<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<document>
  <page number="1">
    <line>1</line>
    <line>DOSSIÊ</line>
    <line>O OUTRO, O URBANO E O IMAGÉTICO:</line>
    <line>notas sobre imagem e alteridade na prática compartilhada da</line>
    <line>fotografia de rua</line>
    <line>Julia Maria Paredes*1</line>
    <line>Luciana Ribeiro de Oliveira**2</line>
    <line>Resumo</line>
    <line>Este artigo propõe uma reflexão sobre a articulação entre etnografia, fotografia de rua e alteridade em con-</line>
    <line>textos urbanos. Partindo do campo das urbanidades, discute-se a cidade como espaço processual, conti-</line>
    <line>nuamente produzida pelas práticas cotidianas, deslocamentos e narrativas dos sujeitos que a habitam. Ao</line>
    <line>incorporar a fotografia de rua como sensibilidade etnográfica, a imagem não atua apenas como registro</line>
    <line>do urbano, mas também como linguagem narrativa de fabulação capaz de produzir sentidos e experiên-</line>
    <line>cias compartilhadas. A partir da noção de devir-imagético, analisa-se a fotografia como um processo aber-</line>
    <line>to, atravessado por imaginação, agência e contingência, no qual a alteridade se constrói na relação entre</line>
    <line>pesquisadora, interlocutores e cidade. Por fim, enfatizamos a fotografia compartilhada como deslocamento</line>
    <line>epistemológico que amplia as formas de representação do Outro e tensiona as hierarquias tradicionais, pro-</line>
    <line>pondo a imagem como espaço de coprodução narrativa e de experiência etnográfica.</line>
    <line>Palavras-chaves</line>
    <line>: etnografia urbana; fotografia de rua; alteridade; devir-imagético</line>
    <line>* Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Arte, Programa de Pós-Graduação em Antropolo-</line>
    <line>gia, Campus I, João Pessoa, Paraíba, Brasil. E-mail: jumaparedes12@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0009-0004-9733-</line>
    <line>9998 CrediT: Conceitualização, Metodologia e Escrita do Rascunho original.</line>
    <line>** Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Aplicadas e Educação, Departamento de Ciências Humanas. Campus</line>
    <line>IV, Rio Tinto, Paraíba, Brasil. E-mail: tialulucaribeiro@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0009-0003-0387-1186 CrediT:</line>
    <line>Conceitualização, Metodologia e Revisão do Texto Original</line>
    <line>Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24407, 2026</line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24407</line>
    <line>Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,</line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino</line>
    <line>E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2</line>
    <line>Julia Maria Paredes; Luciana Ribeiro de Oliveira</line>
    <line>INTRODUÇÃO</line>
    <line>A pesquisa de campo produz diferentes efeitos que, quando assimilados por meio de sensibilida-</line>
    <line>des etnográficas específicas, possibilitam a construção de representações narrativas acerca das</line>
    <line>composições e circunstâncias de um dado contexto. Essas representações, por sua vez, incidem</line>
    <line>numa criação necessariamente imaginativa da realidade etnográfica, o que acaba por inscrever a</line>
    <line>etnografia enquanto uma prática que pode ser composta por diferentes visualidades. Na etnogra-</line>
    <line>fia de rua, elaborada em contextos de pesquisas em cidades e espaços urbanos, a condição imagi-</line>
    <line>nativa é, por excelência, imagética, uma vez que a cidade é compreendida enquanto um campo de</line>
    <line>produção de sentidos e de narrativas que são em sua maioria construídas visualmente, contexto</line>
    <line>que possibilita pensar a criação de imagens e fotografias enquanto uma prática de representação</line>
    <line>e narração da urbe.</line>
    <line>A cidade tem ocupado um lugar central nas reflexões da antropologia contemporânea, se confi-</line>
    <line>gurando não apenas como um cenário onde a vida social se desenrola, mas como instância ativa</line>
    <line>na produção de experiências e formas de sociabilidade. Na antropologia brasileira, os estudos</line>
