A “ESCRITA FEMININA” COMO CRÍTICA DA SUBJETIVIDADE
Resumo
Este trabalho tem por tema a noção geral de “escrita feminina” [“écriture féminine”], comumente vinculada aos trabalhos de Hélène Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva, importantes autoras representantes da crítica feminista francesa dos anos 70. Pretende-se investigar essa noção de maneira muito breve e aprofundá-la apenas do ponto de vista em que ela se propõe como busca de uma nova expressão da subjetividade – humana, em geral, e feminina, em particular – ponto de vista este pelo qual ela também se mostra como recusa de toda linguagem estruturada conforme padrões teóricos e filosóficos do patriarcalismo, que impõe o modelo masculino sob a aparência de neutralidade. Inscrita num feminismo que se apoia no conceito de “diferença sexual” [“différence sexuelle”] como estratégia de recusa das determinações androcêntricas da feminilidade, a noção de “escrita feminina” é criticada como uma teoria essencialista, isto é, como um pensamento que “hipostasia uma essência da feminilidade que é cega à diversidade dos sujeitos femininos enquanto moldados por influências históricas e culturais heterogêneas”, conforme afirma, de modo exemplar, a pensadora feminista Rita Felsky, em seu livro Beyond Feminist Aesthetics, p. 60. Depois de apresentar, sumariamente, a contribuição conceitual de cada uma dessas pensadoras à noção da “escrita feminina”– o que não chega a configurar-se como um “projeto”, propriamente dito –, e de tentar fixar alguns traços comuns que aproximam suas respectivas empreitadas, é meu intuito tentar esclarecer o tipo de dificuldade conceitual que a elaboração da noção de “escrita feminina” enfrenta quando se dirige ao sistema discursivo de representação dominante na época do chamado feminismo da “segunda onda”.
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