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DOSSIÊ
ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES
INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO DA CRISE ECONÔMICA
DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
Sandro Ruduit Garcia*
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Robson Rocha de Souza Júnior**
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Rodrigo Foresta Wolenbüttel***
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Resumo
Empiricamente, escrutinaram-se as respostas de agentes institucionais às mudanças provocadas pela cri-
se econômica dos anos 2010 no sistema nacional de inovação brasileiro, valendo-se de informações em
bancos de dados e das próprias organizações para analisar o
desempenho das atividades e capacidades de
inovação do país e de
entrevistas semiestruturadas com líderes de dez relevantes organizações nacionais
(acadêmicas, governamentais, empresariais) para apreender as estratégias de inovação. Identiicaram-se
três
diferentes estratégias: adaptação do país às novas tecnologias estrangeiras para aproveitar vantagens
comparativas; controle da agenda de ciência e tecnologia para promover a justiça social diante das contra-
dições tecnológicas; ampliação de vínculos para gerar inovações no país, acentuando vocações produtivas.
Palavras-chaves
: estratégias de inovação de agentes institucionais; crise econômica; sistema nacional de
inovação; transições tecnológicas globais; Brasil.
*
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosoia e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia, Porto
Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: sandro.ruduit@ufrgs.br Orcid: http://orcid.org/0000-0002-7060-2678 CrediT:
Conceitualização, Metodologia, Investigação, Tratamento dos dados, Escrita do Rascunho Original, Escrita, Administração
do Projeto e Supervisão.
**
Universidade Federal de Lavras, Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas, Departamento de Administração Pública, Lavras,
Minas Gerais, Brasil.
E-mail
: robsonjunior@ula.br Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0416-0987 CrediT: Conceitualiza
-
ção, Metodologia, Investigação, Tratamento dos dados, Escrita, Revisão e Edição.
***
Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Geociências, Departamento de Política Cientíica e Tecnológica, Campinas,
São Paulo, Brasil. E-mail: rodrigoforesta@gmail.com Orcid: http://orcid.org/0000-0002-3417-563X CrediT: Conceituali
-
zação, Metodologia, Investigação, Tratamento dos dados, Escrita, Revisão e Edição.
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)
Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24846, 2026
DOI:10.21669/tomo.v45.24846
Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:
reconigurações dos mercados e disputas de poder
E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549
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Sandro Ruduit Garcia; Robson Rocha de Souza Júnior; Rodrigo Foresta Wolffenbüttel
INTRODUÇÃO
As estratégias de inovação consistem em formas de intervenção nos mercados, observando com-
plexos arranjos na coordenação entre agentes econômicos e não econômicos com vistas à circu-
lação de conhecimentos, à aprendizagem e ao acesso a outros recursos relevantes. A literatura
especializada está atenta a isso, uma vez que conjunturas de crise e processos de transição tec-
nológica não apenas criam enormes expectativas sobre inovações para mudanças econômicas e
sociais, mas também acentuam instabilidades e jogos relacionais entre os agentes diante da força
inercial das instituições (Amorós e López, 2011; Etzkowitz, 2012; Bonaccorsi, 2016; Fagerberg,
2016; Riain, 2016; Donatiello e Ramella, 2017; Silva, 2017; Windeler e Jungmann, 2023; Reale,
2024; Ebner, 2025).
Este artigo se detém às estratégias de agentes institucionais que são, nesta investigação, organiza-
ções de representação e suporte institucional ao processo de inovação, capazes de ação intencio-
nal para combinar recursos relevantes ao processo. A denominação “agente” visa a grifar a natu-
reza relexiva dessas organizações diante das trajetórias institucionais dos sistemas de inovação.
Em anos recentes, a digitalização e as novas fontes e usos de energia têm sido avançadas por ino-
vações radicais protagonizadas por certos países, enquanto outros tentam contribuir incremental-
mente ou adaptar-se por imitações com maior ou menor sucesso nessas transições, perfazendo um
quadro de experiências diversas entre impulsos, aproximações e distanciamentos das fronteiras
cientíicas e tecnológicas. Alguns sistemas de inovação conseguiram elevar investimentos e demar
-
car a nova revolução tecnológica, ao passo que outros contaram mais estritamente com recursos ins-
titucionais pré-existentes (Fagerberg, 2016; Riain, 2016; Arbix, 2017; Donatiello e Ramella, 2017).
Os diferentes caminhos nas transições expressam arranjos de interesses e relações entre os agen-
tes em cada sistema, em decorrência principalmente das respectivas trajetórias institucionais ca-
pazes de sustentar a persistência das políticas (Fagerberg, 2016; Riain, 2016). No entanto, tal
explicação é questionada por estudos com ênfase nos motivos dos agentes no realinhamento e
sustentação de coalizões face aos choques nos sistemas e suas trajetórias (Bonaccorsi, 2016; Win
-
deler e Jungmann, 2023). Outro aspecto ainda se refere às surpresas e seus paradoxos nas destrui
-
ções criativas (Silva, 2017; Gherardini e Ramella, 2023).
O Brasil foi apanhado pelas recentes transições tecnológicas numa conjuntura de crise e estag-
nação econômica. Isso se combinou com a reorientação em medidas de política econômica ao
controle iscal e consequente pressão para a “racionalização” dos dispêndios públicos. A discus
-
são sobre a situação brasileira recente tende a considerar o seu desempenho em inovação como
aquém do esperado, seja destacando a inconstância das políticas de inovação e, por conseguinte,
uma cultura empresarial avessa ao risco (Arbix, 2017), seja posicionando o resultado de novas
políticas nos limites de constrangimentos macroeconômicos e político-institucionais (Guimarães
e Barcelos, 2022).
A despeito disso, uma dinâmica emergente no país concerne às
startups
em certos segmentos de
mercado, sendo favorecidas, por exemplo, em novas demandas alimentares internacionais, caso
das foodtechs (Wilkinson, 2023), e em novos regulamentos para melhor uso de capital de risco e
de compras governamentais (Botelho e Almeida, 2024). Em qualquer caso, as circunstâncias de
crise criaram expectativas sobre a performance e o ajuste de incentivos e normas do sistema de
inovação, tanto para alcançar ganhos de produtividade quanto para desenvolver novos bens, ser-
viços e mercados, em busca de alternativas de futuro.
