<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>DOSSIÊ</line>
    <line>ARTE URBANA E GOVERNAMENTALIDADE  </line>
    <line>VISUAL NAS MARGENS DE FORTALEZA, CEARÁ:  </line>
    <line>o Festival Concreto entre resistência e requalificação neoliberal </line>
    <line>Natanael Nathan Pereira da Silva*1 </line>
    <line>Wellington Ricardo Nogueira Maciel** 2 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>Este artigo analisa as dinâmicas de governamentalidade visual no Festival Internacional Concreto de arte  </line>
    <line>urbana em Fortaleza, Ceará, com foco nas edições realizadas nos Residenciais José Euclides Ferreira Gomes  </line>
    <line>(2020) e Cidade Jardim 2 (2022). A partir de uma abordagem qualitativa que inclui análise iconológica, dis - </line>
    <line>cute-se como o “graffiti”, prática historicamente associada à resistência dos jovens nas periferias urbanas, é  </line>
    <line>mobilizado como ferramenta de requalificação urbana e controle simbólico nesses contextos. Argumenta-se  </line>
    <line>que o Festival opera em tensão constitutiva: democratiza o acesso à arte e ressignifica territórios marginali - </line>
    <line>zados, reforça neoliberais gestão atuacomo de  </line>
    <line>que molda subjetividades e paisagens. </line>
    <line>Palavras-chaves: arte urbana; governamentalidade; Festival Concreto; periferias urbanas; neoliberalismo </line>
    <line>*  Universidade Esta de Pós Graduação em Sociologia; Fortaleza, Ceará, Bra- </line>
    <line>sil : l.silva@aluno.uece.br https://orcid.org/0009-0003-5594-2732 Conceitualização;  - </line>
    <line>mento de dados; Análise formal; Investigação; Metodologia; Visualização; Escrita (rascunho original, revisão e edição).  </line>
    <line>**  Universidade do Centro Humanidades, de Graduação Sociologia; Ceará,  </line>
    <line>Brasil. wellington.maciel@uOrcid:   Conceitualização; - </line>
    <line>pervisão; Validação; Escrita, Revisão e Edição, Recursos; Fonte de financiamento da pesquisa.  </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24525, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24525  </line>
    <line>Dossiê: Visual </line>
    <line>sociab </line>
    <line>E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2</line>
    <line>Natanael Nathan Pereira da Silva; Wellington Ricardo Nogueira Maciel</line>
    <line>INTRODUÇÃO</line>
    <line>O presente artigo tem como objetivo analisar as relações entre arte urbana e governamentalida-</line>
    <line>de a partir do estudo do Festival de Arte Urbana Concreto, realizado em média, anualmente na</line>
    <line>cidade de Fortaleza. Criado em 2013, o Festival Concreto consolidou-se como o principal evento</line>
    <line>de arte urbana do Nordeste brasileiro, representando um marco na institucionalização do</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>em Fortaleza. Esta análise se sustenta em um arcabouço teórico interdisciplinar, fruto de disser-</line>
    <line>tação de mestrado</line>
    <line>1</line>
    <line>. O foco central deste artigo é observar as edições de 2020 e 2022, realizadas,</line>
    <line>respectivamente, no Residencial José Euclides Ferreira Gomes (RJEFG) e no Residencial Cidade</line>
    <line>Jardim 2 (RCJ2), conjuntos habitacionais localizados nas “margens residuais” Maciel (2023-2024)</line>
    <line>da cidade.</line>
    <line>Por “margens urbanas” entendem-se territórios periféricos que reúnem três dimensões interliga-</line>
    <line>das: geográfica (distância dos centros, carência de infraestrutura), socioeconômica (baixa renda,</line>
    <line>violência, precariedade habitacional) e simbólica (estigmatização midiática e estatal, que os rele-</line>
    <line>ga à invisibilidade). Essas margens, no entanto, não são meros espaços de carência: são também</line>
    <line>territórios de criatividade, sociabilidade e resistência, onde práticas como o</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>e o rap são</line>
    <line>utilizadas como linguagens de contestação e pertencimento.</line>
    <line>Conforme Maciel (2023-2024, p. 36-38), os “espaços residuais” nas periferias de Fortaleza, produ-</line>
