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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>DESENVOLVIMENTO E TRABALHO NA INDÚSTRIA  </line>
    <line>AUTOMOTIVA: percepções acerca da presença da  </line>
    <line>Stellantis em territórios greenfield no Brasil e na Itália*1 </line>
    <line>Maria Carolina Barcellos** 2 </line>
    <line>Raphael Jonathas da Costa Lima***3 </line>
    <line>Davide Bubbico****4 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sobre os movimentos sociais empresariais militantes  </line>
    <line>pela causa da “sustentabilidade” no Brasil. Diante do cenário de fortalecimento da circulação de agentes  </line>
    <line>empresariais por espaços formais do poder público nacional, foram investigadas as estratégias políticas  </line>
    <line>mobilizadas pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável na consolidação do  </line>
    <line>“desenvolvimento sustentável” como política de Estado. A pesquisa se ancora em uma estratégia eminente- </line>
    <line>mente qualitativa, com análise documental e entrevistas semiestruturadas. As categorias analíticas princi - </line>
    <line>pais derivam da sociologia econômica de vertente político-cultural, da sociologia política das instituições e  </line>
    <line>da sociologia dos movimentos sociais. Além da análise geral da estratégia e da rotina do repertório de ação  </line>
    <line>coletiva para a consolidação da agenda de “sustentabilidade” no Brasil, foi possível apreender as redes de  </line>
    <line>circulação de seus porta-vozes entre os espaços das empresas, do poder público, dos movimentos socioam - </line>
    <line>bientais e das organizações supranacionais.  </line>
    <line>Palavras-chaves: sociologia econômica; cadeias globais de valor; redes globais de produção; upgrading;  </line>
    <line>strategic coupling. </line>
    <line>*  Uma versão preliminar deste trabalho foi apresentada e publicada nos anais do Congresso da Sociedade Brasileira de Socio- </line>
    <line>logia (SBS) (disponível em: https://www.sbs2025.sbsociologia.com.br/atividade/viewq=eyJwYXJhbXMiOiJ7XCJJRF9BVElW - </line>
    <line>SURBREVcIjpcIjk3XCJ9IiwiaCI6ImMyNjliOTI4ZDFmNmY0ZDg4OWVjMzlkNjU3YTkwMzU0In0%3D&amp;ID_ATIVIDADE=97).  </line>
    <line>Em conformidade com a política editorial da Revista TOMO, uma versão do texto também foi depositada no repositório Rese- </line>
    <line>archGate. A presente publicação constitui uma nova versão revisada com avanços em relação ao texto original. </line>
    <line>** 		 Federal	 Fluminense,	 Instituto	 de	 Ciências	 Humanas	 e	 Filosofia,	 Departamento	 de	 Sociologia	 e	 Metodologia	 </line>
    <line>de Ciências Sociais, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: mcarolbarcellos@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0009-0002- </line>
    <line>1829-1486  CrediT: Conceitualização, tratamento dos dados, análise formal, metodologia, visualização, escrita do rascunho  </line>
    <line>original, escrita, revisão e edição. </line>
    <line>***  Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Departamento Multidisciplinar de Volta Redonda,  </line>
    <line>Volta Redonda, Rio de Janeiro, Brasil. Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA), Programa de Pós-Graduação em  </line>
    <line>Sociologia (PPGS), Universidade Federal Fluminense (UFF). Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: raphaeljonathas@id.uff.br Orcid:  </line>
    <line>https://orcid.org/0000-0001-9702-0515 CrediT: Investigação, escrita, revisão e provisão de recursos materiais ao projeto. </line>
    <line>****  Università degli Studi di Salerno, Dipartimento di Studi Politici e Sociali, Fisciano, Salerno, Itália. E-mail:dbubbico@unisa.it  </line>
    <line>Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0981-0651 CrediT: Investigação, provisão de recursos materiais ao projeto e supervisão. </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24793, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24793  </line>
    <line>Dossiê:	Sociologia	econômica	no	Brasil:	reconfigurações	 </line>
    <line>dos mercados e disputas de poder </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2 </line>
    <line>1. INTRODUÇÃO </line>
    <line>A Stellantis constituiu-se em 2021, a partir da fusão entre o Groupe PSA (Peugeot-Citroën) e a  </line>
    <line>Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Isso originou um dos maiores grupos automotivos do mundo,  </line>
    <line>com um conglomerado que hoje reúne diversas marcas, como Abarth, Alfa Romeo, Chrysler, Ci- </line>
