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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>DISPUTAS PELA OCUPAÇÃO  </line>
    <line>DO DECK DA FEIRA DA PAZ:  </line>
    <line>re-existência e visibilização em um espaço  </line>
    <line>central de Governador Valadares, Minas Gerais  </line>
    <line>Cristiana Maria Oliveira Guimarães*1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>O texto tem como objetivo analisar o movimento de ocupação do deck da Feira da Paz, espaço central e valo - </line>
    <line>rizado de Governador Valadares, Minas Gerais (MG), a partir da realização de batalhas de rimas aos domin- </line>
    <line>gos. que processo o de configurando-o território - </line>
    <line>co da juventude negra e periférica, ao mesmo tempo em que promove sua visibilização. À luz do conceito de  </line>
    <line>reexistência, formulado por Hurtado e PortoGonçalves, e das contribuições de Léfèbvre, evidencia-se como  </line>
    <line>o ressignifica espaço de governamentais a do “Viva </line>
    <line>Valadares”. As batalhas, entendidas como práticas espaciais, constituem-se em atos políticos e culturais que  </line>
    <line>disputam de visibilidade pertencimento. final, artigo como apropriação  </line>
    <line>do deck da Feira da Paz expressa resistência, reexistência e a luta pelo direito à cidade. </line>
    <line>Palavras-chaves: apropriação do espaço; batalhas de rimas; direito à cidade; juventude negra; prática es - </line>
    <line>pacial. </line>
    <line>*  Instituto Federal de Minas Gerais, Governador Valadares, Minas Gerais, Brasil. E-mail: cristiana.guimaraes@ifmg.edu.br  </line>
    <line>Orcid: https://orcid.org/0000-0001-8548-729X  </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24410, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24410  </line>
    <line>Dossiê: Visualidades Urbanas: poder, subjetividades,  </line>
    <line>sociabilidades e o existir citadino </line>
    <line>E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2 </line>
    <line>INTRODUÇÃO </line>
    <line>Governador Valadares comemorou este ano (2026) seus 88 anos, como uma cidade de 257.172 ha- </line>
    <line>bitantes (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023), localizada na porção leste de Minas  </line>
    <line>Gerais, à margem esquerda do Rio Doce, a 324 km de Belo Horizonte. A presença do rio Doce é es - </line>
    <line>truturante dos processos de produção do espaço da cidade. Em decorrência dessa presença, estão  </line>
    <line>outros atravessamentos, do mesmo modo estruturantes: a Ferrovia Vitória-Minas, propriedade da  </line>
    <line>empresa Vale, além de decisões internacionais sobre seu futuro desde os Acordos de Washington,  </line>
    <line>em 1942. </line>
    <line>Apesar da ocupação pelos indígenas Botocudos remontar a épocas anteriores à chegada dos co- </line>
    <line>lonizadores e um fundamental seu histórico 1, a narrativa  </line>
    <line>que consolida, a dos da e documentos enfatiza  </line>
    <line>feitos dos chamados pioneiros. Esses são homens descritos como heroicos, grandes negociantes e  </line>
    <line>visionários, comprometidos com a missão de trazer “civilidade” a essas terras agrestes.   </line>
    <line>Essa serve enredo pautado ideais progresso modernidade,  </line>
    <line>orientaram o desenvolvimento urbano, desde os anos 1930 do século passado. O dinamismo eco- </line>
    <line>nômico alcançado entre 1950 e 1970, pelo entroncamento da ferrovia às rodovias posteriormente  </line>
    <line>construídas, BR-116 e BR-381, foi impulsionado por atividades econômicas de caráter extrativista,  </line>
    <line>sobretudo a exploração de madeira e mica, responsáveis por um crescimento urbano acelerado e  </line>
    <line>promissor. Como em tantas outras cidades, o ideal de progresso e modernidade materializado de  </line>
    <line>modo no corresponde produção um marcado restrições - </line>
    <line>ras ao exercício do direito à cidade para grande parte da população. </line>
    <line>Entre esses impedimentos, está a inviabilização das realizações da população negra na cidade. Ali- </line>
    <line>ás, sua a existência populaçãé O de  </line>
    <line>Valadares2 elaborado pela Fundação João Pinheiro (1980), no contexto do Programa Estadual de  </line>