    <line>tos da presença ou ausência da arquitetura, tensionam os dilemas entre urbano e não-urbano. O</line>
    <line>Festival Concreto, ao intervir nesses territórios, ressignifica a identidade local, mas pode reforçar</line>
    <line>a estetização controlada das margens (Campos, 2021; Zukin, 1996).</line>
    <line>Parte-se da premissa de que a arte urbana, especialmente o</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>, não pode ser compreendida</line>
    <line>apenas como expressão estética ou ato de resistência. Em contextos de festivais patrocinados e</line>
    <line>institucionalizados, ela se transforma em um</line>
    <line>dispositivo visual</line>
    <line>que atua na reconfiguração sim-</line>
    <line>bólica e material dos territórios periféricos. Esta categoria refere-se a um conjunto de práticas,</line>
    <line>imagens e suportes materiais (como grafites, murais, registros digitais etc.) que atuam como me-</line>
    <line>canismos de intervenção no espaço urbano e na produção de subjetividades. Assim, é necessário</line>
    <line>observar esta categoria a partir de um contexto foucaultiano, ao tratar de uma tecnologia de poder</line>
    <line>que, através do visível, influencia a regulação de comportamentos e reconfiguração simbólica de</line>
    <line>territórios periféricos.</line>
    <line>Nesse sentido, o Festival Concreto é tomado como um caso representativo para se pensar o que</line>
    <line>denominamos de</line>
    <line>governo visual</line>
    <line>das margens urbanas, articulando as noções foucaultianas de go-</line>
    <line>vernamentalidade (Foucault, 2008) com o conceito de “cidade fortificada” de Maciel (2023-2024),</line>
    <line>que descreve processos contemporâneos de segregação e gestão de “territórios e populações”</line>
    <line>considerados residuais. Esta categoria diz respeito a um conjunto de estratégias de gestão urbana</line>
    <line>que utiliza o campo do visível, especialmente por meio de intervenções artísticas institucionali-</line>
    <line>zadas, para administrar populações e espaços marginalizados. Articula-se com a ideia de “cidade</line>
    <line>fortificada” de Maciel (2023-2024), na medida em que, ao embelezar e requalificar simbolicamen-</line>
    <line>te as “margens”, pode-se reforçar dinâmicas de controle simbólico e de integração seletiva dos</line>
    <line>espaços urbanos.</line>
    <line>1 O presente artigo é um recorte da dissertação de mestrado de Silva (2025), desenvolvida no Programa de Pós-Graduação</line>
    <line>em Sociologia (PPGS) da Universidade Estadual do Ceará (UECE).</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3</line>
    <line>ARTE URBANA E GOVERNAMENTALIDADE VISUAL NAS MARGENS DE FORTALEZA, CEARÁ</line>
    <line>A noção foucaultiana de governamentalidade, embora central para este artigo, pode ser comple-</line>
    <line>mentada pela crítica que Rancière (2005) dirige ao biopoder. Para o autor, a política não se reduz</line>
    <line>à gestão das populações (a “polícia”, no seu sentido específico), mas manifesta-se precisamente</line>
    <line>quando aqueles que não têm parte na partilha do sensível reivindicam voz e visibilidade. A arte</line>
    <line>urbana, nesse quadro, não seria apenas uma tecnologia de governo; seria também um operador</line>
    <line>dissensual, capaz de romper a distribuição hegemônica de lugares e de suas funções, criando fis-</line>
    <line>suras na ordem policial. Não podemos perder de vista esta perspectiva, pois ela nos permite com-</line>
    <line>preender o Festival Concreto não como um dispositivo unívoco, mas como um campo de forças em</line>
    <line>que lógicas de regulação e de subjetivação política coexistem em tensão (Galdino, 2017).</line>
    <line>Em termos metodológicos, este artigo se baseia em pesquisa qualitativa que combina observação</line>
    <line>de campo, nos níveis presencial e virtual, entrevistas semiestruturadas com artistas, produtores e</line>
    <line>moradores, e análise iconológica de imagens produzidas durante o festival, seguindo os níveis in-</line>
    <line>terpretativos propostos por Panofsky (2014). A análise busca compreender como as intervenções</line>
