Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24813, 2026  
DOI:10.21669/tomo.v45.24813  
Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:  
reconfigurações dos mercados e disputas de poder  
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549  
DOSSIÊ  
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS  
SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO  
SUSTENTÁVEL: uma análise do CEBDS  
Bruno Costa Barreiros*1  
Resumo  
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sobre os movimentos sociais empresariais militantes  
pela causa da “sustentabilidade” no Brasil. Diante do cenário de fortalecimento da circulação de agentes  
empresariais por espaços formais do poder público nacional, foram investigadas as estratégias políticas  
mobilizadas pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável na consolidação do  
“desenvolvimento sustentável” como política de Estado. A pesquisa se ancora em uma estratégia eminente-  
mente qualitativa, com análise documental e entrevistas semiestruturadas. As categorias analíticas princi-  
pais derivam da sociologia econômica de vertente político-cultural, da sociologia política das instituições e  
da sociologia dos movimentos sociais. Além da análise geral da estratégia e da rotina do repertório de ação  
coletiva para a consolidação da agenda de “sustentabilidade” no Brasil, foi possível apreender as redes de  
circulação de seus porta-vozes entre os espaços das empresas, do poder público, dos movimentos socioam-  
bientais e das organizações supranacionais.  
Palavras-chaves: sociologia econômica; sociologia política; desenvolvimento sustentável; sustentabilidade  
empresarial; CEBDS.  
*
Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia, Salvador, Bahia,  
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  
Bruno Costa Barreiros  
INTRODUÇÃO  
Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sociológica sobre os movimentos empre-  
sariais que defendem a causa da “sustentabilidade” no Brasil. Diante do cenário de fortaleci-  
mento da circulação de diferentes agentes empresariais associados a estes movimentos pelos  
espaços formais do poder público nacional, são investigadas as estratégias políticas mobilizadas  
pela principal entidade representativa, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvi-  
mento Sustentável (CEBDS). O CEBDS, nesse contexto, busca a legitimação do “desenvolvimento  
sustentável” como política do Estado brasileiro, cujas repercussões são diretas para diferentes  
estruturas econômicas e, especialmente, para a emergência e transformação de mercados na-  
cionais e internacionais.  
O argumento central do artigo é o de que o CEBDS não opera meramente de forma responsiva na  
agenda pública nacional. Ao contrário, o conselho se constitui como um agente decisivo para a  
institucionalização do ideário do “desenvolvimento sustentável” no Brasil. Ao mobilizar e articular  
repertórios de ação coletiva, redes internacionais e estratégias discursivas, o CEBDS exerce uma  
certa diplomacia corporativa, cujo sentido é a reforma institucional das próprias estruturas nor-  
mativas e regulatórias do espaço estatal.  
A mobilização política do empresariado brasileiro pró-sustentabilidade desperta o interesse so-  
ciológico na medida em que não se restringe a um rol de disputas pela delimitação das práticas  
econômicas e empresariais mais legítimas. Desperta esse interesse, sobretudo, porque se trata de  
um terreno contencioso que nos convida a um novo olhar sobre o poder do Estado e sobre o Es-  
tado (Bourdieu, 2005; 2014; Fligstein e Mcadam, 2019). Para além do terreno formal da política e  
do poder público, o fenômeno sob análise tem repercussões decisivas para os diversos processos  
de construção social de mercados (Bourdieu, 2003; Swedberg, 2005; Fourcade, 2007; Fligstein e  
Dauter, 2012), de disputas simbólicas em torno das doxas econômicas (Bourdieu, 2005) ou con-  
cepções de controle (Fligstein, 2003).  
De fato, uma construção de objeto de pesquisa em tal direção dialoga com produções anteriores  
sobre a atuação e orientação política dos empresários e dirigentes empresariais tanto no Brasil,  
com destaque para os trabalhos de Mancuso (2007), Santos et al. (2017) e Cantu (2024), como  
fora do nosso país, a exemplo das contribuições de Djelic e Etchanchu (2017), Offerlé (2017), de  
Aggeri (2021) e Buchanan et al. (2025).  
A atuação política do empresariado pró-sustentabilidade por meio de seus representantes é aqui  
entendida em duas direções relativamente complementares: como uma variação das práticas so-  
ciais que caracterizam este estrato social de considerável poder simbólico do espaço econômico  
(Bourdieu, 2005); como uma ação coletiva marcada por um certo repertório mobilizado nos con-  
tenciosos (Tilly e Tarrow, 2015). Embora sejam notáveis as diferenças em termos ontológicos e  
epistemológicos, no que tange à atuação política de agentes ou atores sociais, entre as abordagens  
de Bourdieu, de um lado, e a de Tilly e Tarrow, de outro – a primeira enxerga os agentes sociais  
como sendo mais razoáveis do que racionais e a segunda endossa uma visão de atores sociais que  
podem mobilizar estratégias conscientes – ambas se vinculam, no sentido da prática analítica a: 1)  
ações sociais regulares, rotineiras e comuns a uma coletividade; 2) ações estratégicas, desde que a  
noção de estratégia seja entendida no sentido dos interesses coletivos que não são explicitamente  
conscientes; 3) ações contingentes a certas estruturas sociais e de oportunidades políticas. Cabe  
mencionar que a articulação entre estas abordagens sociológicas foi pavimentada principalmente  
2
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
pelas contribuições de Neil Fligstein, majoritariamente em seus trabalhos com Douglas Mcadam  
(e.g., Fligstein; Mcadam, 2015 e 2019).  
Apesar de estas categorias analíticas terem sido mobilizadas na sociologia como associadas às  
ações contestatórias ou revolucionárias, os dirigentes empresariais também desenvolvem formas  
de atuação com seus repertórios e rotinas. Há ações coletivas que são utilizadas regularmente e  
de modo estratégico, constituindo os repertórios de ação coletiva patronais (Offerlé, 2012; 2021).  
Tal mobilização política ocorre muito a partir de porta-vozes e representantes, guarnecidos pelos  
montantes de capital econômico e simbólico que concentram as associações empresariais (Offer-  
lé, 2012; 2021), sendo estratégica para canalizar as competições comerciais nas direções almeja-  
das (Laurens, 2018).  
Os padrões em disputa são decisivos para as oportunidades de negócios, que só surgem graças à  
intervenção governamental (Beckert, 2025) e, mais recentemente, para a emergência de “merca-  
dos do desenvolvimento sustentável” (Dezalay, 2007, p. 70), sendo o exemplo mais atual e saliente  
no Brasil o mercado de créditos de carbono1. Tais mercados são fomentados, internacionalmente,  
pelas organizações supranacionais ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU) (Barreiros,  
2019; Seidl e Barreiros, 2024).  
Paradoxalmente, à medida que a crise socioambiental planetária se intensifica, novos mercados  
são construídos. O capitalismo tem apresentado sua nova roupagem sustentável, sua nova pele  
(Beckert, 2025), sem que lhe seja possível prescindir da burocracia estatal (Weber, 2004; Bour-  
dieu, 2003; 2014). O jogo das principais entidades representativas empresariais, como o CEBDS,  
envolve alcançar posições sociais capazes de lhes garantir o poder de ditar as normas, de apresen-  
tar a sua visão de mundo como a mais legítima, de estabelecer “verdades” nacionais (Bourdieu,  
2014).  