    <line>urbanos constituíram um campo fecundo de debates teóricos e metodológicos que problemati-</line>
    <line>zam as condições de produção do conhecimento etnográfico, seja pela pesquisa em contextos de</line>
    <line>proximidade, pela circulação e/ou pela multiplicidade de regimes de visibilidade. Este cenário que</line>
    <line>impulsiona as pesquisas em cidades a exigirem um contínuo exercício de revisão de suas catego-</line>
    <line>rias analíticas e, sobretudo, de seus modos de narrar o Outro.</line>
    <line>A complexidade da vida urbana impõe à etnografia um desafio específico: lidar com fenômenos que</line>
    <line>se constituem no fluxo, na mobilidade e na copresença de sujeitos que compartilham espaços, ritmos</line>
    <line>e contingências. Diferentemente de contextos etnográficos marcados pela distância espacial ou sim-</line>
    <line>bólica, a cidade se apresenta como um campo saturado por aparentes familiaridades, atravessada</line>
    <line>por disputas de sentido, múltiplas narrativas e experiências que se atualizam cotidianamente.</line>
    <line>Nesse cenário, a alteridade não se oferece como dado evidente, mas como construção relacional</line>
    <line>produzida entre a pesquisadora e os interlocutores, ambos implicados na mesma ambiência cita-</line>
    <line>dina. É nesse horizonte que a antropologia urbana tem se debruçado sobre o cotidiano citadino</line>
    <line>como um campo privilegiado de observação e análise. A urbe torna-se, então, um espaço produzi-</line>
    <line>do pelo cotidiano dos sujeitos que a percorrem, onde as narrativas urbanas emergem das experi-</line>
    <line>ências vividas e compartilhadas no dia a dia, configurando múltiplas versões da cidade.</line>
    <line>Uma vez que grande parte dessas experiências urbanas é mediada por visualidades e represen-</line>
    <line>tações construídas e elaboradas cotidianamente, essa operação assume caráter particularmente</line>
    <line>imagético, propício para a criação visual ou mesmo fotográfica. É a partir dessa constatação que</line>
    <line>este artigo se propõe a refletir sobre o lugar da imagem, e mais especificamente da fotografia de</line>
    <line>rua, na construção da etnografia urbana. O debate sobre imagem e antropologia certamente não</line>
    <line>é novo, mas adquire contornos específicos quando deslocado para o campo das urbanidades, que</line>
    <line>nos propulsiona a pensar a etnografia como um fazer situado, atravessado por escolhas narrati-</line>
    <line>vas, políticas e epistemológicas. Nesse contexto, em que as práticas imagéticas oferecem possibili-</line>
    <line>dades singulares de apreensão antropológica, as próprias condições de produção da alteridade no</line>
    <line>trabalho de campo se reconfiguram.</line>
    <line>A fotografia de rua, modalidade apresentada neste artigo como metodologia etnográfica inerente</line>
    <line>à pesquisa e ao estudo de contextos citadinos, fabrica visualidades que narram as inscrições do</line>
    <line>sujeito nos espaços urbanos. Assim, constitui uma forma de fabulação antropológica que insere</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3</line>
    <line>O OUTRO, O URBANO E O IMAGÉTICO</line>
    <line>um novo modo de escrever e compreender a cidade por meio de imagens das experiências nela</line>
    <line>vividas, ao mesmo tempo que tensiona as fronteiras da autoridade etnográfica e da narração e da</line>
    <line>contextualização do campo e dos dados sensíveis.</line>
    <line>Ao ser mobilizada como aparato de construção da representação de experiências urbanas que</line>
    <line>surgem da relação entre a antropóloga e seus interlocutores, a fotografia de rua sugere um pro-</line>
    <line>cesso de cocriação visual atravessado pelo compartilhamento de imagens. Este compartilhamento</line>
    <line>pode ocorrer desde o momento de sua criação e é marcado pela atualização das relações de alte-</line>
    <line>ridade e de negociações de sentido. Ao envolver os sujeitos da pesquisa na produção de imagens,</line>
    <line>reconhece-se sua agência narrativa e sua potência de autorrepresentação, deslocando as hierar-</line>
    <line>quias tradicionais da produção do conhecimento antropológico. Mais do que uma técnica parti-</line>
