<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24749, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24749  </line>
    <line>Dossiê: Sociologia econômica no Brasil:  </line>
    <line>reconfigurações dos mercados e disputas de poder  </line>
    <line>E-ISSN: 2318-9010 / ISSN:1517-4549  </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>PLATAFORMAS DIGITAIS E  </line>
    <line>STARTUPS COMO ATIVOS FINANCEIROS:  </line>
    <line>A dinâmica temporal dos novos negócios </line>
    <line>Marcel Maggion Maia* 1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>O artigo parte da constatação de que, em suas fases incipientes, as plataformas digitais dependem de capital  </line>
    <line>para se desenvolverem. Reconhece ainda que os acordos entre empreendedores à procura de capital e inves - </line>
    <line>tidores de capital de risco se calcam no alinhamento de expectativas. Sustentado por entrevistas qualitativas  </line>
    <line>com do de argumenta no das de os  </line>
    <line>empreendedores qualificados ativos promissores, seja, de valor  </line>
    <line>ao do Ao a temporal plataformas, artigo três insti- </line>
    <line>tuídas: adiamento investimentos, manutenção múltiplas simultâneas a da  </line>
    <line>abertura de ofertas em eventos. </line>
    <line>Palavras-chaves: plataformas; startups; capital; futuro; investimento. </line>
    <line>*  Universidade São Centro das Brasileiras, Paulo,  E-mail:  marcel.maia@gmail.com </line>
    <line>  Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5336-5802 </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2</line>
    <line>Marcel Maggion Maia</line>
    <line>INTRODUÇÃO</line>
    <line>As plataformas digitais assumiram um lugar importante na vida cotidiana, permeando diferentes</line>
    <line>esferas do âmbito social (Langley; Leyshon, 2017). Na opinião pública, são por vezes associadas</line>
    <line>às capacidades de seus fundadores e aos altos valores monetários que movimentam. Na produção</line>
    <line>sociológica, porém, são as mudanças que estas têm promovido no mundo do trabalho que concen-</line>
    <line>tram o interesse dos pesquisadores (Rosenfield; Almeida, 2021). Não sem razão, uma vez que é</line>
    <line>antiga nossa tradição de enfocar os efeitos das transformações organizacionais.</line>
    <line>Ocorre que, ao longo do desenvolvimento dessas reflexões, a</line>
    <line>firma</line>
    <line>em si seguia sendo uma di-</line>
    <line>mensão mais cara à sociologia da empresa do que à sociologia do trabalho, embora os espaços de</line>
    <line>trabalho e as relações no interior das organizações estivessem, há muito, sob exame dos pesquisa-</line>
    <line>dores (</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Kirschner; Monteiro, 2002). Como aponta Guimarães (2009), embora avizinhados, esses</line>
    <line>campos produziram linhagens intelectuais específicas. Enquanto a sociologia do trabalho tinha</line>
    <line>como temática privilegiada os processos de trabalho, a sociologia da empresa priorizou as trocas</line>
    <line>entre as firmas e entre as firmas e os indivíduos participantes do mercado. Assim, Guimarães</line>
    <line>(2009, p. 93) entende que, apesar destes campos terem se desenvolvido em torno de temas apar-</line>
    <line>tados, guardam um interesse comum pelo “comportamento institucionalizado ao redor de regras</line>
    <line>do tipo mercantil-capitalista”, levando-os a sublinhar o que circula e como circula em um mercado.</line>
    <line>Neste artigo, as plataformas serão abordadas a partir de uma lente que reconhece as empresas-</line>
    <line>-plataforma como objetos econômicos que pretendem circular e ganhar valor. Esta abordagem</line>
    <line>será inspirada pelo valor heurístico de compreender a emergência das plataformas digitais como</line>
    <line>uma atividade dirigida aos mercados. Nesta circulação, dois atores são fundamentais: de um lado,</line>
    <line>os empreendedores à procura de capital para as suas firmas; de outro, os investidores de capital</line>
