Bruno Costa Barreiros
A análise dos documentos e das entrevistas, em perspectiva diacrônica, revela que a participa-
ção do CEBDS nos espaços estatais do Brasil tem se tornado cada vez mais proeminente desde o
Acordo de Paris (em 2015), mas foi alavancada pela ascensão bolsonarista entre 2018 e 2022. Na
visão de uma das informantes, a mais engajada provavelmente em matéria de atuação política, o
CEBDS cresceu muito nos últimos anos11 justamente pelas suas tomadas de posição12 em contra-
posição a diversas medidas do Governo Bolsonaro, especialmente as vinculadas às temáticas liga-
das à preservação ambiental e ao desenvolvimento da Amazônia. Como ela afirma, “se posicionar
quer dizer que você tem voz”, angariando o reconhecimento necessário perante mídias, governos
e sociedade em geral. Esta “voz”, de uma entidade representativa como o CEBDS, um conselho
empresarial, precisa respeitar as suas condições possíveis de enunciação (Bourdieu, 2008): ser
eufemizada (i.e., “diplomática”, nos termos nativos) o suficiente para agradar ao rol heterogêneo
de empresas associadas ao mesmo tempo em que garante a clareza necessária da tomada de posi-
ção para os investidos nas disputas simbólicas.
O fortalecimento das práticas políticas, designadas internamente no CEBDS como advocacy, ocor-
re neste contexto de estrutura de oportunidades políticas (Tilly e Tarrow, 2015) que representa
a ascensão bolsonarista. A partir das entrevistas, ficou claro que a primeira grande ação de ad-
vocacy, direcionada simultaneamente aos três poderes da República, ocorreu em 2020, à época
dos efeitos (nefastos) em algumas cidades do país (sobretudo em São Paulo) das queimadas no
Pantanal. Dentro do Conselho de Líderes do CEBDS houve, segundo um dos entrevistados, uma
“grande preocupação de que seria necessário que o setor empresarial se posicionasse em relação
a isso”. Foi então que um documento assinado pelos CEOs, posicionando-se sobre diferentes temá-
ticas relativas à pauta ambiental, foi lançado. Entre as reivindicações, havia: o combate inflexível
ao desmatamento ilegal; sistemas de controle mais rígidos; investimentos em economia; soluções
baseadas na natureza; investimento em pacotes relacionados à questão da pandemia de Covid-19.
Outrossim, tal tomada de posição retratada por esta petição não deve ser entendida aqui como
motivada por uma causa nobre e virtuosa. Trata-se, muito mais, de um mecanismo associado à
gestão de risco reputacional das empresas associadas, “porque o teto de vidro é bem grande aqui”,
como explicou outro entrevistado.
Aqui, tal como ocorre em muitos outros casos de pesquisas sociológicas sobre fenômenos econômi-
cos e empresariais (e.g., Dezalay, 2007; Offerlé, 2017; Sartore, 2012; Seidl; Barreiros, 2024, Cantu,
2024), o interesse está longe de ser desinteressado e se relaciona, basicamente, com a necessidade
de evitar perdas e maximizar ganhos em termos de capital simbólico e, em seguida, de capital eco-
nômico. De todo modo, foi a partir desta petição que foi fundado o Movimento Empresarial pela
Amazônia, fundamental para entender todo o processo de produção da crença no protagonismo
deste segmento das empresas no jogo de forças políticas que viria a caracterizar o espaço estatal
brasileiro nos anos seguintes. Complementar ao manifesto peticional, 15 CEOs gravaram vídeos e
destacaram o posicionamento das suas empresas quanto às pautas cobradas. Na avaliação de um
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Entre 2020 e 2022, o CEBDS cresceu 63% em termos de contingente de empresas associadas: “subindo de 61 empresas, em
As tomadas de posição política do CEBDS possuem uma característica predominantemente peticional (como será discutido
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na seção a seguir), concentrando-se basicamente nos documentos publicados no site institucional. Como seria previsível,
a heterogeneidade das propriedades sociais das empresas associadas (e.g., montantes globais de capitais, montante de
capital econômico, capital tecnológico, segmentos de atuação, etc.) leva a petições marcadas pela eufemização. São raros os
trechos das publicações levantadas nos quais são abordados os debates mais candentes relativos às maiores controvérsias
políticas e econômicas. Apesar da raridade, estes momentos existem, mesmo nos documentos mais oficiais.
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