    <line>artísticas atuam simultaneamente como ferramentas de fortalecimento comunitário e de controle</line>
    <line>simbólico, revelando as tensões inerentes à arte urbana no atual contexto neoliberal.</line>
    <line>MÉTODO</line>
    <line>A arte urbana, em suas diversas expressões (</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>, pixo e muralismo), possui uma história mar-</line>
    <line>cada pela ambiguidade. Se, por um lado, emerge das periferias como linguagem de contestação e</line>
    <line>apropriação do espaço público (Silva, 2025), por outro, vem sendo progressivamente incorporada</line>
    <line>a políticas urbanas e circuitos culturais institucionalizados. Essa dupla face é particularmente vi-</line>
    <line>sível em festivais como o Concreto, que funcionam como “zonas de mediação” entre a cultura das</line>
    <line>ruas e as agendas de gestão municipal.</line>
    <line>Para analisar essa dinâmica, mobilizamos o conceito de governamentalidade (Foucault, 2008):</line>
    <line>conjunto de técnicas e saberes que conduzem as condutas das populações pela regulação da vida</line>
    <line>cotidiana, não pela repressão direta. A arte urbana, nesse quadro, pode ser compreendida como</line>
    <line>uma tecnologia de governo que atua à distância, moldando comportamentos, subjetividades e a</line>
    <line>própria percepção do espaço. Como observa Rose (2012), as práticas visuais são centrais na pro-</line>
    <line>dução de regimes de verdade e na gestão dos corpos na cidade.</line>
    <line>Esse processo se insere no contexto da cidade fortificada (Maciel, 2024), onde a segregação so-</line>
    <line>cioespacial se intensifica por meio de barreiras físicas e simbólicas que caracterizam “incluídos” e</line>
    <line>“excluídos”. Nas periferias de Fortaleza, essa lógica se manifesta na concentração de populações de</line>
    <line>baixa renda em conjuntos habitacionais distantes das áreas centrais, com escassos equipamentos</line>
    <line>culturais. O Festival Concreto, ao intervir nesses territórios, atua em uma zona de fronteira que</line>
    <line>pode ressignificar positivamente a identidade local, mas também reforçar a estetização controla-</line>
    <line>da das margens, integrando-as a uma lógica de “requalificação” (Campos, 2021; Zukin, 1996).</line>
    <line>Para além das análises de Harvey (2008) e Zukin (1996), autores como Peck e Tickell (2002) e</line>
    <line>Brenner e Theodore (2002) demonstram que o neoliberalismo urbano não se reduz a políticas de</line>
    <line>austeridade, mas envolve a criação de “ambientes competitivos” entre cidades, nos quais a cultura</line>
    <line>e a arte são mobilizadas como atrativos para investimentos e turismo. Essas leituras complemen-</line>
    <line>tam a perspectiva adotada neste artigo, já que festivais como o Concreto podem ser instrumentos</line>
    <line>de uma gestão neoliberal que utiliza a estética para reposicionar territórios periféricos no merca-</line>
    <line>do simbólico da cidade, sem necessariamente redistribuir recursos ou poder de decisão. Confor-</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4</line>
    <line>Natanael Nathan Pereira da Silva; Wellington Ricardo Nogueira Maciel</line>
    <line>me Lefebvre (2011) já alertava, o direito à cidade não pode se restringir ao acesso ao edificado;</line>
    <line>este exige a transformação das relações sociais que produzem a segregação e a precariedade.</line>
    <line>Mesmo trazendo neste artigo depoimentos de moradores, artistas e agentes culturais, reconhe-</line>
    <line>ce-se que a recepção das obras pelos residentes merece um aprofundamento etnográfico mais</line>
    <line>sistemático, que incluiria observação participante de longa duração e entrevistas em profundida-</line>
    <line>de com diferentes segmentos comunitários. A coleta e análise mais extensiva dessas vozes, espe-</line>
    <line>cialmente de adolescentes, idosos e mulheres, poderão ser objeto de exposição futura, na qual se</line>
    <line>pretende dar visibilidade mais ampla às múltiplas interpretações que as intervenções artísticas</line>
    <line>suscitam no cotidiano periférico.</line>
    <line>O FESTIVAL CONCRETO: ENTRE A CENA CULTURAL E A POLÍTICA URBANA</line>