    <line>troën, Dodge, DS Automobiles, Fiat, Jeep®, Lancia, Maserati, Opel, Peugeot, Ram, Vauxhall, além  </line>
    <line>de	 	 de	 mobilidade.	 Depois	 da	 fusão,	 plantas	 como	 a	 de	 Melfi	 (Itália),	 	 pela 	 </line>
    <line>FIAT em 1993; da PSA Peugeot-Citroën, instalada em Porto Real (RJ) em 2001; e da Fiat-Chrys- </line>
    <line>ler Automobiles (Jeep), inaugurada em Goiana (PE) em 2015, passaram a ser representadas  </line>
    <line>pela mesma marca, que ainda tem em Betim (MG) um dos principais clusters automotivos da  </line>
    <line>América Latina.  </line>
    <line>Essas unidades produtivas compartilham, ainda, a característica de terem sido implantadas em  </line>
    <line>contextos descritos como  greenfield  (Bubbico, 2021; Dulci, 2015; Ladosky, 2021). Um conjunto  </line>
    <line>de estudos sobre desenvolvimento tem utilizado essa terminologia para caracterizar áreas sem  </line>
    <line>tradição industrial que, ao receberem investimentos, passam a experimentar transformações em  </line>
    <line>suas estruturas socioeconômicas (Ramalho, 2015; Dulci, 2015). Originado nos Estados Unidos, o  </line>
    <line>termo refere-se a regiões com baixa densidade sindical, incentivos estatais e menor resistência  </line>
    <line>institucional, o que as torna atrativas para instalação de fábricas (Martin e Veiga, 2002)1.  </line>
    <line>Partindo	 dessa	 perspectiva,	 os	 casos	 de	 Melfi,	 Porto	 Real	 e	 Goiana	 permitem	 investigar	 como	 a	 </line>
    <line>inserção da indústria automotiva em territórios  greenfi se articula a diferentes trajetórias pro- </line>
    <line>dutivas, bem como a seus desdobramentos socioeconômicos. Longe de serem automáticos, esses  </line>
    <line>efeitos colocam a relação entre indústria e desenvolvimento como uma questão empírica a ser  </line>
    <line>explorada. Essa agenda, portanto, dialoga com a literatura sobre novos territórios produtivos, que  </line>
    <line>reconhece	 a	 localidade	 não	 apenas	 como	 um	 espaço	 geográfico,	 mas	 também	 como	 um	 ator	 ativo	 </line>
    <line>na conformação dos processos econômicos e sociais que a atravessam (Ramalho, 2013). </line>
    <line>Nesse horizonte analítico, os territórios deixam de ser concebidos apenas como plataformas su- </line>
    <line>bordinadas às estratégias globais de acumulação voltadas à maximização do valor para os acionis - </line>
    <line>tas. São compreendidos, em vez disso, como espaços de enraizamento, negociação e disputa, nos  </line>
    <line>quais os projetos industriais interagem com instituições locais e dinâmicas sociais preexistentes  </line>
    <line>(Henderson  et al ., 2002). O enraizamento, nesse sentido, diz respeito ao modo como as operações  </line>
    <line>desses empreendimentos passam a ser condicionadas, mediadas e, em certa medida, reorientadas  </line>
    <line>por arranjos sociais, institucionais e políticos localmente constituídos. Essa perspectiva reconhece,  </line>
    <line>portanto, que, para além da lógica da extração de valor, tais empreendimentos podem gerar efei- </line>
    <line>tos concretos nos territórios onde se estabelecem. Ainda que esses processos sejam permeados  </line>
    <line>por	 contradições,	 impulsionam	 transformações	 importantes,	 reconfiguram	 mercados	 de	 trabalho,	 </line>
    <line>podem	 fortalecer	 instituições	 locais,	 elevar	 a	 qualificaçã	 profissional,	 melhorar	 a	 infraestrutura	 e	 </line>
    <line>favorecer o surgimento de novas articulações entre trabalho, Estado e mercado (Ramalho, 2015). </line>
    <line>Para analisar esses efeitos, o estudo mobiliza o aporte das Cadeias Globais de Valor (CGVs), com  </line>
    <line>ênfase no conceito de upgrading , combinado com contribuições das Redes Globais de Produção  </line>
    <line>(RGPs). O conceito de upgrading, ao lado da governança, constitui um dos pilares analíticos cen- </line>
    <line>trais da abordagem das CGVs. Em sua formulação inicial, o upgrading estava voltado sobretudo ao  </line>
    <line>reposicionamento	 das	 firmas	 nas	 cadeias,	 a	 partir	 da	 incorporação	 de	 atividades	 de	 maior	 valor	 </line>
    <line>1   O termo  brownfield , em oposto, refere-se a áreas com trajetória fabril consolidada e forte presença sindical.</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3 </line>
    <line>agregado, envolvendo inovações tecnológicas, organizacionais e funcionais (Humphrey e Schmitz,  </line>
    <line>2002;	Gereffi	 et al., 2005).  </line>
    <line>Com o amadurecimento da abordagem e o crescente interesse nos impactos territoriais das CGVs,  </line>
    <line>a noção de upgrading passou a se desdobrar em economic . Este é relativo à capacidade  </line>