Afinal, é do interesse dos que jogam o jogo econômico que suas preferências e práticas sejam apli-  
cadas como regulamentações gerais e normas sobre os direitos de propriedade (Bourdieu, 2005;  
2014; Fligstein, 2003), em um processo de transformação do particular (e.g., formas de produzir  
de uma dada indústria alimentar) em universal (e.g., leis sobre como devem ser produzidos os  
alimentos no território nacional). Neste âmbito, os militantes da causa da “sustentabilidade em-  
presarial, orquestrados por entidades como o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvi-  
mento Sustentável (CEBDS), têm mobilizado diferentes recursos para se aproximar das esferas de  
decisão, sobretudo dos governantes e tomadores de decisão de políticas públicas, em movimento  
que vai além do lobbying (i.e., pressão por vantagens competitivas) e tem sido nomeado, pela lite-  
ratura gerencial, como advocacy social corporativa (Gaither e Austin, 2022) ou como diplomacia  
corporativa (Henisz, 2017).  
1
Vide tomadas de posição do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável nesta direção: https://  
cebds.org/?s=Carbono. Uma análise sociogenética da atuação do CEBDS na construção do mercado de créditos de carbono  
será objeto de publicação futura.  
3
Bruno Costa Barreiros  
Os movimentos e os contenciosos correspondentes constituem o escopo da institucionalização2  
da “sustentabilidade empresarial” (Barreiros, 2019; Seidl e Barreiros, 2024), a qual tem reper-  
cussões importantes para o capitalismo contemporâneo e cujo alcance desafia, cada vez mais, os  
limites do que entendemos em sociologia como esfera econômica (Weber, 2004) ou campo eco-  
nômico (Bourdieu, 2005). Apesar de raramente figurar em análises sociológicas sobre o avanço  
do ideário neoliberal, argumenta-se aqui que tal reconfiguração internacional provocada pelos  
movimentos empresariais pró-sustentabilidade constitui-se como um fator-chave para entender  
a consolidação do neoliberalismo e o colapso do Welfare State. Iniciativas supranacionais, como  
o Pacto Global da ONU, dão legitimidade, poder simbólico e visibilidade às corporações privadas,  
elevando-as a uma posição mais favorecida no que se entende por campo de poder (Bourdieu,  
2014). Isso permite que as empresas tenham maior influência na definição dos ideais e das políti-  
cas consideradas universais.  
Visando contribuir para os debates sociológicos sobre a atuação política do empresariado pró-  
-sustentabilidade, o presente artigo está estruturado em quatro seções (além desta introdução): a  
primeira detalha os procedimentos metodológicos; a segunda reconstrói a sociogênese das toma-  
das de posição política do CEBDS e sua inserção internacional; a terceira analisa o repertório de  
ação coletiva e a centralidade das petições; por fim, as considerações finais sintetizam as discus-  
sões e resultados, apontando alguns horizontes para agendas futuras de pesquisa.  
TODO  
Para operacionalizar tal recorte voltado à atuação política do empresariado pró-sustentabilidade  
e tomando as práticas do CEBDS como centro da análise, a pesquisa se ancora em uma estra-  
tégia eminentemente qualitativa. Em um primeiro momento, foram mapeados arquivos e docu-  
mentos institucionais obtidos via site do conselho empresarial para fins de análise sociogenética  
(Bourdieu, 2003; 2005). Este material foi enriquecido por outras informações obtidas por meio  
de reportagens no jornal Valor Econômico (busca feita a partir do termo “CEBDS”), bem como  
falas e textos da principal porta-voz do conselho empresarial (Busca pelo nome “Marina Grossi,  
a presidenta da entidade) em outros jornais, entrevistas a canais de mídia e outras enunciações  
disponíveis no YouTube, além de um conjunto prévio de dados levantados em etapas anteriores  
desta linha de pesquisa (Barreiros, 2019).  
Em seguida, foi realizado um mapeamento dos documentos mais relevantes e pertinentes aos ob-  
jetivos desta pesquisa, o que resultou, a partir de uma busca conjunta pelos termos “CEBDS” e  
Advocacy” no site institucional do conselho, em um total de 71 publicações. Estas publicações  
foram lançadas entre 2014 e 2023. A partir disso, foi operacionalizado um processo de construção  
de corpus (Bauer e Aarts, 2012) a fim de possibilitar um aprofundamento maior das análises de  
um grupo representativo de publicações do CEBDS (16 no total), por meio de uma estratégia de  
amostragem qualitativa (Minayo, 2017), organizadas via duas dimensões fundamentais: a) for-  
mato discursivo da publicação (i.e., cartas abertas, notas técnicas, guias informativos, proposições  
práticas, relatórios técnicos); b) ano de publicação no site institucional do CEBDS.  
2
Neste trabalho, adotam-se, principalmente, os sentidos propostos por Lagroye e Offerlé (2010) para as categorias “instituição” e  
“institucionalização”, avaliados como consideravelmente compatíveis com as demais abordagens que fundamentam esta pesquisa,  
concernentes às obras de Bourdieu, Fligstein, Tilly e Tarrow.  
4
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
Quadro 1 – Corpus analítico – amostra qualitativa de Publicações do CEBDS – 2017 a 2023  
Ano  
Formato  
Título  
2023 Carta aberta  
Posicionamento do setor empresarial brasileiro sobre a urgência de criação de um mercado re-  
gulado de carbono no Brasil  
2023 Guia informativo  
Guia CEBDS na COP 28  
2023 Proposição prática Recomendações CEBDS para o Pacote Verde  
2023 Relatório técnico  
2022 Carta aberta  
2022 Nota técnica  
2022 Nota técnica  
Relatório de atividades 2023  
Carta Aberta aos Presidenciáveis 2022  
Nota Técnica sobre Projeto de Lei nº 572/2022  
Nota Técnica – O que será discutido na COP27  
2022 Proposição prática Agenda CEBDS 2022  
2022 Relatório técnico  
2021 Carta aberta  
Resumo de Atividades 2022  
Posicionamento Empresários pelo Clima  
2021 Proposição prática Proposta de Marco Regulatório para o Mercado de Carbono brasileiro  
2021 Proposição prática Posicionamento do Setor Empresarial sobre a Amazônia  
2021 Relatório técnico  
2019 Guia informativo  
Visão 2050  
2018 Proposição prática Agenda CEBDS – por um país sustentável  
2017 Carta aberta  
Carta Aberta: Setor Privado apoia Precificação de Carbono no Brasil  
Fonte: elaboração própria  
Além da análise documental (publicações, reportagens e falas da presidenta do conselho em ca-  
nais de mídia), a pesquisa recorreu aos dados primários obtidos a partir de entrevistas semies-  
truturadas com quatro informantes-chave do CEBDS que trabalham com a chamada “agenda de  
advocacy. Estes entrevistados compõem o quadro de colaboradores há pelo menos dois anos (à  
época das entrevistas), com contatos obtidos por meio de indicação direta da diretoria de relações  
institucionais e comunicação do CEBDS3. Cada entrevista4 teve duração de, aproximadamente, 40  
minutos, com perguntas voltadas a três eixos principais (planejadas para complementar as análi-  
ses documentais): a) participação do CEBDS em redes e espaços internacionais; b) a qualidade das  
participações do CEBDS em Comissões ligadas ao poder legislativo e outras iniciativas do Governo  
Brasileiro atual; c) diferenças e desafios nos modos de engajamento das empresas associadas nas  
pautas ligadas a “advocacy. A maneira de analisar o corpus se inspirou sobretudo nos aportes da  
análise de discursos bourdieusiana (Bourdieu, 2008)5. Cabe destacar, em termos de explicitação  
dos limites metodológicos, que a opção por uma análise focada no CEBDS delimita a análise à  
vanguarda da “sustentabilidade empresarial, não pretendendo generalizar tais achados para o  
conjunto heterogêneo do empresariado brasileiro ou setores de pequeno e médio porte.  
3
A amostragem de informantes-chave foi intencional (Minayo, 2017), focando em integrantes da equipe com experiência em advo-  
cacy e obtidos via gatekeeper (diretoria de Relações Institucionais) por e-mail.  
