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<document>
  <page number="1">
    <line>1 </line>
    <line>DOSSIÊ </line>
    <line>REPERTÓRIO DE AÇÃO COLETIVA E DISPUTAS  </line>
    <line>SIMBÓLICAS EM TORNO DO DESENVOLVIMENTO  </line>
    <line>SUSTENTÁVEL: uma análise do CEBDS  </line>
    <line>Bruno Costa Barreiros*1 </line>
    <line>Resumo </line>
    <line>Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sobre os movimentos sociais empresariais militantes  </line>
    <line>pela causa da “sustentabilidade” no Brasil. Diante do cenário de fortalecimento da circulação de agentes  </line>
    <line>empresariais por espaços formais do poder público nacional, foram investigadas as estratégias políticas  </line>
    <line>mobilizadas pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável na consolidação do  </line>
    <line>“desenvolvimento sustentável” como política de Estado. A pesquisa se ancora em uma estratégia eminente- </line>
    <line>mente qualitativa, com análise documental e entrevistas semiestruturadas. As categorias analíticas princi - </line>
    <line>pais derivam da sociologia econômica de vertente político-cultural, da sociologia política das instituições e  </line>
    <line>da sociologia dos movimentos sociais. Além da análise geral da estratégia e da rotina do repertório de ação  </line>
    <line>coletiva para a consolidação da agenda de “sustentabilidade” no Brasil, foi possível apreender as redes de  </line>
    <line>circulação de seus porta-vozes entre os espaços das empresas, do poder público, dos movimentos socioam - </line>
    <line>bientais e das organizações supranacionais.  </line>
    <line>Palavras-chaves: sociologia econômica; sociologia política; desenvolvimento sustentável; sustentabilidade  </line>
    <line>empresarial; CEBDS. </line>
    <line>*		 Federal	 da	 Bahia,	 Faculdade	 de	 Filosofia	 e	 Ciências	 Humanas,	 Departamento	 de	 Sociologia,	 Salvador,	 Bahia,	 </line>
    <line>Brasil. E-mail:barreirosbc@gmail.com Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7609-0001  </line>
    <line> Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0)  </line>
    <line>Revista TOMO, São Cristóvão, v. 45, e24813, 2026 </line>
    <line>DOI:10.21669/tomo.v45.24813  </line>
    <line>Dossiê:	Sociologia	econômica	no	Brasil:	 </line>
    <line>reconfigurações	dos	mercados	e	disputas	de	poder	 </line>
    <line>E-ISSN:2318-9010 / ISSN:1517-4549</line>
  </page>
  <page number="2">
    <line>2 </line>
    <line>INTRODUÇÃO </line>
    <line>Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa sociológica sobre os movimentos empre- </line>
    <line>sariais que defendem a causa da “sustentabilidade” no Brasil. Diante do cenário de fortaleci- </line>
    <line>mento da circulação de diferentes agentes empresariais associados a estes movimentos pelos  </line>
    <line>espaços formais do poder público nacional, são investigadas as estratégias políticas mobilizadas  </line>
    <line>pela principal entidade representativa, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvi- </line>
    <line>mento Sustentável (CEBDS). O CEBDS, nesse contexto, busca a legitimação do “desenvolvimento  </line>
    <line>sustentável” como política do Estado brasileiro, cujas repercussões são diretas para diferentes  </line>
    <line>	 econômicas	 e,	 	 	 a	 	 e	 	 de	 	 na- </line>
    <line>cionais e internacionais.  </line>
    <line>O argumento central do artigo é o de que o CEBDS não opera meramente de forma responsiva na  </line>
    <line>agenda pública nacional. Ao contrário, o conselho se constitui como um agente decisivo para a  </line>
    <line>institucionalização do ideário do “desenvolvimento sustentável” no Brasil. Ao mobilizar e articular  </line>
    <line>repertórios de ação coletiva, redes internacionais e estratégias discursivas, o CEBDS exerce uma  </line>
    <line>certa diplomacia corporativa, cujo sentido é a reforma institucional das próprias estruturas nor - </line>
    <line>mativas e regulatórias do espaço estatal. </line>
    <line>A mobilização política do empresariado brasileiro pró-sustentabilidade desperta o interesse so - </line>
    <line>ciológico na medida em que não se restringe a um rol de disputas pela delimitação das práticas  </line>
