Chamada aberta para volume 46: Entre a representação e a fabulação de outros mundos: maternidades na literatura contemporânea
Chamada aberta para volume 46: Entre a representação e a fabulação de outros mundos: maternidades na literatura contemporânea
Organizadoras: Lúcia Osana Zolin, da Universidade Estadual de Maringá (UEM); Vânia Maria Ferreira Vasconcelos, da Universidade Estadual do Ceará (UECE); e Profa. Dra. Jocelaine Oliveira dos Santos, do Instituto Federal de Sergipe (IFS)
Ementa: Se a literatura ficciona para dizer alguma verdade sobre o humano, ao representar e problematizar o contexto em que emerge, o que autoras, sobretudo as contemporâneas, têm a dizer sobre corpos que maternam? Partindo dessa pergunta ampla e central, e considerando a enorme extensão de sua reposta, convidamos para compor esse dossiê trabalhos de pesquisa que articulem inquietações, debates e análises em torno da literatura e da escritura de outras maternidades, principalmente as que questionam e ironizam a representação das imagens e relações maternas edificadas sobre as bases do patriarcado. Também aguardamos trabalhos de pesquisa que levem em consideração a representação do corpo que gesta ou da pessoa que executa a função materna, marcada por uma sociedade misógina e insistente sobre os papéis de gênero, e como estes corpos podem insurgir frente a um sistema de códigos, regras e scripts historicamente sedimentados no imaginário social. Enquanto tecnologia de gênero e de opressão das experiências de mulheres (Lauretis, 1994), sabemos que o discurso maternalista (Iaconelli, 2023) se espraia pelos objetos culturais, pelas práticas de vida e pelas formas de experienciar o mundo. O discurso sobre ser ou não mãe, sobre o que é uma mãe, ou sobre como deveria ser uma mãe, é uma experiência para todas as pessoas com útero, queiram ou não queiram, apontando para uma pedagogia dos afetos que nos coloniza pela eficácia dos seus dispositivos, sendo a maternidade, ao lado do casamento, do trabalho doméstico e do cuidado compulsórios, instrumentos por excelência rumo a essa empreitada (Zanello, 2018). Por isso, seguimos convivendo com a idealização da figura materna e seu mito do amor incondicional, intrinsecamente ligado a interesses sociais, econômicos e religiosos. Ao mesmo tempo, vemos despontar ou vir à tona uma literatura, sobretudo a produzida por mulheres do Sul Global, que enseja fabular outros mundos a partir do questionamento e da complexificação destes lugares. Se considerarmos desde os processos de representação da mãe Jocasta e seu filho Édipo, mitos fundadores explicativos de arranjos sociais e processos de subjetivação, por exemplo, e que servem como esteios fundamentais para pensarmos as literaturas ocidentais, veremos toda uma miríade de mães e filhos escritos ao longo dos séculos. Hoje, porém, inúmeras dessas representações no campo literário suspendem ideais hegemônicos-patriarcais de maternidade circulantes, sobretudo pela insistente tomada da voz e da escrita por mulheres na contemporaneidade que escrevem, mas que ainda seguem encontrando obstáculos para terem seus textos circulando e publicados na sociedade. Como a literatura é também um campo de produção cultural de sentidos que transcende o estético, se imiscuindo, anunciando e alargando as possibilidades de mundo enquanto processo de interpelação discursiva, este dossiê se interessa em pensar como os papeis sociais atribuídos às mulheres nas relações mães/filhos/as apontam hoje para maternidades polifônicas e que rompem com a histórica dicotomia “natural-biológico”, indo para além dos modelos socialmente hegemônicos da boa-mãe, oposta à “mãe desnaturada”, ou seja a que vai de encontro a sua natureza. Esta temática nos motiva a pensar: pode a Literatura, sobretudo a Contemporânea, questionar o lugar social de boa mãe (Badinter, 2021) e tensionar o discurso maternalista para assim operar a possibilidade de outros gestos de interpretação sobre o tema? Por meio de investigações plurais, interessa-nos, portanto, dialogar a partir dos inúmeros avanços dos feminismos, da crítica literária feminista e dos estudos literários, e debater o tema das maternidades num movimento triplamente estruturado de resgate, reinterpretação e revalorização das diferenças que apontem a uma necessária revisão crítica do patriarcado e suas distorções face ao tema das maternidades. Como é na instrumentalização do útero pela via da maternidade e pela sedimentação de regimes de desejo que se operam a manutenção do poder e a montagem de um dos mais fortes mecanismos de subjetivação feminina, com úteros transformados em territórios políticos, sendo a procriação colocada diretamente a serviço da acumulação capitalista (Federici, 2017), acreditamos que literatura pode fraturar imaginários e apontar para outros mundos. Se a queda do “anjo do lar”, descrito por Virgínia Woolf (2014) em Um teto todo seu e sua imputação da maternidade enquanto destino é uma realidade no tecido social para muitas, mesmo que seja preciso observar seus funcionamentos pela vida da interseccionalidade e da diferença, acreditamos que a literatura pode fazer circular o discurso de múltiplas maternidades e funcionaria como transgressora à norma estabelecida, inclusive pelas rupturas narrativas, outras escrituras, representações que complexifiquem e instaurem a possibilidade de fabulações contra-hegemônicas.
Só serão avaliados textos cadastrados em nossa plataforma:
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Obs: O/a autor/a precisa fazer o cadastro no site da revista e, logo após, submeter o texto para ser avaliado seguindo as normas da revista. Essa primeira versão não tem identificação. Apenas após o aceite é que o/a autor/a deverá colocar seus dados.
Cronograma:
Prazo para recebimento dos artigos: até 30/04/2026
Avaliação dos textos entre abril e junho de 2026
Previsão de publicação: setembro de 2026.
Referências Bibliográficas:
BADINTER, Elisabeth. O conflito: a mulher e a mãe. Tradução de Vera Lúcia dos Reis. Rio de Janeiro: Record, 2011.
FEDERICI, Silvia. O Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
IACONELLI, Vera. Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e políticas da reprodução. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
LAURETIS, Teresa de. Tecnologia de Gênero. In HOLLANDA, Heloisa Buarque. Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, 440 p.
ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.















