geração e minha filha agora está na Vale. A gente nem sabia  
de onde a Vale tinha vindo, só sabíamos que alguém tinha chegado e passou a nos tratar de  
uma forma muito diferente do que estávamos acostumados. (Charles, em entrevista)  
Foi na base da imposição. Eles chegaram com uma arrogância do tipo: “Não, não, nós somos  
a elite da sociedade. Vamos ditar tudo. E vocês são camponeses. Só vão obedecer. Foi assim  
que eu me senti naquela situação (Anthony, em entrevista, tradução nossa).  
4
Para uma análise mais detida do boom e do pós-boom das commodities, ver Wanderley (2017). Uma avaliação dos efeitos  
da variação dos preços das commodities minerais para as decisões estratégicas da Vale encontra-se em Aguiar (2022, espe-  
cialmente pp. 71-73 e 251-253).  
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Thiago Aguiar  
De julho de 2009 a julho de 2010, em Sudbury, desenvolveu-se a maior greve no setor privado  
canadense em 30 anos. Durante as negociações do novo contrato coletivo, a Vale buscou:  
1. Reduzir a força de trabalho por meio da introdução de planos de demissão voluntária. Tal ob-  
jetivo foi facilitado pela própria duração da greve, já que muitos trabalhadores, sem receber  
salários por um ano, mudaram-se da cidade e buscaram outras ocupações;  
2. Reduzir os custos do trabalho, particularmente com bônus anuais. A Vale extinguiu o nickel  
bonus pago pela Inco, vinculado às variações do preço do níquel no mercado, que podia ultra-  
passar US$ 50 mil ou US$ 60 mil anuais. A Vale limitou o pagamento a um teto de US$ 15 mil  
por ano e o vinculou a metas e produtividade, em modelo semelhante ao da Participação nos  
Lucros e Resultados (PLR) no Brasil;  
3. Substituição dos antigos planos de pensão de benefício definido, nos quais os trabalhadores  
aposentados mantêm rendimentos equivalentes aos da ativa, por planos de contribuição defi-  
nida, nos quais o valor da aposentadoria varia de acordo com investimentos realizados pelos  
trabalhadores ao longo do tempo. A Vale inicialmente previa fazer a mudança para todos os  
trabalhadores, mas, no acordo de fim greve em 2010, negociou que a mudança valeria apenas  
para novos contratados; e  
4. Enfraquecer o poder coletivo dos trabalhadores, reduzindo a capacidade de intervenção do  
sindicato USW Local 6500 no processo de produção. A Vale buscou reduzir as etapas dos  
procedimentos de grievances (queixas). Trata-se de um aspecto importante do modelo de re-  
lações industriais norte-americano, vinculado à presença, no local de trabalho, de stewards  
(representantes), capazes de apresentar reclamações aos superiores e buscar a resolução de  
conflitos. Além disso, a Vale decidiu encaminhar milhares de casos de grievances para arbitra-  
gem externa, ampliando os custos do sindicato com advogados. Após a greve, foi imposta uma  
nova política de segurança nas minas, que deu maior liberdade para a atuação dos gerentes no  
local de produção, e um novo código de álcool e drogas, por meio do qual stewards e trabalha-  
dores mais combativos, em momentos de conflito, passaram a ser encaminhados para realizar  
exames de urina.  
A longa greve, na qual a empresa praticamente impôs toda a sua pauta de reestruturação, também  
buscou fragilizar a relação do sindicato com os trabalhadores e a comunidade. Muitos entrevista-  
dos relataram suas estratégias de sobrevivência durante o ano em que não receberam salários ao  
mesmo tempo em que participavam dos piquetes de greve e atividades de mobilização. Apesar do  
apoio do fundo de greve do sindicato e de bancos de alimentos comunitários, a maior parte dos  
trabalhadores dependeu do apoio das famílias, buscou empregos em outras cidades, endividou-se,  
vendeu carros e casas.  
