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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>(RE)ESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO:  </line>
    <line>as visualidades, o dissenso e a coautoria  </line>
    <line>urbana no Largo do Arouche </line>
    <line>Redson Pagnan* 1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>Este artigo analisa as visualidades urbanas como constante campo de disputa simbólica, política e espa- </line>
    <line>cial, as (e queer, crítica etnografia Parte-se noção  </line>
    <line>de urbana compreender cidade apenas produto projetos mas  </line>
    <line>como cotidiana por usos sociabilidades. partir referenciais teoria </line>
    <line>urbana, da antropologia urbana e de práticas arquitetônicas críticas, o trabalho investiga como regimes de  </line>
    <line>visibilidade regulam quem pode aparecer, circular e existir no espaço urbano. A análise empírica concentra- </line>
    <line>-se Largo Arouche, São evidenciando as queer um  </line>
    <line>gay-friendly por meio da repetição de usos, da formação de circuitos de sociabilidade e da inscrição de sinais  </line>
    <line>de no urbano, os spaces. pesquisa a como  </line>
    <line>pensamento, ação e escrita política do existir citadino.</line>
    <line>Palavras-chaves: espaço urbano; coautoria urbana; queer spaces; visualidades urbanas; Largo do Arouche. </line>
    <line>*  Universidade Mackenzie, de e São Brasil.  redson.pagnan@ </line>
    <line>gmail.com  Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1912-6661 </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24262, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24262   </line>
    <line>Dossiê: Visual </line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2</line>
    <line>Redson Pagnan</line>
    <line>INTRODUÇÃO</line>
    <line>Sabemos que as cidades não são apenas um suporte físico para a vida social; são um campo ativo</line>
    <line>de disputas simbólicas, políticas e sensíveis. Aquilo que pode ou não aparecer no espaço urbano</line>
    <line>(corpos, gestos, falas, afetos, vestimentas, práticas, etc.) é resultado de relações de poder histori-</line>
    <line>camente construídas que organizam o visível e, por consequência, produzem formas específicas</line>
    <line>de existência citadina. Neste artigo, o conceito de</line>
    <line>visualidades urbanas</line>
    <line>não se restringe apenas</line>
    <line>à dimensão imagética da cidade, mas refere-se aos modos pelos quais corpos, práticas, objetos, ar-</line>
    <line>quiteturas e formas de ocupação tornam-se visíveis, reconhecíveis e capazes de produzir sentidos</line>
    <line>no espaço urbano.</line>
    <line>Trata-se de compreender a visualidade como um fenômeno simultaneamente material, simbólico</line>
    <line>e político, constituído pelas relações entre espaço, experiência e representação. Nessa perspectiva,</line>
    <line>as visualidades urbanas constituem formas de leitura, produção e disputa da cidade, evidenciando</line>
    <line>como sujeitos e coletividades negociam sua presença, reconhecimento e formas de existência no</line>
    <line>espaço público (Souza, 2024; Pereira, 2023; Reginensi e Raposo, 2023).</line>
    <line>Assim, a visualidade emerge das próprias práticas sociais que produzem, organizam e significam o</line>
    <line>espaço urbano, tornando visíveis determinados modos de existir e invisibilizando outros. É nessa</line>
    <line>perspectiva que Henri Lefebvre (2006) compreende o espaço como uma produção social, simul-</line>
    <line>taneamente condição, meio e resultado das relações que nele se inscrevem. A cidade moderna,</line>
    <line>forjada a partir dos princípios funcionalistas, racionalizadores e normativos, consolidou uma es-</line>
    <line>pacialidade marcada pela onipresença masculina, na qual valores como produtividade, controle</line>
    <line>e eficiência foram materializados por meio da arquitetura e do urbanismo (Sennett, 1989; 1997;</line>
    <line>2016).</line>
    <line>Esses saberes espaciais operam como tecnologias de poder que naturalizam determinadas pre-</line>
    <line>senças e subjetividades, ao mesmo tempo em que marginalizam ou silenciam outras. Como obser-</line>