    <line>Cidades Intermediárias – PROECI 3 –, ao mostrar a preocupação com as desigualdades intraurba - </line>
    <line>nas, destina todo um capítulo ao “Pobre Urbano”, sem, contudo, mencionar a questão racial.  </line>
    <line>A do valadarense, das e símbolos outros reafir - </line>
    <line>ma sustenta narrativa Contudo, focar lupaparece realidade, história, </line>
    <line>outras tradições e lutas.  Sob os nomes das grandes avenidas que exaltam chefes de governo e  </line>
    <line>datas comemorativas nacionais, estão marcas de resistências. Diferentes modos de vida, marcados  </line>
    <line>por mulheres que sustentavam suas famílias como miqueiras 4, pelos ritos e costumes afro-bra- </line>
    <line>sileiros (Vilarino, 2015) e pela luta pela terra (Borges, 1988; Vilarino e Genovez, 2019), estão  </line>
    <line>ali “geo-grafias”, infelizmente, ganham capítulos livros de  </line>
    <line>história e/ou geografia.  </line>
    <line>1  Confira ESPÍNDOLA, Haruf Salmen. Sertão do Rio Doce. Bauru: Edusc, 2005. 485 p. </line>
    <line>2  O de Valadares um da João elaborado subsidiar ações pro- </line>
    <line>gramas para Valadares âmbito PROECI. FUNDAÇÃO PINHEIRO.  Programa Es- </line>
    <line>tadual de Centros Intermediários: Diagnóstico de Governador Valadares. Belo Horizonte:1980 (mimeografado).  </line>
    <line>3  O PROECI foi um programa formulado e conduzido pelo Estado de Minas Gerais, no âmbito do II Plano Nacional de Desen- </line>
    <line>volvimento – PND. </line>
    <line>4 As  miqueiras eram mulheres responsáveis pelo processamento da mica – minério abundante em Governador Valadares nas  </line>
    <line>décadas de 1930 e 1940 e amplamente utilizado no desenvolvimento da indústria bélica durante a Segunda Guerra Mundial,  </line>
    <line>por atuar como isolante elétrico e térmico.  Nessa época, sua exportação foi intensa, principalmente para os Estados Unidos.</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3 </line>
    <line>A proposta deste texto é analisar e registrar o movimento de ocupação e apropriação de um local  </line>
    <line>nobre, na área central de Governador Valadares, pela realização de  batalhas de rimas 5 por ini- </line>
    <line>ciativa do Coletivo do Deck aos domingos. Em nosso argumento, constitui-se uma reinvenção do  </line>
    <line>sentido daquele lugar, conhecido como deck da Feira da Paz. O desenvolvimento desse argumento  </line>
    <line>pretende revelar que o movimento é uma ação de  re-existência, como colocado por Hurtado e  </line>
    <line>Porto-Gonçalves (2022).  Reexistência  não apenas a poder é de  </line>
    <line>outro modo, reinventando saberes e fazeres, identidades, modos de produção e de sustento, a  </line>
    <line>partir um próprio  (topoi ) geográfico epistêmico. outras tratase dar  </line>
    <line>novos sentidos à existência e ao espaço enquanto se enfrenta a expropriação e a subalternização.  </line>
    <line>Adiantando os resultados, compreendemos que a escolha do deck da Feira da Paz como o local  </line>
    <line>para a realização das batalhas de rimas e, além disso, nomeálas constitui, em si, o início de um  </line>
    <line>processo visibilização prática e seus Para essa - </line>
    <line>ria, partimos de alguns conceitos e ideias-chave, reunidos e sintetizados a seguir. Santos (2022)  </line>
    <line>nos empresta a concepção do racismo como estruturante, em contraposição à ideia de racismo  </line>
    <line>estrutural. esta tende interromper, termos as de  </line>
    <line>agência dos indivíduos e/ou grupos, a primeira reativa essa perspectiva, sem diminuir o seu papel  </line>
    <line>como um constructo organizador das nossas sociedades. Nesse sentido, o racismo compreendido  </line>
    <line>como estruturante não se coloca como uma estrutura da sociedade, além da ação dos indivíduos;  </line>
    <line>ao contrário, está contido e é performado por eles em seu cotidiano, a partir de valores e hábitos  </line>
    <line>inculcados historicamente. </line>
    <line>Sobre o conceito de espaço, assumimos a noção lefebvriana (s/d.) de que este é produzido no fazer-se  </line>
    <line>e refazer-se das relações sociais (relações de produção e de reprodução) e, ao mesmo tempo que é pro- </line>