Nas entrevistas em Sudbury, foram muito comuns relatos sobre as dificuldades enfrentadas pelos  
trabalhadores e suas famílias durante a greve de 2009-2010. Samuel, por exemplo, começou a  
trabalhar na Inco em 2006, pouco antes da aquisição pela Vale. Mecânico e steward, da terceira  
geração de uma família de mineiros na companhia, ele relembrou a crise familiar por que passou:  
Bem, eu tive que vender minha casa. Eu passei por uma separação. Meu filho estava vindo  
ao mundo. (...) A empresa realmente parecia que tinha algo a provar para Sudbury, por  
causa dos comentários que fizeram sobre mudar a cultura aqui (...). Não digo isso de forma  
desrespeitosa ao povo brasileiro, mas era assim que a empresa ficava dizendo: vocês vão se  
6
CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL  
adaptar ao jeito brasileiro. (...) Era quase como uma ditadura, sabe? (Samuel, em entrevista,  
tradução nossa).  
A derrota da greve de 2009-2010 deveu-se, sobretudo, à possibilidade de a empresa esten-  
der o conflito em um momento de baixa dos preços do níquel. Além disso, a Vale aproveitou  
o período de greve para realizar a manutenção de equipamentos e reestruturação das minas  
por meio de empresas terceirizadas. Desse modo, após a greve, a Vale voltaria a produzir em  
Sudbury com custos reduzidos. Como destacou o deputado Jamie West, que trabalhava na Vale  
durante a greve:  
Isso acabou se tornando uma boa forma, eu acho, de a Vale se proteger dos acionistas, por-  
que eles tinham estoques acumulados por todo lado, não tinham para quem vender o ní-  
quel e, além disso, o preço estava muito baixo, sabe? (...) Eu acho que essa é uma das razões  
pelas quais isso durou tanto tempo (Jamie West, em entrevista, tradução nossa).  
O sindicato USW Local 6500 teve de enfrentar um conjunto de novas táticas às quais não estava  
habituado. Durante as negociações, a Vale não foi representada por seus gestores locais, como  
anteriormente na Inco, mas pelo escritório de advocacia Hicks Morley – “o maior e mais pró-pa-  
tronal escritório de advocacia de recursos humanos no Canadá” (Peters, 2010, p. 89). A Vale levou  
a Sudbury muitos seguranças, que passaram a vigiar trabalhadores nos piquetes e mesmo em suas  
atividades cotidianas na cidade. A mineradora processou vários sindicalistas que participavam  
das negociações e trabalhadores ativos nos piquetes, responsabilizando-os pelos custos da para-  
lisação da produção. Como contou Jack, sindicalista que participou de comitê de negociação da  
greve de 2009 e teve papel destacado durante a greve de 2021:  
Eu, pessoalmente, tive dois processos de um milhão de dólares [canadenses] contra mim, e  
eu era apenas um membro da diretoria executiva. Mas, segundo eles, como alegou o escritó-  
rio Hicks Morley, nós estávamos bloqueando o acesso [às instalações da empresa]. Era algo  
como um milhão de dólares contra cada um dos membros da diretoria (Jack, em entrevista,  
tradução nossa).  
Houve, ainda, durante a greve, a contratação de trabalhadores temporários com o objetivo de  
demonstrar que a produção continuaria e assim desmoralizar os grevistas. Tais trabalhadores,  
conhecidos como scabs (termo pejorativo para fura-greves que significa, literalmente, sarna ou  
crosta de ferida em inglês), foram particularmente recrutados na província francófona vizinha  
do Quebec, visando a explorar as rivalidades regionais canadenses. Como relembrou Jamie West:  
Havia scabs fazendo o nosso trabalho, e eles estavam operando. Víamos a fumaça saindo  
da chaminé. Eu realmente acho que a ideia da Vale, como uma empresa maior, era: “Isso  
vai quebrá-los, porque estamos funcionando e sendo lucrativos sem eles, e eles vão ter que  
voltar rastejando” (Jamie West, em entrevista, tradução nossa).  
Ao final de um ano de resistência, os trabalhadores não foram capazes de reverter a reestrutu-  
ração imposta pela Vale, que pôde adequar as novas operações canadenses à sua estratégia de  
relações de trabalho e sindicais, o que também envolveu substituição de chefias vindas da antiga  
Inco. Para os trabalhadores, o período posterior à greve foi difícil, com novos gestores menos pro-  
pensos a negociar com o sindicato e com os stewards. Apesar disso, a derrota trouxe aprendizados  
ao sindicato sobre como lidar com a corporação transnacional.  
