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DOSSIÊ
DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA
AUTOMOTIVA: percepções acerca da presença da
Stellantis em territórios greenfield no Brasil e na Itália*
1
Maria Carolina Barcellos**
2
Raphael Jonathas da Costa Lima***
3
Davide Bubbico****
4
Resumo
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sobre os movimentos sociais empresariais militantes
pela causa da “sustentabilidade” no Brasil. Diante do cenário de fortalecimento da circulação de agentes
empresariais por espaços formais do poder público nacional, foram investigadas as estratégias políticas
mobilizadas pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável na consolidação do
“desenvolvimento sustentável” como política de Estado. A pesquisa se ancora em uma estratégia eminente-
mente qualitativa, com análise documental e entrevistas semiestruturadas. As categorias analíticas princi-
pais derivam da sociologia econômica de vertente político-cultural, da sociologia política das instituições e
da sociologia dos movimentos sociais. Além da análise geral da estratégia e da rotina do repertório de ação
coletiva para a consolidação da agenda de “sustentabilidade” no Brasil, foi possível apreender as redes de
circulação de seus porta-vozes entre os espaços das empresas, do poder público, dos movimentos socioam-
bientais e das organizações supranacionais.
Palavras-chaves
: sociologia econômica; cadeias globais de valor; redes globais de produção; upgrading;
strategic coupling.
*
Uma versão preliminar deste trabalho foi apresentada e publicada nos anais do Congresso da Sociedade Brasileira de Socio-
logia (SBS) (disponível em: https://www.sbs2025.sbsociologia.com.br/atividade/viewq=eyJwYXJhbXMiOiJ7XCJJRF9BVElW-
SURBREVcIjpcIjk3XCJ9IiwiaCI6ImMyNjliOTI4ZDFmNmY0ZDg4OWVjMzlkNjU3YTkwMzU0In0%3D&ID_ATIVIDADE=97).
Em conformidade com a política editorial da Revista TOMO, uma versão do texto também foi depositada no repositório Rese-
archGate. A presente publicação constitui uma nova versão revisada com avanços em relação ao texto original.
**
UniversidadeFederalFluminense,InstitutodeCiênciasHumanaseFilosoia,DepartamentodeSociologiaeMetodologia
de Ciências Sociais, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: mcarolbarcellos@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0009-0002-
1829-1486 CrediT: Conceitualização, tratamento dos dados, análise formal, metodologia, visualização, escrita do rascunho
original, escrita, revisão e edição.
***
Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Departamento Multidisciplinar de Volta Redonda,
Volta Redonda, Rio de Janeiro, Brasil. Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA), Programa de Pós-Graduação em
Sociologia (PPGS), Universidade Federal Fluminense (UFF). Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: raphaeljonathas@id.uff.br Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-9702-0515 CrediT: Investigação, escrita, revisão e provisão de recursos materiais ao projeto.
****
Università degli Studi di Salerno, Dipartimento di Studi Politici e Sociali, Fisciano, Salerno, Itália. E-mail:dbubbico@unisa.it
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0981-0651 CrediT: Investigação, provisão de recursos materiais ao projeto e supervisão.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24793, 2026
DOI:10.21669/tomo.v45.24793
Dossiê:SociologiaeconômicanoBrasil:reconigurações
dos mercados e disputas de poder
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549
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Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
1. INTRODUÇÃO
A Stellantis constituiu-se em 2021, a partir da fusão entre o Groupe PSA (Peugeot-Citroën) e a
Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Isso originou um dos maiores grupos automotivos do mundo,
com um conglomerado que hoje reúne diversas marcas, como Abarth, Alfa Romeo, Chrysler, Ci-
troën, Dodge, DS Automobiles, Fiat, Jeep®, Lancia, Maserati, Opel, Peugeot, Ram, Vauxhall, além
deplataformasdemobilidade.Depoisdafusão,plantascomoadeMeli(Itália),inauguradapela
FIAT em 1993; da PSA Peugeot-Citroën, instalada em Porto Real (RJ) em 2001; e da Fiat-Chrys-
ler Automobiles (Jeep), inaugurada em Goiana (PE) em 2015, passaram a ser representadas
pela mesma marca, que ainda tem em Betim (MG) um dos principais clusters automotivos da
América Latina.
Essas unidades produtivas compartilham, ainda, a característica de terem sido implantadas em
contextos descritos como
greenield
(Bubbico, 2021; Dulci, 2015; Ladosky, 2021). Um conjunto
de estudos sobre desenvolvimento tem utilizado essa terminologia para caracterizar áreas sem
tradição industrial que, ao receberem investimentos, passam a experimentar transformações em
suas estruturas socioeconômicas (Ramalho, 2015; Dulci, 2015). Originado nos Estados Unidos, o
termo refere-se a regiões com baixa densidade sindical, incentivos estatais e menor resistência
institucional, o que as torna atrativas para instalação de fábricas (Martin e Veiga, 2002)
1
.
Partindodessaperspectiva,oscasosdeMeli,PortoRealeGoianapermiteminvestigarcomoa
inserção da indústria automotiva em territórios
greenield
se articula a diferentes trajetórias pro-
dutivas, bem como a seus desdobramentos socioeconômicos. Longe de serem automáticos, esses
efeitos colocam a relação entre indústria e desenvolvimento como uma questão empírica a ser
explorada. Essa agenda, portanto, dialoga com a literatura sobre novos territórios produtivos, que
reconhecealocalidadenãoapenascomoumespaçogeográico,mastambémcomoumatorativo
na conformação dos processos econômicos e sociais que a atravessam (Ramalho, 2013).
Nesse horizonte analítico, os territórios deixam de ser concebidos apenas como plataformas su-
bordinadas às estratégias globais de acumulação voltadas à maximização do valor para os acionis-
tas. São compreendidos, em vez disso, como espaços de enraizamento, negociação e disputa, nos
quais os projetos industriais interagem com instituições locais e dinâmicas sociais preexistentes
(Henderson
et al
., 2002). O enraizamento, nesse sentido, diz respeito ao modo como as operações
desses empreendimentos passam a ser condicionadas, mediadas e, em certa medida, reorientadas
por arranjos sociais, institucionais e políticos localmente constituídos. Essa perspectiva reconhece,
portanto, que, para além da lógica da extração de valor, tais empreendimentos podem gerar efei-
tos concretos nos territórios onde se estabelecem. Ainda que esses processos sejam permeados
porcontradições,impulsionamtransformaçõesimportantes,reconigurammercadosdetrabalho,
podemfortalecerinstituiçõeslocais,elevaraqualiicaçãoproissional,melhorarainfraestruturae
favorecer o surgimento de novas articulações entre trabalho, Estado e mercado (Ramalho, 2015).
Para analisar esses efeitos, o estudo mobiliza o aporte das Cadeias Globais de Valor (CGVs), com
ênfase no conceito de
upgrading
, combinado com contribuições das Redes Globais de Produção
(RGPs). O conceito de
upgrading
, ao lado da governança, constitui um dos pilares analíticos cen-
trais da abordagem das CGVs. Em sua formulação inicial, o
upgrading
estava voltado sobretudo ao
reposicionamentodasirmasnascadeias,apartirdaincorporaçãodeatividadesdemaiorvalor
1
O termo
brownield
, em oposto, refere-se a áreas com trajetória fabril consolidada e forte presença sindical.
