Desinformação de gênero facilitada pela tecnologia Gendered disinformation facilitated by technology Desinformación de género facilitada por la tecnologia

La désinformation sur le genre facilitée par la technologie


Ágatha Cristinny Oliveira da SILVA1 Luciane de Fátima Beckman CAVALCANTE2


Correspondência

Autor para correspondência: Ágatha Cristinny Oliveira da Silva

Endereço completo.

E-mail: agathacristinny.contato@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0009-0008-9904-309X


Submetido em: 15/09/2025 Aceito em: 03/12/2025 Publicado em: 30/12/2025


‌1 Mestranda em Ciência da Informação no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência de Tecnologia (IBICT).‌

2 Pesquisadora Adjunta I no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência de Tecnologia (IBICT). Professora do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (PPGCI/ IBICT).


RESUMO

A desinformação de gênero facilitada pela tecnologia configura-se como um fenômeno informacional complexo, associado à intensificação de violências simbólicas e estruturais contra mulheres e grupos minorizados no ambiente digital. Inserido nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar como a desinformação de gênero facilitada pela tecnologia tem sido abordada no campo da Ciência da Informação brasileira. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa exploratória-descritiva, de abordagem qualitativa, baseada em um levantamento na literatura científica indexada nas bases BRAPCI, SciELO Brasil e Oasisbr, considerando o recorte temporal de 2020 a 2025. Os resultados indicam que a temática ainda apresenta baixa consolidação no campo, com produção científica reduzida, dispersa e concentrada sobretudo em trabalhos acadêmicos de pós-graduação e em anais de eventos científicos. Observa-se, ainda, a predominância de abordagens exploratórias e a ausência de sistematização teórico-metodológica mais robusta sobre o tema. Conclui-se que a Ciência da Informação dispõe de aportes relevantes para a compreensão e o enfrentamento da desinformação de gênero, especialmente por meio da análise das práticas informacionais, da mediação da informação e do fortalecimento da competência crítica em informação, apontando para a necessidade de ampliação e aprofundamento das pesquisas sobre a temática no contexto brasileiro.

Palavras-chave: desinformação de gênero; desinformação de gênero facilitada pela tecnologia. tecnologias digitais; violência de gênero.


ABSTRACT

Gendered disinformation facilitated by technology constitutes a complex informational phenomenon associated with the intensification of symbolic and structural violence against women and marginalized groups in digital environments. Within this context, this study aims to analyze how gendered disinformation facilitated by technology has been addressed in the field of Brazilian Information Science. Methodologically, the research is exploratory-descriptive with a qualitative approach, based on a literature survey of scientific publications indexed in the BRAPCI, SciELO Brasil, and Oasisbr databases, considering the period from 2020 to 2025. The results indicate that the topic remains weakly consolidated within the field, with a limited and fragmented body of scientific production, concentrated mainly in postgraduate academic research and conference proceedings. Furthermore, the predominance of


exploratory approaches and the lack of more robust theoretical and methodological systematization were observed. The study concludes that Information Science offers relevant theoretical and analytical contributions to understanding and confronting gendered disinformation, particularly through the analysis of informational practices, information mediation, and the strengthening of critical information literacy, highlighting the need to expand and deepen research on the topic in the Brazilian context.

Keywords: gendered disinformation; gendered disinformation facilitated by technology; digital technologies; gender-based violence.

RESUMEN

La desinformación de género facilitada por la tecnología se configura como un fenómeno informacional complejo, asociado a la intensificación de violencias simbólicas y estructurales contra las mujeres y los grupos minorizados en los entornos digitales. En este contexto, el presente estudio tiene como objetivo analizar cómo la desinformación de género facilitada por la tecnología ha sido abordada en el campo de la Ciencia de la Información en Brasil. Metodológicamente, se trata de una investigación exploratorio-descriptiva con enfoque cualitativo, basada en un levantamiento de la literatura científica indexada en las bases BRAPCI, SciELO Brasil y Oasisbr, considerando el período de 2020 a 2025. Los resultados indican que la temática aún presenta una débil consolidación en el campo, con una producción científica limitada y fragmentada, concentrada principalmente en investigaciones académicas de posgrado y en actas de eventos científicos. Asimismo, se observa el predominio de enfoques exploratorios y la ausencia de una sistematización teórica y metodológica más robusta. Se concluye que la Ciencia de la Información dispone de aportes relevantes para la comprensión y el enfrentamiento de la desinformación de género, especialmente a partir del análisis de las prácticas informacionales, de la mediación de la información y del fortalecimiento de la alfabetización informacional crítica, lo que refuerza la necesidad de ampliar y profundizar las investigaciones sobre la temática en el contexto brasileño.

Palabras clave: desinformación de género; desinformación de género facilitada por la tecnologia; tecnologías digitales; violencia de género.