    <line>das	 firmas	 de	 capturar	 mais	 valor.	 E	 social  upgrading. Este é entendido como a melhoria das con- </line>
    <line>dições de vida e trabalho dos sujeitos sociais envolvidos nesses processos (Barrientos et al., 2011;  </line>
    <line>Rossi, 2019).  Assim, a ideia de     upgrading aqui mobilizada pode ser compreendida como a  </line>
    <line>dimensão do desenvolvimento local que incide diretamente sobre os trabalhadores e suas condi - </line>
    <line>ções de reprodução social. Isso não implica, necessariamente, uma correspondência automática  </line>
    <line>com	os	ganhos	econômicos	observados	no	nível	das	firmas	(Barrientos  et al.,  2011). </line>
    <line>É nesse ponto que as contribuições das Redes Globais de Produção (RGPs) se tornam  </line>
    <line>particularmente relevantes para a presente discussão, propondo um olhar mais atento ao  </line>
    <line>enraizamento institucional. Em especial, o conceito de strategic  possibilita compreen- </line>
    <line>der	 em	 que	 medida	 os	 ativos	 locais	 (produtivos	 e	 sociais)	 se	 articulam	 às	 estratégias	 das	 firmas	 </line>
    <line>líderes,	 influenciando	 a	 criação,	 mas	 também	 a	 retenção	 de	 valor	 no	 território	 (Henderson	 et  .,  </line>
    <line>2002). Esses aspectos, relativos à articulação entre dinâmicas econômicas e sociais no território,  </line>
    <line>pouco referenciadas explicitamente pela abordagem das CGVs, são apontadas como lacunas por  </line>
    <line>Monteiro  et 	 (2024).	 Eles	 defendem	 a	 articulação	 entre	 CGVs	 e	 RGPs	 a	 fim	 de	 melhor	 compre- </line>
    <line>ender	 como	 se	 estruturam	 as	 conexões	 entre	 firmas	 globais	 e	 territórios,	 inclusive	 a	 partir	 de	 </line>
    <line>modelos comparativos. Nesse sentido, este artigo procura contribuir para essa agenda, tratando  </line>
    <line>o  economic e o social  como trajetórias cuja variação entre territórios se relaciona às  </line>
    <line>configurações	de	 strategic coupling de cada caso.  </line>
    <line>Diante desse quadro, o artigo tem como objetivo analisar em que medida a presença da indústria  </line>
    <line>automotiva em territórios  greenfield  se traduz, na percepção dos atores locais, em diferentes tra- </line>
    <line>jetórias de  economic e social .	 A	 hipótese	 é	 que	 tais	 trajetórias	 refletem	 formas	 diferen- </line>
    <line>ciadas de articulação de criação e apropriação territorial do valor, condicionadas pelo momento  </line>
    <line>de inserção na cadeia, pelos arranjos institucionais e pelas relações de poder que estruturam a  </line>
    <line>inserção desses territórios nas redes produtivas. </line>
    <line>A seleção dos casos seguiu uma lógica comparativa de máxima variabilidade sob condição de par- </line>
    <line>tida comum2. O corpus empírico reúne seis entrevistas semiestruturadas realizadas entre 2022 e  </line>
    <line>2025, complementadas por análise documental. A seleção dos interlocutores priorizou posições  </line>
    <line>que conjugam mediação institucional e conhecimento situado sobre a presença da empresa no  </line>
    <line>território	 (representantes	 do	 trabalho	 organizado	 e	 da	 gestão	 pública	 local).	 Em	 Melfi,	 foram	 en- </line>
    <line>trevistados dois delegados sindicais ligados à FIOM-CGIL e o prefeito do município, em fevereiro e  </line>
    <line>março de 2025. Em Porto Real, a Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho  </line>
    <line>e Renda (setembro de 2024) e um dirigente sindical da federação metalúrgica que representa a  </line>
    <line>unidade (agosto de 2024). No caso de Goiana, recorreu-se de forma complementar a entrevistas  </line>
    <line>com representantes do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Pernambuco (SindMetal-PE)  </line>
    <line>sistematizadas por Monteiro et al.	 (2024)	 para	 manter	 a	 comparabilidade	 entre	 os	 perfis	 de	 inter - </line>
    <line>2  Os três territórios compartilham a inserção automotiva em contexto greenfield  e o vínculo atual com a Stellantis, manten- </line>
    <line>do constante, sobretudo, o caráter inaugural da implantação. Variam quatro eixos relevantes: o momento de inserção na  </line>
    <line>cadeia	 (Melfi,	 1993;	 Porto	 Real,	 2001;	 Goiana,	 2015);	 a	 trajetória	 corporativa	 de	 inserção,	 associada	 às	 diferentes	 monta - </line>
    <line>doras que deram origem aos investimentos posteriormente incorporados à Stellantis; o arranjo institucional e sindical (do  </line>
    <line>modelo pluralista italiano à baixa densidade sindical do Nordeste); e o grau de maturidade do coupling.</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4 </line>