3
DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
agregado, envolvendo inovações tecnológicas, organizacionais e funcionais (Humphrey e Schmitz,
2002;Gerefi
et al.
, 2005).
Com o amadurecimento da abordagem e o crescente interesse nos impactos territoriais das CGVs,
a noção de
upgrading
passou a se desdobrar em
economic upgrading
. Este é relativo à capacidade
dasirmasdecapturarmaisvalor.E
social
upgrading. Este é entendido como a melhoria das con-
dições de vida e trabalho dos sujeitos sociais envolvidos nesses processos (Barrientos
et al.
, 2011;
Rossi, 2019). Assim, a ideia de
social
upgrading
aqui mobilizada pode ser compreendida como a
dimensão do desenvolvimento local que incide diretamente sobre os trabalhadores e suas condi-
ções de reprodução social. Isso não implica, necessariamente, uma correspondência automática
comosganhoseconômicosobservadosnoníveldasirmas(Barrientos
et al.,
2011).
É
nesse
ponto
que
as
contribuições
das
Redes
Globais
de
Produção
(RGPs)
se
tornam
particularmente
relevantes
para
a
presente
discussão,
propondo
um
olhar
mais
atento
ao
enraizamento institucional. Em especial, o conceito de
strategic coupling
possibilita compreen-
deremquemedidaosativoslocais(produtivosesociais)searticulamàsestratégiasdasirmas
líderes,inluenciandoacriação,mastambémaretençãodevalornoterritório(Henderson
et al
.,
2002). Esses aspectos, relativos à articulação entre dinâmicas econômicas e sociais no território,
pouco referenciadas explicitamente pela abordagem das CGVs, são apontadas como lacunas por
Monteiro
et al.
(2024).ElesdefendemaarticulaçãoentreCGVseRGPsaimdemelhorcompre
-
endercomoseestruturamasconexõesentreirmasglobaiseterritórios,inclusiveapartirde
modelos comparativos. Nesse sentido, este artigo procura contribuir para essa agenda, tratando
o
economic
e o
social upgrading
como trajetórias cuja variação entre territórios se relaciona às
coniguraçõesde
strategic coupling
de cada caso.
Diante desse quadro, o artigo tem como objetivo analisar em que medida a presença da indústria
automotiva em territórios
greenield
se traduz, na percepção dos atores locais, em diferentes tra-
jetórias de
economic
e
social upgrading
.Ahipóteseéquetaistrajetóriasreletemformasdiferen
-
ciadas de articulação de criação e apropriação territorial do valor, condicionadas pelo momento
de inserção na cadeia, pelos arranjos institucionais e pelas relações de poder que estruturam a
inserção desses territórios nas redes produtivas.
A seleção dos casos seguiu uma lógica comparativa de máxima variabilidade sob condição de par-
tida comum
2
. O corpus empírico reúne seis entrevistas semiestruturadas realizadas entre 2022 e
2025, complementadas por análise documental. A seleção dos interlocutores priorizou posições
que conjugam mediação institucional e conhecimento situado sobre a presença da empresa no
território(representantesdotrabalhoorganizadoedagestãopúblicalocal).EmMeli,foramen
-
trevistados dois delegados sindicais ligados à FIOM-CGIL e o prefeito do município, em fevereiro e
março de 2025. Em Porto Real, a Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho
e Renda (setembro de 2024) e um dirigente sindical da federação metalúrgica que representa a
unidade (agosto de 2024). No caso de Goiana, recorreu-se de forma complementar a entrevistas
com representantes do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Pernambuco (SindMetal-PE)
sistematizadas por Monteiro
et al.
(2024)paramanteracomparabilidadeentreosperisdeinter
-
2
Os três territórios compartilham a inserção automotiva em contexto
greenield
e o vínculo atual com a Stellantis, manten-
do constante, sobretudo, o caráter inaugural da implantação. Variam quatro eixos relevantes: o momento de inserção na
cadeia(Meli,1993;PortoReal,2001;Goiana,2015);atrajetóriacorporativadeinserção,associadaàsdiferentesmonta
-
doras que deram origem aos investimentos posteriormente incorporados à Stellantis; o arranjo institucional e sindical (do
modelo pluralista italiano à baixa densidade sindical do Nordeste); e o grau de maturidade do
coupling.
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Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
locutores. Cabe dizer que esse material é pautado em discursos socialmente mediados, marcados
porvisões,interesseseposiçõesespecíicasdosatoresenvolvidossobreapresençadaempresa
no território e que, portanto, apresentam limitações de viés.
As entrevistas foram tratadas por análise temática, organizada em torno das dimensões de
upgra
-
ding
sintetizadas no Quadro 1, cotejando-se sistematicamente as percepções dos atores com os
indicadores disponíveis nos documentos institucionais e na literatura especializada.
Quadro 1. Quadro de referência para a análise
Tipo de
Upgrading
Categoria Analítica
Exemplo de evidências
Economic Upgrading
Process upgrading
- Modernização do parque industrial local
- Aumento da produtividade média das empresas
- Introdução de processos automatizados nas plantas
Product upgrading
- Lançamento de produtos com maior valor agregado
-Certiicaçõesdequalidade
Functional upgrading
- Inserção de funções como design, marketing ou logística
- Criação de empregos em áreas técnicas ou estratégicas
Inter-sectoral
or
chain
upgrading
-Diversiicaçãoprodutivanaregiãoassociadaàcadeiaautomotiva
- Emergência de novos segmentos industriais ou de serviços vinculados
Social Upgrading
Standards
- Aumento da formalização do trabalho
- Crescimento dos salários médios industriais
- Jornada e tipo de contrato
Rights
- Liberdade de associação sindical, voz e representação
- Ausência de discriminação e assédio
- Canais institucionais de diálogo (comissões, conselhos, fóruns)
- Ampliação do acesso a direitos sociais (previdência, saúde, transporte)
Fonte: elaboração própria a partir de Humphrey e Schmitz, 2002; Barrientos
et al.
, 2011.
2. DINÂMICAS DE UPGRADING EM TERRITÓRIOS AUTOMOTIVOS
2.1. O caso de Melfi (Itália)
Na comparação que este trabalho propõe, a unidade mais antiga é a da
Fabbrica Italiana Automobili
Torino
(FIAT),instaladanacidadedeMeli,naprovínciadePotenza,daregiãodaBasilicata,pormeio
de sua subsidiária
Società Automobilistica Tecnologie Avanzate
(SATA), fundada em 1991. A planta
foiinauguradaoicialmenteem1993comopartedeumaestratégiademodernizaçãoprodutivada
FIAT. A unidade foi concebida como um laboratório para experimentar um novo paradigma pro-
dutivo e organizacional baseado nos princípios da
lean production
(Cersosimo, 1994) e contribuir
para a expansão para o sul da Itália, no contexto das políticas de desenvolvimento do
Mezzogiorno
,
considerando as desigualdades estruturais em relação ao norte do país
(Svimez, 1993).