    <line>va Certeau (2014), a cidade concebida pelo planejamento produz uma representação totalizante,</line>
    <line>uma “cidade-panorama”, um simulacro teórico, que tende a ocultar a multiplicidade das práticas</line>
    <line>cotidianas. É justamente no confronto entre essa cidade concebida e a cidade praticada que emer-</line>
    <line>gem outras formas de visibilidade e de experiência urbana, produzidas pelos usos, deslocamentos</line>
    <line>e apropriações dos sujeitos no cotidiano.</line>
    <line>Santos (2006) contribui para essa leitura ao compreender o espaço como um sistema indissociá-</line>
    <line>vel de objetos e ações, no qual as práticas cotidianas revelam as desigualdades profundas na apro-</line>
    <line>priação da cidade. O espaço, longe de ser neutro, constitui-se em um campo de forças, atravessado</line>
    <line>por interesses, normas e hierarquias que organizam usos, sentidos e possibilidades de existência.</line>
    <line>Desse modo, o visível urbano não é dado, mas produzido por meio de disputas permanentes entre</line>
    <line>projetos hegemônicos e práticas vividas.</line>
    <line>É nesse contexto que corpos dissidentes, especialmente os corpos</line>
    <line>queer</line>
    <line>, tensionam o campo do</line>
    <line>visível ao ocupar, atravessar e ressignificar espaços que historicamente não lhes foram destinados.</line>
    <line>Ao se tornarem visíveis no espaço público, esses corpos produzem ruídos (Butler, 2003) nas visu-</line>
    <line>alidades normativas da cidade, instaurando conflitos que evidenciam o caráter político da vida ur-</line>
    <line>bana. Para Cortés (2010), a visibilidade dos corpos dissidentes não se restringe à representação,</line>
    <line>mas constitui um gesto de resistência frente aos regimes de normalização e controle, colocando</line>
    <line>em crise os limites do que pode ou não aparecer no espaço urbano.</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3</line>
    <line>(RE)ESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO</line>
    <line>Mais do que uma simples presença, essas práticas configuram estratégias espaciais que colocam</line>
    <line>em disputa os limites entre público e privado, norma e desvio, projeto e uso. A cidade, nesse sen-</line>
    <line>tido, revela-se como um território instável, produzido tanto por dispositivos institucionais quan-</line>
    <line>to pelas ações ordinárias dos sujeitos. Partindo dessa compreensão, este artigo propõe refletir</line>
    <line>sobre a cidade como campo de disputa visual, no qual a existência</line>
    <line>queer</line>
    <line>se constrói por meio de</line>
    <line>deslocamentos, performances e negociações (Preciado, 2014) constantes com a ordem urbana</line>
    <line>estabelecida.</line>
    <line>Ancorado em diálogos entre a teoria da arquitetura e do urbanismo, as teorias críticas da visuali-</line>
    <line>dade e as contribuições da antropologia urbana, o texto compreende o espaço urbano como uma</line>
    <line>construção relacional, sensível e processual. Nesse embate, emerge a noção de coautoria urbana</line>
    <line>(Pagnan, 2023), entendida como a capacidade de indivíduos e grupos participarem ativamente da</line>
    <line>produção de sentidos, usos e visualidades da cidade, escrevendo o urbano a partir de seus corpos,</line>
    <line>experiências e modos de existir. Ao tensionar a cidade masculina e suas visualidades hegemônicas,</line>
    <line>as práticas</line>
    <line>queer</line>
    <line>revelam que o urbano é sempre inacabado, instável e atravessado por conflitos.</line>
    <line>Pensar a visualidade como gesto, ação e experiência permite, portanto, compreender a cidade</line>
    <line>não apenas como cenário, mas como uma escrita coletiva, viva e permanentemente disputada,</line>
    <line>ampliando essa discussão na teoria da arquitetura e do urbanismo.</line>
    <line>AS COAUTORIAS DO URBANO: O DISSENSO, AS PRÁTICAS E O PENSAMENTO</line>
    <line>CRÍTICO DO ESPAÇO</line>
    <line>A noção de coautoria urbana não se restringe às práticas cotidianas dos sujeitos que habitam e</line>
    <line>tensionam o espaço da cidade, mas pode ser ampliada para incluir também determinadas práticas</line>
    <line>arquitetônicas e artísticas que, ao longo do século XX, atuaram criticamente contra os regimes</line>