    <line>econômicas e empresariais mais legítimas. Desperta esse interesse, sobretudo, porque se trata de  </line>
    <line>um terreno contencioso que nos convida a um novo olhar sobre o poder do Estado e sobre o Es- </line>
    <line>tado (Bourdieu, 2005; 2014; Fligstein e Mcadam, 2019). Para além do terreno formal da política e  </line>
    <line>do poder público, o fenômeno sob análise tem repercussões decisivas para os diversos processos  </line>
    <line>de construção social de mercados (Bourdieu, 2003; Swedberg, 2005; Fourcade, 2007; Fligstein e  </line>
    <line>Dauter, 2012), de disputas simbólicas em torno das doxas econômicas (Bourdieu, 2005) ou con- </line>
    <line>cepções de controle (Fligstein, 2003).  </line>
    <line>De fato, uma construção de objeto de pesquisa em tal direção dialoga com produções anteriores  </line>
    <line>sobre a atuação e orientação política dos empresários e dirigentes empresariais tanto no Brasil,  </line>
    <line>com destaque para os trabalhos de Mancuso (2007), Santos et al. (2017) e Cantu (2024), como  </line>
    <line>fora do nosso país, a exemplo das contribuições de Djelic e Etchanchu (2017), Offerlé (2017), de  </line>
    <line>Aggeri (2021) e Buchanan et al. (2025).  </line>
    <line>A atuação política do empresariado pró-sustentabilidade por meio de seus representantes é aqui  </line>
    <line>entendida em duas direções relativamente complementares: como uma variação das práticas so - </line>
    <line>ciais que caracterizam este estrato social de considerável poder simbólico do espaço econômico  </line>
    <line>(Bourdieu, 2005); como uma ação coletiva marcada por um certo repertório mobilizado nos con- </line>
    <line>tenciosos (Tilly e Tarrow, 2015). Embora sejam notáveis as diferenças em termos ontológicos e  </line>
    <line>epistemológicos, no que tange à atuação política de agentes ou atores sociais, entre as abordagens  </line>
    <line>de Bourdieu, de um lado, e a de Tilly e Tarrow, de outro – a primeira enxerga os agentes sociais  </line>
    <line>como sendo mais razoáveis do que racionais e a segunda endossa uma visão de atores sociais que  </line>
    <line>podem mobilizar estratégias conscientes – ambas se vinculam, no sentido da prática analítica a: 1)  </line>
    <line>ações sociais regulares, rotineiras e comuns a uma coletividade; 2) ações estratégicas, desde que a  </line>
    <line>noção de estratégia seja entendida  no sentido dos interesses coletivos que não são explicitamente  </line>
    <line>conscientes; 3) ações contingentes a certas estruturas sociais e de oportunidades políticas. Cabe  </line>
    <line>mencionar que a articulação entre estas abordagens sociológicas foi pavimentada principalmente</line>
  </page>
  <page number="3">
    <line>3 </line>
    <line>pelas contribuições de Neil Fligstein, majoritariamente em seus trabalhos com Douglas Mcadam  </line>
    <line>(e.g., Fligstein; Mcadam, 2015 e 2019).       </line>
    <line>Apesar de estas categorias analíticas terem sido mobilizadas na sociologia como associadas às  </line>
    <line>ações contestatórias ou revolucionárias, os dirigentes empresariais também desenvolvem formas  </line>
    <line>de	 atuação	 com	 seus	 repertórios	 e	 rotinas.	 Há	 ações	 coletivas	 que	 são	 utilizadas	 regularmente	 e	 </line>
    <line>de modo estratégico, constituindo os repertórios de ação coletiva patronais (Offerlé, 2012; 2021).  </line>
    <line>Tal mobilização política ocorre muito a partir de porta-vozes e representantes, guarnecidos pelos  </line>
    <line>montantes de capital econômico e simbólico que concentram as associações empresariais (Offer - </line>
    <line>lé, 2012; 2021), sendo estratégica para canalizar as competições comerciais nas direções almeja - </line>
    <line>das (Laurens, 2018).  </line>
    <line>  Os padrões em disputa são decisivos para as oportunidades de negócios, que só surgem graças à  </line>
    <line>intervenção	 governamental 	 (Beckert	 2025)	 e,	 mais	 recentemente,	 para	 a	 emergência	 de	 “merca- </line>
    <line>dos do desenvolvimento sustentável” (Dezalay, 2007, p. 70), sendo o exemplo mais atual e saliente  </line>
    <line>no Brasil o mercado de créditos de carbono1. Tais mercados são fomentados, internacionalmente,  </line>