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Thiago Aguiar  
A VITÓRIA NA GREVE DE 2021: TRANSFORMAÇÕES NA ESTRATÉGIA  
CORPORATIVA DA VALE E APRENDIZADO DO USW LOCAL 6500  
Após a reestruturação das operações da Vale em Sudbury, em 2010, os sindicalistas relataram difi-  
culdades na relação com os gestores da empresa, acúmulo de grievances e de casos em arbitragem,  
crescimento das terceirizações e aumento no número de acidentes de trabalho, inclusive fatais,  
em decorrência da nova política de segurança. A Vale, no entanto, também enfrentaria um período  
turbulento. Em meados de 2011, a trajetória de recuperação dos preços das commodities minerais  
seria interrompida, e se consolidaria o período pós-boom, com preços em patamares muito mais  
baixos do que os da década anterior.  
As negociações de um novo contrato, para o período de 2015 a 2020, praticamente mantiveram  
os parâmetros do contrato anterior, havendo pouca disposição por parte do sindicato de resistir  
às mudanças. A Vale, por sua vez, iniciou importantes transformações em sua “governança cor-  
porativa. Como pano de fundo das mudanças, estavam a forte redução das receitas e lucros no  
pós-boom5; a crise econômica brasileira de 2015 e 2016; e a ruptura das barragens de Fundão,  
em 2015 – operada pela Samarco (joint venture da Vale com a BHP Billiton) –, em Mariana (MG),  
e da mina Córrego do Feijão, em 2019, em Brumadinho (MG), que mataram centenas de pessoas  
e levaram a companhia a enfrentar processos judiciais no Brasil e no exterior, provisionar bilhões  
de dólares em recursos para reparações, suspender temporariamente o pagamento de dividendos  
e substituir o comando executivo da companhia.  
Como já mencionado, o encerramento do acordo de acionistas da mineradora, em 2017, levou à  
dissolução da Valepar, à unificação acionária e ao maior protagonismo de fundos de investimento  
transnacionais no CA da empresa (Santos, 2019; Aguiar, 2024). Os novos agentes no CA definiram,  
como objetivo da companhia, recuperar o valor de mercado e os lucros, reduzir o endividamento e  
ampliar a distribuição de dividendos. A Vale anunciou uma série de desinvestimentos e uma nova  
estratégia corporativa, concentrada em suas atividades core – sobretudo, as operações de extração  
de minério de ferro no Brasil e de níquel no Canadá.  
A nova estratégia corporativa da Vale beneficiou-se do aumento extraordinário dos preços das  
commodities minerais durante a pandemia de COVID-19, o que gerou um acréscimo significativo  
das receitas e do lucro da mineradora. Os preços do níquel, por exemplo, aumentaram de US$ 13,5  
mil, em janeiro de 2020, para mais de US$ 20 mil, em dezembro de 2021, continuando a subir até  
alcançar quase US$ 34 mil em março de 20226.  
Nesse contexto, as operações canadenses da companhia ganharam maior importância. Houve au-  
mento de investimentos na extração de metais voltados à transição energética. Em 2022, a Vale  
firmou novas alianças na América do Norte: uma parceria para fornecer níquel a longo prazo para  
a produção de baterias da Tesla e um acordo semelhante com a General Motors, garantindo for-  
necimento estável de níquel para a produção de baterias de veículos elétricos dessas montadoras  
(Aguiar, 2024). Tais ações refletem a busca pela diversificação das fontes de receita da mineradora,  
tradicionalmente dependentes das vendas de minério de ferro para a China, e por fortalecer sua  
presença na América do Norte em um contexto de crescimento das tensões geopolíticas, nas quais  
5
A mineradora, por exemplo, teve um prejuízo histórico de quase R$ 45 bilhões em 2015.  
6
c3%adquel&meses=240. Acesso: 26 mar. 2026.  