    <line>normativos da produção espacial. Antes mesmo da consolidação do termo</line>
    <line>queer</line>
    <line>como categoria</line>
    <line>política e teórica (</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Butler, 2003), já se observavam modos de pensar e de intervir na cidade que</line>
    <line>operavam pela recusa da estabilidade, da função rígida e da neutralidade do espaço urbano (Pag-</line>
    <line>nan, 2023).</line>
    <line>Nesse sentido, a arquitetura pode ser compreendida não apenas como disciplina projetual, mas</line>
    <line>também como campo de produção simbólica e política, capaz de instaurar dissensos no modo</line>
    <line>como a cidade se apresenta, se organiza e se torna visível. Como aponta Lefebvre (2006), o espaço</line>
    <line>não é um dado natural, mas um produto social, constantemente refeito por práticas, representa-</line>
    <line>ções e experiências. Assim, determinadas proposições arquitetônicas atuam como gestos críticos</line>
    <line>que expõem as tensões entre projeto e uso, ordem e improviso, norma e experiência vivida.</line>
    <line>Pensando assim, os trabalhos de Alison e Peter Smithson exemplificam essa inflexão crítica ao des-</line>
    <line>locarem o foco da arquitetura moderna do objeto isolado para as relações cotidianas, os fluxos e</line>
    <line>os modos de apropriação do espaço urbano. Ao questionarem o urbanismo funcionalista (Sennett,</line>
    <line>2016) e enfatizarem a vida ordinária (Certeau, 2014) como matéria do projeto, os Smithsons in-</line>
    <line>troduzem uma sensibilidade que rompe com a cidade entendida como forma acabada, aproximan-</line>
    <line>do-se da cidade como processo aberto, atravessado por conflitos, encontros e usos imprevistos</line>
    <line>(Pagnan, 2023). Essa postura já revela uma crítica à visualidade normativa da cidade moderna, ao</line>
    <line>reconhecer o valor político e simbólico das práticas comuns e dos corpos em movimento.</line>
    <line>De maneira ainda mais radical, Gordon Matta-Clark tensiona os fundamentos da arquitetura ao in-</line>
    <line>tervir diretamente na materialidade do edifício, por meio de cortes, vazios e operações de subtra-</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4</line>
    <line>Redson Pagnan</line>
    <line>ção. Suas ações expõem a instabilidade da arquitetura enquanto objeto de controle e de proprie-</line>
    <line>dade, revelando o edifício como um corpo vulnerável, atravessado por forças sociais, econômicas e</line>
    <line>simbólicas. Ao transformar a ruína, o vazio e a impermanência em linguagem, Matta-Clark produz</line>
    <line>uma visualidade urbana dissidente, que desafia os regimes de visibilidade associados à ordem, à</line>
    <line>funcionalidade e à permanência do espaço construído (Pagnan, 2023).</line>
    <line>No campo das artes e da performance, as proposições de Vito Acconci ampliam ainda mais essa</line>
    <line>discussão ao colocar o corpo como um dispositivo central na produção do espaço. Suas ações</line>
    <line>exploram a vigilância, o desconforto, o desejo e a exposição, evidenciando como o espaço urbano</line>
    <line>é atravessado por relações de poder que regulamentam comportamentos, gestos e presenças. Ao</line>
    <line>fundir corpo e espaço em experiências limítrofes, Acconci antecipa debates fundamentais sobre</line>
    <line>visibilidade, controle e subjetividade, que mais tarde seriam centrais às teorias</line>
    <line>queer</line>
    <line>(Pagnan,</line>
    <line>2023).</line>
    <line>Essas práticas arquitetônicas e artísticas, embora não nomeadas como</line>
    <line>queer</line>
    <line>em seu contexto</line>
    <line>histórico, compartilham a mesma lógica de dissenso: operam contra a normalização do espaço,</line>
    <line>questionam a autoridade do projeto como forma de controle e abrem fissuras nas visualidades he-</line>
    <line>gemônicas da cidade. Elas revelam que a disputa pelo urbano não ocorre apenas no plano do uso</line>
    <line>cotidiano, mas também no plano do pensamento espacial, da experimentação formal e da crítica</line>
    <line>às convenções disciplinares.</line>