Cabe destacar aqui que todos os informantes-chave concordaram previamente, com confirmação via e-mail ou WhatsApp,  
4
com os termos da pesquisa, que garantem o sigilo e o anonimato dos entrevistados, de forma integral. Tais termos são res-  
peitados nesta publicação.  
Para uma sistematização desta abordagem de Análise de Discurso, ver Barreiros (2023).  
5
5
Bruno Costa Barreiros  
RESULTADOS E DISCUSSÃO  
Os principais resultados da pesquisa são apresentados em duas subseções: primeiramente, uma  
análise sociogenética das tomadas de posição política, visando compreender a emergência e a  
consolidação do CEBDS como agente relevante nas disputas políticas no espaço estatal brasileiro;  
em seguida, o foco recai sobre o repertório de ação coletiva e a centralidade das petições para a  
diplomacia corporativa do conselho.  
Análise sociogenética das tomadas de posição política  
No sentido de uma análise da circulação internacional de ideias (Bourdieu, 2002), pode-se afirmar  
que os processos de produção e difusão do ideário do “desenvolvimento sustentável, original-  
mente nos anos 1980 em instâncias vinculadas à ONU, são praticamente contemporâneos aos que  
envolveram a importação e a tradução para o mundo empresarial. Um ano depois da publicação  
do relatório da ONU intitulado Our common future (Brundtland, 1987), o primeiro a apresentar  
uma definição de “desenvolvimento sustentável, o consultor empresarial britânico John Elking-  
ton (sociólogo de formação, diga-se de passagem), que viria a ser o principal empreendedor do  
“desenvolvimento sustentável” (Dezalay, 2007), publica The Green Consumer Guide (junto com  
seus parceiros Julia Hailes e Joel Makower da consultoria SustainAbility, fundada no mesmo ano  
do famoso relatório da ONU). Este livro, de grande repercussão, pode ser considerado, ainda que  
muito voltado à dimensão específica do “consumo ecológico, como uma das obras pioneiras da  
tradução do ideário originalmente direcionado aos Estados nacionais para o léxico do mundo das  
empresas, dando início à sistematização da “sustentabilidade empresarial.  
Basicamente, Elkington conferiu, em suas obras, uma racionalidade teórica às práticas empresa-  
riais alinhadas com os recentes ditames das Nações Unidas e afirmou que a “sustentabilidade em-  
presarial” estaria assentada sobre o que denominou de triple bottom line, formado pelos pilares  
social, econômico e ambiental (Elkington, 2013), a mesma tríade que caracteriza a perspectiva ori-  
ginal da ONU em Brundtland (1987). Complementando as análises deste processo de tradução e  
importação, Dezalay (2007) explica que o consultor britânico integrou a primeira leva de ativistas  
ambientais que souberam utilizar uma vasta rede de contatos (i.e., capital social) e prestígio (i.e.,  
capital simbólico) para se estabelecer como empreendedores do “desenvolvimento sustentável.  
Já nos anos 1990, em meio a desdobramentos da Conferência das Nações Unidas sobre Meio  
Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD) no Rio de Janeiro, conhecida como Eco-92, começam a  
surgir diversas associações, entidades e movimentos defensores da chamada “causa sustentável,  
vinculados ao poder público, ao setor privado e ao terceiro setor. O CEBDS surge em 1997 como  
movimento de grandes empresas atuantes no Brasil, que se colocavam como a vanguarda “sus-  
tentável” do país (e.g. Petrobras), na esteira de um correlato mundial fundado dois anos antes, o  
World Business Council for Sustainable Development (WBCSD)6. Cabe destacar que o WBCSD é en-  
tendido por parte da literatura sociológica especializada em associações empresariais como uma  
classe transnacional dedicada à governança global (e.g., Carroll; Sapinski, 2010; Kaplan, 2024).  
Originalmente, o movimento inicial do WBCSD – ou classe transnacional – não tinha a letra “W”  
(i.e., significando “world”) e se chamava Business Council for Sustainable Development, tendo  
6
O WBCSD está presente em 36 países com cerca de 60 conselhos nacionais e regionais, abrangendo 22 setores industriais  
e mais de 200 conglomerados empresariais em todos os continentes.  
6
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
sido fundado em 1990. Era liderado por Stephan Schmidheiny, um empreendedor multimilioná-  
rio suíço e filantropo que, assim como o consultor John Elkington, exercia influência no espaço  
empresarial por meio do investimento em literatura gerencial, tendo publicado em 1992 o livro  
Changing Course – A Global Business Perspective on Development and the Environment. Esta obra  
traz algumas das crenças fundamentais produzidas pelos pioneiros do ideário da “sustentabilida-  
de” – protagonismo empresarial na pauta socioambiental, crescimento sustentável e cooperações  
multissetoriais – estão bem retratadas neste referido livro de Schmidheiny (1992).  
Na virada do milênio, o arranjo institucional brasileiro da “sustentabilidade empresarial” havia  
se beneficiado diretamente dos debates internacionais fomentados pelo WBCSD, organizado pe-  
las fundações do CEBDS (1997), Instituto Ethos (1998), Rede Brasileira do Pacto Global (2000),  
Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (2003) e do Índice de Sus-  
tentabilidade Empresarial da BM&FBovespa (2005). Essas entidades estabeleciam os alicerces  
institucionais em domínios estratégicos: na articulação de lideranças empresariais, com o CEBDS,  
o Ethos e a Rede Brasileira do Pacto Global; na educação de futuros gestores para a “sustentabi-  
lidade, com o GVces; na financeirização da “sustentabilidade, com o ISE (Barreiros, 2019; Botta,  
2013; Sartore, 2012). Esta estrutura principal ainda viria a ser complementada pelos movimentos  
nacionais de “profissionais da sustentabilidade” que surgem em 2011: 1) a Associação Brasileira  
dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (ABRAPS); 2) a Plataforma de Liderança Sus-  
tentável (PLS) (Barreiros, 2021).  
Atribui-se aqui um lugar de destaque ao CEBDS neste arranjo institucional por ter participado de-  
cisivamente das primeiras recepções em nosso país da ideia de “sustentabilidade”: “foi a primei-  
ra organização a trabalhar em torno do triple bottom line7, instigando lideranças empresariais a  
pensar em uma abordagem unificada dos temas sociais, econômicos e ambientais” (CEBDS, 2016,  
p. 10). O conselho ganhou força sobretudo a partir do Pacto Global da ONU (lançado em 2000) e,  
desde o seu início, esteve alinhado aos princípios propostos por esta soft law8 supranacional. É  
importante explicar que a emergência do Pacto Global da ONU operou uma inversão hierárquica  
no campo do poder: ao atribuir às corporações a condição de protagonistas da “sustentabilidade,  
relegou os Estados nacionais a uma função meramente subsidiária na implementação do “desen-  
volvimento sustentável” (Barreiros, 2019 e 2021). Essa configuração institucionalizou a crença de  
que a eficácia regulatória, no rumo da “sustentabilidade, reside na convergência entre o aparato  
burocrático da ONU e o pragmatismo das multinacionais, em detrimento, ao menos parcialmente,  
da soberania estatal, configuração que alavancou a construção de “mercados do desenvolvimento  
sustentável” (Dezalay, 2007).  
Acompanhando o desenvolvimento do WBCSD em escala mundial, o CEBDS também revela uma  
história de ganho de representatividade e poder simbólico. Se, em sua fundação, havia 27 empre-  
sas signatárias do primeiro relatório (núcleo pioneiro formado por empresas mais engajadas em  
setores industriais), este número saltou ao fim de 2025 para 126 grandes grupos empresariais  
(CEBDS, 2026). Assim, tornou-se mais diverso em termos de segmentos de atuação, representan-  
do atualmente cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e mais de um milhão  
7
A ideia de Triple bottom line foi proposta originalmente pelo consultor britânico John Elkington no início dos anos 1990 e  
se baseia nos pilares sociais (people), ambientais (planet) e econômicos (profit). Para um aprofundamento sobre esta teoria  
gerencial, ver Elkington (2013).  