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CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL  
a disputa pelo suprimento de minerais e de energia têm ocupado uma posição decisiva (Thomp-  
son, 2022). Com o aumento da demanda por níquel para baterias e equipamentos eletrônicos, a  
Vale tem apresentado sua produção no Canadá como “verde, em comparação com a produção na  
Indonésia (onde a mineradora também atua), que requer alto volume de emissões de carbono. As-  
sim, para a estratégia de mercado e de produto da companhia, as operações de Sudbury ganharam  
maior importância. De acordo com Jack, um dos dirigentes do USW Local 6500:  
Nosso níquel no Canadá, o departamento de marketing está dizendo que é níquel verde,  
que somos um produtor verde. [A Vale investiu] quatro bilhões de dólares na Indonésia em  
níquel via lixiviação ácida sob alta pressão, que era uma tecnologia que antes eles não con-  
seguiam dominar, mas agora conseguiram. O problema da lixiviação ácida sob alta pressão  
é que você precisa de carvão e de temperaturas muito altas, e as emissões geradas por isso  
são terríveis (Jack, em entrevista, tradução nossa).  
Em 2020, com a expiração do contrato no auge da pandemia da COVID-19, Vale e sindicato local  
estenderam o vínculo anterior por mais um ano. Os trabalhadores de Sudbury e o USW Local 6500  
sabiam que a negociação de um novo contrato de cinco anos, em 2021, aconteceria em um cená-  
rio muito distinto das negociações de 2009-2010 e de 2015. Além da importância crescente das  
operações de metais básicos na estratégia corporativa, havia razões conjunturais para que os tra-  
balhadores buscassem maiores ganhos: com o aumento nos preços, a mineradora vinha obtendo  
receitas e lucros extraordinários: em 2021, a Vale teve lucro recorde de US$ 22,4 bilhões, um au-  
mento de 360% em comparação com o ano anterior, e distribuiu US$ 13,5 bilhões em dividendos  
aos acionistas7 – o maior valor até então pago por uma empresa sediada no Brasil. Estava clara a  
possibilidade de lutar por maior captura de valor pelos trabalhadores:  
Precisamos manter o dinheiro na comunidade. Queremos salários mais altos para que os  
trabalhadores possam comprar carros novos, motos de neve, e gastar o dinheiro aqui em  
Sudbury. E, quando vemos os dividendos sendo pagos para fora do país, sabe? (...) A nossa  
luta é contra os acionistas dessa empresa (Paul, trabalhador da Vale e dirigente do USW  
Local 6500, em entrevista, tradução nossa).  
A proposta da Vale, entretanto, não só oferecia pequena recomposição salarial, como previa cortar os  
planos de saúde pós-aposentadoria para novos contratados. Tendo conseguido, em 2010, segmentar  
a força de trabalho em dois planos de pensão, a empresa pretendia fazer o mesmo com a assistência  
à saúde – mesmo no contexto da pandemia da COVID-19. Para o sindicato, a proposta, mais uma vez,  
buscava erodir sua capacidade de representação, particularmente entre os novos trabalhadores.  
Eles estão tentando causar uma divisão. Temos dois planos de aposentadoria e agora eles  
queriam dois planos de assistência médica. (...) Então, como você quebra um sindicato?  
Você o divide (Samuel, em entrevista, tradução nossa).  
Muitos dos problemas de saúde dos aposentados são consequência direta do trabalho nas  
minas: câncer, DPOC [Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica], entre outros. (...) Quando che-  
gamos à mesa de negociação, a proposta foi: novos contratados não teriam benefícios de  
saúde após a aposentadoria, apenas a opção de comprar um plano quando se aposentas-  
sem. Foi aí que entramos em greve (Paul, em entrevista, tradução nossa).  
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De acordo com informações disponíveis em https://saladeimprensa.vale.com/pt/w/resultados-financeiros-2021. Acesso  
26 mar. 2026.  
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Thiago Aguiar  
Os trabalhadores rejeitaram, com mais de 90% dos votos, duas propostas oferecidas pela empre-  
sa, por considerarem o aumento salarial muito baixo e discordarem da retirada dos benefícios de  
saúde pós-aposentadoria de novos contratados. Charles resumiu as reivindicações:  
Havia também questões monetárias, queríamos acompanhar a inflação e tudo mais. Está-  
vamos buscando melhor remuneração para licença médica. (...) O foco maior foi manter os  
benefícios pós-aposentadoria, aumentar um pouco a nossa pensão e melhorar os salários  
(Charles, em entrevista, tradução nossa).  