    <line>duzido, modifica participa produção mesmas de agir  </line>
    <line>sempre histórico e contínuo, no qual estão implicadas as relações de poder. Assim, podemos assumir que  </line>
    <line>elas – relações de poder – são manifestas, diminuídas ou exacerbadas no e pelo espaço, por meio de sua  </line>
    <line>materialidade e de suas representações. Logo, os conflitos em torno do espaço configuram processos de </line>
    <line>disputas de poder, que se expressam tanto no plano material quanto – e fundamentalmente – no simbó- </line>
    <line>lico, sendo essas dimensões complementares e indissociáveis.  </line>
    <line>A noção de apropriação, vinculada aos âmbitos do vivido e do percebido, tal como nos ensina  </line>
    <line>Léfèbvre 6 , constitui uma ferramenta analítica útil para pensar a tomada de lugar 7  em suas dimen- </line>
    <line>5  Uma batalha de rimas é um duelo oral improvisado entre duas ou mais pessoas – geralmente MCs – em que os participantes  </line>
    <line>criam versos rimados em ritmo de rap ou hip-hop, respondendo ao oponente em tempo real. Neste texto usaremos  bata- </line>
    <line>lhas de rimas ou apenas batalhas para expressar essa prática.   </line>
    <line>6  A produção de Léfèbvre é bastante vasta e complexa, sendo, por isso, impossível de ser melhor decifrada neste texto. Como auxílio </line>
    <line>à compreensão dos termos utilizados acima, segue uma síntese sobre a tríade analítica do espaço elaborada por Silva et al. (2019)  </line>
    <line>“ [Léfèbvre] propõe uma tríade conceitual que deve ser compreendida de forma interdependente entre si, ao mesmo tempo, que cada  </line>
    <line>uma delas pode produzir espaços próprios: a prática espacial, as representações de espaço e os espaços de representação. A prática  </line>
    <line>espacial é compreendida como sendo a ação das pessoas, o uso e a percepção do espaço. As representações do espaço são espaços  </line>
    <line>concebidos pela lógica ligada às relações dominantes de modos de produção e à ‘ordem’ que essas relações impõem e, portanto, ao  </line>
    <line>conhecimento formal e aos signos e códigos racionais, como é o caso do saber moderno relacionado aos projetos urbanísticos e a  </line>
    <line>cartografia formal. Já os espaços de representação, incorporam simbolismos complexos, codificados ou não, ligados à clandestinidade </line>
    <line>e à vida social furtiva”. Essa teórico-metodológica articular e, mesmo cuidar especifici- </line>
    <line>dades analíticas. Em outras palavras, possibilita o foco nas relações cotidianas, do íntimo e do pessoal e o enlace dessa dimensão à  </line>
    <line>macro, hegemônica, ao que se impõe a todos, material e simbolicamente, como resultado das disputas sociais.  </line>
    <line>7  A expressão é utilizada em referência à tomada da Bastilha pelos revolucionários franceses durante o processo de revolução nos  </line>
    <line>séculos e e força que Nesse vale referência, complexificar debate, texto   </line>
    <line>Léfèbvre sobre a Comuna de Paris. LÉFÈBVRE, Henri. A Comuna de Paris: a festa da igualdade. São Paulo: Boitempo, 2021.</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4 </line>
    <line>sões e pelos subalternizados /caso que enquadra experiência  </line>
    <line>aqui analisada. Para o autor, a apropriação diz respeito ao modo como os sujeitos se relacionam  </line>
    <line>com o espaço a partir do corpo e do cotidiano, constituindo-o como espaço vivido e dotado de  </line>
    <line>sentido, contraposição um alienado programado, segundo de  </line>
    <line>dominação (Léfèbvre, s.d.; 2001).  </line>
    <line>A questão de fundo que sustenta essa elaboração é a reflexão lefebvriana sobre o espaço absoluto  </line>
    <line>e o espaço diferencial, que, infelizmente, não poderemos aprofundar aqui. Vale dizer, de forma  </line>
    <line>bastante que, o não um apriorístico, vazio espera  </line>
    <line>sua o se na realização processos reprodução  </line>
    <line>isto é, na realização da vida. Enquanto alienados, esses processos conformam um cotidiano – e seu  </line>
    <line>espaço – programado e imposto pelo hegemônico. Contudo, esses não se realizam de forma total- </line>
    <line>mente Embora por padronização da capitalista,  </line>