    <line>O Festival Concreto surgiu em 2013 e rapidamente se estabeleceu como um dos principais palcos</line>
    <line>da arte urbana no Nordeste, simbolizando a entrada do</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>no circuito institucional de Forta-</line>
    <line>leza. Seu idealizador, Narcélio Grud, figura conhecida na área das artes visuais, descreve o Festival</line>
    <line>como uma “galeria a céu aberto” que busca “democratizar a arte” e ocupar diferentes regiões da</line>
    <line>cidade. Desde sua primeira edição, o evento caracterizou-se pela ambição de integrar a cena local</line>
    <line>a circuitos internacionais, promovendo intervenções de grande escala em áreas centrais de visi-</line>
    <line>bilidade.</line>
    <line>No entanto, a partir de 2020, com a sétima edição realizada no RJEFG, ocorre um deslocamento</line>
    <line>geográfico e político significativo, sendo esta a primeira experiência do Festival em um Residen-</line>
    <line>cial; em 2022, a oitava edição foi realizada em outro Residencial, agora no RCJ2. Guardadas as de-</line>
    <line>vidas particularidades, trata-se de conjuntos habitacionais periféricos, marcados pelo isolamento</line>
    <line>geográfico e pela precariedade de infraestrutura. Esse movimento do Festival não se constitui em</line>
    <line>uma ação meramente logística, mas reflete uma reorientação estratégica que tensiona as próprias</line>
    <line>raízes da arte urbana e suas relações com o Estado e o território.</line>
    <line>Esse deslocamento para as margens urbanas possui uma dupla motivação, articulando anseios</line>
    <line>artísticos e condicionantes materiais. Por um lado, responde a um desejo expresso por Narcélio</line>
    <line>Grud de retornar às “raízes” do</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>e promover uma interação mais orgânica com as comunida-</line>
    <line>des. Em entrevista, o idealizador afirmou que realizar o evento na periferia era “como uma volta às</line>
    <line>raízes do que é o movimento</line>
    <line>graffiti</line>
    <line>” e que o bairro lembrava sua própria adolescência em áreas</line>
    <line>periféricas de Fortaleza.</line>
    <line>Por outro lado, essa mudança está intrinsecamente ligada a dinâmicas de financiamento cultural,</line>
    <line>especialmente à captação de recursos via editais públicos, como os viabilizados pela Lei Aldir</line>
    <line>Blanc em 2020, e a parcerias com instituições estatais, a exemplo do Centro Dragão do Mar de Arte</line>
    <line>e Cultura. Essa dependência de recursos institucionais insere o festival em um campo de tensão</line>
    <line>entre autonomia criativa e alinhamento a políticas culturais oficiais. Como analisa Weyne (2014),</line>
    <line>o campo da produção cultural no Ceará é atravessado por disputas de poder, onde a dependência</line>
    <line>de financiamentos institucionais cria uma tensão entre autonomia criativa e alinhamento com</line>
    <line>expectativas de investidores e de editais públicos. O Festival, portanto, circunda o discurso de</line>
    <line>ocupação insurgente e as pragmáticas exigências da gestão cultural pública.</line>
    <line>Para além da retórica da “democratização da arte”, é necessário identificar os atores concretos que</line>
    <line>viabilizam o festival e os interesses que mobilizam. Nas edições analisadas, as parcerias privadas inclu-</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>íram vinculados construção e comércio Esses não   </line>
    <line>como financiadores passivos: estabelecem contrapartidas bem concretas, como a inserção de logomar- </line>
    <line>cas murais, realização oficinas foco “empreendedorismo e produção   </line>
    <line>relatórios impacto ou práticas ajudam moldar estética evento.   </line>
    <line>esses e a Bourdieu chamaria “novos culturais”,   </line>
    <line>fundamental para evitar que a análise se perca em generalizações sobre a arte nas periferias.  </line>
    <line>É notar a urbana atravessada uma coletiva”, termos  </line>
    <line>Becker que compreender Festival não produto uma  </line>
    <line>vontade ou mas resultado uma heterogênea atores  </line>