    <line>Articuladas às reflexões de Santos (2006), essas práticas evidenciam que o espaço urbano é um</line>
    <line>campo de forças, no qual diferentes agentes (arquitetos, artistas, instituições, coletivos, ações</line>
    <line>conscientes, dissidentes e ordinárias) participam da produção da cidade. A coautoria urbana, por-</line>
    <line>tanto, emerge como um processo relacional, no qual tanto as práticas corporais quanto as propo-</line>
    <line>sições críticas de arquitetura contribuem para desestabilizar os regimes de visibilidade e ampliar</line>
    <line>as possibilidades de existir na cidade.</line>
    <line>Compreender essas experiências como parte de uma genealogia crítica do urbano permite reco-</line>
    <line>nhecer que a cidade sempre foi atravessada por práticas não normativas, ainda que nem sempre</line>
    <line>nomeadas</line>
    <line>queer</line>
    <line>, mas sempre dissidentes, desviantes. Nesse sentido, a arquitetura, quando ope-</line>
    <line>rada como gesto crítico e não como mera reprodução da ordem, torna-se também uma forma de</line>
    <line>resistência, antecipando debates que hoje se articulam em torno das visualidades</line>
    <line>queer</line>
    <line>e das</line>
    <line>disputas contemporâneas pelo direito de aparecer, ocupar e existir no espaço urbano.</line>
    <line>METODOLOGIA</line>
    <line>A pesquisa</line>
    <line>1</line>
    <line>que fundamenta este artigo se constrói a partir de uma abordagem interpretativa do</line>
    <line>urbano, que entende a cidade como experiência vivida, sensível e relacional. Mais do que um ob-</line>
    <line>jeto a ser descrito, o espaço urbano é tomado como um campo de atravessamentos, onde corpos,</line>
    <line>visualidades e práticas cotidianas produzem sentidos, sociabilidades e conflitos. Nesse percurso,</line>
    <line>o método se organiza como um conjunto de caminhos possíveis que articulam observação atenta,</line>
    <line>circulação pelo território e leitura crítica do espaço, em diálogo com a etnografia urbana e com a</line>
    <line>teoria crítica do espaço.</line>
    <line>1</line>
    <line>Minha tese de doutorado em Arquitetura e Urbanismo (2019-2023), defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo</line>
    <line>(FAU) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) de São Paulo.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5</line>
    <line>(RE)ESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO</line>
    <line>Conforme propõe Magnani (2002; 2012), é no acompanhamento das práticas ordinárias, dos cir-</line>
    <line>cuitos, dos usos e das apropriações do espaço que se torna possível compreender a lógica social</line>
    <line>que estrutura a vida urbana para além de seus projetos formais. Essa perspectiva articula-se à lei-</line>
    <line>tura de Santos (2006), para quem o espaço resulta da indissociabilidade entre sistemas de objetos</line>
    <line>e de ações, o que exige uma análise que considere simultaneamente a forma, o uso e a experiência.</line>
    <line>Inspirada ainda pelas contribuições de Lefebvre (2006), a metodologia assume que o espaço é</line>
    <line>socialmente produzido e só pode ser apreendido a partir da relação entre práticas, representa-</line>
    <line>ções e vivências cotidianas. Nesse sentido, a pesquisa aproxima-se de uma etnografia do sensível,</line>
    <line>na qual caminhar, parar, observar, fotografar, permanecer e atravessar a cidade tornam-se gestos</line>
    <line>analíticos fundamentais. O deslocamento urbano é compreendido como prática de leitura e escrita</line>
    <line>do espaço, permitindo captar ritmos, usos desviantes, encontros e conflitos que escapam às nar-</line>
    <line>rativas normativas da cidade planejada. Ao reconhecer o pesquisador como corpo implicado no</line>
    <line>campo, posição também enfatizada por Magnani (2002; 2012) ao defender uma etnografia atenta</line>
    <line>às situações e aos contextos de interação, a análise assume-se como processo situado, relacional e</line>
    <line>atravessado por subjetividades, no qual observar o urbano é também participar de sua produção</line>
    <line>simbólica e visual.</line>
    <line>Dessa forma, a investigação empírica desenvolvida no âmbito da pesquisa de doutoramento</line>