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ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
Este artigo propõe-se, centralmente, a analisar as estratégias de inovação de agentes institucio-
nais frente à crise e seus prolongamentos em termos de estagnação econômica no Brasil. Tais es
-
tratégias deinem-se, mais precisamente, por ideias e expectativas que orientam alianças e ações
intencionais para combinar recursos cognitivos, institucionais e econômicos em favor de inova-
ções. O enfoque recorre tanto às trajetórias dos sistemas e seus meios para a ação quanto às ideias
cognitivas e normativas que instruem percepções sobre interesses e seus repertórios para a ação.
O artigo estrutura-se em seis seções, incluindo esta introdução. A próxima seção refere-se ao dese-
nho e às técnicas de pesquisa. A terceira seção trata das formulações teóricas acionadas para ana-
lisar a inovação, com base nas contribuições da Sociologia Econômica. A quarta seção destina-se a
apresentar o contexto de crise e as respostas do sistema nacional de inovação em termos regulató-
rios. A seção seguinte analisa as respostas estratégicas dos diferentes agentes investigados e suas
relações com o sistema. Nas considerações inais, são discutidos os resultados da investigação.
METODOLOGIA
Este estudo é resultado de pesquisa inanciada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cien
-
tíico e Tecnológico (CNPq)
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e sustenta o argumento de que os agentes institucionais tendem a
acionar diferentes tipos de estratégias em resposta às contingências econômicas e políticas, como
na situação de crise em análise, estabelecendo-se um jogo de cooperação e conlito entre posições
institucionais para tentar conduzir o sistema de inovação.
Esse jogo estratégico tem propensão a resultados contraditórios, em que, por um lado, se acham
instabilidades nos incentivos e capacidades para a inovação e, por outro lado, os agentes se valem
de oportunidades para instituir novas regras. Essas estratégias decorrem não somente da tra-
jetória produtiva e regulatória do sistema, mas também das avaliações dos agentes sobre o que
consideram seus interesses no uso dos recursos relevantes. Isso ocorre porque as conjunturas de
retração econômica e de contingências políticas tendem a requerer imagens sobre inovação com
relexos nas alianças e ações dos agentes institucionais que se movem nas disponibilidades e res
-
trições dos sistemas de inovação e das condições político-econômicas.
O desenho de pesquisa acompanha, qualitativamente, o caso do sistema brasileiro de inovação,
situado num contexto de crise econômica e de transições tecnológicas internacionais. Em termos
operacionais, a pesquisa empírica desenvolveu-se pelo escrutínio das respostas de agentes insti-
tucionais (empresariais, acadêmicos, governamentais e sociais) às mudanças observadas no siste-
ma nacional de inovação no Brasil, nos anos 2010, considerando a inlexão econômica experimen
-
tada pelo país após 2014, que se prolonga ao inal da década e que se acentuou com a pandemia
de 2020. A investigação combinou dados secundários e de campo.
A opção pela investigação de aspectos do sistema nacional de inovação permite não apenas captar
jogos intersetoriais e entre esferas institucionais – concernentes a normas de incentivo e regula-
ção direcionadas para o conjunto da economia do país, como as estratégias nacionais de inovação,
os marcos legais e os planos de desenvolvimento e trabalho, entre outras – mas também se aproxi-
mar de literatura internacional especializada (Fagerberg, 2016; Riain, 2016; Donatiello e Ramella,
2017; Bonaccorsi, 2016; Silva, 2017; Windeler e Jungmann, 2023; Reale, 2024; Ebner, 2025) que
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Projeto de Pesquisa Agentes de Inovação e Crise Econômica no Brasil (Processo: 405377/2021-5).
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Sandro Ruduit Garcia; Robson Rocha de Souza Júnior; Rodrigo Foresta Wolffenbüttel
tem discutido questões sobre as complexas combinações entre trajetórias institucionais e ação
estratégica nos arranjos concretos dos sistemas nacionais de inovação. Isso escapa aos estudos
sobre sistemas setoriais e sistemas regionais e locais de inovação, tentando-se observar comple-
mentaridades nesses jogos e esferas que se podem reforçar ou bloquear reciprocamente.
Para apreender o desempenho das atividades e capacidades de inovação do país ao longo dos
anos 2010, foram colhidas informações em bancos de dados estatísticos em bases oiciais e das
organizações envolvidas no sistema de inovação, especialmente Pesquisa de Inovação Tecnológica
(PINTEC/IBGE), Relação Anual de Informações Sociais (RAIS-CAGED), Diretório dos Grupos de
Pesquisa do CNPq, relatórios do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MC
-
TIC), relatórios do Ministério da Economia (ME) e do Banco Central. Foi realizada análise estatís
-
tica descritiva das informações colhidas.
Para acompanhar mudanças nas normas de regulação e incentivo à inovação, foram obtidos docu
-
mentos legais, como o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Marco Legal das
Startups
,
o Programa Brasil Mais Produtivo, o Programa de Melhoria Contínua da Competitividade, a Lei
das Tecnologias de Informação e Comunicação e a Política Rota 2030 e as Estratégias Nacionais
de Ciência, Tecnologia e Inovação de 2011, 2016 e 2021. Foi realizada a análise de conteúdo do
material documental.
Para apreender as estratégias de inovação, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com lí
-
deres de uma amostra de tipo intencional de dez organizações com alcance nacional, tendo por cri-
térios a sua destacada atuação institucional em torno da inovação, e a variação entre esferas pro-
dutivas, acadêmicas e governamentais. O universo amostral envolveu a Financiadora de Estudos e
Projetos (FINEP), a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), a Associação
Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (ANPROTEC), a Sociedade para
a Promoção do Software Brasileiro (SOFTEX), a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confe
-
deração Nacional da Agricultura (CNA), a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a Associação
Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), a Sociedade Brasilei
-
ra para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
As entrevistas visaram a captar as ideias sobre os caminhos para a inovação, as interações com
outros agentes e as ações em favor da inovação de cada agente organizacional, sendo realizadas
no período entre março e agosto de 2024 (uma entrevista para cada organização da amostra). Os
entrevistados foram convidados a avaliar os caminhos, as interações e as ações de suas respectivas
organizações, considerando o período pós-crise de 2015 no país, ou seja, sem prejuízo à aprecia
-
ção dos diferentes sobressaltos econômicos, políticos e tecnológicos desse período, as entrevistas
buscaram captar as posições institucionais face ao conjunto das instabilidades. Os diálogos ocor-
reram por videoconferência, tendo sido gravados os áudios para posterior transcrição e categori-
zação; tiveram duração entre uma e duas horas, sendo conduzidos pelo coordenador do projeto,
acompanhado de mais um ou dois pesquisadores da equipe de investigadores. Foram empregados
procedimentos de análise textual de discurso dos depoimentos compilados no trabalho de campo.