    <line>pelas organizações supranacionais ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU) (Barreiros,  </line>
    <line>2019; Seidl e Barreiros, 2024).  </line>
    <line>Paradoxalmente,	 à	 medida	 que	 a	 crise	 socioambiental	 planetária	 se	 intensifica,	 novos	 mercados	 </line>
    <line>são construídos. O capitalismo tem apresentado sua nova roupagem sustentável, sua nova pele  </line>
    <line>(Beckert, 2025), sem que lhe seja possível prescindir da burocracia estatal (Weber, 2004; Bour- </line>
    <line>dieu, 2003; 2014). O jogo das principais entidades representativas empresariais, como o CEBDS,  </line>
    <line>envolve alcançar posições sociais capazes de lhes garantir o poder de ditar as normas, de apresen - </line>
    <line>tar a sua visão de mundo como a mais legítima, de estabelecer “verdades” nacionais (Bourdieu,  </line>
    <line>2014).  </line>
    <line>Afinal,	 é	 do	 interesse	 dos	 que	 jogam	 o	 jogo	 econômico	 que	 suas	 preferências	 e	 práticas	 sejam	 apli - </line>
    <line>cadas como regulamentações gerais e normas sobre os direitos de propriedade (Bourdieu, 2005;  </line>
    <line>2014; Fligstein, 2003), em um processo de transformação do particular (e.g. , formas de produzir  </line>
    <line>de uma dada indústria alimentar) em universal (e.g. , leis sobre como devem ser produzidos os  </line>
    <line>alimentos no território nacional). Neste âmbito, os militantes da causa da “sustentabilidade em- </line>
    <line>presarial”, orquestrados por entidades como o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvi- </line>
    <line>mento	 Sustentável	 (CEBDS),	 têm	 mobilizado	 diferentes	 recursos	 para	 se	 aproximar	 das	 esferas	 de	 </line>
    <line>decisão, sobretudo dos governantes e tomadores de decisão de políticas públicas, em movimento  </line>
    <line>que vai além do lobbying (i.e., pressão por vantagens competitivas) e tem sido nomeado, pela lite- </line>
    <line>ratura gerencial, como advocacy  social corporativa (Gaither e Austin, 2022) ou como diplomacia  </line>
    <line>corporativa	(Henisz,	2017).	 </line>
    <line>1  Vide tomadas de posição do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável nesta direção: https:// </line>
    <line>cebds.org/?s=Carbono. Uma análise sociogenética da atuação do CEBDS na construção do mercado de créditos de carbono  </line>
    <line>será objeto de publicação futura.</line>
  </page>
  <page number="4">
    <line>4 </line>
    <line>Os movimentos e os contenciosos correspondentes constituem o escopo da institucionalização 2  </line>
    <line>da “sustentabilidade empresarial” (Barreiros, 2019; Seidl e Barreiros, 2024), a qual tem reper - </line>
    <line>cussões	 importantes	 para	 o	 capitalismo	 contemporâneo	 e	 cujo	 alcance	 desafia,	 cada	 vez	 mais,	 os	 </line>
    <line>limites do que entendemos em sociologia como esfera econômica (Weber, 2004) ou campo eco - </line>
    <line>nômico	 (Bourdieu,	 2005).	 Apesar	 de	 raramente	 figurar	 em	 análises	 sociológicas	 sobre	 o	 avanço	 </line>
    <line>do	 ideário	 neoliberal,	 argumenta-se	 aqui	 que	 tal	 reconfiguração	 internacional	 provocada	 pelos	 </line>
    <line>movimentos empresariais pró-sustentabilidade constitui-se como um fator-chave para entender  </line>
    <line>a consolidação do neoliberalismo e o colapso do  Welfare State. Iniciativas supranacionais, como  </line>
    <line>o Pacto Global da ONU, dão legitimidade, poder simbólico e visibilidade às corporações privadas,  </line>
    <line>elevando-as a uma posição mais favorecida no que se entende por campo de poder (Bourdieu,  </line>
    <line>2014).	 Isso	 permite	 que	 as	 empresas	 tenham	 maior	 influência	 na	 definição	 dos	 ideais	 e	 das	 políti- </line>
    <line>cas consideradas universais.  </line>
    <line>Visando contribuir para os debates sociológicos sobre a atuação política do empresariado pró- </line>
    <line>-sustentabilidade, o presente artigo está estruturado em quatro seções (além desta introdução): a  </line>
    <line>primeira	 detalha	 os	 procedimentos	 metodológicos;	 a	 segunda	 reconstrói	 a	 sociogênese	 das	 toma- </line>