    <line>(artistas, produtores, financiadores, curadores, moradores) que negociam convenções estéticas,  </line>
    <line>orçamentos e visibilidades. Essa perspectiva evidencia as tensões internas ao festival, observa a  </line>
    <line>autonomia criativa e as exigências dos patrocinadores entre a cultura de rua e as lógicas curatoriais  </line>
    <line>e institucionais, frequentemente ocultadas quando se atribui ao evento uma intencionalidade  </line>
    <line>monolítica, seja de resistência, seja de cooptação. </line>
    <line>A sétima edição contou com patrocínio da  Ente Nazionale per l’Energia Elettrica (ENEL), cuja mar- </line>
    <line>ca associada evento peças divulgação. empresa insere um de  </line>
    <line>apelo comunitário, associando-se à “responsabilidade social”, movimento que Zukin (1996) deno - </line>
    <line>mina m o utiliza arte construir em pe- </line>
    <line>riféricos. da o indica participaçãde culturais educacionais  </line>
    <line>como a Escola Porto Iracema das Artes, vinculada à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, que  </line>
    <line>atuou na formação de artistas e na mediação de oficinas. </line>
    <line>A edição, RCJ2 manteve lógica articulação diferentes ao  </line>
    <line>de patrocinadores privados, o festival contou com a parceria do Coletivo Rebento, uma organiza- </line>
    <line>ção local, da espaço difusão conhecimento cultura, responsabi- </line>
    <line>lidade moradores Essa entre independentes, periféricos,  </line>
    <line>equipamentos estatais e empresas privadas revela uma rede híbrida de atores que, ao mesmo tem- </line>
    <line>po, o à insere práticas em de regulada”  </line>
    <line>2019), características da gestão cultural neoliberal.</line>
    <line>A infraestrutura midiática acionada pelo festival é outro elemento central para compreender seus  </line>
    <line>mecanismos de produção e a atuação de seus atores. O relatório da sétima edição revela uma valora- </line>
    <line>ção de mídia de R$ 863.066,56, distribuída da seguinte forma: R$ 219.000 em televisão, R$ 471.000 </line>
    <line>em jornal impresso (sobretudo no Diário do Nordeste), R$ 18.600 em rádio e R$ 153.500 na  w .  A  </line>
    <line>cobertura veículos O e Diário Nordeste, de de e rá- </line>
    <line>dio. Esse regime visual é operado por uma rede de intermediários, produtores culturais, curadores,  </line>
    <line>assessores imprensa, fotógrafos, trabalho frequentemente quando </line>
    <line>se atribui ao festival uma intencionalidade monolítica (Becker, 2008). </line>
    <line>Ainda que mobilize atores públicos (Secretaria da Cultu- </line>
    <line>dos Iquine), Festival conta urbanistacomo de organização  </line>
    <line>e sua Tal é a estética residenciais à  </line>
    <line>margem dos planos diretores e das políticas habitacionais, como intervenção simbólica descolada  </line>
    <line>de infraestrutura, de mobilidade ou de redistribuição de recursos.   </line>
    <line>Essa desconexão entre a “cidade bonita”, celebrada nos murais, nas redes sociais e nas matérias de  </line>
    <line>jornal a vivida”, pela dos pela e ausência</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6 </line>
    <line>do revela caráter de políticas em periféricos.  </line>
    <line>alerta (2008), intervenções atuar mecanismos “acumulação des - </line>
    <line>possessão 2 ” ao valorizar simbolicamente territórios sem alterar sua estrutura de desigualdade, e a  </line>
    <line>ausência dos urbanistas na equação sugere que a produção estética do espaço não se articula com  </line>
    <line>uma produção efetivamente democrática e participativa da cidade. </line>
    <line>A escolha dos residenciais como  locus  do festival não é aleatória: esta responde a uma dupla lógica  </line>
    <line>que envolve atores com interesses distintos. Por um lado, atende ao discurso do idealizador de  </line>
    <line>“volta raízes”  graffiti  de do arte, retórica que artis- </line>
    <line>tas e produtores culturais. Por outro lado, insere o festival em um circuito de visibilidade seletiva  </line>
    <line>que, ao mesmo tempo, celebra as margens, as torna legíveis e administráveis para o poder público  </line>