Diferentemente dos investimentos estatais italianos realizados nas décadas anteriores, o projeto
emMelifoiestruturadoapartirdeumarranjopúblico-privado,orientadopelalógicadacompeti
-
tividadeglobalepelalexibilizaçãodasrelaçõesdetrabalho.Tratou-sedeuma“segundaonda”de
industrialização no
Mezzogiorno
, impulsionada por mudanças legislativas, como a Lei 853/1971,
que ampliaram os incentivos à grande empresa privada (Cersosimo, 1994) e o “Accordo di Pro-
gramma”, na década de 1990, que estabeleceu uma espécie de compromisso entre Estado, capital e
trabalhopelalocalizaçãodafábricanoSul,emtrocadeaportesinanceirosedamoderaçãoquanto
àsexigênciassindicais(Bubbico,2021).Apartirdisso,Meliconverteu-seemterritórioestraté
-
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DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
gico para testar novos formatos organizacionais e produtivos, marcando a transição do modelo
baseado em estoque (
make to stock
) para a produção sob demanda (
just in time
) (
idem
, 2021).
Emsuma,aescolhaporMelifoimotivadaporumconjuntodefatorestípicosdeum
greenield
, entre
osquaissedestacamessesincentivosiscais,abaixatradiçãosindicallocaleadisponibilidadedeuma
força de trabalho jovem, majoritariamente proveniente de áreas rurais e com pouca experiência (Bub-
bico, 2021), que foi vista como uma oportunidade para a empresa instaurar um novo regime de tra-
balho mais ajustado às exigências daquilo que viria a ser o
World Class Manufacturing
(WCM), padrão
global adotado pela FIAT a partir dos anos 1990 com o objetivo de elevar a produtividade e controle
do processo de trabalho (Bubbico, 2001). Somado a isso, a localização da Basilicata oferecia vantagens
logísticas importantes, devido à presença de uma malha viária e ferroviária capaz de viabilizar o esco-
amento da produção em direção a outros polos industriais e portuários do país (Svimez, 1993).
Em comemoração aos 25 anos da unidade, a empresa destacou a planta como um exemplo de
greenield
bem-sucedido (nestes termos) devido à capacidade de alcançar “a síntese ideal entre
inovação tecnológica e organizacional” (FCA, 2019, p. 6). Nesse contexto, a FCA referiu-se tanto à
implementação do WCM e da plataforma digital quanto ao desenvolvimento de habilidades e com-
petências dos funcionários. Também mencionou iniciativas de formação continuada, criação de
valore,sobretudo,asuaestruturaorganizacional.Estafoiprojetadaparaserlexíveleadaptável
às mudanças do mercado.
Nesse sentido, no discurso corporativo, haveria um
upgrading
de processo, via introdução de prá-
ticasmaiseicientes,novoscomponentestecnológicos,reduçãodedesperdíciosepadronização
detarefas.IssoteriaconferidoàplantadeMelidestaqueemrelaçãoàsdemaisunidadesdogrupo
naquela época (FCA, 2019). Além disso, supõe-se um
upgrading
funcional, expresso na reorgani-
zação interna da planta e na ampliação do seu papel na cadeia de valor, com a incorporação de
atividades de maior valor agregado, como o controle digital da produção, logística interna e ativi-
dades de suporte técnico, o que indicaria, sob essa ótica, um deslocamento da planta em direção a
funções mais complexas (
idem
, 2019).
O diagnóstico corporativo também menciona a “atenção que a empresa tem demonstrado para
com a comunidade local” (FCA, 2019, p. 9), expressa na redução da migração de pessoas para
outras regiões, nos investimentos em infraestrutura e no desenvolvimento local. Esses elementos
são frequentemente mobilizados no discurso institucional como expressão de um suposto
social
upgrading
, entendido, segundo Barrientos
et al.
(2011), como o processo de melhoria nas condi-
ções laborais e de vida dos trabalhadores inseridos em cadeias globais. Sob essa perspectiva, é
possívelinterpretaraixaçãodapopulaçãolocalcomoumamanifestaçãoconcretadeavançoem
alguns padrões mensuráveis. Isso inclui o acesso ao emprego formal, à estabilidade habitacional e
à capacidade de consumo.
A entrevista com o sindicalista Danilo Di Chio, ligado à FIOM-CGIL
3
,tambémenfatizouaixaçãoda
população local, visto que a migração em busca de empregos no Norte era uma realidade constan-
te: “
A Fiat representou uma âncora, um ponto de apoio que permitiu que as pessoas permanecessem
na região (...) e conseguissem comprar uma casa, formar uma família e criar raízes no lugar onde
nasci
”(DiChio,Meli,fev.2025).Eledestacaque,semafábrica,suaúnicaperspectivateriasido
partir, como ainda ocorre com muitos trabalhadores em busca de melhores condições.
3
Sigla para
Federazione Impiegati Operai Metallurgici-Confederazione Generale Italiana del Lavoro
.
6
Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
Como destacado por outro sindicalista ligado à FIOM, residente em um dos municípios do entorno
deMeli:
“No início, (...) com menos de 5.000 habitantes, éramos 120 trabalhadores na Fiat. Imagine
o impacto econômico desses 120 trabalhadores trazendo para casa 120 salários. Então, os municí
-
pios respiraram (...)
” (Vittorio, 2025). O depoimento também destacou os efeitos na própria orga-
nização de infraestruturas e serviços no território. Diante da ausência inicial de sistemas de trans-
porte que conectassem os municípios à planta, os próprios trabalhadores, com apoio do sindicato,
organizaram soluções coletivas de deslocamento, que posteriormente foram institucionalizadas
por meio da atuação do poder público regional.
OmesmofoiobservadonaentrevistacomoatualprefeitodeMeli,GiuseppeMaglione,quecon
-
sidera como radicais as transformações experienciadas a partir da chegada da empresa. Segundo
ele, a Fiat “
gerou oportunidades de emprego, principalmente para os jovens, permitindo que muitos
permanecessem na Basilicata em vez de emigrar
”. Do ponto de vista crítico, essa perspectiva dia-
loga com um aspecto já apontado pela literatura desde os anos 1990. É a forma como os jovens
lucanos carregam um “excedente de memória ‘genética’” sobre as emigrações forçadas vividas
por seus pais, tios e outros parentes. Essas emigrações teriam deixado uma marca duradoura nos
horizontes de expectativa (Cersosimo, 1994, p. 66).
O prefeito também reforça a perspectiva de que a fábrica foi, por anos, um símbolo de desenvolvi-
mento a partir do nível de emprego: “
Era a maior unidade fabril da Europa e uma verdadeira refe
-
rência. Produzia cerca de 400 mil veículos por ano e empregava aproximadamente 15 mil pessoas,
incluindo quase 8.500 funcionários diretamente ligados à Fiat
” (Maglione, 2025).