    <line>de risco. Será evocada a ideia de que as relações privilegiadas por estes atores almejam transfor-</line>
    <line>mar projetos de negócios em ativos financeiros.</line>
    <line>Argumenta-se, então, que as plataformas estão enraizadas em um aparato institucional no qual</line>
    <line>as expectativas financeiras em torno da construção do valor são o fator explicativo-chave. Assim,</line>
    <line>reconhece-se que as plataformas descansam sobre uma temporalidade própria do mercado de</line>
    <line>capital de risco: o futuro. Esta abordagem permitirá levar nosso olhar sociológico, atualmente</line>
    <line>centrado nos trabalhadores que acorrem às plataformas para produzir renda, em direção às insti-</line>
    <line>tuições sociais que orientam os atores que constroem as firmas que operam as plataformas.</line>
    <line>O material empírico que fundamenta o tratamento teórico aqui empreendido tem caráter qualita-</line>
    <line>tivo e está apoiado em 37 entrevistas com empreendedores de firmas iniciantes de base tecnoló-</line>
    <line>gica (conhecidas como</line>
    <line>startups</line>
    <line>) que contaram com o apoio de aceleradoras de negócios – aqui de-</line>
    <line>finidas como organizações intermediadoras especializadas no aprimoramento de novos negócios.</line>
    <line>A coleta foi realizada em duas ondas: a primeira entre maio de 2021 e agosto de 2022 e a segunda</line>
    <line>ao longo de 2025. Este recorte busca, de um lado, circunscrever aqueles negócios baseados em</line>
    <line>Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), e, de outro, deter atividades empreendedoras</line>
    <line>cujos serviços/produtos não são digitalizados.</line>
    <line>O artigo está organizado em quatro seções. Na primeira delas, a dependência de recursos experi-</line>
    <line>mentada pelas firmas será abordada; na segunda, os dados sobre o volume de capital de risco em</line>
    <line>circulação no país; na terceira, como ocorre a qualificação que permite que projetos de negócios</line>
    <line>circulem enquanto objetos econômicos; e, na quarta seção, o papel do tempo na construção do</line>
    <line>valor. Na conclusão, constrói-se o argumento de que a proposta de enfocar o que importa aos</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3</line>
    <line>PLATAFORMAS DIGITAIS E</line>
    <line>STARTUPS</line>
    <line>COMO ATIVOS FINANCEIROS</line>
    <line>atores envolvidos na construção de plataformas fomenta o avanço de nosso conhecimento sobre</line>
    <line>a chamada plataformização.</line>
    <line>NOVAS EMPRESAS E DEPENDÊNCIA DE RECURSOS</line>
    <line>Ao abordar instituições sociais que estabelecem as condições de possibilidade para que os indi-</line>
    <line>víduos troquem nos mercados, dirige-se a atenção a um objeto que interessa aos sociólogos des-</line>
    <line>de os seus primórdios. Ao identificar uma “base não contratual dos contratos”, Durkheim (1995</line>
    <line>[1893]) volta-se à mesma sorte de leis e convenções que intrigam Weber (2015 [1918]), quando</line>
    <line>este indaga sobre as pré-condições institucionais para que a organização e a distribuição da pro-</line>
    <line>dução industrial tenham lugar nos mercados. Subjacente a essas reflexões, existe a ideia de que</line>
    <line>as instituições sociais não operam apenas de maneira coercitiva, mas também facilitam a troca.</line>
    <line>Ademais, desde cedo, os sociólogos ressaltam que as instituições informais também cumprem um</line>
    <line>importante papel na estabilidade das relações entre indivíduos que, apesar de não se conhecerem</line>
    <line>diretamente, trocam.</line>
    <line>Diante dessa tradição e com atenção ao fato de que ainda conhecemos pouco sobre as condições</line>
    <line>sob as quais as plataformas digitais são introduzidas nos mercados, parte-se da ideia de que qua-</line>
    <line>lificar uma ideia de negócio incipiente é uma das condições de possibilidade para tal. Assim, será</line>