CRISE E INOVAÇÃO: CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS
As crises econômicas expressam, sob certo aspecto, uma paralisia dos agentes pela ausência de
expectativas, despertando a atenção sociopolítica para a busca de alternativas tecno-econômicas
com vistas a restabelecer a coniança no futuro, diante da natureza dessas incertezas. Isso acaba
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ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
instando a articulação de ideias sobre inovação com novas expectativas na condução econômica
em face da retração de investimentos e atividades empresariais.
O registro da literatura aponta que o choque de uma crise econômica tende a “minar” os caminhos
da rentabilidade, levando a um terreno desconhecido em que parte dos decisores políticos e em-
presariais opta pelo apoio à renovação organizacional combinada com elevação de competências
tecnológicas na esfera produtiva (Amorós e López, 2011; Etzkowitz, 2012; Riain, 2016; Donatiello
e Ramella, 2017). Os efeitos de trajetória produtiva e institucional podem se combinar com estra-
tégias diversas dos agentes e com emergências nos sistemas de inovação, escapando às respostas
funcionais.
Sem entrar em detalhes, cumpre referir que uma inluente literatura tem se empenhado em expli
-
car, com diferentes ênfases, esses “momentos críticos” nas trajetórias institucionais, ora supondo
complementaridades institucionais ajustadas com efeitos recíprocos numa dinâmica histórica sis-
têmica (Crouch, 2010; Streeck, 2010), ora sugerindo atenção para a luta política sobre formas de
mercado em meio à resiliência institucional (Morgan, 2010; Thelen, 2010).
Pinch e Swedberg (2008) advertem que, além do enraizamento em relações sociais e do poder
contido em instituições, a análise sociológica deve considerar a materialidade das inovações tec-
nológicas, uma vez que estas requerem um funcionamento de recombinações de infraestruturas
e conhecimentos disponíveis, assim como consistem em utilidades de consumo com cálculos para
troca lucrativa, ambos os aspectos muitas vezes negligenciados na literatura
mainstream
. Fligs-
tein (2025) alerta, nesse sentido, sobre os limites das teorias dominantes para o entendimento das
crises e chances de transições no sistema capitalista atual, conclamando analistas para a formu-
lação de novas abordagens centradas nos mecanismos de inovação e suas mudanças econômicas
e políticas.
No esforço de avançar na captação dessas combinações entre trajetórias institucionais e estraté-
gias de inovação, muitas vezes contraditórias, pode-se tomar as ações tecno-econômicas em suas
complexas
relações
com
ações
socioculturais
e
com
ações
político-institucionais,
sustentando
abordagens capazes de integrar diferentes níveis e dimensões analíticas. Tal princípio teórico-me
-
todológico permite avançar no reconhecimento de uma variedade de agentes e de políticas que
incidem nos processos de inovação econômica e seus matizes (Swedberg, 2005; Ramella, 2019).
O estudo das chances, das temporalidades e das variedades da inovação, nas conjunturas de crise,
ganha precisão ao recorrer tanto às imposições e oportunidades inscritas nas transformações do
paradigma tecnológico internacional quanto às dimensões contextuais, relacionais e de agência
dos sistemas sociais de inovação.
As revoluções tecnológicas expressam transições entre paradigmas, interligando processos de ino-
vação que acionam conhecimentos e tecnologias disponíveis. Nas fases iniciais, estão as maiores
oportunidades aos países em
catching up
, em razão da maior disponibilidade dos conhecimentos
e da relativa abertura para diferentes trajetórias tecnológicas. Todavia, o aproveitamento disso
depende da interatividade e do aprendizado dos sistemas de inovação na indução de trajetórias
tecnológicas, além da percepção sobre a sustentação e sobre os relexos das revoluções (Dosi
et
al.
, 2005; Rovére, 2006; Freeman e Soete, 2009).
As inovações econômicas são novidades que satisfazem necessidades em torno de problemas de
consumidores, empresas, regiões e países, podendo consistir em produtos (bens e serviços), pro-
cessos produtivos (tecnológicos e organizacionais), marketing, modelos de negócios e institui-
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Sandro Ruduit Garcia; Robson Rocha de Souza Júnior; Rodrigo Foresta Wolffenbüttel
ções, além de criar mercados para o problema do crescimento econômico. O processo de inovação
– geração, difusão e uso – acaba, no mais das vezes, conjugando esses diferentes tipos e mesmo
graus de inovação (radical, incremental e imitação) (Ramella, 2019). Setores airmados tendem a
defender suas trajetórias produtivas, caso se percebam contestados pelas inovações e segmentos
emergentes (Rovére, 2006).
Os sistemas de inovação, por sua vez, consistem em arranjos tecno-produtivos e socioinstitucio-
nais cujo conjunto adquire propriedades emergentes, distintas dos seus constituintes, assumin-
do uma arquitetura variável que se adapta às mudanças da estrutura econômica. Um sistema de
inovação constitui-se, resumidamente, de componentes, que são as organizações (empresariais,
acadêmicas, governamentais, entre outras) e as instituições legais e sociais e das suas tramas de
relações entre atores da inovação. Esses constituintes desempenham funções de circulação de
conhecimentos e de aprendizado, além de atividades especíicas, produzindo uma infraestrutura
de recursos para o processo de inovação (Silva, 2017; Ramella, 2019).
A dimensão contextual remete aos recursos tangíveis e intangíveis relevantes para inovação que
se acham disponíveis nas infraestruturas cientíicas e tecnológicas, e nos setores e vocações pro
-
dutivas. A dimensão relacional refere-se aos aspectos socionormativos na governança entre os
agentes da inovação, como as normas formais, as convenções sociais e as redes de interações pes-
soais e organizacionais. A dimensão de agência diz respeito aos jogos estratégicos na defesa do
que se avalia como de interesse no processo de inovação.
Nesse sentido, as estratégias de inovação de agentes institucionais envolvem uma amarração de ideias
e expectativas em posições discursivas para a coordenação das relações e para a orientação de cursos
de ação, no contexto dos recursos distribuídos pelos quadros produtivos e institucionais dos sistemas.
A formulação de Swedberg (2005) pode ser útil ao chamar a atenção para a inluência de ideias
e expectativas nas organizações econômicas. A sugestão é que os cursos de ação nesses sistemas
se movem por combinações entre interesses materiais e ideais, desdobrando-se com o monitora-
mento de relações com demais agentes. Além das condições político-institucionais e sociocultu-
rais, as imagens futuras e as ideias exercem inluência nas organizações econômicas.