No entanto, nos últimos anos, haveria uma reversão deste quadro. A região perdeu 6 mil postos
de trabalho ao longo do tempo, 2 mil deles apenas entre 2021 e 2025 devido aos incentivos à
demissão voluntária (Maglione, 2025). Apesar de o prefeito atribuir esse movimento, em parte,
àtransiçãoparaaproduçãodeveículoselétricos,destacandoareduçãosigniicativanonúmero
de componentes e, consequentemente, na necessidade de mão de obra,
4
essa explicação não é su-
icienteparadarcontadoprocessoemcurso.DiChio(2025)argumentaque,aocontráriodessa
percepção sustentada por alguns sindicatos e setores políticos, o problema estaria no adiamento
de investimentos e na falta de preparo para essas mudanças, anunciadas há uma década. Em suma,
as demissões parecem menos associadas à preparação para a produção de veículos elétricos, ain-
daincipientenaplantadeMeli,emaisrelacionadasàausênciadenovosinvestimentoseàreo
-
rientação estratégica da empresa no território.
Portanto,aeletriicaçãotemsidooperadacomoumelementodiscursivoqueenquadraelegitima
ajustes produtivos, especialmente em um contexto de incerteza quanto ao futuro da unidade. De
todo modo, trata-se de um cenário em que a promessa de modernização convive com dinâmicas
de retração do emprego. Esse tipo de assimetria entre inovação tecnológica e impacto social tem
se tornado recorrente em territórios produtivos, sobretudo na Europa, e tem impulsionado o de-
batesobreanecessidadedeumatransiçãojustanocontextodaeletriicaçãoautomotiva(Depuis
et al
., 2024)
5
.
4
“
Enquanto um veículo a combustão tem cerca de 7.800 componentes, um carro elétrico possui apenas 2.800, o que implica em
uma redução na necessidade de mão de obra
” (Maglione, 2025)
5
Conforme propôs Depuis
et al.
(2024), essa transição deve necessariamente incorporar o envolvimento dos trabalhadores,
dos territórios e das comunidades locais nos processos de reestruturação, de modo a garantir que não ocorra à custa da
erosão dos direitos sociais e da coesão territorial.
7
DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
Nesse sentido, tanto os depoimentos dos entrevistados quanto os registros do trabalho de campo
incluem a observação argumentativa de outros sindicatos que atuam na unidade
6
.Elesidentiicam
que a saída para esse cenário de
downgrading
que tem se estabelecido está em uma nova pactuação
da empresa com o território, incluindo Estado, capital e trabalho. Os entrevistados, por exemplo,
atribuíram essa situação diretamente ao enfraquecimento do compromisso da montadora com a
região. Para o prefeito, após a fusão, a governança da empresa se distanciou, sendo conduzida princi-
palmente da França, o que reduziu a interação com a administração local e o foco no impacto social:
Essareestruturaçãotrouxesériosdesaios,principalmenteemrelaçãoaosníveisdeem
-
prego (...) Sempre houve uma colaboração baseada no respeito mútuo. No entanto, após a
fusão, percebemos um distanciamento. A governança da empresa passou a ser conduzida
foradaItália,principalmentenaFrança,oquediicultounossocontatodireto.Antes,havia
uma conexão mais próxima com a administração local e uma preocupação com o impacto
social da empresa no território, mas essa relação foi se enfraquecendo (Maglione, 2025).
Di Chio (2025), por sua vez, alertou para o risco de a Itália perder sua posição estratégica na ca-
deia produtiva automotiva, tornando-se “mera montadora” de componentes fabricados em países
comcustosmaisbaixos.Eletambémdestacouaquedasigniicativanossalários,queatualmente
variam entre 1.100 e 1.200 euros por mês, uma redução expressiva em relação aos períodos de
produção plena, quando os salários podiam chegar a quase 2.000 euros. Uma das principais de-
mandas locais é a alocação de modelos com maior apelo comercial (como foi o caso do FIAT Punto
nas décadas anteriores), capazes de reverter a queda no volume produtivo. A perspectiva de pro-
dução de veículos de luxo, recentemente anunciada (Motor 1, 2025), é recebida com ceticismo por
atores locais, que avaliam seu potencial de mercado como limitado frente à necessidade de gerar
escalaeocupação.Essaincertezasemanifestanaintensiicaçãoda
cassa integrazione
7
, nos pro-
gramasdedemissãoincentivadaenaretomadadeluxosmigratórios,agravandooesvaziamento
populacional e a fragilidade socioeconômica da Basilicata. Os efeitos da reestruturação, portanto,
extrapolam a fábrica, ativando um efeito dominó sobre o conjunto do território.
2.2. O caso de Porto Real (RJ)
Localizado na região Sul Fluminense, a cerca de 130 km do Rio de Janeiro, Porto Real foi inicial-
mente marcado pela presença de fazendas cafeeiras e da escravidão, posteriormente, por ciclos de
industrialização. O território pertenceu originalmente a Resende e abrigou importantes empreen-
dimentos agroindustriais, como o Engenho Central (1879) e, mais tarde, a Companhia Fluminense
de Refrigerantes (1949-2013) (Lima, 2005).
Iniciando a produção em 2001, a fábrica da PSA integrou, de forma inédita no grupo, a produção
de veículos das duas marcas (Peugeot e Citroën) em uma única linha de montagem. À época de sua
instalação,foiprojetadaparaoperarcomaltalexibilidadeebaixaautomação.Essaestratégiafoi
justiicadapelaempresacomoumaformadeequilibrarqualidade,geraçãodeempregosecustos.
Isso ocorreu em um contexto de baixos salários relativos na região em comparação com centros
6
Osistemasindicalitaliano,diferentedobrasileiro,funcionaapartirdeummodelopluralista,oquesigniicaquenãoháum
sindicato único representando toda a categoria, mas sim a convivência de múltiplas organizações sindicais que disputam a
representação dos trabalhadores (Bubbico, 2021).
7
Instrumento do sistema de proteção social italiano que permite às empresas suspender temporariamente contratos de
trabalho ou reduzir jornadas em momentos de crise econômica ou reestruturação produtiva.
8
Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
industriais mais consolidados (Nascimento e Segre, 2008). Contudo, não há evidências claras so-
bre até quando essa estratégia foi mantida ou se, de algum modo, ainda persiste sob outras formas.
A empresa se organizou à semelhança de um condomínio industrial, com fornecedores (muitos
dos quais já possuíam relações anteriores com o grupo PSA) produzindo componentes essenciais,
como bancos, eixos, conjuntos e peças estampadas para a região (Nascimento e Segre, 2008).
Atualmente, esse complexo industrial atrai mais de 200 fornecedores e prestadores de serviços
ligados diretamente à cadeia produtiva automotiva, gerando cerca de 1.800 empregos diretos
(Stellantis, 2025).
A escolha locacional da PSA foi orientada tanto por esforços de uma rede sociopolítica local quan-
to por estratégias corporativas de desconcentração produtiva, abdicando de regiões tradicionais,
como o ABC Paulista, e optando por áreas
greenield
(Lima, 2005; Nabuco
et al.