    <line>(que apresentar evento política inclusão e o (que  </line>
    <line>sua marca a territórios “requalificados”). Esse movimento, que combina a retórica da inclusão com  </line>
    <line>a do territorial, central gestão contemporânea, observam  </line>
    <line>Peck e Tickell (2002) ao analisar a competição entre cidades por visibilidade no mercado cultural. </line>
    <line>A análise das entrevistas com artistas e produtores envolvidos nas edições do RJEFG (2020) e do  </line>
    <line>RCJ2 indica esse discurso: celebração arte ferramenta  </line>
    <line>transformação social e de frustração diante das estruturas excludentes do financiamento cultural.  </line>
    <line>Os artistas participantes do Festival frequentemente destacavam o impacto positivo das interven-</line>
    <line>ções no pertencimento e na autoestima da comunidade, como visto nos murais que dialogavam  </line>
    <line>com a série “Vetinflix” ou com ícones religiosos afrocentrados.  </line>
    <line>Contudo, paralelamente, emergiu um relato consistente com as dificuldades de acesso a recursos.  </line>
    <line>A produtora cultural Lara Gomez, atuante em várias edições do Festival, destacou, com grande  </line>
    <line>descontentamento, dificuldade financiar periféricas e a - </line>
    <line>centração dos culturais em centrais litorâneas, difí - </line>
    <line>cil acesso à população periférica. Esse depoimento evidencia as hierarquias espaciais e simbólicas  </line>
    <line>no campo cultural, nas quais iniciativas nascidas e voltadas para as margens enfrentam barreiras  </line>
    <line>adicionais para se tornarem legítimas e viáveis.  </line>
    <line>ANÁLISE ICONOLÓGICA E GOVERNAMENTALIDADE VISUAL </line>
    <line>O iconológico Panofsky foi para as obras A  </line>
    <line>descrição identificou visuais a iconográfica  - </line>
    <line>pretou-os partir narrativas a iconológica como imagens  </line>
    <line>atuam dispositivos poder. triangulação análise observações entrevistas  </line>
    <line>ampliou a compreensão das práticas de governamentalidade.  </line>
    <line>Em comum, essas obras ilustram a capacidade da arte urbana de forjar narrativas contra-hegemô- </line>
    <line>nicas, ao mesmo tempo em que revelam como o circuito institucional do festival pode enquadrar,  </line>
    <line>financiar instrumentalizar narrativas, a de urbana  </line>
    <line>governança cultural. </line>
    <line>2  FOTO: / Internacional  [@festivalconcreto], Mural Tales no  - </line>
    <line>cial Euclides. Disponível [https://www.instagram.com/p/CK4_CHKliHN/?igsh=MXdzMzYxdGFveHp - </line>
    <line>saw==]. Acesso em: 15 fev. 2026.</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>ANÁLISE DAS OBRAS </line>
    <line>Figura 1 – Personagens da série cearense La Casa Du’z Vetin </line>
    <line>Fonte: Acervo do Festival Internacional Concreto [@festivalconcreto] no Instagram, 2021 3 </line>
    <line>O mural retrata nove jovens periféricos em agasalhos vermelhos, em poses firmes, punhos fechados, </line>
    <line>mãos sobre o peito, polegares erguidos que sugerem autoafirmação e resistência. A estética gráfica e </line>
    <line>a diversidade de corpos, etnias e gêneros reforçam uma narrativa de união e pertencimento.   </line>
    <line>No momento análise, partir proposta compreende-se a repre- </line>
    <line>senta personagens série Casa Vetin”, selo uma cearense  </line>
    <line>série “La de criada interpretada jovens de periféricos  </line>
    <line>de Na cada representa bairro cidade carrega sua  </line>
    <line>história, seu sotaque, seus problemas e sua criatividade. Assim, os rostos pintados encarnam uma  </line>
    <line>representação simbólica de um território urbano (bairro) e de uma juventude marginalizada, mas  </line>
    <line>também vibrante, criativa e crítica. </line>
    <line>A vermelha diretamente uniforme série  La de , porém,  </line>
    <line>ressignificada uma no local, especificamente periferias  </line>
    <line>Fortaleza, num contexto comunitário e político, é possível evocar outros significados. Em torno do  </line>
    <line>vermelho roupas há um estético uniforme; cor também  </line>