Para Schmidt (2008), em complemento, as ideias cognitivas e normativas têm relativa indepen
-
dência em relação aos interesses materiais, articulando-se em discursos contextuais. Estes rele
-
tem-se no que os agentes avaliam como seus interesses e nas suas percepções sobre os signiicados
das instituições sociais e legais. Tais ideias acabam contribuindo para a deinição dos problemas e
para as propostas de solução. As lógicas ideacionais contribuem para coalizões, consensos e con-
litos sobre as políticas e mudanças institucionais.
Bonaccorsi (2016) tem também uma contribuição para a análise dessas estratégias, ao sugerir
que os estudos sobre experiências e impasses da inovação em reações aos choques econômicos
podem ganhar em precisão com o aprofundamento de aspectos relativos às formas de construção
das aproximações entre atores dos sistemas de inovação, chamando a atenção para questões so-
bre a coordenação da ação entre grupos com distintos interesses e valores e seu peso nas políticas
públicas. O autor confere relevo às razões e aos motivos que orientam as ações nos sistemas de
inovação, visto que estes envolvem atores heterogêneos, requerendo estratégias de aproximação
e de formação de coalizões entre interesses diversos.
Windeler e Jungmann (2023) têm ainda destacado que as organizações econômicas se caracte
-
rizam por alta relexividade na coordenação entre suas ações e condições internas e externas,
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ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
usando conhecimentos e habilidades para a gestão de seus interesses e alianças, no âmbito dos
sistemas de inovação. Organizações diversas (empresariais, acadêmicas, governamentais, entre
outras) não apenas monitoram os atores do entorno, mas também regulam seus processos em
torno da imaginação de inovações, tentando agir em seu favor.
Portanto, essas são balizas para uma análise das estratégias de inovação de instituições relevantes
face ao que ocorre na conjuntura de crise e estagnação econômica do país, em meio às atuais tran-
sições tecnológicas internacionais.
CONTEXTO DE INSTABILIDADES
A trajetória do sistema brasileiro de inovação revela certa imaturidade se contrastada com países
de industrialização avançada, embora reúna organizações e instituições com reconhecida contri
-
buição para a inovação (Mazzucato e Penna, 2016; Schneider e Reynolds, 2020).
O sistema conta com alto peso relativo da grande empresa que atua especialmente na adaptação
de tecnologias estrangeiras, sendo a aquisição de máquinas e software a sua principal atividade
inovativa: 75% das empresas com atividades inovativas atribuem alta importância a essas aquisi
-
ções (Instituto Brasileiro de Geograia e Estatística, 2020). Isso contrasta não apenas com o relati
-
vamente baixo dispêndio empresarial em Pesquisa e Desenvolvimento – P&D (22% das empresas
com atividades inovativas), mas também com a baixa colaboração entre atores para inovação: 8%
das empresas com atividades inovativas atribuem alta importância à colaboração com fornecedo-
res e 3% delas atribuem alta importância à colaboração com universidades e centros de pesquisa
(Instituto Brasileiro de Geograia e Estatística, 2020).
O fenômeno da pequena empresa inovadora é ainda incipiente. Há um robusto sistema de pós
-
-graduação na formação de pesquisadores e de conhecimento cientíico (Brasil, 2023), com la
-
boratórios de pequeno porte e com baixa interação com o setor produtivo (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Cientíico e Tecnológico, 2023). As empresas têm alta dependência do governo
para investimentos, com escassa disponibilidade de inanciamento privado e com certa aversão
aos riscos da inovação (Instituto Brasileiro de Geograia e Estatística, 2020).
O acompanhamento da performance econômica brasileira ao longo da década de 2010 revela as
suas enormes diiculdades, notadamente a partir de 2015: queda nas taxas de crescimento do
Produto Interno Bruto (PIB), maior desocupação e retração na renda. A pauta de comércio exte
-
rior aponta as crescentes diiculdades dos setores industriais no país, ao mesmo tempo em que
se amplia a importância das
commodities
agrícolas e minerais nas suas trocas comerciais (Brasil,
2024b). Observa-se tendência de simpliicação da estrutura produtiva que se expressa nessa pau
-
ta de exportações e no ganho de importância relativa de indústrias e setores comerciais voltados
para o mercado interno (Brasil, 2024a; Brasil, 2024b).
A crise econômica desencadeada na metade da década dos anos 2010 tem diferentes impactos no
desempenho do sistema de inovação, destacando-se: a) queda nas taxas de inovação das empresas
(em 2011, 35,7% implementaram inovações de produto ou processo; em 2014, 36% implemen
-
taram; em 2017, 33,6%) e nos pedidos de patentes (28.099 pedidos, em 2010; 33.179, em 2014;
28.317, em 2019) (Brasil, 2021b); b) retração nas taxas de dispêndio em P&D (1,16 % do PIB em
2010; 1,37% no ano de 2015; 1,21% em 2019) cuja maior participação é do setor governamental
vis-à-vis ao setor empresarial (Brasil, 2021b); e c) formação de alguns clusters de
startups
ligadas
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aos ambientes de inovação e de uma nova geração de parques tecnológicos ligados às universi-
dades com projetos de implantação anteriores à crise (em 2010, 54 parques em operação e 309
empresas hospedadas; em 2014, 64 parques com 729 empresas; em 2019, 71 parques com 2.040
empresas) (Brasil, 2021b).
Os efeitos da crise no desempenho do sistema guardam relação tanto com as restrições macroe-
conômicas e com o quadro político e institucional quanto com demandas emergentes e oportuni-
dades para intervenção pelos agentes em regulamentos e procedimentos administrativos (Arbix,
2017; Guimarães e Barcelos, 2022; Wilkinson, 2023; Botelho e Almeida, 2024). Nesse sentido,
chamam a atenção diferentes aspectos de mudança na política de inovação no período, cabendo
sublinhar a fragilização da ação governamental em torno da coordenação entre os diversos atores
que integram um sistema de inovação, como se pode observar em particular nas estratégias nacio-
nais de ciência, tecnologia e inovação (de 2011, de 2016 e de 2021). Os instrumentos de planeja-
mento governamental passam a focalizar a redução de custos de produção e transação (trabalho,
energia, desburocratização), bem como a absorção da digitalização, abandonando os planos mais
abrangentes de formação de novas organizações e instituições no sistema (Brasil, 2012; Brasil,
2016; Brasil, 2021a).