    <line>locutores. Cabe dizer que esse material é pautado em discursos socialmente mediados, marcados  </line>
    <line>por	 visões,	 interesses	 e	 posições	 específicas	 dos	 atores	 envolvidos	 sobre	 a	 presença	 da	 empresa	 </line>
    <line>no território e que, portanto, apresentam limitações de viés. </line>
    <line>As entrevistas foram tratadas por análise temática, organizada em torno das dimensões de  upgra- </line>
    <line>ding sintetizadas no Quadro 1, cotejando-se sistematicamente as percepções dos atores com os  </line>
    <line>indicadores disponíveis nos documentos institucionais e na literatura especializada.  </line>
    <line>Quadro 1. Quadro de referência para a análise  </line>
    <line>Tipo de  Upgrading Categoria Analítica Exemplo de evidências </line>
    <line>Economic Upgrading Process upgrading - Modernização do parque industrial local </line>
    <line>- Aumento da produtividade média das empresas </line>
    <line>- Introdução de processos automatizados nas plantas </line>
    <line>Product upgrading - Lançamento de produtos com maior valor agregado </line>
    <line>-	Certificações	de	qualidade </line>
    <line>Functional upgrading - Inserção de funções como design, marketing ou logística </line>
    <line>- Criação de empregos em áreas técnicas ou estratégicas </line>
    <line>Inter-sectoral chain  </line>
    <line>upgrading </line>
    <line>-	Diversificação	produtiva	na	região	associada	à	cadeia	automotiva </line>
    <line>- Emergência de novos segmentos industriais ou de serviços vinculados </line>
    <line>Social Upgrading Standards - Aumento da formalização do trabalho </line>
    <line>- Crescimento dos salários médios industriais </line>
    <line>- Jornada e tipo de contrato </line>
    <line>Rights - Liberdade de associação sindical, voz e representação </line>
    <line>- Ausência de discriminação e assédio </line>
    <line>- Canais institucionais de diálogo (comissões, conselhos, fóruns) </line>
    <line>- Ampliação do acesso a direitos sociais (previdência, saúde, transporte) </line>
    <line>Fonte: elaboração própria a partir de Humphrey e Schmitz, 2002; Barrientos et al., 2011. </line>
    <line>2. DINÂMICAS DE UPGRADING EM TERRITÓRIOS AUTOMOTIVOS </line>
    <line>2.1. O caso de Melfi (Itália) </line>
    <line>Na comparação que este trabalho propõe, a unidade mais antiga é a da Fabbrica Automobili </line>
    <line>Torino	 (FIAT),	 instalada	 na	 cidade	 de	 Melfi,	 na	 província	 de	 Potenza,	 da	 região	 da	 Basilicata,	 por	 meio 	 </line>
    <line>de sua subsidiária Società Tecnologie  (SATA), fundada em 1991. A planta  </line>
    <line>foi	 inaugurada	 oficialmente	 em	 1993	 como	 parte	 de	 uma	 estratégia	 de	 modernização	 produtiva	 da 	 </line>
    <line>FIAT.  A unidade foi concebida como um laboratório para experimentar um novo paradigma pro- </line>
    <line>dutivo e organizacional baseado nos princípios da  lean  (Cersosimo, 1994) e contribuir  </line>
    <line>para a expansão para o sul da Itália, no contexto das políticas de desenvolvimento do Mezzogiorno,  </line>
    <line>considerando as desigualdades estruturais em relação ao norte do país  (Svimez, 1993).  </line>
    <line>Diferentemente dos investimentos estatais italianos realizados nas décadas anteriores, o projeto  </line>
    <line>em	 Melfi	 foi	 estruturado	 a	 partir	 de	 um	 arranjo	 público-	 orientado	 pela	 lógica	 da	 competi- </line>
    <line>tividade	 globa	 e	 pela	 flexibilização	 das	 relações	 de	 trabalho.	 Tratou-se	 de	 uma	 “segunda	 onda”	 de	 </line>
    <line>industrialização no Mezzogiorno, impulsionada por mudanças legislativas, como a Lei 853/1971,  </line>
    <line>que ampliaram os incentivos à grande empresa privada (Cersosimo, 1994) e o “Accordo di Pro- </line>
    <line>gramma”, na década de 1990, que estabeleceu uma espécie de compromisso entre Estado, capital e  </line>
    <line>trabalho	 pela	 localização	 da	 fábrica	 no	 Sul,	 em	 troca	 de	 aportes	 financeiros	 e	 da	 moderação	 quanto	 </line>
    <line>às	 exigências	 sindicais	 (Bub	 2021).	 A	 partir	 disso,	 Melfi	 converteu-se	 em	 território	 estraté-</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>gico para testar novos formatos organizacionais e produtivos, marcando a transição do modelo  </line>
    <line>baseado em estoque (make to stock) para a produção sob demanda (just in time ) (idem, 2021). </line>
    <line>Em	 suma,	 a	 escolha	 por	 Melfi	 foi	 motivada	 por	 um	 conjunto	 de	 fatores	 típicos	 de	 um	 greenfield, entre  </line>