    <line>observada a qualificação de uma ideia de negócio como uma atividade integrada ao processo de</line>
    <line>construção de um bem (a firma) que pretende circular em dado mercado (Kopytoff, 2008 [1986]).</line>
    <line>O caso das plataformas digitais iniciantes é especialmente interessante porque, muitas vezes, os</line>
    <line>agentes fundamentais – empreendedores e investidores – atribuem valor a projetos de negócios</line>
    <line>que precisarão reunir capital suficiente para serem desenvolvidas e colocadas à prova nos merca-</line>
    <line>dos.</line>
    <line>Todas as firmas precisam levantar capital para financiar suas operações (Fligstein; Choo, 2005, p.</line>
    <line>63). Comumente, elas recorrem aos bancos, à oferta pública de suas ações e a outros. Ocorre que,</line>
    <line>no caso das firmas iniciantes, dada a ausência de ferramentas adequadas para avaliar o potencial</line>
    <line>dos projetos, os bancos exigem garantias de crédito que, em geral, não podem ser atendidas pelos</line>
    <line>empreendedores (Aldrich, 2005). Nesse contexto, os empreendedores recorrem a investidores</line>
    <line>formais organizados em firmas de</line>
    <line>venture capital</line>
    <line>(VC)</line>
    <line>1</line>
    <line>.</line>
    <line>No entanto, essas firmas também se servem de dados relativos aos riscos envolvidos. Em geral,</line>
    <line>eles só podem ser produzidos por firmas que já operam nos mercados consumidores. Como as</line>
    <line>startups</line>
    <line>precisam de capital</line>
    <line>antes</line>
    <line>dessa fase, os empreendedores costumam recorrer a inves-</line>
    <line>tidores informais, conhecidos como “investidores-anjo”. Trata-se de indivíduos que prospectam</line>
    <line>projetos para neles se envolverem de forma ativa, fornecendo sugestões especializadas para fa-</line>
    <line>zê-los crescer (Aldrich, 2005). Frequentemente, tanto investidores informais quanto investidores</line>
    <line>formais seguem um modelo de troca de recursos por participação societária nas</line>
    <line>startups</line>
    <line>em que</line>
    <line>investem. Ou seja, em determinado momento do desenvolvimento das firmas, tornam-se sócios</line>
    <line>das firmas às quais oferecem suporte.</line>
    <line>1</line>
    <line>O capital de risco (</line>
    <line>venture capital</line>
    <line>) integra o setor de</line>
    <line>Private Equity</line>
    <line>e</line>
    <line>Venture Capital</line>
    <line>(PE/VC) e está relacionado a empresas</line>
    <line>com alto potencial de crescimento, mas que ainda passam por ajustes; já o</line>
    <line>private equity</line>
    <line>refere-se a empresas consolidadas</line>
    <line>em fase de reestruturação, consolidação ou expansão de seus negócios. Formalmente, o setor de PE/VC é composto por</line>
    <line>quatro agentes: as organizações gestoras, os veículos de investimento, os investidores e as empresas investidas. Para uma</line>
    <line>breve análise sobre VCs no Brasil nos anos 2000,</line>
    <line>cf.</line>
    <line>Carvalho; Gallucci-Netto; Sampaio (2014).</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4</line>
    <line>Marcel Maggion Maia</line>
    <line>No centro deste debate, está a noção de dependência de recursos, um constructo que trata das</line>
    <line>estruturas em torno do acesso a recursos controlados por outras organizações (Pfeffer; Salancik,</line>
    <line>1978). Em um nível interpretativo macro, diversos estudos demonstram a crescente dependência</line>
    <line>das organizações produtoras das financeiras. Destacam-se nessa linha interpretações em torno da</line>
    <line>“financeirização” das práticas econômicas (Epstein, 2005) e da prevalência da estratégia de “</line>
    <line>sha-</line>
    <line>reholder value</line>
    <line>”, isto é, a gestão empresarial calcada na maximização dos retornos aos investidores</line>
    <line>(Fligstein; Goldstein, 2022).</line>