    <line>também comportam fissuras.  </line>
    <line>Essas como ao se no das práticas  - </line>
    <line>ciais; em alguns casos, a partir das experiências sensoriais realizadas pelo corpo. Nesses momen- </line>
    <line>tos, ocorre um deslocamento do curso esperado, que introduz diferenças no tempo e no ritmo que  </line>
    <line>organizam o cotidiano. São movimentos que, ao se realizarem, configuram outras temporalidades  </line>
    <line>e outras espacialidades, ainda que de forma efêmera.  Constituem, em última instância, o que es - </line>
    <line>tamos nomeando como apropriação.  </line>
    <line>Os processos de apropriação, por sua vez, ao tensionarem o que é esperado e imposto, instauram  </line>
    <line>uma de em ao comum ao normatizado espaço.  </line>
    <line>modo, interferem também nas práticas dos outros sujeitos, ao desestabilizar a programação que  </line>
    <line>orienta suas ações. </line>
    <line>Em outras palavras, as práticas corporais podem romper o cotidiano programado e alienado e,  </line>
    <line>assim, reconfigurar o espaço, atribuindo novos sentidos e abrindo possibilidades de autonomia. O  </line>
    <line>corpo, nesse movimento, atua como resistência quando não segue as regras impostas, quando se  </line>
    <line>expressa por gestos e maneiras que contrariam as normas estabelecidas ou quando desvia o uso  </line>
    <line>esperado de um espaço.  </line>
    <line>Pensar o corpo como resistência adquire outra dimensão quando os protagonistas são os corpos  </line>
    <line>cujas características se tornam critérios de subalternização, como ocorre com os corpos negros,  </line>
    <line>agentes da experiência aqui apresentada. Com isso, alcançamos as questões que fundamentam este  </line>
    <line>texto.  O que pode um corpo negro em Governador Valadares? O que é a ele permitido? Qual lugar lhe  </line>
    <line>é reservado?  Como resposta, sustentamos que à população negra não é historicamente permitido  </line>
    <line>habitar e vivenciar plenamente as áreas centrais e valorizadas da cidade. A periferização – enquanto  </line>
    <line>negação centro /opera na do quanto sua simbólica.   </line>
    <line>enredo história outras são apagadas, sendo   </line>
    <line>nem incorporadas como parte constitutiva da cidade; do mesmo modo, a centralidade planejada não  </line>
    <line>comporta suas formas de vida, reiterando sua exclusão dos espaços e das narrativas hegemônicos. </line>
    <line>De com exposto, história conforma objeto texto é que  </line>
    <line>as manchetes dos jornais – exceto em ocorrências policiais – nem aquela que preenche os anuários  </line>
    <line>municipais. Os registros são poucos e dispersos, encontrados aqui e ali, recortados e, muitas vezes,  </line>
    <line>atravessados pelo interesse de quem os produz. Assim, as redes sociais e a imprensa local foram  </line>
    <line>essenciais para localizar as disputas no tempo e na dinâmica urbana.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>A partir dessas notícias, buscamos suas reverberações nos portais da Prefeitura Municipal de Go- </line>
    <line>vernador Valadares (PMGV) e da Câmara de Vereadores, que disponibilizam documentos, notas  </line>
    <line>técnicas e legislações. Alguns materiais do Coletivo do Deck, gentilmente cedidos por suas lide- </line>
    <line>ranças – a quem agradecemos –, ajudaram a preencher lacunas sobre o desenvolvimento des - </line>
    <line>sa Destacamos esses: portfólio, encaminhados PMGV os  </line>
    <line>submetidos a diversos editais de apoio à cultura que nos apresentaram seus objetivos, origens e  </line>
    <line>reformulações. </line>
    <line>Por antes prosseguirmos, pertinente o deste e limitações.  </line>
    <line>O protagonista da análise não é o movimento hip-hop ou as discussões acerca da estética negra  </line>
    <line>enquanto forma de resistência e/ou re-existência, tema amplamente abordado em estudos espe - </line>
    <line>cíficos. objetivo como antecipado, a análise da apropriação do deck da Feira da Paz  </line>
    <line>durante a realização das batalhas de rimas, reconhecidas como Batalhas do Deck. </line>
    <line>A DISPUTA PELO DECK DA FEIRA DA PAZ  </line>