    <line>das de posição política do CEBDS e sua inserção internacional; a terceira analisa o repertório de  </line>
    <line>ação	 coletiva	 e	 a	 centralidade	 das	 petições;	 por	 fim,	 as	 considerações	 finais	 sintetizam	 as	 discus - </line>
    <line>sões e resultados, apontando alguns horizontes para agendas futuras de pesquisa. </line>
    <line>MÉTODO </line>
    <line>Para operacionalizar tal recorte voltado à atuação política do empresariado pró-sustentabilidade  </line>
    <line>e tomando as práticas do CEBDS como centro da análise, a pesquisa se ancora em uma estra- </line>
    <line>tégia eminentemente qualitativa. Em um primeiro momento, foram mapeados arquivos e docu- </line>
    <line>mentos	 institucionais	 obtidos	 via	 site	 do	 conselho	 empresarial	 para	 fins	 de	 análise	 sociogenética	 </line>
    <line>(Bourdieu, 2003; 2005). Este material foi enriquecido por outras informações obtidas por meio  </line>
    <line>de reportagens no jornal Valor Econômico (busca feita a partir do termo “CEBDS”), bem como  </line>
    <line>falas e textos da principal porta-voz do conselho empresarial (Busca pelo nome “Marina Grossi”,  </line>
    <line>a presidenta da entidade) em outros jornais, entrevistas a canais de mídia e outras enunciações  </line>
    <line>disponíveis no YouTube, além de um conjunto prévio de dados levantados em etapas anteriores  </line>
    <line>desta linha de pesquisa (Barreiros, 2019). </line>
    <line>Em seguida, foi realizado um mapeamento dos documentos mais relevantes e pertinentes aos ob- </line>
    <line>jetivos desta pesquisa, o que resultou, a partir de uma busca conjunta pelos termos “CEBDS” e  </line>
    <line>“Advocacy” no site institucional do conselho, em um total de 71 publicações. Estas publicações  </line>
    <line>foram lançadas entre 2014 e 2023. A partir disso, foi operacionalizado um processo de construção  </line>
    <line>de corpus	 (Bauer	 e	 Aarts,	 2012)	 a	 fim	 de	 possibilitar	 um	 aprofundamento	 maior	 das	 análises	 de	 </line>
    <line>um grupo representativo de publicações do CEBDS (16 no total), por meio de uma estratégia de  </line>
    <line>amostragem qualitativa (Minayo, 2017), organizadas via duas dimensões fundamentais: a) for - </line>
    <line>mato discursivo da publicação (i.e., cartas abertas, notas técnicas, guias informativos, proposições  </line>
    <line>práticas, relatórios técnicos); b) ano de publicação no site institucional do CEBDS.   </line>
    <line>2   trabalho, principalmente, sentidos por e (2010) as “instituição”  </line>
    <line>“institucionalização”, avaliados como consideravelmente compatíveis com as demais abordagens que fundamentam esta pesquisa,  </line>
    <line>concernentes às obras de Bourdieu, Fligstein, Tilly e Tarrow.</line>
  </page>
  <page number="5">
    <line>5 </line>
    <line>Quadro 1 – Corpus analítico – amostra qualitativa de Publicações do CEBDS – 2017 a 2023 </line>
    <line>Ano Formato Título </line>
    <line>2023 Carta aberta Posicionamento	 do	 setor	 empresarial	 brasileiro	 sobre	 a	 urgência	 de	 criação	 de	 um	 mercado	 re- </line>
    <line>gulado de carbono no Brasil </line>
    <line>2023 Guia informativo Guia CEBDS na COP 28 </line>
    <line>2023 Proposição prática Recomendações CEBDS para o Pacote Verde </line>
    <line>2023 Relatório técnico Relatório de atividades 2023 </line>
    <line>2022 Carta aberta Carta Aberta aos Presidenciáveis 2022 </line>
    <line>2022 Nota técnica Nota Técnica sobre Projeto de Lei nº 572/2022 </line>
    <line>2022 Nota técnica Nota Técnica – O que será discutido na COP27 </line>
    <line>2022 Proposição prática Agenda CEBDS 2022 </line>
    <line>2022 Relatório técnico Resumo de Atividades 2022 </line>
    <line>2021 Carta aberta Posicionamento Empresários pelo Clima </line>
    <line>2021 Proposição prática Proposta de Marco Regulatório para o Mercado de Carbono brasileiro </line>
    <line>2021 Proposição prática Posicionamento do Setor Empresarial sobre a Amazônia </line>
    <line>2021 Relatório técnico Visão 2050 </line>
    <line>2019 Guia informativo Por que a Compra Corporativa de Energia Renovável é um bom negócio? </line>
    <line>2018 Proposição prática Agenda CEBDS – por um país sustentável </line>