    <line>cipativa, a fotografia de rua e seu exercício compartilhado são entendidos neste estudo como um</line>
    <line>deslocamento epistemológico.</line>
    <line>Ao compartilhar a produção imagética, a etnografia passa a operar em um regime em que a ima-</line>
    <line>gem não pertence exclusivamente a quem fotografa nem a quem é fotografado, mas emerge da re-</line>
    <line>lação estabelecida entre ambos. Argumentamos, por fim, que a fotografia de rua, quando incorpo-</line>
    <line>rada à prática etnográfica em contextos urbanos, não apenas amplia as possibilidades narrativas</line>
    <line>da antropologia, mas também reconfigura seus modos de apreender e de representar o Outro. A</line>
    <line>cidade emerge, assim, como campo imagético num devir permanente, no qual sujeitos, imagens e</line>
    <line>experiências se constituem simultaneamente. Ao explorar essa articulação entre etnografia e rua,</line>
    <line>fotografia e alteridade, o texto propõe pensar a imagem como forma de conhecimento, a prática</line>
    <line>fotográfica como sensibilidade etnográfica e a alteridade como relação viva, construída no encon-</line>
    <line>tro e na partilha da experiência urbana.</line>
    <line>CIDADE EM FOCO, RUA EM PERSPECTIVA</line>
    <line>O campo das urbanidades revela um extenso repertório teórico e conceitual que preenche a an-</line>
    <line>tropologia brasileira de referências sobre os saberes e fazeres da pesquisa etnográfica em cidades.</line>
    <line>Desde a clássica inventividade de Velho (1978) no conjunto de reflexões que surgem da ação de</line>
    <line>“observar o familiar” ao pesquisar em contextos urbanos de aparente proximidade, até as aproxi-</line>
    <line>mações e distanciamentos elaborados por Magnani (2002) em sua proposição de olhar “de perto</line>
    <line>e de dentro” na confecção de etnografias citadinas, os percursos metodológicos das pesquisas em</line>
    <line>cidades têm se desenvolvido de modo a ancorar diferentes abordagens e possibilidades na cons-</line>
    <line>trução da alteridade entre a pesquisadora e os sujeitos da pesquisa.</line>
    <line>Essa constante reflexão e reconfiguração da prática etnográfica no contexto urbano é impulsiona-</line>
    <line>da pelo próprio processo de produção da pesquisa em cidades. Isto ocorre porque as dinâmicas</line>
    <line>dos fenômenos urbanos e as múltiplas expressões da experiência citadina atravessam substancial-</line>
    <line>mente a realidade e a vida social. Consequentemente, cria-se a demanda de reconstrução comple-</line>
    <line>ta de categorias pré-estabelecidas pela imaginação antropológica sobre a urbe e os sujeitos que a</line>
    <line>preenchem. A cidade deixa de ser apenas o cenário onde a vida acontece e passa a ser compreen-</line>
    <line>dida como uma arena simbólica e política, que é complexa e heterogênea, formada por diferentes</line>
    <line>redes de sociabilidade e interações entre os sujeitos, nas quais estes estão constantemente produ-</line>
    <line>zindo e construindo diferentes narrativas.</line>
    <line>Essas narrativas são confeccionadas no contexto mais ordinário da vida urbana: o cotidiano. Seja</line>
    <line>através de movimentos tipicamente corriqueiros, como transitar e deslocar-se pela cidade, até às</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4</line>
    <line>Julia Maria Paredes; Luciana Ribeiro de Oliveira</line>
    <line>ocupações políticas dos espaços urbanos e seus usos e contra-usos, a cidade sobre a qual tem-se</line>
    <line>elaborado nos estudos urbanos diz respeito a um espaço multifacetado. Este espaço é simultane-</line>
    <line>amente espacializado ao passo em que é praticado, premissa para a qual Certeau (1994) chama</line>
    <line>a atenção ao considerar que as táticas e estratégias cotidianas de habitar, consumir e transitar</line>
    <line>pela cidade são o que a faz se espacializar. À luz desse panorama, a etnografia urbana toma forma</line>
    <line>justamente a partir da compreensão desses movimentos e sentidos produzidos cotidianamente</line>
    <line>pelos sujeitos e suas diferenças, em que a antropóloga apreende, apresenta e narra sua situação</line>
    <line>etnográfica a partir das representações citadinas construídas coletivamente.</line>