As políticas governamentais de incentivo à inovação acham expressão em instrumentos instituí-
dos na segunda metade dos anos 2010, como o Programa Brasil Mais Produtivo e o Programa de
Melhoria Contínua da Competitividade, bem como em instrumentos de estímulo setorial, como a
nova Lei das TICs e o Programa Rota 2030. Chamam a atenção diferentes aspectos de mudança,
destacando-se a progressiva adoção de medidas orientadas para incidir mais estritamente sobre
os custos de produção, em especial nos instrumentos de política industrial que se articulam às
estratégias nacionais de inovação.
Na primeira metade da década de 2010, a política esteve orientada para a aproximação entre
componentes do sistema de inovação, mediante o inanciamento público de setores produtivos e
tipos de atividades de inovação, selecionados segundo suas potenciais contribuições ao desenvol-
vimento sustentável e social, ainda que os retornos empresariais estivessem abaixo do esperado.
Na segunda metade dos anos 2010, a política governamental passa a orientar-se para a desregu-
lamentação de atividades combinada com estagnação do investimento público em inovação, esco
-
lhendo temas de interesse conforme sua esperada contribuição para a competitividade econômica
e privilegiando suportes a segmentos empresariais escolhidos.
Em termos regulatórios, pode-se apontar duas importantes novidades na segunda metade da dé-
cada de 2010, no país: o chamado Marco Legal Nacional em Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei
Federal nº 13.243); e o Marco Legal das
Startups
e do Empreendedorismo Inovador (Lei Comple
-
mentar 182/2021 da Presidência da República). Esses marcos regulatórios expressam tendências
gestadas ainda na primeira metade da década de 2010, antes da delagração da crise, reletindo,
sob certo aspecto, discussões das estratégias nacionais de ciência, tecnologia e inovação de então.
Trata-se de quadros regulatórios que visam ao suporte para as interações, colaborações e trocas
entre atores relevantes do sistema de inovação, havendo ainda previsão de meios para certa cons-
trução de mercados para a pequena empresa inovadora, em especial no novo marco das
startups
(compras governamentais,
spin-off
empresarial, trocas entre pequena e grande empresa, investi-
mentos).
Portanto, em termos mais gerais, o sistema brasileiro de inovação responde à dura crise nos limi
-
tes de sua estrutura produtiva e de arquitetura institucional. Ou seja, setores econômicos tradicio-
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ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
nais absorvem as atenções governamentais sem corresponder, grosso modo, em termos de inova-
ção; ao mesmo tempo, ambientes de inovação empenham-se na entrega de uma nova geração de
startups e de pequenas empresas de base tecnológica, aproveitando oportunidades regulatórias e
recursos cognitivos e institucionais disponíveis. Adicionalmente, os agentes do sistema mostram
diiculdades em avançar aprendizado e circulação de conhecimento, cruciais para superar a sim
-
ples adaptação de tecnologias estrangeiras. Como sugerem especialistas (Gherardini e Ramella,
2023; Reale, 2024; Ebner, 2025), o contexto de instabilidades econômicas e políticas com o agravo
de emergências e demandas tecnológicas incita o posicionamento dos agentes no sentido de esta-
belecer os rumos do sistema de inovação.
ESTRATÉGIAS DOS AGENTES
A análise das entrevistas realizadas junto à amostra permite identiicar tipos de estratégias de
inovação dos agentes institucionais investigados em resposta à situação de crise econômica e seus
prolongamentos no país, em um contexto internacional de mudanças no paradigma tecno-eco-
nômico (Bonaccorsi, 2016; Windeler e Jungmann, 2023; Ebner, 2025). Trata-se de apreender as
articulações entre as ideias dos agentes sobre os caminhos da inovação e sua conexão com a per-
cepção sobre aliados e oponentes e com a orientação de seus cursos de ação no âmbito do sistema
de inovação (Swedberg, 2005; Schmidt, 2008).
Um tipo de estratégia volta-se para a absorção de novas tecnologias e a adaptação do país às revo-
luções digital e energética. Estes são os casos da CNI, CNA e CNC. O caminho para a inovação foca
no deslocamento de recursos inanceiros e organizacionais do sistema de inovação na direção da
resolução de problemas das empresas do país, em especial para a redução de custos de produção e
de transação em meio às transições digital e energética. Os aliados nessa ideia de inovação tendem
a ser identiicados entre “empresários modernos” e
startups
, setores da academia e instituições
de assistência técnica, e gestores públicos com atenção à eiciência dos seus serviços.
As oposições são identiicadas entre grande parte dos setores acadêmicos, empresas controlado
-
ras de tecnologias que impõem custos para sua absorção, e defensores da elevação de tributos e
dos retornos aos mercados inanceiros. As ações destacadas como relevantes referem-se à inci
-
dência no Congresso Nacional e nos Ministérios da Ciência e Tecnologia e da Indústria e Comércio,
em torno de beneícios iscais, redução de tributos e tarifas comerciais. Outras ações consideradas
relevantes são a identiicação de soluções por meio de
startups
para novos problemas tecnoló-
gicos suscitados pelas transições atuais, além da formação e treinamento de pessoal qualiicado.
Outro tipo de estratégia volta-se ao controle da inovação e de seus recursos e resultados para a
justiça social, como nos casos da ANDIFES, SBPC e CUT. O caminho para a inovação no país foca
na ampliação de recursos públicos para o inanciamento à pesquisa e à formação de pessoal com
atenção às diferentes desigualdades e problemas sociais, além da regulação das novas tecnologias.
Para tanto, os aliados em torno dessa ideia tendem a ser identiicados entre Ministérios (Educa
-
ção, Ciência e Tecnologia, Indústria e Comércio), parlamentares e partidos de esquerda política,
além dos pesquisadores e universidades federais. As oposições são identiicadas entre empresas
estrangeiras e “tradicionais”, setores da burocracia governamental (como tribunais de contas), e
elites políticas e empresariais ligadas ao “neoliberalismo”. Nesse sentido, as ações em destaque re-
ferem-se à atuação junto ao governo (ministérios e agências de fomento) e ao Congresso Nacional,
em especial, na busca de recursos inanceiros para a ciência e na regulamentação das tecnologias.
10
Sandro Ruduit Garcia; Robson Rocha de Souza Júnior; Rodrigo Foresta Wolffenbüttel
Há, ainda, um tipo de estratégia de inovação voltada à geração de inovação por meio do estabeleci
-
mento de relações entre os atores do sistema. Trata-se dos casos da FINEP, EMBRAPII, ANPROTEC
e SOFTEX. O caminho para avançar a inovação focaliza na ampliação das interações entre empre
-
sas e instituições cientíicas e tecnológicas (notadamente, universidades, laboratórios e institutos
de pesquisa) para a transferência de conhecimentos em torno de “vocações” do país e com atenção
às contrapartidas empresariais.