Em 1º de junho de 2021, os trabalhadores de Sudbury entraram em greve. Dessa vez, o conflito foi  
mais curto, estendendo-se por 64 dias. Mais uma vez, de acordo com os trabalhadores e sindicalis-  
tas entrevistados, a Vale usou táticas introduzidas em 2009, como a contratação de empresas de  
segurança para vigiar trabalhadores nos piquetes e abordá-los na cidade, buscando criar conflitos  
que pudessem justificar processos contra sindicalistas e ativistas da greve ou mandados judiciais  
que impedissem a realização dos piquetes. Desta vez, apesar de não ter contratado scabs, pessoal  
terceirizado realizou atividades de manutenção e a empresa, segundo sindicalistas, determinou  
que gerentes e pessoal administrativo dormissem nas instalações da companhia. A mineradora,  
contudo, introduziu uma mudança importante nas negociações em 2021: em vez da companhia  
Hicks Morley, que apenas ofereceu consultoria externa, gestores locais das operações de Sudbury  
conduziram as discussões com o sindicato.  
O USW Local 6500 modificou suas táticas. Historicamente, em greves na Inco, realizavam-se pi-  
quetes que impediam a passagem de trabalhadores, insumos e da produção. Durante a greve de  
2009-2010, esta tática gerou muita tensão com as equipes de segurança e permitiu à Vale proces-  
sar ativistas e obter liminares contra o sindicato. Todos os trabalhadores entrevistados afirmam  
que o duro conflito anterior orientou as ações em 2021. Os piquetes se localizaram em terrenos  
fora dos limites das propriedades da companhia. Houve uma orientação explícita do comando de  
greve: permitir que equipes terceirizadas e pessoal administrativo entrassem e saíssem. Apesar  
de gerar dúvidas sobre sua eficácia, os sindicalistas afirmam que houve adesão à nova tática e  
fortalecimento da mobilização:  
Foi difícil ir até a mina Coleman e dizer a essas pessoas: vamos deixar todo mundo passar  
com um sorriso. (...) Isso nos ajudou a não receber uma liminar. (...) Trouxeram de volta os  
seguranças novamente. (...) Houve problemas imediatamente. Então tivemos que adminis-  
trar esses problemas e explicar novamente qual era o foco (Samuel, em entrevista, tradução  
nossa).  
Nós não bloqueamos o acesso à propriedade da empresa porque aprendemos, em 2009,  
que, quando a empresa consegue uma liminar judicial, você perde força no piquete. (...) Na  
história de Sudbury, foi a primeira vez que a empresa não teve nenhuma informação para  
levar aos tribunais a fim de conseguir uma liminar contra nós (Jack, em entrevista, tradu-  
ção nossa).  
Com uma greve mais curta, houve menos pressão financeira sobre os trabalhadores, que rela-  
taram ter feito uso estratégico da flexibilização das regras do seguro-desemprego e de auxílios  
durante a pandemia de COVID-19 oferecidos pelo governo canadense. Alguns, novamente, bus-  
caram trabalho fora da cidade. O fundo de greve do USW havia aumentado em comparação com  
o período 2009-2010. A extensão do contrato por um ano, em 2020, por sua vez, sinalizou a  
necessidade de que os trabalhadores se preparassem para a possibilidade de entrar em greve  
no ano seguinte.  
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CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL  
Finalmente, a Vale cedeu às exigências dos trabalhadores: foram mantidos os planos de saúde pós-  
-aposentadoria para todos os trabalhadores e houve aumento salarial substantivo, mais de duas  
vezes maior do que o inicialmente oferecido, além de um bônus de seis mil dólares canadenses  
como prêmio pós-COVID e pela assinatura do novo contrato. Como descreveu Jack:  
Eles nos ofereceram um pacote que valia cerca de $ 2,97 por hora [de aumento] ao longo de  
cinco anos. E os membros rejeitaram. Cerca de duas semanas depois, houve um aumento  
muito pequeno, indo para cerca de $ 3,05 – e, mesmo assim, os membros rejeitaram, com  
uma margem ainda maior. Então, a empresa ficou muito irritada conosco (...). Nossa greve  
durou 64 dias. (...) Passamos de $ 3,05 para $ 7,05, mais do que dobramos a oferta (Jack, em  
entrevista, tradução nossa).  