    <line>Em outras palavras, as formas como os sujeitos vivem e fazem a cidade desde suas expressões mais</line>
    <line>cotidianas e particulares são os meios através dos quais podemos percebê-la enquanto categoria</line>
    <line>de análise antropológica. Uma “cidade bis”, nos termos de Agier (2015), desenhada e formulada a</line>
    <line>partir de múltiplas práticas e relações que se ramificam e se representam por meio dos diferentes</line>
    <line>movimentos dos sujeitos, encapsulados por narrativas de referência sobre o que é, como se faz e</line>
    <line>como se vive nos espaços urbanos. É essa a tônica presente nas representações sobre a urbe: um</line>
    <line>conjunto de experiências distintas vivenciadas e, principalmente, narradas que revelam os senti-</line>
    <line>dos produzidos no cotidiano urbano. A compreensão dessas narrativas urbanas dos sujeitos é o</line>
    <line>que, enfim, possibilita a construção do fazer etnográfico nas urbanidades.</line>
    <line>A percepção antropológica da vida citadina é permeada pela constante apreensão das represen-</line>
    <line>tações de cidade bis que dão sentido à experiência urbana do sujeito e que, grosso modo, consti-</line>
    <line>tuem-se como artefatos imaginativos. Isto se dá porque é somente por meio da mobilização ima-</line>
    <line>ginativa (ou mesmo imagética) que a representação se torna uma narrativa (Strathern, 1990) com</line>
    <line>a qual a etnógrafa se depara para construir e modelar os dados sensíveis de sua pesquisa. Não se</line>
    <line>trata apenas de um esforço de representar categorias observadas e produzidas em campo; trata-se</line>
    <line>também de reformular estratégias de aproximação e de compreensão de como os sujeitos repre-</line>
    <line>sentam a si e entre si nas dinâmicas urbanas que os atravessam.</line>
    <line>Nesse sentido, a construção do Outro na antropologia urbana passa por frequentes reelaborações</line>
    <line>a partir do exercício de modelar metodologias e procedimentos etnográficos, junto às narrativas</line>
    <line>que compõem as representações dos sujeitos sobre a cidade. Esta construção atualiza o trabalho</line>
    <line>de campo ao sugerir uma sensibilidade etnográfica que se assenta na possibilidade imaginativa</line>
    <line>de criar uma apresentação sobre o Outro. Esta nova apresentação considera formas inventivas e</line>
    <line>estratégias de representação do contexto urbano e de suas diferenças singulares evidenciadas na</line>
    <line>vida cotidiana das pessoas.</line>
    <line>Aqui considera-se que a experiência urbana, constantemente sedimentada na urbe, é convertida</line>
    <line>em narrativa, de modo a situar e elaborar as referências de cidade a partir das apropriações que os</line>
    <line>sujeitos fazem de seus próprios repertórios cotidianos. Partindo desse pressuposto, a formulação</line>
    <line>dos meios de criação dessa narração é parte substancial do trabalho etnográfico, uma vez que é</line>
    <line>essa narrativa (ou melhor, é o conjunto dessas narrativas) que constitui a representação do Outro</line>
    <line>citadino.</line>
    <line>Em outras palavras, defendemos que a forma de narrar a cidade e o Outro na etnografia urbana é</line>
    <line>extremamente importante para elaborar o conhecimento antropológico sobre a cidade. Há múlti-</line>
    <line>plas formas de representar e escrever o urbano, uma “escrita” aqui pontilhada por imagens foto-</line>
    <line>gráficas. Para tanto, a noção de visualidade propõe conceber a cidade como produtora de sentidos,</line>
    <line>que se expressam nas narrativas que o sujeito constrói para significar sua própria experiência</line>
    <line>urbana, constituindo a vivência citadina também um processo em devir-imagético (Gonçalves e</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5</line>
    <line>O OUTRO, O URBANO E O IMAGÉTICO</line>
    <line>Head, 2009). Este devir-imagético, ao ser interpelado pela etnografia, possibilita novas formas</line>
    <line>de interpretação por meio da imaginação e da criação de imagens. No entanto, surge um questio-</line>
    <line>namento fundamental: como manejar as formas de narrar imageticamente a cidade e o Outro em</line>