    <line>Quando se trata do financiamento de firmas já estabelecidas, as expectativas de valor estão las-</line>
    <line>treadas em informações históricas. No caso de novos negócios, trata-se de projetos que requerem</line>
    <line>financiamento</line>
    <line>antes</line>
    <line>de se constituírem burocraticamente,</line>
    <line>antes</line>
    <line>de produzirem valor e</line>
    <line>antes</line>
    <line>de</line>
    <line>capturarem valor. A dependência de recursos é um fator crucial, tal como destacam Stearns e Mi-</line>
    <line>zruchi (2005). Nesse sentido, as novas firmas baseadas em tecnologias podem ser vistas como</line>
    <line>organizações ancoradas em imagens do futuro. Nos termos esclarecedores de Cetina (2015), o</line>
    <line>empreendedor que pretende que seu projeto seja reconhecido por um potencial investidor como</line>
    <line>crível, promissor e merecedor de recursos é alguém que apresenta uma “promessa de lucros fu-</line>
    <line>turos”, enquanto o investidor é aquele que “compra” essa promessa. Vejamos, então, o volume de</line>
    <line>capital que promessas desta ordem movimentam.</line>
    <line>CAPITAL DE RISCO E NOVAS EMPRESAS-PLATAFORMA NO BRASIL</line>
    <line>Quando se focalizam os fundos de</line>
    <line>VC</line>
    <line>, que miram firmas já operantes em seus mercados, o es-</line>
    <line>tudo realizado pela Associação Brasileira de</line>
    <line>Private Equity</line>
    <line>e</line>
    <line>Venture Capital</line>
    <line>(ABVCAP) é uma</line>
    <line>das referências a esse respeito. Ao coletar informações públicas e fornecidas por 248 gestores</line>
    <line>nacionais e estrangeiros de fundos, ele aponta o crescimento dos investimentos dessa modalidade</line>
    <line>a partir de 2017, tal como se vê no Gráfico 1. Indica, ainda, o crescimento do número de firmas</line>
    <line>investidas por ano (Gráfico 2) e o aumento do valor médio investido em cada firma (Gráfico 3).</line>
    <line>Gráfico 1</line>
    <line>– Investimentos em</line>
    <line>Venture Capital</line>
    <line>por ano – Brasil – de 2015 a 2020</line>
    <line>(em bilhões de reais, R$).</line>
    <line>Fonte: Associação Brasileira de</line>
    <line>Private Equity e Venture Capital</line>
    <line>– ABVCAP (2021, p. 20). Valores nominais, tais como apresen-</line>
    <line>tados na fonte.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>Gráfico 2 – Número de empresas investidas por empresas de  Venture Capital ,  </line>
    <line>por ano – Brasil – de 2015 a 2020 (NA). </line>
    <line>Fonte: Brasileira  Private y e Venture   /ABVCAP p. Valores tais apresen - </line>
    <line>tados na fonte. </line>
    <line>Gráfico 3 – Valor médio dos investimentos por empresas de Venture Capital por firma,  </line>
    <line>por ano – Brasil – de 2015 a 2020 (em milhões de reais, R$). </line>
    <line>Fonte: Brasileira  Private y e Venture   /ABVCAP p. Valores tais apresen - </line>
    <line>tados na fonte. </line>
    <line>As ascendentes investimentos modalidade  VC  partir 2017 a  </line>
    <line>Ao menos dois fatores podem ajudar a explicar esse crescimento. Em primeiro lugar, há a chegada  </line>
    <line>de novas firmas de investimento ao país. Casos de sucesso, como o da Nu Pagamentos S.A., colabo - </line>
    <line>raram para esse movimento, atraindo a atenção de investidores internacionais ao País. Segundo a  </line>
    <line>Sling  , organização que dados investimento América os  </line>
    <line>investimentos se concentram nos estágios mais maduros, nas chamadas séries D, E, F e G (Gráfico  </line>
    <line>4). são para firmas, Nu S.A. QuintoAndar, recebem  </line>
    <line>grandes es recursos. geral, séries o de a re- </line>
    <line>cursos é maior, mas o valor médio das rodadas de investimento é menor.</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6</line>
    <line>Marcel Maggion Maia</line>
    <line>Gráfico 4 – Valor médio de investimentos segundo estágio de investimento – Brasil –</line>
    <line>de 2018 a 2022 (em dólares americanos, US$).</line>