Os aliados são identiicados entre pequenas e médias empresas de base tecnológica, setores das
universidades, áreas do Governo e do Congresso. As oposições são identiicadas entre disputas nas
universidades, empresas multinacionais que não realizam pesquisa no país, e lideranças contrá-
rias ao inanciamento público para empresas e favoráveis à “pulverização” dos recursos de ciência
e tecnologia. Nesse sentido, as ações consideradas importantes dizem respeito à promoção de
parcerias e colaborações entre empresas – ICTs, de ambientes de inovação (como, parques e incu
-
badoras tecnológicas) e à formação em áreas de fronteira tecnológica.
Por um lado, os agentes acompanhados tendem a reconhecer as imposições da “digitalização” e da
“descarbonização” sobre a estrutura produtiva brasileira e, por conseguinte, sobre o sistema na-
cional de inovação, embora com articulações diferentes em suas estratégias. Na estratégia de ab-
sorção de tecnologias, considera-se superar a defasagem em tecnologias digitais, indicando para
tanto o apoio às
startups
, a regulamentação de plataformas digitais e de inteligência artiicial e a
qualiicação de mão de obra técnica para operar essas novas tecnologias. Há menção ao suporte
governamental para a promoção de fontes energéticas limpas e renováveis em lugar de combustí-
veis fósseis, descarbonizando a produção, especialmente a indústria.
Na estratégia de controle das inovações, considera-se a digitalização como pauta para a resolução
de problemas sociais, demandando a elevação de investimentos em Ciência, Tecnologia e Inova
-
ção (CT&I) para lidar com as novas tecnologias e a regulação dos seus riscos para o trabalho e
para a redistribuição de ganhos. Há também ênfase no aproveitamento da biodiversidade e na
regulação do impacto ambiental. Na estratégia de geração de inovações, considera-se “essencial”
a “transformação digital” para a elevação da complexidade da estrutura produtiva e sua melhor
inserção internacional, envolvendo uma rede de inovação nessas novas tecnologias para a resolu-
ção de problemas produtivos, ambientais e sociais. Há ênfase no uso mais eiciente dos recursos
energéticos e no emprego de energias limpas e renováveis, requerendo integração entre setores
produtivos e ICTs para transferir conhecimentos.
Por outro lado, é escassa a formulação entre os agentes sobre a condução de aspectos caros ao pro
-
cesso de inovação, notadamente educação e formação de pessoal. Essa lacuna revela-se contraditó-
ria com a demanda de novos peris proissionais e ocupacionais e com a reconiguração de habilida
-
des e capacidades dos trabalhadores face às transições digital e energética. As menções dos agentes
limitam-se a proposições sobre formação técnica ou a indicações genéricas em torno da importância
da educação e da qualiicação proissional, sem apontar como e qual educação se precisa e sem avo
-
car para si a responsabilidade de contribuir na relação da política educacional com a inovação.
Outras ausências e contradições nas estratégias dos agentes acompanhados neste estudo mere-
cem destaque. A estratégia de absorção de tecnologias deixa de integrar ideias sobre as suas con-
tribuições sociais. A estratégia de controle da inovação deixa de articular ideias sobre as fontes
de recursos públicos para a expansão do orçamento à pesquisa. A estratégia sobre geração de
inovações deixa de melhor articular ideias sobre interações com atores trabalhistas e ambientais.
11
ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
O Quadro 1 esquematiza os dados sobre as estratégias de inovação dos agentes institucionais da
amostra pesquisada.
Quadro 1
– Dimensões de Análise das Organizações Pesquisadas
Organização
Ideia
Relações
Ações
Estratégia de geração de inovações
FINEP
Agência pública para i
-
nanciamento de CT&I.
Ampliar
interações
en-
tre instituições de C&T e
setores produtivos.
Aliados:
Governos,
indústrias,
universidades.
Oponentes:
importadores
e
con-
trários ao apoio de empresas.
Projetos
com
interação
entre
ICTs e empresas. Financia ino
-
vação
entre
cientistas
e
nos
mercados.
EMBRAPII
Empresa
para
transfe-
rir tecnologia.
Transferir
tecnologias
de
universidades
para
empresas.
Aliados: Governo e SEBRAE.
Oponentes:
contrários
ao
inan
-
ciamento de empresas.
Otimização
de
infraestrutura
de pesquisa, bolsas, atração de
recursos para P&D.
ANPROTEC
Associação de ambien-
tes de inovação.
Promover
interações
em ambientes de inova-
ção.
Aliados: governo, Finep, CNI, Se
-
brae,
Embrapii.
Oponentes:
dis-
putas em universidades, multina-
cionais sem P&D no País.
Junto
aos
ministérios;
parce
-
rias
para
startups
e
impacto
socioambiental.
SOFTEX
Organização
Social
para ações do MCTI em
software.
Selecionar
vocações
do
país, com planejamento
e
promoção
da
educa-
ção.
Aliados:
Governos
e
agências,
empresas. Oponentes: certos con-
gressistas, dispersão de recursos.
Integração
de
ICTs,
startups,
empresas,
agências;
formação
em áreas de fronteira.
Estratégia de adaptação às novas tecnologias
CNI
Confederação de sindi
-
catos de empresas das
indústrias.
Implementar
política
industrial
ativa,
deslo-
cando
recursos
das
i
-
nanças
para
a
inovação
na indústria.
Aliados:
empresários
modernos,
ilhas
nas
universidades,
“melho-
res”
gestores
públicos.
Oponen
-
tes:
inanças,
empresas
tradicio
-
nais, setores acadêmicos.
Junto
ao
Congresso
e
ministé
-
rios
para
política
industrial;
comunicação
pública
sobre
a
indústria.
CNA
Confederação de sindi
-
catos
rurais
e
da
agri-
cultura.
Estimular
digitalização
e
biotecnologia
para
solucionar
problemas,
com menores custos.
Aliados: ICTs, assistência técnica,
startups.
Oponentes:
Empresas
controla-
doras
das
tecnologias,
e
custos
das tecnologias.
Identiicação de problemas tec
-
nológicos e proposição de solu-
ções por startups.
CNC
Confederação de sindi
-
catos de empresas de
comércio e serviços.
Alcançar
previsibilida-
de
legal
e
econômica,
e
conectar
empresas
e
startups.
Aliados:
Sistema
S
e
confedera-
ções
empresariais.
Oponentes:
defensores do gasto público e tri
-
butação.