    <line>face do que se observa e se produz em campo?</line>
    <line>Nossa proposição para tal questão remonta a uma prática de pesquisa elaborada primeiramente</line>
    <line>por Eckert e Rocha (2013): a etnografia de rua. Pensada como metodologia de pesquisa em con-</line>
    <line>textos citadinos, a etnografia de rua consiste no desenvolvimento sistemático de uma série de</line>
    <line>observações e narrações. Estas são confeccionadas a partir da investigação de espaços urbanos</line>
    <line>e deslocamentos da antropóloga por territórios e locais da cidade. Técnica de pesquisa comple-</line>
    <line>tamente pautada no intenso movimento do corpo, a etnografia de rua é um “desafio de experien-</line>
    <line>ciar a ambiência das cidades” (Eckert e Rocha, 2013, p. 4). Permite concatenar os movimentos e</line>
    <line>sentidos que se colocam no horizonte etnográfico ao propor uma apropriação dinâmica da vida</line>
    <line>citadina pelo deslocamento e, principalmente, pelas interações que surgem a partir deste deslo-</line>
    <line>camento.</line>
    <line>Etnografar a rua significa envolver-se com esta do modo mais costumeiro possível: transitando</line>
    <line>e observando o que se revela nessa circulação. Além disso, observa-se como o Outro se constrói</line>
    <line>também em movimento; como sujeito transeunte que toma a cidade por meio de uma série de</line>
    <line>mobilidades desenhadas e percorridas por trajetos cotidianos distintos. A circulação cotidiana do</line>
    <line>sujeito é, por excelência, o objeto de investigação da etnografia de rua e, no bojo de sua construção,</line>
    <line>as representações e narrativas imagéticas do sujeito são notadamente confeccionadas e elabora-</line>
    <line>das por e através dessas andanças.</line>
    <line>Em seu sentido prático, a etnografia de rua se constrói a partir da experiência urbana, o que pres-</line>
    <line>supõe que o próprio percurso etnográfico do deslocamento pode se configurar como um processo</line>
    <line>imagético. Nesse sentido, Eckert e Rocha (2013) afirmam que a experiência etnográfica na rua é</line>
    <line>completamente possível por meio da introdução de elementos audiovisuais, como a câmera foto-</line>
    <line>gráfica. Chegamos, então, à amálgama da discussão presente neste artigo: a etnografia de rua e a</line>
    <line>pesquisa em contextos urbanos (enquanto exercício sensível e imaginativo que tensiona a prática</line>
    <line>etnográfica) encontram uma possível multiplicidade narrativa quando executadas junto à fotogra-</line>
    <line>fia de rua como gesto metodológico.</line>
    <line>Ao inserir a câmera no fluxo da rua, a etnógrafa não apenas registra cenas, corpos e situações, mas</line>
    <line>também se implica em um regime específico de atenção e presença, no qual fotografar torna-se</line>
    <line>uma operação narrativa. A fotografia de rua não se reduz a um dispositivo técnico de coleta de</line>
    <line>dados visuais, mas se configura como um modo de fabulação etnográfica, um fazer-imagem que</line>
    <line>produz sentidos, articula temporalidades e elabora narrativas imagéticas urbanas. Longe de ser</line>
    <line>apenas um exercício de registro de campo, a fotografia de rua aqui é compreendida como uma</line>
    <line>modalidade de representação do contexto etnográfico e de construção do conhecimento antro-</line>
    <line>pológico sobre a cidade. Fotografar a rua é, portanto, uma forma de escrever com luz e sombras</line>
    <line>as experiências urbanas, compondo fragmentos visuais que condensam afetos, ritmos, tensões e</line>
    <line>ambivalências do cotidiano citadino.</line>
    <line>Mais do que um estilo fotográfico, pensamos aqui a fotografia de rua como uma prática etnográfica</line>
    <line>que opera no limiar entre observação e imaginação, entre presença e invenção. Cada imagem pro-</line>
    <line>duzida resulta de um encontro contingente entre o corpo da pesquisadora e as materialidades da</line>
    <line>cidade, instaurando uma cena relacional que envolve escolhas estéticas, éticas e epistemológicas.</line>
    <line>O ato fotográfico assume sua condição situada e subjetiva, revelando-se como narrativa visual da</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6</line>