    <line>O local conhecido como o deck da Feira da Paz é literalmente um deck de madeira, sobre a área  </line>
    <line>da antiga Feira da Paz, que funciona como mirante para o pico da Ibituruna e o rio Doce. Além da  </line>
    <line>vista singular para o cartão-postal da cidade, acontece ali o pouso dos pilotos de parapente, espor - </line>
    <line>te comum na cidade, reconhecida mundialmente pelas condições extremamente favoráveis à sua  </line>
    <line>prática. O local é o ponto focal da grande perspectiva constituída pela avenida Minas Gerais, que  </line>
    <line>corta a planta da área central citadina concebida em tabuleiro de xadrez, aos moldes da capital,  </line>
    <line>Belo Horizonte. Avizinha-se da Praça dos Pioneiros, que sedia, além dos poderes legislativo e exe- </line>
    <line>cutivo municipais, os principais eventos, manifestações e encontros da cidade (figura 1).  </line>
    <line>Figura 1: Localização do deck da Feira da Paz  </line>
    <line>Fonte: autoria própria a partir do Google Earth  (2026).</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6 </line>
    <line>Nesse acontecem, domingos, batalhas rimas como do </line>
    <line>em referência àquele e promovidas pelo coletivo de mesmo nome. </line>
    <line>Desde seus primeiros passos, o grupo compreendeu o hip-hop não apenas como expressão  </line>
    <line>artística, mas como instrumento de enfrentamento à violência estrutural, ao racismo e à  </line>
    <line>exclusão social vivenciados pela juventude negra e periférica do município (...). </line>
    <line>Após período pausa em o retoma atividades  </line>
    <line>com força, passando a ocupar espaços centrais da cidade, como a Praça dos Pioneiros. Com  </line>
    <line>a construção do deck da Feira da Paz, o grupo estabelece ali sua principal referência terri - </line>
    <line>torial, início trajetória Batalha Deck, passa ser sistematica- </line>
    <line>mente nas redes sociais a partir de 2016, ampliando sua visibilidade e alcance (Coletivo do  </line>
    <line>Deck, 2025). </line>
    <line>Em 2022, como se nada houvesse, a PMGV instalou no mesmo local o letreiro  Viva Valadares,  </line>
    <line>como do de ao de nome 2). Acompanhava le- </line>
    <line>treiro a repaginação do deck, promovida pela retirada dos bancos e da cobertura, pela troca dos  </line>
    <line>materiais de revestimento e pelo corte de árvores que ali sombreavam (figura 3). </line>
    <line>Figura 2: Letreiro Viva Valadares com o rio Doce e o Pico do Ibituruna ao fundo. </line>
    <line>Fonte: autoria própria, 2026 </line>
    <line>O da municipal produzir local  8, reforçando sua di- </line>
    <line>mensão de cartão-postal citadino. A reforma cumpre essa intenção ao retirar o mobiliário urbano  </line>
    <line>– bancos e cobertura –, esvaziando as possibilidades de permanência no local, coletiva ou indivi- </line>
    <line>dualmente. O único uso propiciado passa a ser fotografar-se na paisagem transformada em fundo  </line>
    <line>cenográfico. intervenção, não sem Agentes produção </line>
    <line>espaço vinculados às batalhas de rimas manifestaram insatisfação diante das mudanças, uma vez  </line>
    <line>que estas afetaram diretamente as dinâmicas de uso e de apropriação do deck. A reorganização do  </line>
    <line>8  O instagramável espaços, ou cuja estética concebida /ou –  </line>
    <line>modo a favorecer sua reprodução imagética e circulação em plataformas digitais, especialmente no Instagram. Nesse sen - </line>
    <line>tido, sua utilização remete à lógica de produção de cenários visualmente atrativos e consumíveis, frequentemente associa - </line>
    <line>dos a dinâmicas de espetacularização, mercantilização do espaço e de construção de visibilidades mediadas por critérios  </line>
    <line>estéticos e algorítmicos.</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>espaço implicou limitações às práticas culturais ali consolidadas, evidenciando disputas em torno  </line>
    <line>de sentidos usos. de operação, tantas alinhada lógica cida- </line>
    <line>demercadoria, qual patrimônio configura ativo na de  </line>
    <line>imagem de cidade turística e, como tal, carregada de excepcionalidade. Essa distinção pretende in- </line>
    <line>seri-la na rota das cidades que merecem ser visitadas, fotografadas e, sobretudo, comercializadas. </line>