, 2002). Embora lo-
calizadoemumaregiãocomtradiçãosindicalligadaàsiderurgia,oterritórioconigurou-secomo
greenield
setorial (Dulci, 2015), dado o ineditismo das dinâmicas produtivas e laborais trazidas
pelo setor automotivo. Esse movimento produtivo impulsionou indicadores econômicos locais,
como o PIB e a arrecadação municipal, e contribuiu para a formação de um tecnopolo regional.
O trabalho de Lima (2005) é central para a compreensão desse processo, pois aborda, com pro-
fundidade empírica, os bastidores da emancipação deste município, em respeito à vinda da PSA
e aos efeitos dessa presença sobre o território. Entre os impactos destacados, houve a elevação
do PIB
per capita
, a ampliação de obras públicas em áreas como educação, saúde, saneamento e
mobilidade urbana, bem como a consolidação de uma nova dinâmica institucional e econômica
no município. Por outro lado, o autor também chamou atenção para as contradições desse desen-
volvimento.Entreelas,aexclusãoparcialdapopulaçãolocal,sobretudodasvagasqualiicadasno
setor automotivo. Isso estaria ligado à ausência de formação técnica no município, entre outros
aspectos, como a constituição de uma identidade e coesão social (Lima, 2005).
Passados vinte anos desde a realização desse estudo, os achados de Lima (2005) seguem nota-
velmente atuais. A consolidação da empresa impactou diretamente o emprego formal local, so-
bretudo nas atividades ligadas à fabricação de veículos, mas a maioria das vagas é ocupada por
não-munícipes. Segundo a secretária de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda, “
apenas
8% da população de Porto Real trabalha na Stellantis. Isso é um dado oicial; [...] a gente não conse
-
gue, infelizmente, colocar as pessoas na indústria
” (Gonçalves, 2024). Para a gestora, a exclusão da
população local dos postos industriais estaria relacionada tanto às exigências mínimas de escola-
ridadedosetorquantoaaspectosmaissubjetivos,comoasupostaausênciadeidentiicaçãocom
a cultura industrial. Essa hipótese, no entanto, demanda investigação empírica mais aprofundada.
Como forma de mitigar esse cenário, a prefeitura tem adotado medidas alternativas. Entre elas es-
tão: a) concessão de vale-transporte para moradores que trabalham fora da cidade, em outros seg-
mentos
8
; b) articulação com empresas sistemistas da cadeia automotiva, que oferecem vagas com
menorexigênciadeescolaridadeformal;ec)ofertadecursosproissionalizantesdiretamenteno
município, em parceria com o SENAI
9
.Aentrevistadatambémairmouqueessaúltimainiciativa
fez com que parte desses jovens retornasse aos estudos. Isso ocorreu ao perceber que o ensino
8
Obeneício,previstoemleimunicipal,atualmenteatendecercade440pessoas,umnúmeroaindalimitadodiantedade
-
manda por inserção produtiva.
9
Os cursos formaram cerca de 400 pessoas em quatro anos (logística, almoxarifado e mecânica). O total de inserções no
mercado é incerto, mas a gestora relata impacto imediato: na primeira turma, 22 dos 24 alunos foram empregados.
9
DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
médio era um pré-requisito para acessar outras formações mais complexas, o que seria uma es-
pécie de efeito indireto de incentivo à continuidade educacional. Para ela, essa experiência teria
reacendido uma promessa antiga de construção da primeira escola técnica na cidade, com cursos
voltados diretamente à demanda da Stellantis
10
.
Quanto aos aspectos econômicos, já foram produzidos mais de 2,4 milhões de motores e 1,9 mi-
lhão de veículos na unidade, de 16 modelos das marcas Citroën e Peugeot, desde os pioneiros
Peugeot 206 e Citroën Xsara Picasso até os atuais Citroën C3, Aircross e Basalt (Stellantis, 2025).
Segundo Bruno Streva, representante sindical da unidade, a produção do Peugeot 206 fez a fábrica
empregar cerca de 4.000 trabalhadores. Contudo, com a transferência do projeto do Peugeot 208
para a Argentina, a planta viu sua produção se restringir a modelos da marca Citroën, com menor
volume de vendas.
Nessecontexto,odirigentesindicalairmouqueaorganização
11
tem ocupado espaços, em parce-
ria com a alta gestão da empresa, como interlocutor ativo na busca por novos projetos capazes de
reverter a tendência de encolhimento do emprego. Segundo ele, a viabilização desse objetivo per-
passaalexibilizaçãoprodutivapossibilitadapela
Common Modular Platform
(CMP), que permite
a produção de diferentes modelos sobre uma mesma base técnica e na mesma linha de montagem:
“
a gente precisava de carro que tivesse volume de venda [...]. A gente fez projeto de outra marca. Por
-
que, já que é grupo, e na linha de montagem hoje você produz qualquer carro, né?
” (Streva, 2024).
Seguindoasuainterpretação,aincorporaçãodeumtipoespecíicodeproduto,apartirdeum
up-
grading
tecnológico, por sua vez, pode criar as condições para um possível
upgrading
econômico
e social no território.
Emboranãohouvessenaépocaumanúnciooicialporpartedamontadora,achegadadeumnovo
projeto (modelo
Avenger
, da marca
Jeep
) é tratada pelo sindicalista como um divisor de águas:
“
Com esse segundo carro, que a gente espera que vá vender bastante, com certeza vai ter as 4 mil pes
-
soas...
É a nossa aposta
.” Mais do que a expectativa de retomada dos níveis históricos de emprego, o
discurso dele se alinha a uma lógica de reciprocidade construída ao longo do tempo: “
A gente acre
-
ditou na fábrica e agora eles estão acreditando em nós
” (Streva, 2024). Para ele, essa parceria entre
sindicato e empresa foi forjada especialmente durante os períodos de crise, em que a organização
sindicalaceitoulexibilizardemandasporexpansãodebeneíciossociaisoureajustessalariais,
em troca da preservação dos postos de trabalho. Essa postura colaborativa, segundo o dirigente,
teria sido decisiva para que a planta fosse escolhida como destino de um novo ciclo produtivo. No
entanto, permanece a dúvida se os resultados econômicos associados a essas parcerias, de fato,
sãosuicientesparaareversãodosimpassesaindapersistentesaodesenvolvimentolocal.
2.3. O caso de Goiana (PE)
Goiana está localizada na Zona da Mata Norte de Pernambuco, a cerca de 65 km do Recife e próxi-
ma à divisa com a Paraíba. O município recebeu uma planta da Fiat Chrysler Automobiles (FCA),
em2015.AdecisãodaFCAdeseestabeleceremGoiana(PE)foifortementeinluenciadapor
10
Essa escola técnica teria a formação atrelada a uma posterior contratação dos alunos na cadeia produtiva da empresa. Ver
em:<
https://www.instagram.com/p/DHeTe0EN0ig/
>. Acesso em 04 jun. 2025.