O Pacto Global pode ser entendido como soft law, no sentido de Dezalay e Garth (2001). Afinal, ele não investe na coerção  
8
dos agentes empresariais. Em vez disso, cria as possibilidades estratégicas para gerar conformidade para além das puni-  
ções legais.  
7
Bruno Costa Barreiros  
de empregos diretos9. Esta alavancagem no número de associadas representa, para além de uma  
concentração muito mais significativa de capital econômico no conselho, um ganho em seu mon-  
tante de capital simbólico, ambos cruciais para as disputas travadas nos espaços estatais e supra-  
nacionais.  
É válido salientar que, em sua fase de consolidação inicial, o conselho foi capitaneado por Fernando  
Almeida, figura cuja trajetória personifica o período inicial de construção de consenso sobre a  
“agenda da sustentabilidade” em nosso país. Trata-se de um professor da Universidade Federal  
do Rio de Janeiro (UFRJ), da Fundação Dom Cabral (FDC) e da Pontifícia Universidade Católica  
do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com circulação internacional proeminente. É autor do livro “O bom  
negócio da sustentabilidade”, lançado em 2002, portanto, um enunciador legítimo e consagrado,  
alinhado ao WBCSD e apto a dar corpo à ascensão da emergente instituição da “sustentabilidade  
empresarial”.  
A sucessão de Almeida por Marina Grossi (a presidente desde 2010) reflete uma mutação rele-  
vante em termos de movimentos sociais empresariais. Esta mutação parte do esforço centrado  
no convencimento pedagógico (quase panfletário) da primeira fase para uma outra de diplomacia  
corporativa com forte presença em espaços estatais, tendo ainda a parceria com o WBCSD como  
central neste jogo de forças. As peculiaridades da circulação internacional de ideias e de agentes  
(Bourdieu, 2002) que caracteriza a ponte WBCSD (conselho internacional produtor e exportador  
de ideias e saberes) e o CEBDS (conselho nacional tradutor e importador em um país razoavel-  
mente periférico) foi um dos motes centrais das entrevistas realizadas. Segundo os informantes-  
-chave consultados, a relação CEBDS-WBCSD passou por transformações. A princípio, o CEBDS era  
um mero receptor ou tradutor para o Brasil dos ditames e ferramentas emergentes da “sustenta-  
bilidade empresarial” (e.g., o “Reporting Matters, idealizado pelo WBCSD, dedicado à promoção  
das “boas práticas” de comunicação empresarial sobre “sustentabilidade”). Atualmente, a relação  
é muito mais horizontal e com influências mútuas em processos decisórios e estratégias políticas.  
Segundo os entrevistados, CEBDS e WBCSD têm trabalhado juntos na construção de narrativas  
unificadas com o objetivo de ampliar campanhas de sustentabilidade globalmente.  
O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) partici-  
pa ativamente das COPs de Clima da ONU desde 1998, um ano após sua fundação, com a  
promoção de eventos e articulações globais para dar destaque à voz e às ações das em-  
presas brasileiras. Ano após ano, o setor empresarial tem se tornado cada vez mais ativo  
e influente nas COPs - um exemplo recente foi durante a COP 26, em Glasgow, Escócia, em  
2021, quando o CEBDS lançou o Posicionamento Empresários pelo Clima, assinado por  
quase 120 CEOs e mais 14 associações, que contribuiu para o aumento da ambição da meta  
de neutralidade climática do país, que foi antecipada de 2060 para 2050. (GUIA CEBDS na  
COP28, CEBDS, 2023)  
Os informantes-chave destacam que a presidenta do CEBDS ganhou, recentemente, um cargo de  
conselheira no WBCSD, além da institucionalização da parceria entre as duas entidades para a  
COP30 de 2025 em Belém, capital do estado do Pará (o CEBDS criou uma diretoria de articulação  
com o seu homólogo internacional especialmente para este evento), a qual conferiu maior centra-  
lidade à pauta política brasileira no jogo de forças internacional da “sustentabilidade. A recente  
9
Esta medida é constantemente atualizada pela própria entidade em seu website institucional. A título de exemplo, vide  
8
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
aproximação entre as entidades também pode ser explicada via capital cosmopolita10 de suas lide-  
ranças: mais especificamente, pelas relações mais próximas e informais entre Peter Bakker, presi-  
dente atual do WBCSD, e Marina Grossi, presidenta do CEBDS, conforme informações de dois en-  
trevistados, em um trânsito internacional dos dois líderes que implica tanto as vindas frequentes  
do primeiro ao Brasil como as idas da segunda a reuniões internacionais promovidas pelo WBCSD.  
A COP30 de 2025 em Belém foi percebida por ambas as entidades, como explica uma das infor-  
mantes-chave, como uma “super janela de oportunidade, uma situação de enunciação propícia para  
“falar o que a gente vem falando há anos e ninguém ouve. Na percepção dos entrevistados, é muito  
importante, em suas práticas de negociação com o WBCSD, colocar em primeiro plano os desafios  
da realidade brasileira, inclusive para os tomadores de decisão estrangeiros. Por exemplo, enquanto  
a União Europeia tem se voltado para a elaboração de legislações voltadas à pauta de direitos hu-  
manos de um modo mais generalista, e os entrevistados apreciam este tipo de iniciativa, o desafio  
mais agudo e específico percebido no Brasil é o de que existe, por exemplo, um amplo contingente de  
povos tradicionais com os quais o CEBDS busca construir parcerias e engajamentos. Evidentemente,  
o interesse não é o mesmo daqueles que militam pelos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs).  
Explica-se, sobretudo, pela necessidade de garantir a licença social das operações empresariais de  
suas associadas ou na blindagem das mesmas contra os ataques de movimento socioambientais  
mais céticos da dita “boa vontade socioambiental” das empresas privadas.  
Além da forte ancoragem internacional deste coletivo empresarial e da dita diplomacia corpo-  
rativa com os mais diversos movimentos socioambientais, o impacto do CEBDS em torno do es-  
tabelecimento de novas regras e leis alinhadas ao “desenvolvimento sustentável” apenas pode-  
ria ser possível devido à circulação de top managers das empresas associadas entre os espaços  
econômico e político. “CEOs das maiores e mais destacadas empresas atuantes no Brasil, que se  
tornaram interlocutores diretos entre a comunidade empresarial e os integrantes do alto escalão  
dos governos nas três esferas.” (CEBDS, 2016, p. 10). Tal trabalho constante de fortalecimento a  
partir de suas bases aparece de forma clara tanto no caso do Conselho de Líderes (instância que  
congrega a alta cúpula das principais empresas associadas), criado em 2015, como no Movimento  
Empresarial pela Amazônia, de 2022:  
No que tange ao setor empresarial, o CEBDS segue levando tais metas para dentro das  
empresas, colaborando para que as corporações alinhem suas estratégias com propósitos  
sustentáveis. Assumimos uma posição de permanente diálogo entre os setores para a con-  
cretização dessas metas com a criação do Conselho de Líderes, em 2015, uma instância de  
trabalho que reúne altos executivos das empresas associadas ao CEBDS e observadores da  
sociedade civil, cuja missão é propor soluções e propiciar o desenvolvimento sustentável  
nos negócios (Agenda CEBDS 2018)  
O lançamento da Agenda CEBDS coroa também um ano de protagonismo do setor empresa-  
rial brasileiro. Em agosto, promovemos a imersão de oito CEOs pelo coração da Amazônia.  