RÉSUMÉ


La désinformation liée au genre facilitée par la technologie constitue un phénomène informationnel complexe, associé à l'intensification des violences symboliques et structurelles contre les femmes et les groupes minoritaires dans l'environnement numérique. Dans ce contexte, la présente étude vise à analyser comment la désinformation liée au genre facilitée par la technologie a été abordée dans le domaine des sciences de l'information au Brésil. Sur le plan méthodologique, il s'agit d'une recherche exploratoire-descriptive, d'approche qualitative, basée sur une étude de la littérature scientifique indexée dans les bases BRAPCI, SciELO Brasil et Oasisbr, couvrant la période 2020-2025. Les résultats indiquent que le thème est encore peu consolidé dans le domaine, avec une production scientifique réduite, dispersée et concentrée principalement dans les travaux universitaires de troisième cycle et dans les actes de manifestations scientifiques. On observe également la prédominance d'approches exploratoires et l'absence d'une systématisation théorique et méthodologique plus solide sur le sujet. Nous concluons que la science de l'information apporte une contribution importante à la compréhension et à la lutte contre la désinformation liée au genre, notamment par l'analyse des pratiques informationnelles, la médiation de l'information et le renforcement de la compétence critique en matière d'information, soulignant la nécessité d'élargir et d'approfondir la recherche sur ce thème dans le contexte brésilien.

Mots-clés: désinformation liée au genre; désinformation liée au genre facilitée par la technologie; technologies numériques; violence de genre.

  1. INTRODUÇÃO

    As transformações das tecnologias digitais modificaram a maneira do indivíduo de interagir, acessar, disseminar informação. Principalmente com a popularização das redes sociais, agora o indivíduo deixa de ser somente um receptor passivo da informação e passa a produzi-las e acessá-las com rapidez. Nesse contexto, marcado pela centralidade das tecnologias e das plataformas digitais


    nos processos de acesso e uso da informação, a Ciência da Informação é chamada a mobilizar seus conceitos, teorias e modelos para compreender e enfrentar os desdobramentos desse fenômeno, como por exemplo, o desenvolvimento de um ambiente sensível à desinformação e discursos de ódio.

    Mesmo já contemplando estudos sobre o assunto, buscando compreender a desinformação e seus diversos impactos políticos, econômicos e sociais, bem como seu alcance no cenário atual em uma sociedade hiperconectada, a Ciência da Informação têm na desinformação de gênero um fenômeno preocupante a ser estudado, visto que é marcado pelo uso estratégico de narrativas baseadas em gênero para deslegitimar, difamar e silenciar sujeitos e grupos, afetando de maneira particular mulheres, pessoas trans e outras identidades dissidentes, e contribuindo para a reprodução de violências de gênero estruturais em sociedades patriarcais e misóginas.

    Quando direcionada às mulheres, essa dinâmica se expressa por meio da disseminação deliberada de conteúdos falsos ou manipulados que visam minar sua credibilidade pública, reforçando narrativas misóginas e estratégias de silenciamento. Essas estratégias tomam proporções ainda maiores quando aplicadas no ambiente digital, tendo em vista o alcance mundial e a velocidade das interações sociais e informacionais nesse ambiente. Nesse sentido, a desinformação de gênero pode ser compreendida como uma modalidade de violência de gênero, que se expande e adquire novas configurações no contexto digital, caracterizando-se como violência de gênero facilitada pela tecnologia.

    A violência de gênero facilitada pela tecnologia tem como principal alvo mulheres inseridas em espaços públicos de poder,


    como jornalistas e representantes políticas. Além disso, outras formas de discriminação e violência como racismo, intolerância religiosa, capacitismo, homofobia e transfobia se entrelaçam com a misoginia e o sexismo, e por isso mulheres que estão incluídas nestes subgrupos estão mais expostas a sofrerem violência online (UNESCO, 2021).

    O ambiente digital, impulsionado por sistemas algorítmicos, potencializa conteúdos sensacionalistas, polarizadores ou gerados pelo fenômeno do filtro de bolha (Santos, 2024), contribuem para o engajamento de conteúdos difamatórios e falsos. Enquanto isso, as plataformas digitais que atuam como intermediários tecnológicos falham em atuar no combate à desinformação e violência online e agravam ainda mais o fenômeno. Nesse cenário, é importante frisar que as plataformas digitais não são neutras, e desempenham um papel mediador de informação e desinformação, contribuindo com seu alto alcance por meio do engajamento rápido e em massa às publicações. As consequências disso, no entanto, são preocupantes, visto que afetam a sociedade em diversos âmbitos, como os grupos minorizados, a democracia, a saúde pública e os direitos humanos.

    O combate à desinformação de gênero exige abordagens interdisciplinares e multissetoriais que envolvem agentes estatais e não estatais, como a sociedade civil e o setor privado de empresas de plataformas online. Além disso, observa-se a oportunidade de profissionais da informação, como por exemplo bibliotecários(as), tratarem o tema e promoverem o enfrentamento à desinformação de gênero no ambiente digital, como no incentivo a programas de competência crítica em informação e alfabetização midiática, agências de checagem de fatos e regulação de plataformas digitais.


    Diante desse contexto, observa-se a necessidade de compreender como a desinformação de gênero facilitada pela tecnologia tem sido abordada no campo da Ciência da Informação. Assim, o objetivo geral deste estudo é analisar como essa temática aparece nas pesquisas indexadas em bases de dados da área em língua portuguesa. Como objetivos específicos, busca-se contextualizar os conceitos de desinformação e violência de gênero e mapear a produção científica que articula esses temas. A relevância da pesquisa reside na ampliação do escopo analítico da Ciência da Informação ao articular desinformação, gênero e transformações digitais, contribuindo para a sistematização do debate acadêmico e para a identificação de lacunas e tendências de investigação sobre a temática.