    <line>(2019/2023) tem como principal recorte espacial o eixo urbano compreendido entre a Avenida</line>
    <line>Paulista e o Largo do Arouche, na cidade de São Paulo. O trabalho de campo foi conduzido por</line>
    <line>meio de observações sistemáticas realizadas em diferentes momentos ao longo desse período, ar-</line>
    <line>ticuladas a registros fotográficos, anotações descritivas e a um diário de campo. A pesquisa buscou</line>
    <line>acompanhar situações de circulação, permanência, sociabilidade e ocupação do espaço público</line>
    <line>por sujeitos LGBTQIAPN+</line>
    <line>2</line>
    <line>, compreendendo tais práticas como produtoras de sentidos urbanos e</line>
    <line>de visualidades específicas.</line>
    <line>Faz-se necessário destacar que a pesquisa foi realizada durante a pandemia de Covid-19, circuns-</line>
    <line>tância que impactou diretamente a dinâmica dos espaços públicos e as possibilidades de obser-</line>
    <line>vação contínua do cotidiano urbano. Diante desse contexto, sem abandonar a atenção às práticas</line>
    <line>ordinárias, a investigação ampliou seu foco para as formas coletivas de organização, cuidado e</line>
    <line>sociabilidade da população</line>
    <line>queer</line>
    <line>. Nesse contexto, passaram a compor o campo empírico as ações</line>
    <line>promovidas por instituições de acolhimento, os serviços de atendimento a essa população (espe-</line>
    <line>cialmente quem vivia em condição de extrema vulnerabilidade social), iniciativas de distribuição</line>
    <line>de alimentos, campanhas de vacinação</line>
    <line>3</line>
    <line>, eventos comunitários, além de espaços de encontro e</line>
    <line>convivência, como bares, casas noturnas (nos momentos de flexibilização de medidas de distan-</line>
    <line>ciamento/isolamento social) e manifestações públicas de maior escala, como a Parada do Orgulho</line>
    <line>LGBT+</line>
    <line>4</line>
    <line>.</line>
    <line>Portanto, a análise concentrou-se menos na identificação de indivíduos específicos e mais na ob-</line>
    <line>servação de situações urbanas recorrentes. Também foram considerados elementos como a for-</line>
    <line>mação de circuitos de sociabilidade, a ocupação reiterada de determinados espaços, as demonstra-</line>
    <line>ções públicas de afeto, as práticas de acolhimento e de cuidado coletivo, bem como as negociações</line>
    <line>2</line>
    <line>Sigla oficial utilizada pelo autor do texto.</line>
    <line>3</line>
    <line>A incorporação dessas situações permitiu compreender como, em um contexto de restrição da circulação cotidiana, formas</line>
    <line>coletivas de cuidado, acolhimento e sociabilidade também participavam da produção de territorialidades e visualidades</line>
    <line>queer</line>
    <line>na cidade.</line>
    <line>4</line>
    <line>Sigla oficial utilizada pela Organização da Parada.</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6</line>
    <line>Redson Pagnan</line>
    <line>cotidianas envolvendo visibilidade, reconhecimento e vigilância. Esses materiais foram posterior-</line>
    <line>mente interpretados à luz da teoria urbana, da antropologia urbana e das contribuições das teo-</line>
    <line>rias</line>
    <line>queer</line>
    <line>. Assim, buscou-se compreender como determinadas práticas produzem visualidades</line>
    <line>urbanas dissidentes que compõem a constituição de territórios de pertencimento na cidade.</line>
    <line>Partindo dessas reflexões, a análise empírica e interpretativa toma as práticas urbanas contem-</line>
    <line>porâneas de corpos</line>
    <line>queer</line>
    <line>como operadores críticos para compreender as disputas de visualidade</line>
    <line>no espaço urbano. Mais do que descrever situações específicas, a análise investiga como gestos,</line>
    <line>deslocamentos, ocupações e modos de aparecer produzem fissuras nas visualidades normativas</line>
    <line>da cidade, revelando o urbano como um território em permanente conflito. Nessa perspectiva, as</line>
    <line>intervenções de Matta-Clark constituem uma importante chave interpretativa para compreender</line>
    <line>essas dinâmicas. Ao realizar cortes em edifícios existentes, o artista não promovia apenas uma</line>