Os sindicalistas ainda destacam, como resultados da greve, a substituição das chefias, particular-  
mente um brasileiro com difícil interlocução com o sindicato, e a recontratação de alguns antigos  
gestores da Inco abertos a discussões posteriores com o sindicato, o que levou à redução das ter-  
ceirizações e à ampliação da contratação de trabalhadores próprios e sindicalizados. Tais resulta-  
dos foram consequência do aprendizado dos trabalhadores – em particular, por terem identificado  
que a paralisação seria particularmente danosa para as receitas da Vale em um momento de alta  
extraordinária dos preços do níquel e no qual as operações de Sudbury passaram a ter crescente  
importância estratégica. No entanto, ainda cabem algumas palavras sobre a capacidade do poder  
coletivo dos trabalhadores de influenciar e/ou condicionar a estratégia corporativa da companhia.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este artigo buscou analisar as mudanças na estratégia corporativa da Vale e os resultados con-  
trastantes das duas greves ocorridas nas operações canadenses da empresa. Argumentou-se que  
houve uma série de aprendizados do sindicato e dos trabalhadores locais sobre como enfrentar  
o capital transnacional entre a derrota da greve de 2009-2010 – a qual permitiu uma ampla rees-  
truturação das operações locais da empresa e enfraquecimento do USW Local 6500 – e a vitória  
da greve de 2021 – a qual proporcionou ganhos econômicos e uma mudança no relacionamento  
dos gestores com sindicalistas e stewards na produção. Os sindicalistas aproveitaram-se, na última  
mobilização, de uma conjuntura particular: a pandemia da COVID-19, durante a qual os preços dos  
minérios e metais escalaram consideravelmente nos mercados globais, fortalecendo o poder co-  
letivo dos trabalhadores e os custos corporativos da paralisação da produção para a mineradora,  
situação inversa àquela da greve de 2009-2010.  
Em particular, deve-se sublinhar a grande importância das operações de extração de níquel em  
Sudbury para a estratégia corporativa recente da Vale, que busca diversificar as receitas da empre-  
sa (além das obtidas com o minério de ferro no Brasil) e a estratégia de mercado da companhia,  
reduzindo a dependência do mercado chinês e ampliando o fornecimento de metais voltados à  
transição energética para consumidores na América do Norte. Desse modo, buscou-se descrever  
como os trabalhadores locais e o seu sindicato atuaram como um agente político no interior da  
corporação, capaz de exercer seu poder coletivo, influenciar e/ou condicionar as estratégias da  
companhia, aproveitando-se das oportunidades abertas pelas decisões de seus controladores  
para ampliar a captura de valor pelos trabalhadores.  
Pode-se, então, relacionar o resultado da greve de 2021 ao interesse da mineradora em estabilizar  
suas operações canadenses e ampliar a produção de metais básicos. A Vale tem apontado a neces-  
11  
Thiago Aguiar  
sidade de aumentar o valor de mercado da companhia e valorizar o capital de seus controladores  
(Santos, 2019). Por isso, a empresa tem indicado a possibilidade de encontrar novos parceiros  
estratégicos e promover a abertura de capital da divisão de metais básicos. Para alcançar tais ob-  
jetivos, em 2023, foi criada a Vale Base Metals Limited (VBM), com sede em Toronto, subsidiária  
responsável pelas operações globais de metais básicos da companhia (no Brasil, Canadá, Indoné-  
sia, Japão e Reino Unido). Na sequência, 10% da VBM foram vendidos para o fundo saudita Manara  
Minerals, por US$ 3,4 bilhões, e 3% para o Engine Nº.1, fundo californiano voltado a investimentos  
na transição energética. A nova subsidiária recebeu avaliação de US$ 26 bilhões, equivalente a  
40% do valor da empresa-mãe (Aguiar, 2024).  
A propriedade da mineradora, desse modo, torna-se ainda mais complexa, com a presença de no-  
vos agentes. O caso em questão revela, portanto, que, mesmo em um cenário de questionamentos  
à globalização, o capital transnacional segue ocupando papel central na economia global. Ao mes-  
mo tempo, evidencia-se a interação, em investimentos ditos “verdes, entre CTNs da mineração, da  
indústria automobilística e fundos de investimento transnacionais.  