  2. DESINFORMAÇÃO DE GÊNERO

    A desinformação é um tema amplamente debatido na Ciência da Informação, principalmente no que se refere à esfera política, ambiental e de saúde pública (Araújo; Lima; Alzamora, 2024; Bezerra; Borges, 2021; Schneider, 2022). Com a popularização da internet e das redes sociais, cada vez mais presentes no cotidiano, a facilidade, a velocidade e o alcance das desinformações atingiram níveis exponenciais e inimagináveis, ao mesmo tempo em que essas plataformas passaram a desempenhar um papel central na influência de opiniões, na manipulação e na comunicação entre diversos setores da sociedade (Santos, 2024). A partir disso, a orquestração de disseminação de desinformação exerce uma grande influência na opinião pública, democracia e relações sociais para defender interesses específicos e manter uma hegemonia.


    Santos e Pajeú (2024, p. 15) concebem a desinformação como “um fenômeno material constituído pela manipulação e cooptação de sujeitos mediante o uso de informações falsas em um nível de complexidade estratégica com o objetivo de manter uma situação de poder”, enfatizando sua dimensão processual e relacional, centrada nos efeitos da manipulação informacional sobre os sujeitos. Já Brisola e Bezerra (2018, p. 3323) a definem como um “sistema informacional que molda a opinião pública de acordo com seus interesses utilizando uma série de artifícios e mecanismos para manter a hegemonia”, deslocando o foco para a dimensão estrutural e sistêmica da desinformação, compreendida como parte de arranjos informacionais mais amplos de dominação.

    Nesse sentido, enquanto a primeira abordagem privilegia a análise das estratégias de cooptação e seus impactos diretos na constituição dos sujeitos, a segunda evidencia as engrenagens informacionais que sustentam e reproduzem essas estratégias em escala social. Articuladas, essas perspectivas permitem compreender a desinformação simultaneamente como prática estratégica de poder e como sistema informacional hegemônico, revelando tanto suas operações micro, no nível da experiência e da subjetividade, quanto suas implicações macro, no campo das disputas simbólicas e políticas. Diante disso, este estudo busca fortalecer o debate na Ciência da Informação ao propor uma análise da desinformação a partir de uma perspectiva de gênero, com atenção às dinâmicas mediadas por tecnologias digitais.

    A desinformação constitui um fenômeno multidimensional, atravessado por diferentes atores, narrativas e regimes de poder informacional. Quando articulada às questões de gênero, ela assume contornos específicos ao mobilizar narrativas machistas, misóginas


    e sexistas que produzem e intensificam formas de violência de gênero, sobretudo em ambientes digitais, afetando a credibilidade, a participação pública e a segurança informacional das mulheres. Conforme destacam Wardle e Derakhshan (2017, p. 41, tradução nossa), a desinformação tende a “destacar deliberadamente diferenças e divisões” entre grupos sociais; no caso da desinformação de gênero, essas estratégias se apoiam em estereótipos e papéis socialmente atribuídos às mulheres, acionando hierarquias de gênero já existentes para legitimar narrativas misóginas e intensificar violências direcionadas.

    No campo político, a desinformação de gênero opera como uma estratégia voltada à deslegitimação da atuação de mulheres, ao mobilizar estereótipos que as representam como não confiáveis, irracionais ou emocionalmente incapazes de ocupar cargos públicos, contribuindo para seu afastamento da carreira política (Di Meco; Wilfore, 2021). Conforme destacam as autoras, “retirar as mulheres do espaço político é frequentemente apenas o primeiro passo de uma estratégia muito maior e mais perigosa de enfraquecer a democracia e os direitos humanos” (Di Meco; Wilfore, 2021, tradução nossa). Além disso, esse tipo de desinformação reforça narrativas misóginas e pode ser acompanhado de ameaças físicas dirigidas às mulheres. Esses processos se articulam a um contexto mais amplo de persistência da violência de gênero, expresso nos elevados índices de feminicídio, violência doméstica e abuso sexual. No Brasil, por exemplo, o país ocupa o 70º lugar no ranking de igualdade de gênero entre 146 países, com pontuação de 0,716, em que 1 representa maior proximidade à igualdade (World Economic Forum, 2024), o que reforça a compreensão da desinformação de gênero, especialmente


    a facilitada por tecnologias digitais, como mais uma forma de violência que demanda enfrentamento sistemático.

    Conforme apontam Alcântara e Valentim (2023), a desinformação de gênero ainda é pouco estudada, principalmente no Sul Global. Os estudos têm principal foco no Norte Global, enquanto o Sul Global continua sendo negligenciado. Além disso, os estudos carecem de perspectivas mais interseccionais e críticas, visando compreender a influência que as narrativas políticas têm nas campanhas de desinformação de gênero, bem como a interseccionalidade de violências, que se agrupam e impactam principalmente grupos mais marginalizados como as mulheres racializadas (Alcântara; Valentim, 2023). Conforme se mostra no estudo, o fato das principais bases de Ciência da Informação conterem poucos estudos sobre o tema já é um indicativo desse apontamento.