Junto ao parlamento e governo.
Qualiicação de trabalhadores e
empresas para digitalização.
Estratégia de controle de inovações
ANDIFES
Associação
de
dirigen-
tes
de
universidades
federais.
Ampliar
recursos
para
pesquisa
e
educação
e
desburocratizar
as
in-
terações
entre
ICTs
e
o
setor produtivo.
Aliados: MEC, MCTI, MDIC, Finep,
setores de parlamentares.
Oponentes:
burocracias
e
atores
de controle.
Junto aos ministérios e ao Con
-
gresso; participação em conse-
lhos de educação e de C&T e di
-
álogo com setores produtivos.
SBPC
Associação
de
cientis-
tas.
Expandir
o
fomento
à
C&T, com áreas prioritá
-
rias e capilaridade terri-
torial.
Aliados: pesquisadores, governos
e suas agências. Oponentes: gran-
des empresas estrangeiras e “ne-
gacionistas”.
Busca de inanciamento à pes
-
quisa e à formação de pesqui-
sadores;
diagnósticos
sobre
formação de cientistas e distri-
buição da pesquisa.
CUT
Confederação de sindi
-
catos de trabalhadores.
Discutir
a
regulação
de
inovações,
com
qualii
-
cação,
redução
da
jor-
nada
e
ampliação
dos
direitos trabalhistas.
Aliados:
partidos
de
esquerda,
sindicatos
de
trabalhadores
e
setores sociais. Oponentes: elites
políticas e empresariais “neolibe-
rais atrasadas”.
Junto ao Governo e Congresso;
formação
de
dirigentes
sindi-
cais.
Fonte: Elaborado pelos autores em 2024.
12
Sandro Ruduit Garcia; Robson Rocha de Souza Júnior; Rodrigo Foresta Wolffenbüttel
Os diferentes agentes acompanhados mantêm relações de colaboração com agências governa-
mentais de apoio e inanciamento, além de interações com comissões e frentes parlamentares e
com diferentes ministérios, especialmente da Ciência, Tecnologia e Inovação, da Educação e da
Indústria e Comércio Exterior. No entanto, há escassa interação com associações cientíicas e aca
-
dêmicas e com movimentos trabalhistas, sociais e ambientais, mesmo que haja certa colaboração
com universidades e laboratórios especializados.
As organizações de apoio e inanciamento e representações acadêmicas apresentam certas intera
-
ções com associações cientíicas e acadêmicas, mas são bastante limitadas as menções sobre isso
entre representações empresariais, trabalhistas e de ambientes de inovação. As interações dos
agentes acompanhados por atores sociais praticamente não são mencionadas. Há, assim, diicul
-
dades de aproximação entre setores produtivos e acadêmicos, além de baixa integração de atores
trabalhistas e ambientais nas relações do sistema brasileiro de inovação.
Os diversos agentes exercem pressões sobre o Estado para o controle de recursos inanceiros e
orçamentários e para a regulamentação de tecnologias e atividades produtivas. As organizações
de representação empresarial têm, em sua estratégia de absorção de tecnologias, envolvimento
com programas especíicos de fomento à inovação para seus setores, contando geralmente com
incentivo e mesmo suporte inanceiro estatal.
Atuam na negociação de regulamentos sobre novas tecnologias de seus respectivos setores, orien-
tando-se mais para pressões por redução de gastos públicos e por racionalização tributária e da
gestão pública do que para políticas de inovação. Na estratégia de controle da inovação, as organi
-
zações de representação cientíica e trabalhista expressam demanda por recursos orçamentários
para CT&I, reivindicando obrigação governamental de prover o investimento nessa área e, com
isso, conduzir o desenvolvimento e o bem-estar no país.
Atuam permanentemente junto a ministérios e parlamentares, visando a incidir sobre o orçamen-
to de universidades públicas, sobre os recursos para educação e sobre a regulação e distribuição
de ganhos com CTI. Na estratégia de geração de inovação, o fomento ocorre, em geral, com suporte
de recursos públicos, havendo vivo envolvimento das organizações de apoio e inanciamento na
demanda ao Tesouro, assim como sua atuação em torno da formulação e ajuste de políticas de
inovação.
Há, pois, não apenas uma viva elaboração de estratégias com imagens sobre inovação, mas tam
-
bém uma negociação entre posicionamentos sobre a sua legitimidade face às instabilidades eco-
nômicas, políticas e tecnológicas (Bonaccorsi, 2016; Windeler e Jungmann, 2023). Os dados sobre
as distintas estratégias sugerem certa fragmentação das relações institucionais do sistema brasi-
leiro de inovação, no contexto de crise e estagnação econômica do país. Ademais, há ainda expres-
sões de alta dependência de inanciamento público, com pressões sobre o Estado para o controle
de recursos orçamentários, além de escassa formulação sobre a condução de aspectos caros ao
processo de inovação, como a educação e formação de pessoal.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A crise econômica e seus prolongamentos no país tem sido acompanhada de instabilidades nas
políticas e de ajustes regulatórios no sistema brasileiro de inovação, em um momento de mu-
danças no paradigma tecno-econômico internacional (Arbix, 2017; Guimarães e Barcelos, 2022;
13
ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
Wilkinson, 2023; Botelho e Almeida, 2024). Setores produtivos e tecnológicos convencionais ab
-
sorvem as atenções governamentais sem corresponderem em termos de inovação; ao mesmo tem-
po, agentes do sistema mostram diiculdades em estabelecer novas relações para aprendizado e
circulação de conhecimento, cruciais para reagir às circunstâncias econômicas e às mudanças de
paradigma. No entanto, há emergências no sistema de inovação, como a constituição de
startups
e de uma nova geração de parques e de empresas de base tecnológica, e a instituição de marcos
legais a favor das interações entre agentes de inovação.
Identiicam-se diferentes estratégias dos agentes institucionais para incidir no sistema de inova
-
ção, nessa conjuntura, reletindo um monitoramento recíproco para a coordenação de interesses
e de recursos disponíveis (Bonaccorsi, 2016; Windeler e Jungmann, 2023). Alguns agentes vol
-
tam-se para a adaptação do país às novas tecnologias estrangeiras por meio do que consideram
suas vantagens comparativas (como disponibilidade de recursos naturais, de energia e de mão de
obra), em defesa da redução de custos para a sobrevivência de setores econômicos maduros e suas
empresas líderes.