    <line>Julia Maria Paredes; Luciana Ribeiro de Oliveira</line>
    <line>experiência urbana vivida. Nesse processo, a imagem aguça a percepção da rua, desacelera o olhar,</line>
    <line>refina a escuta visual e potencializa a atenção aos detalhes ordinários que, muitas vezes, escapam</line>
    <line>às descrições verbais.</line>
    <line>A imagem, assim, emerge como um campo de condensação da experiência etnográfica, em que o</line>
    <line>visível não é dado, mas construído na relação entre quem olha, quem é olhado e o espaço com-</line>
    <line>partilhado. A fotografia de rua permite ainda tensionar as fronteiras entre representação e autor-</line>
    <line>representação. Ao mesmo tempo em que produz imagens sobre os Outros que habitam e fazem</line>
    <line>a cidade, a pesquisadora elabora, conscientemente ou não, imagens de si, de seus percursos, in-</line>
    <line>teresses, afetos e posições no espaço urbano. Cada fotografia carrega, portanto, uma inscrição</line>
    <line>narrativa sobre a cidade e uma inscrição subjetiva de quem a fotografa, configurando um arquivo</line>
    <line>imagético que fala tanto da alteridade quanto da experiência singular de pesquisar a urbe.</line>
    <line>Ao fabular a cidade por meio de imagens, a antropologia urbana amplia seu repertório narrativo</line>
    <line>e metodológico, incorporando a visualidade como linguagem constitutiva da experiência citadina.</line>
    <line>A rua, convertida em campo imagético, torna-se espaço de invenção etnográfica, onde o cotidiano</line>
    <line>é continuamente reencenado em fragmentos visuais que articulam memória, imaginação e expe-</line>
    <line>riência. Desse modo, a fotografia de rua não apenas documenta a vida urbana; também participa</line>
    <line>ativamente da produção de sentidos sobre ela, operando como ferramenta de análise, forma de</line>
    <line>escrita e dispositivo de reflexão sobre os modos de fazer-cidade e de fazer-se na cidade. É nesse</line>
    <line>horizonte que se inscreve a potência da fotografia de rua na pesquisa etnográfica como prática</line>
    <line>sensível de criação de imagens e narrativas imagéticas que colocam em circulação as múltiplas</line>
    <line>formas de representar a experiência urbana, num exercício radical de alteridade.</line>
    <line>ALTERIDADE EM EXERCÍCIO NA PRODUÇÃO DAS FOTOGRAFIAS DE RUA</line>
    <line>A representação do Outro na construção da etnografia é um processo gerador de debates e rein-</line>
    <line>terpretações desde a década de 1980, quando novas críticas e proposições sobre os modos de</line>
    <line>apresentação do trabalho antropológico e de escrita etnográfica surgem em vias de argumentar</line>
    <line>percepções distintas e inovadoras sobre alteridade e subjetividade (Clifford e Marcus, 1986; Mar-</line>
    <line>cus e Cushman, 1982; Fabian, 1983). Muito mais do que uma prática descritiva que propõe apre-</line>
    <line>sentar o campo e seu contexto, a etnografia passa a ser compreendida como um empreendimento</line>
    <line>reflexivo e situado, atravessado por escolhas epistemológicas que incidem diretamente sobre as</line>
    <line>formas pelas quais o Outro é tornado inteligível no texto antropológico, um campo de mediações</line>
    <line>no qual a escrita opera como prática de autoria, tradução e negociação de sentidos.</line>
    <line>Essa reapropriação da etnografia desloca o foco da pretensa objetividade descritiva para a expli-</line>
    <line>citação das condições de produção do conhecimento, evidenciando a posição da antropóloga, os</line>
    <line>regimes de autoridade etnográfica e as assimetrias implicadas na relação com o campo. Nesse mo-</line>
    <line>vimento, abre-se espaço para pensar a construção do Outro para além da centralidade da escrita,</line>
    <line>incorporando outras linguagens e formas de representação como modos legítimos de produzir e</line>
    <line>comunicar o conhecimento antropológico.</line>
    <line>O Outro urbano não se apresenta como uma entidade fixa ou distante, mas como um sujeito em</line>
    <line>constante movimento (Jacques, 2012). A alteridade urbana se constrói na proximidade, na copre-</line>