    Diante do exposto, a desinformação de gênero pode ser compreendida como uma expressão específica e estruturante da desinformação, na medida em que mobiliza hierarquias de gênero historicamente construídas para produzir silenciamentos, deslegitimações e violências direcionadas, especialmente em ambientes digitais. A compreensão da desinformação de gênero como uma forma específica de violência demanda, portanto, o aprofundamento do debate sobre como as tecnologias digitais e as plataformas informacionais atuam na intensificação e na reconfiguração dessas violências, aspecto que será desenvolvido na seção seguinte.

  3. VIOLÊNCIA DE GÊNERO FACILITADA PELA TECNOLOGIA


    A violência de gênero é direcionada contra mulheres e/ou afeta as mulheres desproporcionalmente por serem mulheres, devido ao status de desigualdade social, política e econômica imposto a elas. Inclui, mas não se limita à violência sexual, casamento infantil e forçado, mutilação genital, assédio moral e sexual e violência de gênero facilitada por tecnologia (UNESCO, 2023, p. 10). A Unesco define violência de gênero facilitada pela tecnologia (no inglês, Technology-facilitated gender-based violence – TF GBV) como “o uso de tecnologia para promover ou mediar violência contra um indivíduo que se identifica como mulher”. Esse tipo de violência se difere pelo qualificador de gênero porque “meninas e mulheres são atacadas simplesmente por estarem online ou por serem meninas/mulheres” (UNESCO, 2023, p. 10, tradução nossa).

    A violência de gênero facilitada pela tecnologia manifesta-se por meio da mediação de ferramentas e ambientes digitais, produzindo impactos que extrapolam o espaço online e afetam a vida das mulheres também no contexto offline (UN Women, 2025). Práticas como o doxing, caracterizadas pela divulgação não autorizada de informações pessoais na web ou em redes sociais, podem desencadear perseguições e episódios de violência física. De modo semelhante, a criação e a disseminação de deepfakes, especialmente aquelas de cunho sexual, como as deepnudes, comprometem a reputação das vítimas e geram prejuízos em esferas profissionais, acadêmicas e familiares.

    O desenvolvimento da tecnologia de Inteligência Artificial Generativa (IAG) amplia essas dinâmicas ao facilitar formas de assédio moral, sexual e psicológico e a propagação de discursos de ódio (UNESCO, 2023), incluindo a produção de deepfakes utilizadas para desinformar e difamar mulheres. Esses efeitos atingem


    mulheres em diferentes âmbitos sociais, culturais, profissionais, acadêmicos, políticos e econômicos, sejam elas figuras públicas ou não, sendo agravados pela ausência de políticas rigorosas por parte das empresas desenvolvedoras dessas tecnologias, o que contribui para a perpetuação da violência de gênero facilitada pela tecnologia (UNESCO, 2023).

    Nesse sentido, entende-se que a violência de gênero facilitada pela tecnologia traz novas configurações e problemas de violência de gênero causados pelo uso malicioso das tecnologias digitais, enquanto reafirma problemas antigos de violência de gênero conforme o processo e história de subjugação das mulheres dentro de uma sociedade patriarcal e misógina.

    As ferramentas digitais e o desenvolvimento de tecnologias e plataformas online contribuíram para o empoderamento de meninas e mulheres, ao mesmo tempo em que também contribuíram para gerar violência online baseada no gênero (gender-based online violence) (Suzor et al., 2018). Estudos apontam que “58% de meninas e mulheres jovens em todo o mundo já sofreram assédio online em plataformas de mídia social” e a maioria delas aponta que sofreu o primeiro assédio com idade entre 14 e 16 anos (UNESCO, 2023, p. 3, tradução nossa).

    Algumas práticas de violência de gênero nasceram com a internet e as plataformas digitais, mas outras surgiram previamente, e sofreram mudanças com as transformações digitais e tecnológicas para chegar no cenário atual (Suzor et al., 2018). Isto porque, independente da tecnologia ou plataforma digital utilizada pelos perpetradores, a violência de gênero online em sua essência possui aspectos misóginos e sexualizados (Suzor et al., 2018). Por exemplo, o desenvolvimento de comunidades e subgrupos online pautados em


    uma “machosfera”, como as Redpill, Incel e MGTOW (sigla para Men Going Their Own Way), tem emergido atualmente (G1, 2023). Elas retratam o ódio contra as mulheres e reforçam as violências de gênero, dessa vez mediada pela tecnologia, em que nem é necessário conhecer a vítima para atacá-la.

    A violência de gênero é um problema de direitos humanos, e promover esforços significativos para combater a violência de gênero mediada por tecnologia é uma urgência, pautada na necessidade de garantir os direitos à segurança, privacidade e vida de meninas e mulheres. Além disso, entende-se que a desinformação de gênero se enquadra num contexto mais amplo de violência de gênero moldada pela desigualdade de gênero, e por isso é um fenômeno complexo que envolve muitos fatores e atores e não se restringe ao ambiente online. No entanto, por estar atrelada às desigualdades estruturais da sociedade, o combate à violência de gênero é um processo complexo que requer a participação ativa de atores estatais e não-estatais envolvidos na governança da Internet (Suzor et al., 2018).

