(Des)caminhos na jornada de afirmação de gênero
itinerários trans em tempos de COVID19
Resumo
A habitação existencial em um território produz e é alvo de saberes que por ele circulam. Nesse sentido, é inevitável que, estando imerso em determinado espaço, este logo se torne território, dada a sua riqueza e multiplicidade de significantes e transeuntes, que por sua vez, representam diversas possibilidades de sentido, práticas e lógicas que sustentam aquele. É a partir desse pressuposto que propomos discutir fragmentos de itinerários trans em tempos de COVID19, seja nos equipamentos públicos de saúde ou fora dele. De sorte que, abordaremos um pouco sobre essas vivências a partir de itinerários dentro do que se convencionou chamar “Processo Transexualizador”, parte de uma política pública de saúde presente no Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse sentido, nos apoiamos na proposta metodológica do diário de pesquisa na perspectiva do Barbosa e Hess que se assenta na ideia de uma autoria cidadã no sentido de que os escritos não são meras descrições da realidade experienciada mas são elaborações do sujeito frente às dinâmicas que estão diante de si, sob o contorno de "Uma aprendizagem implicada, uma forma de ser e de se expressar com sentido e significado”, que no presente estudo, traz a possibilidade de evidenciar e valorizar descrições da realidade de quem nunca pôde ser ouvido e de quem sempre teve seu discurso modelado pelo outro. Ou dito de outra forma, aqui temos descrições e narrativas acerca do processo de afirmação de gênero em serviços de saúde especializados a partir da experiência do pesquisador que também é usuário, e como tal circula por entre as recepções, corredores, salas de atendimento médico, reuniões, etc. Ademais, também está fundamentado na perspectiva de Spink do pesquisador conversador, que desloca a posição deste e o compreende como mais um membro de determinada comunidade, que experiencia o cotidiano assim como as demais pessoas circundantes e que dela pode falar, pois tudo o que temos são pequenas sequências de eventos que formam nossa realidade, e que assim, para além de fazermos parte, podemos arguir sobre elas no intuito de criar novas. Diante do exposto, fica nítido que se tratando das corporalidades trans há uma disputa de narrativa e controle sobre esses corpos, (im)possibilitando sua existência no mundo social.