Realizada dentro do Movimento Empresarial pela Amazônia, foi a maior reunião de líderes  
de grandes empresas para vivenciar a realidade da floresta. A experiência trará potentes ins-  
pirações rumo a uma nova forma de fazer negócios no bioma, alinhada a propostas que apre-  
sentamos nesta agenda - como a redução da desigualdade social, o combate ao desmatamen-  
to ilegal e a recuperação de áreas degradadas (Resumo de Atividades 2022 – CEBDS, 2022)  
10  
A noção de capital cosmopolita deriva de Dezalay e Madsen (2013), que o concebem como um tipo de capital compósito  
(erudito, profissional, cultural e relacional) derivado da circulação internacional de pessoas e ideias.  
9
Bruno Costa Barreiros  
A análise dos documentos e das entrevistas, em perspectiva diacrônica, revela que a participa-  
ção do CEBDS nos espaços estatais do Brasil tem se tornado cada vez mais proeminente desde o  
Acordo de Paris (em 2015), mas foi alavancada pela ascensão bolsonarista entre 2018 e 2022. Na  
visão de uma das informantes, a mais engajada provavelmente em matéria de atuação política, o  
CEBDS cresceu muito nos últimos anos11 justamente pelas suas tomadas de posição12 em contra-  
posição a diversas medidas do Governo Bolsonaro, especialmente as vinculadas às temáticas liga-  
das à preservação ambiental e ao desenvolvimento da Amazônia. Como ela afirma, “se posicionar  
quer dizer que você tem voz, angariando o reconhecimento necessário perante mídias, governos  
e sociedade em geral. Esta “voz, de uma entidade representativa como o CEBDS, um conselho  
empresarial, precisa respeitar as suas condições possíveis de enunciação (Bourdieu, 2008): ser  
eufemizada (i.e., “diplomática, nos termos nativos) o suficiente para agradar ao rol heterogêneo  
de empresas associadas ao mesmo tempo em que garante a clareza necessária da tomada de posi-  
ção para os investidos nas disputas simbólicas.  
O fortalecimento das práticas políticas, designadas internamente no CEBDS como advocacy, ocor-  
re neste contexto de estrutura de oportunidades políticas (Tilly e Tarrow, 2015) que representa  
a ascensão bolsonarista. A partir das entrevistas, ficou claro que a primeira grande ação de ad-  
vocacy, direcionada simultaneamente aos três poderes da República, ocorreu em 2020, à época  
dos efeitos (nefastos) em algumas cidades do país (sobretudo em São Paulo) das queimadas no  
Pantanal. Dentro do Conselho de Líderes do CEBDS houve, segundo um dos entrevistados, uma  
“grande preocupação de que seria necessário que o setor empresarial se posicionasse em relação  
a isso. Foi então que um documento assinado pelos CEOs, posicionando-se sobre diferentes temá-  
ticas relativas à pauta ambiental, foi lançado. Entre as reivindicações, havia: o combate inflexível  
ao desmatamento ilegal; sistemas de controle mais rígidos; investimentos em economia; soluções  
baseadas na natureza; investimento em pacotes relacionados à questão da pandemia de Covid-19.  
Outrossim, tal tomada de posição retratada por esta petição não deve ser entendida aqui como  
motivada por uma causa nobre e virtuosa. Trata-se, muito mais, de um mecanismo associado à  
gestão de risco reputacional das empresas associadas, “porque o teto de vidro é bem grande aqui,  
como explicou outro entrevistado.  
Aqui, tal como ocorre em muitos outros casos de pesquisas sociológicas sobre fenômenos econômi-  
cos e empresariais (e.g., Dezalay, 2007; Offerlé, 2017; Sartore, 2012; Seidl; Barreiros, 2024, Cantu,  
2024), o interesse está longe de ser desinteressado e se relaciona, basicamente, com a necessidade  
de evitar perdas e maximizar ganhos em termos de capital simbólico e, em seguida, de capital eco-  
nômico. De todo modo, foi a partir desta petição que foi fundado o Movimento Empresarial pela  
Amazônia, fundamental para entender todo o processo de produção da crença no protagonismo  
deste segmento das empresas no jogo de forças políticas que viria a caracterizar o espaço estatal  
brasileiro nos anos seguintes. Complementar ao manifesto peticional, 15 CEOs gravaram vídeos e  
destacaram o posicionamento das suas empresas quanto às pautas cobradas. Na avaliação de um  
11  
Entre 2020 e 2022, o CEBDS cresceu 63% em termos de contingente de empresas associadas: “subindo de 61 empresas, em  
2020, para a simbólica marca de 100 associadas.” Vide: https://cebds.org/release/cebds-cresce-63-em-2-anos-e-chega-a-  
As tomadas de posição política do CEBDS possuem uma característica predominantemente peticional (como será discutido  
12  
na seção a seguir), concentrando-se basicamente nos documentos publicados no site institucional. Como seria previsível,  
a heterogeneidade das propriedades sociais das empresas associadas (e.g., montantes globais de capitais, montante de  
capital econômico, capital tecnológico, segmentos de atuação, etc.) leva a petições marcadas pela eufemização. São raros os  
trechos das publicações levantadas nos quais são abordados os debates mais candentes relativos às maiores controvérsias  
políticas e econômicas. Apesar da raridade, estes momentos existem, mesmo nos documentos mais oficiais.  
10  
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
dos entrevistados, esse posicionamento “reverberou de forma muito positiva” dentro da própria  
estrutura das organizações associadas quanto ao cumprimento de regras e modos de comunica-  
ção corporativa (e.g., relatórios de sustentabilidade e o combate ao greenwashing).  
Durante toda a história do conselho, as práticas que compreendem o escopo da advocacy eram  
mais descentralizadas, de modo que cada Câmara Temática (segmentação interna do CEBDS por  
meio de temas de atuação) entendia a advocacy de uma maneira diferente. Apenas algumas pautas  
mais candentes “subiam para instâncias decisórias maiores porque se via que era uma bandeira  
geral do CEBDS, como explica uma das entrevistadas. Nos últimos anos, percebe-se um processo  
de objetivação interna da advocacy que aponta para uma área bem delimitada e autônoma da  
diplomacia corporativa, com equipe profissional especializada correspondente, segundo uma das  
entrevistadas, a “uma estrutura transversal, que olhe para todas as frentes de atuação. Na expli-  
cação dos entrevistados, quando se fala, por exemplo, de mudanças climáticas, de planos de ação  
para fomentar políticas direcionadas à justiça climática, é preciso falar de todos os temas de atua-  
ção da CEBDS de forma interconectada.  
Advocacy - A ação de indivíduos e empresas de forma isolada não é suficiente para transfor-  
marmos o modelo de negócios atual. Somente convergindo esforços dos diversos atores da  
sociedade, aliados ao desenvolvimento de políticas públicas favoráveis, conseguiremos re-  
alizar a transição para um mundo sustentável. A sustentabilidade é uma questão de Estado,  
independente de ideologia ou partido. O CEBDS, em nome do setor empresarial, atua desde  
1997 colaborando com a construção de políticas que colaborem com o desenvolvimento  
sustentável. Por meio de uma abordagem colaborativa, articulamos junto aos governos e à  
sociedade civil para promover mudanças sistêmicas visando o combate dos três desafios  
críticos que nos impactam atualmente – emergência climática, perda de biodiversidade e  
desigualdade social. A atuação em rede, através de diversas frentes de trabalho, é o único  
caminho viável para solucionarmos as principais crises socioambientais que nos atraves-  
sam. E o CEBDS se destaca como um dos principais representantes do setor empresarial  
nessa caminhada rumo ao desenvolvimento sustentável e, também, como um influente  
agente catalisador da criação de políticas favoráveis à causa socioambiental. (CEBDS, We-  
bsite institucional13, 2025.)  