    <line>subtração material, mas evidenciava estruturas, hierarquias e lógicas espaciais anteriormente na-</line>
    <line>turalizadas pela arquitetura.</line>
    <line>De maneira semelhante, as práticas urbanas observadas no Largo do Arouche não apenas desa-</line>
    <line>fiam simbolicamente as normas sociais. Também tornam visíveis os regimes cotidianos que regu-</line>
    <line>lam a circulação, a permanência e a visibilidade dos corpos no espaço público. As fissuras produ-</line>
    <line>zidas por essas práticas revelam que a aparente neutralidade da cidade é resultado de processos</line>
    <line>históricos de normatização continuamente negociados, contestados e ressignificados. Ao articular</line>
    <line>pensamento arquitetônico crítico e a experiência urbana vivida, podemos compreender que a co-</line>
    <line>autoria urbana surge desse tensionamento, como um processo pelo qual as práticas cotidianas</line>
    <line>não apenas ocupam o espaço, mas também expõem, transformam e reescrevem as formas estabe-</line>
    <line>lecidas de produzir e imaginar a cidade.</line>
    <line>O QUEER EM SITU(AÇÃO): O LARGO DO AROUCHE E A PRODUÇÃO DE UMA</line>
    <line>VISUALIDADE URBANA DISSIDENTE</line>
    <line>A noção de “sinais de ocupação”, formulada por Smithson e Smithson (1967) a partir da obser-</line>
    <line>vação do cotidiano urbano, refere-se às marcas deixadas pelo uso e pela apropriação do espaço,</line>
    <line>revelando a distância entre o projeto concebido e a cidade experienciada. Para os arquitetos, es-</line>
    <line>ses sinais correspondem às marcas deixadas pelo uso cotidiano do espaço (gestos, permanências,</line>
    <line>ações, improvisos e apropriações), que também constituem a noção de “pedaço”, conceito de Mag-</line>
    <line>nani (2002; 2012) que designa um espaço intermediário entre o domínio estritamente privado (a</line>
    <line>casa) e o espaço público e impessoal da cidade. Mobilizando esses conceitos, a pesquisa os desloca</line>
    <line>para o campo das práticas dissidentes, e assim reconhece nos corpos</line>
    <line>queer</line>
    <line>sinais específicos de</line>
    <line>ocupação que inscrevem no espaço urbano outras formas de existir e de aparecer, circunscreven-</line>
    <line>do determinados</line>
    <line>pedaços</line>
    <line>.</line>
    <line>Partindo dessas estratégias cartográficas sobre os sinais de ocupação (cf. Smithson e Smithson, 1972),</line>
    <line>a montagem visual apresentada (figuras 1 e 2) evidencia como esses sinais não se manifestam de modo</line>
    <line>isolado, mas se constroem em escalas de aproximação: Casa, Rua, Bairro, Cidade e Relações</line>
    <line>5</line>
    <line>, que vão</line>
    <line>do íntimo ao coletivo. Assim, os sinais de ocupação deixam de ser apenas indícios de uso para se torna-</line>
    <line>5</line>
    <line>As escalas mobilizam diferentes conceitos. Casa: memória, identidade, pertencimento. Rua: circulação, encontro. Bairro:</line>
    <line>permanências, circuitos. Cidade: visibilidades públicas, política. Relações: dimensão transversal, que conecta todas as esca-</line>
    <line>las anteriores. Estas relações podem ser observadas mais detalhadamente na tese de doutorado indicada na pesquisa (vide</line>
    <line>Pagnan, 2023).</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7</line>
    <line>(RE)ESCREVENDO A CIDADE COM O CORPO</line>
    <line>rem operadores críticos na compreensão da coautoria urbana e das disputas de visualidade que estrutu-</line>
    <line>ram a experiência citadina, a partir de um pedaço da cidade.</line>
    <line>Figura 1: Cartografia sensível das visualidades e dos sinais de ocupação no Largo do Arouche (Escalas: Casa e Rua).</line>
    <line>Fonte: Elaborado pelo autor (2026).</line>
    <line>Além disso, as imagens não buscam registrar apenas encontros ou interações diretas, mas tam-</line>
    <line>bém formas de copresença (Butler, 2018), nas quais a coexistência dos corpos no espaço urbano</line>
    <line>constitui, por si mesma, uma prática política de aparecimento e de reivindicação do direito de</line>
    <line>existir publicamente. Dessa forma, a organização das imagens inspira-se na leitura dos sinais em</line>