    <line>sença e na partilha dos espaços e da produção destes, exigindo da etnografia estratégias sensíveis</line>
    <line>capazes de apreender essa condição relacional e processual. É nesse horizonte que podemos pen-</line>
    <line>sar sobre a descentralização da escrita como meio principal de representação do Outro e con-</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>siderar formas representação, as como de  </line>
    <line>construção etnográfica.  </line>
    <line>As tornam-se próprias a das proposição por </line>
    <line>Gonçalves Head Os afirmam as audiovisuais particularmente - </line>
    <line>priadas salientar apresentar diferenças contexto Elementos de - </line>
    <line>sionar, complexificar e expandir as narrativas etnográficas, essas mídias elaboram deslocamentos teó- </line>
    <line>ricos e metodológicos que se inscrevem no debate sobre a representação do Outro por meio de práticas </line>
    <line>imagéticas reconfiguram próprias de de no de   </line>
    <line>Ao por das a passa lidar formas representação pre- </line>
    <line>servam a densidade sensível das situações vividas, incorporando gestos, ritmos, espacialidades, afetos </line>
    <line>e que à da O não reduzido um de   </line>
    <line>mas apresentado como sujeito situado, implicado em relações e experiências compartilhadas. </line>
    <line>Tendo isso em vista, a fotografia de rua se inscreve como um modo privilegiado de narrar a alteri - </line>
    <line>dade urbana, articulando experiência, visualidade e narrativa em um campo aberto e plural, cons - </line>
    <line>tantemente refeito no fluxo da vida citadina. Ao narrar cenas urbanas, a fotografia de rua constrói  </line>
    <line>múltiplas imagéticas campo, um denso visualidades  </line>
    <line>que traduzem experiências vividas na cidade. A narração da travessia urbana, quando constituída  </line>
    <line>por de fotográficas, essa indissociabilidade a  </line>
    <line>os e imagens, vez a se em como imagético.  </line>
    <line>Quando ao etnográfico, imagens um urbano  </line>
    <line>de que numa imagética pela e  </line>
    <line>demais sujeitos da pesquisa. </line>
    <line>Para situar o lugar da fotografia de rua na construção de narrativas urbanas, é fundamental retor - </line>
    <line>nar ao momento histórico em que a rua moderna se consolida como espaço central da vida social.  </line>
    <line>A partir de meados do século XIX, os intensos processos de urbanização das grandes cidades pro- </line>
    <line>duziram profundas formas habitar, e o urbano.  </line>
    <line>nesse cenário que a fotografia de rua emerge como prát </line>
    <line>as da e como forma de suas - </line>
    <line>ções. Como aponta Frehse (2002), a fotografia de rua se estabelece desde cedo como um meio sin- </line>
    <line>gular de representar visualmente a urbe, articulando registro e interpretação ao expressar modos  </line>
    <line>específicos de vivenciar, imaginar e construir a cidade no tempo.  </line>
    <line>Nos primeiros momentos dessa produção, contudo, a fotografia de rua esteve fortemente vincula - </line>
    <line>da a uma narrativa desenvolvimentista, privilegiando os grandes marcos da modernização urbana  </line>
    <line>como avenidas, e de como visuais progresso.  </line>
    <line>Ao do XX, regime visualidade por significativos,  </line>
    <line>lugar uma de mais às cotidianas, experiências dos  </line>
    <line>sujeitos os às que evidenciavam fluxos urbe. elementos  </line>
    <line>presentes nessas imagens fazem do cotidiano a matéria principal da fotografia de rua, aproximan - </line>
    <line>do-a de uma sensibilidade etnográfica. Nesse sentido, a cidade se afirma como um campo ativo de  </line>
    <line>produção sentidos, a de ao visualmente experiência produz  </line>
    <line>visualidades que revelam formas de viver, sentir e significar o espaço urbano.  </line>
    <line>Assumir fotografia rua prática implica sua metodo - </line>
    <line>lógica epistemológica. de fazer se entre e rigor e  </line>
    <line>invenção convidando antropóloga caminhar o na e câmera mão</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8</line>
    <line>Julia Maria Paredes; Luciana Ribeiro de Oliveira</line>