Sobre as possibilidades práticas da advocacy, é válido salientar que as empresas associadas estão  
habituadas a certas rotinas e abertas a mudanças incrementais, como bem descrevem Fligstein  
(2003) e Dimaggio e Powell (1983) acerca da tendência predominante em empresas com  
ambientes relativamente estáveis, impossibilitando mudanças mais disruptivas. Desta forma, o  
CEBDS tem a pretensão de operar, portanto, como árbitro da “causa sustentável”, garantindo que  
a “sustentabilidade” seja disruptiva para gerar novos mercados (e.g., como o de créditos de car-  
bono), mas incremental o suficiente para não desestabilizar o poder das associadas em seus jogos  
econômicos mais convencionais.  
Repertório de ação coletiva e a centralidade das petições  
A análise das práticas políticas do conselho, muitas delas enquadradas no escopo da advocacy,  
nos permite afirmar que o CEBDS possui, historicamente, uma relação mais estreita com o poder  
executivo do que com o poder legislativo. A relação com o governo federal é entendida, segundo os  
13  
11  
Bruno Costa Barreiros  
entrevistados, como forma de “garantir compliance e desenvolvimento organizacional, a exemplo  
do caso recente (ilustrado abaixo) de reunião com o Ministro da Fazenda Fernando Haddad sobre  
financiamento climático. Para tanto, a equipe do CEBDS operacionaliza uma “análise de contexto”:  
levanta todo o tipo de informações, sobretudo em termos de políticas públicas existentes e de  
quem são os stakeholders (i.e., públicos interessados) relevantes.  
Trata-se ainda de reconhecer as áreas de expertise da instituição, o tipo ajustado de repertório14  
(Tilly e Tarrow, 2015). Por exemplo, o CEBDS nunca trabalhou com campanhas de comunicação  
para o público em geral (i.e., “campanhas de conscientização”), mas sobretudo com coalizões, com  
pactos empresariais. De forma mais evidente nos períodos dos governos liderados pelo Partido  
dos Trabalhadores (PT), há considerável participação do CEBDS em conferências públicas na con-  
dição de convidado especial, indicador do capital político adquirido pelo conselho por meio do  
estreitamento da articulação com o executivo (e.g., Conselhão do Governo Lula) e, em segundo  
plano, com o legislativo (e.g., da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da  
Câmara dos Deputados).  
Figura 1. Reunião entre o Conselho de Líderes e o Ministério da Fazenda sobre Financiamento Climático  
Fonte: Jornal O Globo, 27 mar. 2025.  
Legenda: Na foto à esquerda, Fernando Haddad escuta atentamente a fala de Marina Grossi (presidenta do CEBDS), numa pro-  
ximidade física que retrata bem o estado atual das articulações entre as instâncias; na foto da direita, um registro mais amplo  
da reunião com as lideranças empresariais e o Ministério da Fazenda.  
A afinidade eletiva com o governo atual (terceiro mandato do Presidente Lula) foi fortalecida após  
tomadas de posição críticas ao governo Bolsonaro (2019 a 2022). Antes dos ataques mais claros  
do governo Bolsonaro à pauta do empresariado pró-sustentabilidade, o CEBDS tinha, segundo um  
dos entrevistados, ações políticas dentro de “janelas de oportunidades. Desta forma, podemos  
entender que o bolsonarismo tem, para a configuração das estratégias políticas atuais do CEBDS,  
um caráter duplo: por um lado, representa uma desestabilização do campo político que induziu  
esta fatia do empresariado pró-sustentabilidade a se posicionar como agentes de contestação; por  
outro lado, a ascensão bolsonarista se revela justamente como uma estrutura de oportunidades  
políticas (Tilly e Tarrow, 2015), que leva a novas estratégias de construção de consenso e de atua-  
14  
Reforça-se aqui a noção de repertório, no sentido de Tilly e Tarrow (2015), é empregada no sentido de um conjunto limita-  
do de performances contenciosas que atores – inclusive as elites empresariais – mobilizam para apresentar reivindicações  
ao poder público.  
12  
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
ção política desta fatia do empresariado, alavancando-o, simbolicamente, a uma maior centralida-  
de nas guerras palacianas (Dezalay; Garth, 2001).  
Segundo uma das entrevistadas, o bolsonarismo transformou a atuação do CEBDS: “não se trata  
mais de esperar acontecer alguma coisa em alguma das temáticas de atuação para tomar uma posi-  
ção, é preciso empurrar a pauta de forma estruturada. Tal mudança se insere no escopo do processo  
de institucionalização da advocacy e da diplomacia corporativa dentro do CEBDS, o que, por sua vez,  
está associado a uma mudança no caráter geral do repertório de ação coletiva: de um repertório re-  
ativo — “esperar a janela de oportunidades” — para um repertório proativo — “empurrar a pauta.  
As táticas relativas ao “empurrar a pauta” identificadas nesta pesquisa são três, fundamentalmen-  
te: 1) as petições direcionadas tanto ao conjunto mais amplo do empresariado brasileiro como  
aos governantes, que comportam, muitas vezes, proposições de dispositivos e estruturas funda-  
mentais para mercados do “desenvolvimento sustentável” (e.g., Sistema Brasileiro de Comércio  
de Emissões – SBCE); 2) a construção de “convergências” – criação e coordenação de movimentos  
empresariais em prol de pautas específicas ligadas ao “desenvolvimento sustentável” (e.g., even-  
tos do Conselho de Líderes para público externo); 3) a circulação de porta-vozes entre os cam-  
pos da economia e da política, com participação em instâncias governamentais de decisão (e.g.,  
Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável, conhecido como “Conselhão” do  
governo Lula). Para fins de recorte analítico, neste artigo, a discussão se concentra na primeira e  
mais saliente destas táticas: a produção e divulgação de petições.  
A importância das petições fica evidente a partir do caso da Carta Aberta aos Presidenciáveis de  
2022, um dos fatos motivadores desta pesquisa. A seis meses das eleições presidenciais, o Brasil  
vivenciava uma das corridas eleitorais mais acirradas de sua história. Na escalada das tensões en-  
tre os apoiadores do governo da situação e os defensores da oposição, o CEBDS divulgava uma de  
suas petições mais contundentes: a “Carta aberta aos presidenciáveis.  
A carta endossava o clamor de grande parte dos segmentos mais progressistas da sociedade (em  
oposição aos segmentos mais liberais e conservadores) e exigia que a democracia fosse entendida  
como um “pilar inegociável, que deve ser preservado e defendido” (CEBDS, 2022, p.3). Este clamor  
ocorreu diante das constantes ameaças às instituições garantidoras da democracia brasileira (e.g.,  
Supremo Tribunal Federal).  
O CEBDS se posicionava, mais claramente, associando a bandeira principal do conselho empresa-  
rial, o “desenvolvimento sustentável, à defesa democrática: “não existe desenvolvimento susten-  
tável sem democracia” (idem, p. 3), colocando-se “à disposição dos candidatos para contribuir na  
construção de suas propostas” (idem, p. 6). A “Carta Aberta aos Presidenciáveis” de 2022 era for-  
malmente endereçada a todos os candidatos a presidente, mas havia em seu conteúdo uma toma-  
da de posição mais contundente em relação às negligências ou medidas do governo que buscava a  
sua reeleição15. Pode-se afirmar que o núcleo da insatisfação era composto pelo descumprimento  
das metas socioambientais internacionalmente estabelecidas (e.g., Acordo de Paris, Pacto Global)  
e pelos temores de boicote internacional dos produtos fabricados no Brasil16.  
15  
Para mais detalhes sobre as disputas políticas dentro do empresariado brasileiro que opunham apoiadores e críticos da  
extrema-direita, ver Cantu (2024).  
Um dos imbróglios que melhor retratam isso envolveu o financiamento do Fundo Amazônia e os temores explícitos do em-  
16  
presariado brasileiro mais aderente à causa do “desenvolvimento sustentável” de que seus produtos enfrentassem boicotes  
e outros entraves mercantis.  