    <line>Fonte:</line>
    <line>Sling Hub</line>
    <line>(2023a).</line>
    <line>Em segundo lugar, observa-se a aceleração da digitalização de setores ricos em recursos devido</line>
    <line>ao isolamento social implementado durante a pandemia de COVID-19. Apesar de este evento ter</line>
    <line>impactado negativamente o curso de desenvolvimento de</line>
    <line>startups</line>
    <line>iniciantes em certos setores, o</line>
    <line>volume consolidado de recursos de</line>
    <line>VC</line>
    <line>cresceu: em 2021, US$ 16,9 bilhões foram investidos em</line>
    <line>startups</line>
    <line>, enquanto, em 2020, o volume foi de US$ 5,6 bilhões (Distrito, 2023, p. 36). A aceleração</line>
    <line>da digitalização de setores dominados por grandes empresas, como o financeiro e o de saúde,</line>
    <line>parece ter colaborado para esse movimento ao sinalizar aos investidores que as</line>
    <line>startups</line>
    <line>capazes</line>
    <line>de contribuir nesse processo teriam boas chances de serem adquiridas rapidamente por corpo-</line>
    <line>rações.</line>
    <line>Ainda explorando os dados quantitativos disponíveis, o quadro 1 exibe os valores das cinco</line>
    <line>star-</line>
    <line>tups</line>
    <line>que receberam os maiores montantes em 2021 (Distrito, 2021).</line>
    <line>Quadro 1 – Valores investidos por startup – Startups selecionadas – 2021</line>
    <line>(em milhões de dólares americanos, US$).</line>
    <line>Posição Startup</line>
    <line>Valor em 2021</line>
    <line>(milhões de US$)</line>
    <line>1 Nu Pagamentos S.A. (plataforma de serviços financeiros digitais) 1.150</line>
    <line>2 Loft (imobiliária digital) 425</line>
    <line>3 Ebanx (pagamentos digitais) 400</line>
    <line>4 QuintoAndar (imobiliária digital) 300</line>
    <line>5 Facily (comércio eletrônico) 250</line>
    <line>Fonte: Distrito (2021, p. 8). Valores nominais, tais como apresentados na fonte.</line>
    <line>Para se ter uma referência, o total de recursos direcionados pela Fundação de Amparo à Pesquisa</line>
    <line>do Estado de São Paulo (Fapesp) a pesquisas de inovação em parceria com empresas foi de R$ 105</line>
    <line>milhões em 2020 (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, 2020). Naquele mes-</line>
    <line>mo ano, as firmas de</line>
    <line>VC</line>
    <line>investiram, em média, R$ 73 milhões por firma. Ou seja, alocaram em uma</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7</line>
    <line>PLATAFORMAS DIGITAIS E</line>
    <line>STARTUPS</line>
    <line>COMO ATIVOS FINANCEIROS</line>
    <line>única</line>
    <line>startup</line>
    <line>o equivalente a 70% de todo o orçamento anual da Fapesp naquela rubrica. Apesar</line>
    <line>da diferença entre os estágios de desenvolvimento das firmas impedir a comparação direta, o que</line>
    <line>se destaca aqui é que os investidores concentram seus recursos em firmas cujo foco não é exata-</line>
    <line>mente Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&amp;I), mas empresas que transformam em plataformas e</line>
    <line>digitalizam serviços conhecidos: imobiliários (QuintoAndar e Loft), financeiros (Nu Pagamentos</line>
    <line>S.A. e Ebanx) e varejistas (Facily). Ou seja, a inovação que apresentam refere-se mais à digitaliza-</line>
    <line>ção (aliada à intensificação do trabalho, dentre outras) de serviços ordinários do que à introdução</line>
    <line>de novos produtos e serviços nos mercados consumidores.</line>
    <line>Avanços desse tipo foram, por vezes, considerados menores em relação às atividades científicas</line>
    <line>e tecnológicas (Arbix, 2010). O crescimento de países como China e Índia revelou, porém, o papel</line>
    <line>que os pequenos incrementos tecnológicos, alguns baseados em imitação e cópia, cumprem nas</line>
    <line>economias. Como lembra Arbix (</line>
    <line>Ibid</line>
    <line>., p. 169), “na economia real a inovação se refere à primeira</line>
    <line>comercialização de uma ideia ou projeto; por isso mesmo, seu</line>