    Nesse contexto, Suzor et al. (2018) apontam o papel dos Estados na formulação, aplicação e monitoramento de sanções legais que responsabilizem o setor privado, especialmente as empresas de plataformas digitais, pela prevenção e enfrentamento da violência de gênero mediada por tecnologia — incluindo a desinformação de gênero. Os autores destacam que a ausência de mecanismos regulatórios eficazes contribui para a normalização dessas práticas e para a fragilização dos direitos humanos no ambiente digital, reforçando a necessidade de políticas públicas articuladas à governança da internet. Diante dessas dinâmicas, torna-se fundamental deslocar a análise da violência de gênero facilitada pela tecnologia para o campo da Ciência da Informação,


    considerando que a desinformação de gênero se constitui como um fenômeno informacional atravessado por processos de mediação, circulação e apropriação da informação em ambientes digitais.

  4. DESINFORMAÇÃO DE GÊNERO FACILITADA PELA TECNOLOGIA: UMA PREOCUPAÇÃO PARA A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO

    Considerando que as plataformas digitais atuam como mediadoras não neutras dos fluxos informacionais (Wardle; Derakhshan, 2017), observa-se que outras instâncias mediadoras, como a televisão e a grande mídia, também desempenham papel relevante na difusão de rumores, informações suspeitas e desinformação. Tais práticas influenciam diretamente a circulação e a amplificação da desinformação, sobretudo na sociedade hiperconectada e acelerada contemporânea, razão pela qual essas plataformas merecem destaque e atenção na formulação de medidas de enfrentamento ao fenômeno. Conforme destacam Wardle e Derakhshan (2017, p. 13, tradução nossa), “sem amplificação, a desinformação não chega a lugar nenhum”.

    Diante desse cenário, a Ciência da Informação se insere no debate ao analisar os processos de mediação, circulação, validação e uso da informação em ambientes digitais marcados por assimetrias de poder e por práticas sistemáticas de desinformação. A produção científica da área tem buscado compreender como os fluxos informacionais mediados por plataformas digitais contribuem para a amplificação da desinformação e quais estratégias informacionais podem ser mobilizadas para seu enfrentamento. Santos-D’Amorim e Côrbo (2024) inferem que a desinformação causou tamanho impacto no âmbito público que as pesquisas sobre o fenômeno surgiram


    “quase como uma resposta aos efeitos prejudiciais da desinformação

    em diversas frentes”.

    Assim, a inserção da desinformação de gênero no campo da Ciência da Informação se justifica à luz da própria definição clássica da área, pois Conforme Borko (1968), a Ciência da Informação dedica-se ao estudo dos fluxos informacionais e dos processos relacionados à origem, acumulação, organização, armazenamento, recuperação, interpretação, difusão, transformação e uso da informação. Nesse sentido, a desinformação de gênero pode ser compreendida como um fenômeno informacional que atravessa todas essas etapas, desde a produção intencional de conteúdos falsos ou distorcidos até sua amplificação, circulação e apropriação social em ambientes digitais mediados por plataformas tecnológicas. Ao analisar essas dinâmicas, a Ciência da Informação contribui para a compreensão crítica das práticas informacionais que sustentam a desinformação de gênero e para a proposição de estratégias de enfrentamento baseadas na mediação da informação e na competência crítica em informação.

    Conforme apontam Alcântara e Valentim (2023), nos estudos concernentes à desinformação, as soluções de enfrentamento propostas frequentemente estão pautadas na promoção de programas de alfabetização midiática (do inglês, media literacy) e medidas de regulação de plataformas digitais. Muitos autores também indicam o desenvolvimento da Competência em Informação (CoInfo) como uma maneira de combate, de modo que os indivíduos aprendam a buscar, recuperar e interpretar adequadamente a informação, bem como analisar a sua autenticidade, credibilidade e relevância na tomada de decisão ou resolução de problemas (Moura; Furtado; Belluzzo, 2019).


    Da mesma forma, autores defendem uma perspectiva crítica aplicada à CoInfo e apontam que “[...] deveria acompanhar a educação ao longo da vida para, dentre outras habilidades, ajudar a formar cidadãos aptos a lidar com fenômenos informacionais como a desinformação e a circulação de fake news” (Brisola; Bezerra, 2018, p. 3327). Outras propostas incluem a integração desses programas, como a promoção de Alfabetização Midiática e Informacional (AMI) (UNESCO, 2016) e Alfabetização Midiática e Informacional Crítica (AMIC) (Brisola; De Paula; Carvalho, 2024). Todas elas propõem um caminho para a produção e consumo crítico da informação, bem como o desenvolvimento da autonomia diante do caos informacional agravado pela esfera digital.

    Outro eixo relevante no conjunto de estratégias de enfrentamento à desinformação consiste no fortalecimento da atuação das agências de checagem de fatos (fact-checking). O processo de checagem envolve a busca por fontes diversas, a análise e a contextualização das informações, bem como a consulta a especialistas e, quando necessário, à Lei de Acesso à Informação (LAI). Para além do produto final, geralmente materializado em textos que apresentam as conclusões da verificação e explicitam as fontes utilizadas, essas práticas evidenciam o compromisso com a transparência e a responsabilidade informacional (Viana et al., 2021). Nesse sentido, tais iniciativas dialogam diretamente com os princípios e fundamentos da Ciência da Informação, ao mobilizarem procedimentos de avaliação crítica, filtragem, recuperação, pesquisa e representação da informação, reafirmando a centralidade do campo para o enfrentamento da desinformação. Reside aí a necessidade de pesquisas que se voltem às discussões sobre desinformação de gênero na área.