Este artigo buscou, em particular, promover um diálogo entre a Sociologia Econômica e a Socio-  
logia do Trabalho – ou, quem sabe, uma “Sociologia Econômica do Trabalho, como sugeriu Nina  
Bandelj (2009)? – com o objetivo de ampliar a compreensão da natureza social e politicamente  
construída do trabalho. A perspectiva de RGPs, por sua vez, permitiu analisar a produção como um  
processo social no qual o trabalho torna-se um agente fundamental da “governança corporativa,  
em conjunto com proprietários, gestores e o Estado, capaz de condicionar as estratégias corporati-  
vas das CTNs. Ao focalizar o espaço das relações industriais, revela-se, então, um caminho frutífero  
de investigação, capaz de expandir o escopo explicativo da Sociologia Econômica e de uma agenda  
de pesquisa que toma a CTN como objeto prioritário.  
Agradecimentos  
O autor agradece à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp, processos n.  
2019/26020-4 e n. 2023/03095-4) pelas bolsas que viabilizaram a pesquisa da qual resulta este  
artigo  
Financiamento  
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) (processos n. 2019/26020-4 e  
n. 2023/03095-4)  
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CORPORAÇÃO TRANSNACIONAL E TRABALHO LOCAL  
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Thiago Aguiar  
Abstract  
Resumen  
Key-Words  
Palavras Clave  
Transnational corporation and local  
labor: corporate strategies, union  
organization and two strikes at Vale  
Canada (2009–2021)  
Corporación transnacional y trabajo  
local: estrategias corporativas,  
organización sindical y dos huelgas en  
Vale Canadá (2009–2021)  
Abstract  
Resumen  
The article analyzes changes in Vale’s corpora-  
te strategy, labor conflicts, and transformation in  
union organization, focusing on two strikes (2009-  
2010 and 2021) at the company’s operations in  
Sudbury, Canada. In 2006, Vale acquired the mi-  
ning company Inco and, in 2009, restructured its  
activities, seeking to reduce workers’ collective  
power, cut bonuses, and modify pension plans and  
safety policies, leading to the longest private-sec-  
tor strike in Canada in 30 years, which ended with  
a victory for the company. In 2021, during the CO-  
VID-19 pandemic, a new strike took place, in which  
the union achieved significant gains and became  
stronger. This episode reveals the union’s learning  
process in confronting transnational capital and  
the opportunities opened by Vale’s new corporate  
strategy, which emphasizes metals for the energy  
transition. The article is based on interviews and  
document analysis, with fieldwork conducted in  
2016 and 2024.  
El artículo analiza los cambios en la estrategia  
corporativa de Vale, los conflictos laborales y las  
transformaciones en la organización sindical, cen-  
trándose en dos huelgas (2009-2010 y 2021) en  
las operaciones de la empresa en Sudbury, Canadá.  
En este país, en 2006, Vale adquirió la empresa mi-  
nera Inco y, en 2009, reestructuró sus actividades,  
buscando reducir el poder colectivo de los trabaja-  
dores, sus bonificaciones y modificar los planes de  
pensiones y las políticas de seguridad, lo que con-  
dujo a la huelga más larga del sector privado cana-  
diense en 30 años, finalizada con una victoria de  
la empresa. En 2021, durante la pandemia de CO-  
VID-19, hubo una nueva huelga, en la que el sindi-  
cato obtuvo importantes logros y se fortaleció. Este  
episodio revela el aprendizaje del sindicato para  
enfrentar el capital transnacional y las oportunida-  
des abiertas por la nueva estrategia corporativa de  
Vale, que apuesta por los metales para la transición  
energética. El artículo se basa en entrevistas y aná-  
lisis documental, con trabajos de campo realizados  
en 2016 y 2024.  
Keywords: Transnational Corporation; Vale; La-  
bor; Trade Unionism; Strikes.  
Palabras clave: Corporación Transnacional; Vale;  
Trabajo; Sindicalismo; Huelgas.  
Histórico  
Recebido: Março/26  
Primeiro Parecer: Abril/26  
Segundo Parecer: Abril/26  
Aceito: Junho/26  
Revisão Gramatical/Ortográfica e ABNT: Junho/26  
Revisado Autor: Julho/26  
Publicado: Agosto/26  
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo  
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)  
Contato: revistatomo@gmail.com  
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