    <line>locus</line>
    <line>privilegiado é a empresa, ca-</line>
    <line>paz de manter sintonia fina com a produção e a comercialização”.</line>
    <line>Nesta direção, o argumento baseia-se no fato de que, para os agentes do mercado, é o potencial da</line>
    <line>nova firma que importa – mais precisamente, o potencial de ela se tornar um ativo financeiro de</line>
    <line>valor crescente. Mas como os investidores selecionam e valoram um bem cujo potencial para se</line>
    <line>tornar um ativo financeiro ainda não está qualificado?</line>
    <line>Qualificando projetos de plataformas digitais como ativos financeiros</line>
    <line>Nesta seção, será indicado que a plataformização de serviços, mesmo daqueles ordinários como os</line>
    <line>de fornecimento de refeições, é uma das condições de possibilidade para que projetos de negócios</line>
    <line>sejam encarados como potenciais ativos financeiros. Além disso, será indicado que esta valoração</line>
    <line>ocorre no interior das aceleradoras.</line>
    <line>Para tal intento, parte-se do caso de seis estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e da Uni-</line>
    <line>versidade Estadual Paulista (Unesp) que projetaram uma plataforma digital para auxiliar mulhe-</line>
    <line>res desempregadas a encontrar uma alternativa de renda durante a pandemia de COVID-19. Em</line>
    <line>2020, a ideia era conectar confeiteiras amadoras que buscavam renda aos consumidores desses</line>
    <line>produtos. Para tal, inscreveram-se no evento Desafio USP. Selecionados entre os 890 inscritos, os</line>
    <line>estudantes passaram quatro dias aperfeiçoando o modelo de negócios, com o auxílio de mentores</line>
    <line>(orientadores recrutados pelas aceleradoras). Ao fim, o projeto recebeu um prêmio que lhe facul-</line>
    <line>tou a participação nas aceleradoras</line>
    <line>StartupLab</line>
    <line>e</line>
    <line>Samsung Ocean</line>
    <line>.</line>
    <line>Dois anos depois, uma das empreendedoras foi encontrada no grupo do InovAtiva/Sebrae, um even-</line>
    <line>to que promove qualificação e encontros entre empreendedores iniciantes e investidores-anjo. A</line>
    <line>startup</line>
    <line>abandonou a plataforma de confeitos e passou a mirar o fornecimento de</line>
    <line>coffee breaks</line>
    <line>em</line>
    <line>eventos corporativos também por meio de uma plataforma. Após apresentar oralmente o projeto</line>
    <line>aos investidores presentes neste evento, a empreendedora responde a uma série de perguntas –</line>
    <line>sobre controle de qualidade dos alimentos, perfil das mulheres, dentre outras. Um questionamento,</line>
    <line>porém, ficou sem resposta. Os investidores consideram o tamanho do “mercado acessível” (</line>
    <line>Servicea-</line>
    <line>ble Obtainable Market</line>
    <line>) muito baixo (R$ 3 milhões) e recomendaram aprimoramentos neste sentido.</line>
    <line>Em um país com muitos fornecedores de alimentos prontos, o que torna possível que um projeto</line>
    <line>voltado a um nicho desse ramo seja foco de atenção de especialistas em negócios nascentes? A</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8</line>
    <line>Marcel Maggion Maia</line>
    <line>“escalabilidade”, no jargão do mundo dos negócios, ou seja, a possibilidade de a firma crescer sem</line>
    <line>aumentar os custos para tal na mesma proporção, é um dos fatores mais mencionados por inves-</line>
    <line>tidores e qualificadores. É neste ponto que as plataformas se destacam: o crescimento do número</line>
    <line>de clientes atendidos em uma plataforma não tende a ser acompanhado pelo aumento dos custos</line>
    <line>de transação, como ocorreria em negócios presenciais.</line>
    <line>A partir de dados empíricos desta ordem, entende-se que a noção de expectativa do valor (do</line>
    <line>projeto de negócio) permite que se avance no tratamento interpretativo. Isso revela, afinal, que</line>