  5. METODOLOGIA

    Por meio de um levantamento na literatura, de abordagem qualitativa e exploratória-descritiva, buscamos mapear o fenômeno da desinformação de gênero, sob a ótica da Ciência da Informação. A busca foi realizada nas bases Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI), Scientific Electronic Library Online, Brasil (SciELO Brasil) e Portal Brasileiro de Publicações e Dados Científicos em Acesso Aberto (Oasisbr), selecionadas por sua relevância para a recuperação da produção científica brasileira e em língua portuguesa, bem como por sua aderência à área da Ciência da Informação e a temas interdisciplinares. A escolha dessas bases possibilitou mapear artigos, teses e dissertações que abordam a desinformação de gênero sob diferentes perspectivas.

    O marco temporal selecionado é referente aos últimos 5 anos (isto é, de 2020 a 2025), para entender as tendências de pesquisa mais atuais. Para o processo de busca foram delimitados os termos “desinformação de gênero” e a combinação de “desinformação” e “gênero” utilizando operadores booleanos. Foram consideradas apenas as publicações da área de Ciência da Informação.

    Na (BRAPCI), com o primeiro termo (“desinformação”) encontramos 100 resultados e na combinação de termos (“desinformação” AND “gênero”) 10 resultados; dentre eles, alguns tratam diretamente a desinformação de gênero, enquanto o restante traz perspectivas da desinformação que perpassam ou não o assunto “gênero”, mas sem abordá-lo diretamente, conforme demonstra o Quadro 1.


    Quadro 1 - Publicações recuperadas na BRAPCI


    Nº

    Ano

    Tipo de Publicação

    Título da Publicação

    Autoria

    Palavras-chave

    1

    2022

    Artigo em Anais de Evento

    Desinformação de gênero: práticas informacionais que contribuem ao seu combate

    Nicole Tirello Acquolini.

    UFRGS.

    Rodrigo Silva Caxias de Sousa. UFRGS

    Desinformação de gênero; Práticas informacionais; Violência contra mulheres

    2

    2023

    Artigo em Anais de Evento

    Tendências de pesquisas em desinformação de gênero na Web of Science e Scopus

    Anna Raquel de Lemos Viana.

    UFPE. Paulo Ricardo Silva Lima. UFPE. Anderson Matheus Alves Arruda. UFPE. Májory Karoline Fernandes de Oliveira Miranda. UFPE.

    Desinformação Gênero; Gênero; Discurso de ódio.

    3

    2024

    Artigo em Anais de Evento

    Não tolerarei!: desinformação e limítrofes informacionais impostos a parlamentares transexuais brasileiras

    Maria Cleide Rodrigues Bernardino. UFCA. Denise Braga Sampaio. UFBA.

    Desinformação; transfobia; parlamentares transexuais brasileiras.

    4

    2022

    Artigo em Revista

    LGBTI+fobia virtual: notas sobre uma etnografia em comunidades virtuais no Facebook.

    Adriano da Silva. Fiocruz. Kathie Njaine. Fiocruz. Queiti Batista Moreira Oliveira. Fiocruz.

    Homofobia; Minorias sexuais e de gênero; Violência; Discriminação social; Redes sociais on-line.

    5

    2023

    Livro com artigo sobre gênero: “A exclusão e inclusão digital sob as perspectiva s da

    Perspectivas Críticas da Tecnologia Digital da Informação e Comunicação

    Cristian Berrío-Zapata. UFPA. Ester Ferreira da Silva.

    Universidad Carlos III de Madrid. Franciele Marques Redigolo.

    Tecnologias da informação e da comunicação (tic); Sustentabilidade

    ; Conhecimento.




    Ciência da Informação: o lugar das mulheres”


    UNESP. Marise Teles Condurú. UFPA. (Editores)


    6

    2022

    Artigo em Revista

    Mídias sociais e desinformação: a pandemia de covid-19 no contexto brasileiro

    Carina de Freitas Torquato. UFC. Jefferson Veras Nunes. UFC.

    Desinformação; Pandemia COVID-19;

    Veículos de Comunicação; Mídias Sociais; Agências de Checagem de Fatos.

    7

    2021

    Artigo em Revista

    Desinformação e comportamento informacional nas mídias sociais: a divulgação científica na prevenção ao novo coronavírus

    Maurício de Vargas Corrêa. UFRGS. Sônia Elisa Caregnato. UFRGS.

    Desinformação; Comportamento informacional; Divulgação científica; Mídias sociais.

    8

    2021

    Artigo em Revista

    Perfil do profissional da informação nos arquivos públicos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina

    Rafael Oda. UFSC. Miriam Vieira da Cunha. UFSC.

    Mercado de trabalho; perfil profissional; arquivos públicos.

    9

    2024

    Artigo em Revista

    Abordagens políticas nos estudos de práticas informacionais: aproximações com os ods da agenda 2030

    Júlia Schettino Jacob dos Santos. UFES. Marta Leandro da Mata. UFES.

    Práticas informacionais; política; Objetivos de Desenvolviment o Sustentável.