    <line>engajar-se em uma prática corporal e imagética que amplia as sensibilidades do trabalho de cam-</line>
    <line>po e abre espaço para formas outras de conhecer e representar a cidade. A fotografia de rua, neste</line>
    <line>horizonte, não ilustra a etnografia; a compõe, a tensiona e a reinventa, fazendo da experiência</line>
    <line>urbana um campo permanentemente aberto à imaginação antropológica.</line>
    <line>O sujeito urbano constrói imagens mentais e sensoriais a todo instante, mas é na prática fotográ-</line>
    <line>fica que esse processo se intensifica e torna-se reflexivo. Fotografar a rua é um modo de aguçar</line>
    <line>a experiência urbana e torná-la consciente. O exercício imagético não apenas capta a cidade, mas</line>
    <line>também reorganiza o olhar de quem a habita, produzindo novas formas de perceber e narrar o</line>
    <line>urbano. Assim, a fotografia de rua atua como propulsora de visualidades, ativando um campo sen-</line>
    <line>sível no qual cidade e sujeito se co-constituem.</line>
    <line>Quando pensamos a fotografia de rua na pesquisa etnográfica, o que está em jogo não é apenas a</line>
    <line>incorporação de um recurso técnico ao arsenal metodológico da antropologia urbana, mas tam-</line>
    <line>bém a ativação de um modo específico de experienciar, apreender e narrar a cidade. A urbe deixa</line>
    <line>de figurar exclusivamente como um campo a ser descrito pela escrita e passa a se oferecer como</line>
    <line>matéria sensível, imagética e imaginativa, convocando a pesquisadora a um regime ampliado de</line>
    <line>atenção. Fotografar a rua é, antes de tudo, um exercício de presença que exige deslocamento, es-</line>
    <line>cuta, suspensão do automatismo do olhar e disposição para ser atravessada pelas intensidades</line>
    <line>do espaço urbano. A imagem, nesse sentido, não emerge como simples registro do que se vê, mas</line>
    <line>como condensação de encontros, afetos, ruídos, silêncios e temporalidades que só se tornam per-</line>
    <line>ceptíveis no corpo-a-corpo com a cidade.</line>
    <line>Produzir imagens na rua, portanto, não é apenas uma estratégia de entrada no campo, mas tam-</line>
    <line>bém um modo de permanência e de aprofundamento da experiência etnográfica. A imagem passa</line>
    <line>a ser mediadora da relação entre pesquisadora, cidade e sujeitos, instaurando uma narrativa que</line>
    <line>não se submete à linearidade textual. As fotografias urbanas pensam, evocam, sugerem; articulam</line>
    <line>memórias, sensações e movimentos humanos; funcionam tal como Samain (2012) definiu: instru-</line>
    <line>mentos de memória dotados de emoção.</line>
    <line>Não se trata, assim, de perguntar por que determinada imagem foi produzida, mas de interrogar</line>
    <line>como ela se conecta a outras imagens, como reverbera afetivamente, como organiza sentidos ao</line>
    <line>se associar a diferentes experiências urbanas. Deve-se interrogar também como a fotografia re-</line>
    <line>laciona diferentes repertórios citadinos de distintos sujeitos e opera, assim, como dispositivo de</line>
    <line>alteridade a partir da visualidade. É nesse entrecruzamento que se manifesta o poder de ideação</line>
    <line>das imagens, pois sua capacidade de produzir pensamento ao se colocarem em relação é um fun-</line>
    <line>damento gerador da relação com o Outro.</line>
    <line>FOTOGRAFAR A RUA E REPRESENTAR O OUTRO: ELABORAÇÕES E PISTAS</line>
    <line>SOBRE ALTERIDADE E NARRATIVA IMAGÉTICA</line>
    <line>Por entre as rotas, caminhos e trajetos que compõem as correrias ordinárias dos nossos corpos</line>
    <line>pela cidade, a mobilidade diária se configura enquanto uma das experiências cotidianas que mais</line>
    <line>interferem e afetam a vida urbana contemporaneamente (Jirón, 2007). As motricidades corporais</line>
    <line>que atravessam os contrastes dos espaços urbanos são responsáveis não somente por espacializa-</line>
    <line>rem a cidade, mas também por formularem o fazer-cidade (Agier, 2015) dos sujeitos, repertórios</line>
    <line>que se configuram através da aprendizagem corporal sobre o urbano e das narrativas que surgem</line>
    <line>a partir das travessias cotidianas.</line>
  </page>
</document>