13  
Bruno Costa Barreiros  
Nas petições do CEBDS, observa-se grande saliência de enunciados prescritivos ou normativos  
endereçados aos governantes brasileiros, sobretudo do Poder Executivo Federal, no sentido de  
legislações que permitam as possibilidades práticas das atividades deste estrato do empresariado  
brasileiro. Tais enunciados – autorizados pela legitimidade da força econômica e simbólica do  
conselho – podem ser compostos por uma formação de frases com verbos no modo imperativo  
explícito (e.g., “é preciso que...”; “o governo deve...”) ou eufemizados (e.g., “propomos que...; “re-  
comenda-se que...”). De todo modo, o interesse de enunciação (Bourdieu, 2008) é prescritivo e  
espera-se, da parte do poder público, certa obediência.  
Portanto, em linha com o que está no escopo do Comitê Técnico do Programa, propomos  
que o governo avance no estabelecimento de políticas públicas e arcabouço legal e regula-  
tório para incentivar o desenvolvimento tecnológico e utilização de combustíveis susten-  
táveis para os transportes rodoviário, marítimo e aéreo, assim como o desenvolvimento da  
captura e armazenamento de CO2 (Recomendações CEBDS para o Pacote Verde - CEBDS,  
2023, grifo nosso)  
Dessa forma, as entidades aqui representadas incentivam a manifestação de liderança do  
governo federal na tramitação, via projeto de lei, de propostas que vão ao encontro dos  
anseios ora expostos, para, junto ao Congresso Nacional, entregar ao país um importante  
instrumento para o desenvolvimento sustentável, de baixo carbono e inclusivo, até a COP28  
a ser realizada em Dubai, nos Emirados Árabes, em dezembro de 2023 (Posicionamento  
do setor empresarial brasileiro sobre a urgência de criação de um mercado regulado de  
carbono no Brasil – CEBDS, 2023, grifo nosso).  
No escopo destes enunciados mais prescritivos ou normativos, uma temática revelou-se mais saliente  
do que as demais: a campanha por um aparato jurídico-legal necessário ao estabelecimento do mer-  
cado brasileiro de créditos de carbono. Boa parte da tensão entre o conselho e o governo bolsonarista  
pode ser explicada pela falta de apoio à construção de um tal mercado, considerado central para a  
estratégia política no CEBDS, por se tratar da pauta que mais mobiliza o setor empresarial pró-susten-  
tabilidade nos últimos anos. A estratégia do CEBDS é rotineira e apreensível em diferentes documentos  
e reportagens: a prescrição de uma solução de melhor custo-benefício – que mobilize a racionalidade  
tanto governamental como empresarial – transmutando a pauta da preservação ambiental em uma  
pauta econômica, alinhada aos objetivos desta fatia pró-sustentabilidade do empresariado, além da  
reivindicação por um maior protagonismo neste domínio. Fundamentalmente, o CEBDS não está ape-  
nas pedindo uma lei, está desenhando o mercado em que o próprio conselho irá operar.  
Este documento traz novos elementos e perspectivas econômicas sobre os caminhos que  
o Brasil pode seguir no campo da bioeconomia, mercado de carbono, saneamento básico,  
transição energética, valoração da floresta amazônica, infraestrutura e incentivos que pos-  
sam colocar o Brasil, definitivamente, na rota da economia de baixo carbono com inclusão  
social. Esse trabalho é fruto da visão de futuro e do interesse no diálogo construtivo com o  
governo federal do Conselho de Líderes do CEBDS, formado por CEOs de grandes grupos,  
que já expôs alguns desses pontos em reuniões prévias com o ministro Fernando Haddad,  
em junho, com o vice-presidente Geraldo Alckmin, em maio, e com a Ministra Marina Silva,  
em fevereiro. Eu e nossos CEOs que fazemos parte do “Conselhão” do presidente Luiz Inácio  
Lula da Silva também utilizamos esse órgão para contribuir para o debate. Como instân-  
cia apartidária e representativa do setor empresarial brasileiro, o Conselho de Líderes do  
CEBDS vislumbra a combinação entre estratégias de negócios e um ambiente regulatório  
seguro para a realização de investimentos como o cenário ideal para que a agenda da tran-  
sição ecológica se concretize e posicione o Brasil como protagonista (Carta da Presidente  
– In: Recomendações CEBDS para o Pacote Verde - CEBDS, 2023)  
14  
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
Outrossim, a análise das entrevistas e das petições permitiu compreender que, para que o trabalho  
de advocacy transcorra, o CEBDS não precisa de petições assinadas por todas as suas associadas.  
As enunciações críticas não são necessariamente fundamentadas pelo consenso entre as empre-  
sas associadas, mas sim pelo que os informantes-chave designam como “construção de conver-  
gências. Algumas empresas associadas aderem às pautas contenciosas específicas e as assinam;  
outras que não aderem não assinam. Este é, sem dúvida, um dos elementos mais interessantes  
desta gestão de dissenso, que caracteriza o senso prático dos advocates profissionais, a fim de  
construir (ou fortificar) a crença na possibilidade de uma unidade da voz política do empresariado  
pró-sustentabilidade.  
Algumas petições contundentes, inclusive, são assinadas por 60, 70 ou 80 empresas (de um total de  
mais de 120), como no caso do “Posicionamento Empresários pelo Clima” de 2021, que alcança 105  
assinaturas. Por outro lado, existem petições que são assinadas por menos de 20 empresas, como no  
caso do “Movimento Empresarial pela Amazônia, igualmente lançada em 2021. Ainda, cabe desta-  
car que os textos das petições são sempre produzidos pela equipe de advocates do CEBDS, mas com  
a constante colaboração de top managers representantes das empresas associadas.  
Os informantes-chave justificam essa resignação com a falta de consenso pela crença na “diversi-  
dade dos segmentos de atuação das empresas associadas. De fato, um exame exploratório do rol  
de empresas associadas revela um cenário de grande heterogeneidade em termos de tomadas de  
posição diante de desafios socioambientais, variando conforme suas posições no espaço econô-  
mico e o volume do capital simbólico associado à “sustentabilidade empresarial. O trabalho da  
equipe de advocates está justamente em achar as “convergências possíveis, embora exista tam-  
bém falta de consenso dentro desta equipe profissional, uma vez que é composta por advocates  
com diferentes visões de mundo.  
Tais diferenças são explicáveis, ao menos parcialmente, pela diversidade de modalidades de traje-  
tórias profissionais, desde as mais ancoradas na academia (universidades, centros de pesquisa e  
de pós-graduação), passando por outras marcadas pelo terceiro setor (projetos socioambientais  
em organizações não governamentais e fundações) até aquelas definidas por trabalhos em espa-  
ços da política federal ou estadual (assessoria de deputados e senadores, lobbying, campanhas  
eleitorais).  
A questão da variação de modos de engajamento, estampada na flutuação do volume de assina-  
turas entre as empresas associadas, merece um aprofundamento aqui, uma vez que ela destaca o  
valor dos modos linguísticos para além dos enunciados propriamente ditos (Bourdieu, 2008). Se-  
gundo os advocates entrevistados, o modo como as assinaturas ocorrem (e são apresentadas) tem  
um impacto decisivo na petição e nas repercussões da estratégia política. Uma coisa é ter a assina-  
tura da empresa associada, estampando a sua logomarca; outra coisa é ter uma petição assinada  
pelos respectivos CEOs (i.e., Chief Executive Officers). Segundo os informantes-chave, é óbvio que  
o CEO representa uma empresa, mas, em um dado documento, ele está assinando como tomador  
de decisão dessa empresa e afirmando seu comprometimento com a pauta, o que é avaliado pelos  
advocates entrevistados como muito mais forte do que quando aparece apenas o nome de uma  
empresa associada.  