    <line>os	 quais	 se	 destacam	 esses	 incentivos	 fiscais,	 a	 baixa	 tradição	 sindical	 local	 e	 a	 disponibilidade	 de	 uma 	 </line>
    <line>força de trabalho jovem, majoritariamente proveniente de áreas rurais e com pouca experiência (Bub- </line>
    <line>bico, 2021), que foi vista como uma oportunidade para a empresa instaurar um novo regime de tra- </line>
    <line>balho mais ajustado às exigências daquilo que viria a ser o World Manufacturing  (WCM), padrão  </line>
    <line>global adotado pela FIAT a partir dos anos 1990 com o objetivo de elevar a produtividade e controle  </line>
    <line>do processo de trabalho (Bubbico, 2001). Somado a isso, a localização da Basilicata oferecia vantagens  </line>
    <line>logísticas importantes, devido à presença de uma malha viária e ferroviária capaz de viabilizar o esco- </line>
    <line>amento da produção em direção a outros polos industriais e portuários do país (Svimez, 1993).  </line>
    <line>Em comemoração aos 25 anos da unidade, a empresa destacou a planta como um exemplo de  </line>
    <line>greenfield bem-sucedido (nestes termos) devido à capacidade de alcançar “a síntese ideal entre  </line>
    <line>inovação tecnológica e organizacional” (FCA, 2019, p. 6). Nesse contexto, a FCA referiu-se tanto à  </line>
    <line>implementação do WCM e da plataforma digital quanto ao desenvolvimento de habilidades e com- </line>
    <line>petências dos funcionários. Também mencionou iniciativas de formação continuada, criação de  </line>
    <line>valor	 e,	 sobretudo,	 a	 sua	 estrutura	 organizacional.	 Esta	 foi	 projetada	 para	 ser	 flexível	 e	 adaptável	 </line>
    <line>às mudanças do mercado. </line>
    <line>Nesse sentido, no discurso corporativo, haveria um upgrading de processo, via introdução de prá- </line>
    <line>ticas	 mais	 eficientes,	 novos 	 componentes	 tecnológicos,	 redução	 de	 desperdícios	 e	 padronização	 </line>
    <line>de	 tarefas.	 Isso 	 teria	 conferido	 à	 planta	 de	 Melfi	 destaque	 em	 relação	 às	 demais	 unidades	 do	 grupo	 </line>
    <line>naquela época (FCA, 2019). Além disso, supõe-se um upgrading funcional, expresso na reorgani- </line>
    <line>zação interna da planta e na ampliação do seu papel na cadeia de valor, com a incorporação de  </line>
    <line>atividades de maior valor agregado, como o controle digital da produção, logística interna e ativi- </line>
    <line>dades de suporte técnico, o que indicaria, sob essa ótica, um deslocamento da planta em direção a  </line>
    <line>funções mais complexas (idem, 2019).  </line>
    <line>O diagnóstico corporativo também menciona a “atenção que a empresa tem demonstrado para  </line>
    <line>com a comunidade local” (FCA, 2019, p. 9), expressa na redução da migração de pessoas para  </line>
    <line>outras regiões, nos investimentos em infraestrutura e no desenvolvimento local. Esses elementos  </line>
    <line>são frequentemente mobilizados no discurso institucional como expressão de um suposto  </line>
    <line>upgrading, entendido, segundo Barrientos  et  (2011), como o processo de melhoria nas condi - </line>
    <line>ções laborais e de vida dos trabalhadores inseridos em cadeias globais. Sob essa perspectiva, é  </line>
    <line>possível	 interpretar	 a	 fixação	 da	 população	 local	 como	 uma	 manifestação	 concreta	 de	 avanço	 em	 </line>
    <line>alguns padrões mensuráveis. Isso inclui o acesso ao emprego formal, à estabilidade habitacional e  </line>
    <line>à capacidade de consumo.  </line>
    <line>A entrevista com o sindicalista Danilo Di Chio, ligado à FIOM-CGIL 3 ,	 também	 enfatizou	 a	 fixação	 da	 </line>
    <line>população local, visto que a migração em busca de empregos no Norte era uma realidade constan- </line>
    <line>te: “A Fiat representou uma âncora, um ponto de apoio que permitiu que as pessoas permanecessem  </line>
    <line>na (...) conseguissem uma formar família criar no onde  </line>
    <line>nasci”	 (Di	 Chio,	 Melfi,	 fev.	 2025).	 Ele	 destaca	 que,	 sem	 a	 fábrica,	 sua	 única	 perspectiva	 teria	 sido	 </line>
    <line>partir, como ainda ocorre com muitos trabalhadores em busca de melhores condições.  </line>
    <line>3   Sigla para Federazione Impiegati Operai Metallurgici-Confederazione Generale Italiana del Lavoro.</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6 </line>
    <line>Como destacado por outro sindicalista ligado à FIOM, residente em um dos municípios do entorno  </line>
    <line>de	 Melfi:	 “No início, (...) com menos de 5.000 habitantes, éramos 120 trabalhadores na Fiat </line>
    <line>o econômico 120 trazendo casa salários. os - </line>