    <line>a um símbolo de luta, visibilidade e resistência de grupos marginalizados. O  graffiti  e a linguagem  </line>
    <line>visual uma iva acessível profundamente às da  </line>
    <line>juventude periférica na cidade. </line>
    <line>Na etapa, uma iconológica, os com  </line>
    <line>profundidade compreendendo símbolos no Neste de o  </line>
    <line>3  VRALCRIATIVO. Murais das artistas Naniitopia, Bruna Cioly e Wira Tini no Residencial Cidade Jardim II. Instagram: @festi- </line>
    <line>valconcreto. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CnhVCcPrvIb/. Acesso em: 15 fev. 2026.</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8</line>
    <line>Natanael Nathan Pereira da Silva; Wellington Ricardo Nogueira Maciel</line>
    <line>é compreendido como uma espécie de manifesto visual, em um determinado contexto da periferia</line>
    <line>de Fortaleza, que reafirma sua presença simbólica na cidade por meio da cultura urbana e da arte</line>
    <line>coletiva de formas inventivas e próprias. Ele expressa o que Panofsky (2014) chamou de “visão</line>
    <line>de mundo” de um grupo social: mas traduzida pelo pincel do artista institucionalizado, que alça a</line>
    <line>condição de ator que reinterpreta o sentido da cultura local</line>
    <line>A obra sugere uma inversão dos olhares estigmatizantes: os jovens moradores da periferia, que</line>
    <line>comumente são retratados pela mídia como “problema”, tornam-se, a partir do mural, protago-</line>
    <line>nistas, artistas e personagens de sua própria narrativa. Essa inversão é, num primeiro momento,</line>
    <line>uma crítica visual à desigualdade urbana e à marginalização, nesse contexto que representa um</line>
    <line>dos menores Índices de Desenvolvimento Humano de Fortaleza, utilizando o espaço público, num</line>
    <line>lugar central do RJEFG, como tela para narrativas dessa juventude.</line>
    <line>Além disso, o mural cria um diálogo entre arte e território, entre juventude e pertencimento. Cada</line>
    <line>personagem/bairro, representado como herói de sua própria história, torna-se parte de uma luta</line>
    <line>coletiva, cultural, política e estética. Segundo Pifano (2010), na iconologia, é essencial buscar o</line>
    <line>contexto simbólico e histórico que produz a imagem. Neste caso, o contexto da série, da pandemia,</line>
    <line>da exclusão digital, do racismo estrutural e da cultura periférica brasileira cria o pano de fundo</line>
    <line>que permite que o mural seja lido como um ato de insurgência visual, de expressão da vida nas</line>
    <line>margens da cidade e de construção de novas centralidades simbólicas.</line>
    <line>Neste contexto, a arte urbana funciona como expressão visual de valores sociais, segundo Panofsky</line>
    <line>(2014). O mural dos “vetin” ultrapassa a homenagem à série cearense, transformando-se em um</line>
    <line>documento de afirmação cultural e política de uma geração periférica, normalmente caracterizada</line>
    <line>pelo humor, pela arte e pela resistência. É a materialização do que Harvey (2008) considera ser o</line>
    <line>direito à cidade: o direito de produzir significados, ocupar visualmente os espaços e contestar a or-</line>
    <line>dem estabelecida. Ao mesmo tempo, é exemplo do que Foucault (2008) entenderia como disputa de</line>
    <line>narrativas nas tecnologias de poder: se o Estado e seus experts produzem sua governamentalidade</line>
    <line>com símbolos e controle, os “vetin” respondem com símbolos populares, arte e ironia crítica.</line>
    <line>Figura 2 – Sagrado Coração de Jesus e Maria Afrocentrados.</line>
    <line>Fonte: Foto de Vralcriativo para o perfil Festival Internacional Concreto [@festivalconcreto] no Instagram, 2023.4</line>
    <line>4 BARBOSA, Lucas.</line>
    <line>Residencial José Euclides chega a 100 dias sem homicídios;</line>
    <line>reunião marca data. Portal O POVO, 24 de</line>
    <line>janeiro de 2025. Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2025/01/24/residencial-jose-euclides-</line>
    <line>-chega-a-100-dias-sem-homicidios-reuniao-marca-data.html. Acesso em: 28 jan. 2026.</line>
  </page>
</document>