    <line>Revitalizamos o deck da Feira da Paz com o letreiro “Viva Vala </line>
    <line>ao Programa de Turismo lançado em um seminário que teve a participação do secretário de  </line>
    <line>Estado pasta. programa o de históricos, e </line>
    <line>de entretenimento, além de esportes radicais e da natureza (Marques et al., 2022). </line>
    <line>O conflito envolveu as ruas e as mídias locais, agravado por um acidente que destruiu tanto o deck,  </line>
    <line>como o letreiro (G1 Vales de Minas Gerais, 2022). Rapidamente, ainda em meio às polêmicas, o  </line>
    <line>conserto foi providenciado. Nesse ínterim, uma providência da PMGV se transformou em anedota  </line>
    <line>coletiva: ao substituir o letreiro, a administração instalou um banner com a imagem da paisagem  </line>
    <line>ao fundo. Paradoxalmente, o banner encobria o rio Doce e o pico da Ibituruna, precisamente os  </line>
    <line>elementos que pretendia representar. </line>
    <line>Figura 3: O deck da Feira da Paz antes da reforma  </line>
    <line>Fonte: Card de divulgação de uma Batalha do Deck em 2017. BATALHA DO DECK. Instagram, 2017 . </line>
    <line>Disponível em:  https://www.instagram.com/coletivodeck_gv/. Acesso em: 29 jan. 2026 </line>
    <line>Deixando a graça de lado, a análise do episódio precisa recuperar o fato de que a disputa em torno  </line>
    <line>do deck era – ainda é – sobre sua ocupação, embora, como insistido, ultrapasse a questão da mate- </line>
    <line>rialidade Dessa a da deve vista uma para - </line>
    <line>dir que o vazio deixado pela retirada do letreiro fique disponível para outra apropriação e/ou uso.</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8 </line>
    <line>Apesar do vai-e-vem do letreiro no deck, os participantes e simpatizantes do movimento das ba- </line>
    <line>talhas de rimas não deixaram o local – as batalhas dos domingos continuaram a acontecer ali.  </line>
    <line>Logo se apoderaram do letreiro como acessório à sua festa (figura 4) e passaram a utilizá-lo como  </line>
    <line>suporte físico de si mesmos e de seus pertences, tal como um mobiliário urbano. Nesses dias, com  </line>
    <line>o letreiro Viva Valadares ao fundo, o que se vê em primeiro plano é a festa da moçada do hip-hop  </line>
    <line>local e suas insígnias.  </line>
    <line>Figura 4: Batalhas do Deck em janeiro e julho de 2023 </line>
    <line>Fonte: Autoria própria a partir de postagens disponíveis em COLETIVO DO DECK. Instagram, 2023. Disponível em:  </line>
    <line>https://www.instagram.com/coletivodeck_gv/. Acesso em: 10 jan. 2026. </line>
    <line>Posteriormente, já na gestão seguinte, uma reforma reposicionou o letreiro fora do deck, atrás  </line>
    <line>desse, sustentado por uma estrutura metálica apoiada diretamente no terreno adjacente. Apa- </line>
    <line>- </line>
    <line>tentes (ou resistentes) usos e apropriações indesejadas institucionalmente (Prefeitura Munici- </line>
    <line>pal de Governador Valadares, 2023), enquanto eram mantidos a realização do cartão-postal e o  </line>
    <line>- </line>
    <line>ro dos editais promovidos pela Fundação Renova 9 e a chancela dessa (Reparação Bacia do Rio  </line>
    <line>Doce, 2025).  </line>
    <line>9  Em 5 de novembro de 2015, como é sabido por todos, aconteceu o rompimento da Barragem de Fundão em uma mina de  </line>
    <line>ferro da SAMARCO/VALE/BHP em Mariana (MG). Cerca de 39 milhões de metros cúbicos de rejeitos inundaram a Bacia do  </line>
    <line>Rio Doce, alcançando Governador Valadares poucos dias depois. O acordo de reparação, por meio do Termo de Transação  </line>
    <line>e Ajustamento de Conduta (TTAC), determinou a instituição da Fundação Renova, mantida pelas empresas Samarco, Vale  </line>
    <line>e BHP, como responsável pela mobilização para a compensação pelos danos causados pelo desastre-crime. A partir daí, a  </line>
    <line>fundação se consolida como um agente importante na dinâmica urbana de Governador Valadares, tanto em seu distrito-se - </line>
    <line>de, nosso recorte, como em outros distritos e na área rural, além do entorno imediato, do qual a cidade é o polo.</line>
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