    <line>2017 Carta aberta Carta	Aberta:	Setor	Privado	apoia	Precificação	de	Carbono	no	Brasil </line>
    <line>Fonte: elaboração própria </line>
    <line>Além da análise documental (publicações, reportagens e falas da presidenta do conselho em ca- </line>
    <line>nais de mídia), a pesquisa recorreu aos dados primários obtidos a partir de entrevistas semies - </line>
    <line>truturadas com quatro informantes-chave do CEBDS que trabalham com a chamada “agenda de  </line>
    <line>advocacy”. Estes entrevistados compõem o quadro de colaboradores há pelo menos dois anos (à  </line>
    <line>época das entrevistas), com contatos obtidos por meio de indicação direta da diretoria de relações  </line>
    <line>institucionais e comunicação do CEBDS3. Cada entrevista4 teve duração de, aproximadamente, 40  </line>
    <line>minutos,	 com	 perguntas	 voltadas	 a	 três	 eixos	 principais	 (planejadas	 para	 complementar	 as	 análi - </line>
    <line>ses documentais): a) participação do CEBDS em redes e espaços internacionais; b) a qualidade das  </line>
    <line>participações do CEBDS em Comissões ligadas ao poder legislativo e outras iniciativas do Governo  </line>
    <line>Brasileiro	atual;	 c)	diferenças	e	desafios	 nos	modos	 de	engajamento	das	empresas	associadas	 nas	 </line>
    <line>pautas ligadas a “advocacy”. A maneira de analisar o corpus se inspirou sobretudo nos aportes da  </line>
    <line>análise de discursos bourdieusiana (Bourdieu, 2008) 5. Cabe destacar, em termos de explicitação  </line>
    <line>dos limites metodológicos, que a opção por uma análise focada no CEBDS delimita a análise à  </line>
    <line>vanguarda da “sustentabilidade empresarial”, não pretendendo generalizar tais achados para o  </line>
    <line>conjunto	heterogêneo	do	empresariado	brasileiro	ou	setores	de	pequeno	e	médio	porte. </line>
    <line>3  A amostragem de informantes-chave foi intencional (Minayo, 2017), focando em integrantes da equipe com experiência em  advo- </line>
    <line>cacy  e obtidos via  gatekeeper  (diretoria de Relações Institucionais) por e-mail. </line>
    <line>4 		 destacar	 aqui	 que	 todos	 os 	 informantes-chave	 concordaram	 previamente,	 com	 confirmação	 via	 e-mail	 ou	 WhatsApp,	 </line>
    <line>com os termos da pesquisa, que garantem o sigilo e o anonimato dos entrevistados, de forma integral. Tais termos são res- </line>
    <line>peitados nesta publicação.   </line>
    <line>5  Para uma sistematização desta abordagem de Análise de Discurso, ver Barreiros (2023).</line>
  </page>
  <page number="6">
    <line>6 </line>
    <line>RESULTADOS E DISCUSSÃO </line>
    <line>Os principais resultados da pesquisa são apresentados em duas subseções: primeiramente, uma  </line>
    <line>análise	 sociogenética	 das	 tomadas	 de	 posição	 política	 visando	 compreender	 a	 emergência	 e	 a	 </line>
    <line>consolidação do CEBDS como agente relevante nas disputas políticas no espaço estatal brasileiro;  </line>
    <line>em seguida, o foco recai sobre o repertório de ação coletiva e a centralidade das petições para a  </line>
    <line>diplomacia corporativa do conselho.  </line>
    <line>Análise sociogenética das tomadas de posição política </line>
    <line>No	 sentido	 de	 uma	 análise	 da	 circulação	 internacional	 de	 ideias	 (Bourdieu,	 2002),	 pode-se	 afirmar	 </line>
    <line>que os processos de produção e difusão do ideário do “desenvolvimento sustentável”, original- </line>
    <line>mente nos anos 1980 em instâncias vinculadas à ONU, são praticamente contemporâneos aos que  </line>
    <line>envolveram a importação e a tradução para o mundo empresarial.  Um ano depois da publicação  </line>
    <line>do relatório da ONU intitulado  Our common future (Brundtland, 1987), o primeiro a apresentar  </line>
    <line>uma	 definição	 de	 “desenvolvimento	 sustentável”,	 o	 consultor	 empresarial	 britânico	 John	 Elking - </line>
    <line>ton (sociólogo de formação, diga-se de passagem), que viria a ser o principal empreendedor do  </line>
    <line>“desenvolvimento sustentável” (Dezalay, 2007),  publica The Green Consumer Guide (junto com  </line>
    <line>seus	 parceiros 	 Julia	 Hailes	 e	 Joel	 Makower	 da	 consultoria	 SustainAbility,	 fundada	 no	 mesmo	 ano	 </line>