    <line>tal expectativa não é dada, ou seja, intrínseca à capacidade dos empreendedores ou à tecnolo-</line>
    <line>gia desenvolvida. Precisa ser construída e esta construção está localizada nas aceleradoras de</line>
    <line>negócios.</line>
    <line>Teoricamente, as aceleradoras podem ser definidas como intermediadores que compõem as es-</line>
    <line>truturas edificadas pelos atores para reduzir os custos de aquisição de informações e de transação</line>
    <line>(Williamson, 1983). Contudo, acumulam-se evidências de que teorizações baseadas na eficiência</line>
    <line>alocativa são insuficientes para explicar a capitalização de firmas nascentes. Os primeiros estu-</line>
    <line>dos sobre o conglomerado do Vale do Silício, paradigma empírico das empresas de tecnologia da</line>
    <line>informação, já demonstravam que a criação de</line>
    <line>startups</line>
    <line>se estruturou em torno de relações inter-</line>
    <line>pessoais.</line>
    <line>Tais redes se institucionalizaram, ganhando rotinas, dispositivos e espaços próprios. As acelerado-</line>
    <line>ras se estabeleceram nos Estados Unidos e se difundiram em países de rápido avanço tecnológico,</line>
    <line>como Coreia do Sul e Taiwan. Mais recentemente, também em países que viram suas populações</line>
    <line>consumidoras de produtos e serviços digitais crescer, como China, Índia e Brasil (Saxenian, 2006).</line>
    <line>Autores como Mason e Brown (2014) reconhecem que, atualmente, as aceleradoras são “fábricas</line>
    <line>de</line>
    <line>startups</line>
    <line>”. A aceleradora</line>
    <line>Y Combinator</line>
    <line>, por exemplo, afirma ter recebido 19.000 inscrições para</line>
    <line>o seu programa de verão de 2022 e selecionado 240 dessas para se beneficiarem da qualificação e</line>
    <line>do investimento de capital que oferece.</line>
    <line>No Brasil, muitas firmas nascentes foram e são aperfeiçoadas nesses espaços. Uma aceleradora</line>
    <line>bastante seletiva, como a</line>
    <line>Google for Startups</line>
    <line>, por exemplo, acolhe cerca de 50</line>
    <line>startups</line>
    <line>ao ano em</line>
    <line>seus programas de longa duração no Brasil (</line>
    <line>Google for Startups</line>
    <line>, 2021). Diversas</line>
    <line>startups</line>
    <line>consi-</line>
    <line>deradas bem-sucedidas pelos agentes de mercado, como QuintoAndar (imobiliária digital que se</line>
    <line>apresenta como “a maior plataforma de moradia do Brasil”),</line>
    <line>IFood</line>
    <line>(plataforma de entrega de re-</line>
    <line>feições e outros produtos) e 99 (plataforma de mobilidade urbana e entrega de produtos), passa-</line>
    <line>ram por aceleradoras em alguma fase de seu desenvolvimento. Hoje, as aceleradoras concentram</line>
    <line>a rotinização de práticas capazes de converter uma ideia de negócio em um objeto econômico,</line>
    <line>que é selecionado e valorado. Esse processo de construção do valor é operado por mentores por</line>
    <line>meio da mobilização de dispositivos e da promoção de eventos do tipo</line>
    <line>demodays</line>
    <line>– eventos de en-</line>
    <line>cerramento dos cursos de qualificação prestados pelas aceleradoras em que os empreendedores</line>
    <line>apresentam seus projetos a investidores.</line>
    <line>Assim, propõe-se que as expectativas de valor são um fator-chave na interpretação de atividades</line>
    <line>empreendedoras baseadas em TICs. Note-se que Regina possui clientes em número crescente,</line>
    <line>mas seu objetivo não é exatamente atrair clientes, e sim atrair investidores. Por esta razão, ela</line>
    <line>trabalha para construir um projeto capaz de demonstrar que sua firma ganhará valor velozmen-</line>
    <line>te. Para aprender a apresentar seu projeto como um objeto econômico atraente, empreende-</line>
    <line>dores como Regina recorrem a aceleradoras bem-informadas sobre as métricas utilizadas por</line>
    <line>investidores.</line>
  </page>
</document>
