Violência estrutural contra crianças e adolescentes trans e travestis no Brasil

uma análise interseccional à luz da proteção integral

Autores

Palavras-chave:

direitos humanos; proteção integral; transfobia; transsexuais e travestis; violência institucional.

Resumo

A violência estrutural contra crianças e adolescentes trans e travestis no Brasil configura um fenômeno persistente, multifacetado e agravado por diversas formas de opressão institucionalizadas. Tal violência, enraizada em estruturas sociais cisnormativas, manifesta-se desde os primeiros anos de vida e é frequentemente legitimada por instituições públicas que deveriam garantir proteção. A partir da teoria da interseccionalidade, compreende-se que as experiências desses sujeitos são marcadas por múltiplas camadas de discriminação, como as de gênero e etária. A dupla marginalização, decorrente da identidade de gênero dissidente e da faixa etária, expõe essas infâncias a violências institucionais. O presente estudo tem como objetivo geral analisar as formas de violência estrutural que impactam crianças e adolescentes trans e travestis no Brasil, com ênfase na efetivação da Doutrina da Proteção Integral e na promoção de políticas públicas inclusivas. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza teórica, com fins descritivo-explicativos, e utiliza como procedimento técnico a pesquisa bibliográfica. Justifica-se pela urgência de enfrentar a transfobia estrutural, frequentemente naturalizada ou silenciada pela sociedade, bem como pela necessidade de aproximar os marcos normativos da realidade vivenciada por essas infâncias. Embora a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), garantam a proteção integral, constata-se um distanciamento entre esses direitos formais e a concretude da experiência cotidiana de crianças e adolescentes trans e travestis no país.

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Biografia do Autor

Ariel Sousa Santos, Universidade Federal de Sergipe - UFS

Mestrando em Direito pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), com bolsa acadêmica concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Graduado em Direito pela Universidade Tiradentes (UNIT). Integrante do grupo de pesquisa "O Protagonismo Humano enquanto Direito Fundamental: Reflexos Sociais e Empresariais" (UFS/CNPq) e do Grupo de Pesquisa em Direito Público, Educação Jurídica e Direitos Humanos (GPEJDH/UNIT/CNPq). Lattes: http://lattes.cnpq.br/9254669061443267. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4746-995X. E-mail: arielss187@gmail.com.

Tanise Zago Thomasi, Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Possui graduação em Direito pela Universidade Católica de Pelotas (1999), mestrado em Direito pela Universidade de Caxias do Sul (2009) e doutorado em Direito pelo Centro Universitário de Brasília (2017). Professora na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Examinadora do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Líder do grupo de pesquisa O Protagonismo humano enquanto direito fundamental: reflexos sociais e empresariais, vinculado a Universidade Federal de Sergipe. Professora adjunta na mesma universidade atuando na graduação e pós graduação stricto sensu. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito à saúde, principalmente nos seguintes temas: biodireito, direito sanitário, bem como direito privado. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9705680678486491. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1691-3475. E-mail: tanisethomasi@gmail.com.

Emerson Erivan de Araújo Ramos, Universidade Federal do Tocantins (UFT, campus Arraias)

Graduação em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba (2012). Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídica da Universidade Federal da Paraíba (PPGCJ/UFPB) (2014). Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba (PPGS/UFPB, 2020). Pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGD/UFMG, 2023-2024). Professor Adjunto de Sociologia Jurídica, Direito Penal e Criminologia da Universidade Federal do Tocantins (UFT, câmpus Arraias). Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Tocantins (PPGCIAMB/UFT). Coordenador do Curso de Direito da Universidade Federal do Tocantins (UFT, Câmpus Arraias) (2024- ). Coordenador do Centro de Documentação e Memória de Arraias e Região (CDMAR/UFT). Líder do Grupo de Pesquisa Desvio e Controle Social (GEDECON). Diretor do curta-metragem "Sobre Corpos". Pesquisa especialmente nas seguintes áreas: Estudos de Gênero e Sexualidade, Direito Antidiscriminatório, Criminologia e Direito Penal. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5860077180400462. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6021-6346. E-mail: eearamos@gmail.com.

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Publicado

2025-12-17

Como Citar

SOUSA SANTOS, Ariel; ZAGO THOMASI, Tanise; DE ARAÚJO RAMOS, Emerson Erivan. Violência estrutural contra crianças e adolescentes trans e travestis no Brasil: uma análise interseccional à luz da proteção integral. diké, [S. l.], v. 12, n. 1, p. 102–117, 2025. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/dike/article/view/23131. Acesso em: 12 abr. 2026.