    <line>um pedaço específico da cidade de São Paulo, referência geográfica reconhecida pela comunidade</line>
    <line>queer</line>
    <line>. Assim, ao invés de representar o Largo do Arouche como uma unidade territorial homogê-</line>
    <line>nea, a cartografia reúne fragmentos visuais que evidenciam presenças, permanências, circuitos,</line>
    <line>usos cotidianos e formas de reconhecimento construídas pelos e para os sujeitos. Mais do que</line>
    <line>registrar um lugar, procura revelar como determinadas visualidades emergem da repetição das</line>
    <line>práticas urbanas.</line>
    <line>Dessa forma, a análise empírica desenvolvida (no eixo que compreende os arredores da Avenida</line>
    <line>Paulista até o Arouche) toma o Largo do Arouche, em São Paulo, como um pedaço privilegiado</line>
    <line>para compreender como práticas corporais e usos cotidianos produzem deslocamentos nas vi-</line>
    <line>sualidades normativas da cidade. Historicamente marcado por fluxos diversos e por uma intensa</line>
    <line>circulação urbana, o Arouche não se configura originalmente como um espaço planejado para a</line>
    <line>sociabilidade LGBTQIAPN+, mas torna-se, ao longo do tempo, um território reconhecido como</line>
    <line>gay-friendly</line>
    <line>6</line>
    <line>a partir da repetição de práticas, presenças e modos de aparecer no espaço público.</line>
    <line>6</line>
    <line>Gay-friendly</line>
    <line>(ou LGBTQIA+-</line>
    <line>friendly</line>
    <line>) é um termo em inglês usado para designar lugares, políticas, pessoas ou instituições</line>
    <line>que são abertos, acolhedores e seguros para a comunidade LGBTQIA+.</line>
  </page>
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    <line>8</line>
    <line>Redson Pagnan</line>
    <line>A observação de cenas cotidianas (circulação em grupos e coletivos, circulação de casais homoa-</line>
    <line>fetivos, ações assistenciais, festas, manifestações etc.) constitui ações dissidentes em prol da co-</line>
    <line>munidade, além de algumas formas específicas de ocupar (figura 2) comércios, praças, calçadas</line>
    <line>e bares do entorno</line>
    <line>7</line>
    <line>, o que evidencia que a constituição desse lugar não se dá por meio de uma</line>
    <line>intervenção formal, mas por uma construção gradual e relacional.</line>
    <line>Figura 2: Cartografia sensível das visualidades e dos sinais de ocupação no Largo do Arouche (Escalas: Bairro e Relações).</line>
    <line>Fonte: Elaborado pelo autor (2026).</line>
    <line>Conforme propõe Magnani (2002; 2012), é a partir da recorrência das práticas e da consolidação</line>
    <line>de circuitos urbanos que determinados espaços passam a adquirir sentidos compartilhados (daí a</line>
    <line>noção das relações como uma escala conectiva). No caso do Arouche, a repetição dessas presenças</line>
    <line>produz um campo de reconhecimento mútuo, no qual a visibilidade deixa de ser excepcional e</line>
    <line>passa a ser negociada como parte do cotidiano.</line>
    <line>Essa dinâmica revela que o espaço urbano não antecede a prática, mas é continuamente produzi-</line>
    <line>do por ela (Pagnan, 2023). A partir de Lefebvre (2006), pode-se compreender o Largo do Arouche</line>
    <line>como um espaço vivido, em tensão permanente com o espaço concebido. Embora inserido em uma</line>
    <line>malha urbana marcada por normas de circulação, vigilância e controle, o lugar é ressignificado por</line>
    <line>usos que escapam às expectativas do planejamento. A presença reiterada de corpos</line>
    <line>queer</line>
    <line>expõe a</line>
    <line>fragilidade da suposta neutralidade do espaço público, tornando visíveis os códigos implícitos que</line>
    <line>regulam quem pode aparecer, permanecer e expressar afetos na cidade. Ao mesmo tempo, essa</line>
    <line>produção do lugar não ocorre sem conflito. A visibilidade conquistada é constantemente atraves-</line>
    <line>sada por olhares de vigilância, abordagens policiais, comentários hostis ou tentativas de normali-</line>
    <line>zar comportamentos.</line>
    <line>7</line>
    <line>Podem ser analisadas mais detalhadamente na tese de doutorado mencionada neste artigo (Pagnan, 2023).</line>
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