    10

    2025

    Artigo em Revista

    O desafio das tecnologias da informação e comunicação no trabalho dos agentes comunitários de saúde e agentes de combate às

    Luiz Filipe Barcelos Macêdo. UNB. Natália Fernandes de Andrade. UNB. Luana Dias da Costa. UNB. Maria Fátima de

    Agentes comunitários de saúde; Agentes de combate às endemias; Tecnologias da informação e comunicação; Atenção primária





    endemias no Brasil

    Sousa. UNB.

    à saúde; Comunicação em saúde.

    Fonte: Elaborado pelas autoras, 2025


    É possível verificar que nem todos os artigos recuperados tratam de desinformação de gênero, ou alguma relação entre desinformação e gênero. Os artigos 1 e 2 abordam diretamente o tema de desinformação de gênero, trazendo perspectivas da Ciência da Informação. Os artigos 3, 4, 5 e 6 trazem o tema da desinformação atrelado a outros temas que podem perpassar o assunto “gênero”, como as comunidades LGBTQIAPN+, por exemplo. Já os artigos 7, 8, 9 e 10 apresentam o gênero em outras aplicações, como no mapeamento de perfil (gênero: homem, mulher ou outros).

    Na Scielo Brasil, buscamos por título e resumo, utilizando os marcadores: (desinformação) AND (gênero). Não obtivemos resultados considerando somente as publicações de Ciência da Informação. Na base de dados OASISbr, encontramos 4 resultados ao pesquisar pelos termos de busca: (Título:desinformação E Título:gênero), conforme demonstra o Quadro 2.


    Quadro 2 - Publicações recuperadas na OASIS


    Nº

    Ano

    Tipo de Publicação

    Título da Publicação

    Autoria

    Palavras-chave

    1

    2023

    Capítulo de livro

    Práticas informacionais no Instagram: investigando desinformação de gênero

    Nicole Tirello Acquolini.

    UFRGS.

    -

    2

    2023

    Dissertação

    Práticas

    Nicole Tirello

    Desinformaçã





    informacionais em perfil feminista do Instagram: entre letramentos e desinformação de gênero

    Acquolini. UFRGS.

    o; Práticas informacionais

    ; Violência de gênero

    3

    2025

    Tese de Doutorado

    Memória e afetos como resistência à desinformação de gênero: um estudo do período eleitoral brasileiro em 2022

    Anna Raquel de Lemos Viana. UFPE.

    Desinformaçã o de gênero; Memória; Afetos; Período Eleitoral; X/Twitter.

    4

    2023

    Artigo em Revista

    Pós-realidade e teoria da

    Simone Dias Marques.

    UFRGS. Rita do Carmo Ferreira Laipelt.

    UFRGS.

    Inteligência Artificial; ChatGPT; Competência Crítica em Informação; Comportament o informacional; Desinformaçã o;




    desinformação:




    inquietações




    sobre o uso




    massivo de IA




    Generativa

    Fonte: Elaborado pelas autoras, 2025


    As publicações 1, 2 e 3 (Quadro 2) abordam diretamente sobre desinformação de gênero, e elaboram práticas informacionais para seu enfrentamento. A publicação 4 não trata diretamente sobre desinformação de gênero, e provavelmente foi recuperada pela raiz semelhante das palavras “gênero” e “generativa”.

    A seguir tem-se a análise e discussão dos dados encontrados, cabendo destacar que o levantamento realizado não compreendeu uma busca exaustiva da literatura, tampouco a leitura na íntegra das publicações que abordam a temática do presente texto.


  6. ANÁLISE E DISCUSSÃO

    No total, foram identificadas 14 publicações no levantamento realizado nas bases BRAPCI, SciELO e Oasisbr, considerando o recorte temporal de 2020 a 2025. Dentre essas, 9 publicações abordam diretamente ou estabelecem articulações analíticas entre os temas da desinformação e do gênero, enquanto as demais utilizam o termo “gênero” com outras finalidades, como variável descritiva ou categorização de perfis profissionais. Esse resultado evidencia dificuldades recorrentes na recuperação precisa da literatura sobre desinformação de gênero, bem como a ainda limitada consolidação do tema no âmbito da Ciência da Informação brasileira.

    Os dados obtidos dialogam diretamente com os achados de Viana et al. (2021), que, ao analisarem a produção científica internacional nas bases Web of Science e Scopus, identificaram um crescimento significativo das pesquisas sobre desinformação de gênero a partir de 2020. Em contraste, os resultados deste estudo indicam que, no contexto brasileiro da Ciência da Informação, a temática ainda se apresenta de forma incipiente e concentrada em poucos trabalhos, sobretudo em anais de eventos científicos e em produções acadêmicas vinculadas à pós-graduação. Essa discrepância revela uma lacuna entre a consolidação internacional do debate e sua institucionalização no campo nacional da Ciência da Informação.

    Conforme apresentado no Quadro 1, a BRAPCI recuperou apenas duas publicações que tratam diretamente da desinformação de gênero a partir de perspectivas da Ciência da Informação. Outros trabalhos abordam a desinformação associada a temáticas que tangenciam questões de gênero, como violência contra populações LGBTQIAPN+ e práticas informacionais em ambientes digitais, mas


    sem centralizar a categoria gênero como eixo analítico. Tal fragmentação corrobora a análise de Viana et al. (2021), segundo a qual os estudos sobre desinformação de gênero tendem a se concentrar em contextos específicos, como redes sociais, discursos de ódio e disputas políticas, sem que o fenômeno seja amplamente explorado de forma sistemática no campo informacional.