Quando a petição do Movimento Empresarial pela Amazônia foi lançada, por exemplo, com as  
assinaturas dos CEOs, a estratégia foi avaliada como fundamental diante de um momento político  
que demandava que pessoas físicas à frente de grandes empresas do país se posicionassem dian-  
te das tomadas de posição do governo Bolsonaro. No momento em que o porta-voz da empresa  
15  
Bruno Costa Barreiros  
associada ao conselho empresarial – o CEO – empresta a sua voz (por meio da sua assinatura) à  
entidade representativa, ele opera o que Bourdieu chamou de “magia performativa” (Bourdieu,  
2008, p. 82), capaz de transferir o capital simbólico do agente organizacional que ele representa  
(a empresa associada) para a instituição representativa (o CEBDS).  
Figura 2. Formas das Assinaturas nas petições “Posicionamento empresários pelo clima” de 2021 (à esquerda) e “Posiciona-  
mento do setor empresarial brasileiro sobre a urgência de criação de um mercado regulado de carbono no Brasil” de 2023 (à  
direita)  
Fonte: elaboração própria, com base nos documentos consultados.  
Como salienta Fligstein (2003), o sucesso das empresas na busca por mercados estáveis para suas  
operações é influenciado por fatores semelhantes aos dos movimentos sociais em geral: contin-  
gente de agentes engajados, recursos disponíveis, oportunidades políticas, negociações com agen-  
tes estatais e a habilidade na formação de coalizões. Contudo, a maneira de dar sentido ao consen-  
so – tanto dentro da equipe de profissionais quanto no rol das empresas associadas – converte-se  
em indicador importante de que as tomadas de posição do CEBDS não estão fundamentadas, no  
âmbito da legitimidade, nas formas mais usuais de construção de consenso encontradas em mo-  
vimentos sociais de modo geral (Tilly e Tarrow, 2015). Apresentam, sobretudo, as peculiaridades  
que caracterizam os movimentos empresariais e patronais (Offerlé, 2012; 2017).  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Neste artigo, foi analisada a atuação política do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvol-  
vimento Sustentável, que constitui um caso relevante de diplomacia corporativa em um Estado na-  
cional periférico, com forte influência das alianças e disputas que ocorrem em organizações supra-  
nacionais e internacionais. A legitimidade da atuação política do CEBDS é garantida por sua base  
composta por um amplo rol de grandes empresas associadas, mas sobretudo pelo capital cosmopo-  
lita da entidade, intimamente associada à trajetória de seu homólogo internacional, o WBCSD.  
Neste artigo, foram descortinadas algumas das principais táticas que definem um repertório de ação  
coletiva centrado nas petições do conselho, além das alianças com agentes do poder público, organi-  
zações supranacionais, movimentos socioambientais e terceiro setor. Estas são direcionadas à cons-  
16  
REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
trução do consenso, ainda que o processo envolva, de forma mais precisa, uma “construção de conver-  
gências” operacionalizada pelos advocates, os vigilantes dos “tetos de vidro” das empresas associadas.  
As práticas do CEBDS indicam transformações relevantes entre as fronteiras dos diferentes espa-  
ços ou campos sociais envolvidos: Estado, campo econômico, mercados do desenvolvimento sus-  
tentável, organizações supranacionais, governo federal e campo do poder. É importante salientar  
que o bolsonarismo representou uma ameaça importante para os interesses da fatia pró-susten-  
tabilidade do empresariado brasileiro, ao mesmo tempo que facilitou o ganho de poder simbólico  
deste estrato nas guerras palacianas de nosso país, fato que tem se intensificado nos anos atuais  
sob o governo do presidente Lula.  
Assim, o ponto de inflexão histórica das estratégias desse movimento social empresarial é constituí-  
do pelo bolsonarismo: o desmonte das políticas ambientais e o consequente isolamento diplomático  
do país operaram como uma severa ameaça ao poder simbólico das frações dominantes represen-  
tadas no conselho. Diante da abdicação do Executivo Federal de desempenhar o papel de garantidor  
do “desenvolvimento sustentável, o CEBDS transita de uma postura responsiva a um repertório de  
contenção ativa. É nesse vácuo que emergem as petições e os manifestos públicos mais agudos.  
Na atual correlação de forças, o CEBDS já não se posiciona na periferia da tomada de decisão re-  
gulatória, tampouco na trincheira do confronto defensivo. O jogo em curso é o da construção ativa  
dos contornos atuais do espaço estatal por meio de estruturas econômicas emergentes. Na pauta  
atual, estão as disputas simbólicas em torno dos principais “mercados do desenvolvimento sus-  
tentável, especialmente o de créditos de carbono, que se constitui como frente de análise futura e  
premente desta linha de pesquisa.  
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REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL  
Abstract  
Resumen  
Key-Words  
Palavras Clave  
Repertoire of collective action and  
symbolic disputes around sustainable  
development: an analysis of CEBDS  
Repertorio de acción colectiva y disputas  
simbólicas en torno al desarrollo  
sostenible: un análisis del CEBDS  
Abstract  
Resumen  
This paper presents the results of research on cor-  
porate social movements that advocate for “corpo-  
rate sustainability” in Brazil. Given the strengthe-  
ning circulation of corporate agents through the  
formal spaces of national public power, it investiga-  
tes the political strategies mobilized by the Brazi-  
lian Business Council for Sustainable Development  
(CEBDS) to consolidate “sustainable development”  
as a State policy. The research is anchored in an  
eminently qualitative strategy, employing docu-  
mentary analysis and semi-structured interviews.  
The main analytical categories derive from the  
political-cultural perspective of economic sociolo-  
gy, the political sociology of institutions, and the  
sociology of social movements. Beyond the gene-  
ral analysis of the strategy and the routine of the  
collective action repertoire for the consolidation  
of the “sustainability” agenda in Brazil, it was pos-  
sible to apprehend the circulation networks of its  
spokespersons among the spaces of corporations,  
public power, socio-environmental movements,  
and supranational organizations.  
El artículo presenta los resultados de una investiga-  
ción sobre los movimientos sociales empresariales  
militantes de la causa de la “sostenibilidad” en Bra-  
sil. Ante el escenario de fortalecimiento de la circu-  
lación de agentes empresariales por espacios for-  
males del poder público nacional, se investigan las  
estrategias políticas movilizadas por el CEBDS en  
la consolidación del “desarrollo sostenible” como  
política de Estado. La investigación se ancla en una  
estrategia eminentemente cualitativa, con análisis  
documental y entrevistas semiestructuradas. Las  
categorías analíticas principales derivan de la so-  
ciología económica de vertiente político-cultural,  
de la sociología política de las instituciones y de la  
sociología de los movimientos sociales. Además del  
análisis general respecto a la estrategia y la rutina  
del repertorio de acción colectiva para la consoli-  
dación de la agenda de “sostenibilidad” en Brasil,  
fue posible aprehender las redes de circulación de  
sus portavoces entre los espacios de las empresas,  
del poder público, de los movimientos socioam-  
bientales y de las organizaciones supranacionales.  
Palabras clave: sociología económica; sociología  
política; desarrollo sostenible; sostenibilidad em-  
presarial; CEBDS.  
Keywords: economic sociology; political sociolo-  
gy; sustainable development; corporate sustaina-  
bility; CEBDS.  
Histórico  
Recebido: Abril/26  
Primeiro Parecer: Maio/26  
Segundo Parecer: Abril/26  
Aceito: Junho/26  
Revisão Gramatical/Ortográfica e ABNT: Junho/26  
Revisado Autor: Junho/26  
Publicado: Agosto/26  
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo  
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)  
Contato: revistatomo@gmail.com  
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