    <line>do famoso relatório da ONU). Este livro, de grande repercussão, pode ser considerado, ainda que  </line>
    <line>muito	 voltado	 à	 dimensão	 específica	 do	 “consumo	 ecológico”,	 como	 uma	 das	 obras	 pioneiras	 da	 </line>
    <line>tradução do ideário originalmente direcionado aos Estados nacionais para o léxico do mundo das  </line>
    <line>empresas, dando início à sistematização da “sustentabilidade empresarial”.  </line>
    <line>Basicamente, Elkington conferiu, em suas obras, uma racionalidade teórica às práticas empresa- </line>
    <line>riais	 alinhadas	 com	 os	 recentes	 ditames	 das	 Nações	 Unidas	 e	 afirmou	 que	 a	 “sustentabilidade	 em- </line>
    <line>presarial” estaria assentada sobre o que denominou de triple bottom line, formado pelos pilares  </line>
    <line>social, econômico e ambiental (Elkington, 2013), a mesma tríade que caracteriza a perspectiva ori - </line>
    <line>ginal da ONU em Brundtland (1987). Complementando as análises deste processo de tradução e  </line>
    <line>importação, Dezalay (2007) explica que o consultor britânico integrou a primeira leva de ativistas  </line>
    <line>ambientais que souberam utilizar uma vasta rede de contatos (i.e., capital social) e prestígio (i.e.,  </line>
    <line>capital simbólico) para se estabelecer como empreendedores do “desenvolvimento sustentável”. </line>
    <line>Já	 nos	 anos	 1990,	 em	 meio 	 a	 desdobramentos	 da	 Conferência	 das	 Nações	 Unidas	 sobre	 Meio	 </line>
    <line>Ambiente	 e	 Desenvolvimento	 (CNUMAD)	 no	 Rio	 de	 Janeiro,	 conhecida	 como	 Eco-92,	 começam	 a	 </line>
    <line>surgir diversas associações, entidades e movimentos defensores da chamada “causa sustentável”,  </line>
    <line>vinculados ao poder público, ao setor privado e ao terceiro setor.  O CEBDS surge em 1997 como  </line>
    <line>movimento de grandes empresas atuantes no Brasil, que se colocavam como a vanguarda “sus- </line>
    <line>tentável” do país (e.g.  Petrobras), na esteira de um correlato mundial fundado dois anos antes, o  </line>
    <line>World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) 6. Cabe destacar que o WBCSD é en- </line>
    <line>tendido por parte da literatura sociológica especializada em associações empresariais como uma  </line>
    <line>classe transnacional dedicada à governança global (e.g., Carroll; Sapinski, 2010; Kaplan, 2024).   </line>
    <line>Originalmente, o movimento inicial do WBCSD – ou classe transnacional – não tinha a letra “W”  </line>
    <line>(i.e.,	 significando	 “world” ) e se chamava Business Council for Sustainable Development, tendo  </line>
    <line>6  O WBCSD está presente em 36 países com cerca de 60 conselhos nacionais e regionais, abrangendo 22 setores industriais  </line>
    <line>e mais de 200 conglomerados empresariais em todos os continentes.</line>
  </page>
  <page number="7">
    <line>7 </line>
    <line>sido fundado em 1990. Era liderado por Stephan Schmidheiny, um empreendedor multimilioná - </line>
    <line>rio	 suíço	 e	 filantropo	 que,	 assim	 como	 o	 consultor	 John	 Elkington,	 exercia	 influência	 no	 espaço	 </line>
    <line>empresarial por meio do investimento em literatura gerencial, tendo publicado em 1992 o livro  </line>
    <line>Changing Course – A Global Business Perspective on Development and the Environment. Esta obra  </line>
    <line>traz algumas das crenças fundamentais produzidas pelos pioneiros do ideário da “sustentabilida- </line>
    <line>de” – protagonismo empresarial na pauta socioambiental, crescimento sustentável e cooperações  </line>
    <line>multissetoriais – estão bem retratadas neste referido livro de Schmidheiny (1992). </line>
    <line>Na	 virada	 do	 milênio,	 o	 arranjo	 institucional	 brasileiro	 da	 “sustentabilidade	 empresarial”	 havia	 </line>
    <line>se	 beneficiado	 diretamente	 dos	 debates	 internacionais 	 fomentados	 pelo	 WBCSD,	 organizado	 pe- </line>
    <line>las fundações do CEBDS (1997), Instituto Ethos (1998), Rede Brasileira do Pacto Global (2000),  </line>
    <line>Centro de Estudos de Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (2003) e do Índice de Sus- </line>
    <line>tentabilidade Empresarial da BM&amp;FBovespa (2005). Essas entidades estabeleciam os alicerces  </line>