    <line>pios (...)” (Vittorio, 2025). O depoimento também destacou os efeitos na própria orga- </line>
    <line>nização de infraestruturas e serviços no território. Diante da ausência inicial de sistemas de trans- </line>
    <line>porte que conectassem os municípios à planta, os próprios trabalhadores, com apoio do sindicato,  </line>
    <line>organizaram soluções coletivas de deslocamento, que posteriormente foram institucionalizadas  </line>
    <line>por meio da atuação do poder público regional. </line>
    <line>O	 mesmo	 foi	 observado	 na	 entrevista	 com	 o	 atual	 prefeito	 de	 Melfi,	 Giuseppe	 Maglione,	 que	 con- </line>
    <line>sidera como radicais as transformações experienciadas a partir da chegada da empresa. Segundo  </line>
    <line>ele, a Fiat “gerou de principalmente os permitindo muitos  </line>
    <line>permanecessem Basilicata vez emigrar”. Do ponto de vista crítico, essa perspectiva dia- </line>
    <line>loga com um aspecto já apontado pela literatura desde os anos 1990. É a forma como os jovens  </line>
    <line>lucanos carregam um “excedente de memória ‘genética’” sobre as emigrações forçadas vividas  </line>
    <line>por seus pais, tios e outros parentes. Essas emigrações teriam deixado uma marca duradoura nos  </line>
    <line>horizontes de expectativa (Cersosimo, 1994, p. 66).  </line>
    <line>O prefeito também reforça a perspectiva de que a fábrica foi, por anos, um símbolo de desenvolvi- </line>
    <line>mento a partir do nível de emprego: “Era maior fabril Europa uma refe - </line>
    <line>rência. cerca 400 veículos ano empregava 15 pessoas,  </line>
    <line>incluindo quase 8.500 funcionários diretamente ligados à Fiat” (Maglione, 2025).  </line>
    <line>No entanto, nos últimos anos, haveria uma reversão deste quadro. A região perdeu 6 mil postos  </line>
    <line>de trabalho ao longo do tempo, 2 mil deles apenas entre 2021 e 2025 devido aos incentivos à  </line>
    <line>demissão voluntária (Maglione, 2025). Apesar de o prefeito atribuir esse movimento, em parte,  </line>
    <line>à	 transição	 para	 a	 produção	 de	 veículos	 elétricos,	 destacando	 a	 redução	 significativa	 no	 número	 </line>
    <line>de componentes e, consequentemente, na necessidade de mão de obra,4 essa explicação não é su- </line>
    <line>ficiente	 para	 dar	 conta	 do	 processo	 em	 curso.	 Di	 Chio	 (2025)	 argumenta	 que,	 ao	 contrário	 dessa	 </line>
    <line>percepção sustentada por alguns sindicatos e setores políticos, o problema estaria no adiamento  </line>
    <line>de investimentos e na falta de preparo para essas mudanças, anunciadas há uma década. Em suma,  </line>
    <line>as demissões parecem menos associadas à preparação para a produção de veículos elétricos, ain- </line>
    <line>da	 incipiente	 na	 planta	 de	 Melfi,	 e	 mais	 relacionadas	 à	 ausência	 de	 novos	 investimentos	 e	 à	 reo- </line>
    <line>rientação estratégica da empresa no território.  </line>
    <line>Portanto,	 a	 eletrificação	 tem	 sido	 operada	 como	 um	 elemento	 discursivo	 que	 enquadra	 e	 legitima	 </line>
    <line>ajustes produtivos, especialmente em um contexto de incerteza quanto ao futuro da unidade. De  </line>
    <line>todo modo, trata-se de um cenário em que a promessa de modernização convive com dinâmicas  </line>
    <line>de retração do emprego. Esse tipo de assimetria entre inovação tecnológica e impacto social tem  </line>
    <line>se tornado recorrente em territórios produtivos, sobretudo na Europa, e tem impulsionado o de - </line>
    <line>bate	 sobre	 a	 necessidade	 de 	 uma	 transição	 justa	 no	 contexto	 da	 eletrificação	 automotiva	 (Depuis	 </line>
    <line>et al., 2024) 5.  </line>
    <line>4  “Enquanto um veículo a combustão tem cerca de 7.800 componentes, um carro elétrico possui apenas 2.800, o que implica em  </line>
    <line>uma redução na necessidade de mão de obra” (Maglione, 2025) </line>
    <line>5  Conforme propôs Depuis  et al. (2024), essa transição deve necessariamente incorporar o envolvimento dos trabalhadores,  </line>
    <line>dos territórios e das comunidades locais nos processos de reestruturação, de modo a garantir que não ocorra à custa da  </line>
    <line>erosão dos direitos sociais e da coesão territorial.</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>Nesse sentido, tanto os depoimentos dos entrevistados quanto os registros do trabalho de campo  </line>
    <line>incluem a observação argumentativa de outros sindicatos que atuam na unidade 6 .	 Eles	 identificam 	 </line>
    <line>que a saída para esse cenário de downgrading que tem se estabelecido está em uma nova pactuação  </line>