11
A parceria da Força Sindical migrou dos Metalúrgicos do Sul Fluminense para a Federação Metalúrgica (Porto Real/Ita-
tiaia).OsindicalistaagorarepresentaaStellantispeloSindIReal,fundadonoinalde2024.
10
Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
incentivosiscaisvinculadosàpolíticaindustrialdenominadaInovar-Auto(2013-2017)
12
. Além
disso, houve vantagens locacionais, como a proximidade das capitais, disponibilidade hídrica e a
possibilidade de “construir a fábrica do zero”, incorporando tecnologias modernas e arranjos pro-
dutivos integrados (Ladosky, 2021). Em 2023, o
Plant Manager
da unidade, Jasson Azevedo, des-
tacou à imprensa justamente essas características como diferenciais fundamentais. Segundo ele, a
ausência de vínculos da região com o setor automotivo possibilitou “
pensar uma fábrica mais pura,
otimizada, com ganhos logísticos e operacionais
” (Souza, 2023). Esse entendimento está alinhado
à ideia de um
greenield
, em que a empresa possa desenvolver naquela localidade seu próprio
know-how
emoldarsuaforçadetrabalhodemaneiraaadaptá-la,seminluênciasoulimitaçõesde
práticas anteriores, ao modo e ritmo de trabalho desejados.
Após a inauguração, a planta passou rapidamente a ocupar um lugar central como referência pro-
dutiva na empresa, sendo hoje apontada como a mais avançada tecnologicamente entre todas as
unidades globais do conglomerado. Em entrevista concedida a Monteiro
et al.
(2022)
13
, represen-
tantes do SindMetal-PE compararam a unidade a outras do grupo (no exterior) e destacaram: “
A
tecnologia aqui é diferente, o processo é diferente. Na época, era a empresa mais moderna do mundo.
[...] Lá você vê os carros top de linha, mas não tem a tecnologia, não teve o investimento que aqui
teve”
(H., 2022).
Desdeoiníciodesuasatividades,aplantaalcançoumarcossigniicativos.Maisde1,5milhãode
veículos produzidos, mais de 250 mil unidades exportadas e o lançamento de cinco modelos dis-
tintos distribuídos entre três marcas: o
Jeep Renegade
,
Compass
e
Commander,
além das picapes
Fiat Toro
e
Ram Rampage
(Stellantis, 2025). Logo no primeiro ano de operação, o
Jeep Renega
-
de
acumulou cerca de 60 mil unidades vendidas no Brasil, colocando a marca na nona posição
no ranking nacional de automóveis e comerciais leves, com 2,91% de participação de mercado
(Stellantis, 2016). O sucesso comercial dos produtos lançados no Polo Automotivo Jeep também
reacende a discussão anterior de que um “produto certo” do ponto de vista das vendas é um deter-
minante importante para a concepção de sucesso da planta.
Para o diagnóstico corporativo, a unidade é um caso de
upgrading
. Do ponto de vista industrial,
houve rápida consolidação de um complexo produtivo com elevado nível de automação (700 ro-
bôs),altaprodutividade(45veículos/hora)elexibilidadeprodutiva(doismodelossimultâneos)
(Stellantis,2016).Maisespeciicamentenocampoeconômico,houveanacionalizaçãode80%dos
insumos, com 40% advindos do Parque de Fornecedores local (
idem
, 2016).
Osdocumentosinstitucionaistambémmencionamageraçãodeempregos,qualiicaçãodamãode
obra local e outros efeitos multiplicadores. Alguns dados desses documentos ajudam a sustentar
que, de fato, houve transformações importantes no território, como o salto de Goiana da 13ª para
a 4ª posição no
ranking
do PIB estadual, entre 2011 e 2019, e a queda nas taxas de evasão escolar
(Jatobá
et al.
, 2025). Além disso, houve um aumento do PIB
per capita
em mais de 300% entre 2011
e 2021, um incremento de 222% na receita tributária per capita entre 2011 e 2022, e uma expansão
de 59% no emprego formal entre 2014 e 2024 (
idem
, 2025). Cerca de 18.202 empregos diretos e
indiretos foram criados vinculados à planta de Goiana e à rede de fornecedores no estado de Per-
nambuco, e ao menos 38 fornecedoras foram atraídas para o entorno da fábrica (Jatobá
et al.
, 2025).
12
O Inovar-Auto foi um programa de política industrial do governo federal brasileiro voltado ao setor automotivo, que con-
sistiuemincentivosiscaiseexigênciasdeconteúdolocal,inovaçãoeeiciênciaenergética.
13
O nome do participante foi omitido para garantir o sigilo e a preservação de sua identidade.
11
DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
Contudo,
esse
desenvolvimento
é
marcado
por
ambivalências.
Apesar
da
existência
formal
do
SindMetal-PE e de sua atuação nas negociações locais, as taxas de sindicalização na região perma-
necemextremamentebaixas.ComoapontaLadosky(2021),háindíciosdedesestímuloàiliação,
seja por meio de práticas empresariais, seja pelo próprio contexto institucional brasileiro, que fra-
gilizaoscanaistradicionaisderepresentaçãocoletiva.Essecenáriodiicultaaconstruçãodeuma
mediaçãoeicazentretrabalhadoreseempresae,porconsequência,limitaopotencialdecon
-
versão do
upgrading
econômico em social, especialmente se considerarmos que o fortalecimento
de organizações coletivas é um dos direitos habilitadores apontados por Barrientos
et al.
(2011).
Por outro lado, os achados de Monteiro
et al.
(2024)ajudamacomplexiicaressaleitura.Elesevi
-
denciamque,mesmonessecontextodesaiadordopontodevistasindical,épossívelidentiicar
formas locais de agência capazes de se apropriar dessas oportunidades de desenvolvimento. É o
caso dos quilombos de Tejucupapo e de São Lourenço. Eles se articularam politicamente para ob-
ter reconhecimento institucional, ampliar o acesso a oportunidades de emprego, sobretudo com
a inserção de mulheres na cadeia de fornecedores da Stellantis, e reivindicar melhorias em infra-
estrutura (Monteiro
et al.
, 2024).
Quadro 2. Quadro-resumo dos indícios dos casos em comparação a partir do
upgrading.
Categoria
Analítica
Meli
Porto Real
Goiana
Process
Alto
nível
de
automação
e
eiciên
-
cia produtiva consolidado em fases
anteriores,
atualmente
combinado
com reestruturação produtiva e su-
butilização da capacidade.
Evolução de uma base produtiva, ini-
cialmente menos automatizada, para
a
incorporação
de
processos
mais
avançados.
Ex.:
a
Common
Modular
Platform
(CMP), que permite a produ-
ção de diferentes modelos na mesma
linha.
Planta atualmente automatizada des-
de
sua
origem,
com
elevado
padrão
tecnológico (uso intensivo de robóti-
ca) e alta produtividade, permitindo
a
produção
simultânea
de
múltiplos
modelos.
Product
Reorientação
da
produção
para
veículos
de
maior
valor
agregado
(segmento
premium
) no contexto da
estratégia recente da empresa.