    <line>institucionais em domínios estratégicos: na articulação de lideranças empresariais, com o CEBDS,  </line>
    <line>o Ethos e a Rede Brasileira do Pacto Global; na educação de futuros gestores para a “sustentabi - </line>
    <line>lidade”,	 com	 o	 GVces;	 na	 financeirização	 da	 “sustentabilidade”,	 com	 o	 ISE	 (Barreiros,	 2019;	 Botta,	 </line>
    <line>2013; Sartore, 2012). Esta estrutura principal ainda viria a ser complementada pelos movimentos  </line>
    <line>nacionais	 de	 “profissionais	 da	 sustentabilidade”	 que	 surgem	 em	 2011:	 1)	 a	 Associação	 Brasileira	 </line>
    <line>dos	 Profissionais	 pelo	 Desenvolvimento	 Sustentável	 (ABRAPS);	 2)	 a	 Plataforma	 de	 Liderança	 Sus- </line>
    <line>tentável (PLS) (Barreiros, 2021).  </line>
    <line>Atribui-se aqui um lugar de destaque ao CEBDS neste arranjo institucional por ter participado de - </line>
    <line>cisivamente das primeiras recepções em nosso país da ideia de “sustentabilidade”: “foi a primei - </line>
    <line>ra organização a trabalhar em torno do triple bottom line 7, instigando lideranças empresariais a  </line>
    <line>pensar	 em	 uma	 abordagem	 unificada	 dos	 temas	 sociais,	 econômicos	 e	 ambientais”	 (CEBDS,	 2016,	 </line>
    <line>p. 10). O conselho ganhou força sobretudo a partir do Pacto Global da ONU (lançado em 2000) e,  </line>
    <line>desde o seu início, esteve alinhado aos princípios propostos por esta soft law 8 supranacional. É  </line>
    <line>importante	 explicar	 que	 a	 emergência	 do	 Pacto	 Global	 da	 ONU	 operou	 uma	 inversão	 hierárquica	 </line>
    <line>no campo do poder: ao atribuir às corporações a condição de protagonistas da “sustentabilidade”,  </line>
    <line>relegou os Estados nacionais a uma função meramente subsidiária na implementação do “desen- </line>
    <line>volvimento	 sustentável”	 (Barreiros,	 2019	 e	 2021).	 Essa	 configuração	 institucionalizou	 a	 crença	 de	 </line>
    <line>que	 a	 eficácia	 regulatória,	 no	 rumo	 da	 “sustentabilidade”,	 reside	 na	 convergência	 entre	 o	 aparato	 </line>
    <line>burocrático da ONU e o pragmatismo das multinacionais, em detrimento, ao menos parcialmente,  </line>
    <line>da	 soberania	 estatal,	configuração	 que	 alavancou	 a	 construção	 de	 “mercados	 do	 desenvolvimento	 </line>
    <line>sustentável” (Dezalay, 2007).  </line>
    <line>Acompanhando o desenvolvimento do WBCSD em escala mundial, o CEBDS também revela uma  </line>
    <line>história de ganho de representatividade e poder simbólico. Se, em sua fundação, havia 27 empre- </line>
    <line>sas signatárias do primeiro relatório (núcleo pioneiro formado por empresas mais engajadas em  </line>
    <line>setores	 industriais),	 este	 número	 saltou	 ao	 fim	 de	 2025	 para	 126	 grandes	 grupos	 empresariais	 </line>
    <line>(CEBDS, 2026). Assim, tornou-se mais diverso em termos de segmentos de atuação, representan- </line>
    <line>do atualmente cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e mais de um milhão  </line>
    <line>7  A ideia de Triple bottom line foi	 proposta	 originalmente	 pelo	 consultor	 britânico	 John	 Elkington	 no	 início	 dos	 anos	 1990	 e	 </line>
    <line>se baseia nos pilares sociais (people) , ambientais (planet) e econômicos (profit). Para um aprofundamento sobre esta teoria  </line>
    <line>gerencial, ver Elkington (2013).   </line>
    <line>8  O Pacto Global pode ser entendido como soft law ,	 no	 sentido	 de	 Dezalay	 e	 Garth	 (2001).	 Afinal,	 ele	 não	 investe	 na	 coerção	 </line>
    <line>dos agentes empresariais. Em vez disso, cria as possibilidades estratégicas para gerar conformidade para além das puni- </line>
    <line>ções legais.</line>
  </page>
  <page number="8">
    <line>8 </line>
    <line>de empregos diretos9. Esta alavancagem no número de associadas representa, para além de uma  </line>
    <line>concentração	 muito	 mais	 significativa	 de	 capital	 econômico	 no	 conselho,	 um	 ganho	 em	 seu	 mon- </line>
    <line>tante de capital simbólico, ambos cruciais para as disputas travadas nos espaços estatais e supra- </line>
    <line>nacionais.  </line>
    <line>É válido salientar que, em sua fase de consolidação inicial, o conselho foi capitaneado por Fernando  </line>