    <line>da empresa com o território, incluindo Estado, capital e trabalho. Os entrevistados, por exemplo,  </line>
    <line>atribuíram essa situação diretamente ao enfraquecimento do compromisso da montadora com a  </line>
    <line>região. Para o prefeito, após a fusão, a governança da empresa se distanciou, sendo conduzida princi- </line>
    <line>palmente da França, o que reduziu a interação com a administração local e o foco no impacto social: </line>
    <line>Essa	 reestruturação	 trouxe	 sérios	 desafios,	 principalmente	 em	 relação	 aos	 níveis	 de	 em- </line>
    <line>prego (...) Sempre houve uma colaboração baseada no respeito mútuo. No entanto, após a  </line>
    <line>fusão, percebemos um distanciamento. A governança da empresa passou a ser conduzida  </line>
    <line>fora	 da	 Itália,	principalmente	 na	 França,	 o	 que	 dificultou	 nosso	 contato	 direto.	 Antes,	 havia	 </line>
    <line>uma conexão mais próxima com a administração local e uma preocupação com o impacto  </line>
    <line>social da empresa no território, mas essa relação foi se enfraquecendo (Maglione, 2025). </line>
    <line>Di Chio (2025), por sua vez, alertou para o risco de a Itália perder sua posição estratégica na ca- </line>
    <line>deia produtiva automotiva, tornando-se “mera montadora” de componentes fabricados em países  </line>
    <line>com	 custos	 mais	 baixos.	 Ele	 também	 destacou	 a	 queda	 significativa	 nos	 salários,	 que	 atualmente	 </line>
    <line>variam entre 1.100 e 1.200 euros por mês, uma redução expressiva em relação aos períodos de  </line>
    <line>produção plena, quando os salários podiam chegar a quase 2.000 euros. Uma das principais de - </line>
    <line>mandas locais é a alocação de modelos com maior apelo comercial (como foi o caso do FIAT Punto  </line>
    <line>nas décadas anteriores), capazes de reverter a queda no volume produtivo. A perspectiva de pro- </line>
    <line>dução de veículos de luxo, recentemente anunciada (Motor 1, 2025), é recebida com ceticismo por  </line>
    <line>atores locais, que avaliam seu potencial de mercado como limitado frente à necessidade de gerar  </line>
    <line>escala	 e	 ocupação.	 Essa	 incerteza	 se	 manifesta	 na	 intensificação	 da	 cassa  7 , nos pro- </line>
    <line>gramas	 de	 demissão	 incentivada	 e	 na	 retomada	 de	 fluxos	 migratórios,	 agravando	 o	 esvaziamento	 </line>
    <line>populacional e a fragilidade socioeconômica da Basilicata. Os efeitos da reestruturação, portanto,  </line>
    <line>extrapolam a fábrica, ativando um efeito dominó sobre o conjunto do território. </line>
    <line>2.2. O caso de Porto Real (RJ) </line>
    <line>Localizado na região Sul Fluminense, a cerca de 130 km do Rio de Janeiro, Porto Real foi inicial- </line>
    <line>mente marcado pela presença de fazendas cafeeiras e da escravidão, posteriormente, por ciclos de  </line>
    <line>industrialização. O território pertenceu originalmente a Resende e abrigou importantes empreen- </line>
    <line>dimentos agroindustriais, como o Engenho Central (1879) e, mais tarde, a Companhia Fluminense  </line>
    <line>de Refrigerantes (1949-2013) (Lima, 2005). </line>
    <line>Iniciando a produção em 2001, a fábrica da PSA integrou, de forma inédita no grupo, a produção  </line>
    <line>de veículos das duas marcas (Peugeot e Citroën) em uma única linha de montagem. À época de sua  </line>
    <line>instalação,	 foi	 projetada	 para	 operar	 com	 alta	 flexibilidade	 e	 baixa	 automação.	 Essa	 estratégia	 foi	 </line>
    <line>justificada	 pela	 empresa	 como	 uma	 forma	 de	 equilibrar	 qualidade,	 geração	 de	 empregos	 e	 custos.	 </line>
    <line>Isso ocorreu em um contexto de baixos salários relativos na região em comparação com centros  </line>
    <line>6 		 sistema	 sindical	 italiano,	 diferente	 do	 brasileiro,	 funciona	 a	 partir	 de	 um	 modelo	 pluralista,	 o	 que	 significa	 que	 não	 há	 um	 </line>
    <line>sindicato único representando toda a categoria, mas sim a convivência de múltiplas organizações sindicais que disputam a  </line>
    <line>representação dos trabalhadores (Bubbico, 2021). </line>
    <line>7  Instrumento do sistema de proteção social italiano que permite às empresas suspender temporariamente contratos de  </line>
    <line>trabalho ou reduzir jornadas em momentos de crise econômica ou reestruturação produtiva.</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8 </line>
    <line>industriais mais consolidados (Nascimento e Segre, 2008). Contudo, não há evidências claras so - </line>
    <line>bre até quando essa estratégia foi mantida ou se, de algum modo, ainda persiste sob outras formas.  </line>