Introdução
de
novos
modelos
com
maior
valor
agregado
e
potencial
de
vendas, associada à tentativa de repo-
sicionamento
da
planta
no
portfólio
produtivo.
Produção
de
veículos
com
forte
in-
serção
em
segmentos
estratégicos
de
mercado,
como
evidenciado
pelo
desempenho de modelos como Rene-
gade e Toro.
Functional
Incorporação de funções produtivas
mais
complexas,
como
logística
in-
terna,
controle
digital
da
produção
e
suporte
técnico,
ainda
que
com
limitações na internalização de ati-
vidades estratégicas, como Pesquisa
e Desenvolvimento (P&D).
Indícios de aumento da complexidade
produtiva associados à adoção de no-
vas plataformas e à reorganização dos
processos produtivos.
Avanço
na
internalização
de
etapas
da cadeia produtiva, articulado à for-
mação de um parque local de forne-
cedores e à incorporação de funções
produtivas mais complexas.
Concentração de centros de
software
e de engenharia em Recife.
Inter-sectoral
or chain
Ausência
de
evidências
sólidas;
há,
contudo, iniciativas promovidas por
atoreslocais,voltadasàdiversiica
-
ção
econômica,
com
destaque
para
a
atração
do
setor
ferroviário
(via
transferência
de
competências
da
indústria
automotiva)
e
a
inserção
em novas cadeias, como energias re-
nováveis e turismo cultural.
Formação
de
um
tecnopolo
regional
com ausência de evidências sólidas.
Tecnopolo
regional
em
formação,
com ausência de evidências sólidas.
Standards
Avançoshistóricosnaixaçãodapo
-
pulação e elevação do piso salarial,
hoje
tensionados
por
subutilização
da planta, queda da renda real e re-
tomadadeluxosmigratórios.
Crescimento do emprego e do impac-
to econômico regional, mas com baixa
inserção da população local nas vagas.
Expansão
do
emprego
formal
e
me-
lhora
de
indicadores,
porém
com
li-
mitações na qualidade do emprego e
acessodesigualaosbeneícios.
12
Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
Categoria
Analítica
Meli
Porto Real
Goiana
Rights
Presença
consolidada
de
represen-
tação sindical (RSU), mas com atua-
çãolimitadaporcontratosespecíi
-
cos e exclusão de sindicatos críticos,
além
de
redução
do
diálogo
com
o
poder público local.
Atuação
sindical
cooperativa,
com
baixa
capacidade
de
conversão
em
ganhos substantivos para os trabalha-
dores.
Restrição
à
liberdade
sindical
e
fra-
gilidade
da
representação,
com
evi-
dências
de
práticas
antissindicais
e
mediação institucional limitada.
Strategic
Cou
-
pling
Forma relativamente consolidada de
strategic coupling
no passado, base-
ada na articulação entre incentivos
estatais,
infraestrutura
logística,
força de trabalho e nível de produ-
ção (Fiat Punto) que permitiu opor-
tunidades
de
retenção
de
valor
no
território.
Noperíodorecente,essaconigura
-
ção
se
fragiliza,
dando
lugar
a
um
processo
de
desacoplamento
par-
cial,
marcado
pela
retração
produ-
tiva e pela perda de centralidade da
planta na estratégia da empresa.
Forma limitada de
strategic coupling
,
caracterizada
por
crescimento
eco-
nômico com
baixa
retenção de valor
local para a população, resultando em
efeitos
fragmentados
e
transborda-
mentos para regiões vizinhas.
Strategic coupling
em curso, baseado
na
articulação
entre
investimentos
produtivos, formação e fornecedores
locais
e
apoio
institucional,
que
im-
pulsiona
oportunidades
de
criação
de valor no território. No entanto, sua
consolidação depende da capacidade
de ampliar a retenção e distribuição
desses ganhos, especialmente no pla-
no do
social upgrading.
Fonte: elaboração própria.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Do ponto de vista das CGVs, os três casos analisados apresentam evidências de
economic upgra
-
ding
,sobretudonasdimensõesdeprocessoeproduto.Noentanto,diferemsigniicativamente
quanto à posição ocupada na cadeia e, principalmente, à forma de apropriação territorial dos ga-
nhos. A partir da perspectiva das RGPs, essa variação pode ser compreendida como resultado de
diferentesconiguraçõesde
strategic coupling
, que condicionam tanto a inserção produtiva das
plantas quanto seus efeitos sobre o território. Nesse sentido, a criação de valor é produzida no
âmbito dos processos produtivos e das relações de trabalho. Não implica, necessariamente, sua
retenção no território, a qual depende de diferentes graus de autonomia local, coordenação insti-
tucional e assimetria de poder (Henderson
et al
., 2002; Rossi, 2019).
OcasodeMeliilustrabemesseargumento.NaépocadaproduçãoemlargaescaladoFiatPunto,
aplantaconigurouumaformarelativamentebem-sucedidade
strategic coupling
(longe de ser
consensual)
14
.Nessaforma,ativosterritoriais,comoincentivosiscais,disponibilidadedemãode
obraeinfraestruturalogística,foramarticuladosàsestratégiasdairmalíder.Issopossibilitoua
retenção de parte do valor no território (Henderson
et al
., 2002). No entanto, como sugere a li-
teratura,taisconiguraçõessãocontingenteseinstáveis,cujosresultadospodemvariaraolongo
do tempo e não necessariamente se sustentam de forma contínua (Rossi, 2019). Nesse sentido, a
retraçãoprodutivarecente,associadaàausênciadenovosinvestimentoseàredeiniçãodaestra
-
tégia corporativa, tem resultado em um cenário de
downgrading
, no qual os ganhos econômicos
anteriormente observados deixaram de se traduzir em estabilidade social.
NocontextodeMeli,osatoreslocaisassociamodesenvolvimentoterritorialànecessidadede
uma nova pactuação com a empresa, sobretudo via alocação de modelos de maior volume pro-
14
A insatisfação com as condições de trabalho e a disparidade salarial em relação ao norte italiano culminaram em uma série
deconlitosemMeli,quemarcaramahistóriadaFiat.
13
DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
dutivo.Aatualestratégia,quepareceorientadaaveículosdemaiorvaloragregado,coniguraum
product upgrading
(Humphrey e Schmitz, 2002). Entretanto, é percebida negativamente por seu
baixopotencialdeescalaedegeraçãodeemprego.Aausênciadeavançossigniicativosemtermos
de
functional upgrading
, com a permanência das atividades estratégicas fora da planta (como em
Turim e Detroit) (Bubbico, 2021), reforça a posição subordinada da unidade na cadeia. Isso limita
sua capacidade de ancorar processos duradouros de desenvolvimento local.
Em Porto Real, por sua vez, observa-se um padrão de
economic upgrading
com efeitos territorial-
mente fragmentados. Na percepção sindical, a planta vivenciou momentos de forte dinamismo
econômico (como na fase do Peugeot 206) e, no presente, sustenta-se uma aposta na negociação
por novos modelos como estratégia para manter a atividade produtiva e ampliar o emprego. Ainda
assim, essa estratégia não se traduz automaticamente na inserção produtiva dos residentes locais.