    <line>Almeida, figura cuja trajetória personifica o período inicial de construção de consenso sobre a  </line>
    <line>“agenda da sustentabilidade” em nosso país. Trata-se de um professor da Universidade Federal  </line>
    <line>do	 Rio	 de	 Janeiro	 (UFRJ),	 da	 Fundação	 Dom	 Cabral	 (FDC)	 e	 da	 Pontifícia	 Universidade	 Católica	 </line>
    <line>do	 Rio	 de	 Janeiro	 (PUC-Rio),	 com	 circulação	 internacional	 proeminente.	 É	 autor	 do	 livro	 “O	 bom	 </line>
    <line>negócio da sustentabilidade”, lançado em 2002, portanto, um enunciador legítimo e consagrado,  </line>
    <line>alinhado ao WBCSD e apto a dar corpo à ascensão da emergente instituição da “sustentabilidade  </line>
    <line>empresarial”.  </line>
    <line>A	 sucessão	 de 	 Almeida	 por 	 Marina	 Grossi	 (a	 presidente	 desde	 2010)	 reflete	 uma	 mutação	 rele- </line>
    <line>vante em termos de movimentos sociais empresariais. Esta mutação parte do esforço centrado  </line>
    <line>no	 convencimento	 pedagógico	 (quase	 panfletário)	 da	 primeira	 fase	 para	 uma	 outra	 de	 diplomacia	 </line>
    <line>corporativa com forte presença em espaços estatais, tendo ainda a parceria com o WBCSD como  </line>
    <line>central neste jogo de forças. As peculiaridades da circulação internacional de ideias e de agentes  </line>
    <line>(Bourdieu, 2002) que caracteriza a ponte WBCSD (conselho internacional produtor e exportador  </line>
    <line>de ideias e saberes) e o CEBDS (conselho nacional tradutor e importador em um país razoavel- </line>
    <line>mente periférico) foi um dos motes centrais das entrevistas realizadas. Segundo os informantes - </line>
    <line>-chave consultados, a relação CEBDS-WBCSD passou por transformações. A princípio, o CEBDS era  </line>
    <line>um mero receptor ou tradutor para o Brasil dos ditames e ferramentas emergentes da “sustenta- </line>
    <line>bilidade empresarial” (e.g. , o “Reporting Matters”, idealizado pelo WBCSD, dedicado à promoção  </line>
    <line>das “boas práticas” de comunicação empresarial sobre “sustentabilidade”). Atualmente, a relação  </line>
    <line>é	 muito	 mais	 horizontal	 e	 com	 influências	 mútuas	 em	 processos	 decisórios	 e	 estratégias	 políticas.	 </line>
    <line>Segundo	 os	 entrevistados,	 CEBDS	 e	 WBCSD	 têm	 trabalhado	 juntos	 na	 construção	 de	 narrativas	 </line>
    <line>unificadas	com	o	objetivo	de	ampliar	campanhas	de	sustentabilidade	globalmente.	 </line>
    <line>O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) partici- </line>
    <line>pa ativamente das COPs de Clima da ONU desde 1998, um ano após sua fundação, com a  </line>
    <line>promoção de eventos e articulações globais para dar destaque à voz e às ações das em- </line>
    <line>presas brasileiras. Ano após ano, o setor empresarial tem se tornado cada vez mais ativo  </line>
    <line>e	 influen	 nas	 COPs	 -	 um	 exemplo	 recente	 foi	 durante	 a	 COP	 26,	 em	 Glasgow,	 Escócia,	 em	 </line>
    <line>2021, quando o CEBDS lançou o Posicionamento Empresários pelo Clima, assinado por  </line>
    <line>quase 120 CEOs e mais 14 associações, que contribuiu para o aumento da ambição da meta  </line>
    <line>de neutralidade climática do país, que foi antecipada de 2060 para 2050. (GUIA CEBDS na  </line>
    <line>COP28, CEBDS, 2023) </line>
    <line>Os informantes-chave destacam que a presidenta do CEBDS ganhou, recentemente, um cargo de  </line>
    <line>conselheira no WBCSD, além da institucionalização da parceria entre as duas entidades para a  </line>
    <line>COP30 de 2025 em Belém, capital do estado do Pará (o CEBDS criou uma diretoria de articulação  </line>
    <line>com o seu homólogo internacional especialmente para este evento), a qual conferiu maior centra- </line>
    <line>lidade à pauta política brasileira no jogo de forças internacional da “sustentabilidade”. A recente  </line>
    <line>9  Esta medida é constantemente atualizada pela própria entidade em seu website  institucional. A título de exemplo, vide  </line>
    <line>https://cebds.org/release/cebds-cresce-63-em-2-anos-e-chega-a-marca-de-100-empresas-associadas/.</line>
  </page>
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