Outros agentes esforçam-se por controlar agendas de ciência e tecnologia e recursos públicos com
atenção às chamadas vantagens comparativas, advogando por justiça social diante das contradi-
ções das tecnologias; vocalizam a robusta pesquisa básica do país e trabalhadores formados em
tecnologias convencionais. Há os agentes que se orientam pela ampliação dos vínculos para a ge
-
ração de inovações no país com base na acentuação de suas vocações produtivas, sublinhando as
expertises disponíveis no país na fronteira do paradigma; dirigem-se aos segmentos desaiantes
no entorno das tecnologias emergentes.
Em qualquer caso, tais estratégias dos agentes investigados face à atual conjuntura de crise
tendem, comumente, a combinar ideias de digitalização e descarbonização do país, com o es-
tabelecimento de escassos elos socioambientais e acadêmicos, e com o exercício de pressões
sobre o governo para subsídios e mudanças de regulamentos das inovações. Convém mencio
-
nar que se trata de organizações complexas e, por isso, internamente diversas, em que ideias
alcançam hegemonia que não se confunde com homogeneidade de posicionamento interno
(Schmidt, 2008).
Há diferentes camadas analíticas nessa situação de incerteza que combina revoluções tecnológi
-
cas e crise econômica. Inovações radicais tendem a alterar a distribuição de poder e riqueza, re-
querendo imagens de futuro que mostrem sustentação do processo e disponibilidade de insumos.
Isso provoca temores nos agentes que se percebem contestados com as expectativas do processo
(Rovére, 2006; Reale, 2024; Ebner, 2025).
O aspecto principal a ser aqui salientado é o jogo de colaboração e conlito entre posições institu
-
cionais sobre inovação, constituindo as políticas de incentivo e as normas na sua regulamentação
diante da crise. As estratégias dos agentes envolvem tanto um cálculo sobre recursos e regras esta-
belecidos pela trajetória produtiva e institucional do sistema (Fagerberg, 2016; Riain, 2016; Silva,
2017) quanto ideias cognitivas e normativas que informam percepções sobre o que interessa aos
agentes diante de instabilidades nas condições econômicas, institucionais e tecnológicas (Schmi-
dt, 2008; Bonaccorsi, 2016; Gherardini e Ramella, 2023).
Mesmo que se trate de arenas decisórias assimétricas, o que se observa é, pois, inteiramente estra
-
nho às antigas concepções de que as políticas industriais e tecnológicas são função dos interesses
das classes capitalistas, em especial do poder unilateral de atores econômicos internacionais. Seg-
14
Sandro Ruduit Garcia; Robson Rocha de Souza Júnior; Rodrigo Foresta Wolffenbüttel
mentos empresariais, trabalhistas e acadêmicos, por exemplo, podem perceber inovações como
ameaças ou como interesses face às mudanças de trajetórias tecnológicas e à integração às cadeias
de valor. Parte das resistências à inovação pode ter relação com as imagens difundidas, levando
agentes a identiicar perturbações sem reconhecer ganhos.
Financiamento
O presente trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientíi
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co e Tecnológico (CNPq) – Brasil.
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Acesso em: 18 de outubro de 2024.
17
ESTRATÉGIAS DE INOVAÇÃO DE AGENTES INSTITUCIONAIS NO CONTEXTO
DA CRISE ECONÔMICA DE MEADOS DA DÉCADA DE 2010 NO BRASIL
Abstract
Key-Words
Innovation strategies of institutional
agents in the context of the mid-2010s
economic crisis in Brazil
Abstract
This
article
analyzes
the
innovation
strategies
of
institutional actors in response to Brazil’s economic
crisis within the context of shifts in the international
techno-economic
paradigm.
These
strategies
con
-
sist
of
ideas
and
expectations
that
guide
alliances
and intentional actions aimed at combining diverse
resources to foster innovation. We empirically exa
-
mined the responses of institutional actors to chan-
ges in Brazil’s national innovation system brought
about by the economic crisis of the 2010s. We used
information from databases and the organizations
themselves to analyze the performance of the cou
-
ntry’s innovation activities and capabilities. We also
conducted semi-structured interviews with leaders
from ten relevant national organizations (academic,
governmental, and business) to understand innova-
tion strategies. Three distinct strategies were identi
-
ied: adapting to new foreign technologies to levera
-
ge comparative advantages, controlling the science
and technology agenda to promote social justice in
the face of technological contradictions, and expan-
ding
linkages
to
generate
innovations
within
the
country by emphasizing productive strengths.
Keywords
:
innovation
strategies
of
institutional
agents;
economic
crisis;
national
innovation
sys
-
tem; global technological transitions; Brazil.
Resumen
Palavras Clave
Estrategias de innovación de los agentes
institucionales en el contexto de la crisis
económica de mediados de la década de
2010 en Brasil
Resumen
Este artículo analiza las estrategias de innovación de
los agentes institucionales ante la crisis económica en
Brasil en el contexto de la transformación del para-
digma tecnoeconómico internacional. Dichas estrate
-
gias son ideas y expectativas que orientan las alianzas
y acciones deliberadas para combinar diversos recur
-
sos en favor de la innovación. Desde un punto de vista
empírico, se han examinado las respuestas de dichos
agentes a los cambios provocados por la crisis eco-
nómica de la década de 2010 en el sistema nacional
de innovación brasileño. Para ello, se ha utilizado in
-
formación procedente de bases de datos y de las pro
-
pias organizaciones para analizar el rendimiento de
las actividades y capacidades de innovación del país,
así como entrevistas semiestructuradas con líderes
de
diez
organizaciones
nacionales
relevantes
(aca-
démicas,
gubernamentales
y
empresariales)
para
comprender dichas estrategias. Se identiicaron tres
estrategias diferentes: adaptación del país a las nue-
vas tecnologías extranjeras para aprovechar las ven-
tajas comparativas, control de la agenda de ciencia y
tecnología para promover la justicia social ante las
contradicciones tecnológicas y ampliación de víncu
-
los para generar innovaciones en el país, acentuando
las vocaciones productivas.
Palabras
clave
:
estrategias
de
innovación
de
los
agentes institucionales; crisis económica; sistema
nacional de innovación; transiciones tecnológicas
globales; Brasil.
Histórico
Recebido: Abril/26
Primeiro Parecer: Maio/26
Segundo Parecer: Maio/26
Aceito: Junho/26
Revisão Gramatical/Ortográica e ABNT: Junho/26
Revisado Autor: Julho/26
Publicado: Agosto/26
Equipe Editorial Revista TOMO envolvida no processo editorial deste artigo
Marina de Souza Sartore (Editora-chefe)
Contato: revistatomo@gmail.com