    Na base SciELO Brasil, não foram identificadas publicações da área da Ciência da Informação que articulassem diretamente os termos “desinformação” e “gênero”, o que reforça a baixa presença do tema nos periódicos científicos consolidados da área. Já na base OASISbr, conforme demonstrado no Quadro 2, foram recuperadas produções que abordam diretamente a desinformação de gênero, incluindo dissertações e teses de doutorado. Esse achado indica que o tema tem encontrado maior espaço em pesquisas acadêmicas em nível de pós-graduação, ainda que sua circulação em periódicos da área permaneça restrita.

    Do ponto de vista teórico, os resultados reforçam a compreensão da desinformação de gênero como um fenômeno informacional complexo, que envolve práticas sociais, mediações tecnológicas e regimes de visibilidade marcados por relações de poder. Conforme discutido por Viana et al. (2021), a desinformação de gênero não se limita à circulação de conteúdos falsos, mas opera como estratégia de deslegitimação simbólica, frequentemente associada ao discurso de ódio, à violência política e à exclusão de grupos historicamente marginalizados. “Isso reforça que objetivo da desinformação de gênero é o ataque à identidade, fazendo muitas vezes como alvo identidades interseccionadas, resultado do exercício da liberdade de expressão e a democracia enfraquecida”, como argumentam Silva e Alves (2023, p. 134). As publicações


    identificadas neste estudo evidenciam essa dinâmica ao associarem a desinformação de gênero a contextos como redes sociais digitais, ambientes eleitorais e plataformas de interação online.

    Nesse sentido, a análise dos dados evidencia que a Ciência da Informação brasileira começa a abrir espaço para o debate sobre desinformação de gênero, porém de forma ainda tímida e fragmentada. A predominância de estudos exploratórios e a concentração temática em poucos autores e instituições indicam a necessidade de ampliação e aprofundamento das pesquisas sobre o tema. Além disso, os resultados apontam para o potencial de abordagens interdisciplinares, especialmente com os campos da Comunicação, dos Estudos de Gênero e do Direito, sem perder de vista as contribuições específicas da Ciência da Informação, como a análise das práticas informacionais, da mediação da informação e da competência crítica em informação.

    Por fim, ao articular os dados empíricos deste levantamento com a literatura internacional mapeada por Viana et al. (2021), evidencia-se que a desinformação de gênero constitui um objeto de pesquisa atual, relevante e ainda pouco explorado no campo da Ciência da Informação brasileira. Tal cenário indica um campo fértil para investigações futuras que aprofundem a compreensão do fenômeno e contribuam para a formulação de estratégias informacionais de enfrentamento à desinformação de gênero facilitada pela tecnologia.

  7. CONSIDERAÇÕES FINAIS


Este estudo teve como objetivo refletir sobre a presença e o tratamento da desinformação de gênero no campo da Ciência da


Informação brasileira, a partir de um levantamento na literatura recente. Os resultados permitem afirmar que, embora o tema venha gradualmente sendo incorporado ao debate acadêmico, sua abordagem ainda ocorre de maneira incipiente e fragmentada, sem uma consolidação teórica ou metodológica mais ampla no campo.

A desinformação de gênero mostrou-se um fenômeno complexo, que extrapola a noção de informação falsa ou enganosa, articulando-se a práticas simbólicas de violência, exclusão e silenciamento, especialmente em ambientes digitais. Nesse sentido, compreendê-la implica reconhecer suas conexões com estruturas históricas de desigualdade de gênero, bem como com as dinâmicas sociotécnicas que potencializam sua disseminação e seus impactos na participação pública de mulheres e grupos marginalizados.

Do ponto de vista da Ciência da Informação, o estudo reforça o potencial do campo para contribuir criticamente com esse debate, sobretudo a partir da análise das práticas informacionais, dos processos de mediação da informação e do fortalecimento da competência crítica em informação. Essas dimensões se mostram fundamentais para pensar estratégias de enfrentamento à desinformação de gênero que não se limitem a soluções técnicas, mas que considerem também seus aspectos éticos, políticos e sociais.

Como perspectivas para investigações futuras, sugerem-se estudos que explorem: as práticas informacionais e estratégias de resistência adotadas por mulheres e grupos minorizados frente à desinformação de gênero; o papel de bibliotecas, arquivos e outras unidades de informação no enfrentamento da desinformação de gênero, especialmente por meio de ações educativas e de competência crítica em informação; análises empíricas sobre a


circulação da desinformação de gênero em plataformas digitais e seus impactos na participação política e social; e abordagens interseccionais que considerem raça, classe, sexualidade e territorialidade na compreensão do fenômeno. Tais investigações podem contribuir para o amadurecimento teórico do tema e para o desenvolvimento de estratégias informacionais mais eficazes e socialmente comprometidas.

Por fim, destaca-se que este trabalho não pretende esgotar o tema, mas sim evidenciar sua relevância e apontar lacunas existentes na produção científica nacional, no escopo analisado. Espera-se que os achados aqui discutidos incentivem novas pesquisas que aprofundem o debate, ampliem o diálogo interdisciplinar e contribuam para o fortalecimento da Ciência da Informação enquanto campo comprometido com a justiça social e equidade de gênero.

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