Orelatodagestorapúblicaevidenciaadiiculdadedeformaçãodeumabaselocaldetrabalho
industrial, expressa no baixo percentual de trabalhadores do próprio município. A noção de
gre-
enield
setorial (Dulci, 2015) ajuda a compreender esse quadro, pois, apesar de inserida em uma
região com alguma densidade produtiva, não se desenvolveu no município uma base prévia de
competências e instituições alinhadas às exigências da cadeia automotiva. Como resultado, parte
relevante dos ganhos transborda para municípios vizinhos, mais bem posicionados para capturá-
-los,produzindoumadistribuiçãoregionaldesigualdosbeneícios.
Já Goiana aponta para um caso em aberto, que vive um período de elevado dinamismo produtivo.
No entanto, a sustentabilidade desse processo dependerá da forma como esses ganhos podem ser
socialmente distribuídos e institucionalmente mediados. Evidências iniciais indicam limites impor-
tantes no plano do
social upgrading
, entendido aqui de forma ampla como a melhoria das condições
de vida e reprodução social no território. Esses limites se expressam, em particular, na esfera das re-
lações de trabalho, especialmente no que se refere à representação coletiva e às condições de traba-
lho. A consolidação de uma trajetória mais inclusiva parece, assim, condicionada à superação de de-
saiostambémobservadosnasplantasanteriores.Deumlado,opotencialde
functional upgrading
,
associado ao centro de P&D em Recife, depende da efetiva internalização de funções estratégicas no
território,oquenãoégarantidopelasestratégiasdasirmaslíderes(HumphreyeSchmitz,2002).
De outro, a distribuição dos ganhos permanece uma questão central, uma vez que esse dinamismo
produtivonãoimplica,necessariamente,nadifusãoterritorialdosbeneícios.
Em
conjunto,
os
casos
analisados
indicam
que
o
upgrading
não
constitui
um
processo
linear
nem
garante,
por
si
só,
trajetórias
inclusivas
de
desenvolvimento.
Seus
efeitos
são
mediados
por
configurações específicas de
strategic coupling
, por estruturas de governança e por arranjos institucio-
nais que, por meio de mecanismos como a regulação do trabalho, a negociação coletiva, as políticas de
formação e os incentivos públicos, condicionam a forma como valor é criado, apropriado e distribuído.
Porim,cabedestacarocaráteraindaexploratóriodesteestudo.Baseadoprincipalmenteemen
-
trevistasedocumentos,omaterialempíricoreletepercepçõessituadasdeatoresinseridosem
posiçõesespecíicasnessesterritórios,emparticular,representantessindicaisegestorespúbli
-
cos, o que impõe limites à generalização dos resultados. Longe de constituir um diagnóstico de-
initivo,osachadosaquiapresentadosdevemsercompreendidoscomoevidênciaspreliminares,
apontando para a necessidade de aprofundamento da análise, tanto por meio da caracterização
mais precisa das formas de
strategic coupling e upgrading
em cada caso, quanto pela construção
de indicadores comparáveis que permitam avaliar, de forma mais sistemática, as articulações en-
tre essas dimensões e o desenvolvimento territorial.
14
Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
Financiamento
Esteestudofoiinanciado,emparte,pelaCoordenaçãodeAperfeiçoamentodePessoaldeNível
Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001. Os autores também agradecem à Fun-
daçãoCarlosChagasFilhodeAmparoàPesquisadoEstadodoRiodeJaneiro(FAPERJ)peloinan
-
ciamento e apoio à pesquisa.
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Maria Carolina Barcellos; Raphael Jonathas da Costa Lima; Davide Bubbico
Abstract
Key-Words
Development and Employment in the
Automotive Industry: Perspectives
on Stellantis’ Presence in Greenfield
Locations in Brazil and Italy
Abstract
This study investigates the territorial effects of es-
tablishingautomotiveplantsingreenieldcontexts,
based
on
a
comparative
analysis
of
Meli
(Italy),
Porto Real (Brazil), and Goiana (Brazil). Based on
the interplay between Global Value Chains (GVCs)
and Global Production Networks (GPNs), the stu-
dy explores the extent to which the relationships
between economic and social upgrading translate
into local development. Methodologically, it adopts
a
qualitative
approach,
incorporating
document
analysis,
semi-structured
interviews,
and
iel
-
dwork. The results show that, despite advances in
process and product dimensions, the territorial ef-
fectsareuneven.InMeli,theprevailingperception
is of retrenchment and distancing, associated with
recent
dynamics
of
downgrading.
In
Porto
Real,
the gains are territorially fragmented, with low in-
volvement of the local population. Goiana, on the
other hand, exhibits high productive dynamism but
faces challenges regarding the distribution of gains
and institutional entrenchment.
Keywords:
economic
sociology;
global
value
chains;
global
production
networks;
upgrading;
strategic coupling.
Resumen
Palavras Clave
Desarrollo y empleo en la industria
automotriz: reflexiones sobre la presencia
de Stellantis en territorios greenfield en
Brasil e Italia
Resumen
Esta investigación analiza los efectos territoriales de la
instalación de plantas automotrices en contextos
gre-
enield
, a partir de un estudio comparativo de los casos
deMeli(Italia),PortoReal(Brasil)yGoiana(Brasil).Se
explora en qué medida las relaciones entre la mejora
económica y social se traducen en desarrollo local, con
base en la articulación entre las cadenas globales de
valor (CGV) y las redes globales de producción (RGP).
Metodológicamente, se adopta un enfoque cualitativo,
con análisis documental, entrevistas semiestructura-
das y trabajo de campo. Los resultados muestran que,
a pesar de los avances en las dimensiones de proceso
y producto, los efectos territoriales son desiguales. En
Meli,predominalapercepciónderetrocesoydistan
-
ciamiento de la empresa, asociada a dinámicas recien-
tesdedegradación.EnPortoReal,losbeneiciosestán
fragmentados territorialmente, con una baja partici-
pación de la población local. Por su parte, Goiana pre-
senta un elevado dinamismo productivo, pero enfrenta
desaíosencuantoaladistribucióndelosbeneiciosy
al arraigo institucional.
Palabras
clave
:
sociología
económica;
cadenas
globales
de
valor;
redes
globales
de
producción;
mejora; acoplamiento estratégico.
Histórico
Recebido: Março/26
Primeiro Parecer: Maio/26
Segundo Parecer: Maio/26
Aceito: Junho/26
RevisãoGramatical/OrtográicaeABNT:Junho/26
Revisado Autor: Julho/26
Publicado: Agosto/26
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)
Contato: revistatomo@gmail.com
*
Este artigo é proveniente de uma nova versão expandida de trabalho publicado originalmente nos Anais do Congresso da
Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS). Em atendimento às diretrizes de submissão da Revista TOMO, a versão prelimi-
narfoiigualmentedisponibilizadanaplataformaResearchGate.Omanuscritoinalaprovadocontemplaavançoseatuali
-
zações do texto original.