“Ninguém que ser estuprada mas, é o que acontece com a gente”

Por leituras Interseccionais das possibilidade de proteção e cuidado de mulheres

Autores

Palavras-chave:

violência de gênero, interssecionalidade, proteção social, sentipensante, violência doméstica, violência de estado

Resumo

Este artigo analisa a desigualdade social no Brasil, indo além de abordagens economicistas e destacando suas dinâmicas territoriais, etárias e de gênero. Nosso objetivo é refletir sobre como a desigualdade se manifesta de forma interseccional, tomando como ponto de partida a trajetória de Mariana, uma mulher branca, mãe solo, moradora da periferia da Baixada Santista, que vivenciou inúmeras expressões da violência (de Estado, sexual, doméstica, além da revitimização institucional). A pesquisa adotou uma metodologia sentipensante, que entende a construção de conhecimento a partir da processualidade e como ato vivo e contínuo de produção de vida, co-construindo saberes a partir do encontro e da escuta ética, afastando-se de lógicas formais e da objetificação dual (pesquisadora-pesquisada). Foi no encontro com Mariana, a partir de acompanhamento psicojurídico, em que revelou-se as repercussões psicossociais da violência e a insuficiência das políticas de proteção social, que muitas vezes revitimizam as mulheres e focalizam o autor da violência. A análise buscou aprofundar como a violência institucional e a violência doméstica se imbricam, tornando as mulheres corpos-alvo de uma “guerra”, e expõe a produção social da culpabilização da vítima. As considerações finais reforçam que a luta por justiça social exige desmantelar as estruturas patriarcais e coloniais que perpetuam a desigualdade, promovendo a autonomia e a vida plena das mulheres.

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Biografia do Autor

Bianca Calcopietro Duarte, Universidade Católica de Santos - UNISANTOS

Graduanda em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Integrante do Núcleo de Pesquisa Nubalaio – Núcleo de Estudos em Psicologia, Violência, Processos Psicossociais e Interseccionalidade. Bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq, desenvolvendo pesquisa sobre violência doméstica contra as mulheres, com foco nas tensões entre a criminalização e os dispositivos de proteção. Atua em projetos de extensão e pesquisa voltados à análise crítica das políticas públicas e das redes de acolhimento a mulheres em situação de violência, com ênfase na abordagem psicossocial e interseccional.

Beatriz Borges Brambilla, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e Universidade Católica de Santos (UNISANTOS)

Psicóloga (CRP-06/98.368). Doutora em Psicologia Social (PUC/SP), com Pós-Doutorado em Mulheres, Gênero e Feminismo (NEIM/UFBA). Mestra em Psicologia da Saúde (UMESP). Professora da Graduação em Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora da Graduação em Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Desenvolvimento e Políticas Públicas da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). Tutora do Programa de Educação Tutorial (PET/Psicologia), sendo bolsista do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, no âmbito do Ministério da Educação (FNDE/MEC). Professora Colaboradora do Ministério da Justiça e Segurança Pública, no Curso Nacional de Atendimento à Mulher em Situação de Violência. Líder do Grupo de Pesquisa NuBalaio - Psicologia Social e Violência. Atuando na gestão, assessoria e supervisão de diferentes projetos e organizações sociais com destaque às políticas de Assistência Social, Segurança Pública, Justiça e Direitos Humanos, desenvolvendo pesquisa e assistência com mulheres, crianças, adolescentes, famílias, pessoas LGBTQIAPN+ e comunidades em situação de violência. 

Yasmim Rocha de Souza, Universidade Católica de Santos - UNISANTOS

Graduanda em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Desenvolve pesquisa de Iniciação Científica com foco nos processos intersetoriais no atendimento a vítimas de violência. Participa de projetos de extensão voltados ao acompanhamento de famílias sobreviventes da violência policial, atuando na promoção de cuidado psicossocial, fortalecimento comunitário e defesa dos direitos humanos. Integra ações de ensino, pesquisa e extensão, com interesse nas temáticas de violência, políticas públicas e justiça social.

Ronnie Gonzalez Costa Santos, Universidade Católica de Santos - UNISANTOS

Graduando em Psicologia pela Universidade Católica de Santos. Atua nas áreas de Psicologia Clínica, com ênfase em Psicanálise, e desenvolve estudos voltados aos Direitos Humanos, sexualidade e questões de gênero, raça e etnia. Tem interesse nas interfaces entre Psicologia e Políticas Públicas, especialmente nos campos da Saúde Pública, Educação e Desenvolvimento Humano. Também se dedica a temas como violência, avaliação psicológica, métodos projetivos, e Psicologia das Emergências e Desastres, articulando aspectos teóricos e práticos da formação em Psicologia. 

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Publicado

2026-04-03

Como Citar

CALCOPIETRO DUARTE, Bianca; BORGES BRAMBILLA, Beatriz; ROCHA DE SOUZA, Yasmim; GONZALEZ COSTA SANTOS, Ronnie. “Ninguém que ser estuprada mas, é o que acontece com a gente”: Por leituras Interseccionais das possibilidade de proteção e cuidado de mulheres. diké, [S. l.], v. 13, n. 1, p. 141–163, 2026. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/dike/article/view/23138. Acesso em: 19 abr. 2026.