    <line>A empresa se organizou à semelhança de um condomínio industrial, com fornecedores (muitos  </line>
    <line>dos quais já possuíam relações anteriores com o grupo PSA) produzindo componentes essenciais,  </line>
    <line>como bancos, eixos, conjuntos e peças estampadas para a região (Nascimento e Segre, 2008).  </line>
    <line>Atualmente, esse complexo industrial atrai mais de 200 fornecedores e prestadores de serviços  </line>
    <line>ligados diretamente à cadeia produtiva automotiva, gerando cerca de 1.800 empregos diretos  </line>
    <line>(Stellantis, 2025). </line>
    <line>A escolha locacional da PSA foi orientada tanto por esforços de uma rede sociopolítica local quan- </line>
    <line>to por estratégias corporativas de desconcentração produtiva, abdicando de regiões tradicionais,  </line>
    <line>como o ABC Paulista, e optando por áreas  greenfield (Lima, 2005; Nabuco et al., 2002). Embora lo- </line>
    <line>calizado	 em	 uma	 região	 com	 tradição	 sindical	 ligada	 à	 siderurgia,	 o	 território	 configurou-se	 como	 </line>
    <line>greenfield setorial (Dulci, 2015), dado o ineditismo das dinâmicas produtivas e laborais trazidas  </line>
    <line>pelo setor automotivo. Esse movimento produtivo impulsionou indicadores econômicos locais,  </line>
    <line>como o PIB e a arrecadação municipal, e contribuiu para a formação de um tecnopolo regional.  </line>
    <line>O trabalho de Lima (2005) é central para a compreensão desse processo, pois aborda, com pro- </line>
    <line>fundidade empírica, os bastidores da emancipação deste município, em respeito à vinda da PSA  </line>
    <line>e aos efeitos dessa presença sobre o território. Entre os impactos destacados, houve a elevação  </line>
    <line>do PIB  per , a ampliação de obras públicas em áreas como educação, saúde, saneamento e  </line>
    <line>mobilidade urbana, bem como a consolidação de uma nova dinâmica institucional e econômica  </line>
    <line>no município. Por outro lado, o autor também chamou atenção para as contradições desse desen- </line>
    <line>volvimento.	 Entre	 elas,	 a	 exclusão	 parcial	 da	 população	local,	sobretudo	 das	 vagas	 qualificadas	 no	 </line>
    <line>setor automotivo. Isso estaria ligado à ausência de formação técnica no município, entre outros  </line>
    <line>aspectos, como a constituição de uma identidade e coesão social (Lima, 2005).  </line>
    <line>Passados vinte anos desde a realização desse estudo, os achados de Lima (2005) seguem nota - </line>
    <line>velmente atuais. A consolidação da empresa impactou diretamente o emprego formal local, so - </line>
    <line>bretudo nas atividades ligadas à fabricação de veículos, mas a maioria das vagas é ocupada por  </line>
    <line>não-munícipes. Segundo a secretária de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda, “apenas  </line>
    <line>8% população Porto trabalha Stellantis. é dado [...] gente conse- </line>
    <line>gue, elizmente, as na ” (Gonçalves, 2024). Para a gestora, a exclusão da  </line>
    <line>população local dos postos industriais estaria relacionada tanto às exigências mínimas de escola- </line>
    <line>ridade	 do	 setor	 quanto	 a	 aspectos	 mais	 subjetivos,	 como	 a	 suposta	 ausência	 de	 identificação	 com	 </line>
    <line>a cultura industrial. Essa hipótese, no entanto, demanda investigação empírica mais aprofundada.  </line>
    <line>Como forma de mitigar esse cenário, a prefeitura tem adotado medidas alternativas. Entre elas es - </line>
    <line>tão: a) concessão de vale-transporte para moradores que trabalham fora da cidade, em outros seg- </line>
    <line>mentos8; b) articulação com empresas sistemistas da cadeia automotiva, que oferecem vagas com  </line>
    <line>menor	 exigência	 de	 escolaridade	 formal;	 e	 c)	 oferta	 de	 cursos	 profissionalizantes	 diretamente	 no	 </line>
    <line>município, em parceria com o SENAI 9 .	 A	 entrevistada	 também	 afirmou	 que	 essa	 última	 iniciativa	 </line>
    <line>fez com que parte desses jovens retornasse aos estudos. Isso ocorreu ao perceber que o ensino  </line>
    <line>8 		 benefício,	 previsto	 em	 lei	 municipal,	 atualmente	 atende	 cerca	 de	 440	 pessoas,	 um	 número	 ainda	 limitado	 diante	 da	 de - </line>
    <line>manda por inserção produtiva. </line>
    <line>9  Os cursos formaram cerca de 400 pessoas em quatro anos (logística, almoxarifado e mecânica). O total de inserções no  </line>
    <line>mercado é incerto, mas a gestora relata impacto imediato: na primeira turma, 22 dos 24 alunos foram empregados.</line>
  </page>
</document>
